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MAQUIAVEL, NICOLAU. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 182 p. (ISBN 85-336-0550-1)
Página V
Índice

Prefácio

IX

Cronologia

XVII

Nota desta Edição

XXXV

O Príncipe

1

I.

De quantos tipos são os principados e de que modo se adquirem

3

II.

Dos principados hereditários

5

III.

Dos principados mistos

7

IV.

Por que razão o reino de Dario, ocupado por Alexandre, não se rebelou contra os sucessores deste após a sua morte

17

V.

De que modo se devem governar as cidades ou principados que, antes de serem ocupados, viviam sob suas próprias leis

21

VI.

Dos principados novos que se conquistam com armas próprias e com virtù

23

VII.

Dos principados novos que se conquistam com as armas e a fortuna de outrem

27

VIII.

Dos que chegaram ao principado por atos criminosos

37

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VIII.

Dos que chegaram ao principado por atos criminosos

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IX.

Do principado civil

43

X.

De que forma se devem avaliar as forças de todos os principados

49

XI.

Dos principados eclesiásticos

53

XII.

De quantos gêneros há de milícias e de soldados mercenários

57

XIII.

Dos exércitos auxiliares, mistos e próprios

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XIV.

Do que compete a um príncipe acerca da milícia

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XV.

Das coisas pelas quais os homens, e especialmente os príncipes, são louvados ou vituperados

73

XVI.

Da liberalidade e da parcimônia

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XVII.

Da crueldade e da piedade e se é melhor ser amado que temido ou melhor ser temido que amado

79

XVIII.

De que modo devem os príncipes manter a palavra dada

83

XIX.

Como se deve evitar ser desprezado e odiado

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XX.

Se as fortalezas e muitas outras coisas que os príncipes fazem diariamente são úteis ou não

99

XXI.

O que convém a um príncipe para ser estimado

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XXII.

Dos secretários que os príncipes mantêm junto de si

111

XXIII.

Como evitar os aduladores

113

XXIV.

Por que razões os príncipes da Itália perderam seus estados

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XXV.

De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que modo se pode resistir-lhe

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XXVI.

Exortação a tomar a Itália e libertá-la das mãos dos bárbaros

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Ao magnífico Lorenzo de Medici

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Apêndice - Maquiavel e Marx

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Notas

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Prefácio
Dentre os textos que são tidos como “imortais”, este livrinho ocupa um lugar à parte e acredito que único. Nada impede que seja repelido como um “ensaio mau”, inspirado por um espírito de cinismo ou de escândalo. Nada obriga a ver nele um dos textos maiores da literatura política. O que é impossível, tanto hoje quanto no primeiro dia, é largá-lo antes de tê-lo lido até o fim, é pô-lo de lado com indiferença. O príncipe não conservou sua juventude — muitas obras mereceriam este elogio banal —, O príncipe conservou seu poder de fascínio. Sei disso, mas não estou certo de saber por quê.

Ocorre-me uma primeira resposta. O príncipe é um livro cuja aparente clareza deslumbra e cujo mistério os eruditos e os simples leitores tentam em vão esclarecer. Que queria dizer Maquiavel? A quem queria dar aulas, aos reis ou aos povos? De que lado ele se colocava? Do lado dos tiranos ou do lado dos republicanos? Ou de nenhum dos dois?

Hoje não estamos em situação de conservar a interpretação falsamente original de Jean-Jacques Rousseau. Numa nota de O contrato social, ele diz que Maquiavel era um homem honesto e um bom cidadão, mas, estan-


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do ligado à casa dos Medici, era obrigado, em meio à opressão de sua pátria, a disfarçar o seu amor à liberdade. Só a escolha de seu execrável herói, Cesare Borgia, já é suficiente para mostrar sua secreta intenção, e a oposição das máximas de seu livro sobre O príncipe às de seu Discurso sobre Tito Lívio e da História de Florença demonstra que este profundo político só teve até agora leitores superficiais e corrompidos. A corte de Roma proibiu severamente o livro; entende-se, já que é ela que o livro descreve mais claramente. Mas não é isso. Não há contradição entre O príncipe e o Discurso. Maquiavel amava a liberdade e nem mesmo disfarçava seu amor. Mas, para fundar um principado novo ou livrar a Itália dos bárbaros, a liberdade de um povo corrompido teria sido impotente. Quem analisa, à maneira de Aristóteles, os meios necessários para manter a tirania, nem por isso a aprova, e menos ainda aprova a degradação dos costumes que a tornou possível ou inevitável.

