Re construindo a história local por pistas e atalhos: o papel social da escola



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(RE) CONSTRUINDO A HISTÓRIA LOCAL POR PISTAS E ATALHOS: O PAPEL SOCIAL DA ESCOLA
Adir da Luz Almeida – UERJ

Regina Lúcia Fernandes de Albuquerque – UERJ


O espaço local trabalhado por nós, desde 2004, chama-se Morro do Castro, situado, geopoliticamente falando, como um lugar fronteiriço entre São Gonçalo e Niterói. Separa os dois Municípios uma estrada, ocorrendo, na realidade social, a não separação desses territórios administrativos, ainda que os moradores percebam as diferenças entre os serviços oferecidos pelo poder público de um lado e do outro da estrada. Nosso objetivo central é propiciar não só um debate caloroso acerca do tema proposto, mas também promover uma revisão historiográfica dos conceitos utilizados para entender a adversidade da cultura e a produção subjetiva que a escola assume na nossa construção de identidade individual e coletiva.

A revolução conservadora produzida pelo neoliberalismo, ainda que se revestindo de uma roupagem científica, construiu uma capacidade de agir como teoria que imobiliza os sujeitos sociais fazedores da história. Reconhecendo a eficácia desta teoria que coagula, entorpece, enjaula a cultura e os seus agentes culturais, desfazendo-se permanentemente da reflexão crítica acerca da realidade concreta, tipificando a cultura como lugar do passatempo e da diversão, neutralizando as diferenças de gênero, raça e de classe; coloca-nos diante do desafio de criar um contra-programa que articule pesquisa e realidade social, educação, cultura e política. Neste sentido, a luta pela extensão do capital cultural a amplos setores da sociedade sob o domínio do capital reveste-se de significativa importância intelectual, podendo construir uma nova cultura política, onde as idéias-força da cidadania e da democracia revestem-se de um sentido para além dos marcos do liberalismo, da democracia formal. Entender a cultura como ruptura ,como propulsora do novo, força motriz capaz de catalizar energias a favor da razão humanizada e temporalizada, inventando uma nova cultura política, contemplando diferenças, com mediações possíveis das diversas experiências culturais, considerando o lugar como múltiplo e plural.

Partindo da categoria de produção de subjetividades, que se opõe radicalmente aos pressupostos que tratam a cultura, os modos de sentir e viver, os modos de pensar e agir, como processos “naturais”, matizamos ferramentas teóricas utilizadas por historiadores, geógrafos, autores do campo das ciências sociais que nos informam sobre as diversas estratégias de poder que produzem como efeito a desqualificação de formas de vida e de produzir cultura em segmentos da população chamados genericamente de “subalternos”. A instituição escolar, inserida nesses espaços, tem importância, para nós, a partir da nossa percepção que, na sua grande maioria, ocorre um “divórcio” e distanciamento entre o saber que a população possui e o saber que é produzido no interior dos espaços educativos, contribuindo para a produção de subjetividades, ainda não superadas, que apontam para a idéia de que os espaços caracterizados como populares são lugares sem memória, sem história, constituindo-se como “locais perigosos” habitado pelas “classes perigosas”.

A proposta de pensar a educação e a cultura como ressignificação da subjetividade lança-nos a uma luta contra o esquecimento na perspectiva de construirmos uma memória histórica contra o esquecimento, tendo como escolha teórico-metodológica o cruzamento de três fontes: os dados oficiais, a memória local obtida através da fala dos moradores e fotos que vão nos informando sobre as mudanças no espaço, produzindo tanto o esquecimento do que foi, como subjetividades sobre o espaço e aqueles que ali construíram suas histórias de vida.

