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Exortação a Tomar a Itália e Libertá-la das Mãos dos Bárbaros
Considerando todas as coisas ditas acima e refletindo eu mesmo [nota 1] se o momento atual da Itália é propício a um príncipe novo, isto é, se existe matéria que justifique que um príncipe prudente e valoroso lhe dê forma [nota 2], trazendo-lhe glória pessoal e benefícios para todos os homens do país, parece-me que ora convergem tantas coisas em favor de um príncipe novo, que eu não vejo ocasião mais propícia para isso. E se foi necessário, como disse antes, que o povo de Israel estivesse escravizado no Egito para reconhecer a virtude de Moisés; que os persas estivessem oprimidos pelos medas para saber a grandeza de ânimo de Ciro; que os atenienses estivessem dispersos para ver a excelência de Teseu; assim também, agora, para se revelar a virtù de um espírito italiano foi necessário que a Itália se reduzisse aos termos em que se encontra atualmente, e fosse mais escrava que os hebreus, mais serva que os persas, mais dispersa que os atenienses, sem chefe, sem ordem, derrotada, espoliada, dilacerada, devastada, e tivesse suportado todo tipo de ruína.

Ainda que se tenha mostrado algum sinal de esperança em alguém [nota 3], a ponto de se julgar ter sido enviado


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por Deus para a sua redenção, o que se viu depois, no entanto, no auge de sua carreira, foi ser derrubado pela fortuna. Desse modo, permaneceu a Itália como que sem vida, à espera de quem sanasse suas feridas e pusesse fim ao saque da Lombardia, à espoliação do reino de Nápoles e da Toscana e a curasse de suas chagas há longo tempo apodrecidas. Vê-se que a Itália roga a Deus que lhe envie alguém para redimi-la da crueldade e insolência dos bárbaros; vê-se que está inteiramente pronta e disposta a seguir uma bandeira, contanto que alguém a carregue. Não há, atualmente, ninguém que a Itália possa esperar mais do que de vossa ilustre casa [nota 4] que, com sua fortuna e virtù, foi eleita por Deus e pela Igreja — a cuja frente está agora — para se tornar o chefe desta redenção. O que não será muito difícil, se vos espelhardes nas ações e vida dos nomes acima citados. Ainda que tenham sido homens raros e maravilhosos, foram homens, contudo, e nenhum deles encontrou ocasião melhor do que a atual, pois sua empresa não foi mais justa do que esta, nem mais fácil, nem foi Deus mais seu amigo do que vosso. Aqui, é grande a justiça: “iustum enim est bellum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est” [nota 5]. Aqui, a disposição é imensa; e, onde há grande disposição, não pode haver grande dificuldade para quem se inspira nos exemplos daqueles que propus como modelo. Além disso, aqui se vêem maravilhas sem igual mandadas por Deus: o mar se abriu, uma nuvem revelou-vos o caminho, a pedra jorrou água, aqui choveu o maná, e todas as coisas se reuniram para a vossa grandeza [nota 6]. O resto cabe a vós cumprir. Deus não quer fazer tudo, para não nos tolher o livre-arbítrio e a parte de glória que nos cabe.
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Não é de maravilhar que alguns dos italianos antes mencionados não tenham podido fazer o que se espera seja feito por vossa ilustre casa, nem também que, depois de tantas revoluções e manobras de guerra na Itália, pareça para sempre ter-se extinguido sua virtù militar. Isto decorre de não terem sido boas as antigas ordens, como também de não ter aparecido ninguém que soubesse encontrar uma nova ordem. Coisa alguma honrará tanto um novo governante quanto as novas leis e um novo regime criados por ele. Quando são bem fundamentados e trazem em si um elemento de grandeza, tornam-no reverenciado e admirado. Na Itália, não falta matéria onde introduzir todas as formas. Aqui, existe grande virtù em todos os membros, embora ela falte nos cabeças. Recordai os duelos e torneios havidos há pouco [nota 7], onde os italianos se mostraram superiores em força, destreza e engenho. Quando se trata dos exércitos, porém, não fazem boa figura. E tudo resulta da fraqueza dos chefes, porque os que sabem não são obedecidos, e todos acham que sabem, não havendo até agora ninguém que se sobressaísse tanto pela virtù e pela fortuna que subordinasse os outros a si. Daí a razão por que, em tanto tempo e em tantas guerras realizadas nos últimos vinte anos, todas as vezes que o exército era inteiramente italiano, sempre se dava mal. A primeira prova disso foi em Taro e depois em Alexandria, Cápua, Gênova, Vailà, Bolonha e Mestre [nota 8].

Querendo, pois, vossa ilustre casa seguir o exemplo daqueles homens excelentes que redimiram seus estados, será necessário, antes de tudo, como verdadeiro fundamento de qualquer empresa, formar exércitos próprios, porque não pode haver soldados mais fiéis, nem


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mais verdadeiros, nem melhores. Se cada um deles individualmente for bom, todos juntos ainda serão melhores quando se virem comandados por seu príncipe, prestigiados e cuidados por ele. É preciso, portanto, preparar esses exércitos para poder, com a virtù italiana, defender-se dos estrangeiros. Ainda que as infantarias suíça e espanhola sejam consideradas terríveis, ambas, porém, têm defeitos, razão pela qual um terceiro exército poderia não somente combatê-las, mas esperar superá-las. Pois os espanhóis não têm capacidade de rechaçar cavalos; e os suíços certamente recearão infantes tão obstinados no combate quanto eles. Assim, por experiência, já se viu e há de se ver os espanhóis impossibilitados de enfrentar uma cavalaria francesa e também os suíços desbaratados por uma infantaria espanhola. Ainda que não tenha ocorrido uma experiência cabal desse último caso, vimos um ensaio dele na jornada de Ravenna [nota 9], quando a infantaria espanhola se defrontou com os batalhões alemães, que observam a mesma ordem dos suíços: os espanhóis, graças à utilidade do corpo e ajuda de seus escudetes, penetraram por entre as lanças dos alemães, certos de feri-los irremediavelmente, e teriam, de fato, destruído todos, se não fosse a cavalaria que os assaltou. E possível, portanto, conhecendo-se as falhas de ambas as infantarias, organizar uma nova que resista aos cavalos e não tema os soldados de infantaria, o que se alcançará através de formação de um novo tipo de exército e de novos métodos de organização. Essas são coisas que, criadas do nada, conferem reputação e grandeza a um príncipe novo.