Essa busca da verdadeira significação de O príncipe ou da intenção última de Maquiavel não se detém tão rapidamente. Ela é propriamente dialética. Toda resposta a uma questão suscita novas questões e talvez nos leve de volta ao ponto de partida, à interrogação inicial, formulada com mais sutileza. A antítese da liberdade e do despotismo, de O príncipe e do Discurso é factícia. Maquiavel, como todo homem bem nascido, prefere a liberdade e odeia o despotismo. Mas ele tem a experiência tanto da história como da ação. Ele conhece a marcha das coisas humanas, a inconstância das massas, a fragilidade dos Estados. Sem ilusões nem preconceitos, ele observa os diversos tipos de Estados, classifica-os por gêneros, estabelece as leis — leis científicas e não morais


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— segundo as quais cada Principado deve ser conquistado ou governado. Se é verdade que sua atenção se dirige com mais facilidade para os principados novos ou degradados, se parece admirar Cesare Borgia e seus procedimentos, estaríamos errados em censurá-lo por isso. Também o médico consagra mais tempo ao estudo das doenças do que ao da saúde: aquelas são, em certo sentido, mais interessantes do que esta. Mais interessantes porque solicitam a intervenção do médico. Mais interessantes porque revelam o funcionamento do organismo. Ninguém, no entanto, acusará o médico de preferir a doença à saúde. Ademais, seria culpa de Maquiavel se imperavam na Itália os costumes que ele descreve?

Neste ponto da dialética, o intérprete experimenta um sentimento de segurança. Não tem mais necessidade de atribuir ao nosso autor uma capacidade de dissimulação, abjeta ou sublime. Maquiavel tomou-se cientista e para nosso século ébrio de ciência este adjetivo satisfaz a tudo. Maquiavel é o fundador da ciência política e Oscar Morgenstern deplora que os especialistas modernos em ciência política não tenham submetido os preceitos de Maquiavel a uma análise rigorosa a fim de discernir os que talvez tenham um valor operacional.

Releia o leitor o Capítulo VII, em que são contadas as façanhas de Cesare Borgia. Após a ocupação da Romanha, o duque descobriu que ela estava “sob o comando de pequenos senhores sem poder, que mais espoliavam os seus súditos do que os governavam e lhes davam motivos mais para desunião do que para união, tanto que a província estava coberta de latrocínios, tumultos e todas as formas possíveis de insolência, julgou o duque necessário, para pacificá-la e reduzi-la à obediência ao
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braço régio, dar-lhe um bom governo. Colocou ali, então, messer Remirro de Orco, homem cruel e expedito, a quem conferiu plenos poderes. Em pouco tempo, Orco a pacificou e uniu, granjeando grande reputação”. Qual foi a recompensa reservada por Cesare Borgia a este bom servidor: “...quis mostrar que, se ocorrera alguma crueldade, ela não se originava dele, mas da natureza dura do ministro para apaziguar os ânimos do povo e atraí-lo para si. Aproveitando-se da ocasião, uma certa manhã mandou que o cortassem ao meio em praça pública, tendo ao lado um bastão de madeira e uma faca ensangüentada. A ferocidade daquele espetáculo fez o povo ficar, ao mesmo tempo, satisfeito e estarrecido”.

Todo o mistério da clareza de Maquiavel está aí. Nada é mais simples, mais lógico, mais operacional do que a lição deste relato. Não hesitemos, sob o risco de pedantismo, em traduzi-la para linguagem abstrata. Para trazer de volta a paz e fundar uma ordem numa região entregue ao banditismo, o chefe cruel e eficaz satisfaz às necessidades. Numa fase posterior, com a paz já de volta, o sábio presidente de um Tribunal civil substitui com vantagem o homem cruel e eficaz. E, como este último não pode ter deixado de ter feito inimizades, o melhor é sacrificá-lo à cólera do povo ingrato, de modo que o príncipe, Cesare Borgia no caso, pareça inocente das crueldades cometidas em seu nome. Como se opor a razões tão convincentes? Talvez, de fato, seja impossível opor-se a elas. Mas tampouco é fácil subscrevê-las.

A técnica do bode expiatório não era desconhecida nas sociedades arcaicas. Incontestavelmente, ela pode ser vantajosa para os príncipes. Basta que ela tenha êxito na maior parte dos casos para que o médico do corpo
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social tenha o direito de recomendá-la? “Afirmo, portanto, que os estados que, depois de conquistados, são anexados a um antigo estado de quem o conquistou ou são da mesma província e língua deste ou não o são. Se forem, será fácil conservá-los, principalmente se não estiverem habituados a viver livres. Para possuí-los com segurança, basta extinguir a dinastia do príncipe que os dominava.” Chamaremos de “preceito operacional” o conselho dado ao príncipe novo de mandar matar todos os membros da antiga família reinante? O conselho é tão bom a curto prazo e no plano da eficácia quanto o de mandar matar o leal servidor que ao mesmo tempo restabeleceu a ordem por meios eficazes e suscitou ódios. “Sendo os homens o que são”, os preceitos que a experiência do mundo sugere não coincidem com os que os moralistas ensinam.

