Referência Completa



Baixar 0.63 Mb.
Página3/8
Encontro29.11.2017
Tamanho0.63 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8
Dos Principados Novos que se Conquistam com Armas Próprias e com Virtù
Que ninguém se espante se, ao falar dos principados inteiramente novos quanto ao príncipe e ao governo, eu recorrer a exemplos muito grandes.

Os homens trilham quase sempre caminhos abertos por outros e pautam suas ações sobre essas imitações, embora não possam repetir tudo na vida dos imitados nem igualar sua virtù. Um homem prudente deve sempre seguir os caminhos abertos pelos grandes homens e espelhar-se nos que foram excelentes. Mesmo não alcançando sua virtù, deve pelo menos mostrar algum indício dela e fazer como os arqueiros prudentes que, julgando muito distantes os alvos que pretendem alcançar e conhecendo bem o grau de exatidão de seu arco, orientam a mira para o bem mais alto que o lugar destinado, não para atingir tal altura com flecha, mas para poder, por meio de mira tão elevada, chegar ao objetivo.

Digo, portanto, que nos principados completamente novos, onde há um novo príncipe, existe maior ou menor dificuldade para mantê-lo conforme seja maior ou menor a virtù de quem o conquistou. E, como a passagem de simples cidadão a príncipe supõe virtù ou fortuna, parece que uma ou outra dessas duas coisas ameni-
Página 24
za, em parte, muitas das dificuldades. Contudo, aquele que depende menos da fortuna consegue melhores resultados. Também cria facilidades o fato de o príncipe ser obrigado a ir pessoalmente habitar um novo estado por não dispor de outro. Quanto aos que, pela própria virtù e não pela fortuna, se tornaram príncipes, digo que os melhores foram Moisés, Ciro, Rômulo, Teseu etc. [nota 1]. E, ainda que não se deva discutir sobre Moisés, uma vez que foi um mero executor de coisas ordenadas por Deus, ele deve ser admirado ao menos pela graça que o tornou digno de falar com Deus. Consideremos porém Ciro e os demais conquistadores ou fundadores de reinos: acharemos todos admiráveis e, se observarmos suas ações e modos peculiares de proceder, não nos parecerão discrepantes dos de Moisés, que teve tão grande preceptor. Examinando suas ações e suas vidas, veremos que não receberam da fortuna mais do que a ocasião [nota 2], que lhes deu a matéria para introduzirem a forma que lhes aprouvesse. E sem ocasião a virtù de seu ânimo se teria perdido, assim como, sem a virtù, a ocasião teria seguido em vão.

Era necessário, portanto, que Moisés encontrasse no Egito o povo de Israel escravizado e que este se dispusesse a segui-lo. Era preciso que Rômulo não se contentasse com Alba e tivesse sido abandonado ao nascer, para que se tornasse rei de Roma e fundador daquela pátria. Era preciso que Ciro encontrasse os persas descontentes com o império dos medas e estes debilitados e afeminados pela longa paz. Não poderia Teseu demonstrar sua virtù se não tivesse encontrado os atenienses dispersos. Essas ocasiões, portanto, tornaram aqueles homens afortunados; enquanto sua excelente virtù fez


Página 25
com que reconhecessem a ocasião. Com isso, trouxeram honra e felicidade a suas pátrias.

Aqueles que, por caminhos valorosos como estes, se tornam príncipes, conquistam o principado com dificuldade, mas o conservam com facilidade. As dificuldades que têm para conquistá-lo nascem em parte da nova ordem e dos novos métodos que são obrigados a introduzir para fundar o seu estado e a sua segurança. Devemos convir que não há coisa mais difícil de se fazer, mais duvidosa de se alcançar, ou mais perigosa de se manejar do que ser o introdutor de uma nova ordem, porque quem o é tem por inimigos todos aqueles que se beneficiam com a antiga ordem, e como tímidos defensores todos aqueles a quem as novas instituições beneficiariam. Essa timidez nasce em parte do medo aos adversários, que têm a lei a seu lado, em parte da incredulidade dos homens, que só crêem na verdade das coisas novas depois de comprovadas por uma firme experiência. Daí resulta que, à primeira ocasião, os inimigos atacam de modo feroz, enquanto os outros se defendem timidamente, de modo que se corre perigo a seu lado. E necessário, portanto, para bem compreender este assunto, examinar se estes inovadores dispõem de meios próprios ou dependem de outros, isto é, se para realizar a sua obra precisam pedir [nota 3] ou podem forçar. No primeiro caso, acabam sempre mal e não conseguem nada; mas, quando dispõem de seus próprios meios e podem forçar, é raro que fracassem. Segue-se daí que todos os profetas armados vencem, enquanto os desarmados se arruínam, porque, além do que já ficou dito, a natureza dos povos é variável; e, se é fácil persuadi-los de uma coisa, é difícil firmá-los naquela convicção. Por isso, convém estar


Página 26
organizado de modo que, quando não acreditarem mais, seja possível fazê-los crer à força. Moisés, Ciro, Teseu e Rômulo não teriam conseguido que suas constituições fossem obedecidas por tanto tempo, se estivessem desarmados. Em nossos tempos, foi o que aconteceu ao frei Girolamo Savonarola [nota 4], que se arruinou com sua ordem nova a partir do momento em que a multidão começou a não acreditar nela, pois ele não dispunha de meios nem para manter firmes os que haviam acreditado, nem para fazer crer os descrentes. Homens assim enfrentam grandes dificuldades, defrontando-se em seu caminho com perigos que precisam ser superados com a virtù. Depois de vencerem esses perigos e passarem a ser venerados, tendo aniquilado os que tinham inveja de suas qualidades, tornam-se poderosos, seguros, honrados e felizes.

A tão elevadas exemplos, quero acrescentar outro menor, mas que mantém certa relação com eles e que servirá como modelo a todos os outros semelhantes: é o de Hierão de Siracusa [nota 5] que, de simples cidadão, transformou-se em príncipe de Siracusa. Também ele nada recebeu da fortuna senão a ocasião. Quando estavam os siracusanos subjugados, escolheram-no para capitão e a partir daí mereceu tornar-se seu príncipe. Foi de tamanha virtù, mesmo enquanto cidadão particular, que sobre ele se dizia que quod nihil illi derat ad regnandum praeter regnum [nota 6]. Hierão extinguiu a milícia antiga e organizou uma nova, deixou as amizades antigas e contraiu novas, e assim que teve seus próprios amigos e soldados pôde construir, sobre esta base, todo um edifício. Assim, teve muito trabalho para conquistá-lo mas pouco para conservá-lo.


Página 27
CAPÍTULO VII

Dos Principados Novos que se Conquistam com as Armas e a Fortuna de Outrem
Aqueles que, somente pela fortuna, de cidadãos particulares se tornam príncipes fazem-no com pouco esforço, mas com muito esforço se mantêm. E não encontram dificuldade no caminho porque passam voando por ele: mas todas as dificuldades surgem quando chegam ao destino. Isto se verifica quando um estado é concedido a alguém ou por dinheiro ou pelas graças de quem o concede; isto aconteceu a muitos na Grécia, em cidades da Jônia e do Helesponto, que foram feitos príncipes por Dario [nota 1] a fim de manterem sua segurança e glória; assim como àqueles imperadores que de simples cidadãos chegaram ao poder mediante a corrupção dos soldados. Eles se apóiam exclusivamente na vontade e na fortuna de quem lhes concedeu o poder, que são coisas muito volúveis e instáveis, e não sabem nem podem manter o principado. Não sabem porque, a menos que sejam homens de grande engenho e virtù, não é razoável que saibam comandar tendo sempre vivido como particulares; e não podem porque não têm forças que lhes possam ser amigas e fiéis. Além disso, os estados que nascem subitamente — como todas as outras coisas da natureza [nota 2] que nascem e crescem depressa — não podem formar suas
Página 28
raízes e ramificações, de modo que sucumbem na primeira tempestade. A menos que — como já disse — aqueles que repentinamente se tornaram príncipes sejam de tanta virtù que saibam rapidamente se preparar para conservar aquilo que a fortuna lhes colocou nos braços e estabeleçam depois os fundamentos que outros estabeleceram antes de se tomarem príncipes.