Não se deve, portanto, perder a ocasião para que a Itália, depois de tanto tempo, veja o seu redentor. Não


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posso exprimir com que amor ele seria recebido em todas as províncias que sofreram devido a esses aluviões externos, com que sede de vingança, com que obstinada fé, com que piedade, com que lágrimas! Que portas se lhe fechariam? Que povo lhe negaria obediência? Que italiano se negaria a servi-lo? Todos sentem ceder esse bárbaro domínio. Assuma, portanto, vossa ilustre casa esta questão, com o ânimo e a esperança com que se empreendem os projetos justos, para que, sob vossa insígnia, seja esta pátria enobrecida e, sob vossos auspícios, se verifique o dito de Petrarca:
Virtù contro a furore

Prenderà l’arme, e fia el combatter corto;

Che l’antico valore

Nell’italici cor non è ancor morto. [nota 10]
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Ao Magnífico Lorenzo de Medici [nota 1]
Costumam, o mais das vezes, aqueles que desejam conquistar as graças de um príncipe, ir ao seu encontro com as coisas que lhe são mais caras ou que sabem ser mais apreciadas; por isso, muitas vezes lhe presenteiam com cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e ornamentos dignos da sua grandeza. Desejando, portanto, oferecer a Vossa Magnificência algum testemunho de minha devoção, não encontrei entre minhas posses coisa alguma que considerasse mais valiosa ou que mais estimasse do que o conhecimento das ações dos grandes homens, que aprendi através de uma longa experiência das coisas modernas e um contínuo estudo das antigas. Tendo-as eu examinado longamente, com grande diligência e agora ponderado, e reduzido a um pequeno volume, envio-as a Vossa Magnificência.

Embora eu considere esta obra indigna da presença de Vossa Magnificência, confio igualmente em que seja aceita graças à sua humanidade, considerando que eu não lhe possa fazer maior dom do que dar-lhe a faculdade de poder, em brevíssimo tempo, entender tudo aquilo que me custou tantos anos e tantos desconfortos e perigos para conhecer e compreender. Não ornei nem


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sobrecarreguei esta obra de longos períodos, nem de palavras pomposas e magníficas, nem de qualquer outro atrativo ou ornamento exterior com que muitos costumam descrever e enfeitar as suas coisas, porque pretendi que coisa alguma a adornasse e que somente a novidade e gravidade de seu assunto a valorizasse. Espero que não seja considerado presunçoso que um homem de baixa e ínfima condição ouse examinar e regular o governo dos príncipes; pois, assim como os que desenham as paisagens se colocam embaixo, na planície, para observar a natureza dos montes e dos lugares elevados; e, para examinar a forma dos lugares baixos, se colocam no alto, em cima dos morros; assim, também, para conhecer bem a natureza dos povos, é preciso ser príncipe, e, para conhecer a natureza dos príncipes, é preciso ser do povo.

Aceite, portanto, este pequeno presente com o mesmo espírito com que o envio. Se Vossa Magnificência a ler e considerar diligentemente, esta obra o fará conhecer o meu intenso desejo de que alcance a grandeza que a fortuna e suas outras qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnificência, do ápice de sua altura, voltar alguma vez os olhos para esses baixos lugares verá quão indignamente tenho suportado uma grande e contínua maldade da fortuna.


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APÊNDICE

Maquiavel e Marx [nota 1]
Quem quer que escreva no alto de uma página em branco o nome de Maquiavel não pode deixar de sentir uma espécie de angústia: depois de centenas de outros escritores e soberanos, historiadores e filósofos, teóricos da política e estrategistas, moralistas e teólogos, também ele se prepara para interrogar a esfinge, o diplomata a serviço de Florença, o patriota italiano, o autor cuja prosa, clara a cada trecho e equívoca no conjunto, dissimula as intenções, cujas contínuas intuições desafiam há quatro séculos a engenhosidade dos comentadores; também ele se prepara para fazer uma escolha que sabe que já foi feita antes dele. Pois a interpretação que irá propor, qualquer que seja ela, não lhe pertence pessoalmente. Que Maquiavel tenha dado lições de liberdade aos povos, ou de tirania aos príncipes, que tenha continuado a tradição do pensamento antigo ou fundado a ciência moderna, o conferencista de uma noite que não tiver consagrado a vida inteira a Maquiavel e as seus descendentes, legítimos e ilegítimos, não poderá resolver nenhuma das inúmeras questões que a erudição mantém vivas mais do que renova. Encurralado não por Maquiavel, mas por quem mantém atualizada a crônica do ma-
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quiavelismo, ele já sabe de antemão que será catalogado, classificado, registrado, inserido numa certa perspectiva; o que quer que diga ou faça pertence a uma das famílias de maquiavelianos, de maquiavélicos ou de leitores de Maquiavel, chegando tarde demais para fundar uma nova família. Só têm direito de exigir a dignidade de fundadores de dinastia aqueles que, como o filósofo americano Leo Strauss, esforçam-se por não pertencer a nenhuma família e, ao mesmo tempo, lêem em O príncipe ou nos Discursos o que não está escrito, põem em discussão o que é evidente e procuram a máscara atrás do rosto, já que não conseguem vê-la na frente. Como no conto policial de Edgar Poe, Maquiavel ter-se-ia disfarçado de tanto se descobrir e só deixaria que seu segredo fosse adivinhado pelos decifradores de enigmas ou, mais exatamente, por aqueles que descobrem intuitivamente a existência de enigmas, não captáveis pelos espíritos comuns... Eu me tornaria ridículo se alimentasse tais ambições.

Não me sentindo seguro, procurei um caminho de saída que não sou o primeiro a tomar emprestado: o de um paralelo entre homens ilustres. Com quem estabelecer um paralelo a não ser com Marx? Certamente, nos Campos Elíseos, Marx, um século e meio depois de seu nascimento na terra, menos de um século depois de sua morte, permanece um recém-chegado. Maquiavel pode ensinar a Marx a sabedoria de tolerar com indulgência os comentadores abusivos, os discípulos infiéis por ignorância, por paixão e às vezes também por fidelidade. Um advogado parisiense que nutria por Napoleão III um ódio por vezes acompanhado de ironia, mas sempre ferrenho, compôs um curioso opúsculo, o diálogo entre


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Maquiavel e Montesquieu nos infernos, que os funcionários da polícia secreta do czar usaram para a redação de uma das famosas falsificações do século, o Protocolo dos sábios de Sião. Pierre Fresnay trouxe de volta à atualidade este diálogo, representando-o como obra teatral nos palcos de Paris.

