Rafaela – sucesso sempre



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Nisso alguns carros paravam na outra pista e outros com medo passavam direto. Ficaram nos olhando. Não foram tiros fatais, mas eles teriam que ser operados com urgência. Mesmo não sendo tiros fatais, ela fez um estrago enorme no corpo deles.

Indiferente a eles e a tudo, Sameeha pegou as armas dos quatro e colocou perto do carro, junto com a que usou. Pegou um pouco do sangue daquele que queria a sua bolsa, apertando bem o ferimento para sair bastante sangue e ele gritou. Depois besuntou as armas com um pedaço da blusa que ela mesmo rasgou. Levou de volta as armas para perto dos bandidos. Não ficou uma impressão digital. Na verdade, eu não vi fazer isso, como também não presenciei o resto que fez com as armas, só soube depois quando me contou. O que eu realmente vi foi que veio até minha frente, enquanto examinava o que lhe apontou a arma e disse em árabe com ódio na voz: دودة تزحف! اطلاق النار على اى شخص ابدا! Disse-me que falara isso: (Verme que rasteja! Nunca mais vai atirar em ninguém!). Depois disso deu um apertão no saco dele que se encolheu todo de dor. Ameaçou dar um chute na cabeça dele e falei bravo com ela: Para com isso Virginia! Quer matar ele! Olhou com desprezo e disse: Se quisesse já estava morto. Ninguém me ameaça! Ninguém!

Não demorou em juntar gente e eu pedi que ela fosse para dentro do carro. Ela obedeceu, mas vi que a porta nem fechava direito. O assaltante provavelmente deve ter quebrado algumas costelas. Ela fechou o vidro e dessa maneira não dava para se ver quem estava no banco do carona. Ela nem parecia à moça calma que aprendi a admirar. Quando a policia e o SAMU chegaram eu já tinha prestado os primeiro socorros e fizeram a remoção dos quatro. Tive que usar de muita perspicácia para nos livramos de alguma coisa. Mas deixei claro que como médico tinha o dever de socorrê-los.

Recolheram as armas e a colocaram num saco plástico. O tenente que atendeu a ocorrência fez este comentário falando comigo: Esse lugar é muito perigoso à noite Doutor. Certamente que eles iam assaltar o senhor ou alguém. Os quatro são procurados faz tempo e quem atirou neles não queria ou não quis mata-los. Só ferir com gravidade para imobiliza-los. Um deles ficou com a mão inutilizada para sempre. O senhor deve ter notado. Estranho não. Deve se tratar de alguém com amplo domínio de armas. Um deles falou algo sobre uma mulher do seu carro ter atirado nele. Não acreditei, mas posso vê-la.

Ele viu a porta do lado dela amassada, mas não fez qualquer comentário. Deve ter imaginado que foi um caso antigo.

Sameeha fingia dormir com a bolsa no colo e virada de lado. Se o policial visse em que estado ficou sua calça e a blusa que resgara. Bom. Ela arregalou os olhos quando a porta foi aberta e fingiu olhar assustada: Prenderam eles Marcus? Quero ir embora. Estou com medo! Vamos embora! Vamos embora! Os tiros...

O tenente ignorando a verdade disse-lhe que estavam todos presos e que podia ficar sossegada.

Quando voltei para dentro do carro, passava da meia noite e ela dormia tranquilamente, como se nada houvesse acontecido. Despertou somente quando chegamos ao prédio. Entramos em silencio devido o horário, mas no apartamento soltei o verbo: Você é louca ou é o que? Poderia ter morrido, ou eu poderia estar morto agora. Não falei para ficar quieta; saco!? Tenho vontade de te bater, mas não posso com você!

Ela não respondia nada. Só me olhava séria e com atenção. Eu continuei. Sabe o que vai acontecer agora hein!? Se a policia resolver examinar as balas, vai descobrir de que arma ela saiu. Você vai ficar numa enrascada e eu também. Você não podia ter reagido! Será que não me entende! Já não basta a preocupação que tenho com as pessoas que querem teu mal e você apronta isso Sameeha!

Sentei no sofá e ela saiu para a área da lavanderia e quando voltou, se aproximou devagar. Antes que eu reagisse ela sentou ajoelhada ao meu lado no sofá. Soltou as alças do sutiã e tirou a blusa. Depois deitou no meu colo de bruços com a costa nua. Havia pego um tamanco de madeira que eu trouxe da Holanda e disse: Usa este e bate nas minhas costas quanto quiser. Não sou boa escrava. Escrava obedece sempre. Não vou reagir, nem gritar. Prometo.

