Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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Autor: Salvatore D’ Onofrio

Título: Pensar é preciso

Subtítulo: “Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania”
Epígrafe:

Apenas a derrubada de ídolos e líderes possibilita

o surgimento de uma democracia de verdade

APRESENTAÇÃO
Apresentar um livro de um intelectual autor de vários títulos, inclusive de uma Enciclopédia, é uma tarefa difícil e, ao mesmo tempo, uma dádiva que enriquece meu currículo. Foi isso que pensei, quando aceitei o convite de Salvatore D’ Onofrio para prefaciar esta obra, que tive o prazer de saborear ao longo de sua elaboração, fazendo uma leitura prévia e dando palpites.

Fernando Pessoa diz em um poema muito conhecido que “navegar é preciso, viver não é preciso”. Entendemos esta frase como uma metáfora da nossa existência, ou seja, o importante é não abrir mão da vocação para a vida verdadeira, latente em cada um de nós, em troca da segurança medíocre de nosso dia a dia. Ao parafrasear o poeta, colocando como título desta obra que “Pensar é preciso”, o autor, por certo, pretende instigar no leitor o seu desejo de busca de um conhecimento que, partindo dos pensadores tradicionais, seja interpretado à luz de seu raciocínio e visão de mundo.

Disse antes que degustei este livro em seu original porque na realidade suas páginas vêm recheadas de um sabor intelectual tão generoso que será impossível não se apaixonar pela sua leitura. A obra pretende ser um guia para compreendermos a história da aquisição do conhecimento e, para tanto, Salvatore parte dos temas de grandes pensadores desde épocas mais longínquas até os dias atuais. Desta forma, passa em revista suas idéias pessoais a respeito da religião, da política, da filosofia, da vida em sociedade, enfim, ele pretende levar o leitor a uma esfera em que o próprio possa não só desfrutar de sua obra, mas também pensar seus próprios pensamentos a respeito da mesma. Assim, seu ponto de partida é a consideração de que o afastamento do homem das fontes do conhecimento obscurece sua visão para o mundo real, que ele mitifica para não entrar em contato com aquilo que o obrigaria a questionar-se.

Em sua obra “Introdução ao pensar”, Arcângelo Buzzi afirma exatamente isto: temos que aprender a pensar, decodificando os conceitos estabelecidos para que, decodificados, eles retornem à nossa própria experiência da verdade pensada. Naturalmente, nenhum homem deveria deixar-se levar por verdades dogmáticas, impedindo-nos de pensar e interpretar aquilo que o dogma propõe como verdade irrefutável. A obra de Salvatore propõe de forma clara esta necessidade, que se torna mais evidente quando aborda o dilema entre fé e razão, dilema que se transforma em um dos pilares básicos de seu trabalho. De fato, o autor não faz mistério quanto ao seu livre pensar e, às vezes, torna-se “impiedoso” ao não fazer aqui qualquer tipo de concessão. Esta postura, aliás, é que enriquece sua obra, torna-a autêntica, obriga o leitor a assumir uma posição às vezes dolorosa para ele e seus pares, porque choca ao levantar questões antes não pensadas.

Mas, afinal, para que serve uma obra literária se não obrigar o leitor a pensar por si mesmo na busca de soluções para seus problemas existenciais ou de qualquer outra natureza? Se a obra de Salvatore conseguir convencer o leitor de que pensar é preciso, por certo ele já se sentirá recompensado. Sem ser um livro de auto-ajuda nos moldes convencionais, “Pensar é preciso” é uma obra que ajuda o leitor a questionar o que nunca fora por ele sequer pensado.
WILSON DAHER

(Psiquiatra e membro da Academia Riopretense de Letras e Cultura)



Sumário
Introdução: A insustentável estupidez humana
I - Herança greco-romana

Mito e realidade, 6; Eros: a força cósmica do amor, 8; Júpiter: o complexo do autoritarismo, 9; Apolo e Dioniso: ordem e instinto, 10; Édipo e Fedra: o tema do incesto, 12; Tróia: Ilíada e Odisséia, 14; Atenas: o berço da civilização ocidental, 20; o pensamento reflexivo: Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Estoicismo e Cinismo, 21; Alexandria e Helenismo, 25; Roma: a cultura latina, 26.


II – Egito faraônico - Religião Oriental - Espiritismo

O Egito dos Faraós, 30; Buda: a religião na Índia, na China e no Japão, 32;

Doutrina Espírita, 36.
III – Moisés: as Tábuas da Lei e o Judaísmo

(Moisés, libertador e legislador, 40; as Tábuas da Lei, 41; a doutrina de Moisés, 44; os mitos bíblicos anteriores a Moisés (criação do mundo, pecado original, arca de Noé, torre de Babel), 49; o Patriarca Abraão (circuncisão e sacrifício de Isaac), 50; os Profetas: do Êxodo à última Diáspora, 52; o Judaísmo depois de Cristo, 53.