Nenhum advogado parisiense de nosso século sentiu o ódio ou teve o talento necessário para escrever um diálogo entre Maquiavel e Marx nos Infernos. Tampouco lhes apresentarei o esquema desse diálogo que prostraria um romancista-filósofo; contentar-me-ei com refletir em voz alta sobre alguns elementos de um possível diálogo.

Quantas semelhanças no destino póstumo entre o velho Maquiavel e o jovem Marx! Há muito tempo, todo historiador de Maquiavel torna-se, querendo ou não, um historiador do maquiavelismo, mesmo e sobretudo se se propuser a desbastar o campo dos sucessivos estratos de notas com que as gerações que se seguiram recobriram os escritos elípticos e provocantes do chanceler florentino. O caminho que leva a Maquiavel passa pela literatura sobre Maquiavel, embora, em última análise, o pensamento de Maquiavel, aquele que, sem anacronismos e paradoxos, se pode atribuir ao homem que se chamava Maquiavel, só possa ser compreendido com referência ao passado que formara este homem e do qual ele se considerava o herdeiro, e ao mesmo tempo ao presente em que ele se situava e que definia, interpretando-o.

De modo análogo, não se pode remontar a Marx sem passar pelos marxistas, e que cansaço sentimos ao traçar os limites entre marxianos e marxistas, marxólogos e marxistas. Certamente, os marxólogos não são todos marxis-


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tas e, inversamente, muitos marxistas ignoram quase totalmente Marx. Mas as interpretações sucessivas e contraditórias daqueles que fazem apelo ao fundador da I Internacional insinuam-se nos comentários mais científicos, influenciando-os inevitavelmente. Um marxólogo não pode impedir-se de pronunciar, mesmo que de modo implícito, um juízo sobre a filiação do marxismo ao marxismo-leninismo. Ao mesmo tempo, ele penetra, querendo ou não, no campo fechado onde se enfrentam marxistas, antimarxistas, não-marxistas, desejosos em grande parte de reivindicar para si próprios a gloriosa função de padrinhos, pelo menos na França e, creio, na Itália.

Em outros lugares rejeita-se um laço que passa por perigoso. Galbraith, que um dia, imitando o seu estilo, eu havia batizado como “marxista americano”, sofreu uma avalanche de perguntas durante as suas conferências na Itália: o que achava daquela definição? Aceitava que lhe fosse atribuída tal filiação?

Descendentes tão numerosos quanto embaraçosos aproximam Maquiavel de Marx, mas a obra destes dois homens difere tão profundamente, que seus respectivos discípulos e adversários não apresentam quase nada em comum.

Quantos escritores e também homens de estado refutaram Maquiavel e suas detestáveis máximas; por exemplo, Frederico II antes de reinar sobre a Prússia e fundar a grandeza dos Hohenzollern a grandes golpes de espada. Ninguém o censurou, depois, por ter aplicado bem demais, na ação, o ensinamento do florentino que havia condenado num estilo convencional, com sinceridade duvidosa. Ninguém acusará Böhm-Bawerk de não ser sin-


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cero ao refutar O capital, ao revelar a contradição entre o primeiro e o terceiro livros de O capital, entre a teoria do valor e a do lucro. Uns refutam as lições de política que supõem que Maquiavel tenha dado, os outros refutam uma análise do capitalismo e do seu previsível desenvolvimento.

No mais das vezes, Maquiavel conheceu o destino póstumo de um autor maldito. Quando Rousseau reabilita Maquiavel, esforça-se por arrancá-lo do maquiavelismo, por desculpá-lo da acusação de maquiavelismo. Maquiavel não escapa à condenação moral, a não ser sob a condição de ter querido dizer o contrário do que parece dizer abertamente, pelo menos em O príncipe. Assim Rousseau diz, em O contrato social: “Admito que, se fosse possível imaginar os súditos sempre perfeitamente submetidos, então o interesse do príncipe seria que o povo fosse poderoso, de modo que esse poder, sendo o seu, o tornasse temível aos seus próximos; mas já que esse interesse é apenas secundário e subordinado, e já que as duas hipóteses são incompatíveis, é natural que os príncipes sempre dêem preferência ao sistema que lhes é imediatamente mais útil. Samuel o provou eficientemente aos hebreus; Maquiavel demonstrou-o claramente. Fingindo dar lições aos reis, deu grandes lições aos povos.” E Spinoza, no Tratado político, diz: “... [Maquiavel] talvez tenha querido mostrar o quanto um povo livre deve evitar confiar completamente a sua própria segurança às mãos de um só, o qual, se não é tolo e pensa, então, que também pode não obter a simpatia de todos, deve cotidianamente temer insídias; a ponto de ter que cuidar de sua própria segurança, mas também insinuar insídias junto ao povo em lugar de tratá-lo. E sou ainda


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mais levado a esta convicção com relação ao nosso prudentíssimo homem pelo fato de que ele foi evidentemente um partidário da liberdade e também deu conselhos muito salutares para defendê-la”.

Marx, pelo menos no momento, goza de um prestígio incomparável entre a intelligentsia. Se alguns economistas, sociólogos ou ideólogos se comprazem em denunciar os seus “erros”, outros, provavelmente mais numerosos no continente, sentem orgulho por tê-lo como padrinho e fiador das suas afirmações. Marxistas autênticos contra marxistas-leninistas, discípulos fiéis do marxismo-leninismo contra revisionistas e dogmáticos, marxólogos e marxistas, homens de ciência e homens de ação ambicionam o prestígio da ortodoxia: as disputas entre os descendentes de Marx não se parecem com as disputas entre os descendentes de Maquiavel. Ninguém quer dizer-se maquiavélico, alguns se confessam maquiavelianos, muitos se proclamam marxistas.