Imediatamente, a interrogação surge. Maquiavel não se compraz em sugerir que os meios politicamente eficazes contradizem o ensinamento da Igreja? Pela escolha de seu herói não atrai ele uma adesão, menos hesitante do que seria de desejar, ao que foi chamado de “governo à florentina”? É bem verdade que todos os Estados nasceram da violência e, por conseguinte, os fundadores de Estados, os que erguem ou reerguem esses frágeis monumentos — as cidades humanas — estão condenados à violência. Mas pela maneira com que ele defende e ilustra esses arquitetos da história, Maquiavel incita ao vício ou à virtude, ao maquiavelismo ou à República? Refere-se de quando em quando à Igreja para camuflar o cinismo de seu ensinamento ou para dar livre curso a seus sentimentos recalcados pelas obrigações da verdade científica? Enfim, Maquiavel tinha intenções maquia-


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vélicas, dissimulando pela metade uma política decididamente amoral, apresentando-a às vezes como baseada em constatações objetivas, às vezes como culpada mas inevitável?

Afinal de contas, os observadores podem interpretar a experiência histórica de modo totalmente diferente de Maquiavel, sem, no entanto, estarem cegos ao êxito da crueldade e do crime. Jacques Maritain utiliza contra o maquiavelismo a consideração da duração histórica. “O bem temporal em que frutifica a justiça do estado, o mal temporal em que frutifica sua iniqüidade, podem ser e na verdade são inteiramente diferentes dos resultados imediatos que o espírito humano podia prever e que os olhos humanos contemplam. É tão difícil destrinçar as ações causais afastadas quanto discernir, na embocadura de um rio, de que geleiras ou de que afluentes provém esta ou aquela porção de suas águas.” Maritain também não me convence. Apenas me faz lembrar que a leitura maquiavélica da história não é a única possível e que essa leitura deriva de certa intenção. Qual? Eis-nos numa encruzilhada, pois várias respostas são possíveis. A leitura lhe era imposta pelas circunstâncias, pelo projeto científico, pelas buscas das origens ou pela atenção às situações extremas, pelo pessimismo quanto à natureza humana, pelo ardor republicano e pela vontade de unir uma Itália livre dos bárbaros? Todas estas respostas foram dadas por um ou outro crítico. E, qualquer que seja a resposta, o debate continua, banal e indefinido: a política é ação e a ação tende ao êxito. Se o êxito exige o emprego de meios moralmente repreensíveis, deve o príncipe renunciar ao sucesso? Sujar as mãos? Sacrificar a salvação de sua alma pela salvação da cidade? Onde se


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deterá no caminho que não pode deixar de tomar? Que mentira recusará, se precipita sua queda confessando a verdade?

Escrevo no mês de março de 1962. Há três anos e meio uma República caía porque era incapaz de conservar a Argélia para a França. Os fundadores da República seguinte prosseguiram obstinadamente a política cuja veleidade acusavam os antigos dirigentes de alimentar. Mas, se era preciso gritar “Argélia francesa” para trazer de volta o general De Gaulle ao poder e se este retorno ao Élysée do solitário de Colombey era indispensável para o bem público, aqueles que enganaram seus fiéis e o povo sobre seus objetivos não desonraram, enfim, seu nome e serviram o Estado? Ou devemos dizer que os príncipes que nos governam não podem servir o Estado se faltam com sua honra? Mas quem será juiz de sua honra? E o povo os acusará de enganação no dia em que esta tiver sido bem-sucedida?

Maquiavel teve a coragem de ir até o fim de uma lógica de ação contra a qual o leitor procura abrigo em interrogações sem resposta.
Raymond Aron

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Cronologia
Vida e Obra de Maquiavel
1469, 3 de maio. Nasce em Florença Niccolò Machiavelli (Nicolau Maquiavel), filho de Bernardo, advogado, e de Bartolomea de Nelli, poetisa amadora. Terceiro de quatro filhos, Niccolò é educado em ambiente culto e relativamente abastado. Herdou do pai uma vocação para os estudos históricos e jurídicos, que viria a desempenhar um papel essencial em seus futuros interesses políticos.

1469. Morre Pietro de Medici, sendo sucedido por seu filho, Lorenzo, o Magnífico.

1476. Maquiavel inicia-se no estudo da matemática e do latim.

1477. Por suas qualidades precoces, Maquiavel é confiado à escola de Battista da Poppi, na igreja de San Benedetto.

1478. Por ocasião da Congiura de Pazzi, morre Giuliano de Medici, irmão de Lorenzo.

1481. Maquiavel passa para a escola de um conhecido latinista, Paolo de Ronciglione, com o qual estuda mais profundamente os autores latinos (não há informações de que tenha estudado o grego).


