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Nota desta Edição
A presente edição baseia-se no texto e no aparelho critico estabelecidos por Bruna Cordati para a Ed. Loescher, Torino.

As notas foram selecionadas e traduzidas por Maria Júlia Goldwasser e Roberto Leal Ferreira.


O Editor

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O PRÍNCIPE
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Capítulo I



De Quantos Tipos São os Principados e de que Modo se Adquirem [nota 1]
Todos os estados, todos os domínios que tiveram e têm poder sobre os homens foram e são ou repúblicas ou principados [nota 2]. Os principados ou são hereditários — nos quais o sangue de seu senhor vem governando há longo tempo — ou são novos. Os novos ou são inteiramente novos, como Milão sob Francesco Sforza [nota 3], ou são como membros anexos ao estado hereditário do príncipe que os adquire, como é o caso do reino de Nápoles em relação ao rei da Espanha [nota 4]. Os domínios [nota 5] assim formados estão habituados ou a viver sob um príncipe ou a ser livres. E se adquirem ou com armas de outrem, ou com as próprias, graças à fortuna ou à virtù [nota 6].
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Capítulo II



Dos Principados Hereditários
Não tratarei aqui das repúblicas porque, em outra ocasião, discorri longamente sobre o assunto [nota 1]. Ocupar-me-ei somente dos principados e, retomando o raciocínio anterior, discutirei de que forma podem ser governados e mantidos.

Digo assim que, nos estados hereditários e acostumados à dinastia de seus príncipes, são bem menores as dificuldades para se governar do que nos novos, pois basta não descuidar da ordem instituída pelos seus antepassados e, depois, saber contemporizar os acidentes, para que um príncipe de capacidade mediana mantenha-se em sua posição, desde que não seja privado dela por alguma força excessiva e extraordinária. E, ainda que o seja, a reconquistará ao menor revés do usurpador.

Há na Itália, por exemplo, o duque de Ferrara [nota 2], que só resistiu aos ataques dos venezianos em 1484 e aos do papa Júlio em 1510 por ser antigo o seu poder naquele domínio. Ora, o príncipe natural [nota 3] tem menos motivos e menos necessidade de ofender; daí resulta que seja mais amado; e, se vícios excepcionais não o tornarem odioso, é compreensível que seja naturalmente benquisto
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pelos seus. Com a antiguidade e a continuidade do poder, apagam-se as lembranças e as razões das alterações; pois sempre uma mudança deixa preparadas as fundações da outra.
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Capítulo III

Dos Principados Mistos
Mas é no principado novo que estão as dificuldades. Em primeiro lugar, se não é completamente novo, mas membro anexo a outro [nota 1] (podendo-se chamar o conjunto de principado misto), as alterações nascem principalmente de uma dificuldade natural a todos os principados novos, que consiste no fato de os homens gostarem de mudar de senhor, acreditando com isso melhorar. Esta crença os faz tomar armas contra o senhor atual. Só mais tarde percebem o engano, pela própria experiência de ter piorado. Isto decorre de uma outra necessidade natural e ordinária, a qual sempre impõe ofender aqueles a quem se passa a governar, tanto com homens em armas quanto com outras infinitas injúrias que cada nova conquista acarreta. Assim, tens como inimigos todos os que ofendeste ao ocupar aquele principado, além de não poderes continuar amigo dos que te apoiaram, devido à impossibilidade tanto de atendê-los conforme esperavam como de usar contra eles um remédio forte, uma vez que lhes deves obrigações. Pois, por mais que alguém disponha de exércitos fortes, sempre precisará do apoio dos habitantes para penetrar numa província [nota 2]. Foi por essa razão que o rei de França, Luís XII, rapidamen-
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te ocupou Milão e rapidamente a perdeu [nota 3], bastando, da primeira vez, as próprias forças de Lodovico para retomá-la, pois o mesmo povo que lhe havia aberto as portas, ao perceber que se equivocara em sua opinião sobre ele e sobre os futuros benefícios esperados, não pôde suportar os aborrecimentos provocados pelo novo príncipe.

É bem verdade que, adquiridos pela segunda vez, os países rebelados se perdem com mais dificuldade, pois, diante de uma rebelião, o senhor agirá com menos timidez para determinar a punição dos traidores, identificar os suspeitos e reforçar seus pontos mais fracos. Desse modo, se da primeira vez bastara um duque Lodovico fazer barulho nas fronteiras para que a França perdesse Milão, da segunda vez foi preciso que todo o mundo se unisse contra ela [nota 4], e que seus exércitos fossem aniquilados ou expulsos da Itália, o que decorre das razões acima mencionadas. Todavia, a primeira e a segunda vez Milão lhe foi tirada.