Por que essa antítese, apesar da semelhança, de descendentes diversos e em eterna disputa? Maquiavel e Marx permanecem equívocos e misteriosos, mas por motivos totalmente diferentes. Rousseau e Spinoza, que querem reabilitar Maquiavel fazendo dele um mestre do republicanismo, um defensor da liberdade, não se enganaram completamente, mas simplificam e fazem a caricatura de um pensamento muito mais rico e sutil. Maquiavel, afastado do poder pela queda do Gonfaloniere, meditando sobre a sua derrota e sobre o destino da cidade, escreveu suas duas obras principais como conselheiro do príncipe, quem quer que seja este último, um homem ou todos os homens, uma monarquia ou a república. Os eruditos discutem sobre os sentimentos que ele
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teve nos diferentes momentos da vida por Cesare Borgia, mas ele teria podido — e pôde —, sem contradição ou renegação, admirar esse aventureiro de altos vôos apesar de detestá-lo, apesar de aspirar por um mundo diferente, uma cidade virtuosa, em que os animais de rapina não tenham possibilidade de sucesso nem papel a desempenhar. Maquiavel, pensador político, disse e repetiu, com absoluta franqueza, que era preciso ver a realidade tal como era, não como se desejava que fosse. Neste sentido elementar, proclama o que alguns chamam de realismo, outros, de cinismo, e outros, de espírito científico. Em certas épocas e em certas circunstâncias, o espírito científico, quando comporta ou exibe o emprego dos meios necessários à obtenção de determinados objetivos, desemboca em certo cinismo. A racionalidade na escolha dos meios, deduzida da observação sem preconceitos dos nexos causais, não garante a moralidade dos meios, nem dos fins. Principalmente nos períodos de desordem, a experiência sugere antes a imoralidade inevitável da ação, resultado do estudo amoral da realidade histórico-política. O mistério de Maquiavel — as intenções, o estado de espírito a cada momento — só existe para além desta problemática, elementar e fundamental.

A que se deve o mistério, ou o pretenso mistério, de Marx? Em princípio somos propensos a dar mais respostas: Marx escreveu muito e o seu itinerário filosófico vai dos textos de juventude, em particular dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 a O capital e, para além de O capital, ao Anti-Dühring, obra de F. Engels para a qual ele escreveu um capítulo. Depois há que se considerar a relação entre as obras de juventude e as obras da


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maturidade, entre o pensamento profundo de Marx e os livros, sem profundidade, do seu amigo, entre a filosofia e a economia, assim como as muitas questões ainda abertas sobre as quais se defrontam comentadores e intérpretes, partidários e adversários. Mas coloquemo-nos no centro do pensamento de Marx: a análise do capitalismo e da sua evolução, da sua inevitável autodestruição. Acho difícil negar que o advento do socialismo, necessário devido às contradições internas do capitalismo, constitua o tema fundamental do socialismo científico para os homens de ação. O socialismo torna-se o próprio movimento da história e não mais uma utopia a imaginar ou um ideal a realizar.

Do mesmo modo, a problemática de Maquiavel — a relação entre o modo como que de fato os homens agem e as sugestões que Maquiavel ou os seus seguidores dão aos príncipes — reproduz-se sob outra forma: trata-se desta vez da relação entre o futuro necessário anunciado por Marx e seus seguidores e as sugestões que eles dão aos príncipes ou aos simples mortais. Ao mesmo tempo, em ambos os casos, o moralista levanta questões sobre a relação entre o que é e o que deve ser, entre a eficácia dos meios e sua conformidade às regras da moral.

A problemática de Marx não se confunde com a de Maquiavel, na mesma medida em que a pergunta do moralista não tem o mesmo sentido conforme se refira a um ou a outro. Marx, como Maquiavel, pertence à família dos pensadores mais sensíveis ao que divide os homens do que ao que os une. Através dos séculos, sucedem-se os regimes, todos dilacerados por contradições, todos caracterizados pela exploração e pelo domínio do homem pelo homem. Filosofia desesperada se a via cru-
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cis da humanidade não coincidisse com o desenvolvimento progressivo das forças produtivas e se o socialismo não pusesse fim à pré-história e inaugurasse uma nova era, a do progresso social sem revolução política.

O realismo de Marx, diferentemente daquele de Maquiavel, insere-se, portanto, numa filosofia da história que, apesar de tudo, merece a qualificação de otimista. Filosofia do progresso e ao mesmo tempo filosofia dialética. Progresso porque o desenvolvimento das forças produtivas dá um sentido e também uma direção e um valor ao curso do devir, porque o suceder-se das mudanças, a morte dos sistemas já condenados e o nascimento dos novos sistemas conduzirá, para além da crise próxima e última, à reconciliação dos homens entre si e com seu destino. Neste duplo sentido — acumulação das forças produtivas, resolução dos conflitos no final da pré-história —, o pensamento de Marx, apesar do que dizem alguns intérpretes recentes, conserva pontos de ordem evolucionista e progressista.

Em compensação, é verdade — e algumas reinterpretações atuais sublinham isto — que esse progressismo e esse evolucionismo professados pelo homem Marx ligam-se a uma teoria do capitalismo e do seu funcionamento, teoria que não implica necessariamente a paralisia e a explosão inevitáveis. Basta modificar algumas hipóteses de O capital para que o capitalismo, a despeito da sua intrínseca iniqüidade, possa sobreviver, ou pelo menos não tenha que morrer a não ser pela mão dos homens, pela ação dos explorados ou dos revolucionários, ação favorecida mas não determinada pelo desenvolvimento capitalista entregue a si mesmo.

Uma das escolas neomarxistas de hoje, para harmonizar a experiência do nosso século, a Revolução de 1917,


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com a doutrina, substituiu a teoria da autodestruição do capitalismo pela teoria da auto-reprodução do capitalismo, elaborou uma teoria da revolução na qual a chegada à maturidade do capitalismo e de suas contradições só tem um lugar subordinado. Do mesmo modo, o profetismo torna-se um elemento secundário, quase que estranho à inspiração autêntica ou autenticamente científica do marxismo. A banal refutação que se obtém confrontando as previsões de Marx e a história real perde o seu significado essencial: pouco importa que o nível de vida dos assalariados aumente absoluta ou relativamente ao invés de diminuir, pouco importa que as crises diminuam ao invés de se tornarem mais numerosas e mais graves. Teoria das formações sociais, o marxismo baseia a sua cientificidade em seus próprios conceitos e sobre seu método de análise; teoria da revolução, o marxismo ensina a espreitar a ocasião que as relações entre as instâncias múltiplas vêm a criar, ocasião esta que depois caberá aos homens aproveitar. Ciência das formações sociais e práxis revolucionária definem juntas um marxismo possível entre outros.

Resta somente um passo a dar neste caminho para despojar o marxismo daquilo que chamei o seu “otimismo catastrófico”. Por que o regime que suceder ao regime capitalista deverá escapar à maldição que atingiu através do séculos todos os regimes econômicos-sociais, regimes fundados no domínio de poucos que desfrutam do trabalho de todos? Por que a planificação não deveria oferecer a uma minoria o poder de subtrair em proveito próprio uma parcela da mais-valia social? Por que a propriedade coletiva dos meios de produção não deveria traduzir-se de fato na autoridade dos dirigentes nomeados pelo Estado ou pelo partido sobre os produtores?


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Gestão da economia por parte dos produtores associados? Fórmula carente de sentido ou utopia mal definida.