A construção social da escola reside em percebê-la como lócus privilegiado por donde perpassam mecanismos de assujeitamento e disciplinarização que se efetivam a partir de uma distribuição desigual do conhecimento entre as diferentes classes sociais, construindo esquemas de percepção, pensamento e ação.
a contribuição de Humberto El-Jaick ao ensino público friburguense - a gênese do ginásio municipal rui barbosa

Adriana Macedo de Faria Silvestre - FFSD



A presente investigação tem como objetivo analisar as contribuições do advogado e educador Humberto El-Jaick na criação do Ginásio Municipal Rui Barbosa, primeiro educandário público em Nova Friburgo, voltado para os (as) jovens trabalhadores (as). Desta forma, analisamos através dos diálogos familiares a trajetória de vida deste homem público, que marcará significativamente a história da educação friburguense e fluminense nos anos 50/60. A seguir, serão enfocados os discursos e ações empreendidas no processo de implementação daquele ginásio, assim como sua breve participação como Diretor do Ensino Médio e Superior do antigo Estado do Rio de Janeiro e, como deputado federal (cassado em 1966). Dando prosseguimento, buscamos também identificar as concepções político-pedagógicas que permeavam o seu ideal republicano e o impacto de sua obra. Metodologicamente optamos pela história oral como um caminho, no sentido de registrar as memórias locais, através dos relatos de ex-professores e ex-alunos do Ginásio Municipal Rui Barbosa, o que facilitou o entendimento do contexto político da época. O estudo pretende assim contribuir para a conservação e produção de fontes no campo da historiografia da educação regional, em especial da região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Os jornais de época, os ofícios do Ministério da Educação e Saúde, do Ginásio Municipal Rui Barbosa, do Parlamento Estudantil de Nova Friburgo (NF), das Secretarias Estaduais de Segurança Pública e de Educação e Cultura do RJ e, por fim dos gabinetes civis do governador do RJ e do prefeito de NF compõem o conjunto documental investigado. O material acima citado, fonte privilegiada deste trabalho, se soma aos relatos memorialísticos, de forma a identificar as ações empreendidas e, interpretar o sentido da obra educacional implantada primeiramente na cidade de Nova Friburgo e, depois em todo o antigo Estado do Rio de Janeiro. Cabe ainda ressaltar a dificuldade de pesquisas que buscam um maior aprofundamento em fontes primárias, pois o PRÓ-memória/NF permaneceu fechado para obras, não existindo também um arquivo sobre a educação pública local e regional. Por outro lado, o estado de deteriorização de muitos materiais levantados dificultou a identificação de nomes e datas. Uma contribuição inestimável porém, deve-se à família de Dr. Humberto por haver permitido o acesso ao acervo pessoal, uma das principais fontes, como referência do processo de criação e implantação do curso secundário noturno, do Colégio Municipal Rui Barbosa. Assim sendo, acreditamos que foi possível desenhar um recorte da educação friburguense dos anos 50/60, inaugurando um trabalho que pode inspirar outras pesquisas que visem o registro da memória da educação neste município. Deste modo, a escolha do tema gerador facilitou a reconstrução da identidade do ensino público friburguense e, o entendimento das possíveis contribuições que a ação pedagógica desenvolvida no Ginásio Rui Barbosa, trouxe à vida dos trabalhadores daquela cidade, sempre ressaltando o pioneirismo do casal de professores, Humberto e Zeir El-Jaick. Por fim, os dados coletados e análises dos discursos de época, podem fornecer material para investigações futuras na área da história da educação e das ciências sociais, voltadas em particular para a história das classes trabalhadoras da região serrana do Estado do Rio de Janeiro.

MATUTANDO UMA BIBLIOTECA: VIAGEM E RELATÓRIO DE UM INSPETOR PERNAMBUCANO
Aline de Morais Limeira – UERJ

Giselle Baptista Teixeira – UERJ


Este estudo teve como objetivo precípuo investigar, a partir da produção de um relatório, cuja autoria é de um Inspetor Geral da Instrução Pública da Província de Pernambuco, leituras, livros e autores, cuja referencia é feita no transcorrer desta escrita. Percebendo-os como elementos que nos viabilizariam matutar, imaginar a composição de uma biblioteca que correspondesse diretamente à sua compreensão de um espaço como este, evidenciada nesta própria fonte, que é a de um ambiente convidativo à leitura, “augmentando o cabedal literário e científico” de um leitor. Um investimento plausível a partir dos vestígios que sua própria escrita produz, pois, a relação de livros e leituras escolares, inscrita nesta fonte, foi recomendada, analisada e criticada por este Inspetor, que precisaria registrar, neste relatório, seu estudo sobre o sistema e a organização de ensino primário das escolas da Corte, Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