Eu estava com muita raiva e peguei o tamanco da mão dela e levantei, mas me veio à mente seus ferimentos, a guerra na Síria, à violência contra as mulheres no mundo, às crianças e os velhos. Depois disso, minha saudosa mãe, que dizia: Não bata nos filhos. A vida vai bater! Converse com seus filhos, oriente-os e o mundo vai ser melhor para eles. Minha paciente era tudo, menos irresponsável.

Joguei o tamanco no chão e pedi que ela se vestisse. Colocou a blusa sem o sutiã e ajoelhou-se no chão falando em árabe. Foi ai Jorge que me dei conta de quanto eu gostava dela. Não sabia se era amor, mas algo diferente pairava entre nós. Ficamos nos olhando por algum tempo sem palavras. Dizem que o silencio fala mais que mil palavras e é verdade. Por fim quebrei o encanto dizendo: Você se tornou minha loucura sabia? Veio para ficar alguns dias e já não pode ir embora da minha vida. Preciso terminar meu trabalho com você e depois resolver outras coisas.

- Que coisas? Posso saber Nasir?

- Não. Não pode ainda. Não quero mais que use arma nenhuma. Não posso arriscar sua vida e a minha.

Ela me desarmou com o que disse em seguida.

- As balas que atirei não são originais e aquela arma não é a que me comprou. A Polícia vai pensar que houve briga entre bandidos. Levaram a arma que arrumei.

Tive que admitir sua esperteza, ou treino terrorista, ou sei lá o que, mas disse: Como? O que está dizendo? Você não pode fazer nada sem meu consentimento. Onde conseguiu?

- Trafico de armas na favela. Eu já conhecia. Vim da rua lembra e você me deixou sozinha quatro dias. Não podia arriscar.

- Isso acaba aqui Sameeha. É bom que saiba que o governo sírio te procura. Acham que morreu ou fugiu para cá. Não sabem mais quem é você, mas você deixou pistas no aeroporto de Guarulhos e no abrigo de refugiados e nem quero pensar no que aprontou no albergue. Sorte que você me encontrou e segundo as informações que tive, querem te matar, ou sequestrar você. Você não pode se expor como se expos hoje, ou sua nova fisionomia vira alvo fácil. Me de suas armas! Sei que tem mais!

Ela levantou, foi até seu quarto e voltou com um fuzil AR-15 e deu para mim. Jorge. Aquela maluca com um fuzil daquele. Coloquei de lado e fiquei olhando o modo como me olhava. Pensei. Ai tem coisa. Disse-lhe: Não pode ficar com o resto. Quero tudo.

Virou as costas e voltou com duas armas esquisitas e me deu. Perguntei que armas eram, e ela disse que eram pistolas com supressores de ruído. Deu um sorriso enigmático e disse em árabe: “القاتل لا يجعل الجندي صامتا، ولكنه يجعله غير مرئي” Fiquei só olhando e emendou “alqatil la yajeal aljundiu samitaan, walakunah yajealh ghyr maryiyin”. Quer parar com isso! Disse-lhe. Não sei sua língua sua besta. Fala algo que eu conheço. Ela riu do meu nervoso e disse: Você está muito bravo comigo. Não mereço. Salvei a tua vida e morreria por você. Nunca deixaria e nunca deixarei que algo de ruim aconteça com você, mesmo que não goste um pouquinho de mim. Devo-lhe a vida. Devo-lhe tudo que sou hoje. Eu disse isso: “Um supressor não faz o soldado silencioso, mas o torna invisível.”. Ditado militar finlandês. 

Eu ia responder algo de agrado para ela, mas me ocorreu que devia ter mais coisas, por isso disse-lhe: Devo-lhe a vida é? Você quase me mata do coração! Já não tenho idade para estas coisas e nem que tivesse! Não fui treinado como você foi, entenda isso! Não quero que se arrisque por ai, como já se arriscou por anos naqueles lugares, ou na Síria! Quero tudo o que conseguiu, ou vou virar teu quarto de pernas pro ar. Não brinque com meus sentimentos e o prazer da tua companhia. Entendeu!