Assim Pareto retificava Marx para adaptá-la ao seu próprio pessimismo e reconduzi-lo ao meio dos descendentes de Maquiavel. De fato, se comparamos Maquiavel a Marx enquanto filósofos da história, em que eles contrastavam essencialmente? Em outro lugar, respondi a esta interrogação propondo a seguinte antítese. Maquiavel é e quer ser conselheiro do príncipe, Marx considerava-se confidente da Providência. Um se considera capaz de dizer ao príncipe, hic et nunc, aqui e agora, o que é preciso fazer para alcançar este ou aquele objetivo. O outro tem a pretensão de saber em que direção, para que fim, o tumulto dos acontecimentos arrasta uma humanidade inconsciente de sua própria história, rebelde aos sofrimentos inúteis.

Assim caracterizados, Maquiavel e Marx representam cada qual um modo típico de pensar a história, a política e a ação. Um só discerne, no mundo sublunar, a constância dos homens inconstantes, a precariedade essencial dos regimes sempre provisórios, a luta permanente dos príncipes ansiosos por fundar o seu poder, quando se trata de principados novos, preocupados em manter íntegras as fundações, quando se trata de principados antigos. O outro, sem ilusões sobre o que pensam e são os regimes econômico-sociais, mantém os olhos fixos num futuro radioso, radicalmente novo em relação ao passado. A história não se desenvolve por ciclos, como acreditavam os filósofos antigos, testemunhos das vicissitudes que afligiram os regimes da cidade, as democracias que degeneraram em demagogias, às quais somente um tirano lhes permitia escapar, tirania que a necessida-
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de indestrutível de liberdade minaria lentamente até o dia da revolução salvadora — aurora radiante de um novo dia, prometido desde o nascimento à tristeza do fim. A história, segundo Marx, traz em si a promessa da redenção — promessa que Maquiavel não via.

Por que Marx via essa promessa que escapava a Maquiavel? Um concentrava a sua atenção nas formações sociais (ou, em termos vulgares, nas instituições), e o outro nos homens. Um descrevia o desenvolvimento das forças de produção, o outro, a luta permanente dos príncipes entre si e com seus súditos. Um definia a história como criação da humanidade, o outro, como expressão, sempre cambiante, de uma humanidade sempre igual a si mesma. Um estabeleceu uma espécie de transição entre a escatologia judaico-cristã e o método dos futuríveis ou da perspectiva, tão popular hoje, o outro, talvez menos seguro do seu ateísmo do que o filho de um advogado judeu convertido, denuncia a Igreja Católica como responsável pela ruína da Itália e por suas divisões: Um sonha com uma sociedade transparente para si mesma, onde os cidadãos rejeitarão qualquer transcendência e com a razão se submeterão a uma disciplina coletiva, sem recorrer às ilusões das ideologias; um não abandona a esperança de um povo valoroso, à maneira da República romana, mas a virtù, mais política do que ética, passa de um povo a outro segundo os caprichos imprevisíveis da fortuna; não se detém nunca por muito tempo num mesmo lugar. Esperança de uma trégua, de um momento perfeito, de um sucesso clamoroso mas efêmero, certamente, mas não esperança de uma era nova que prolongaria indefinidamente esta vitória de poucos homens sobre si mesmos e sobre o destino comum.


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Traduzamos estas oposições numa linguagem mais abstrata: por um lado, filosofia econômica da história, por outro, filosofia política; por um lado, progresso a longo prazo, por outro, repetição inevitável dos ciclos, resultado de uma instabilidade permanente, essencial; por um lado, transformação das formações sociais ou dos regimes, criados pelos homens, mas cuja marca os homens, prisioneiros, recebem; por outro, esforços dos heróis, sempre renovados e, em última análise, sempre vãos, para derrotar o acaso, vencer os próprios inimigos, garantir as boas graças da fortuna e a boa vontade dos povos. Os homens, segundo Marx, fazem a história, mas até agora sem saber o que fazem: movida pelo desenvolvimento das forças produtivas, a história acabará criando homens capazes um dia de fazer sua própria história com plena consciência. Os homens, segundo Maquiavel, carregam a responsabilidade da sua história, mas não têm motivos para ter orgulho dela. Apenas a virtù dos povos livres permitia aos príncipes reinar inocentemente: virtù rara e desgastada pelo tempo. A virtù degradada dos heróis supre a virtù dos povos, mas deve submeter-se às exigências impiedosas da eficiência. Os profetas desarmados morrem, mas, acrescentamos nós, parafraseando ligeiramente Maquiavel, nem sempre os profetas têm tempo ou motivos válidos para gabar-se dos seus sucessos, raramente puros e nunca duradouros. Quem não dispõe de uma espada morrerá pela espada. Maquiavel, porém, não teria recusado uma parte de verdade à fórmula do Evangelho: quem vencer pela espada morrerá pela espada.

Tese e antítese. Tese: Maquiavel e Marx, comparáveis pela descendência inumerável e dividida, por uma


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problemática não idêntica, mas próxima; uma vez colocada a necessidade prioritária do estudo da realidade tal como é, como rejeitar as lições que esta realidade nos dá, qual seja, a freqüente imoralidade dos meios eficazes? Antítese: Maquiavel e Marx representam dois modos de pensar, duas visões do mundo, duas figuras, dois mestres, exemplares e contraditórios. Conselheiro do príncipe ou confidente da providência, política ou economia, ação em uma conjuntura particular ou perspectiva a longo prazo, homem nunca satisfeito, sempre mutável mas que não mudará jamais a ponto de encontrar a satisfação ou, de modo totalmente contrário, homem insatisfeito que, criando meios de produção e formas sociais, acabará edificando uma formação social em que achará satisfação, ou pelo menos em que a sua insatisfação se manifestará de um modo diferente da astúcia e da violência, enfim estéreis mas necessárias.

Tese ou antítese requerem ou, no pior dos casos, toleram uma síntese. A primeira apresenta-se por si mesma à mente, a tal ponto que não duvido que vocês a tenham pensado antes que eu a tenha formulado. O marxista que conhece o fim da odisséia opõe-se ao maquiavelismo (ou maquiavélico) que quer conhecer o que é e, em razão dos precedentes, da experiência, referindo-se a situações comparáveis, às relações causais mais ou menos regularmente observáveis, sugere a quem deve agir o que deveria fazer para atingir seu objetivo. Mas o marxista, hic et nunc, embora tenha os olhos fixos em seu objetivo distante, deve tomar uma decisão. O realismo a longo prazo, ligado a uma visão determinista da história, associa-se logicamente a um realismo a curto prazo, implicado por uma filosofia dos conflitos inexpiáveis. A pro-


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pria grandeza do objetivo distante dá uma justificação suplementar ao rigor impiedoso dos métodos e dos meios. Se o regime do futuro não vai deferir quanto ao essencial do regime de hoje, a lógica impõe que se comparem o custo e o rendimento, que se rejeitem os sacrifícios desmedidos quando eles devem trazer apenas lucros limitados e medíocres. Em compensação, a espera de uma mudança qualitativa e total dissipa as dúvidas, excita os entusiasmos e alimenta a fé; então, fica fora de questão contar o número das vítimas.