Quero, a cada um desses modos citados de tornar-se príncipe, por virtù ou por fortuna, aduzir dois exemplos ainda em nossa memória [nota 3], que são Francesco Sforza e Cesare Borgia. Francesco, pelos devidos meios e uma grande virtù, passou de cidadão privado a duque de Milão, e o que havia conquistado com enorme empenho com pouco esforço manteve. Por outro lado, Cesare Borgia, vulgarmente chamado duque Valentino [nota 4], conquistou o estado com a fortuna do pai e com ela o perdeu, apesar de ter usado de todos os atos e de ter realizado todas as coisas que um homem prudente e valoroso deveria ter feito para deitar raízes em um estado que as armas e a fortuna de outros lhe haviam proporcionado. Como disse acima, quem não constrói os fundamentos [nota 5] antes poderá fazê-lo depois, se tiver grande virtù, mas com maior dificuldade para o arquiteto e perigo para a construção. Portanto, se considerarmos todos os procedimentos do duque, veremos que ele preparou amplos fundamentos para seu futuro poder, sobre os quais não julgo supérfluo discorrer, visto que desconheça preceitos melhores [nota 6] para dar a um príncipe novo do que os exemplos de sua atuação. Se o seu regime não frutificou, não foi por sua culpa, mas por uma extraordinária e extrema maldade da fortuna [nota 7].



Alexandre VI tinha grandes dificuldades presentes e futuras para fazer a grandeza de seu filho duque. Em pri-
Página 29
meiro lugar, ele não via meios de torná-lo senhor de estado algum que não fosse da Igreja. Sabia também que o duque de Milão [nota 8] e os venezianos não lhe permitiriam tomar nenhum desses estados, já que Faenza e Rimino já estavam sob a proteção destes últimos. Via, além disso, que os exércitos da Itália, e principalmente aqueles de que se poderia servir, estavam em mãos dos que deviam temer a grandeza do papa; por isso, não podia confiar neles, já que estavam todos com os Orsini, os Colonna [nota 9] e seus partidários. Era-lhe necessário, portanto, perturbar aquela ordem e desorganizar seus estados, para poder assenhorear-se com segurança de parte deles. Isto lhe foi facilitado por encontrar os venezianos, movidos por outros interesses, dispostos a fazer com que os franceses voltassem à Itália, ao que o papa não apenas não se opôs, como também facilitou, com a dissolução do antigo matrimônio [nota 10] do rei Luís. Entrou, portanto, o rei na Itália com a ajuda dos venezianos e o consentimento de Alexandre [nota 11], e mal chegou a Milão forneceu ao papa gente para a campanha da Romanha, a qual foi possível graças à fama do rei. Conquistada então a Romanha e derrotados os Colonna, duas coisas impediam o duque de mantê-la e continuar o avanço: uma era o seu exército [nota 12], que não lhe parecia fiel, e a outra, a vontade da França. Em outras palavras, temia que o exército de Orsini, de que se valera, lhe faltasse quando necessário e não somente o impedisse de conquistar, mas ainda lhe tomasse o conquistado; temia também que o rei lhe fizesse a mesma coisa. De Orsini, teve uma confirmação das suas suspeitas após ter entrado em Faenza, quando suas tropas se mostraram frias para assediar Bolonha [nota 13]. Quanto ao rei, o duque compreendeu seu estado de ânimo
Página 30
quando, conquistado o ducado de Urbino [nota 14], invadiu a Toscana, empresa da qual o rei o fez desistir [nota 15]. Daí ter o duque deliberado não depender mais das armas e da fortuna alheias. A primeira coisa que fez foi debilitar as facções Orsini e Colonna em Roma, atraindo todos os seus partidários fidalgos, tornando-os seus gentis-homens, dando-lhes grandes somas e honrando-os, segundo suas qualidades, com comandos de tropas e cargos de governo; assim, em poucos meses, a afeição deles por seus antigos partidos apagou-se em seus ânimos, voltando-se inteiramente para o duque. Depois disso, aguardou a ocasião de eliminar os chefes dos Orsini, tendo já dispersado os da casa Colonna; ocasião esta que, se bem lhe chegou, melhor ele a usou. Isto porque os Orsini, tendo tardiamente percebido que a grandeza do duque e da Igreja significavam sua própria ruína, promoveram uma dieta em Magione [nota 16], próximo a Perúgia, de que resultou ai rebelião de Urbino, os tumultos da Romanha e infinitos perigos para o duque, que ele superou com a ajuda dos franceses. Recuperando sua reputação e não confiando nem na França nem em outras forças externas, para não as provocar abertamente, recorreu à astúcia. E tão bem soube dissimular seu ânimo, que os próprios Orsini, por intermédio do senhor Paolo [nota 17], reconciliaram-se com ele. O duque, para tranquiliza-los, cumulou-os de favores, dando-lhes dinheiro, roupas e cavalos, tanto assim que a ingenuidade dos Orsini os levou a se colocarem à sua mercê em Senigallia [nota 18]. Aniquilados, portanto, esses chefes e convertidos os seus partidários em amigos do duque, havia este lançado excelentes fundamentos para seu poder, uma vez que detinha toda a Romanha e mais o ducado de Urbino, além
Página 31
de ter conquistado a amizade da Romanha e atraído para si todo o povo, que começava a gozar de bem-estar.

Sendo este ponto digno de comentários e de ser imitado por outros, não quero deixá-lo passar por alto. Tendo-se apoderado da Romanha e encontrando-a sob o comando de senhores sem poder, que mais espoliavam os seus súditos do que os governavam e lhes davam motivos mais para desunião do que para união, tanto que a província estava coberta de latrocínios, tumultos e todas as formas possíveis de insolência, julgou o duque necessário, para pacificá-la e reduzi-la à obediência ao braço régio, dar-lhe um bom governo. Colocou ali, então, messer Remirro de Orco [nota 19], homem cruel e expedito, a quem conferiu plenos poderes. Em pouco tempo, Orco a pacificou e uniu, granjeando grande reputação. A seguir, o duque julgou desnecessário tão excessiva autoridade, pois temia que ela se tomasse odiosa, e propôs a instalação de um tribunal civil na província, com um excelentíssimo presidente, onde todas as cidades teriam um advogado próprio. Como sabia que os rigores passados haviam gerado um certo ódio contra ele, quis mostrar que, se ocorrera alguma crueldade, ela não se originava dele, mas da natureza dura do ministro para apaziguar os ânimos do povo e atraí-lo para si. Aproveitando-se da ocasião [nota 20], uma certa manhã mandou que o cortassem ao meio em praça pública, tendo ao lado um bastão de madeira e uma faca ensangüentada. A ferocidade daquele espetáculo fez o povo ficar, ao mesmo tempo, satisfeito e estarrecido.

Mas voltemos ao ponto de partida. Digo que, sentindo-se o duque bastante poderoso e em parte garantido contra os perigos do momento, visto estar armado a seu
Página 32
modo e ter, em boa parte, aniquilado os exércitos vizinhos que o poderiam atacar, restava-lhe, para prosseguir naquelas conquistas, amedrontar o rei de França, porque sabia que o rei — tendo-se dado conta de seu próprio erro — não as toleraria. Começou [nota 21], por isso, a buscar novas amizades e a tergiversar com os franceses a propósito da incursão que estes haviam feito ao reino de Nápoles, contra os espanhóis que assediavam Gaeta. Sua intenção era garantir-se contra eles, o que teria em breve conseguido, se Alexandre tivesse continuado vivo.