Ela baixou a cabeça e saiu. Voltou com uma sacola de lona. Não me disse aonde arrumou. Dentro para minha surpresa, tinha uma peruca e um chapéu desses tais MC malucos que não cantam nada e... Droga. Dois revolveres, duas facas militares e quatro granadas. Fiquei apavorado com aquilo e ela nem ligou. Sentou no sofá de cabeça baixa, foi ai que me dei conta de que tinha razão. Queriam mata-la, tortura-la e ela nem podia contar com nossa policia. Todos a procuravam. Lembrei-me que ela devia ter-se machucado na escaramuça com os bandidos. Eu quis ver seu corpo antes de tomar uma providencia sobre aquela parafernália dos infernos que trouxe para o apartamento. Tirou a roupa sem a menor cerimonia e sem olhar para mim.

Sua simplicidade às vezes a torna um incômodo. Tinha alguns ferimentos pequenos nos braços e escoriações nas pernas. Perguntei se sentia alguma dor e fui apalpando seu corpo quase nu. A única coisa que fez foi rir, pois disse que lhe fazia cocegas. Mandei-a se vestir e quis saber mais das coisas que tinha trazido e de como comprou tudo aquilo. Sua resposta mais uma vez foi surpreendente. Disse-me: Não comprei nada. Negociei e ajudei uma pessoa. Depois peguei o que quis.

Não entendi nada Jorge. Mas ela esclareceu em seguida: Bandido (chefe) precisava de treino para disfarçar seu rosto e eu ensinei truque sírio.

- Como é que é! Você foi ensinar um bandido a fugir da policia! Você está mentindo pra mim! Não é possível que isso seja verdade!

- Eu só fala a verdade! Mais peguei todos eles. Assim ó. Ela fez com as mãos dessa forma. Dez.

- Que brincadeira é essa Sameeha. Você prendeu 10 pessoas sozinha?

- Sozinha não. Policia ajudou depois.

Eu já estava pra lá de nervoso com ela e ela bem tranquila. Terminou dessa forma o que me contou. Disse que foi numa favela que já conhecia e falou para alguém que queria falar com o chefe, pois precisava de armas para fugir da policia que estava atrás dela. Ele deu um preço alto e ela disse que não tinha tanto dinheiro, mas que podia ajudar ele a escapar de qualquer policia sem que descobrisse que era ele.

Usou a técnica num dos bandidos da quadrilha e mandou-o ir até uma viatura de policia para pedir informações sobre ele mesmo. Ela foi junto para o caso de algo dar errado. Os policiais nem desconfiaram do casal que veio em busca de informações. O homem, cego de um olho e o rosto desfigurado por queimaduras, falava arrastado e a mulher (ela) parecia uma maluca no modo de agir.

Quando retornaram algum tempo depois, o chefe a mandou escolher as armas que quisesse e foi o que aconteceu, mas quando foi embora na madrugada com suas armas e escondeu num lugar seguro, voltou com policiais à paisana que a seguiram por becos escuros. Usando suas táticas de guerrilha, dominou e prendeu os 10 bandidos, junto com o chefe do bando. Os policiais só tiveram o trabalho de leva-los para uma viatura descaracterizada nas imediações. Não quis me dizer como convenceu os policiais a seguirem ela.

Quando terminou o assunto eu vi que tinha de agir rápido e apesar da hora, a fiz ir comigo até a cozinha levando todo o material. Usamos luvas de procedimento descartáveis. Depois peguei um saco de lixo de um pacote fechado e embrulhei tudo nele. Sai com o carro, deixando-a só no apartamento e fui até a Avenida Republica do Líbano, distante de uns quatrocentos metros da Av. Quarto Centenário e esperei um pouco passar alguns carros, depois desci e coloquei o pacote debaixo de uma arvore no canteiro central. Sai, fiz o retorno mais adiante e liguei para o Posto da Policia Militar na Alameda Joaquim Eugênio de Lima.

Disse ter visto uma pessoa descer de uma moto e colocar um embrulho debaixo de uma arvore no canteiro central. Finalmente eu fiquei circulando nas imediações e numa das voltas já haviam quatro viaturas no lugar. Fui embora rapidamente.

No dia seguinte saiu no jornal que a policia tinha encontrado armas e munição na Avenida Republica do Líbano. Relacionaram o fato ao caso dos bandidos que foram feridos naquela mesma noite na região. A polícia acreditava se tratar de acerto entre quadrilhas rivais.