O marxista hic et nunc tem duas razões para se comportar de modo maquiavélico: vive num mundo dilacerado onde reinam a violência, o domínio, o abuso, e vê no horizonte um outro mundo purificado desses males milenares. Só resta um passo a dar para adotar o tema de Gramsci, o partido-príncipe coletivo. O partido, exposto aos riscos da guerra; às incertezas das paixões populares, também ele, tal e qual os heróis armados de Maquiavel, deve dominar a fortuna, não pela glória de um homem, mas para a salvação de todos. Príncipe coletivo, reúne num pequeno número de dirigentes o estado-maior, o politbureau, a vontade que anima as massas; esses chefes, eventualmente esse único chefe, iluminam as paixões de milhares de militantes, de milhões de simpatizantes. Os dirigentes do partido não recuam diante do uso da força e da astúcia contra o inimigo de classe. Com relação às suas próprias hostes, comportam-se como todo príncipe à conquista de reino, seja ele terrestre ou celeste: conta com a devoção dos fiéis, sem a qual nada poderia, sabe que a devoção sozinha não resiste sempre às provas e que a ameaça de sanções impiedosas, em caso de traição, dá uma indispensável garantia de fidelidade. Para tomar emprestada uma expressão da Crítica da


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razão dialética, digamos que o terror consolida a fraternidade dos companheiros empenhados na luta.

A assimilação do partido a um príncipe não me parece contrária ao espírito de Maquiavel. O partido representa em nosso século o profeta armado. Deve o seu poder ao número dos que escutam a sua mensagem, mas, igualmente, à concentração do poder de decisão.

Retomemos aos primeiros anos do século, a 1917: apenas poucos no politbureau pertenciam à fração bolchevique do partido social-democrata russo; nesse pequeno grupo, Lenin obteve a supremacia graças à confiança que inspirava; os acontecimentos sempre lhe davam razão. Em seguida, outro encarnou o proletariado russo, também ele vanguarda do proletariado mundial, também ele votado à salvação da humanidade; esse outro ajudou os acontecimentos a lhe darem razão, reservando-se o direito exclusivo de interpretá-los, impondo o silêncio aos seus adversários ou, melhor ainda, obrigando os seus adversários a reconhecer que os adversários deles, tornados seus torturadores, detinham sozinhos a verdade e toda a verdade. Nesse momento, o do culto da personalidade, o príncipe, “fechado em sua astúcia”, volta a ser comparável a certos heróis cujo destino Maquiavel analisava com sentimentos diversos. Exército ou ordem religiosa, o partido não se confunde, numa comunhão autêntica, com quem o encama: obedece a ele, assim como obedecem os soldados, como obedecem os que alienaram o seu livre-arbítrio para pô-lo a serviço de uma fé superior à sua pessoa.

O partido, porém, não se torna um príncipe do século XVI, em busca de poder e glória; permanece voltado para um fim sublime. Se deixasse de acreditar nesse fim,


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se ele se contentasse com os objetivos legítimos, imanentes e não transcendentes à história, que se fixam seus inimigos, a conversão do marxismo ao maquiavelismo estaria consumada. É maquiavélico o príncipe que manipula a fé de seus fiéis sem compartilhá-la. É marxista o príncipe que, pronto a fazer uso de todos os meios em qualquer momento, transfigura sinceramente a necessidade da luta, já que nunca duvida trabalhar pela verdade no momento em que mente, por uma humanidade feliz no momento em que instaura um reino de terror. Neste sentido, talvez se tenha o direito de dizer que Lenin permaneceu mais marxista do que maquiavélico e que Stalin, ao contrário, apostou mais nas armas do que nas profecias. Trotski, quando perdeu as armas, pregou em vão: os grupúsculos desarmados que retomam a profecia originária contra a profecia encarnada só conseguem confinar-se à margem da história universal, a que fazem apelo e que os rejeita.

O discípulo liberal de Maquiavel encontra no destino do marxismo no século XX várias confirmações dos ensinamentos do florentino. Trata-se da permanência da luta pelo poder e da prioridade da política, definida por esta luta. Aqueles que negavam estas proposições em teoria verificaram-nas na prática. As revoluções do século XX não nasceram das contradições do capitalismo chegadas ao ponto de ruptura. Sobredeterminadas, como diz uma expressão em moda, elas surgem nas sociedades dilaceradas pelas controvérsias, quando o poder já não consegue mandar e as massas se recusam a obedecer. As situações revolucionárias não são criadas pelo desenvolvimento das forças produtivas ou pelo contraste entre uma produção coletiva e uma apropriação indi-


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vidual, mas por causas múltiplas e diversas: o vacilar das tradições, o desgaste dos regimes, a fraqueza das minorias governantes; em tais conjunturas, como nas cidades italianas, as minorias ativas, conduzidas por personalidades fora do comum, tornam-se os protagonistas decisivos. Mobilizam as multidões inquietas, inspiram confiança, apossam-se do poder, eliminam impiedosamente os inimigos, até o dia em que os companheiros travam entre si a batalha pelo primeiro lugar, pela glória que não se reparte. Quando há um só para reinar, sem regra e sem lei, por que não imitar a conduta do duque Valentino, tal como é contada por Maquiavel no sétimo capítulo de O príncipe? Depois da ocupação da Romanha, “julgou o duque necessário, para pacificá-la e reduzi-la à obediência ao braço régio, dar-lhe um bom governo. Colocou ali, então, messer Remirro de Orco, homem cruel e expedito, a que conferiu plenos poderes. Em pouco tempo, Orco a pacificou e uniu, granjeando grande reputação. A seguir, o duque julgou desnecessário tão excessiva autoridade, pois temia que ela se tornasse odiosa, e propôs a instalação de um tribunal civil na província, com um excelentíssimo presidente, onde todas as cidades teriam um advogado próprio. Como sabia que os rigores passados haviam gerado um certo ódio contra ele, quis mostrar que, se ocorrera alguma crueldade, ela não se originava dele, mas da natureza dura do ministro para apaziguar os ânimos do povo e atraí-lo para si. Aproveitando-se a ocasião, uma certa manhã mandou que o cortassem ao meio em praça pública, tendo ao lado um bastão de madeira e uma faca ensangüentada. A ferocidade daquele espetáculo fez o povo ficar, ao mesmo tempo, satisfeito e estarrecido”.
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O entourage dos nossos príncipes ocidentais já não corre o risco de ter uma sorte tão cruel, mas padece da impopularidade que atinge, com a justiça típica de Maquiavel, o bode expiatório, os responsáveis pelas medidas ingratas mas necessárias, e até mesmo das iniciativas do próprio herói, iniciativas que os admiradores preferem atribuir a outros que não o objeto de seu culto. Do outro lado da Europa, o chefe da polícia soviética foi uma das últimas vítimas do grande expurgo, em 1936. Beria, por sua vez, teve a mesma sorte. Uma vez morto também Stalin, não se pôde fazê-lo em pedaços em praça pública; não restou outro ato simbólico para tornar o povo “satisfeito e estarrecido” senão a transferência do cadáver, a pedido de uma valente cidadã soviética que havia assistido a uma execução.