As razões universais da primeira perda já foram apontadas; resta agora discutir as da segunda e verificar de que remédios ele dispunha e de quais pode dispor alguém na mesma posição da França, para poder conservar suas conquistas melhor do que ela o fez. Afirmo, portanto, que os estados que, depois de conquistados, são anexados a um antigo estado de quem o conquistou ou são da mesma província e língua deste [nota 5] ou não o são. Se forem, será fácil conservá-los, principalmente se não estiverem habituados a viver livres. Para possuí-los com segurança, basta extinguir a dinastia do príncipe que os dominava, porque, quanto às demais coisas, mantendo-se suas antigas condições e não havendo disparidade de
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costumes, podem os homens viver tranqüilamente, como fizeram de fato a Borgonha [nota 6], a Bretanha [nota 7], a Gasconha [nota 8] e a Normandia [nota 9], que há tanto tempo pertencem à França e, tendo costumes semelhantes, conquanto haja alguma diferença de língua, podem facilmente se ajustar. Quem deseja conservar suas conquistas deve ter em mente duas precauções: uma é extinguir o sangue do antigo príncipe; outra é não alterar suas leis e impostos. Desse modo, em tempo muito breve elas se integrarão ao principado antigo, formando um único corpo.

Mas é na conquista de domínios em regiões totalmente diferentes quanto à língua, costumes e instituições que se encontram as dificuldades, sendo necessário ser muito afortunado e ter muita habilidade para conservá-los. Um dos maiores e eficazes recursos para este fim é que o conquistador vá residir no lugar. Isto torna a possessão mais segura e durável; assim fez o grão-turco na Grécia [nota 10], que, mesmo observando todas as outras medidas para assegurar aquele domínio, não o teria mantido se não se tivesse transferido para lá. Estando presente, vê nascerem as desordens, e logo pode contorná-las, enquanto, estando ausente, delas só tem notícias quando já estão grandes e irremediáveis. Além disso, a província não será espoliada pelos funcionários, podendo os súditos recorrer de perto ao príncipe, tendo por isso mais razões, se forem bons, para amá-lo ou, do contrário, para temê-lo. Também os estrangeiros que pretenderem invadir aquele estado serão mais prudentes, porque, ali habitando, só com imensa dificuldade o príncipe poderá perdê-lo.

O segundo melhor meio é fundar colônias em um ou dois lugares que atuem como entraves àquele estado,
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porque é necessário ou fazer isto ou manter bastante gente em armas e infantaria. Nas colônias, não se gasta muito; com pouca ou nenhuma despesa elas são enviadas ou mantidas, prejudicando somente à minoria cujos campos e casas são confiscados para serem dados aos novos habitantes. Como os prejudicados ficam dispersos e pobres, não podem incomodar, e todos os demais, não ofendidos, devem com isso inquietar-se, além de temer que lhes aconteça o mesmo que se deu com os que foram espoliados. Concluo, enfim, que essas colônias nada custam, são mais fiéis e menos ofensivas; e os espoliados não podem fazer nada, visto que estão pobres e dispersos, como foi dito. Daí se há de observar que os homens devem ou ser mimados ou aniquilados, porque, se é verdade que podem vingar-se das ofensas leves, das grandes não o podem; por isso, a ofensa que se fizer a um homem deverá ser de tal ordem que não se tema a vingança. Mantendo-se tropas em vez de colônias, despende-se muito mais, gastando-se com elas todas as receitas do estado, e a conquista se transforma em prejuízo. Além do mais, isso descontenta muito mais os habitantes porque a transferência do exército com os alojamentos causa danos a todo o estado. Todos se ressentem desse incômodo, tornado-se cada qual um inimigo; e são inimigos que podem incomodar, pois, embora derrotados, permanecem em sua casa. De todas as maneiras, portanto, essa milícia é tão inútil quanto são proveitosas as colônias.