Nós só fomos dormir depois da três da manhã, pois eu exigi que promete-se não esconder nada de mim e nem fazer nada sem meu consentimento. Pedi desculpas por ter gritado com ela e disse que gostava dela, só não sabia o quanto.

Também acertamos que não haveria mais interrupção no atendimento clínico. Ela não mais seria atendida no prédio, mas viria par a clínica depois das quatorze horas e ficaria até as quinze, retornando para o escritório até o fim do expediente. Andaria com uma pasta além da bolsa. Dentro desta pasta, por via das duvidas, traria sempre documentos de exportação.

Ela não entraria pela sala de espera, mas pelo acesso ao meu escritório e, assim, evitaríamos contato com pacientes.

Na primeira sessão pós estes acontecimentos, usei um expediente que não tinha pensado ainda e as respostas que obtive foram de suma importância para continuar na montagem do quebra cabeças da caixa preta dela.

Pós a costumeira indução Alfagenica, perguntei direto: Quando seu pai foi capturado Sameeha? Onde foi de verdade? Nossas conversas eram sempre em inglês ou francês.

- No distrito de Kani ya Kurda. Cidade de Kobane. Ano não sei. Mês de Junho.

- O que ele fazia nessa cidade?

- Fronteira com a Turquia. Rota de comercio de papai. Loja muito grande.

- Não era só isso que ele fazia não é?

- Não. Armas sempre foi nosso negocio principal.

- Drogas também e outros produtos?

- Mamãe nunca deixou que papai traficasse drogas e coisas que Allá reprova.

- E porque as armas podiam?

- Confiscaram coisa de papai. Exercito sírio violento e cruel. Guerra civil é a única saída! O povo sírio não tem amigos.

- Quem fornece as armas para vocês?

- Os mesmos que matam nosso povo. Russos, americanos, franceses, ingleses, alemães, outros. Armas não tem pátria e não defendem honra. Só de quem as fabrica.

- Já te perguntei uma vez e volto a perguntar. Quem fornece dinheiro para comprar armas?

- Ouro. Muito ouro. Papai vende ouro em dólares.

- É? E agora que seu pai foi capturado com armas. O trafico acabou?

- Nunca acaba! Não pode! Eu não deixarei que acabe! Temos que ser livres!

- E o ouro? Você sabe onde está ele?

- Sei. Só eu tenho o segredo dele.

- Porque só você tem o segredo dele?

- Porque segredo dividido por dois não é mais segredo.

- Quer dizer então que...

- Quer dizer que segredo mata! Muitos já morreram nos rios querendo tirar segredo de Sameeha.

- Rios? Que rios você diz?

- Eu ensina você sobre os rios. Eu sei que o Euphrates é o rio mais longo da Ásia Ocidental. Ele é resultado da confluência do Kara Su ou Euphrates Ocidental de 450 km e o Murat Su ou Euphrates Oriental de 650 km, 10 km rio acima da cidade de Keban no Sudeste da Turquia. Dizem que seu comprimento é a partir da nascente do Rio Murat até a confluência com o Tigre em 3.000 quilômetros, dos quais 1 230 km caem na Turquia, 710 km na Síria e 1 060 km no Iraque. Eu conhece bem geografia e já percorri todos os rios da Síria e da região desde criança.

- Sós rios, ou também suas margens e fundos?

- Eu sei tudo que perguntou e até o quem nem pensa que eu sabe.

- Mas te procuram e se te pegarem? O que vai ser?

- Não pegam. Tenho ideia de como sumir sem deixar rastro. Mascara vai ajudar depois. Vou sumir por uns tempos. Deixo que pensem que morri, pois tenho outro segredo que me acompanha de longe. Quem sabe se eu não morra mesmo se para o bem do meu povo sofrido isso tenha que acontecer.

- Isso é um enigma, ou um desafio?

- Os dois. Muitos querem desvendar o mistério do rio, mas se eu abrir a caixa de Pandora que guardo com meus segredos, os males de meu povo vai aumentar mais. Não posso contar sobre a caixa de Pandora. Depositei nela muitos males em muitos lugares da Síria e da Turquia. Relembrando Jorge a Caixa de Pandora é um artefato da mitologia grega, tirada do mito da criação de Pandora, que foi a primeira mulher criada por Zeus. A "caixa" era na verdade um grande jarro dado a Pandora, que continha todos os males do mundo.

