Rafaela – sucesso sempre



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Enquanto eu falava, as lagrimas começaram a descer em seu rosto. Ela tirou uns lencinhos de papel da bolsa e enxugou as lagrimas e olhando firmemente em mim deu como resposta isso: Porque não nasci no Brasil? Aqui tem violência, mas não tem guerra. As pessoas são livres para seguir a religião que quiser e ninguém exige fidelidade. Podem amar e casar. Ter filhos, mas eu sou uma síria e mulçumana. Quem iria me querer nesse país. Só mesmo os refugiados como eu.

- Vai me dizer que não recebeu nenhuma cantada no escritório.

- Não sei o que significa isso, mas entendo o que quer dizer. Um homem do escritório, não vou dizer o nome, já me convidou para sair. Ele é casado eu já sei. Isso é correto entre os brasileiros Nasir?

- Não. Não é. Mas acontece. Tanto com homens, como com mulheres. Eu atendo essas pessoas. Seus casamentos são fracassados e se for contar outros detalhes, vou estragar nosso jantar. Esquece isso.

- Não vou esquecer não! Se ele falar de novo vou dizer que já tenho companhia e não preciso de homem.

- Se eu não a conhecesse ia dizer que está blefando?

- Não conheço está palavra, mas imagino o que seja. Nasir, eu não aguento mais isso!

- Isso o que, posso saber?

- Você é a única pessoa que eu gosto. Não gosto de ninguém. Não tenho amigos. Só tenho você e não sei o que fazer. Não sou brasileira. Tenho minha religião. Isso atrapalha minha vida.

- Já entendi e pode parar com isso Sameeha. Difícil para você, pior para mim. Não acho que eu seja o homem certo para você. Agarrar-se a mim pode ser uma forma de defesa, de proteção. Mesmo estando juntos, continuarei a respeita-la como combinamos. Vamos esperar mais um pouco antes de tomarmos uma decisão errada. Só mais um pouco. Chegaremos a uma saída para isso.

- Você promete respeito, mas me beijou hoje. Não podia. Eu sou mulçumana.

- Foi uma brincadeira. Não faço mais isso. Prometo.

No trajeto para o apartamento, disse-lhe: Valéria falou para mim que eu ia sentir ciúmes de você e que ia ser alvo dos homens do escritório. Vejo que ela tinha razão.

- Você tem ciúmes de mim Nasir?

- Deveria? Você é pessoa mais decidida que conheço. Já passou por tantas coisas... Não. Não acho que se deixe levar por um elogio, uma cantada, mas não vai bater nos homens do escritório por causa disso hein!

No prédio ela foi para a banheira de seu quarto e eu fiquei na sala examinando alguns documentos. Depois fui ao escritório e de posse da foto do seu Vitor, comparei ela com a foto de Sameeha da primeira vez que a vi. A semelhança era assustadora, mas tinha um pequeno detalhe quase imperceptível que as diferenciava. A marca na testa. A moça da foto do aeroporto não tinha a marca. Não era Sameeha. A nitidez da foto não ajudava muito, mas fiquei meditando em posição de YOGA dentro da autoindução da técnica Alfagenica e vi claramente o rosto dela. Não era Sameeha, mas se tratava de alguém que sabia onde ficou a mala. Eu precisava falar com seu Vitor.

Sameeha entrou no escritório de saída de banho e ao ver-me na posição de YOGA Padmasana, Lótus, com os olhos fechados, caiu na risada. Começou a caçoar de mim em árabe e como eu não entendia suas palavras, traduziu rindo: Nasir majnun w janun! Nasir maluco e louco! Eu que não quero nada com você!

Falei para ela: pode rir sua toupeira, mas já sei quem pegou sua mala?

Parou de rir e veio até onde eu estava, gaguejando; incrédula sobre o que eu disse.

- É o que ouviu. Eu sei quem pegou sua mala no aeroporto. Depois que resolver algumas coisas, encontro à mala e a pessoa. Você tem segredos comigo e agora eu tenho um. Quer trocar alguns Sameeha?

- Você só pensa nisso? Não é capaz de viver longe da clínica e de seus pacientes!

- Você é minha paciente esqueceu? Ou eu resolvo seus problemas, ou esqueço que é minha paciente e ai não sei o que vai acontecer entre nós.

- Já entendi aonde quer chegar. Olha que sou brava quando me ameaçam!