Deslocar-se para estes lugares exigiu por parte de João Barbalho Uchôa Cavalcanti, o referido Inspetor Pernambucano, providenciar, em correspondência formal ao Presidente de sua Província, uma solicitação que tornasse plausível e legítima sua sugestão. Desta forma, propõem em 1879 a construção deste relatório como condição de um dever de seu ofício, solicitando ao seu superior, uma licença de três meses do serviço público para realizar esta “excursão escolar” para dentro do Brasil. Nela, procura demonstrar que sua proposta trata-se de um investimento proveitoso, haja vista a necessidade de estar no Rio de Janeiro, naquele momento, por questões de saúde. Desta forma, sugere que se aproveite sua estada obrigatória para investigar o funcionamento de escolas e estabelecimentos de instrução nestes lugares onde se “achavam mais adiantadas”. Contribuindo para os melhoramentos das instituições de ensino em sua própria província.

Parte em viagem naquele mesmo ano, tendo garantido os seus vencimentos, e ressalta, posteriormente, na parte introdutória do relato oficial da viagem, a importância deste empreendimento, visto que, o andamento do regime interno e externo das escolas “são cousas que não se podem conhecer sómente pela leitura dos programmas e regulamentos”, mas, somente por “observação visual, estudo em presença dos factos e informação circunstanciada e competente”. Um predicado que este Inspetor declara possuir, como evidencia sua escrita.

Em um dos quatro capítulos deste relatório, Uchoa Cavalcanti apresenta livros e métodos utilizados nas escolas que visitou, emitindo, a partir de uma narrativa diagnóstica e comparativa opiniões acerca dos mesmos e recomendando aqueles que considerava mais adequados para o ensino. Os saberes, eleitos pelo inspetor, para sua análise foram instrução moral e religiosa, instrução cívica, leitura, escrita, língua nacional, aritmética e metrologia, geografia e história, economia prática, e por último, música e ginástica.

Percebemos este documento como vestígio das relações de um sujeito envolvido com as questões da instrução no seu tempo, e que nos permite perceber, a partir de sua visão, determinadas práticas ordinárias inscritas no espaço escolar, que ultrapassam leis de regulamentação. Porém, encaramos como necessidade destacar a posição deste sujeito que fala, como uma forma de produzir historia da educação recolocando suas fontes e seus atores nos seus lugares de emergência, e por isso, introduzidas em relações políticas, sociais.

Neste sentido, o presente estudo procura compreender relações e práticas nas quais estes objetos, os livros escolares, estavam envolvidos. Evidenciando determinada cultura escolar, já que entendemos os compêndios como equipamentos privilegiados, logo que, eleitos pelas autoridades governamentais, poderiam viabilizar seu projeto de civilizar a população. Assumindo, nesse ambiente, um duplo papel que seria instrução e controle, por difundir e legitimar determinadas práticas associadas a um modelo ideal de sujeito.


PÔ-LOS NA POSSE DE UMA INSTRUÇÃO”: O ENSINO DE

SURDOS-MUDOS E CEGOS NO SÉCULO XIX
Aline de Morais Limeira - UERJ

Flávia Barreto de Souza – UERJ


Esta pesquisa teve como objetivo precípuo investigar as práticas educativas destinadas aos sujeitos com deficiências físicas, inscritas nas instituições de ensino do século XIX, a saber: Imperial Instituto para Surdos-Mudos e Imperial Instituto de Meninos Cegos, assim como, analisar de que forma se organizam e funcionam estes aparelhos escolares de iniciativa privada, localizados na Corte Imperial. A fundação destas instituições é registrada na segunda metade do Oitocentos, como demonstram informações inscritas em fontes como o Almanak Laemmert, nos anos de 1854 e 1859, e na obra do Conselheiro José Liberato Barroso, de 1867.

A partir das fontes supracitadas foi possível elaborar uma investigação em que, de um lado, percebeu-se a representação acerca destas instituições construída por sua própria fala, visto que os anúncios localizados no Almanak Laemmert montam um registro publicitário em que seus anunciantes expõem aquilo que percebem de si mesmos, e de outro, identificar, a partir da escrita de um intelectual, cuja obra teve significativa circulação na sociedade oitocentista, a representação que este sujeito, comprometido com questões educacionais, constrói acerca destas instituições.