IV- Jesus Cristo: o evangelho do amor e a religião do atraso.

A figura humana de Jesus: quem escreveu os Evangelhos? 56; primeira fase da Idade Média: a era das trevas, 60.


V – Maomé: o Islamismo e a volta do terror

O último Profeta, 65; na caverna do monte Hira e a compilação do Alcorão, 67; a doutrina islâmica, 68; o Islamismo no tempo e no espaço 70.


VI – A Renascença da Europa: do Humanismo ao Iluminismo.

As Cruzadas, 75; o surgimento das línguas neolatinas: a lírica trovadoresca e os cantos épicos, 77; La Divina Commedia, 84; Leonardo da Vinci, 87; Camões e Os Lusíadas, 88; Dom Quixote e a novela de Cavalaria, 90; o Teatro de Shakespeare, 92; Lutero: Reforma e Contra-Reforma, 95; a Política: Maquiavel 98; a Filosofia: Descartes, Pascal, Hobbes, Spinoza, Kant, Hegel, Vico, 98; a Ciência: Copérnico, Bacon, Galileu, Newton, 103; Iluminismo, Enciclopédia, Democracia, fim da Escravidão, 105.


VII – Romantismo e Realismo

Alternância do real e do ideal, 108; Rousseau: o mito do bom selvagem, 109; o Fausto de Goethe, 110; Revolução Francesa, 112; Realismo: Flaubert, Balzac, Zola, Dostoievski, Machado, 113; Existencialismo: Kierkegaard, Heidegger, Sartre, Schopenhauer, Nietzsche, 119.


VIII - Darwin: gênese e evolução da espécie humana.

A viagem de pesquisa, 121; a tese da evolução, 122; antes de Darwin: Lineu, Lamarck, Mendel, Malthus, 123; depois de Darwin: teoria do Big Bang, 124.


IX - Freud: psicanálise e sexualidade

A estrutura da personalidade: Id, Ego, Superego, 129; as fases da libido, 132; Jung: a teoria dos arquétipos, 134.


X – Karl Marx: a utopia comunista

Traços biográficos, formação intelectual, Capitalismo e Comunismo, 136; Revolução Bolchevique: Lênin e Stalin, 138.


XI - Modernidade: proposta de um Humanismo laico

Vanguarda: Futurismo, Dadaísmo, Expressionismo, Surrealismo e Cubismo, 139; Albert Einstein: a teoria da relatividade, 142; Franz Kafka: o absurdo existencial, 144; Fernando Pessoa e os “heterônimos”, 147; choque de civilizações: totalitarismo e fundamentalismo, 152; as duas Guerras Mundiais e outros horrores (Holocausto, Hiroshima, Gulag, maio de 1968, 11 de setembro de 2001), 154; abaixo ídolos e líderes 157; pensamento alargado, 166.
XII - Construindo uma Cidadania: ensaio sobre a cegueira política

Em busca de uma identidade nacional, 170; a raiz do mal: herança de ignorância, servidão, corrupção, nepotismo, impunidade, 172; nova forma de governo: parlamentarismo e bipartidarismo, 174; enxugamento do Estado: sistema unicameral e proporção representativa equânime, 177; Estado laico e educação em tempo integral, 181; paternidade responsável, aborto, eutanásia, 183; saúde, previdência, transporte coletivo, 188; trabalho, meritocracia, justiça, 189; proposta de uma Constituinte sem políticos, 197.



Introdução: a insustentável estupidez humana.
O propósito deste trabalho é promover uma cruzada contra os políticos corruptos

e os religiosos fanáticos, os dois tumores malignos que corroem o tecido social, estimulando a busca da verdade histórica, do raciocínio lógico, do bom senso. Já foi constatado que a preguiça e a ignorância dormem no mesmo berço. O cancioneiro popular explica que a loira bonita não é burra, tem apenas preguiça de pensar. E se fosse só a moça linda e loira... Acontece que também as morenas e as feias, como os homens fortes e inteligentes, preferem usar a cabeça só para embelezar o pescoço. O homo sapiens deveria se distinguir de outros primatas (gorilas ou chimpanzés) pela capacidade do raciocínio, pelo espírito de curiosidade que o pode levar ao conhecimento do mundo em que vive, analisar sensações de prazer e sofrimento, ponderar sobre direitos e deveres. Se isso não acontecer, o que torna o homem diferente da besta? Se viver apenas para satisfazer o instinto da conservação própria e da espécie, o ser humano iguala-se ao animal que também se preocupa com a comida e o acasalamento.