Estas foram as suas decisões em relação às coisas imediatas. Quanto às futuras, receava, em primeiro lugar, que o novo papa não fosse seu amigo e procurasse tomar de volta aquilo que Alexandre lhe dera. Contra isso, procurou garantir-se de quatro modos: primeiro, eliminando todo o sangue dos senhores que havia espoliado, a fim de privar o papa daquela ocasião de intervir; em segundo lugar, atraindo para o seu partido todos os gentis-homens de Roma — como disse antes — para com isso poder frear o papa; terceiro, controlando o máximo possível de votos no Colégio [nota 22]; e, quarto, conquistando tanto poder antes da morte do papa, que pudesse por si mesmo resistir a um primeiro ataque. Dessas quatro coisas, no momento da morte de Alexandre já havia realizado três, e a quarta estava quase concluída, visto que assassinara tantos senhores espoliados quantos pudera alcançar e pouquíssimos se salvaram; trouxe para o seu lado os gentis-homens romanos e tinha grande maioria no Colégio. Quanto às novas conquistas, tinha planejado [nota 23] tornar-se senhor de Toscana: já conquistara Perúgia e Piombino, e tinha Pisa sob proteção. E, como não precisava temer a França (e não a temia, porque os France-


Página 33
ses já tinham sido expulsos do reino de Nápoles pelos espanhóis, de modo que eram eles dois que precisavam procurar sua amizade), logo se atiraria sobre Pisa. Depois disso, Lucca e Siena logo cederiam, em parte por inveja dos florentinos, em parte por medo; e os florentinos não teriam saída. Se tivesse sido bem-sucedido (e o seria no mesmo ano em que Alexandre morreu), teria acumulado tanta força e reputação que por si mesmo se governaria, e não dependeria mais da fortuna e das forças de outros, mas de sua própria virtù e poder.

Alexandre, porém, morreu cinco anos depois que ele havia desembainhado a espada. Deixou-o apenas com o estado da Romanha consolidado, e com tudo mais no ar, prensado entre dois potentíssimos exércitos inimigos [nota 24] e mortalmente doente. Havia no duque tanta magnanimidade e virtù, tão bem sabia como ganhar e perder os homens e tão sólidos eram os fundamentos que em tão pouco tempo construíra para si, que, se ele não tivesse aqueles exércitos em seu encalço ou se estivesse em boa saúde, teria superado todas as dificuldades. Que eram bons os fundamentos que ele plantou, ficou comprovado quando a Romanha [nota 25] o esperou por mais de um mês; em Roma, ainda que meio-morto, esteve seguro, e, embora os Baglioni, Vitelli e Orsini tivessem ido para lá, não conseguiram sequazes para o atacar. Se o duque não conseguiu fazer o papa que queria, pelo menos impediu que se elegesse quem ele não queria. Se ao morrer Alexandre o duque gozasse de boa saúde, tudo lhe teria sido fácil. E ele me disse [nota 26], quando Júlio II foi eleito papa, que havia pensado em tudo o que lhe poderia acontecer com a morte do pai e para tudo havia encontrado um remédio; só não pensara que, ao morrer seu pai, também ele estaria morrendo.


Página 34
Recapitulando, portanto, todas as ações do duque, eu não saberia em que censurá-lo. Pelo contrário, parece-me — como aliás o fiz — dever propô-lo como exemplo a todos aqueles que, com a fortuna e as armas de outrem, ascendem ao poder. Tendo ele ânimo forte e intenção elevada [nota 27], não poderia ter agido de outra maneira. Contrariaram os seus desígnios somente a brevidade da vida de Alexandre e sua própria enfermidade. Quem, portanto, num principado novo, julgar necessário garantir-se contra os inimigos, conquistar amigos, vencer pela força ou pela fraude, fazer-se amado e temido pelo povo, ser obedecido e reverenciado pelos soldados, eliminar aqueles que podem ou devem prejudicá-lo, introduzir mudanças na antiga ordem, ser severo e grato, magnânimo e liberal, eliminar as milícias infiéis, criar outras novas, manter as amizades do rei e dos príncipes de modo que o beneficiem com solicitude e temam ofendê-lo, não pode encontrar melhor exemplo que as ações deste duque. Somente se lhe pode censurar a eleição do papa Júlio, na qual fez uma má escolha, porque, como disse, se não podia fazer um papa a seu modo, podia impedir que outro fosse papa: não deveria jamais ter consentido que ascendessem ao papado cardeais que ele próprio tivesse prejudicado ou que, tornando-se papas, pudessem temê-lo. Porque os homens ferem ou por medo ou por ódio. Dentre os que ele havia ofendido, estavam, entre outros, os cardeais de San Pietro in Vincoli, Colonna, San Giorgio, Ascânio [nota 28]; todos os outros, caso se tornassem papas, teriam motivos para temê-lo, exceto o de Ruão [nota 29] e os espanhóis: estes últimos por união e obrigações [nota 30] e aquele por poder, pois tinha a seu lado o reino de França. Portanto, o duque, antes de qualquer
Página 35
coisa,deveria ter criado um papa espanhol e, não podendo, deveria concordar com a eleição de Ruão e não do cardeal de San Pietro in Vincoli. Engana-se quem crê que, nos grandes personagens, os benefícios novos fazem esquecer as velhas injúrias [nota 31]. O duque errou, portanto, nesta escolha, que foi a razão de sua ruína final.
Página 36
Página 37
CAPÍTULOVIII

Dos que Chegaram ao Principado por Atos Criminosos
Como ainda existem dois outros modos de se passar de simples particular a príncipe, que não se devem apenas nem à fortuna nem à virtù, parece-me que não se deve deixar de abordá-los, embora um deles possa ser discutido mais amplamente onde se tratar de repúblicas. Estes dois modos são: ou ascender ao principado por via acelerada e nefanda ou um cidadão particular tornar-se príncipe de sua pátria com o favor de seus concidadãos. Falando sobre o primeiro modo, mostraremos dois exemplos — um antigo e outro moderno — sem entrar porém no mérito desta questão, considerando-os suficientes a quem precisar imitá-los.

Agátocles Siciliano [nota 1], não só simples particular, mas de ínfima e abjeta condição, tornou-se rei de Siracusa. Filho de oleiro, teve sempre uma conduta criminosa durante toda a vida. Contudo, praticava suas vilanias com tanta força de ânimo e de corpo que, ingressando na milícia, conseguiu promover-se até chegar a ser pretor de Siracusa. Investido nesse cargo, decidiu tornar-se príncipe e ter, pela violência e sem obrigações para com outros, aquilo que por consentimento lhe havia sido concedido. Tendo travado entendimentos a respeito destes


