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Do que Compete a um Príncipe acerca da Milícia
Deve portanto um príncipe não ter outro objetivo, nem pensamento, nem tomar como arte sua coisa alguma que não seja a guerra, sua ordem e disciplina, porque esta é a única arte que compete a quem comanda. É de tanta virtù que não só mantém aqueles que já nasceram príncipes, como também muitas vezes permite que homens de condição privada ascendam ao principado. Inversamente, vê-se que os príncipes que pensam mais em refinamento do que nas armas perdem o seu estado. A primeira razão que te leva a perder teu estado é negligenciar esta arte, e a razão que te faz conquistá-lo é ser versado nela.

Francesco Sforza [nota 1], por ter exércitos, de cidadão privado tornou-se duque de Milão; seus filhos [nota 2], por fugirem do desconforto do exército, de duques tornaram-se cidadãos privados. Entre outros um dos males que a falta de armas acarreta é tornar-te desprezível, o que constitui uma daquelas infâmias das quais o príncipe deve proteger-se, como explicarei abaixo [nota 3]. Não há qualquer comparação entre um homem armado e outro desarmado; não é razoável que um homem armado obedeça de bom grado a quem esteja desarmado, nem que o desarmado


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se sinta seguro entre servidores armados, pois, havendo desdém em um e suspeita no outro, não é possível que entrem em acordo. Portanto, um príncipe que não entenda de exército, além de outros inconvenientes, como dissemos, não poderá ser estimado por seus soldados nem confiar neles.

Portanto, um príncipe não deve jamais afastar o pensamento do exercício da guerra e, durante a paz, deve praticá-la mais ainda do que durante a guerra. Isto pode ser feito de duas maneiras, com obras e com a mente. Quanto às obras, além de conservar bem organizados e treinados os seus exércitos, deve realizar caçadas e, através delas, acostumar o corpo aos desconfortos e, também, aprender a natureza dos lugares, a conhecer como se elevam os montes, como descem os vales, como jazem as planícies e a compreender a natureza dos rios e dos pântanos, colocando nisto um grande empenho. Este conhecimento será útil de duas maneiras: primeiro, se aprende a conhecer o país, o que permite melhor planejar a sua defesa; depois, através do conhecimento e prática daqueles sítios, pode-se com facilidade compreender qualquer outro novo lugar que seja necessário explorar. Os montes, vales, planícies, rios e pântanos que estão, por exemplo, na Toscana, têm certa semelhança com outros das demais províncias, de tal modo que, a partir do conhecimento do território de certa província, pode-se facilmente chegar ao conhecimento de outras. O príncipe a quem falte esta perícia carece da primeira qualidade que deve ter um capitão, porque é esta que ensina a ir de encontro ao inimigo, tomar os alojamentos, guiar os exércitos, organizar as batalhas e atacar as cidades com superioridade.


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Um dos louvores que os escritores fazem a Filipêmenes [nota 4], príncipe dos aqueus, é que nos tempos de paz não pensava senão nos métodos de guerra e, quando estava nos campos com os amigos, muitas vezes parava e lhes perguntava: “Se os inimigos estivessem em cima daquele monte e nós aqui embaixo, qual de nós estaria em vantagem? Como se poderia atacá-los, conservando a nossa formação? Se quiséssemos bater em retirada, como teríamos de fazer? Se eles batessem em retirada, como faríamos para persegui-los?” E, caminhando, apresentava-lhes todos os casos que poderiam acontecer a um exército; ouvia a opinião deles, expunha a sua, corroborava-a com razões, de tal modo que, através destas contínuas reflexões, não pudesse jamais surgir-lhe, no comando do exército, imprevisto algum para o qual não tivesse uma solução.

Quanto aos exercícios da mente, deve o príncipe ler as histórias e refletir sobre as ações dos homens excelentes, ver como se comportaram nas guerras, examinar as causas das vitórias e derrotas a fim de poder escapar destas e imitar aquelas. Mas, sobretudo, deve agir como antes agiram alguns homens excelentes que se espelharam no exemplo de outros que, antes deles, haviam sido louvados e glorificados, e cujos gestos e ações procuraram ter sempre em mente; é o caso de Alexandre Magno, que imitava Aquiles, de Cesare, que imitava Alexandre, e de Cipião, que imitava Ciro. Quem ler a vida de Ciro, escrita por Xenofonte, reconhecerá depois, na vida de Cipião, quanto deveu de sua glória àquela imitação e quanto, em sua castidade, afabilidade, humanidade, liberalidade, Cipião se conformava ao que Xenofonte escrevera sobre Ciro.


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Um príncipe sábio deve observar comportamento semelhante e jamais permanecer ocioso nos tempos de paz, e sim com engenho fazer deles um cabedal para dele se valer na adversidade, a fim de que, quando mudar a fortuna, esteja sempre pronto a lhe resistir.
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CAPÍTULO XV

Das Coisas pelas quais os Homens, e Especialmente os Príncipes, São Louvados ou Vituperados
Resta agora ver como deve comportar-se um príncipe para com seus súditos ou seus amigos. Como sei que muitos já escreveram sobre este assunto, temo que, escrevendo eu também, seja considerado presunçoso, sobretudo porque, ao discutir esta matéria, me afastarei das linhas traçadas pelos outros. Porém, sendo meu intento escrever algo útil para quem me ler, parece-me mais conveniente procurar a verdade efetiva da coisa [nota 1] do que uma imaginação sobre ela. Muitos imaginaram repúblicas e principados que jamais foram vistos e que nem se soube se existiram na verdade, porque há tamanha distância entre como se vive e como se deveria viver, que aquele que trocar o que se faz por aquilo que se deveria fazer aprende antes sua ruína do que sua preservação; pois um homem que queira fazer em todas as coisas profissão de bondade deve arruinar-se entre tantos que não são bons. Daí ser necessário a um príncipe, se quiser manter-se, aprender a poder não ser bom e a se valer ou não disto segundo a necessidade.