Para isso, investimos também no exercício de caracterização das fontes utilizadas para a escrita desta história, recolocando-as em seus lugares de emergência, inscrevendo-as, e a seus autores, em suas relações políticas e sociais. Quanto ao Almanak Laemmert, destacamos ser uma obra de autoria dos irmãos franceses, Henrique e Eduardo Laemmert, de grande visibilidade no circuito social dos impressos oitocentistas, e que publicada anualmente entre 1844 e 1889, realizava uma radiografia dos espaços públicos e privados da Corte e Província do Rio de Janeiro, a partir dos seus anúncios. Para identificação da segunda fonte, destacamos que Liberato Barroso, foi Ministro do Império em 1864, e a referida obra em que foi realizado um estudo panorâmico acerca da educacão brasileira, é: A Instrução Pública no Brasil.

No que se refere à organização destes institutos, foi possível localizar nestes documentos seus equipamentos e práticas educativas, percebendo quem eram os profissionais especializados neste tipo de ensino, qual era o público que se propunham atender (nas questões relativas a gênero, faixa etária), os custos desta “instrução excepcional”, a organização do plano de estudos com os saberes que o compõem, os objetivos traçados para este tipo de investimento educativo, bem como as relações estabelecidas entre a instância pública e esta prática privada, como subvenção e protetorado imperial.

Consideramos a fundação destas instituições um marco na formalização, na institucionalização destas práticas educativas destinadas aos sujeitos com deficiência física. Contudo, não afirmamos ter sua origem com a criação destas instituições, pois consideramos as múltiplas formas de instrução e educação que coexistiam na sociedade oitocentista, invisíveis nesta investigação do passado pela ausência de documentação que lhes restabeleça uma voz.

Instaurando a problematização de uma discussão, refletimos acerca dos elementos que subtraem dos sujeitos com deficiência um estatuto de sociabilidade. Nesta tarefa, procuramos dar visibilidade a estas iniciativas elaborando um estudo que descrevesse seu funcionamento, mas também desenvolvendo uma análise que (re)pensasse o conceito de deficiência e da perspectiva dicotômica de inclusão/exclusão, condicionando relações sociais e institucionais. Estas leituras, certamente, remetem este objeto à sua incontornável atualidade e às relações de poder/saber em que se inscreve.

À guisa de conclusão, a partir da organização e sistematização destas inquietações, buscamos compreender o lugar social destas instituições, suas contribuições na constituição e na valorização das práticas escolares, culturais e sociais deste público no interior das relações existentes entre as funções de educar, instruir e asilar localizadas no projeto oitocentista de uma nação civilizada.
PENSANDO A HISTÓRIA DO ENSINO DE LÍNGUA E CULTURA JAPONESA NO RIO DE JANEIRO: OS 50 ANOS DO INSTITUTO CULTURAL BRASIL JAPÃO

Aline Rocha de Souza - UFF

Em 18 de junho de 1908, atracando no Porto de Santos, chegava o navio Kasato Maru. Com ele, chegava a primeira leva de imigrantes japoneses ao Brasil. Desde então, outros milhares repetiriam o trajeto, migrando também para outros estados, dedicando-se às mais variadas atividades, agricultura em geral, comércio, indústria, entre outras.

O estado do Rio de Janeiro acolheu uma parte destes imigrantes. Assim, diante a proximidade e dos preparativos para as comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil, decidimos pensar na história do ensino da língua e cultura japonesa no Rio de Janeiro. Aproveitando também o ensejo das comemorações dos cinqüenta anos do Instituto Cultural Brasil Japão, procuramos concentrar a nossa análise nesta instituição, fundada em 5 de agosto de 1957.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, que havia conduzido ao rompimento das relações nipo-brasileiras, somente em 1950 são instalados Escritórios de Representação do Governo Japonês no Rio de Janeiro e em São Paulo como medida preliminar para o reinício das relações. O Instituto Cultural Brasil Japão é erguido sete anos depois, na então capital cultural do país. Sua fundação representou um, dentre outros vários esforços, para a retomada das relações entre os dois países no pós-guerra.