Página 38
seus desígnios com Amílcar, o Cartaginês [nota 2], cujos exércitos acamparam na Sicília, reuniu certa manhã o povo e o Senado de Siracusa como se tivesse que deliberar coisas pertinentes à república, e, a um sinal combinado, fez seus soldados assassinarem todos os senadores e as pessoas mais ricas do povo. Mortos estes, ocupou e manteve o principado daquela cidade sem qualquer controvérsia civil. Embora os cartagineses o derrotassem duas vezes e, por fim, o sitiassem, não apenas pôde defender sua cidade, mas ainda, deixando parte de suas tropas na defesa contra o cerco, atacou com o restante a África e, em breve tempo, liberou Siracusa do cerco, levando os cartagineses à extrema miséria. Estes tiveram que entrar em acordo com ele e contentar-se com suas possessões na África, deixando a Sicília para Agátocles. Quem considerar, portanto, suas ações e sua vida não verá coisa alguma, ou pouca, que se possa atribuir à fortuna; como se disse acima, não pelos favores de alguém, mas passando por todos os postos da milícia, através de mil perigos e dissabores, chegou ao principado, que depois conservou em meio a tantas animosidades e perigos. Não se pode propriamente chamar de virtù [nota 3] o fato de assassinar seus concidadãos, trair os amigos, não ter fé, piedade nem religião. Deste modo pode-se adquirir poder, mas não a glória. Mas, se consideramos a virtù com que Agátocles entrou e saiu dos perigos e a força de seu ânimo ao suportar e superar as adversidades, não vemos por que ele devia ser julgado como inferior a qualquer excelente capitão. Contudo, sua feroz crueldade e desumanidade, mais a sua infinita malvadeza, não permitem que seja celebrado entre os homens excelentes. Não se pode, portanto, atribuir à fortuna ou à virtù o que sem uma nem outra foi conseguido.
Página 39
Recentemente, durante o reinado de Alexandre VI, Liverotto da Fermo [nota 4], tendo ficado órfão de pai em tenra idade, foi criado na casa de um tio materno chamado Giovanni Fogliani. Nos primeiros tempos de sua juventude, ingressou no exército de Paolo Vitelli [nota 5] a fim de que, afeito àquela disciplina, alcançasse algum posto elevado na milícia. Morto Paolo, ficou Liverotto sob o comando de Vitelozzo, irmão de Paolo, e em pouquíssimo tempo, por ser engenhoso, forte e valoroso, tornou-se o principal homem de sua tropa. Parecendo-lhe, porém, coisa servil estar sob ordens de outros, pensou em ocupar Fermo, contando com a ajuda de alguns cidadãos, que preferiam a servidão à liberdade de sua pátria, e também com o favor de Vitellozzo. Escreveu a Giovanni Fogliani dizendo que, como havia estado muitos anos fora de casa, queria revê-lo, visitar sua cidade e cuidar do seu patrimônio. Já que havia lutado pelo único motivo de conquistar honra, queria que seus concidadãos vissem que ele não passara o tempo em vão e desejava chegar pomposamente, acompanhado de cem cavaleiros, entre amigos e servidores. Rogava-lhe a gentileza de providenciar que os habitantes de Fermo os recebessem solenemente, o que não somente honraria a ele — Liverotto — como também ao próprio Giovanni, uma vez que fora seu discípulo. Giovanni não deixou, portanto, de atender ao sobrinho em todos os pontos: fez com que ele fosse recebido com todas as honrarias em Fermo e o alojou em sua própria casa. Passados alguns dias, enquanto Oliverotto se empenhava em providenciar secretamente tudo que era necessário a seu futuro crime, convidou solenemente Giovanni Fogliani e todos os homens mais importantes de Fermo para um banquete muito solene. Consumidas as iguarias e terminados todos os demais
Página 40
entretenimentos de praxe, Liverotto, de caso pensado, pôs-se a discutir certos assuntos graves, falando grandeza do papa Alexandre e de Cesare, seu filho, assim como de suas campanhas. Quando Giovanni e outros responderam, ele subitamente se ergueu, dizendo que aquilo era assunto para se falar em um lugar mais reservado, e retirou-se para um quarto, onde Giovanni e todos os demais o seguiram. Mal se haviam sentado, quando saíram de um esconderijo alguns soldados que assassinaram Giovanni e todos os outros. Depois do homicídio, Liverotto montou a cavalo e percorreu a cidade. Atacou o governo no palácio, o qual, com medo, foi forçado a obedecê-lo e a nomeá-lo príncipe. Depois de assassinar todos os que, por estarem descontentes, poderiam atacá-lo, consolidou-se com novas leis civis e militares, de modo que, ao fim de um ano, durante o qual manteve o principio, não somente estava seguro na cidade de Fermo, como ainda se tinha tornado temido por todos os vizinhos. Sua derrota teria sido difícil como a de Agátocles, caso não se tivesse deixado enganar por Cesare Borgia, quando este — como disse antes — capturou Orsini e os Vitelli em Senigallia, onde juntamente com Vitellozzo, que havia sido seu mestre de virtù e malvadezas, foi também preso e estrangulado Oliverotto, um ano depois de haver cometido parricídio.

Poderia alguém perguntar-se de que forma Agátocles e outros semelhantes, após infinitas traições e crueldades, puderam viver seguros em sua pátria e defenderem-se dos inimigos externos por longo tempo, sem que jamais seus súditos tivessem conspirado contra eles, enquanto muitos outros, empregando a crueldade, não conseguiram manter seus estados, nem nos tempos de paz, nem nos incertos tempos de guerra. Creio que isto resul-


Página 41
ta da crueldade mal empregada ou bem empregada. São bem empregadas as crueldades (se é legítimo falar bem do mal) que se fazem de uma só vez pela necessidade de garantir-se e depois não se insiste mais em fazer, mas rendem o máximo possível de utilidade para os súditos. Mal empregadas são aquelas que, ainda que de início sejam poucas, crescem com o tempo, ao invés de se extinguirem. Aqueles que observam o primeiro modo podem encontrar algum remédio para seu estado, diante de Deus e dos homens [nota 6], como aconteceu com Agátocles; os outros, é impossível que se mantenham.

Daí ser preciso sublinhar que, ao tomar um estado, o conquistador deve examinar todas as ofensas que precisa fazer, para perpetuá-las todas de uma só vez e não ter que renová-las todos os dias. Não as repetindo, pode incutir confiança nos homens e ganhar seu apoio através de benefícios. Quem age de outro modo, por timidez ou mau conselho, precisa estar sempre com a faca na mão, não podendo jamais confiar em seus súditos, como tampouco podem eles confiar no príncipe devido às suas contínuas e renovadas injúrias. As injúrias devem ser feitas a fim de que, tomando-se menos o seu gosto, ofendam menos, enquanto os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, para serem melhor apreciados. E, acima de tudo, deve um príncipe viver com seus súditos de forma que nenhum incidente, mau ou bom, faça variar seu comportamento porque, vindo as vicissitudes em tempos adversos, não terás tempo para o mal, e o bem que fizeres não te será creditado, porque julgarão que o fizeste forçado, e não receberás, então, a gratidão de ninguém.


Página 42
Página 43
CAPÍTULO IX

Do Principado Civil
Mas, tratando do outro caso, em que um cidadão particular se torna príncipe de sua pátria, não por atos criminosos nem outras violências intoleráveis, mas pelo apoio de seus concidadãos (o que se pode chamar principado civil; para alcançá-lo, não é necessário ter muita virtù, nem muita fortuna, mas antes uma astúcia afortunada), digo que se ascende a este principado ou pelo favor do povo ou pelo favor dos grandes. Pois, em todas as cidades, existem esses dois humores diversos que nascem da seguinte razão: povo não quer ser comandado nem oprimido pelos grandes, enquanto os grandes desejam comandar e oprimir o povo; desses dois apetites diferentes, nascem nas cidades um destes três efeitos: principado, liberdade ou licença [nota 1].