Infelizmente, a maioria costuma renunciar à reflexão, acomodando-se a automatismos lingüísticos (repete palavras ouvidas de outros sem pensar no seu sentido) e ideológicos (segue piamente doutrinas pregadas por líderes carismáticos). Agimos apenas por impulsos, guiados por mecanismos inconscientes, fora do alcance de nossa percepção, dependentes do repertório de vivências anteriores, passadas de pai para filhos. Acreditamos em realidades de que nunca tivemos experiência. A frase do poeta France Paul Valéry, “que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?”, revela a dependência do ser humano de imaginárias entidades sobrenaturais.

Vivemos, assim, o dia-a-dia sem nos dar conta do absurdo existencial. Cultivamos hábitos nocivos a nossa saúde (drogas e excesso de comida e bebida), seguimos rituais religiosos com pouca fé e muita hipocrisia, escolhemos políticos que não atendem aos interesses da coletividade, promulgamos leis injustas ou impraticáveis. Os padrões de comportamento estabelecidos pela sociedade, além de serem hipócritas, não causam nossa felicidade, pois não conseguem atingir o equilíbrio entre a necessidade de satisfazer os instintos individuais e as exigências da vida em sociedade.

A experiência provinda de minha idade avançada me levou à percepção de que, para entender a realidade que me circunda, devo pensá-la do meu modo, como se a descobrisse por mim mesmo e não pela cabeça dos outros. Transcrevo literalmente um pensamento da escritora gaucha Lya Luft: “pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem superficial que nos esmaga”. Refletir é transgredir, é não acreditar no que outros disserem, se não for convincente; é não aceitar uma ordem contrária ao raciocínio lógico, à verdade histórica ou à descoberta científica; se causar infelicidade a mim ou a outras pessoas. Passei, portanto, a recusar qualquer preceito “mítico”, baseado em alguma crença que se sustente apenas pelo princípio da autoridade. Não porque “Ele” disse, seja ele Moisés ou Maomé, Hitler ou Stalin, que algo deva ser considerado verdadeiro ou bom. Também porque não sabemos ao certo quem disse, quando disse e o que realmente disse.

Perdi a fé não apenas nos ídolos religiosos, mas também nos líderes políticos, que manobram a massa popular conforme seus interesses e vaidades. Por que tantas guerras, ódio, racismo, injustiça, desigualdade, miséria? Há alguma explicação lógica para tanto sofrimento? Há milênios que a humanidade é guiada por fanáticos religiosos ou políticos, que prometem maravilhas e, no fim, acabam cometendo os erros e as atrocidades de sempre. E isso porque o povo, como se fosse um rebanho, sente necessidade de um”Pastor” que o guie, um Salvador da Pátria. O problema é que a inteligência, mesmo conatural ao ser humano, não se desenvolve automaticamente. Ela necessita ser cultivada, aguada diariamente, como se fosse uma plantinha.

Estudar, ler, refletir: eis as atividades que deveriam ser estimuladas em todo ser humano, de uma forma constante, desde a primeira infância. A conjunção da vontade de saber (pelo estudo) com a necessidade de atuar (pelo trabalho) é que faz um cidadão de verdade. Democracia nenhuma funciona se a totalidade do povo não tiver um nível cultural satisfatório. Pouco adianta a passagem de um regime ditatorial para um sistema democrático, se a massa pobre e desinformada vende seu voto por um favor qualquer. Troca-se apenas uma ditadura (pelas armas) por outra (pelo voto). E também ajuda quase nada mudar de Comandante (Rei, Ditador ou Presidente) se o povo continuar na ignorância.

A seguinte pergunta deveria intrigar qualquer ser pensante: por que, no nosso país, o Estado, como a Igreja, nunca se preocupou assertivamente com a educação da massa popular? A resposta talvez esteja no medo da verdade. Os poderosos não conseguiriam dominar um povo esclarecido e a religião não poderia impor seu credo, se aconselhasse seus fiéis a lerem outros livros a não ser aquele que cada seita considera como “sagrado”, depositário de uma verdade incontestável.

O escopo principal deste livro é um convite para a reflexão sobre temas filosóficos, religiosos, científicos e artísticos, considerados fundamentais para o desenvolvimento da nossa civilização. A matéria é apresentada de uma forma sintética e na ordem cronológica, que vai desde o mito greco-romano até à formulação da teoria da relatividade. A exposição do pensamento de profetas, filósofos ou literatos tem apenas o intuito de divulgação cultural, sem nenhuma pretensão científica. E isso eu faço contando histórias (mitos, lendas, episódios lúdicos) que é a forma mais antiga e eficiente de educar o povo. Estou convencido de que o conhecimento do passado é indispensável para compreender o momento presente, pois não há saber sem história.