Quem domina uma província diferente, como dissemos, por língua, costumes e leis, deve ainda fazer-se chefe e defensor dos vizinhos mais fracos, empenhar-se em enfraquecer os poderosos de sua província e cuidar


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para que em hipótese alguma entre ali um forasteiro tão poderoso quanto ele. Pois sempre acontecerá de alguém ser chamado por aqueles que se sentem descontentes, quer devido à exagerada ambição, quer por medo, como se viu os etólios chamarem à Grécia os romanos [nota 11], que, aliás, em todos os lugares onde entraram foram chamados pelos naturais da província. A ordem das coisas é tal que, tão logo um forasteiro poderoso entre em uma província, todos os que nela são menos poderosos aderem-se a ele, movidos pela inveja que sentem dos que são mais poderosos do que eles. Quanto a esses menos poderosos, não terá o príncipe dificuldade alguma em atraí-los, pois logo todos juntos se unirão ao estado conquistador. É preciso somente atentar para que não alcancem excessiva força e autoridade; assim, com suas próprias armas e o apoio deles, facilmente poderá o príncipe rebaixar os mais fortes, ficando como árbitro de todas as coisas naquela província. Quem não governa bem quanto a esse aspecto rapidamente perderá aquilo que tiver conquistado e, enquanto o mantiver, enfrentará infinitas dificuldades e inconvenientes.

Nas províncias conquistadas, os romanos observaram perfeitamente esses aspectos: formaram colônias, apoiaram os menos poderosos sem aumentar seu poder, rebaixaram os poderosos e não deixaram que estrangeiros fortes alcançassem reputação. Quero citar apenas um exemplo [nota 12], o da província da Grécia: os romanos apoiaram os aqueus e os etólios, abateram o reino dos macedônios, rechaçaram Antioco; jamais os méritos dos aqueus ou dos etólios fizeram com que lhes permitissem obter qualquer estado, nem tampouco os argumentos de Filipe os induziram a serem seus amigos sem o enfraquecer, e


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nem mesmo todo o poder de Antioco pôde fazer com que lhe consentissem que tivesse naquela província estado algum. Pois os romanos fizeram nestes casos aquilo que todos os príncipes sábios devem fazer: precaver-se não somente contra as discórdias atuais, como também contra as futuras, e evitá-las com toda a perícia porque, prevendo-as com ampla antecedência, podem facilmente remediá-las, mas esperando que se avizinhem não haverá tempo para tratá-las, pois a doença já se terá tornado incurável. Acontece, neste caso, o mesmo que dizem os médicos dos tísicos: no princípio o mal é fácil de curar e difícil de diagnosticar, mas, com o passar do tempo, não tendo sido nem reconhecido nem medicado, torna-se mais fácil de diagnosticar e mais difícil de curar. O mesmo acontece nas coisas de estado, já que, quando se conhecem com antecedência (o que só ocorre quando se é prudente) os males que surgem, eles se curam facilmente; mas, quando por não terem sido identificados deixa-se que cresçam a ponto de todos passarem a conhecê-los, não há mais remédio.

Por isso, os romanos, prevendo com longa antecedência as perturbações, contornaram-nas sempre e nunca as deixaram se desenvolver para evitar uma guerra, pois sabiam que as guerras não se evitam e, quando adiadas, trazem vantagem ao inimigo. Quiseram, assim, guerrear contra Felipe e contra Antioco na Grécia, a fim de não ter que fazê-lo na Itália. Podiam, naquele momento, ter evitado tanto uma guerra como a outra, mas não o quiseram. Não lhes agradou jamais aquilo que está na boca de todos os sábios dos nossos tempos — gozar os benefícios do tempo [nota 13] —, mas sim os benefícios de sua virtù e prudência, porque o tempo leva adiante todas as


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coisas e pode trazer consigo tanto o bem como o mal, e tanto o mal como o bem.

Mas voltemos à França e examinemos se ela fez alguma das coisas indicadas. Falarei, não de Carlos, mas de Luís, por ser aquele cujos procedimentos podem ser melhor examinados, visto ter tido um domínio mais longo na Itália [nota 14]. Veremos que ele fez o contrário do que se deve fazer para manter o domínio sobre uma província de língua e costumes diferentes.