O principado provém do povo ou dos grandes, segundo a oportunidade que tiver uma ou outra dessas partes. Quando os grandes percebem que não podem resistir ao povo, começam a exaltar a fama de um deles e o tornam príncipe para poder, sob sua sombra, desafogar o apetite. O povo também, quando percebe que não pode resistir aos grandes, dá reputação a alguém e o faz príncipe, para ser defendido por sua autoridade. Quem


Página 44
chega ao principado com a ajuda dos grandes mantém-se com mais dificuldade do que o que se torna príncipe com a ajuda do povo, porque o primeiro se vê cercado de muitos que parecem ser seus iguais, não podendo, por isso, comandá-los nem manejá-las a seu modo. Mas quem chega ao principado com o favor popular encontra-se sozinho e não tem em torno de si ninguém ou pouquíssimos que não estejam prontos a obedecê-lo. Além disso, não se pode satisfazer honestamente aos grandes sem injúrias aos outros, mas ao povo sim, porque seus fins são mais honestos que os dos grandes, visto que estes querem oprimir enquanto aqueles querem não ser oprimidos. Além disso, um príncipe não pode jamais proteger-se contra a inimizade do povo, porque são muitos; no entanto, pode-se garantir contra os grandes porque são poucos. O pior que um príncipe pode esperar de um povo hostil é ser abandonado por ele; mas dos grandes, quando inimigos, deve temer não só ser abandonado, como também que o ataquem, porque, tendo mais visão e astúcia, precavêem-se sempre a tempo de se salvar e procuram aproximar-se daquilo que esperam que vença. Ainda, o príncipe tem sempre de viver com o mesmo povo, mas lhe é perfeitamente possível prescindir dos mesmos grandes, pois pode a cada dia fazê-las e desfazê-los, dar-lhes e tirar-lhes a reputação, a seu gosto.

Para melhor esclarecer esta parte, afirmo que os grandes devem ser considerados de duas formas, principalmente: ou se governam de modo que, por seu procedimento, se associem em tudo à tua fortuna, ou não. Os que se associam e não são rapaces devem ser homenageados e amados. Os que não se associam devem ser


Página 45
examinados de duas formas: ou o fazem por pusilanimidade e defeito natural de caráter, e nesse caso deves servir-te deles, principalmente se forem bons conselheiros, pois eles te honrarão na prosperidade e nada terás a temer deles na adversidade; ou então não se associam de propósito e por ambição, o que é sinal de que pensam mais em si mesmos do que em ti: deves proteger-te contra eles e temê-los como se fossem inimigos declarados, porque sempre contribuirão para tua ruína, na adversidade.

Portanto, quem se tomar príncipe pelo favor do povo deverá manter sua amizade, o que será fácil, pois tudo que lhe pedem é não serem oprimidos. Mas quem se tomar príncipe pelo favor dos grandes e contra o povo deverá, antes de qualquer outra coisa, procurar conquistá-lo, o que também será fácil, se lhe der proteção. Como os homens se ligam mais ao seu benfeitor se recebem o bem quando esperam o mal, neste caso, o povo se torna mais rapidamente favorável ao príncipe do que se ele tivesse sido conduzido ao principado graças ao seu apoio. Pode o príncipe conquistar o povo de vários modos, dos quais não se pode dar uma regra certa, pois variam segundo a situação; por isso, não abordaremos o assunto aqui. Concluirei somente que é necessário ao príncipe ter o povo como amigo; caso contrário, não terá remédio na adversidade.

Nábis [nota 2], príncipe dos espartanos, enfrentou o assédio de toda a Grécia e de um exército romano vitoriosíssimo, defendendo contra eles a sua pátria e o seu estado. Para isso lhe bastou, ao se aproximar o perigo, contar com uns poucos; porém, se tivesse o povo contra si, isso não lhe teria bastado. Contra esta minha opinião, não me
Página 46
venham com aquele velho provérbio “quem se apóia no povo, se apóia no lodo”, porque isso só é verdade quando um cidadão particular se alicerça no povo e espera que este o liberte quando for atacado por seus inimigos ou pelos magistrados. Neste caso, são freqüentes os enganos, como os dos Gracos em Roma [nota 3] e de Giorgio Scali em Florença [nota 4]. Se se tratar, porém, de um príncipe que se apóie no povo, que possa comandar e seja um homem de coragem, que não se deixe abater na adversidade nem negligencie outras providências, que mobilize a maioria com seu ânimo e seu regime, jamais ficará desiludido com o povo e verá que lançou bons fundamentos.

Costumam estes principados correr perigo quando saltam da ordem civil para a ordem absoluta. Como esses príncipes governam ou por si próprios ou por intermédio de magistrados, neste último caso sua situação é mais precária e perigosa, porque dependem em tudo da vontade dos cidadãos que foram nomeados magistrados, os quais, sobretudo em tempos adversos, podem facilmente lhe arrebatar o governo, quer atacando-o quer não lhe prestando obediência. O príncipe não terá tempo de recobrar a autoridade absoluta em meio ao perigo, porque os cidadãos e súditos, acostumados a receber ordens dos magistrados, não acatarão as suas nessa emergência; além disso, em tempos adversos, há sempre escassez de gente em quem o príncipe possa confiar, pois ele não pode basear-se no que vê nos tempos de paz, quando os cidadãos têm necessidade do estado, porque então todos correm ao seu encontro, todos prometem e não há quem não queira morrer por ele, enquanto a morte está distante; mas em tempos adversos,


Página 47
quando o estado tem necessidade dos cidadãos, encontram-se poucos. Esta experiência é ainda mais perigosa por se poder tentá-la uma só vez. Por isso, um príncipe sábio deve encontrar um modo pelo qual seus cidadãos, sempre e em qualquer tempo, tenham necessidade do estado e dele; assim, eles sempre lhe serão fiéis.
Página 48
Página 49
CAPÍTULO X

De que Forma se Devem Avaliar as Forças de todos os Principados
Ao avaliar as qualidades destes principados convém observar uma outra questão: se um príncipe dispõe de território suficiente [nota 1] para poder governar por si mesmo ou se precisa sempre ser defendido por outros. Para melhor esclarecer este ponto, direi que defino os príncipes que podem governar-se por si mesmos como os que, por abundância de homens ou de dinheiro, são capazes de formar um exército bem proporcionado e travar batalha com quem quer que os ataque. E defino os que têm sempre necessidade de outrem como os que não podem enfrentar o inimigo em campanha, mas precisam refugiar-se atrás dos muros e defendê-los. Do primeiro caso já falamos e, futuramente, mostraremos o que mais for necessário. Sobre o segundo caso, nada se pode dizer além de exortar esses príncipes a fortificarem e armarem suas próprias cidades sem se preocuparem com o resto do território. Quem fortificar bem a sua cidade e se comportar em relação aos seus súditos do modo como foi dito acima, e como mais se dirá a seguir, somente com muito temor será atacado, porque os homens são inimigos de empreendimentos em que vêem dificuldades e não se pode ver facilidade em atacar al-
Página 50
guém que tenha suas terras fortificadas e não seja odiado pelo povo.

As cidades da Alemanha [nota 2] são muito livres, têm território pequeno, obedecem quando querem ao imperador e não temem nem a ele nem a outros poderosos que estejam ao redor, pois são de tal maneira fortificadas, que todos percebem como deve ser extenuante e difícil expugná-las. Todas possuem fossos e muros adequados; têm artilharia suficiente; têm sempre bebidas, alimentos e combustíveis nos depósitos públicos para o prazo de um ano. Além disso, para manter a plebe alimentada sem prejuízo para a coletividade, têm sempre na comuna trabalhos para lhes dar durante um ano, naquelas atividades que são o nervo e a vida da cidade, e com os quais a plebe subsiste. Mantêm ainda em grande conta os exercícios militares, havendo vários ordenamentos sobre a sua prática.