Deixando pois de lado as coisas imaginadas acerca de um príncipe e discorrendo sobre as verdadeiras; afirmo que quando se fala dos homens, e principalmente


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dos príncipes, por estarem em posição mais elevada, eles se fazem notar por certas qualidades que lhes trazem reprovação ou louvor [nota 2]. Assim, um é considerado liberal e outro miserável (misero, para usar o termo toscano, porque “avaro” em língua toscana significa a pessoa que deseja possuir por rapacidade, enquanto “misero” é aquele que se abstém exageradamente de usar o que é seu); um é considerado pródigo e outro ganancioso; um cruel e outro piedoso; um falso e outro fiel; um efeminado e pusilâmine e outro feroz e corajoso; um modesto e outro soberbo; um lascivo e outro casto; um íntegro e outro astuto; um duro e outro maleável; um ponderado e outro leviano; um religioso e outro incrédulo, e assim por diante. Sei que vão dizer que seria muito louvável que um príncipe, dentre todas as qualidades acima, possuísse as consideradas boas. Não sendo isto porém inteiramente possível, devido às próprias condições humanas [nota 3] que não o permitem, necessita ser suficientemente prudente para evitar a infâmia [nota 4] daqueles vícios que lhe tirariam o estado e guardar-se, na medida do possível, daqueles que lhe fariam perdê-lo; se não o conseguir, entretanto, poderá, sem grande preocupação, deixar estar.

Também não deverá importar-se de incorrer na infâmia dos vícios sem os quais lhe seria difícil conservar o estado porque, considerando tudo muito bem, se encontrará alguma coisa que parecerá virtù e, sendo praticada, levaria à ruína; enquanto uma outra que parecerá vício, quem a praticar poderá alcançar segurança e bem-estar.


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CAPÍTULO XVI

Da Liberalidade e da Parcimônia
Assim, começando pelas primeiras das qualidades anteriormente citadas, afirmo que seria bom ser considerado liberal. No entanto, a liberalidade usada de maneira ostensiva te prejudica, mas usada com virtù, como deve ser, não se torna notória e não te livra da infâmia de ser tido como o contrário. Contudo, desejando manter diante dos homens a reputação de liberal, precisará não dispensar nenhuma espécie de suntuosidade, de tal modo que, nessas condições, um príncipe sempre gastará nessas obras todas as suas disponibilidades, necessitando ao fim, se quiser manter o conceito de liberal, onerar violentamente o povo, ser cruel nos impostos e fazer tudo o que for necessário para obter dinheiro. Isto começará a torná-lo odioso diante dos súditos e malquisto por todos, tornando-se pobre; assim, tendo com sua liberalidade ofendido a muitos e premiado a poucos, será atingido pelo primeiro revés e abalado pelo primeiro perigo que surgir. E, se tomar conhecimento disto e quiser voltar atrás, logo incorrerá na fama de miserável [nota 1].

Logo, não podendo um príncipe usar da virtù da liberalidade sem prejuízo próprio e sem danos, de forma que seja divulgada, deverá, se for prudente, não se preo-


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cupar com a fama de miserável, porque com o tempo será considerado cada vez mais liberal, ao verem que, graças à sua parcimônia, suas receitas lhe bastam, que pode defender-se dos que lhe movem guerra e realizar seus empreendimentos sem onerar o povo. Assim, usará de liberalidade para com todos de quem nada tira, que são inúmeros, e de sovinice para com aqueles a quem não dá coisa alguma, e que são poucos. Em nossos tempos, só temos visto fazerem grande coisa os que têm sido considerados avarentos; os outros se arruínam. O papa Júlio II, tendo se servido da fama de liberal para alcançar o papado, não pensou depois em manter este conceito, para poder fazer guerras. O atual rei de França [nota 2] fez tantas guerras sem exigir nenhum imposto extraordinário do seu povo, somente porque administrou as despesas supérfluas com grande parcimônia. E o atual rei de Espanha [nota 3], se fosse tido como pródigo, não teria conseguido vencer tantas empresas.