O rei Luís foi chamado à Itália pela ambição dos venezianos, que queriam ganhar a metade do estado da Lombardia com a sua vinda. Não pretendo criticar esta decisão tomada pelo rei porque, desejando começar a pôr um pé na Itália e não tendo amigos nessa província, já que lhe estavam fechadas todas as portas, devido à conduta do rei Carlos [nota 15], foi compelido a fazer as amizades que podia; e teria sido bem-sucedido se, nas demais manobras, não tivesse feito erro algum. Conquistada a Lombardia, logo recuperou a reputação que Carlos lhe havia tolhido: Gênova caiu [nota 16], os florentinos se tornaram seus amigos [nota 17], o marquês de Mântua, o duque de Ferrara, Bentivogli [nota 18], a senhora de Furlì [nota 19], o senhor de Faenza [nota 20], de Pesaro [nota 21], de Rimino [nota 22], de Camerino [nota 23], de Piombino, os luqueses, pisões e sieneses, todos foram ao seu encontro procurar sua amizade. Puderam então os venezianos avaliar a temeridade do partido que haviam tomado, pois, para conseguir duas terras na Lombardia, tornaram o rei de França senhor de um terço da Itália [nota 24].

Vejamos agora como poderia o rei, com menos dificuldade, ter garantido a sua reputação na Itália se tivesse observado as regras acima e assegurado e protegido todos os seus amigos que, por serem em grande parte


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fracos e temerosos, uns da Igreja e outros dos venezianos, precisavam sempre estar ao seu lado; por meio deles poderia se resguardar dos que permaneciam fortes. Mal chegado a Milão, porém, o rei fez o contrário, ajudando o papa Alexandre [nota 25] a ocupar a Romanha. Não se deu conta sequer de que, com essa decisão, enfraquecia a si próprio, eliminando os amigos e aqueles que se haviam lançado aos seus braços, e fortalecia a Igreja, acrescentando ao poder espiritual, que tanta autoridade lhe dá, um tão grande poder temporal. Cometido o primeiro erro, foi compelido a fazer outros, tanto que, para pôr fim à ambição de Alexandre e para que este não se tornasse senhor de Toscana [nota 26], o rei foi obrigado a vir à Itália. Não lhe bastou ter fortalecido a Igreja e ter perdido seus próprios amigos; por querer o reino de Nápoles, dividiu-o com o rei de Espanha [nota 27], e, de árbitro da Itália que era, arrumou um parceiro, para que os ambiciosos daquela província, descontentes com ele, tivessem a quem recorrer; e, em vez de deixar um rei que lhe fosse caudatário [nota 28], tirou-o dali, para pôr em seu lugar um outro capaz de expulsá-lo.

É, de fato, muito natural e comum o desejo de conquistar. Quando, podendo, os homens o realizam, merecem ser louvados e não criticados; mas, quando não podem e querem realizá-lo de qualquer modo, neste caso estão errados e devem ser recriminados. Se a França, portanto, tinha condições de invadir Nápoles com as suas forças, devia fazê-lo; se não tinha, não devia tê-la dividido. Se era desculpável a divisão que fez da Lombardia com os venezianos, pois foi por meio dela que pôs um pé na Itália, a de Nápoles entretanto merece censura, pois não tem a justificativa da necessidade.


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Luís cometeu, portanto, estes cinco erros: aniquilou os menos poderosos; introduziu ali um estrangeiro poderosíssimo; não veio habitar no lugar; não instalou colônias. Contudo, enquanto viveu, poderia não se ter prejudicado com esses erros se não tivesse cometido um sexto: o de apoderar-se de territórios venezianos [nota 29]. Se ele não tivesse fortalecido a Igreja, nem posto a Espanha na Itália, seria bem razoável e necessário enfraquecer os venezianos; mas, tendo tomado antes estas decisões, não deveria mais consentir na ruína dos venezianos, porque, enquanto estes continuassem poderosos, teriam sempre mantido os demais afastados da Lombardia, e não consentiriam que a atacassem caso se tornassem senhores dela; os outros também não iriam tirá-la da França para entregá-la a Veneza, nem teriam disposição para lutar contra ambas. Se alguém disser que o rei Luís cedeu a Romanha a Alexandre e o reino de Nápoles à Espanha para evitar uma guerra, responderei com as razões ditas acima: não se deve jamais deixar uma desordem prosperar para evitar uma guerra, porque uma guerra não se evita, somente se posterga com desvantagem para si mesmo. E se outros alegarem a promessa que o rei devia ao papa — de realizar aquela empresa em troca da dissolução de seu casamento [nota 30] e da nomeação do cardeal de Ruão [nota 31] — responderei que adiante falarei sobre as promessas dos príncipes e de como devem ser observadas.