De acordo com seu estatuto, o ICBJ, é uma sociedade civil, sem fins lucrativos ou políticos, com o objetivo de: intensificar as relações culturais entre Brasil e Japão, difundir o conhecimento da cultura japonesa no Brasil e da cultura brasileira no Japão, promover o ensino da língua, da História, da Literatura e das Artes, em geral, do Japão, promover o intercâmbio científico, literário, artístico, social e esportivo entre o Brasil e o Japão, manter intercâmbio com as associações congêneres existentes em outros Estados do Brasil e incentivar a fundação de outras dessas entidades no Brasil e no Japão.

Para elaborar nosso estudo, recorremos à diversas fontes, como: atas de reuniões; discursos de membros e convidados em comemorações e eventos realizados pelo Instituto; jornais, informativos e revistas de circulação restrita aos sócios, membros e corpo discente do ICBJ; entrevistas a membros, sócios, ex-alunos, ex-professores, funcionários, entre outros, que participaram ou acompanharam as atividades do Instituto em seus cinqüenta anos de existência; e, por fim, também fontes iconográficas, fotografias, filmagens e quadros doados ao Instituto e/ou produzidos nas aulas de pintura clássica japonesa e caligrafia artística japonesa.

Tomando como ponto de partida as suas atribuições, nossa pesquisa constituiu no esforço de resgatar a memória da instituição e sua relevância na promoção da língua e cultura japonesa, na intermediação das relações entre os dois países e a importância de sua atuação na preservação de valores societários, artísticos, éticos e culturais entre os imigrantes japoneses e seus descendentes no estado do Rio de Janeiro.


A EDUCAÇÃO EM FERNANDO DE AZEVEDO: ALGUMAS REFLEXÕES

Alzira Batalha Alcântara - UFF

O ponto de partida motivador para este trabalho foi a idéia disseminada - e já questionada - no campo da história da educação brasileira de que o século XIX fora um “vazio educacional” ou um “tempo fraco” em oposição ao “tempo forte” representado pela república. Tal crença teve implicações na produção historiográfica, na medida em que desestimulava incursões neste período.

Autores como Alves, Carvalho, Gondra, Hilsdorf têm apontado para a relevância de pesquisas que contribuam para o rompimento com uma visão que fetichiza o presente, fazendo crer que as iniciativas no campo educacional emergiram apenas no século XX, sobretudo a partir dos anos 20 negando, portanto, seu processo histórico. A obra de Fernando de Azevedo serviu como matriz para esta fetichização. Romper com esta visão colabora para o enfraquecimento da “interpretação da Monarquia como lugar de vazio em termos de escolarização educacional” (Gama & Gondra) o que indica a necessidade de novas investigações.

Diferentes pesquisas buscam desnaturalizar visões que ficaram cristalizadas. A título de exemplificação, vale citar a obra de Carvalho que problematiza a narrativa de Fernando de Azevedo que tende a interpretar os anos 20, sobretudo com a institucionalização da Associação Brasileira de Educação, em 1924, como a chegada do novo (intelectuais renovadores) em detrimento do velho que marcara a época anterior. Outro ponto importante é descaracterizar a idéia de que o docente, ao longo do XIX, mostrou-se apático, desatualizado, desligado da realidade social. Hilsdorf (2001), ao incluir novas fontes e revisitar as antigas com novas perguntas, defronta-se com professores que indagam, reivindicam material para sua aula, denunciam as péssimas condições de trabalho. Assim, Hilsdorf reitera a importância de observarmos outros atores que contribuíram para a educação no XIX. Estes saem do anonimato e ganham foco que antes era destinado aos “grandes homens” A revisão historiográfica possibilita-nos perceber a contribuição das preceptoras, dos imigrantes, das mulheres, da luta dos negros na figura de um professor Pretextato ( Silva, 2000) ou de um Luiz de Gama. (Souza, 2001). Investigar a História da Educação excluindo as múltiplas faces que nela habitam é tentar silenciar o próprio passado.