Portanto, para não ter de roubar os súditos, poder defender-se e para não ficar pobre e desprezível, e para não ser obrigado a se tornar rapace, um príncipe deve temer pouco incorrer na fama de miserável, porque este é um dos vícios que lhe permitem governar. Se alguém disser que César alcançou o império por meio da liberalidade, e muitos outros atingiram posições elevadíssimas por terem sido e por serem considerados liberais, eu respondo: ou já és um príncipe ou estás em vias de tornar-te um príncipe. No primeiro caso, essa liberalidade é danosa; no segundo, é muito necessário ser considerado liberal. César era um dos que pretendiam chegar ao principado em Roma; mas, se tivesse sobrevivido depois de consegui-lo e não fosse moderado nos gastos, teria des-


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truído aquele império. Se alguém replicar: inúmeros príncipes fizeram coisas grandiosas com as armas e foram considerados muito pródigos, responderei: ou o príncipe gasta do que é seu e de seus súditos ou gasta do que é dos outros; no primeiro caso, deve ser parcimonioso, no outro, não deve deixar de lado nenhum indício de liberalidade. O príncipe que parte com os exércitos, que se enche de presas, de saques e de reféns e manipula o que é dos outros, precisa desta liberalidade, caso contrário não seria seguido pelos soldados. Com o que não é teu nem dos teus súditos, podes ser mais pródigo, como Ciro, César e Alexandre, pois gastar o que pertence aos outros não diminui a tua reputação, e sim a aumenta: só te é prejudicial gastar o que é teu. Não há coisa alguma que mais se consuma a si mesma do que a liberalidade, cujo uso te leva perder a faculdade de usá-la, tornando-te ou pobre e desprezível, ou rapace e odioso, se quiseres fugir à pobreza. Dentre todas as coisas de que um príncipe deve guardar-se, a primeira é ser desprezível e odioso; a liberalidade conduz a uma ou outra coisa. Portanto, é mais sábio ficar com a fama de miserável, que gera uma infâmia sem ódio, do que, por desejar o renome de liberal, precisar incorrer na fama de rapace, que gera um infâmia com ódio.
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CAPÍTULO XVII

Da Crueldade e da Piedade e se É Melhor Ser Amado que Temido ou Melhor Ser Temido que Amado
Continuando com as demais qualidades antes mencionadas, digo que todo príncipe deve desejar ser considerado piedoso e não cruel; entretanto, devo adverti-lo para não usar mal a piedade. Cesare Borgia era tido como cruel; no entanto, com sua crueldade reergueu a Romanha [nota 1], reunificou-a e restituiu-lhe a paz e a lealdade, o que, bem considerado, evidenciará que ele foi muito mais piedoso do que o povo florentino, o qual, para evitar a fama de cruel, permitiu a destruição de Pistóia [nota 2]. Um príncipe deverá portanto não se preocupar com a fama de cruel se desejar manter seus súditos unidos e obedientes. Dando os pouquíssimos exemplos necessários, será mais piedoso do que aqueles que, por excessiva piedade, deixam evoluir as desordens, das quais resultam assassínios e rapinas; porque estes costumam prejudicar uma universalidade [nota 3] inteira de cidadãos, enquanto as execuções ordenadas pelo príncipe ofendem apenas um particular. Dentre todos os príncipes, particularmente ao príncipe novo é impossível escapar à fama de cruel, por serem os novos estados repletos de perigos. Virgílio disse, pela voz de Dido [nota 4]:
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Res dura, et regninovitas me talia cogunt

Moliri, et late fines custode tueri.”
Contudo, o príncipe deve ser ponderado em seu pensamento e ação, não ter medo de si mesmo e proceder de forma equilibrada, com prudência e humanidade, para que a excessiva confiança não o torne incauto, nem a exagerada desconfiança o faça intolerável.

Surge daí uma questão [nota 5]: é melhor ser amado que temido ou o inverso? A resposta é que seria de desejar ser ambas as coisas, mas, como é difícil combiná-las, é muito mais seguro ser temido do que amado, quando se tem de desistir de uma das duas. Isto porque geralmente se pode afirmar o seguinte acerca dos homens: que são ingratos, volúveis, simulados e dissimulados, fogem dos perigos, são ávidos de ganhar e, enquanto lhes fizeres bem, pertencem inteiramente a ti, te oferecem o sangue, o patrimônio, a vida e os filhos, como disse acima, desde que o perigo esteja distante; mas, quando precisas deles, revoltam-se. O príncipe que se apóia inteiramente sobre suas palavras, descuidando-se de outras precauções, se arruína, porque as amizades que se obtêm mediante pagamento, e não com a grandeza e nobreza de ânimo, se compram, mas não se possuem, e, no devido tempo, não podem ser usadas. Os homens têm menos receio de ofender a quem se faz amar do que a outro que se faça temer; pois o amor é mantido por vínculo de reconhecimento, o qual, sendo os homens perversos, é rompido sempre que lhes interessa, enquanto o temor é mantido pelo medo ao castigo, que nunca te abandona.

Deve contudo o príncipe fazer-se temer de modo que, se não conquistar o amor, pelo menos evitará o
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ódio; pois é perfeitamente possível ser temido e não ser odiado ao mesmo tempo, o que conseguirá sempre que se abstenha de se apoderar do patrimônio e das mulheres de seus cidadãos e súditos. Se precisar derramar o sangue de alguém, deverá fazê-lo quando houver justificativa conveniente e causa manifesta. Mas, sobretudo, deverá respeitar o patrimônio alheio, porque os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio. Além disso, não faltarão jamais razões para se apropriar de um patrimônio, pois aquele que começa a viver de rapina sempre encontra motivos para se apoderar violentamente do que pertence aos outros; enquanto as razões para matar são, ao contrário, mais raras e terminam mais rapidamente.