De Maquiavel até hoje, as técnicas da conquista e do exercício do poder ganharam em sutileza e em elaboração racional. Aquilo que dependia da improvisação individual, da espontaneidade, é hoje objeto de estudos científicos, que são eles próprios fundamento de práticas bastante ponderadas. A violência da multidão ou a persuasão oculta, a organização do entusiasmo ou a lavagem cerebral oferecem aos príncipes um arsenal de armas psicológicas de riqueza incomparável. Analogamente, o guerreiro de outrora, o camponês espanhol que se revolta contra os soldados de Napoleão ou o franco-atirador francês que aguardava de tocaia os prussianos em 1871 tornam-se hoje, graças aos meios técnicos de comunicação e mais ainda graças à organização das hierarquias correspondentes, uma tropa, ao mesmo tempo regular e irregular, capaz, em circunstâncias favoráveis, de resistir vitoriosamente a uma potência que disponha de forças militares incomparavelmente superiores.


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O discípulo de Maquiavel poderia também extrair argumentos do modo de governar do partido-príncipe; como Maquiavel considerava evidente e como Pareto nunca se cansava de repetir, as minorias derrubam os regimes estabelecidos em nome do povo, invocando uma nova fórmula, mas a distinção entre o pequeno número que detém o poder e o grande número dos que obedecem por convicção ou por medo não desaparece. Os marxistas não se contentaram, segundo o célebre ditado de Marx, em interpretar o mundo, eles o mudaram. Mas não o mudaram de maneira a refutar a ironia cética de Maquiavel ou o pessimismo de Pareto. O seu reinado se parece muito com o de muitas elites, cujos cadáveres escondem o curso da história — a história cemitério de aristocracias, conforme a expressão de Pareto. Em outras palavras, Marx mudou o mundo mais do que Maquiavel porque acreditava mais do que ele na possibilidade de mudá-lo. Mas o florentino reserva-se o direito de responder: quanto mais muda, mais é a mesma coisa e, em certo sentido, tem a última palavra no diálogo, apesar de que, em um regime soviético, o seu interlocutor marxista o teria obrigado a pôr fim ao diálogo e a saborear a sua vitória num lugar menos agradável do que a praça pública, as salas universitárias ou do Instituto Italiano de Paris.
Eis, portanto, a primeira síntese: o marxista, estrategista da luta de classes, da revolução, da organização da guerrilha, da acumulação primitiva, age como maquiavélico, com a força e a astúcia, com a persuasão e a coação. Uma vez chefe do Estado, não governa com métodos substancialmente diferentes daqueles das elites do passado nos principados que Maquiavel teria chamado de
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novos. Acho que esta primeira síntese coloca-nos duas interrogações: Maquiavel não conhece o progresso e se compraz em analisar conjunturas extremas, conjunturas que obrigam o político a decisões cruciais, impostas unicamente pelas leis da eficácia. Mas entre as decisões hic et nunc, as de um estrategista durante uma batalha, e o devir orientado para uma transformação radical da história, visão profética do marxismo, intercala-se a análise dos regimes, cada um deles com sua natureza própria, seu modo de funcionar próprio e, portanto, um tipo particular de governantes e de meios de governo. Como comparar, neste ponto, os nossos dois mestres, um que serviu sua cidade sem descurar a leitura dos livros, outro que gastou muito mais tempo no British Museum do que na organização da primeira Internacional, que conheceu a política por baixo, durante a milícia revolucionária, sem pátria e sem partido?

Responderei com um reenvio aos textos e seus inúmeros comentários e me limitarei a breves considerações. Maquiavel, como todos os filósofos clássicos da política no Ocidente, desde Platão e principalmente de Aristóteles, faz uma distinção entre os regimes, e o intérprete pode extrair de O príncipe e sobretudo dos Discursos uma teoria dos diversos regimes, de suas respectivas vantagens e de seus inevitáveis defeitos. Não há motivo para duvidar que Maquiavel prefira a república à monarquia, a liberdade à tirania, um regime legal a um regime de arbítrio, e que neste sentido ele não professe as opiniões odiosas que os adversários lhe atribuem. Digamos também, para sermos imparciais, que Maquiavel, patriota italiano, detesta os estrangeiros que pisam o solo de sua pátria e os italianos, a Igreja antes de tudo, respon-


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sáveis pela desgraça nacional. A reflexão de Marx, por seu lado, parte de uma experiência histórica totalmente diferente. As formações sociais definem-se em função das forças e das relações de produção e, pelo menos nas fórmulas teóricas, Marx não distingue bem a diversidade dos modos de governo. Cada formação social caracteriza-se de acordo com a quantidade de mais-valia que extrai a minoria privilegiada, com o modo de extraí-la e o modo de reparti-la. Assim como nas obras de Maquiavel, a luta pelo poder aparece no primeiro plano, sem se menosprezarem ou ignorarem as rivalidades dos grupos sociais e a competição pela riqueza, também, em sentido inverso, Marx enfoca as raízes sociais e econômicas dos conflitos no interior de todas as formações sociais, sem ignorar que os cidadãos antigos, os senhores medievais e os burgueses modernos não exerciam o poder com os mesmos procedimentos.

Nada, portanto, impediria um maquiavelo-marxista de hoje de elaborar uma teoria complexa das formações sociais e dos regimes políticos, teoria que procuraria discernir as conexões mais ou menos regulares entre estas e aquelas, sem negar a autonomia parcial das instancias, a diversidade dos poderes numa formação de um dado tipo, a transformação progressiva ou súbita das formações, graças à ação, reformadora ou revolucionária, das elites ou das massas.

Em outras palavras, o conselheiro do príncipe — aquele que sabe o que é preciso fazer hoje, aqui — e o confidente da Providência — aquele que sabe qual será o futuro numa data indeterminada, mas ignora o caminho que leva ao fim da pré-história — têm ambos necessidade do sociólogo e do político; entre o acontecimento
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que põe à prova o homem de ação e o salto qualitativo ou a conversão que o profeta concebe, situa-se o estudo objetivo dos sistemas e das regularidades, das tendências graves, das extrapolações prováveis. O especialista em futurologia parece-me inclinado a rejeitar a dupla paternidade de Maquiavel e de Marx, põe entre parênteses os acidentes que perturbam a vida das cidades; mesmo a crise mundial dos anos 30 deixa um rastro quase imperceptível na linha do progresso a longo prazo, do PNB em primeiro lugar, nos Estados Unidos. Elimina igualmente por hipótese, não enquanto impossíveis, mas enquanto imprevisíveis e quase impensáveis, os “saltos qualitativos” que assinalariam uma ruptura radical entre o antes e o depois, entre a história do passado e a história do amanhã. Ou talvez fosse preciso dizer que este salto qualitativo se produz a cada dia na medida em que o desenvolvimento das forças produtivas contribui para este milagre que se torna invisível de tão evidente; o homem trabalha cada vez menos e produz cada vez mais. Os hippies nos oferecem uma primeira imagem, entre as muitas imagens possíveis, do homem enfim liberado da milenar maldição do trabalho.

Deixemos que o futurólogo festeje em paz a serenidade, privilégio equívoco de todos aqueles que se elevam muito acima da humanidade presente que sofre, ainda não liberada do trabalho e da violência, coloquemos a nossa segunda pergunta e voltemos aos discípulos dos nossos mestres. Merecem eles o opróbrio dos moralistas? Governam à florentina, segundo a expressão corrente há alguns séculos? Quem pôs a fé a serviço da política? Quem manipulou as massas? Quem trama na sombra a derrubada do número um? Quem ensina a massa a


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queimar de hoje para amanhã o que adorou? Quem despreza o império das leis e só conhece a moral do príncipe coletivo, também ele subtraído, pela grandeza de sua missão, aos escrúpulos das almas fracas? Maquiavel nunca aprovou essas práticas, mas tampouco as condenou explicitamente. Il faut ce qu’'il faut. Como impedir que o homem de ação empregue meios eficazes? E como negar que em certas ocasiões a eficácia exige meios moralmente detestáveis? Não nos cansamos de interrogar Maquiavel, porque foi, até o fim, de uma insolúvel contradição: proibir aos políticos os instrumentos do êxito é impossível sem uma espécie, não de hipocrisia, mas de absurdo, e permitir-lhes o uso de meios em si execráveis não é mais satisfatório. Não há saída e a política deve aceitar o lado trágico da sua condição.

Ainda resta tudo a fazer para evitar as situações extremas que não deixam outra escolha a não ser entre dois tipos de insucesso: vencer perdendo as razões para vencer, ou renunciar à vitória, esperando salvar a alma.

Ora, Maquiavel, enquanto doutrinário da política desejável, senão enquanto teórico da política real, quer reduzir a freqüência das situações que só admitem saída no maquiavelismo, no sentido vulgar e pejorativo do termo. Para fundar um Estado, para restaurar um regime corrupto, para dar uma constituição a um povo em decadência, as medidas extremas revelam-se inevitáveis. Mas o ideal permanece sendo a república, a lei, um povo valoroso, o tumulto da praça pública. Já que acredita que nenhum homem seja capaz de não abusar do poder absoluto, recomenda, como os liberais, que se impeça o poder pelo poder e se prefira a imperfeição e a instabilidade dos regimes que vivem de lutas abertas à engano-
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sa ordem da tirania de um só ou de alguns. Num século em que tanto sangue foi derramado por parte daqueles que esperavam demais da política e da humanidade, os maquiavelianos aparecem, talvez, como defensores da liberdade. O pessimismo protege das ilusões e não existe profeta sem ilusões. Ao mesmo tempo, por uma lógica reviravolta, é o marxista que se torna o testemunho do maquiavelismo injustamente atribuído a Maquiavel. Confiar num príncipe coletivo significa dar plenos poderes a um Cesare Borgia, que gozaria, ademais, da boa consciência inseparável da convicção de servir à humanidade. A liberdade floresce nas zonas temperadas, não resiste à fé ardente dos profetas e das massas.

É preciso dizer que Marx, e não mais Maquiavel, torna-se o autor maldito? Os maquiavelianos, nos tempos de Stalin, ensinaram, não convenceram e não convencerão. Não que estejam inteiramente errados: quem quer fazer o papel de anjo faz o papel de animal. Quem quer mudar o curso das coisas humanas mostra-se não raro impiedoso, mais próximo dos tiranos do passado do que do homem artesão de sua própria sorte, com quem sonham os pensadores no silêncio das bibliotecas. Mas não esqueçamos que os pessimistas também se resignam com o injustificável, que às vezes protegem as sociedades contra o fascínio das paixões vãs, mas raramente os privilegiados contra as tentações do conservadorismo. É perigoso dar aos homens uma idéia alta demais de seu possível destino; não é menos perigoso convencê-los de sua indignidade e de sua impotência. Entre Maquiavel, observador sem ilusões, e Marx, o profeta, é melhor não escolher e deixar que continue um diálogo inesgotável e indefinido.


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Diálogo do nosso século, mas também diálogo de todos os séculos. Marx representa o profeta do nosso tempo, um tempo em que a economia, as forças produtivas assumem o aspecto da fatalidade. Maquiavel permanece nosso contemporâneo menos pelo seu ensinamento do que por uma interrogação que não admite respostas. Quem devemos admirar mais, aquele que prefere a salvação da cidade à da sua alma ou aquele que, um dia, exclama: “Hier stehe ich, kann nicht Anders”?

Pessoalmente, escolho sem dificuldades, mas paguei o preço e recebi a recompensa: não atravesso o limite da ação política e permaneço, não como o povo da Romanha, “satisfeito e estarrecido”, mas como todos os que especulam sobre a ação sem agir, frustrado e, talvez; secretamente satisfeito.


Raymond Aron
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