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1490. O frade dominicano Gerolamo Savonarola, já ativo em Florença de 1482 a 1487, volta para a cidade e retoma suas pregações provocando amplas adesões populares.

1492. Morre Lorenzo de Medici, sendo sucedido por seu filho Piero (1471-1503). Com a morte de Inocêncio III, é eleito papa Alexandre VI Borgia.

1494, setembro-dezembro. Avançando suas pretensões sobre o reino de Nápoles, Carlos VIII, rei da França, chega à Itália e entra também em Florença. Piero de Medici é expulso da cidade sob a acusação de ter aceito, sem nenhuma hesitação, as onerosas exigências do soberano francês, e os habitantes de Florença proclamam a República. Gerolamo Savonarola aproveita-se da situação para tornar-se árbitro da vida florentina.

1495. É provável que seja deste ano, ou dos anos imediatamente posteriores, a transcrição que Maquiavel fez de próprio punho do De rerum natura de Lucrécio, encontrada há pouco tempo num código vaticano. O documento revela uma visão materialista do mundo, oposta ao espiritualismo de Savonarola, tão aceito na época.

1497. Maquiavel patrocina, em nome de “toda a família de Machiavegli, cives florentini”, uma causa de benefícios, relativa aos recebimentos fiscais e ao proveito de vários direitos na região de Pieve di Fagna. Para obter uma sustentação à causa, Maquiavel vai a Roma com uma recomendação de Pietro Dolfin, geral dos monges comaldolenses, para o cardeal Todeschini Piccolomini, futuro papa Pio III.
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1498, 18 de fevereiro. Candidato à secretaria da segunda chancelaria, que tratava dos negócios internos e extraordinários, entre os quais os problemas da guerra, Maquiavel é derrotado pelo candidato do partido de Savonarola.

9 de março. Maquiavel escreve uma carta a Ricciardo Becchi, embaixador florentino em Roma, denunciando a hipocrisia e a demagogia de Savonarola.

23 de maio. Acusado de heresia e excomungado, Savonarola é processado, enforcado e queimado na Piazza della Signoria. Segue-se uma profunda depuração do governo republicano e Maquiavel aproveita a ocasião para voltar a propor sua candidatura à segunda chancelaria da República.

19 de junho. Maquiavel é eleito secretário da República, ou seja, chefe da segunda chancelaria. A este cargo acrescenta-se, em 14 de julho, o de secretário dos “Dieci di Balia”, magistratura que tinha a atribuição de supervisionar as relações entre Florença e os outros Estados. Nessas funções, Maquiavel reunirá enorme quantidade de material histórico e político, que constituirá o esquema básico de todas as suas obras.

1499, março. Enfrenta sua primeira missão junto a Iacopo d’Appiano, senhor da cidade de Piombino, para supervisionar a contratação das tropas mercenárias.

Julho. É enviado junto a Caterina Riario Sforza, condessa de Forlì, para induzi-la a participar da guerra contra Pisa. A expulsão da família Medici e o conturbado período que culminou com a morte de Savonarola haviam despertado as especifici


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dades municipais de muitas cidades sujeitas a Florença. Entre os encargos de Maquiavel estava o de levar a termo qualquer iniciativa que pudesse pôr fim às lutas municipalistas.

Setembro-dezembro. Em Pisa, onde acompanhava as operações das tropas florentinas, Maquiavel envia à chancelaria um curto relatório, Discorso fatto al magistrato dei Dieci sopra le cose di Pisa (Discurso feito ao magistrado dos Dez a respeito dos fatos de Pisa).

1500, julho. Junto com Francesco della Casa, Maquiavel é enviado à França para exprimir a Luís XII o ressentimento da República florentina depois do motim das tropas francesas que, a serviço de Florença, assediavam a cidade de Pisa. Maquiavel propõe aos franceses um sistema de alianças capaz de “reduzir os poderosos, agradar aos súditos, manter os amigos e proteger-se dos companheiros, ou seja, daqueles que querem ter igual autoridade”. Esses conceitos, contidos num relatório enviado a Florença, aparecem de forma quase idêntica no Capítulo III de O príncipe, no qual se examinam os erros da política italiana de Luís XII.