Portanto, o rei Luís perdeu a Lombardia por não ter cumprido nenhum dos termos observados por outros que tomaram províncias e as conservaram. Não é milagre isto, mas coisa normal e razoável. Sobre esse assunto, conversei longamente com o cardeal de Ruão, em Nantes [nota 32], quando o Valentino (como era chamado popu-


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larmente Cesare Borgia, filho do papa Alexandre) ocupava Romanha. Dizendo-me o cardeal que os italianos não entendiam de guerra, respondi-lhe que os franceses não entendiam de estado porque, se entendessem, não teriam permitido que a Igreja alcançasse tanta grandeza. Por experiência, viu-se que o fortalecimento da Igreja e da Espanha na Itália foi causado pela França, e que a ruína da França foi causado por elas. De onde se extrai uma regra, que nunca ou raramente falha: arruína-se quem é instrumento para que outro se torne poderoso, porque esse poder é dado ou pela astúcia ou pela força e ambas são suspeitas a quem se torna poderoso.
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CAPÍTULO IV

Por que Razão o Reino de Dario, Ocupado por Alexandre, não se Rebelou contra os Sucessores deste após a sua Morte
Consideradas as dificuldades que existem para a conservação de um estado recém-conquistado, poderia parecer surpreendente que Alexandre Magno se tivesse tornado senhor da Ásia em poucos anos [nota 1], morresse mal acabara de ocupá-la e, embora fosse razoável que todo aquele estado se rebelasse, que os seus sucessores o tenham conservado, sem mais dificuldades do que as surgidas entre eles mesmos [nota 2], de sua própria ambição. A isto respondo que os principados dos quais se tem memória são governados de dois modos diversos: ou por um príncipe de quem são servidores [nota 3] todos os outros, que, na qualidade de ministros por sua graça ou concessão, o ajudam a governar aquele reino, ou por um príncipe e barões que detêm a sua posição não pela graça do senhor, mas pela antigüidade do sangue. Esses barões possuem estados e súditos próprios que os reconhecem como senhores e nutrem por eles natural afeição. Nos estados governados por príncipe e seus servidores, o príncipe tem maior autoridade, porque em toda a província não há ninguém que se reconheça como superior a ele e, caso obedeçam a qualquer outro, fazem-no apenas pela sua condição de ministro ou funcionário, não lhe dedicando particular afeição.
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Exemplos destas duas modalidades de governo são, em nossos tempos, o grão-turco e o rei de França. A monarquia turca inteira é governada por um só senhor, sendo os demais seus vassalos; e esse senhor, dividindo o seu reino em sandjaques [nota 4], para lá envia administradores diversos, que substitui ou demite como bem lhe apraz. O rei de França, ao contrário, está cercado de uma quantidade de antigas famílias de senhores, reconhecidas e amadas por seus súditos em seus próprios estados, e detentoras de privilégios que o rei não lhes pode arrebatar sem perigo. Assim, quem considerar esses dois estados encontrará dificuldade em conquistar o estado do grão-turco, porém, vencendo-o, terá grande facilidade em conservá-lo. Ao contrário, sob todos os aspectos encontrará também maior facilidade em ocupar a França, porém grande dificuldade em mantê-la.

As razões das dificuldades para se ocupar o reino do grão-turco resultam de não se poder ser chamado pelos príncipes daquele reino, nem esperar que, das rebeliões, dos que estão próximos a ele, surjam facilidades para esse intento. Isto decorre dos motivos referidos acima, pois, sendo todos servidores e dependentes, dificilmente podem ser corrompidos e, ainda que o fossem, pouco se poderia esperar de útil da parte deles, pois, pelas razões citadas, não atrairiam o povo. Assim, quem atacar o grão-turco deverá ter em mente que encontrará todos unidos, convindo-lhe contar mais com suas próprias forças do que com as desordens deles. Mas, uma vez vencido e derrotado numa batalha campal, a ponto de não poder reorganizar os seus exércitos, nada mais se deve temer, salvo o sangue do príncipe. Extinto este, não restará ninguém a temer, pois os demais não terão crédito


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junto ao povo. E, assim como o vencedor antes da vitória não podia contar com nada da parte dos súditos, nada também terá a temer deles depois da vitória.

O contrário acontece nos reinos que se governam como o de França. Com facilidade podes entrar neles, conquistando a aliança de algum barão do reino, pois sempre se encontram descontentes e pessoas com desejo de inovar, que, pelas razões citadas, poderão abrir-te caminho para dentro do estado e facilitar a tua vitória. Porém, para conservá-lo enfrentarás infinitas dificuldades, tanto em relação aos que te ajudaram na empresa como diante dos que oprimiste. Não bastará extinguires o sangue do príncipe, porque restarão outros senhores para se fazerem chefes de novas mudanças e, não podendo nem contentá-los nem eliminá-los, perderás o estado na primeira ocasião.