Um príncipe, portanto, que tem uma cidade forte e não se faz odiar não pode ser atacado. Contudo, se alguém o atacar, terá de partir com vergonha, pois as coisas do mundo são tão mutáveis que é quase impossível que alguém possa ficar ocioso durante um ano com seus exércitos a assediá-lo. A quem replicar que, caso o povo tenha propriedades do lado de fora e as veja incendiando-se, perderá a paciência, e que o longo assédio somado ao amor próprio farão com que se esqueça do príncipe, respondo que um príncipe forte e corajoso sempre superará todas estas dificuldades, dando a seus súditos ora a esperança de que o mal não será longo, ora o temor à crueldade do inimigo, precavendo-se com destreza contra os que parecerem exageradamente ousados. Além disso, o inimigo deve, presumivelmente, incendiar
Página 51
e arrasar o território no momento de sua chegada, quando os ânimos dos homens ainda estão quentes e empenhados na defesa. Depois, o príncipe terá cada vez menos a temer, porque os ânimos terão arrefecido, os danos já terão sido feitos e os males recebidos não terão mais remédio. Nesse momento, mais ainda se unirão ao príncipe, pois julgam que lhe devem ser gratos por terem tido suas casas incendiadas e suas propriedades arruinadas em sua defesa. É da natureza dos homens deixar-se cativar tanto pelos benefícios feitos como pelos recebidos. Em conclusão, tudo bem analisado, não será difícil a um príncipe prudente manter firme o ânimo de seus cidadãos antes e depois do assédio, desde que não lhes faltem alimentos nem meios de defesa.
Página 52
Página 53
CAPÍTULO XI

Dos Principados Eclesiásticos
Agora, resta-nos somente discorrer sobre os principados eclesiásticos, cujas dificuldades são todas anteriores à sua posse, porque se conquistam ou por virtù ou por fortuna e sem uma nem outra se mantêm, pois têm por base antigas instituições religiosas, de tamanho poder e natureza tal, que conservam seus príncipes no poder, qualquer que seja o modo como procedam e vivam. Somente eles possuem estados e não os defendem; súditos, e não os governam; e os estados, por não serem defendidos, não lhes são tomados; e os súditos, por não serem governados, não cuidam, nem podem separar-se deles. Logo, só estes principados são seguros e felizes. Mas, sendo eles regidos por razões superiores, que a mente humana não pode alcançar, não falarei sobre eles, pois, sendo erguidos e mantidos por Deus, seria homem presunçoso e temerário se discorresse a seu respeito. Contudo, se alguém me perguntasse como a Igreja alcançou tamanha grandeza temporal, já que, antes de Alexandre, os potentados italianos (e não somente os potentados, mas qualquer barão ou senhor, por mínimo que fosse) pouco a valorizavam no que se refere ao domínio temporal e agora um rei de França treme diante dela, que
Página 54
conseguiu expulsá-la da Itália [nota 1] e arruinar os venezianas, não me pareceria supérfluo recordar estas coisas, embora sejam conhecidas.

Antes que Carlos [nota 2], rei de França, entrasse na Itália, estava esta província sob o governo do papa, dos venezianos, do rei de Nápoles, do duque de Milão e dos florentinos. Esses potentados tinham dois cuidados principais a observar: primeiro, que estrangeiro algum entrasse na Itália com exército; segundo, que nenhum dentre eles alargasse seus domínios. Os que inspiravam maiores preocupações eram o papa e os venezianos. Para conter os venezianos, era necessário a união de todos os outros, como se deu na defesa de Ferrara [nota 3]; e, para controlar o papa, usavam os barões de Roma, os quais, sendo divididos em duas facções, Orsini e Colonna, sempre tinham motivos de discórdia e, assim, estando com as armas na mão e os olhos no papa, mantinham o pontificado fraco e inseguro. Ainda que por vezes surgisse um papa corajoso, como Sisto [nota 4], sua fortuna ou saber jamais o livraram desses distúrbios. A brevidade de suas vidas era uma das razões; porque, durante os dez anos que, em média, vivia um papa, dificilmente podia subjugar uma das facções; por exemplo, se um papa tivesse quase acabado com os Colonna, surgiria um outro papa inimigo dos Orsini, que faria ressurgirem os Colonna, sem chegar a ter tempo suficiente para eliminar os Orsini.

Isto fazia com que as forças temporais do papa fossem pouco respeitadas na Itália. Surgiu então Alexandre VI, que de todos os pontífices que já existiram foi quem mais mostrou quanto um papa, pelo dinheiro e pela força, poderia impor-se: usando como instrumento o duque Valentino e como ocasião a invasão dos franceses, ele fez
Página 55
todas as coisas que descrevi acima acerca das ações do duque. E, ainda que seu intento fosse fortalecer não a Igreja, mas sim o duque, tudo o que fez reverteu para a grandeza da Igreja, a qual, após a sua morte e a do duque, foi herdeira de seus esforços. Sucedeu-o o Papa Júlio, que encontrou a Igreja forte, na posse de toda a Romanha, liquidados os barões de Roma e anuladas aquelas facções graças às investidas de Alexandre. Encontrou ainda o caminho aberto para uma forma de acumulação de dinheiro jamais usada antes de Alexandre. A tudo isso, Júlio não somente deu prosseguimento como ainda acelerou, pensando em conquistar Bolonha [nota 5], derrotar os venezianos e expulsar os franceses [nota 6] da Itália. Teve sucesso em todos esses empreendimentos, e ainda com mais louvor por tê-los feito para engrandecimento da Igreja, e não de algum particular. Conservou, ainda, os partidos dos Orsini e Colonna nos termos em que os havia encontrado e, embora entre eles às vezes se insinuasse algum chefe propenso às mudanças, duas coisas os mantiveram nos limites: uma, a grandeza da Igreja, que os assustava; e a outra, o fato de não terem seus cardeais, e são os cardeais a origem dos tumultos entre eles. Jamais estas facções estarão pacificadas enquanto tiverem seus cardeais, porque são estes que alimentam, dentro e fora de Roma, os partidos que os barões são forçados a defender. Assim, da ambição dos prelados nascem as discórdias e os tumultos entre os barões. Portanto, Sua Santidade o papa Leão encontrou este pontificado potentíssimo e, se outros o engrandeceram com as armas, dele se espera que o torne imenso e venerando com sua bondade e suas outras infinitas virtù [nota 7].
Página 56
Página 57
CAPÍTULO XII

De Quantos Gêneros Há de Milícias e de Soldados Mercenários
Tendo discorrido especificamente acerca de todas as características daqueles principados sobre os quais me propus de início a refletir, e tendo considerado as razões da sua prosperidade ou ruína e depois mostrado os modos através dos quais procuraram conquistá-los e conservá-los, resta-me agora falar de uma maneira geral sobre os meios ofensivos e defensivos de que possam necessitar. Dissemos acima como é necessário a um príncipe ter bons fundamentos; caso contrário, necessariamente se arruinará. Os principais fundamentos de todos os estados, tanto dos novos como dos velhos ou dos mistos, são boas leis e boas armas. Como não se podem ter boas leis onde não existem boas armas, e onde são boas as armas costumam ser boas as leis, deixarei de refletir sobre as leis e falarei das armas.

Digo, portanto, que as armas com que um príncipe defende seu estado ou são próprias, ou mercenárias ou auxiliares [nota 1] ou mistas. As mercenárias e auxiliares são inúteis e perigosas. Quem tem o seu estado baseado em armas mercenárias jamais estará seguro e tranqüilo, porque elas são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis, valentes entre amigos e covardes entre inimigos,


Página 58
sem temor a Deus nem probidade para com os homens. O príncipe apenas terá adiada a sua derrota pelo tempo que for adiado o ataque, sendo espoliado por eles na paz e pelos inimigos na guerra. A razão disto é que não têm outra paixão nem razão que as mantenha em campo senão um pequeno soldo, que todavia não é suficiente para motivá-las a morrer por ti. Querem muito ser teus soldados enquanto não há guerra; mas, durante a guerra, querem fugir ou ir embora. Isso terei pouca dificuldade para demonstrar, visto que a ruína atual da Itália não tem outra razão senão estar há muitos anos apoiada em armas mercenárias. Estas já prestaram alguns bons serviços a alguns e parecem valentes quando comparadas umas às outras, mas, diante do forasteiro [nota 2], mostraram aquilo que são; daí ter sido possível a Carlos, rei de França, tomar a Itália com um giz [nota 3]. Quem disse que a razão disso eram os nossos pecados disse a verdade, porém não aqueles que imaginava mas os que acabo de expor. E, visto serem pecados dos príncipes, também foram eles que sofreram a punição.