Quando, porém, o príncipe está em campanha, no comando de uma infinidade de soldados, não precisa absolutamente se preocupar com a fama de cruel, porque, sem esta fama, jamais se mantém um exército unido e disposto à ação. Entre as admiráveis ações de Aníbal, conta-se que, tendo um exército muito numeroso, composto de homens de todas as nacionalidades que haviam sido levados a combater em terras distantes, não lhes aconteceu jamais dissensão alguma, nem entre eles mesmos, nem entre eles e o príncipe, tanto nos bons como nos maus momentos. Isto só pode ter-se originado da sua desumana crueldade, que, juntamente com suas outras infinitas virtù, fizeram-no sempre, aos olhos de seus soldados, venerando e terrível. Sem a crueldade, não lhe bastariam as demais virtù para conseguir suas realizações. Os escritores, numa atitude pouco refletida, por um lado admiram este seu comportamento e, por outro, condenam a sua principal causa.


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Tanto é verdade que suas outras virtù não lhe seriam suficientes, que basta tomar o exemplo de Capião, homem raríssimo não somente em sua época, mas também na memória das coisas que se sabem. Quando seus exércitos se revoltaram na Espanha, não foi por outra causa senão sua excessiva clemência, que havia concedido aos seus soldados maior permissividade do que convém à disciplina militar. Este procedimento foi censurado no Senado por Fábio Massimo, que o chamou de corruptor da milícia romana. Os lócrios [nota 6], que tinham sido destruídos por um subordinado de Capião, não foram vingados por ele, nem foi punida a insolência daquele comandado: tudo isso em decorrência de sua natureza tão complacente. Querendo justificá-lo, alguém [nota 7] disse que, como ele, havia muitos homens que mais sabiam não errar do que corrigir os erros alheios. Esta natureza teria, com o tempo, deteriorado a fama e a glória de Capião, caso ele tivesse continuado com ela no comando. Mas, subordinando-se à direção do Senado, não só encobriu esta sua característica prejudicial, como também esta lhe acresceu a glória.

Assim, voltando à questão sobre ser temido e amado, concluo que, como os homens amam segundo sua vontade e temem segundo a vontade do príncipe, deve este contar com o que é seu e não com o que é de outros, empenhando-se apenas em evitar o ódio, como dissemos.


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CAPÍTULO XVIII

De que Modo Devem os Príncipes Manter a Palavra Dada
Todos reconhecem o quanto é louvável que um príncipe mantenha a palavra empenhada e viva com integridade e não com astúcia [nota 1]. Entretanto, por experiência, vê-se, em nossos tempos, que fizeram grandes coisas os príncipes que tiveram em pouca conta a palavra dada e souberam, com astúcia, rever a mente dos homens, superando, enfim, aqueles que se pautaram pela lealdade.

Devemos, pois, saber que existem dois gêneros de combates: um com as leis e outro com a força. O primeiro é próprio ao homem, o segundo é o dos animais. Porém, como freqüentemente o primeiro não basta, convém recorrer ao segundo. Portanto, é necessário ao príncipe saber usar bem tanto o animal quanto o homem. Isto já foi ensinado aos príncipes, em palavras veladas, pelos escritores antigos, que escreveram que Aquiles e muitos outros príncipes antigos haviam sido criados por Quíron, o centauro [nota 2], que os guardara sob sua disciplina. Ter um preceptor meio animal meio homem não quer dizer outra coisa senão que um príncipe deve saber usar ambas as naturezas e que uma sem a outra não é duradoura.


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Visto que um príncipe, se necessário, precisa saber usar bem a natureza animal, deve escolher a raposa e o leão, porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos. Os que fizerem simplesmente a parte do leão não serão bem-sucedidos. Assim, um príncipe prudente não pode, nem deve, guardar a palavra dada, quando isso se torna prejudicial ou quando deixem de existir as razões que o haviam levado a prometer. Se os homens fossem todos bons, este preceito não seria bom, mas, como são maus e não mantêm sua palavra para contigo, não tens também que cumprir a tua. Tampouco faltam ao príncipe razões legítimas para desculpar sua falta de palavra. Sobre isto poderíamos dar infinitos exemplos modernos e mostrar quantos pactos e quantas promessas se tornaram inúteis e vãs por causa da infidelidade dos príncipes. Quem melhor se sai é quem melhor sabe valer-se das qualidades da raposa. Mas é necessário saber disfarçar bem essa natureza e ser grande simulador e dissimulador, pois os homens são tão simples e obedecem tanto às necessidades [nota 3] presentes, que o enganador encontrará sempre quem se deixe enganar [nota 4].

Não quero silenciar sobre um exemplo recente. Alexandre VI [nota 5] jamais fez ou pensou em outra coisa senão em enganar os homens e sempre encontrou meios para fazê-lo. Nunca existiu homem algum que mostrasse maior eficácia ao afirmar — o que fazia com os maiores juramentos — e ninguém cumpriu menos o que disse. No entanto, sempre conseguiu enganar à vontade, porque conhecia bem este lado do mundo.

A um príncipe, portanto, não é necessário ter de fato todas as qualidades supracitadas, mas é indispensável
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parecer tê-las. Aliás, ousarei dizer que, se as tiver e utilizar sempre, serão danosas, enquanto, se parecer tê-las, serão úteis. Assim, deves parecer clemente, fiel, humano, íntegro, religioso — e sê-lo, mas com a condição de estares com o ânimo disposto a, quando necessário, não o seres, de modo que possas e saibas como tornar-te o contrário. É preciso entender que um príncipe, sobretudo um príncipe novo, não pode observar todas aquelas coisas pelas quais os homens são considerados bons, sendo-lhe freqüentemente necessário [nota 6], para manter o poder, agir contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade e contra a religião. Precisa, portanto, ter o espírito preparado para voltar-se para onde lhe ordenarem os ventos da fortuna e as variações das coisas e, como disse acima, não se afastar do bem, mas saber entrar no mal, se necessário.

Logo, deve um príncipe cuidar para que jamais lhe escape da boca qualquer coisa que não contenha as cinco qualidades citadas. Deve parecer, para os que o virem e ouvirem, todo piedade, todo fé, todo integridade, todo humanidade e todo religião. Não há nada mais necessário do que parecer ter esta última qualidade. Os homens, em geral, julgam as coisas mais pelos olhos que com as mãos, porque todos podem ver, mas poucos podem sentir. Todos vêem aquilo que pareces, mas poucos sentem o que és; e estes poucos não ousam opor-se à opinião da maioria, que tem, para defendê-la, a majestade do estado. Como não há tribunal onde reclamar das ações de todos os homens, e principalmente dos príncipes, o que conta por fim são os resultados. Cuide pois o príncipe de vencer e manter o estado: os meios serão sempre julgados honrosos e louvados por todos, porque o vulgo está


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sempre voltado para as aparências e para o resultado das coisas, e não há no mundo senão o vulgo; a minoria não tem vez quando a maioria tem onde se apoiar. Há um príncipe [nota 7] nos tempos atuais, cujo nome não convém citar, que não prega outra coisa senão a paz e a lealdade, sendo porém inimigo de ambas; e tanto uma como outra, se as tivesse observado, lhe teriam mais de uma vez tirado a reputação e o estado.
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CAPÍTULO XIX

Como se Deve Evitar Ser Desprezado e Odiado
Tendo discorrido sobre as qualidades mais importantes entre as enunciadas anteriormente, das outras quero falar brevemente sobre a generalidade, em parte já mencionada, de que um príncipe deve procurar evitar as coisas que o tornam odioso e desprezível, com o que terá cumprido a sua parte e não correrá perigo algum de outras infâmias. Como afirmei antes, torna-o odioso, sobretudo, ser rapace e usurpador das coisas e das mulheres dos súditos, do que se deve abster, pois os homens em geral vivem contentes enquanto deles não se toma o patrimônio nem a honra, restando ao príncipe apenas ter que combater a ambição de uns poucos, a qual pode ser refreada de muitas maneiras e com facilidade. Torná-lo desprezível ser tido como inconstante, leviano, efeminado, pusilânime e irresoluto, coisas que um príncipe deve evitar como os escolhos, devendo empenhar-se para que, em suas ações, se reconheça grandeza, ânimo, ponderação e energia. Em sua atuação junto às intrigas privadas dos súditos, deve firmar suas decisões como irrevogáveis e manter sua posição de modo que ninguém pense em enganá-lo nem fazê-lo mudar de opinião.
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O príncipe que infunde esta idéia de si mesmo é altamente reputado e dificilmente se conspira contra as pessoas bem reputadas, como também dificilmente é atacado, visto que todos sabem ser ele estimado e reverenciado pelos seus. Um príncipe deve ter dois receios: um interno, por conta de seus súditos; e outro externo, por conta das potências estrangeiras. O meio de se defender destas são as boas armas e os bons amigos, e sempre que tiver boas armas terá também bons amigos. As coisas internas sempre continuarão firmes enquanto permanecerem firmes as coisas externas, salvo se já estiverem perturbadas por alguma conspiração. Mesmo que ocorram agitações externas, se o príncipe for organizado, vivendo conforme descrevi, e não se entregar, sempre resistirá a qualquer ataque, como fez Nábis [nota 1], o espartano. Quanto aos súditos, mesmo que não haja perturbações exteriores, deve-se sempre zelar para que não conspirem, o que o príncipe pode garantir evitando ser odiado ou desprezado e mantendo o povo contente com ele, o que lhe é indispensável conseguir tal como mostrei longamente acima. Um dos mais poderosos instrumentos de que dispõe um príncipe contra as conspirações é não ser odiado pela universalidade, visto que o conspirador sempre acredita poder satisfazer o povo com a morte do príncipe; mas quando crê, ao contrário, desagradá-lo, desanima de tomar esse caminho, porque as dificuldades serão infinitas. Por experiência, vê-se terem sido muitas as conspirações, mas poucas as bem-sucedidas, porque quem conspira não pode agir sozinho, nem buscar aliança senão com quem julga descontente. De repente, um descontente a quem se tenha revelado as disposições poderá encontrar nelas matéria para locu-
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pletar-se, pois manifestamente pode esperar todas as vantagens de suas revelações, de modo que, avaliando o ganho certo por esse lado e, por outro lado, vendo-o dúbio e cheio de perigos, será preciso que seja ou um amigo excepcional ou um completo e obstinado inimigo do príncipe para que mantenha a palavra. Resumindo em breves termos, digo que, da parte do conspirador, só existem o medo, a inveja e o temor da punição que o aterrorizam; enquanto, para defender o príncipe, há a majestade do principado, as leis, a proteção dos amigos e do estado, de forma que, com todas essas coisas somadas à estima popular, é impossível que alguém seja tão temerário a ponto de conspirar contra ele. Porque, normalmente, aquilo que um conspirador tem a temer antes da execução do mal deve temer mais ainda após o delito, se tiver por inimigo o povo e não puder, por isso, esperar refúgio algum.

Há inúmeros exemplos desse assunto, mas me limitarei a apresentar um do tempo de nossos pais. Messer Annibale Bentivoglio [nota 2], avô do atual messer Annibale, era príncipe em Bolonha e foi assassinado pelos Canneschi, que conspiravam contra ele, não deixando nenhum descendente exceto messer Giovanni, ainda de colo. Imediatamente após o homicídio, o povo reagiu e assassinou todos os Canneschi, em razão da estima popular de que desfrutavam os Bentivoglio naquele tempo. Era tamanha essa estima que, não restando em Bolonha pessoa alguma da família que pudesse governar o estado depois da morte de Annibale, e havendo indícios de que em Florença vivia um descendente dos Bentivoglio [nota 3], que até então se supunha ser filho de um ferreiro, vieram os bolonheses buscá-lo em Florença para lhe entregar o


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governo daquela cidade, que foi governada por ele até que messer Giovanni chegasse à idade apropriada ao governo.

Concluo, portanto, que um príncipe deve ter em pouca conta as conspirações enquanto o povo lhe for favorável, mas, quando este se tornar seu inimigo ou lhe tiver ódio, deverá temer todas as coisas e todo mundo. Os estados organizados e os príncipes sábios têm aplicado toda diligência tanto em não exasperar os grandes como em satisfazer o povo e fazê-lo contente, porque esta é uma das principais funções que cabem a um príncipe.

Dentre os reinos bem governados e bem organizados de nossos tempos, conta-se a França, onde se encontram inúmeras instituições boas, das quais depende a liberdade e a segurança do rei. A principal delas é o parlamento [nota 4] e sua autoridade, pois quem organizou aquele reino, conhecendo as ambições e a insolência dos poderosos, e por um lado julgando necessário pôr-lhes um freio para corrigi-los e, por outro lado, conhecendo o ódio da universalidade contra os grandes devido ao medo que esses lhe inspiravam, e pretendendo protegê-la, não quis que essa preocupação específica recaísse sobre o rei, a fim de poupá-lo de ser acusado pelos grandes de proteger o povo e de ser acusado pelo povo de favorecer os grandes. Por isso, instituiu um terceiro juiz com a função de controlar os grandes e favorecer os pequenos sem comprometer o rei. Não poderia esta instituição ser melhor nem mais prudente, sendo ela a maior razão da segurança do rei e do reino. Daí se pode extrair uma outra observação: a de que os príncipes devem fazer os outros [nota 5] aplicarem as punições e eles próprios concederem as graças.
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Novamente concluo que um príncipe deve valorizar os grandes mas não se fazer odiar pelo povo.

Considerando a vida e a morte de alguns imperadores romanos [nota 6], poder-se-ia ter a impressão de que representassem exemplos contrários a esta minha opinião, visto que alguns, não obstante terem sempre vivido exemplarmente e mostrado grande força de ânimo, perderam o império e até foram assassinados por pessoas próximas que os traíram. No entanto, a fim de responder a estas objeções, discutirei as qualidades de alguns imperadores, mostrando as razões de sua ruína, que não contradizem as que apontei. Também examinarei as coisas que parecem notáveis a quem lê os fatos daqueles tempos, restringindo-se aos imperadores que governaram a partir de Marco, o filósofo, até Massimino, ou seja: Marco; Cômodo, seu filho; Pertinax; Giuliano; Severo; Antonino Caracalla, seu filho; Macrino; Heliogábalo; Alexandre e Massimino. Em primeiro lugar, é preciso notar que, enquanto nos demais principados basta lutar contra a ambição dos grandes e a insolência do povo, os imperadores romanos tinham uma terceira dificuldade a enfrentar: a crueldade e a ganância dos soldados. Isto era tão difícil que se constituiu na razão da ruína de muitos, sendo difícil satisfazer simultaneamente os soldados e o povo, porque o povo amava à tranqüilidade e por isso amava os príncipes moderados enquanto os soldados amavam o príncipe de índole militar e que fosse insolente, cruel e rapace, coisas que queriam que ele utilizasse contra o povo, para poderem ter o soldo dobrado e desafogarem sua avareza e crueldade. Estas coisas fizeram com que aqueles imperadores que, por natureza ou por arte, não tinham reputação suficiente para manter um e outro sob controle, se


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arruinassem. A maioria deles, sobretudo os novos que ascendiam ao principado, sentindo a dificuldade desses dois humores, preferia satisfazer os soldados, não se importando de injuriar o povo. Tal decisão era necessária porque, não podendo os príncipes deixar de ser odiados por alguém, devem, em princípio, esforçar-se para não serem odiados pela comunidade [nota 7] e, quando não o conseguem, devem se empenhar com todo engenho para evitar o ódio das comunidades mais poderosas. Assim, os imperadores que, por serem novos, tinham necessidade de favores extraordinários inclinavam-se mais para os soldados que para o povo, o que lhes resultava útil ou não, conforme soubessem ou não manter sua reputação livre diante deles. Por esses motivos é que Marco [nota 8], Pertinax [nota 9] e Alexandre [nota 10], todos de vida modesta, amantes da justiça e inimigos da crueldade, humanos e benevolentes, tiveram todos, com exceção de Marco, um triste fim. Somente Marco viveu e morreu honradíssimo, porque chegara ao poder jure hereditário [nota 11], sem precisar ser reconhecido nem pelos soldados nem pelo povo. Além disso, sendo portador de muitas virtù que o tornavam venerando, manteve sempre, enquanto viveu, ambas as partes dentro de seus limites, jamais tendo sido odiado nem desprezado. Pertinax, porém, feito imperador contra a vontade dos soldados, que se haviam habituado a viver desregradamente sob o governo de Cômodo e não podiam suportar aquela vida honesta à qual Pertinax pretendia convertê-los, atraiu seu ódio, e este ódio, somado ao desprezo por ele ser velho, arruinou desde o início a sua administração.

Aqui se deve notar que o ódio é provocado tanto pelas boas quanto pelas más ações. No entanto, como


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disse acima, se um príncipe quiser manter-se no poder, freqüentemente será forçado a não ser bom, pois quando é corrupta aquela comunidade — seja ela o povo, os soldados ou os grandes — da qual julgues ter necessidade para conservar-te no poder, convém-te atender ao seu humor para satisfazê-la, e então as boas obras poderão te ser prejudiciais. Mas voltando a Alexandre: ele foi de tamanha bondade que, entre outros louvores que lhe são atribuídos, conta-se que, durante seus quatorze anos de governo, jamais se executou alguém sem processo. Contudo, sendo tido como efeminado e homem que se deixava dominar pela mãe, caiu por isso em desprezo; seu exército conspirou contra ele e o massacrou.

Examinando agora, por outro lado, as qualidades de Cômodo, de Severo, de Antonino Caracalla e de Massimino, veremos que foram muito cruéis e rapaces e, para satisfazer aos soldados, não pouparam nenhum tipo de injúria que pudessem cometer contra o povo. Todos, exceto Severo [nota 12], tiveram um triste fim: Severo tinha tanta virtù que, conservando a amizade dos soldados, pôde sempre reinar com tranqüilidade, ainda que taxando o povo de impostos, porque sua virtù o tornava tão admirável no conceito dos soldados e do povo, que este permanecia atônito e estupefato, e aqueles, reverentes e satisfeitos.

Como suas façanhas foram grandes e notáveis para um príncipe novo, quero mostrar brevemente de que forma soube representar bem o papel de raposa e de leão, cuja natureza, como disse acima, um príncipe deve saber imitar. Conhecendo Severo a indolência do imperador Juliano [nota 13], persuadiu o seu exército sediado na Eslavônia da necessidade de ir a Roma vingar a morte de
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Pertinax, morto pelos soldados pretorianos. Com esse pretexto e sem mostrar que aspirava ao governo, deslocou seu exército contra Roma, chegando à Itália antes mesmo que se soubesse de sua partida. Entrando em Roma, foi eleito Imperador pelo Senado intimidado e Juliano foi morto. Depois desse início, restavam a Severo dois obstáculos até se apossar de todo o estado: um na Ásia, onde Pescênio Negro [nota 14], chefe dos exércitos asiáticos, se havia proclamado imperador, e outro no ocidente, onde estava Albino [nota 15], que também pretendia o Império. Considerando perigoso demonstrar inimizade a ambos, deliberou atacar Negro e enganar Albino. Escreveu a este último que, tendo sido eleito Imperador pelo Senado, desejava partilhar com ele esta dignidade; enviou-lhe o título de César e, por deliberação do Senado, tomou-o como colega, coisas que Albino aceitou como verdadeiras. Mas, depois que Severo venceu e matou Negro, e consolidou sua situação no oriente, retornou a Roma, queixando-se ao Senado de que Albino, mal reconhecido pelos benefícios que dele havia recebido, tinha dolosamente procurado assassiná-lo e, por este motivo, fazia-se necessário punir sua ingratidão. Foi, em seguida, à sua procura na França, onde lhe tirou o estado e a vida.

Logo, quem examinar minuciosamente seus atos reconhecerá nele um ferocíssimo leão e uma astutíssima raposa; e verá que foi temido e reverenciado por todos e não odiado pelo exército, não sendo surpresa que ele, de origem modesta, tenha conseguido conquistar tamanho império, porque sua altíssima reputação sempre o protegeu contra o ódio que sua rapacidade poderia ter acendido no povo.


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Mas Antonino [nota 16], seu filho, tinha também excelentes qualidades que o tornavam maravilhoso no conceito do povo e grato aos soldados. Era um militar muito resistente a qualquer fadiga, que desprezava os pratos delicados e todos os demais confortos, o que o tornava amado por todo o exército, apesar de sua ferocidade e crueldade serem tantas e tão inauditas que, depois de cometer inúmeros assassinatos isolados e eliminar grande parte do povo de Roma e todo o povo de Alexandria, tornou-se odiado por todos. Começou a ser temido inclusive por aqueles que mantinha perto de si, a ponto de ser assassinado por um centurião no meio do seu exército. Daí se deve ressaltar que mortes como estas, decorrentes da decisão de um espírito obstinado, são inevitáveis aos príncipes, pois qualquer um que não se importe de morrer poderá atacá-lo; porém, não deve o príncipe receá-las demais, visto serem raríssimas. Deve apenas procurar não cometer nenhuma injúria grave a alguém que o sirva de perto no principado, como fez Antonino, que mandara matar injustamente um irmão daquele centurião e ainda diariamente o ameaçava, embora mantendo-o em seu corpo de guardiães, o que constituía uma atitude temerária e fadada a arruiná-lo, como de fato aconteceu.

Mas passemos a Cômodo [nota 17], para quem, sendo filho de Marco, havia grande facilidade de manter o império, pois o recebeu jure hereditario. Bastar-lhe-ia ter seguido as pegadas do pai para contentar o povo e os soldados. Sendo, porém, de espírito cruel e bestial, privilegiou os exércitos e os tornou desregrados a fim de poder utilizar sua rapacidade contra o povo. Por outro lado, não conservando a sua dignidade e, freqüentemente, descendo às arenas para lutar contra os gladiadores e mais outras


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coisas indigníssimas da majestade imperial, tornou-se desprezível aos olhos dos soldados. Assim, sendo odiado por uma das partes e desprezado pela outra, foi alvo de uma conspiração e assassinado.

Resta-nos descrever as qualidades de Massimino [nota 18]. Este foi um homem muito belicoso. Estando os exércitos aborrecidos com a passividade de Alexandre, sobre o qual discorri acima, com a morte deste, elegeram Massimino imperador. Não se manteve, porém, por muito tempo no poder, devido a duas coisas que o fizeram odioso e desprezado: uma, ser de baixa extração, por já ter apascentado ovelhas na Trácia (fato conhecido por todos e que lhe trazia grande desdém no conceito geral); e outra porque, além de no início de seu principado ter adiado sua ida a Roma para tomar posse do trono imperial, dera anteriormente de si uma imagem crudelíssima, tendo, por meio de seus prepostos em Roma e em todas as partes do Império, praticado inúmeras crueldades. Assim, movidos todos pelo desprezo por sua origem vil e mais o ódio pelo medo à sua ferocidade, rebelou-se primeiro a África e depois o Senado juntamente com todo o povo de Roma, conspirando toda a Itália contra ele. Ao que se somou o seu próprio exército que, sitiando Aquiléia e encontrando dificuldades para expugná-la, enraiveceu-se contra sua crueldade e, vendo tantos inimigos que o temiam cada vez menos, o assassinou.

Não quero discutir nem Heliogábalo [nota 19], nem Macrino [nota 20], nem Juliano [nota 21], os quais, por serem desprezíveis em tudo, logo desapareceram, mas passarei imediatamente à conclusão deste discurso. Acredito que os príncipes atuais têm em seu governo menor dificuldade em satisfazer os seus soldados, porque, não obstante precisarem manter
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certa consideração para com eles, rapidamente se resolve a situação, pois nenhum desses príncipes tem exércitos que se tenham desenvolvido juntamente com o governo e com a administração das províncias, como acontecia com os exércitos do Império romano. No entanto, se naquela época era necessário satisfazer mais aos exércitos do que ao povo, a razão é que os soldados eram mais poderosos do que o povo; enquanto agora se faz mais necessário a todos os príncipes, exceto ao grão-turco e ao sultão [nota 22], satisfazerem antes o povo do que os soldados, porque o povo é quem tem mais poder. Exceto o grão-turco, que tem sempre em torno de si doze mil infantes [nota 23] e quinze mil cavaleiros, dos quais depende a segurança e o poderio de seu reino, sendo por isso necessário, independente de qualquer outro aspecto, que aquele senhor os mantenha amigos. Similarmente, excetuo o sultão: estando o seu reino inteiramente em mãos dos soldados, também ele precisa conservar sua amizade sem preocupar-se com o povo. É preciso notar que o estado do sultão é distinto de todos os demais principados, sendo semelhante ao pontificado cristão [nota 24], que não se pode denominar principado hereditário nem principado novo, pois não são os filhos do príncipe antigo que o herdam e se tornam seu senhor, mas alguém eleito para este posto pelos que têm autoridade para isso. Sendo esta uma instituição antiga, não se pode chamá-la de principado novo, pois nele não existem algumas das dificuldades que há nos novos: embora o príncipe seja novo, as instituições do estado são antigas e ordenadas de modo a recebê-lo como se fosse seu senhor hereditário.

Mas voltemos ao nosso assunto. Considerando-se a explanação acima, vê-se que o ódio e o desprezo foram


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a razão da ruína dos imperadores citados; compreende-se também o motivo por que, procedendo uma parte deles de um modo e outra parte de modo inverso, alguns deles tiveram um fim feliz e outros um fim infeliz. Compreende-se também por que, para Pertinax e Alexandre, sendo príncipes novos, foi inútil e danoso querer imitar Marco, que estava no principado jure hereditario; da mesma forma, por que a Caracalla, Cômodo e Massimino foi pernicioso imitarem Severo, por não terem virtù suficiente para reproduzir suas pegadas. Portanto, um príncipe novo, em um principado novo, não pode imitar as ações de Marco, nem lhe é necessário seguir as de Severo, mas deve tomar de Severo aqueles aspectos que lhe sejam necessários para fundar o seu estado e de Marco os que forem convenientes para conservar com glória um estado que já esteja estabilizado e seguro.
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CAPÍTULO XX



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