Ora, se considerarmos de que natureza era o governo de Dario [nota 5], veremos que era semelhante ao reino do grão-turco e, por isso, foi necessário a Alexandre primeiro derrotá-lo completamente em batalha campal. Depois daquela vitória, porém, morto Dario, Alexandre consolidou-se naquele estado pelas razões expostas. Se os seus sucessores tivessem permanecido unidos, poderiam ter desfrutado tranqüilamente o domínio, pois não nasceram naquele reino outros tumultos senão os que eles próprios suscitaram. Nos estados organizados como a França, porém, é impossível manter a conquista com tanta facilidade. Assim se explicam as freqüentes rebeliões da Espanha, França e Grécia contra os romanos com os inúmeros principados que existem naqueles estados: os romanos viveram inseguros de suas possessões enquanto perdurou a lembrança deles e só depois que
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eles foram esquecidos, graças à potência e continuidade do império, é que se tornaram proprietários seguros. E depois conseguiram ainda, combatendo entre si, tomar cada qual uma parte daquelas províncias, segundo a autoridade que tivessem alcançado dentro delas; pois, desaparecido o sangue de seus antigos senhores, as províncias só reconheciam a autoridade dos romanos.

Consideradas, portanto, todas essas coisas, não é de surpreender a facilidade com que Alexandre conquistou a Ásia, nem as dificuldades que tiveram outros para manter suas conquistas, como Pirro e muitos mais, o que não nasce da muita ou pouca virtù do vencedor, mas da diversidade do sujeito [nota 6].


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CAPÍTULO V

De que Modo se Devem Governar as Cidades ou Principados que, antes de Serem Ocupados, Viviam sob suas Próprias Leis
Quando os estados conquistados, como dissemos, estão habituados a viver sob suas próprias leis e em liberdade [nota 1], existem três maneiras de conservá-los: a primeira é destruí-los [nota 2], a outra é ir pessoalmente residir neles, e a terceira é deixá-los viver sob suas próprias leis, impondo-lhes um tributo e criando dentro deles um governo de poucos, que se conserve teu amigo. Um governo criado por um determinado príncipe saberá que é impossível dispensar sua amizade e poder, e tudo fará para mantê-lo. Mais facilmente se conserva uma cidade habituada a viver livre mobilizando seus próprios cidadãos do que por qualquer outro meio, se quiseres conservá-la.

Temos o exemplo dos espartanos e dos romanos. Os espartanos tomaram Atenas e Tebas [nota 3], criando ali um governo de poucos; todavia, perderam-nas. Os romanos, para manter Cápua, Cartago e Numância [nota 4], destruíram-nas, mas não as perderam. Pretenderam conservar a Grécia [nota 5] como haviam feito os espartanos, deixando-a livre e com suas leis, e não tiveram sucesso; assim, foram obrigados a destruir muitas cidades daquela província a fim de conservá-la. Na verdade, não existe modo seguro de


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possuí-las exceto a ruína [nota 6]. Quem se torna senhor de uma cidade habituada a viver livre, e não a destrói, será destruído por ela, porque ela sempre invocará, na rebelião, o nome de sua liberdade e de sua antiga ordem [nota 7], as quais nem o passar do tempo nem os benefícios jamais farão esquecer. Não importa o que se fizer ou as precauções que se tomarem, se não se dispersarem os habitantes, eles não esquecerão aquele nome e aquela ordem; ao menor incidente os recordarão, como aconteceu em Pisa [nota 8] após cem anos de submissão aos florentinos. Mas, quando as cidades ou as províncias estão habituadas a viver sob o governo de um príncipe e seu sangue desaparece, estando de um lado acostumados a obedecer e, de outro, não tendo mais esse antigo príncipe, não chegam a um acordo para eleger outro e não sabem viver em liberdade: por isso são mais lentos em tomar armas e com mais facilidade poderá um príncipe conquistá-las e conservá-las em seu poder. Mas nas repúblicas há mais vida, mais ódio, mais desejo de vingança. Ali, a recordação da antiga liberdade não as deixa, não as pode deixar em paz e, por isso, o meio seguro para possuí-las é ou destruí-las ou ir habitá-las.
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CAPÍTULO VI



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