Quero demonstrar melhor a ineficácia destas armas. Os capitães mercenários ou são homens excelentes nas armas ou não o são. Se o forem, não poderás confiar neles, porque sempre aspirarão a uma grandeza própria, quer arruinando a ti, seu patrão, quer oprimindo a outros, contra a tua vontade; e, se não forem capitães valorosos, por isso mesmo te arruinarão. Se alguém argumentar que qualquer um que tenha um exército nas mãos fará o mesmo, sendo ou não mercenário, responderei que os exércitos devem ser comandados ou por um príncipe ou por uma república. O príncipe deve desempenhar em pessoa a função de capitão. A república


Página 59
deve enviar seus próprios cidadãos e, quando enviar alguém que não se mostre valente, deverá substituí-lo; e, se for valente, deverá enquadrá-lo na lei para que não ultrapasse os limites. Por experiência vê-se que somente os príncipes e as repúblicas armadas fazem progressos imensos, enquanto os exércitos mercenários trazem apenas danos. Uma república que dispõe de exército próprio submete-se mais dificilmente a um cidadão [nota 4] do que outra que disponha de exércitos externos.

Viveram Roma e Esparta durante muitos séculos armadas e livres. Os suíços são muito armados e muito livres. Os cartagineses são um exemplo antigo de emprego de armas mercenárias, tendo sido por isso destruídos por seus soldados mercenários após a primeira guerra com os romanos [nota 5], embora tivessem como chefes seus próprios cidadãos. Após a morte de Epaminondas, Filipe da Macedônia [nota 6] foi nomeado pelos tebanos capitão de suas tropas, mas, depois da vitória, tirou-lhes a liberdade. Após a morte do duque Filippo, os milaneses contrataram Francesco Sforza [nota 7] para lutar contra os venezianos, o qual, depois de vencer os inimigos em Caravaggio, uniu-se a eles para subjugar os seus patrões milaneses. Sforza, seu pai, que fora soldado da rainha Giovanna de Nápoles, deixou-a de repente desarmadas [nota 8], obrigando-a a lançar-se nos braços do rei de Aragão [nota 9] para não perder o seu reino. E se, pelo contrário, os venezianos e florentinos ampliaram seu império com estas armas, e se os seus capitães não se fizeram príncipes mas, ao contrário, os defenderam, respondo que, neste caso, os florentinos foram favorecidos pela sorte porque, dentre os capitães valorosos que poderiam temer, alguns não venceram guerra nenhuma, outros encontraram rivais e outros ain-


Página 60
da voltaram suas ambições para outros lugares. O que não venceu foi Giovanni Aucut [nota 10], ruja disposição não se pode conhecer, visto não ter vencido. Deve-se reconhecer, porém, que, se tivesse sido vitorioso, os florentinos teriam ficado à sua mercê. Sforza [nota 11] teve sempre contra si os partidários de Braccio, controlando-se mutuamente. Francesco canalizou sua ambição para a Lombardia, e Braccio, contra a Igreja e o reino de Nápoles. Mas voltemos ao que aconteceu há pouco. Os florentinos nomearam Paolo Vitelli [nota 12] seu capitão, um homem muito prudente que, como cidadão particular, havia alcançado imensa reputação. Se ele tivesse derrotado Pisa, não há dúvida de que os florentinos teriam de conservá-lo, pois, se ele passasse para o lado de seus inimigos, estariam perdidos; conservando-o, porém, teriam que lhe obedecer. Quanto aos venezianos, se examinarmos seus avanços, veremos que se portaram segura e gloriosamente enquanto fizeram a guerra por si próprios (isto é, antes de orientarem seus empreendimentos para a terra firme), quando agiram muito valorosamente, com o auxílio dos gentis-homens e da plebe. Porém quando começaram a combater em terra, perderam esta virtù e seguiram os costumes bélicos da Itália. No início de sua expansão, não tendo muito território [nota 13] mas uma grande reputação, pouco tinham a temer de seus capitães. Porém, quando se expandiram, o que ocorreu sob Carmignuola [nota 14], tiveram uma prova desse erro porque, sabendo que ele era valoroso, já que sob seu comando tinham derrotado o duque de Milão, mas vendo, por outro lado, como ele havia se tornado frio em relação à guerra, julgaram não poder mais vencer com ele, pois lhe faltava ânimo. Mas também não podiam dispensá-lo, sob pena de tornarem
Página 61
a perder o que haviam conquistado; por isso tiveram de matá-lo para se garantirem. Tiveram depois como capitão Bartolommeo da Bergamo [nota 15], Ruberto da San Severino [nota 16], conde di Pitigliano [nota 17] e outros similares dos quais tinham que temer as derrotas e não as vitórias [nota 18], como aconteceu mais tarde em Valià, onde, numa batalha, perderam o que em oitocentos anos e com tanta fadiga haviam conquistado [nota 19]. Porque dessas armas nascem somente conquistas lentas, tardias e débeis, e perdas súbitas e miraculosas. E como cheguei, com estes exemplos, à Itália, que durante muitos anos foi governada pelas armas mercenárias, quero discorrer mais genericamente sobre o assunto, para que, conhecendo suas origens e desenvolvimento, melhor se possa corrigir o erro de usá-las.

Temos de entender, portanto, como nestes últimos tempos [nota 20], desde que o Império começou a ser repelido da Itália e o papa adquiriu maior reputação na esfera temporal, dividiu-se a Itália em maior número de estados. Isto ocorreu porque muitas das grandes cidades tomaram armas contra seus nobres, os quais, favorecidos pelos imperadores, antes as mantinham oprimidas, a Igreja as ajudava para aumentar sua reputação na esfera temporal; ao mesmo tempo, em muitas outras cidades, certos cidadãos se fizeram príncipes. A partir daí, tendo a Itália caído quase inteiramente em mãos da Igreja e de algumas repúblicas, e sendo os padres e aqueles outros cidadãos pouco habituados ao manejo de armas, começou-se a contratar estrangeiros a soldo. O primeiro que granjeou reputação nessas milícias foi Alberigo da Conio [nota 21], da Romanha. Da sua disciplina descendem, entre outros, Braccio e Sforza, que, no seu tempo, foram árbitros da Itália. Depois destes, vieram todos os outros que


Página 62
até nossos dias têm comandado essas armas. O resultado de sua virtù [nota 22] foi a Itália ter sido invadida por Carlos, pilhada por Luís, violentada por Fernando e vilipendiada pelos suíços [nota 23]. Seu sistema tem sido primeiro diminuir a reputação da infantaria, para dar prestígio a si próprios. Fizeram isto porque, não tendo pátria e vivendo de sua ocupação, pouca infantaria não bastaria para lhes dar reputação e, se fosse muita, não poderiam alimentá-la. Por isso, restringiram-se à cavalaria, onde com um número razoável eram sustentados e honrados. Chegaram as coisas a tal ponto que, num exército de vinte mil soldados, não se encontravam sequer dois mil infantes. Além disso, usaram todo o engenho para afastar de si e dos soldados a fadiga e o medo, não se matando nos combates, mas fazendo-se uns aos outros prisioneiros sem resgate. Não atacavam à noite as cidades, assim como os que defendiam as cidades não atacavam os do acampamento. Em torno do acampamento, não construíam fossos nem paliçadas, nem batalhavam no inverno. Todas estas coisas estavam incluídas em seus códigos militares e foram concebidas, como foi dito, para escaparem à fadiga e aos perigos. Assim, levaram a Itália a ser escravizada e vilipendiada.
Página 63
CAPÍTULO XIII