Os autores acima expressam uma revisão historiográfica pulsante, que estabelece novos diálogos com o XIX e com a própria obra de Fernando de Azevedo. Se a obra deste intelectual foi uma matriz significativa na construção de um olhar que “esvaziou” a potencialidade educacional do XIX, cabe a indagação de como este autor entendia a educação? Quais foram os interlocutores de Azevedo na construção deste olhar? Que sujeitos e instituições foram priorizados em sua análise? O que caberia à História para Azevedo?

O objetivo central deste trabalho é compreender o sentido da educação para Azevedo a partir da sua própria lógica e racionalidade. Corcuff, ao pôr em discussão antinomias clássicas nas ciências sociais, como a relação entre sujeito x objeto; coletivo x individual estimulou-me a dialogar com a obra de Azevedo a fim de recuperar a lógica dessas antinomias que se encontram na base do pensamento azevediano.

Investigar o sentido da educação para Azevedo me fez perceber, de imediato, que este“vazio educacional” não deve ser interpretado literalmente, tampouco deslocado do conjunto da obra. Focar determinadas afirmativas descoladas do arcabouço conceitual que alicerça seu pensamento pode produzir interpretações diferentes daquelas desejadas pelo autor. Este “vazio” tem um sentido e, portanto, não significa ausência de tudo Há diferentes dimensões que se entrelaçam. É um “vazio”grávido de intenções, de apostas.. Para percorrer tais significados, dialoguei com Sociologia Educacional (1964) ; A educação e seus problemas ( s/d); A Cultura Brasileira (1958); Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova ( 1932).



ESTADO NOVO, O COLÉGIO PEDRO II E A PROFISSÃO DOCENTE

Amália Cristina Dias da Rocha Bezerra - UFF

A história da profissão docente é tema em expansão nas pesquisas em educação e remete a análise de diversas dimensões do exercício profissional, da organização da categoria e de suas relações com o Estado. Pesquisamos neste trabalho a história da profissão dos docentes do ensino secundário no Estado Novo, observando as complexas relações entre educação, sociedade e política que caracterizaram aquele regime autoritário.

A profissionalização da atividade docente na sociedade moderna não se produz apenas de forma endógena, pois atuam neste processo as mediações internas e externas exercidas pelo Estado. Por isto investigamos numa perspectiva histórica as relações entre o Estado e o magistério secundário no período do Estado Novo, sob dois aspectos.

O primeiro abrange as relações internas, isto é, de que meios o Estado investiu na conformação do campo pedagógico, mediando a atuação do docente através de um controle sobre os currículos escolares, o material pedagógico, etc. O segundo aspecto enfatizou as relações externas, isto é, como as normatizações sobre o ingresso, a carreira e o salário contribuíram para a sistematização de um estatuto profissional para a categoria.

Nossa questão central consistiu em analisar as relações entre a conformação do campo pedagógico e o exercício da profissão docente, mediadas pelo Estado, assim como a atuação dos professores neste processo. Devido à centralidade do ensino secundário na gestão do ministro da Educação Gustavo Capanema, elegemos o estudo das relações do Estado com os docentes deste nível do ensino, priorizando o Colégio Pedro II, instituição situada no Rio de Janeiro que deveria servir de modelo as instituições de ensino secundário em todo o país.

Sustentamos que a política centralizadora e autoritária que conduziu a atuação do Ministério da Educação no Estado Novo, ao dispor sobre a regulamentação da profissão e intervir sobre a prática pedagógica, fomentou tensões, movimentos de adesão ou resistência que repercutiram sobre a profissionalização da categoria. Assim não contemplamos apenas a ação estatal mas recorremos a atuação dos professores neste processo, sujeitos históricos que não são necessariamente subordinados às imposições das políticas estatais.

Até que medida os dispositivos acionados pelo Estado para obter adesão ao seu projeto político-econômico atingiu o corpo docente do Colégio Pedro II, mobilizando-os a serviço da construção de um “homem novo” para um “Estado Novo”? Quais terão sido as apropriações que esses professores fizeram das políticas educacionais do Estado? De que forma as relações entre política, educação e cultura atuaram sobre o oficio dos professores e o campo pedagógico? Essas perguntas fomentaram nossa pesquisa.

Quanto às fontes, consultamos acervos disponíveis no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro e no Núcleo de Documentação e Memória do Colégio Pedro II. Nossa abordagem buscou “cotejar” as fontes, comparando e articulando o material decorrente da coleta de dados com a literatura sobre as condições econômicas, sociais e políticas do período sob investigação.