1501. Casa-se com Marietta di Luigi Corsini, que lhe dará seis filhos.

1502, fevereiro. Encontra-se em Pistóia, dilacerada por lutas entre facções. Surgem dois secos lembretes de chancelaria, Ragguaglio delle cose fatte dalla republica fiorentina per quietare le parti di Pistoia e De rebus pistoriensibus (Resumo das coisas feitas pela república florentina para pacificar as partes de Pistóia e Das coisas de Pistóia), que pro-
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põem os temas mais importantes da ação política de Maquiavel: impedir o fracionamento municipalista do território florentino e dificultar qualquer movimento unificador das regiões centro-setentrionais da Itália. A oposição a um grande Estado italiano está em antítese com o que é afirmado mais tarde em O príncipe, mas sua ação a serviço de Florença visava exclusivamente a segurança da República.

Junho. Cesare Borgia, o duque Valentino, apodera-se do ducado de Urbino, atravessando o território da República florentina como se fosse dono de tudo; o bispo Soderini (irmão de Pier Soderini, gonfaloneiro de Florença) vai até Urbino a fim de averiguar as intenções de Borgia. Maquiavel o acompanha. O duque Valentino provoca nele uma impressão determinante para a imagem do futuro protagonista de O príncipe: líder audacioso e impiedoso, dotado de excepcionais qualidades políticas e militares, friamente determinado a criar para si um grande Estado. É uma impressão tão forte, que Maquiavel, em conflito entre a admiração e os deveres de sua missão, evita formular qualquer hipótese sobre a ação futura de Borgia. Pede a seu coadjutor na chancelaria, Biagio Buonaccorsi, uma cópia das Vidas de Plutarco para procurar ali um termo de comparação com a inquietante figura do duque. É o primeiro passo para o processo de mitificação do personagem que terá seu ponto culminante no Capítulo VII de O príncipe, no qual a figura de Valentino adquire um valor paradigmático.


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Outubro. Os senhores da cidade da Romanha formam uma coalizão contra o duque Valentino (Dieta della Maggione), e Maquiavel é enviado para Senigallia a fim de acompanhar os movimentos de Borgia. As cartas enviadas aos Dez mostram a perspicácia com que Maquiavel procura penetrar os propósitos do duque e seu ceticismo em relação à intenção de paz atribuída a Borgia.

1503, janeiro. Cesare Borgia, depois de atrair em emboscada, na cidade de Senigallia, os ex-conspiradores da Maggione, mata-os sem nenhuma piedade. Maquiavel presencia o fato e ao voltar de sua missão elabora a impassível Descrizione del modo tenuto dal Duca Valentino nello ammazzare Vitellozzo Vitelli, Oliverotto da Fermo, il signor Pagolo e il duca de Gravina Orsini (Descrição do comportamento do duque Valentino ao matar Vitellozzo Vitelli, Oliverotto da Fermo, o senhor Pagolo e o duque de Gravina Orsini).

Junho. Encarregado por Pier Soderini de organizar as forças militares para colocar um fim à guerra contra Pisa e para dominar as insurreições de Arezzo e da Valdichiana, Maquiavel resume seu pensamento em dois relatórios: Parole da dirle sopra Ia provisione del denaio e Del modo di tratare i popoli dela Valdichiana ribellati (Palavras que quero dizer-lhe a respeito da provisão do dinheiro e Do modo de tratar os povos rebelados da Valdichiana). No primeiro relatório destaca-se o desenvolvimento de um conceito que se tornará fundamental em sua especulação política: a necessidade da “força” (as armas) e ao mesmo tempo da “prudên-
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cia” (uma inteligente estratégia política) para levar a bom termo toda e qualquer ação de governo. No segundo, há uma importante menção à teoria da história como magistra vitae.

Agosto. Morre o papa Alexandre VI, o pai do duque Valentino, e, apenas dois meses mais tarde (18 de outubro), o seu sucessor, Pio III.

Outubro. Maquiavel é enviado a Roma para acompanhar o novo conclave. Desfaz-se o mito de Cesare Borgia, que, atormentado por uma grave doença, não consegue se opor à eleição de Giuliano della Rovere, ao qual, confiando em fingidas promessas, termina concedendo também o próprio apoio. Eleito papa e já com o nome de Júlio II, Giuliano retira de Borgia a sustentação da Igreja. No relatório enviado a Florença, Maquiavel julga com palavras duras o incerto comportamento de Cesare Borgia: mas a experiência borgiana se transforma numa etapa fundamental no desenvolvimento de suas concepções políticas.

1504, janeiro. Maquiavel é enviado à França para definir os termos da aliança com Luís XII.

Outono. Escreve o Decennale primo, uma crônica em versos dos acontecimentos italianos entre 1494 (chegada de Carlos VIII na Itália) e 1504 (queda de Cesare Borgia).

1505, maio-julho. Maquiavel completa duas missões exploratórias (à procura de novas alianças) em Mântua, junto aos Gonzaga, e em Siena, junto a Pandolfo Petrucci.