- Pode ser, mas acho que não teria coragem de me ferir de verdade. Somos amigos e quem sabe outras coisas.

- Nasir... Nasir... Vou é dormir antes que briguemos. Sou uma mulçumana pura. Até amanhã.

No dia seguinte sai antes dela se levantar. Nem tomei meu desjejum. Só parei no Café e Confeitaria Angélica, um lugar discreto e aconchegante. Meditando de mim para comigo, cheguei à conclusão que Sameeha não embarcaria numa viagem mental até o sumiço da mala. Ela, pelas imagens que vi, deixou deliberadamente a mala vazia no aeroporto. Devia ter seus motivos, pois sabia que alguém iria à busca dela.

Diria que contava com isso, portanto, algo dera errado e ela perdeu o fio da meada sobre a pessoa que devia buscar a mala no; “Achados e Perdidos do aeroporto”. Ela providenciou para que a mala não se extraviasse. Possivelmente deve ter dito a algum segurança ou funcionário sobre uma mala esquecida por alguém. Certificou-se que fosse recolhida e desapareceu. A tal pessoa em algum lugar que eu desconhecia, recebeu, ou encontrou o ticket correspondente da mala. Retirou ela e perdeu o contato com Sameeha, ou ainda poderia ser que algum pagamento deveria ser feito e isso não ocorreu e a pessoa (a jovem) sumiu sem deixar pistas visíveis. Sameeha também sumiu por minha causa, pois deu sorte ou azar de ser submetida às cirurgias plásticas e isso tirou dela a identidade e nosso envolvimento a afastou de seus contatos no Brasil, por isso Jorge eu só vi uma saída para o meu desconforto. Precisava de uma pessoa de confiança que aceita-se se submeter à indução e seguir a jovem do aeroporto.

Eu fui para a clínica pensando em quem ou com quem poderia contar para isso. Por mais que pensasse não me ocorria ninguém e, daí lembrei-me de um proverbio popular que veio em meu socorro. Diz ele: Em terra de sapos, de coque com eles! É isso! Eu precisava de um sírio ou uma síria. Eu tinha que arrumar um motivo para ir até onde os refugiados conviviam e conseguir a ajuda que precisava sem dar a entender os reais motivos. Cheguei ao consultório com essa preocupação e Ligia minha secretária percebeu que algo me incomodava e disse-me: Pelo visto a jovem Sameeha já conseguiu mexer com o Senhor. Está difícil mesmo tratar dela?

Bem. Com tantos anos ao meu lado, ela sabia mais da minha vida do que eu mesmo, mas nunca passamos do respeito da amizade. Fui padrinho do seu casamento e conheço bem sua família e fui padrinho de seu filho, por isso contei-lhe alguma coisa sobre Sameeha. Tudo parecia estar bem naquele dia, mas por volta das onze horas, minha secretária, antes de ir almoçar, comentou um caso que ocorreu próximo da Av. Paulista há poucos minutos e que passou numa reportagem da televisão da clínica. Uma jovem tinha sido assaltada e o bandido ia levando sua bolsa. Ninguém soube explicar o que aconteceu, mas enquanto o homem que a roubou se afastava de arma em punho, ela se agachou e tirou os sapatos. Ele ficou sem saber se atirava nela, ou corria. Em seguida ela cobriu o rosto com um lenço e só deixou os olhos de fora. As pessoas próximas ficaram com medo de intervir. O bandido se afastou mais. Cerca de cinco metros com a arma em punho ainda apontada para ela e ameaçando todos.

Quando ele fez menção de enfiar a arma na cintura e ia virando de lado com a intenção de sair correndo, ela atirou um dos sapatos nele. O salto do sapato cravou na sua coxa e ele perdeu parte do equilíbrio enquanto levava as mãos na coxa. Nisso ela jogou o segundo sapato que acertou em cheio sua cabeça violentamente, deixando-o desacordado com um ferimento profundo na testa. Disseram que ela correu até onde ele tinha caído, pegou a bolsa, arrancou o sapato da sua coxa puxando para todo lado até sair e a sua calça se encheu de sangue, sendo que este se espalhou pelo chão. Ainda descalça, pegou a arma do bandido e enfiou dentro da boca dele, tirou de novo e em seguida levantou sua cabeça pelos cabelos e cuspiu varias vezes na sua cara. Depois ergueu o braço direito com a arma na mão e gritou numa língua estranha. Enfiou a arma na bolsa e foi embora com os sapatos nas mãos. Despareceu dentro do Parque Trianon. As câmeras de segurança do local não filmaram seu rosto, só os olhos e a cabeça coberta, mas registraram o momento em que pegou as coisas que estavam como o homem. A polícia não tinha pistas da mulher. O assaltante foi internado num hospital.