Pareceu-nos que o Estado Novo foi importante para conformar a profissionalização da categoria e o estatuto do campo pedagógico. Concluímos também que além da importância da intervenção estatal na institucionalização de um campo de saberes e área de atuação profissional, é preciso ressaltar a atuação dos docentes, o lugar que estes sujeitos ocuparam nas relações sociais em um momento importante da história da profissionalização dos docentes do ensino secundário no Brasil.


POR QUE A GREVE DOS PROFESSORES?”: IMPRENSA E MAGISTÉRIO NO DISTRITO FEDERAL (1955-1960)

Amália Cristina Dias da Rocha Bezerra - UFF

Neste trabalho temos como objetivo analisar a cobertura dada pela imprensa carioca sobre a greve de professores do ensino médio que ocorreu no distrito federal em 1956. O levantamento feito no Setor de Periódicos da Biblioteca Nacional nos principais jornais cariocas da segunda metade da década de cinqüenta nos permitiu reunir amplo material sobre o exercício da profissão docente no Distrito Federal.

Interessa-nos investigar como aquela manifestação de associativismo da categoria foi divulgada pela imprensa para a opinião pública. A repercussão das matérias parece-nos que pode ser avaliada pela decisão da Câmara dos Deputados do Distrito Federal em transcrevê-las nos Anais da Câmara.

Além da ampla cobertura dada ao evento por diversos jornais da capital do país, novas ameaças de greve em todo o país continuam sendo divulgadas após o movimento. É nesse contexto que o jornal Correio da Manhã publicou uma série densa de reportagens em que tentava explicar os motivos que levaram os professores à greve. “Por que a greve dos professores?” é a chamada das matérias, cada uma tendo um subtítulo específico, em que se propõe analisar a situação do ensino médio no país.

Foi interessante observar a reação dos jornais, que se manifestaram fortemente contrários a paralisação dos professores, acusando o movimento grevista de ser incoerente com o juramento de fidelidade e amor a humanidade prestado pelos mestres quando são formados, de ser mau exemplo aos alunos, e uma outra de gama de argumentos que pretenderam desqualificar a iniciativa dos professores, ativando discursos que permitem avaliar como o estatuto da profissão docente era percebido naquele contexto histórico.

Mas longe de ser portadora de um discurso homogêneo, foram também publicadas na imprensa notas do Ministério da Educação sobre a greve, informes de estabelecimentos de ensino, manifestos do sindicato de professores, artigos em defesa do movimento, enfim, pela pesquisa na imprensa pode-se aprender discursos de diversos atores e grupos sociais direta ou indiretamente afetados pela greve.

Deslegitimando a ação grevista, os jornais ora destacaram a infiltração da política, da ação sindical como força revolucionária e desestabilizadora da ordem, ora denunciaram o extremismo de uma categoria de intelectuais que, em lugar de recorrer aos recursos jurídicos institucionalizados, optavam pelo recurso “extremo” da greve para fazer valer as suas reivindicações. Isto ao mesmo tempo em que cobravam do MEC uma ação mais enérgica no sentido de exercer autoridade governamental sobre esse grupo de funcionários, seja pelo atendimento das reivindicações consideradas justas, seja pela força da coerção.

Assim, abandonando a pretensa imparcialidade que inspirava a modernização da imprensa no período, o jornal chamava à reflexão sobre possíveis soluções, a serem observadas pelas autoridades educacionais. A greve dos professores incitou a circulação de diversas representações sobre o magistério, que ora não reconhecem o estatuto profissional da categoria e sua capacidade de associativismo, ora exigem das autoridades públicas atenção com as condições de trabalho do magistério.

Pensamos que tomar a imprensa como fonte, numa abordagem de história social da educação, permite compor um instrumento de pesquisa valioso em que a análise permite apreender as relações do magistério com a sociedade, dos alcances e limites das políticas públicas de profissionalização do magistério e das representações acerca do professor, fornecendo contribuições importantes à história da profissão docente no Brasil naquele contexto de expansão da escolarização e do ensino médio no país.



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