Deduzi que podiam ser arsenais camuflados, ou até mesmo planos de ataques com homens e mulheres bomba. Os rebeldes e os talibãs escondem armas sob os escombros das casas destruídas e nos lugares mais inusitados, por isso fiz uma pergunta que a levou a titubear na resposta e surgiu uma pista ainda mais reveladora.

- Na ausência de você, quem toca os negócios e guarda as armas e munições?

- Hummm. Irmãos e irmãs. Não, não, não. Eu não tenho irmãs. Só irmãos.

- Você disse irmãs. Eu ouvi.

- Não são irmãs. Não são. Eu não disse isso!

Insisti na afirmação e ela começou a falar em árabe e a xingar. Levantou do divã e se pôs a andar pela clínica. Dei-lhe ordem deitar-se e a conduzi pela mão até o divã e depois disso a despertei lentamente, mantendo a questão das tais irmãs mesmo com ela desperta, pois antes de oferecer um lanche para ela, que mandei a secretária buscar, falei sobre suas irmãs como se as conhecesse. Dissimulei bem o assunto de uma conversa breve e disse-lhe: Fizemos progressos hoje. Você foi mais colaboradora e demonstrou confiança no trabalho.

- Eu fiz isso? Pode me dizer o que aconteceu?

- Você falou do seu trabalho na Síria. Falou até de tuas irmãs. Só não disse o nome delas.

- Eu não tenho irmãs! De onde tirou isso?

- Sameeha! Não me chame de mentiroso. Você falou claramente que tinha irmãs, mas para mim isso não significa nada. Para você é alguma coisa?

- Não tenho irmãs. Pode ser que queria dizer primas.

- Nesse caso então elas eram importantes para você na Síria, ou ainda são?

- Você pergunta demais não acha? Eu não sei se devo responder essa pergunta.

- Sameeha, você me procurou por quê? Qual a verdade que busca além daquela mala?

- Ajudar meu povo e dar a eles condições de se defenderem da violência, do regime e dos países que nos atacam.

- Muito bem. Eu acredito em teus propósitos, mas você está no Brasil e é procurada desde que chegou aqui. É ou não é verdade? Por isso eu não vou mais fazer perguntas sobre teu passado com você desperta. Depois de tudo terminado nas terapias eu ei de ter as respostas que busco. Nossa conversa de trabalho clínico termina.

- Você está estranho Nasir. Virou apenas médico, ou é como disse outro dia. Você consegue ser chato quando quer.

- Chato não. Jamais seria chato com você, mas tenho que focar no meu trabalho e isso exige desprendimento e profissionalismo. Eu gosto da tua presença e não posso misturar as coisas. Aguarde-me no escritório. Vou te levar num lugar que vai gostar muito. Posso te dar um beijo de despedida.

- No rosto?

- Onde permitir. Não quero apanhar sabia?

Ela pela primeira vez desde que nos conhecemos, fechou os olhos e eu dei-lhe um selinho a lá Hebe Camargo de leve.

- Abriu os olhos depressa e disse: Nasir, seu safado! Que liberdade é essa?

- Oras Sameeha! Você não disse onde eu podia te beijar. Vai dizer que não gostou?

- Eu estou brava com você. Você vai apanhar, eu prometo. Vai apanhar muito.

Esqueci o assunto depois que ela se foi e voltei a pensar na nossa conversa. Então ela tinha irmãs. Mesmo negando, ficou claro como o sol que tinha irmãs, mas quantas seriam. Quem sabe não estivesse aí uma parte da solução do enigma dela.

Atendi outros pacientes um pouco disperso do trabalho clínico e alguns notaram o fato e questionaram minha distração. Eu disse que tinha nas mãos um caso bem difícil e que ele não saia da minha cabeça.

Passei no escritório por volta das quatro e meia e aproveitei para ir ao escritório do seu Vitor. Fiz bem em ir lá. Ele tinha novidades.

Levo-me até a sala de reunião e projetou numa tela algumas imagens do Aeroporto. Falou que aquelas imagens custaram bem caro e eu entendi que foram obtidas por meios obscuros, mas nem questionei o preço. Eu estava atrás de resultados e ele tinha alguns.

Na primeira imagem, vi um homem na esteira de desembarque tirando algumas malas da esteira. Eram quatro malas. Uma delas sem duvida, era a mala da imagem do celular de Sameeha.