Jorge. Foi difícil me conter diante da Ligia.

Só esperei ela sair para o almoço e soltar meus palavrões mais cabeludos. Eu tinha certeza que só uma pessoa faria aquilo. Veio na minha mente um filme antigo de James Bond – O 007 em que uma vilã tenta mata-lo com duas laminas de faca que saem de seu sapato automaticamente. Provavelmente Sameeha mandou preparar seus sapatos para eventuais encontros indesejáveis. Ela certamente continuava com a cabeça nas ameaças ocultas e logicamente na violência urbana, mas já tínhamos combinado que não ia se expor. O que deu nela então para agir assim?

Liguei para o escritório e ela estava no serviço. Pedi para falar com ela e ao me atender, nem se mostrou surpresa com minhas palavras. Disse que sabia que eu ia ter conhecimento do ocorrido.

Perguntei para ela porque fez aquilo e disse-me sem constrangimento: Ele xingou a minha mãe e cuspiu em mim. Falou que eu era uma vagabunda e garota de programa da Paulista. Acho que isso é muito ruim para uma mulher. Só por isso fiz aquilo, mas minha vontade era de mata-lo. Aquele...

Ela começou a falar seus palavrões em árabe no telefone e eu pedi que se acalmasse. Mas qual o que. Ela começou a gritar seus impropérios!

A Valéria tirou o telefone da mão dela e falou comigo: Doutor que foi que aconteceu que ela não para de gritar umas palavras estranhas e a dar socos no ar?

- Onde ela está Valéria?

- Está sentada no chão. Por sorte foram todos almoçar. Só eu estou aqui. Que eu faço? - Devolve o telefone para ela que resolvo.

Escutei que conversavam e ouvi que Valéria a ajudou a se levantar e ela atendeu ao telefone.

Tornei a dizer para se acalmar e lhe dei razão e isso a surpreendeu, pois disse: Eu tenho razão? Você disse que tenho razão? Então devia tê-lo matado logo. Meus sapatos não foram jogados para isso.

Ela começou a rir no telefone e eu fiquei mudo. E não é que ela tem senso de humor. Parou de rir minutos depois e disse: Pode ficar tranquilo meu protetor. Não ia matá-lo não, só machuca-lo um pouco mais. Se eu tivesse usado o prendedor de cabelo para acertá-lo já estava morto.

- Prendedor de cabelo? O que um prendedor de cabelo pode fazer numa pessoa?

- Cortar a jugular. Você não é médico? Devia saber isso?

- Meu Deus! Pensei. Ela é mesmo uma espiã treinada não sei onde. Tudo na sua mão vira uma arma. Parece o espião da serie The Bourne Supremacy. Estrelado por Matthew "Matt" Paige Damon. Se algo na sua vida não mudasse pra valer, ia acabar sendo morta, mas não sem matar alguém. Agora, depois desse acontecimento, iam saber que estava viva. Voltariam a procura-la e quem sabe até no meu consultório. Teria que mudar alguma coisa em nosso projeto. Mas o que? O que? Eu dizia a mim mesmo.

Sai de meus devaneios e disse-lhe: Preciso ver as coisas que usa. Seus sapatos por exemplo. O que tem neles para quase matar o homem? Você não o feriu muito?

- Acho que não. Só os médicos vão saber, mas quem sabe se nunca mais vai poder andar por aí hein e atacar mulheres indefesas como eu, por exemplo!

- Sameeha não brinque! Você não o aleijou não é?

- Só um pouco. Só um pouco. Só interrompi o Quadríceps dele. Só isso.

- Você não sabe o que está dizendo! Fala que não sabe?

- Sei sim. O corte com faca na guerra faz a mesma coisa. Não anda mais. O salto do sapato rasgou o musculo em uma parte e quando arranquei o sapato cortei o resto. A lamina do meu salto ficou ótima. Desculpe meu amo. Ele não anda mais.

- Não é possível que conheça tanto. Não pode ser verdade!

- Guerra ensina. Ou aprende, ou morre.

- E a arma? Onde você colocou?

- É minha! Nem você nem ninguém podem tirar de mim! Guerra diz que é presa, butim, prêmio, troféu! É meu troféu de guerra! Vou guardar de lembrança.

- Então deixe que eu ponha num cofre. É mais seguro.

- Não sei. Depois conversa com você. Agora eu vou comer lanche. Alláh seja contigo.

Ela devolveu o telefone para a Valéria e ela se mostrou preocupada. Ficou mais apreensiva ao saber do que tinha acontecido. Esperou Sameeha sair para comer e descobriu o revolver no fundo da gaveta dela. Como eu suspeitava, a arma tinha a numeração raspada. Eu ia ter de convencer Sameeha a se desfazer daquilo, mas sabia que não ia ser nada fácil.

Minha fome tinha se ido, mas encomendei um lanche de peito de Peru e queijo coalho com pão de gergelim na Art. Pão perto da Paulista.

Enquanto comia o lanche, pensava nos fatos mais recentes e não gostava nada deles. Eu corria risco de vida, ela podia ser morta e outras coisas aterrorizantes inimagináveis. As pessoas mais próximas não estavam distantes desse mundo invisível de ódio internacional. Não sou de me amedrontar facilmente, mas necessitava de achar uma saída o mais rápido possível para a situação em curso. Sameeha é um barril de pólvora prestes a explodir e nem quero pensar no fato de que faça justiça por achar que matar é a única solução para escapar de seus perseguidores ocultos e a violência urbana.

Meditava em como encontrar uma saída para o fato de não chegar até a pessoa que pegou a mala, quando Ligia entrou no escritório e disse-me: Doutor, não foi almoçar! Foi ela, não foi? Estavam passando no jornal lá no restaurante. Eu quase não a reconheci antes. Só agora revendo a reportagem é que notei que era ela pela bolsa que a Valéria comprou. Ela tinha me mostrado quando veio aqui na ultima vez. Como ela sabe fazer as coisas que falam na reportagem?

Bem, meu amigo. Eu tinha mesmo que desabafar e mandei ela se acomodar e fui contando os fatos que haviam acontecido. Omiti alguns detalhes e quis ouvir sua opinião. Com a calma que é seu cartão de visitas, ela disse que eu devia contratar alguém para vigia-la, ou ser sua companhia. Todavia tal pessoa deveria ser preparada para enfrentar situações de perigo. Se ela estivesse em segurança eu teria o tempo necessário para resolver outras coisas que a envolviam. Achei aquilo ótimo. Porque não pensei nisso antes Jorge.

Nisso que conversávamos, começou a chegar os pacientes da tarde. Para minha sorte três tinham desmarcado e só ficaram quatro. Dois eram retorno e dois, consultas iniciais. Um deles realmente me preocupou. A filha tinha ido para o Canadá fazer um estagio cultural e não dava noticias á pelo menos uma semana. Lembrei-me de meus filhos que moravam lá e disse-lhe que usaria outros meios para localizar sua filha Karen. Esse é o nome dela. Dar-lhe-ia retorno em dois dias no máximo e ele se foi.

Liguei para a Valéria e disse-lhe: Tenho que encontrar a Virginia daqui a meia hora no Shopping. No lugar de costume. Só vou atrasar se houver muito transito. Fala para ela colocar outra roupa, tênis e um boné. Nada de lenço. Vou leva-la a um lugar.

Quando nos encontramos ela estava de calça e um boné por cima do lenço. Aquilo ficou esquisito e até engraçado, mas eu não ri. Trazia uma sacola e mostrou-me o tênis dentro dela. Não tirou os sapatos e deu para notar que mesmo tendo limpado bem eles, haviam marcas de sague na lateral e num dos saltos, mas não fiz qualquer comentário.

Depois que sai do Shopping, fui em direção a R. Treze de Maio, Bela Vista. Numa academia muito famosa. Fomos recebidos pelos proprietários. Deixei-a andando na academia aonde iam lhe mostravam as salas de aula e em particular fui ao escritório e expliquei para o casal do da academia que buscava uma pessoa para ser acompanhante dela. Tinha que ser alguém que funcionaria como guarda-costas dela, pois não era brasileira e fazia um trabalho na minha clínica que requeria alguns cuidados pessoais.