Dos Exércitos Auxiliares, Mistos e Próprios
Os exércitos auxiliares [nota 1], que são outra arma inútil, são as tropas de um poderoso chamadas para te auxiliar e defender. Foi o que fez recentemente o papa Júlio que, tendo comprovado, na campanha de Ferrara [nota 2], triste desempenho de seus exércitos mercenários, voltou-se para os auxiliares, combinando com Fernando, rei de Espanha, que sua gente e exército fossem ajudá-lo. Esses exércitos podem ser úteis e bons para si mesmos, mas, para quem os chama, são quase sempre nocivos; quando perdem, és derrotado junto com eles e, quando vencem, te aprisionam. Embora as antigas histórias estejam repletas de exemplos a este respeito, quero deter-me no caso recente do papa Júlio II, cuja decisão de se lançar por inteiro nas mãos de um forasteiro [nota 3], pelo desejo de conquistar Ferrara, não poderia ser menos recomendável. Mas sua boa fortuna fez com que surgisse uma terceira coisa [nota 4] e, assim, não colhesse os frutos de sua má escolha, porque, tendo sido derrotados seus auxiliares em Ravenna [nota 5] e surgindo os suíços para expulsar os vencedores, fora de qualquer expectativa do papa ou de outros, não veio ele a cair prisioneiro dos inimigos, pois estes fugiram, nem de seus auxiliares, já que vencera com outras
Página 64
forças que não as destes. Os florentinos, estando inteiramente desarmados, levaram dez mil franceses a Pisa para tomá-la [nota 6], decisão pela qual enfrentaram mais perigos do que em qualquer época de adversidade. O imperador de Constantinopla [nota 7], para se contrapor aos seus vizinhos, pôs na Grécia dez mil turcos, os quais, finda a guerra, não quiseram sair; este foi o início da servidão da Grécia aos infiéis.

Logo, quem quiser não poder [nota 8] vencer deverá valer-se desses exércitos, porque são muito mais perigosos do que os mercenários. No caso dos auxiliares a ruína é inevitável, pois são todos unidos e voltados à obediência a outrem; enquanto os mercenários, para te molestar, mesmo tendo sido vencedores, precisariam de mais tempo e melhor ocasião, pois não formam um corpo e são organizados e pagos por ti. Assim, ainda que um terceiro venha a ser nomeado chefe por ti, não poderá de repente alcançar tanta autoridade a ponto de te aborrecer. Em resumo, nos exércitos mercenários, o mais perigoso é a covardia; nos auxiliares, a virtù.

Logo, um príncipe sábio sempre evitará estes exércitos, valendo-se dos seus próprios, e preferindo até perder com suas tropas a vencer com tropas alheias, por não considerar verdadeira a vitória alcançada com armas alheias. Não hesitarei em citar Cesare Borgia e suas ações. Este duque entrou na Romanha com exércitos auxiliares, compostos inteiramente de franceses, e com eles tomou Ímola e Furlì. Mais tarde, não lhe parecendo seguros esses exércitos, tentou as tropas mercenárias, julgando- as menos perigosas, e contratou a soldo Orsini e Vitelli, que mais tarde dispensou, ao perceber, na prática, que eram dúbios e infiéis. Voltou-se, então, para um exército
Página 65
próprio. Pode-se facilmente verificar a diferença entre um tipo de exército e outro, considerando a diferença que ocorreu na reputação do duque de quando dispunha só dos franceses para quando tinha os Orsini e Vitelli e, finalmente, quando passou a ter seus próprios soldados e ser senhor de si mesmo. Sua reputação foi crescendo e jamais foi tão elevada como no momento em que todos viram que ele era o senhor absoluto de seus exércitos.

Não queria afastar-me dos exemplos italianos recentes, mas também não posso deixar de falar em Hierão [nota 9] de Siracusa, anteriormente citado por mim. Como eu disse, colocado pelos siracusanos à frente dos exércitos, este logo percebeu que eram inúteis as milícias mercenárias por serem os seus chefes do mesmo tipo dos nossos italianos. Julgando não poder conservá-las, nem afastá-las, fê-las em pedaços, guerreando a partir daí com exércitos próprios e não com alheios. Quero ainda evocar a memória de uma figura do Velho Testamento, a este propósito. Oferecendo-se Davi a Saul para combater Golias, agitador filisteu, Saul equipou-o com suas armas para dar-lhe ânimo. Ao experimentá-las, porém, David as recusou, dizendo que com elas não poderia bem valer-se de si mesmo; em vez disso queria enfrentar o inimigo com sua funda e seu punhal.

Enfim, os exércitos dos outros ou te caem pelas costas, ou te pesam ou te apertam. Carlos VII [nota 10], pai do rei Luís XI, tendo com sua fortuna e virtù liberado a França dos ingleses, sentiu necessidade de armar-se de exércitos próprios e criou em seu reino a ordenança [nota 11] de guardas e infantes. Mais tarde, o rei Luís, seu filho [nota 12], extinguiu a infantaria e começou a contratar suíços a soldo, erro
Página 66
que, continuado pelos outros, é a razão, como se vê agora de fato, dos perigos que corre aquele reino. Tendo dado reputação aos suíços, depreciou todo o seu exército pois extinguiu inteiramente a infantaria e subordinou seus guardas aos exércitos alheios, já que, estando acostumados a guerrear junto com os suíços, passaram a acreditar que não podiam vencer sem eles. Disso resulta que os franceses não podem contra os suíços e, sem os suíços, não podem contra os outros. Os exércitos franceses têm sido, portanto, mistos, parte mercenários e parte próprios; exércitos esses que, em conjunto, são muito melhores do que os exclusivamente auxiliares ou exclusivamente mercenários, mas muito inferiores aos exércitos próprios.

Basta o exemplo citado, porque o reino de França seria insuperável se tivesse incrementado ou preservado a ordem de Carlos. Mas a pouca prudência dos homens começa uma coisa que, por ter bom sabor, não lhes permite notar o veneno que traz por baixo; como eu disse antes, não percebem a febre tísica [nota 13].

Portanto, aquele que não detecta no nascedouro os males de um principado não é verdadeiramente sábio. Isto é dado a poucos. Se examinarmos a razão primeira da ruína do Império Romano, veremos que residiu tão somente em ter começado a contratar os godos [nota 14], porque, a partir desse início, começaram a debilitar-se as suas forças e toda a virtù que se tirava dele se transferia para os outros.

Concluo, então, que sem armas próprias nenhum principado estará seguro; aliás, estará inteiramente à mercê da fortuna, não havendo virtù que confiavelmente o defenda na adversidade. Sempre foi opinião e sen-


Página 67
tença dos homens sábios quod nibil sit tam infirmum aut instabile quam fama potential non sua vinixa [nota 15]. As armas próprias são as compostas ou de súditos, ou de cidadãos, ou de pessoas a quem conferiste poder. Todas as outras ou são mercenárias ou auxiliares. Será fácil encontrar a forma de organizar as próprias armas, examinando-se as providências tomadas pelos quatro personagens que citei antes [nota 16] e mais Filipe, pai de Alexandre Magno, além de muitas repúblicas que se armaram e se organizaram. É a estes ordenamentos que me remeto.
Página 68
Página 69
CAPÍTULO XIV


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal