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Se as Fortalezas e Muitas Outras Coisas que os Príncipes Fazem Diariamente São Úteis ou Não
Para manter com segurança o seu estado, alguns príncipes desarmaram seus súditos, outros mantiveram os territórios divididos [nota 1], alguns fomentaram inimizades contra si mesmos, outros procuraram conquistar os que lhes pareciam suspeitos no início de seu governo, alguns construíram fortalezas, outros as arruinaram e destruíram. No entanto, ainda que todas essas coisas não possam ser julgadas em definitivo sem se conhecerem as particularidades dos estados onde for necessário tomar tais decisões, falarei delas de maneira genérica, como requer o assunto.

Jamais existiu um príncipe novo que desarmasse os seus súditos; pelo contrário, encontrando-os desarmados, sempre os arma, porque, ao lhes dar armas, estas armas tornam-se tuas; tornam-se fiéis os que te eram suspeitos, conservam-se leais os que já o eram e transformam-se os súditos em teus partidários. Como não se podem armar todos os súditos, ao beneficiar alguns com tuas armas, podes estar mais seguro diante dos demais. A diversidade de tratamento em relação aos primeiros torna-os reconhecidos a ti e os demais te desculpam, julgando necessário ter maiores privilégios quem enfrentou


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maiores perigos e tem mais obrigações. Mas, quando os desarmas, começas a ofendê-los, mostrando desconfiar deles por vileza ou má-fé [nota 2], e uma ou outra dessas opiniões faz com que se acenda o ódio contra ti. Como não podes ficar desarmado, precisas valer-te dos exércitos mercenários, que são do tipo que descrevi acima; e, mesmo que fossem bons, não o seriam suficientemente para defender-te dos inimigos poderosos e dos súditos suspeitos. Por isso, como afirmei, um príncipe novo, em um principado novo, sempre cria exércitos; as histórias estão repletas de exemplos disso.

Quando um príncipe, porém, conquista um estado novo, que é anexado ao seu estado antigo, faz-se necessário desarmar aquele estado, exceto os que te apoiaram na conquista; mesmo estes, com o tempo e ocasião, será preciso torná-los fracos e efeminados, de modo que todos os exércitos naquele estado inteiro sejam compostos dos teus próprios soldados, que viviam próximos de ti no teu estado antigo.

Costumavam os nossos antepassados e os que eram considerados sábios dizer que era necessário manter Pistóia com as lutas de facções e Pisa com as fortalezas. Por isso, suas cidades alimentavam os conflitos entre suas cidades súditas, para dominá-las mais facilmente. Nos tempos em que a Itália era de certo modo equilibrada [nota 3], este devia ser um bom meio, mas não acredito que atualmente se possa fazer disso uma norma, porque não creio que as divisões tragam jamais algum bem. Aliás, quando o inimigo se aproxima, as cidades divididas costumam render-se logo, porque sempre a parte mais fraca se alia às forças externas e a outra não pode governar.
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Movidos — como creio — pelas razões acima, os venezianos favoreciam os partidos guelfos e guibelinos em suas cidades súditas. Ainda que não as deixassem jamais chegar ao derramamento de sangue, alimentavam os conflitos entre elas a fim de que, ocupados com suas diferenças, seus cidadãos não se unissem contra eles. O que, como se viu mais tarde, não atendeu a seu propósito, pois, sendo derrotados em Vailà [nota 4], logo uma parte delas animou-se e lhes tomou tudo. Demonstraram tais políticas, portanto, a fraqueza do príncipe, pois num principado poderoso não se permitem jamais tais divisões, já que são proveitosas apenas em tempos de paz, podendo-se, por meio delas, manipular mais facilmente os súditos; mas, quando vem a guerra, esta política mostra a sua falácia.

Sem dúvida, os príncipes se tornam grandes quando superam as dificuldades e oposições que lhes são feitas. Por isso a fortuna — sobretudo quando quer enaltecer um príncipe novo, que tem maior necessidade de elevar sua reputação do que um príncipe hereditário — cria-lhe inimigos e movimentos de oposição para que ele tenha oportunidade de superá-los e possa, por meio da escada colocada por seus inimigos, subir mais alto. Muitos acreditam que um príncipe sábio deva, apresentando-se a ocasião, fomentar com astúcia algumas inimizades, para que, vencendo-as, obtenha conseqüentemente maior grandeza.

Têm os príncipes, e sobretudo os novos, encontrado maior fidelidade e serventia nos homens que ao início de seu principado lhes eram suspeitos do que naqueles que no começo lhes inspiravam confiança. Pandolfo Petrucci [nota 5], príncipe de Siena, governou seu estado mais com
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aqueles que lhe haviam parecido suspeitos do que com os outros. Desse assunto, porém, não se pode falar mais amplamente porque varia segundo o sujeito [nota 6]. Direi apenas que com grande facilidade o príncipe poderá conquistar os homens que, no começo de um principado, são considerados inimigos e que, para se manterem, precisam de apoio. Forçosamente terão eles que servi-lo com lealdade, uma vez que sabem que lhes é mais necessário ainda, em seu caso, apagar com atos a opinião adversa que se tinha deles. Assim, o príncipe sempre obterá maior proveito deles que daqueles que, servindo-lhe com excessiva segurança, negligenciam os interesses do príncipe.

Uma vez que a matéria o requer, não vou deixar de lembrar aos príncipes que conquistaram um estado há pouco tempo por meio de favores internos [nota 7] que analisem bem as razões que motivaram os que os favoreceram. Se estas não representarem uma natural afeição por eles, mas apenas descontentamento com aquele estado, somente com grande esforço e trabalho poderá conservá-los como amigos, pois é quase impossível que um príncipe possa contentá-los Pensando bem nos exemplos sugeridos pelas coisas antigas e modernas, veremos que isto ocorre porque é muito mais fácil tornar amigos os homens que se contentavam com o estado anterior, embora fossem inimigos do príncipe, do que aqueles que, por estarem descontentes, tornaram-se seus amigos e lhe facilitaram a ocupação.



Tem sido costume dos príncipes, para manter com maior segurança o seu estado, construir fortalezas que sejam o bridão e o freio dos que pretenderem opor-se a eles, além de constituírem um refúgio seguro contra um
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ataque repentino. Aprovo este método porque foi usado pelos antigos. Não obstante, em nossos dias, como se viu, messer Niccolò Vitelli [nota 8] mandou demolir duas fortalezas em Città di Castello para manter aquele estado. Guido Ubaldo [nota 9], duque de Urbino, voltando aos seus domínios depois de ter sido expulso por Cesare Borgia, demoliu desde os alicerces todas as fortalezas daquela província, julgando ser mais difícil perder, sem elas, o seu domínio. Os Bentivoglio, de volta a Bolonha, tomaram decisões semelhantes. As fortalezas são, portanto, úteis ou não segundo os tempos: se, por um lado, te são proveitosas, por outro te fazem mal. Pode-se expor este ponto da seguinte maneira: o príncipe que tiver mais medo do povo que dos estrangeiros deverá construir fortalezas; mas o que tiver mais medo de estrangeiros do que do povo terá deixá-las de lado. O castelo de Milão, edificado por Francesco Sforza, causou e causará mais danos à casa dos Sforza do que qualquer outra desordem naquele estado. Portanto, a melhor fortaleza que existe é não ser odiado pelo povo, porque, ainda que tenhas fortalezas, se o povo te odiar, elas não te salvarão, pois jamais faltam aos povos sublevados estrangeiros que os auxiliem. Em nossos tempos, não se encontra nenhuma fortaleza que tenha beneficiado algum príncipe, exceto a condessa de Furlì [nota 10], quando morreu seu consorte, o conde Girolamo, pois pôde refugiar-se nela para fugir ao ataque popular e esperar o socorro de Milão para recuperar seu estado. Era um momento em que os estrangeiros não podiam socorrer o povo. Depois disso, porém, valeram-lhe pouco as fortalezas, quando Cesare Borgia [nota 11] a atacou e o povo, que era seu inimigo, aliou-se ao forasteiro. Portanto, em qualquer
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tempo, teria sido mais seguro para ela não ser odiada pelo povo do que possuir fortalezas. Considerados portanto todos esses aspectos, louvarei quem fizer fortalezas e quem não as fizer também; e reprovarei quem quer que, confiando nas fortalezas, pouco se preocupar por ser odiado pelo povo.
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CAPÍTULO XXI

O que Convém a um Príncipe para Ser Estimado
Nada torna um príncipe tão estimado quanto realizar grandes empreendimentos e dar de si raros exemplos. Temos em nossos dias Fernando de Aragão, que se pode chamar quase um príncipe novo, porque, começando como um rei fraco, adquiriu fama e glória de ser o primeiro rei dos cristãos. Considerando-se suas ações, observa-se que todas são grandiosas e algumas até extraordinárias. No início do seu reinado, conquistou Granada [nota 1], feito esse que foi o fundamento de seu estado. Em primeiro lugar, agiu num momento de paz interna e sem temor de ser impedido, mantendo ocupado nessa empresa o ânimo dos barões de Castela, os quais, por pensarem naquela guerra, não pensavam em fazer inovações, enquanto ele conquistava reputação e poder diante deles, que não se advertiam disto. Pôde manter, com o dinheiro da Igreja [nota 2], dos povos e dos exércitos, durante aquela longa guerra, as suas milícias, assim como consolidá-las, para depois ser honrado por elas. Além disso, para poder realizar maiores feitos, servindo-se sempre da religião, voltou-se para um piedosa crueldade, expulsando e saqueando os marranos [nota 3] do seu reino, um exemplo que não podia ser mais miserável [nota 4] nem
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mais raro. Sob este mesmo pretexto, invadiu a África [nota 5], fez a campanha da Itália [nota 6] e por fim atacou a França [nota 7]. Assim, sempre realizou e planejou grandes coisas para pasmo e admiração de seus súditos, empolgados com o sucesso final dessas aventuras. Desencadeando uma ação após outra, não deixou intervalo entre elas para que os homens pudessem agir tranqüilamente contra ele.

Deve também um príncipe dar exemplos raros de si mesmo na política interna, como os que se contam de messer Bernabò [nota 8] de Milão. Quando acontecer de alguém realizar uma coisa extraordinária, para o bem ou para o mal, na vida civil, deve-se encontrar um modo ou de premiá-lo ou de puni-lo, que seja bastante comentado. Acima de tudo, deve um príncipe procurar dar de si, em cada uma das suas ações, uma imagem de grandiosidade e de excelente engenho.

Um príncipe também é estimado quando é um verdadeiro amigo ou um verdadeiro inimigo, isto é, quando, sem temor algum, declara-se a favor de um e contra outro. Esse partido é sempre melhor do que se manter neutro, porque, se dois poderosos vizinhos a ti entrarem em guerra, e um deles vencer, das duas uma: ou tens o que temer do vencedor, ou não. Em qualquer dessas alternativas, será sempre mais útil declarar-se e fazer jogo limpo, porque, no primeiro caso, se o príncipe não se manifestar, será sempre presa de quem vencer, para satisfação de quem for vencido, não havendo nada que te proteja, pois o vencedor não vai querer amigos suspeitos que não o ajudaram na adversidade ao passo que o perdedor te rejeitará porque não quiseste, com as armas em punho, partilhar da sua sorte.
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Foi Antioco [nota 9] chamado à Grécia pelos etólios para expulsar os romanos. Enviou então embaixador junto aos aqueus — que eram amigos dos romanos — para persuadi-los à neutralidade, enquanto, por outro lado, os romanos os incitavam a tomar armas. Vindo esta questão a ser deliberada em assembléia dos aqueus, onde o enviado de Antioco tentava persuadi-los a permanecer neutros, disse-lhe o embaixador romano: “Quod autem isti dicunt non interponendi vos belIo, nihil magis alienum rebus vestris est; sine gratia, sine dignitate, praemium victoris eritis.” [nota 10]

Os que não são teus amigos sempre te pedirão neutralidade, enquanto teus amigos te pedirão para tomar armas. Os príncipes irresolutos que, para fugir dos perigos imediatos, seguem o mais das vezes a via da neutralidade, quase sempre se arruínam. Mas, quando te aliares corajosamente a uma das partes, e sair vencedor aquele a quem te associaste, ainda que seja poderoso e fiques em sua dependência, ele terá contraído obrigações e laços de amizade para contigo: os homens não são tão desonestos a ponto de oprimir-te dando tamanho exemplo de ingratidão. Além disso, as vitórias não são tão completas que o vencedor se julgue dispensado de qualquer consideração e sobretudo de qualquer justiça. Porém, se perder aquele que apoiares, ele te protegerá e te ajudará sempre que puder, consorciando-se a uma fortuna que poderá ressurgir. No segundo caso, quando os que lutam entre si são de sorte a te inspirar temor, tanto maior será a sabedoria de travar alianças porque estarás então contribuindo para a ruína de um, coma ajuda de quem deveria salvá-lo, se fosse sábio [nota 11] e que, vencendo, ficará a tua mercê. Além disso, é impossível que, com a tua ajuda, ele não vença.


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Deve-se acentuar que um príncipe deve estar atento para não fazer jamais aliança com alguém mais poderoso do que ele, visando a atacar outrem, exceto quando premido pela necessidade, como disse acima, pois, se ele vencer, o príncipe estará preso a ele e príncipes devem evitar ao máximo estar sob dependência de outros. Os venezianos aliaram-se à França contra o duque de Milão [nota 12], quando poderiam ter evitado o pacto de que resultou sua ruína. Não se podendo evitá-lo, porém, como aconteceu aos florentinos [nota 13] quando o papa e a Espanha uniram seus exércitos para atacar a Lombardia, deve então o príncipe aderir pelas razões citadas. Não se acredite que estado algum possa sempre tomar decisões seguras. Pelo contrário, deve-se sempre levar em conta que as decisões são todas dúbias, pois isto se inscreve na ordem das coisas, e não se consegue jamais escapar de um inconveniente sem recair em outro. Contudo, a prudência consiste em saber reconhecer a natureza dos inconvenientes e tomar os menos maus como satisfatórios.

Deve um príncipe ainda mostrar-se amante da virtù, abrigando os homens valorosos e honrando os excelentes em uma arte qualquer. Além disso, deve estimular seus concidadãos a desenvolverem suas atividades, tanto no comércio como na agricultura ou em qualquer outro ramo. Deve fazer com que não temam ornar [nota 14] suas propriedades por receio de que estas lhes sejam tomadas, nem que deixem de abrir negócios com medo dos impostos; mas, ao contrário, deve proporcionar prêmios a quem quiser realizar essas coisas e a qualquer um que intente melhorar sua cidade ou seu estado. Deve, ademais, manter o povo entretido com festas e espetáculos,


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nas épocas convenientes do ano. Como toda cidade é dividida em corporações e tribos [nota 15], deve dar atenção a essas coletividades, reunir-se com eles vez por outra, dar de si mesmo um exemplo de humanidade e de munificência, mantendo sempre firme, porém, sua majestade e sua dignidade, porque estas não podem jamais faltar em coisa alguma.
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CAPÍTULO XXII

Dos Secretários que os Príncipes Mantêm Junto de Si
Não é de pouca importância, para um príncipe, a escolha de seus ministros, que serão bons ou maus de acordo com sua prudência. A primeira conjectura que se faz a respeito da inteligência de um senhor baseia-se na observação dos homens que tem em torno de si. Se estes forem competentes e fiéis, o príncipe sempre poderá ser reputado sábio, porque soube reconhecê-los como competentes e mantê-los fiéis. Quando, porém, não são assim, sempre se pode fazer mau juízo dele, pois cometeu seu primeiro erro nesta escolha.

Não havia quem conhecesse messer Antonio da Venafro [nota 1], ministro de Pandolfo Petrucci, príncipe de Siena, e não julgasse Pandolfo um homem de grande valor por tê-lo como ministro. Há três gêneros de cérebros: um entende por si mesmo, outro discerne aquilo que os outros entendem e o terceiro não entende nem a si nem aos outros. O primeiro é excelentíssimo, o segundo é excelente e o terceiro, inútil. Pandolfo, portanto, necessariamente, se não era do primeiro tipo, deveria ser do segundo, porque, toda vez que alguém tem a clareza de distinguir o bem e o mal que outro faz e diz, ainda que por si mesmo não possa concebê-los, reconhece as


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obras más e boas de um ministro, elogiando estas e corrigindo aquelas; com isso o ministro não pode esperar enganá-lo e se conserva bom [nota 2].

Há um modo infalível pelo qual um príncipe pode conhecer um ministro. Quando vês que um ministro pensa mais em si mesmo do que em ti e, em todas as ações, busca primeiro o seu próprio benefício, jamais será um bom ministro, e nunca poderás confiar nele, pois quem tem em suas mãos o estado de outro não deve jamais pensar em si mesmo, mas no príncipe, nem ocupá-lo com coisas que não lhe digam respeito. Por outro lado, o príncipe, para conservar sua lealdade, deve pensar no ministro, concedendo-lhe honrarias e riquezas, obsequiando-o e compartilhando com ele as honras e funções. Desse modo, o ministro perceberá que não pode passar sem ele; as inúmeras honrarias dispensá-lo-ão de desejar mais outras honrarias; as muitas riquezas de desejar mais riquezas e as múltiplas atribuições o farão recear as mudanças. Portanto, enquanto os ministros agirem assim em relação aos príncipes e estes em relação aos ministros, poderão ambos confiar um no outro; caso contrário, sempre haverá um fim mau para um deles.


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CAPÍTULO XXIII

Como Evitar os Aduladores
Não quero deixar de abordar um ponto importante e um erro do qual os príncipes dificilmente se defendem, quando não são muito prudentes e não sabem escolher bem. Trata-se dos aduladores, de que as cortes estão repletas, pois os homens se comprazem tanto em suas próprias coisas e de modo se iludem, que raramente se defendem desta praga, ou, pretendendo defender-se, correm o risco de se tornarem desprezíveis. Não há outro modo de proteger-se dos aduladores senão fazendo os homens entenderem que não te ofendem ao dizerem a verdade. Se, porém, todos a puderem dizer, te faltarão ao respeito. Deve, portanto, um príncipe prudente conduzir-se de um terceiro modo, escolhendo em seu estado homens sábios e somente a estes concedendo livre arbítrio para lhe dizer a verdade, e apenas sobre as coisas que o príncipe lhes perguntar, mais nada. Deve o príncipe, porém, indagar-lhes sobre todas as coisas, e ouvir a sua opinião, para depois deliberar por si mesmo e a seu modo. Deve, em relação a esses conselhos e a cada um dos seus conselheiros, portar-se de tal modo que todos saibam que, quanto mais livremente se expressarem, tanto mais lhes será o príncipe agradecido; além
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deles, não deve ouvir mais ninguém; deve seguir as decisões tomadas e ser obstinado em suas deliberações. Quem age de outro modo é arruinado pelos aduladores ou muda constantemente de opinião, do que lhe resulta pouca estima.

A este propósito, quero citar um exemplo moderno. Dom Luca [nota 1], homem de confiança de Maximiliano, o atual imperador [nota 2], falando de Sua Majestade, disse que ele não se aconselhava com ninguém, mas que também nada fazia a seu modo. Isto porque fazia o contrário do que dissemos acima: sendo o imperador um homem reservado, não comunica suas decisões a ninguém, nem pede opiniões; todavia, como ao colocá-los em prática seus planos começam a se revelar e a se tornar conhecidos, também passam a ser contestados pelos que o cercam. Como ele é um homem fraco, abandona seus projetos, do que resulta que as coisas que faz em um dia desfaz no outro, e nunca se sabe o que quer ou planeja fazer, sendo assim impossível basear-se em suas deliberações.

Um príncipe, portanto, deve sempre procurar conselhos, mas quando ele próprio quer, e não quando os outros querem; pelo contrário, deve desencorajar qualquer um de aconselhá-lo sobre qualquer coisa que ele não tenha perguntado. Deve também perguntar muito e, depois, ouvir pacientemente a verdade sobre as coisas indagadas. Aliás, percebendo que alguém, por temor, a esteja sonegando, deve mostrar seu desagrado. Muitos acreditam que a imagem de prudência que um príncipe dá de si mesmo resulte dos bons conselhos dos que o cercam, mas sem dúvida se enganam, pois a regra geral que não falha jamais é: se um príncipe não for sábio por si mesmo, não poderá ser bem aconselhado, a menos
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que a sorte o ponha nas mãos de um só homem muito prudente, que o oriente em tudo. Neste caso, a coisa poderia dar certo, mas duraria pouco, porque aquele orientador em pouco tempo lhe tomaria o estado. Por outro lado, aconselhando-se com vários, um príncipe que não seja sábio não poderá jamais unificar os conselhos, nem saberá por si mesmo integrá-los; cada um dos conselheiros vai agir de acordo com seus interesses, e ele não vai poder saber nem corrigir isso. E não pode ser de outra forma, pois os homens sempre se revelarão maus, se não forem forçados pela necessidade de serem bons. Daí se conclui que os bons conselhos, venham de onde vierem, devem brotar da prudência do príncipe, e não a prudência do príncipe dos bons conselhos.
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CAPÍTULO XXIV

Por que Razões os Príncipes da Itália Perderam seus Estados
As recomendações anteriores, se observadas prudentemente, farão um príncipe novo parecer antigo e logo o tornarão mais seguro e tranqüilo em seu estado do que se nele já fosse antigo. Isto porque um príncipe novo é muito mais observado em suas ações do que, um hereditário e, quando suas virtudes são conhecidas, atrai um número muito maior de súditos e muito maior lealdade do que a antigüidade do sangue. Os homens se ligam muito mais às coisas presentes do que às passadas e quando encontram o bem no presente apreciam-no e não procuram outra coisa; tomarão, até, a defesa do príncipe em qualquer circunstância, enquanto ele desempenhar bem o seu papel. Assim, terá o príncipe glória dobrada: a de ter fundado um principado novo e a de tê-lo ornado e consolidado com boas leis, boas armas e bons exemplos; como também terão vergonha em dobro os que, tendo nascido príncipes, perderem seu reino devido à pouca prudência.

Considerando aqueles senhores que, na Itália, em nossos tempos [nota 1] perderam seus estados — como o rei de Nápoles [nota 2], o duque de Milão [nota 3] e outros —, encontraremos neles, primeiro, um erro comum quanto aos exércitos,


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pelas razões longamente discutidas atrás. E, depois, veremos que alguns dentre eles ou tiveram o povo como inimigo ou, mesmo contando com a amizade do povo, não souberam conter os grandes. Sem esses defeitos, não se perdem os estados, quando se tem tanta força a ponto de poder manter um exército em campanha. Filipe da Macedônia [nota 4], não o pai de Alexandre, mas o que foi derrotado por Tito Quinto, não tinha um grande estado, comparado à grandeza de Roma e da Grécia que o atacaram. Entretanto, sendo um militar que sabia agradar ao povo e conter os grandes, sustentou por muitos anos a guerra contra aqueles e, se ao final perdeu o domínio de algumas cidades, conseguiu conservar o reino.

Portanto, aqueles nossos príncipes que tiveram por muitos anos o seu principado, que não acusem a fortuna por tê-lo perdido, mas a sua própria indolência por não terem jamais, em épocas de paz, pensado que os tempos poderiam mudar (é um defeito comum entre os homens não levar em conta a tempestade, durante a bonança). Quando chegam os tempos adversos, pensam em fugir e não em defender-se, esperando que o povo, cansado da insolência dos vencedores, os chame de volta. Este caminho, à falta de outros, é bom; porém é muito mau ter abandonado outras soluções para adotar esta, porque não deves jamais querer cair por acreditar que encontrarás alguém para te reerguer, coisa que ou não acontece ou, quando acontece, não contribui para a tua segurança, pois esta defesa é vil e não depende de ti. Certamente, as defesas só são boas, seguras e duráveis quando dependem de ti mesmo e de tua virtù.


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CAPÍTULO XXV

De Quanto Pode a Fortuna nas Coisas Humanas e de que Modo se Pode Resistir-lhe
Não ignoro que muitos foram e são de opinião de que as coisas desse mundo são governadas pela fortuna e por Deus, e que os homens prudentes não se lhes podem opor, e até não têm remédio algum contra elas. Por isso, poder-se-ia julgar que não devemos incomodar-nos demais com as coisas, mas deixar-nos governar pela sorte. Esta opinião tem-se reforçado em nossos dias devido às grandes variações que foram e são vistas todos os dias, além de qualquer conjetura humana. Pensando nisto, às vezes me sinto um tanto inclinado a esta opinião: entretanto, já que o nosso livre-arbítrio não desapareceu, julgo possível ser verdade que a fortuna seja árbitro de metade de nossas ações, mas que também deixe ao nosso governo a outra metade, ou quase. Comparo a sorte a um desses rios impetuosos que, quando se irritam, alagam as planícies, arrasam as árvores e as casas, arrastam terras de um lado para levar a outro: todos fogem deles, mas cedem ao seu ímpeto, sem poder detê-los em parte alguma. Mesmo assim, nada impede que, voltando a calma, os homens tomem providências, construam barreiras e diques, de modo que, quando a cheia se repetir, ou o rio flua por um canal, ou sua força se
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torne menos livre e danosa. O mesmo acontece com a fortuna, que demonstra a sua força onde não encontra uma virtù ordenada, pronta para lhe resistir e volta o seu ímpeto para onde sabe que não foram erguidos diques ou barreiras para contê-la. Se considerares a Itália, que é sede e origem dessas alterações, verás que ela é um campo sem diques e sem qualquer defesa; caso ela fosse convenientemente ordenada pela virtù, como a Alemanha, a Espanha e a França, ou esta cheia não teria causado as grandes variações que ocorrem, ou estas sequer teriam acontecido.

Com isso, julgo ter dito o suficiente sobre como opor-se à fortuna de um modo geral. Mas, restringindo-me aos aspectos mais particulares, digo que hoje se vê que um príncipe tem sucesso e amanhã fracassa sem ter mudado sua natureza ou qualidade. Creio que isto se deva, antes de tudo, às razões longamente discutidas atrás, isto é, que um príncipe que se apóia exclusivamente sobre a fortuna se arruína quando ela varia. Creio ainda que é feliz aquele que combina o seu modo de proceder com as exigências do tempo e, similarmente, que são infelizes aqueles que, pelo seu modo de agir, estão em desacordo com os tempos. Pois se pode ver que os homens, no que diz respeito aos caminhos que os conduzem aos fins que perseguem, isto é, glória e riquezas, agem de maneira diversa: um com timidez, outro com impetuosidade; um com violência, outro com arte; um com paciência, outro com o contrário; e cada qual, por meio desses vários modos, poderá alcançar sucesso. Por outro lado, vê-se que, de dois tímidos, um chega ao seu objetivo e outro, não; que dois homens bem-sucedidos adotaram dois modos de agir diferentes,


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sendo um tímido e outro impetuoso. O que não decorre por outra razão que não a natureza dos tempos, que se adequam ou não ao proceder. Daí resulta o que afirmei: que duas pessoas, agindo diversamente, alcançam o mesmo resultado; enquanto outras duas, agindo da mesma forma, atingem resultados opostos. Disto também depende a maior ou menor prosperidade, porque, se um príncipe se conduz com prudência e paciência, e os tempos e as coisas contribuem para que seu governo seja bom, será bem-sucedido; mas, se mudarem os tempos e as coisas e ele não mudar o seu modo de proceder, então se arruinará. Não há homem suficientemente prudente que saiba acomodar-se a isto, ou porque não consegue desviar-se da linha para onde se inclina sua natureza, ou porque, tendo sempre prosperado trilhando um certo caminho, não pode admitir que se deva afastar dele. Por isso, o homem tímido, quando chega o momento de agir impetuosamente, não sabe como fazê-lo e, por isso, se arruína, pois, se mudasse de natureza de acordo com os tempos e com as coisas, não mudaria de fortuna.

O papa Júlio II procedeu em tudo impetuosamente, mas, como sempre encontrou os tempos e as coisas conformes a seu modo de agir, sempre alcançou um final feliz. Consideremos o seu primeiro empreendimento, o de Bolonha [nota 1], quando ainda vivia messer Giovanni Bentivoglio. Os venezianos não aprovavam a sua ação; o rei de Espanha também; com a França, estava em conversações sobre esse projeto. Entretanto, com sua coragem e energia, conduziu pessoalmente aquela expedição. E uma vez iniciada deixou atônitos e estáticos a Espanha e os venezianos, estes por medo e aquela pelo desejo que


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tinha de recuperar odo o reino de Nápoles. Por outro lado, o rei de França lançou-se imediatamente à ação, porque, tendo visto que o papa já estava na luta e desejando a sua amizade para subjugar os venezianos, julgou impossível negar-lhe seus homens sem injuriá-lo manifestamente. Portanto, Júlio conseguiu com sua ação impetuosa o que jamais outro pontífice, com toda a humana prudência, teria conseguido; pois, se ele esperasse, para sair de Roma, que tivesse todas as coisas organizadas, como qualquer outro pontífice teria feito, jamais o conseguiria, porque o rei de França teria apresentado mil desculpas e os outros teriam infundido mil temores. Não mencionarei seus outros feitos, porque foram todos semelhantes, e todos chegaram a bom termo. A brevidade de sua vida não lhe deixou sofrer os reveses, porque, caso chegassem os tempos em que precisasse agir com prudência, teria se arruinado, pois jamais se teria desviado daquele modo para o qual o impelia a sua natureza.

Concluo portanto que, variando a fortuna e obstinando-se os homens em sua maneira de ser, serão felizes enquanto ambas estiverem de acordo; mas, quando elas discordarem, serão infelizes. Estou convencido do seguinte: é melhor ser impetuoso do que tímido, porque a fortuna é mulher, e é necessário, para dominá-la, bater-lhe e contrariá-la. Vê-se que ela se deixa vencer mais pelos que agem assim do que pelos que agem friamente; e, como mulher, é sempre amiga dos jovens, porque são menos tímidos, mais ferozes e a dominam com maior audácia.


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CAPÍTULO XXVI



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