12 de setembro. Os florentivos são derrotados sob as fortificações da cidade de Pisa devido à defec-
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ção dos soldados da infantaria mercenária. Pier Soderini decide então executar os projetos tão longamente acalentados por Maquiavel, criando uma milícia comunal constituída pelos habitantes de Florença.

1506, janeiro-março. Maquiavel dirige-se para a região de Mugello e do Casentino para recrutar novas milícias destinadas a substituir as companhias de ventura.

Agosto-outubro. Segue como observador a expedição de Júlio II contra Perúgia e Bolonha. Desta missão surgem os importantes Ghiribizzi scripti in Perugia al Soderino (Esboços escritos em Perúgia ao Soderino) em que se afirma a necessidade de se “ver nas coisas o fim e não os meios”: esta idéia — juntamente com o conceito informativo dos Ghiribizzi, ou seja, que não existe uma política intrinsecamente boa ou ruim, e sim útil ou danosa à segurança do Estado — remete ao mais maduro pensamento dos Capítulos XV-XVIII de O príncipe.

Dezembro. É criada em Florença a magistratura dos “Nove della milizia” para organizar o recrutamento dos cidadãos, e Maquiavel torna-se o seu secretário. Para esclarecer seu pensamento a respeito da estrutura e do funcionamento da nova milícia, escreve o Discorso dell'ordinare lo stato di Firenze alle armi (Discurso de organizar o Estado de Florença às armas), no qual propõe que o recrutamento se dê exclusivamente nos campos, para evitar que, armando-se os habitantes da cidade, se favoreça um golpe de Estado. Propõe, pela


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mesma razão, que os oficiais sejam substituídos a cada ano.

1507, dezembro. Maquiavel é enviado, em sinal de apoio a Francesco Vettori, como observador na região de Tirolo, junto a Maximiliano de Habsburgo que, reivindicando Trieste e Fiume, ocupadas pelos venezianos, tencionava vir para a Itália confiando no apoio do papa. Por sua vez, Júlio II estava empenhado em organizar a coalizão de Estados europeus contra Veneza (Liga de Cambrai), que se recusava a deixar alguns territórios do Estado pontifício. O dever do chanceler é negociar um tributo a ser oferecido ao imperador para que seja assegurada a integridade do domínio florentino.

1508, junho. De volta a Florença, escreve Rapporto delle cose della Magna (Relatório das coisas da Alemanha), condensado em 1509 no Discorso sopra le cose dell’Alemanha e sopra l'imperatore (Discurso a respeito das coisas da Alemanha e do imperador) e remanejado em 1512 no Ritratto delle cose della Magna (Retrato das coisas da Alemanha).

10 de dezembro. É firmada a Liga de Cambrai. Florença, que figura entre os signatários, obtém forças suficientes para debelar a resistência de Pisa. Como organizador das forças militares, Maquiavel participa ativamente do empreendimento.

1509, 10 de março. Encontra em Piombino uma delegação de Pisa que se apresenta para tratar das condições da rendição.

14 de maio. Os venezianos são derrotados em Agnadello pelas tropas da Liga de Cambrai. Júlio II


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retoma a posse das cidades da Romanha. Maquiavel percebe o perigo que o expansionismo do estado pontifício representa para Florença: no Decennale secondo (escrito em época indefinida entre 1509 e 1514) retrata a ação política e militar do papa como uma fúria funesta.

Novembro. Maximiliano de Habsburgo continua a guerra contra Veneza: Maquiavel, que se dirigiu a Verona para efetuar o pagamento combinado com o tesoureiro do imperador, envia a Florença um relatório no qual coloca em destaque o heroísmo dos camponeses vênetos contra os alemães.

1510, fevereiro. Júlio II promove uma clamorosa inversão de alianças, entrando em acordo com os venezianos: disso resulta uma forte tensão entre o Estado pontifício e a França.

Junho. O governo florentino encarrega Maquiavel de servir de mediador entre o papa e o rei de França. De Blois, onde deve encontrar Luís XII, Maquiavel envia a Florença uma série de cartas que são um claro exemplo de sua fria lucidez de julgamento e da tendência a introduzir a consideração pontual dos fatos no âmbito de uma concepção política mais geral. Neste relatório, Maquiavel convida o governo florentino a assumir uma clara posição em favor do papa ou de Luís XII, para não se tornar vítima, em caso de guerra, do vencedor: seu conselho, todavia, não é ouvido e Soderini persiste numa política de equilíbrio entre França e papado.

Outubro. De volta a Florença, Maquiavel escreve o Ritratto delle cose di Francia (Retrato das coisas da França).
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1511. Luís XII promove um concílio de cardeais filofranceses, a ser celebrado em Pisa, com a intenção de exigir a deposição do papa sob a acusação de simonia.