Ele parou a imagem do homem de frente, indo em direção à saída e deu um zoom óptico com os recursos de seus equipamentos. Jorge. Que fantástico é a tecnologia que se vê até em filmes de espionagens. Sameeha, travestida de homem como fora descrito para mim por telefone, estava estática e se eu não a conhecesse, diria que era mesmo um homem a imagem congelada.

A imagem seguinte mostrava este mesmo homem a certa distancia da saída internacional, mexendo nas malas no carrinho de transporte. Deu para perceber que esvaziava a mala de tachinhas e passava o seu conteúdo para outra do carrinho. Levou depois o carrinho para perto de uma coluna e se pôs a comer algo e enquanto comia, tirou a mala e colocou atrás da coluna. Em seguida foi para o banheiro masculino, mas parou antes de entrar e conversou com uma mulher acompanhada de uma criança. Deu para entender que pedia para ela vigiar seu carrinho enquanto ia ao banheiro.

Não demorou nem cinco minutos lá e voltou. Saiu com o carrinho na direção da área de embarque doméstico.

A ultima imagem o mostra saindo às pressas do aeroporto com uma mala apenas.

Ele parou a projeção e perguntou sorrindo: Quer ver mais?

- Tem mais seu Vitor?

- Tem sim. A surpresa vai ser grande para você.

- Quero ver. Sou como São Tomé. Só acredito vendo e pondo a mão.

A imagem seguinte mostra a sala de achados e perdidos. Deixei escapar um palavrão sem querer e disse: Sameeha! Não pode ser!

Ali na minha frente estava Sameeha retirando a mala.

Ele parou a imagem e disse: Conhece a moça Doutor?

- Acho que sim, mas não pode ser ela. Tem algo errado. Tem outras imagens dela?

- Tenho. Tenho varias. Quer ver?

Ele foi mostrando as imagens dela com a mala dentro do aeroporto de Guarulhos. Só uma delas a mostrava bem de frente e de perto. Pedi a ele que aproximasse a imagem o máximo que desse e imprimisse a imagem em preto e branco numa folha A4.

Depois disso fiquei observando a imagem na tela. Por fim falei para ele: A menos que me engane, essa pessoa é muito parecida com alguém que conheço. Tenho duvidas que se trate da mesma pessoa. Seu Vitor é possível o senhor descobrir de quem se trata?

- Claro. Só não sei o custo dessa busca e nem se vou conseguir. Os refugiados são ariscos e refratários a nós brasileiros. Temem que descubramos quem realmente são, mas mesmo assim tenho meus métodos.

Sai com a foto dobrada no bolso e fui à busca de Sameeha.

Um tempo depois já estávamos descendo a consolação até o edifício Itália, para jantarmos no Terraço Itália. A noite era bem quente e convidativa e ela ficou contente em conhecer o lugar. Jantar no Terraço Itália é jantar num dos lugares mais românticos de São Paulo e ao mesmo tempo degustar o requinte da cozinha italiana. Isso sem esquecer a excelente carta de vinhos oferecida pelos garçons.

Durante o jantar Sameeha deu um chute de leve na minha perna por debaixo da mesa. Olhei mal encarado para ela e ela sorrindo disse: Isso é pelo beijo de hoje à tarde, mas não pensa que acabou. Mato você se fizer isso de novo.

Dei-lhe uma piscada e fiz um biquinho com a boca. Depois fique realmente serio olhando para ela. O que eu mais temia estava acontecendo comigo. Eu me apaixonara por ela, mas tínhamos a diferença de idade de mais de 10 anos. Não sabia nem quem ela era na verdade e o que era a verdade em sua história. Agora havia aquela jovem da foto e dos vídeos. Quem seria? Onde estaria? Por quê?

Ela interrompeu meus devaneios e disse: Perdeu o que em mim que parou de comer?

Foi como se eu levasse um choque de duzentos e vinte volts. Pedi desculpas e disse que pensava na vida junto com ela. Em breve isso ia acabar.

Ela quis saber por que e por isso acrescentei: Bom Sameeha. Você é bela, jovem e vai seguir sua vida ao lado de alguém até mesmo do escritório. Por outro lado tenho plena convicção que não estou longe da solução de seus enigmas e de encontrar a mala e seu irmão, se estiver vivo é claro e é o que espero. Portanto, vou sentir sua falta. É isso.



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