Fui informado que certos frequentadores eram formados em artes marciais. Alguns (as) eram ex-policiais e trabalhavam dessa forma com empresários e pessoas famosas. Naquele momento davam aula, ou treinavam. Ficamos conversando por mais de quarenta minutos e, Jorge, enquanto conversávamos sobre minha profissão e o atendimento de pacientes com problemas emocionais, alguém veio chamar-me.

Era a funcionaria que tinha acompanhado a Sameeha e perguntou-me se ela era dona de alguma academia fora do Brasil. Não disse nem sim e nem não. Eu quis vê-la. Você já imagina porque né? Pois então. Ela se achava no ringue da academia treinando com um lutador de Muay thai de nome Pedro Ellias – O capote. Na verdade não estava treinando não. Ela dizia para ele ataca-la e ela ia ver se conseguia se livrar dos ataques. Recusou usar protetores, estava com short emprestado, uma camiseta larga e, meu amigo, estava descalça.

Fiquei olhando o lutador perseguindo-a e quando conseguia encurrala-la em algum canto das cordas, ela se esquivava dos golpes que ele desferia só com os braços. Ele procurava não machuca-la, mas ela disse-lhe que não ligava para as pancadas que pudesse receber, mas no tempo em que puder ver os dois, ambos se mantinham na defensiva. Por fim se engalfinharam no chão e não foi fácil para ele sair das suas pernas. Quando se levantaram, ele deu um abraço nela e fez o sinal de positivo.

Soube que ela já tinha lutado com algumas das mulheres presentes e demonstrado sua habilidade de escapar quando aprisionam suas mãos. Demonstrou também outras habilidades marciais e só falava em inglês com os presentes. Recebeu cumprimentos de todos e o principal treinador perguntou-me onde ela aprendeu tudo aquilo. Respondi que pouco sabia sobre ela. Para mim ela era uma caixinha de surpresa

Uma jovem chamada Leticia que mais tinha lutado com ela, foi me apresentado como sendo ex-militar do exercito e que naquele momento estava disponível. Fui conversar com ela em particular, enquanto Sameeha ia para os vestiários. Expliquei a ela minha necessidade e lhe fiz a propostas de ser acompanhante dela. Não lhe disse o motivo principal e ela aceitou fazer uma experiência. Dessa forma combinamos que ela seria frequentadora da clínica e do prédio onde ela trabalha. Disse-lhe também que para Sameeha (Virginia) ela ia ser sua ajudante comercial para não levantar suspeitas da necessidade de andarem juntas. Enfim. Ela teria um contrato na empresa a partir do dia seguinte quando fosse se reunir com Valéria.

Quando saímos da academia Gaviões, ela mostrou-se alegre e descontraída. Depois disso fomos jantar no restaurante Dona Lucinha, na Av. Chibarás, 399. A comida é típica de Minas e deliciosa.

Enquanto jantávamos Ligia ligou e disse que tinha algo que pudesse me interessar. Ai falou de um casal de sírios que mudou há poucos meses no seu prédio e que só estão lá graças a MsF (Médicos sem Fronteiras) e a ajuda de alguns dos moradores, inclusive ela e seu marido. Aproveitou o ensejo e perguntou se eu não sabia de algum lugar para o casal trabalhar.

Eu lhe disse que ia pensar no assunto e ela desligou. Derrepente, olhando para Sameeha me ocorreu algo. Se ela não seguiria sua mala, alguém do seu país faria isso sem saber do assunto. Sabe Jorge quando as coisas se encaixam como um par de engrenagens? Pois é. Estava ali a saída que precisava. Só não sabia como encaixar as peças. Mas liguei de volta para a Ligia dizendo que queria vê-los na clínica no outro dia.

Chegamos ao prédio antes das dez da noite e sugeri tomarmos um banho de piscina e ela aceitou, mas disse que se manteria a distancia de mim. Nada de intimidades, pois tínhamos que manter o respeito entre nós.

Depois que nadamos deitamos lado a lado de barriga para cima no deque e em algum momento depois, virei de lado para ela observando-a. Sentindo-se incomodada perguntou o que eu olhava e eu disse: Onde esta a verdadeira Sameeha. Essa que aceita ser minha companhia nessa noite, ou aquela que não pensa duas vezes em agir com violência para reaver um objeto, ou sair lutando com marmanjo maior do que ela. Que segredo pode fazer uma pessoa ser tão inconstante e indecifrável? Que é você hein?