Final de agosto. Espalha-se a noticia de que Júlio II está gravemente doente e Pier Soderini resolve apoiar os cardeais filofranceses, confiando na sua vitória. Inesperadamente, Júlio II se recupera, e Maquiavel, mobilizado para desviar a ira do papa, exprime uma dura opinião a respeito de Soderini, acusando-o de ingênuo.

10 de setembro. Maquiavel é enviado a Milão e à França para tentar impedir ou adiar a convocação do concílio.

23 de setembro. Júlio II ameaça com a interdição a cidade de Florença.

5 de outubro. O papa (com Veneza, império e Espanha) proclama a Liga Santa contra os franceses.

Novembro. Maquiavel é enviado a Pisa para induzir os cardeais cismáticos a transferirem o concílio para outra sede.

1512, 11 de abril. Batalha de Ravenna: os franceses vencem as tropas da Liga Santa, mas a chegada de reforços inimigos neutraliza os efeitos da vitória, obrigando-os a deixar a planície paduana (norte da Itália). Florença fica à mercê do papa.

29 de agosto. As milícias comunais, reunidas por Maquiavel, são derrotadas pelas tropas espanholas e pontifícias que conquistam e saqueiam Prato.

1° de setembro. A derrota militar provoca a demissão de Soderini, e Maquiavel procura desenvolver
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um trabalho de pacificação urbana enviando um apelo ao partido dos Medici (Ricordo ai Palleschi) para que não se exceda em crueldade contra o gonfaloneiro derrotado.

16 de setembro. O governo republicano é desfeito e, com o apoio do papa, os Medici voltam para a cidade. Maquiavel não consegue escapar ao expurgo da organização estatal.

7 de novembro. Dispensado de todos os seus encargos, Maquiavel é condenado a pagar uma fiança de 1.000 florins de ouro; além disso, por doze meses se vê proibido de entrar no Palazzo Vecchio.

1513, fevereiro. Sob suspeita de participar de um complô contra os Medici, Maquiavel é preso e torturado. Reconhecido inocente e colocado em liberdade, retira-se para Sant’Andrea in Percussina, na villa conhecida como L’Albergaccio.

Morre Júlio II. Seu sucessor é o cardeal Giovanni Medici, sob o nome de Leão X. Ao deixar Florença, este deixa em seu lugar o sobrinho Lorenzo II (1492-1519), filho de Piero.

10 de dezembro. Numa carta ao embaixador florentino Francesco Vettori, Maquiavel anuncia: “Escrevi um livreto, De principatibus (O príncipe), onde me aprofundo o mais que posso nos argumentos do assunto acima, investigando o que é principado, de que espécie são, como se conquistam, como se mantêm, por que se perdem.” A obra é dedicada a Lorenzo II de Medici.

1515, setembro. Maquiavel apresenta O príncipe a Lorenzo de Medici, que o acolhe com extrema frieza.
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1516. Confirmada mais uma vez sua exclusão de qualquer posto político, Maquiavel dedica-se à atividade literária e freqüenta as reuniões de um cenáculo de escritores e poetas nos jardins do palácio Rucellai (Orti Oricellari) em Florença. Começa L'Asino, um poemeto autobiográfico em terceira rima.

Outubro. Lorenzo II de Medici é empossado no ducado de Urbino.

1517. Maquiavel conclui a obra Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio (Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio), iniciada em 1513 e interrompida para a execução de O príncipe.

1518, janeiro-fevereiro. Escreve a Commedia di Callimaco e di Lucrezia (A mandrágora) e a novela Belfagor arcidiavolo (originariamente intitulada Il demonio che prese moglie). Interessa-se pelo problema de uma língua nacional e escreve o Discorso o dialogo intorno alla nostra lingua (Discurso ou diálogo a respeito da nossa língua).

1519, 4 de maio. Morre Lorenzo II de Medici, e Maquiavel volta à vida política. O cardeal Júlio de Medici, que o sucede no governo da cidade, solicita — a pedido do papa, que tinha grande influência sobre a vida florentina — a opinião de Maquiavel sobre a futura ordem de Florença. Maquiavel responde com um relatório, Discursus florentinarum rerum post mortem iunioris Laurentii Medices (Discurso das coisas florentinas depois da morte do jovem Lorenzo Medici), no qual se reafirma o conceito da política como ciência autônoma, enquanto a vida do Estado é vista como luta “entre diferentes qualidades de homens que estão em to-
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das as cidades, ou seja, proeminentes, medianos e últimos”.

Junho. Começa o tratado Dell’arte della guerra (Da arte da guerra) que terminará um ano mais tarde.

1520, julho. Maquiavel é enviado a Lucca, para tutelar os interesses de alguns mercadores florentinos envolvidos numa grave falência. Em Lucca, escreve a Vita di Castruccio Castracani e a seguir resume a missão por ele exercida em Lucca num curto Sommario delle cose della città di Lucca (Sumário das coisas da cidade de Lucca).

Novembro. O Studio florentino (a universidade) confia a Maquiavel a tarefa de escrever a história de Florença. A obra, Istoire fiorentine (Histórias florentinas), o mantém ocupado cinco anos, embora sua maior parte tenha sido escrita em 1523-1524. Ela abrange o período que vai até a morte de Lorenzo, il Magnifico (1492).

1521, maio. Maquiavel é enviado a Carpi para o Capítulo dos frades menores para acompanhar a eleição do geral e para solicitar a separação dos conventos florentinos da Ordem. Numa etapa da viagem, visita em Modena Francesco Guicciardini, governador da cidade. De Carpi envia a ele divertidos relatórios epistolares a respeito da “República dos Tamancos”.

Verão. Ao ver frustradas as suas tentativas de se inserir definitivamente na vida política, Maquiavel retira-se mais uma vez em suas propriedades de Sant’Andrea. Enquanto isso, sua reputação de literato e autor teatral aumenta: A mandrágora obtém em toda parte sucessos estrepitosos.


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1° de dezembro. Morre Adriano VI, sendo sucedido por Leão X.

1523. Com a morte de Adriano VI, Giulio de Medici é eleito papa, assumindo o nome de Clemente VII.

1524. O cardeal Ippolito de Medici, filho natural de Giuliano de Nemours, é senhor de Florença.

1525, janeiro-fevereiro. Maquiavel escreve uma segunda comédia, Clizia.

24 de fevereiro. Francisco I, rei da França, é derrotado em Pavia pelas tropas imperiais de Carlos V.

Fim de maio. Encontra-se em Roma, para oferecer a Clemente VII as Istorie fiorentine. Expõe ao papa um novo projeto de tropas nacionais, mostrando a necessidade de contrapor uma forte milícia italiana aos exércitos estrangeiros acampados na planície padana (norte da Itália). Três meses antes, em 24 de fevereiro, Francisco I, rei de França, havia sido derrotado em Pavia pelas tropas imperiais de Carlos V.

Agosto. De volta a Florença, Maquiavel obtém a reabilitação completa de seus cargos políticos. É enviado em missão a Veneza.

1526. Liga de Cognac, contra Carlos V, que congrega papa, França, Veneza e Milão. Em abril-maio, o papa, enviando o conde Pietro de Navarra a inspecionar as fortificações florentinas, coloca a seu lado Maquiavel. Após um primeiro relatório sobre a situação das fortificações, Maquiavel viaja para Roma, onde recebe o encargo de adotar todas as medidas necessárias para a segurança da cidade.

Junho. Maquiavel colabora em Florença para a constituição de um conselho de defesa, os “Cinco
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procuradores das fortificações”, dos quais ele mesmo passa a fazer parte.

Verão. Nas proximidades de Milão, Maquiavel acompanha as operações de guerra contra as tropas imperiais. Por ordem de Guicciardini, tenente-geral do exército pontifício, viaja para Urbino para solicitar dos chefes da Liga antiimperial uma conduta bélica mais decidida e firme contra Carlos V.

1527, maio. Os Lanzichenecchi, a serviço de Carlos V, conquistam Roma e a submetem ao saque. O papa vê-se obrigado a uma trégua que reforça, em Florença, os opositores dos Medici, tradicionais aliados do pontífice. No dia 18, uma sublevação popular destrona o governo dos Medici e restabelece a constituição republicana. Maquiavel, na ocasião em Civitavecchia, onde estava inspecionando a frota de Andrea Doria, volta rapidamente para Florença, mas depara-se com uma hostilidade geral: não apenas sua colaboração com a família Medici, mas também as interpretações facciosas de O príncipe — então já amplamente conhecido — o tornam alvo de profundas antipatias. “Os ricos”, testemunha Giovan Battista Busini nas Lettere a Benedetto Varchi, “achavam que aquele seu Príncipe fosse um documento que ensinava ao Duque como tirar deles todas as riquezas, e os pobres julgavam O príncipe um documento destinado a ensinar aos ricos como tirar a liberdade dos pobres; os chorões (os seguidores de Savonarola) tinham Maquiavel como herético; os bons o consideravam um desonesto; os tristes o achavam mais triste ou mais valente do que eles; assim, todos o odiavam”.
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21 de junho. Despojado de todos os seus cargos da nova República, morre pobre em Florença, chorado apenas por poucos amigos do cenáculo dos Orti Oricellari. No dia seguinte, é enterrado em Santa Croce.

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