Ela possivelmente não esperava uma confissão de falta de conclusões da minha parte e falou: Ainda não é tempo de contar segredos. Segurança requer espera, mas você sabe quem ficou com minha mala. Eu também sei. Só não sei onde foi parar a pessoa. Depois disso vamos, como se diz no Brasil, fritar os ovos. Eu sou tão má assim, sou? Você acha que eu não sei o que estou fazendo? Sabe o que é viver sem horizontes?

Quando mais eu precisava de família, perdi tudo. Só convivi com um mundo de homens violentos e interesseiros. Tirando você, quem se interessaria por alguém como eu no Brasil? Amanhã nem sei o que esperar da vida. Para mim é mais um dia, para você é o teu mundo. Me diga. Quem nesse país ficaria com uma refugiada sem toca-la e possui-la? Acho que me respeita porque foi ensinado a ser correto, mas por dentro não sei. Sabe. Tudo que tenho vivido nos últimos anos não merecem ser lembrados. Eu tento esquecer, mas não consigo. Estão destruindo minha Síria e ninguém faz nada. Os países ricos estão ganhando bilhões com as armas que vendem e que usam para saber se funciona. Somos mesmo as cobaias desses malditos!

Estão acabando com a população civil de Ghouta. Minhas pobres crianças! Meus pobres velhos! Odeio eles, odeio, odeio. Acordo com pesadelos de ouvir pessoas gritando em meio às bombas e as ruinas. As misérias, a fome, o luto e o medo. Muito medo. Então tenho que ser forte por fora. Gigante por dentro e sufoco a mulher que existe nas minhas entranhas. Gostaria de mata-la tem hora. Você perguntou quem sou eu. Eu era uma criança feliz, uma adolescente feliz. O resto não me trouxe até hoje felicidade e então nem sei quem sou eu. Não sei! Maldita guerra! Não sei mais quem sou!

Ela saiu correndo depois disso, desceu as escadas e se trancou no quarto, batendo a porta com força. Pois é caro amigo. Minha refugiada além de seus segredos, luta conta si mesma e esta é a pior das guerras.

Desci as escadas e fui escutar na porta, mas mesmo sendo o mais silencioso possível, ela me ouviu. Seus ouvidos treinados para o perigo funcionam como sonar. Disse-me sem abrir a porta: Vai embora! Chega! Vai embora! Não preciso de piedade! Não preciso! Como sou infeliz! Vai embora por favor!

No outro dia pela manhã aguardei ela acordar com um café especial que encomendei. Como eu esperava, não veio com cara de bons amigos, mas eu tinha algo que ia surpreendê-la naquela semana. Disse-lhe: Se você quiser posso leva-la até o trabalho, pois tenho tempo para isso hoje, mas esperei por você por causa de algo que te pertence.

- O que é que pertence? Não estou de muita conversa com você seu...

- Seu o que? Oras. Vamos Sameeha. Não precisa brigar. Peço desculpas se disse algo que a ofendeu. Eu a levo ao trabalho se quiser e outro dia falo do assunto.

Eu sabia que ela era bastante curiosa e aguardei sua reação ao pegar minhas coisas para sair, por isso tornei a perguntar se queria que a levasse ao trabalho.

- Você sabe que quero, mas eu dirijo. Você é muito mole. Daí deu um pequeno sorriso e disse meio desconfiada: O que me pertence que você quer?

- A arma que você pegou!

- Sabia! Você me agrada para me enganar! Não dou! Não dou! Não dou!

- Terminou? Se me der vai ter uma surpresa. É só o que posso te dizer. Esta semana mesma você terá uma agradável surpresa!

Ela ficou parada no inicio me olhando e depois como já vi acontecer, se pôs a andar de um lado para o outro e a falar em árabe. Por fim disse: Surpresa? Que surpresa? Você me engana? Revolver vira surpresa? Como pode?

- Se me der...

- Se eu enganada por você, não mata você porque divida, mas eu some para sempre.

- Combinado. Veremos se vai gostar dessa surpresa.

Ela me deu a arma sem as balas e fomos aos cutucões até o carro. Não sei como consegui deixar que dirigisse. Ela foi chingando em árabe bem alto os carros que cruzavam seu caminho. Logico que ligou a sirene médica e voou (literalmente) até seu trabalho. Acho que devo ter pegado algumas multas por excesso de velocidade, mas sempre recorro à condição de emergência que me dá o direito ao uso desse recurso.



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