Outro motivo, portanto, que me levou à elaboração deste trabalho foi apresentar um panorama da cultura no ocidente para estimular a leitura de obras maravilhosas produzidas pelo gênio humano. Minha intenção foi estabelecer uma ponte no tempo e no espaço e entre as várias disciplinas do conhecimento. O conceito de cultura implica em abrangência, pois ninguém pode se considerar sábio, se não tiver um mínimo de erudição. Uma base de cultura geral é indispensável para o início de qualquer especialização. Daí a necessidade da interdisciplinaridade, estabelecendo um diálogo entre religião e filosofia, história e sociologia, ciências naturais e antropologia, literatura, teatro e artes plásticas.

Enquanto o pensamento reflexivo nos dá a luz, a poesia vivifica o espírito e a ciência nos aproxima da verdade. A monocultura, além de infrutífera, é muito perigosa para a vida em sociedade. Os leitores de um livro só (Bíblia ou Alcorão), não conhecendo outros caminhos, acabam se convencendo de estar em posse da verdade e de ter a obrigação de impô-la aos outros, inclusive pela violência. Do fanatismo ao terrorismo o passo é quase automático, na religião e na política.

Por isso, outro objetivo do presente trabalho intelectual reside em despertar no leitor o espírito crítico. Questionar tudo e sempre. Uma máxima filosófica diz: “enquanto o tolo afirma, o sábio duvida”. E uma frase do cancioneiro popular faz eco: “todo o mundo erra”. Quem se achar dono da verdade deve ser preso num hospício, pois, por ter perdido a faculdade do raciocínio, pode se tornar um perigo para a sociedade. A insanidade mental pode levar alguém a se achar um enviado de Deus e inventar uma religião qualquer, que proíba o homem de ser feliz, elencando um montão de pecados sujeitos a penas eternas. Infelizmente, no nosso país, as igrejas pipocam mais do que partidos políticos!

Mas este trabalho não é apenas crítico, polêmico, iconoclasta. Tem seu aspecto construtivo também. Apresentar um pequeno esboço da história da estupidez humana é o primeiro passo para tentar o melhoramento social. A reflexão sobre os erros do passado pode nos levar à libertação de preconceitos atávicos que impedem o progresso civilizacional. O último capítulo, que toca mais especificamente no momento atual da política brasileira, visa apresentar sugestões para a construção de uma cidadania de verdade. Isso só será possível na medida em que, pelo esclarecimento do povo, o sentimento de verdade e de justiça irá substituir os egoísmos individuais e de grupos.

“O que é a maioria? A maioria é tolice.

O bom senso sempre tem sido de poucos!

Convém pesar os votos e não contá-los”.

Tal constatação, feita pelo poeta alemão Schiller, 200 anos atrás, infelizmente, ainda hoje continua verdadeira. A massa popular, manobrada por líderes religiosos ou políticos, causou a morte de homens maravilhosos, como Sócrates e Jesus Cristo, e exaltou figuras sinistras, como Hitler e Stalin. Pensar é preciso para que aumente, cada vez mais, o número de gente com consciência crítica e cívica!


I - Herança greco-romana
(Mito e realidade 6; Eros e Vênus 4; Júpiter 5; Apolo e Dioniso 6; Édipo e Fedra 8; Tróia: Ilíada e Odisséia 10 Atenas 15; o pensamento reflexivo: Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Estoicismo e Cinismo 16 – Alexandria: Egito e Helenismo 20; Roma: a cultura latina 22).
Mito e Realidade: “O mito é o nada que é tudo” (Fernando Pessoa)
A pré-história da civilização ocidental pode ser entendida graças às sucessivas descobertas arqueológicas realizadas, a partir da segunda metade do séc. XIX d.C. Em Creta e outras ilhas do mar egeu, jônico e mediterrâneo, em Micenas e outras cidades da península grega, na antiga Ílios (Tróia) e em outros sítios da costa asiática. Os estudiosos remontam as origens da civilização indo-européia até o ano de 2500 a.C. A concepção religiosa desses povos primitivos talvez esteja relacionada com um culto fetichista pela crença em forças sobrenaturais alojadas em objetos materiais. Assim, adoravam-se animais, vegetais ou pedras, acreditando serem animados por espíritos que, como se fossem talismãs, tinham o poder de proteger os crentes contra tempestades ou doenças.

Por vezes, pela imaginação do homem primitivo, formas animais adquiriam feições humanas, dando origem a seres híbridos, como, por exemplo, o Minotauro, monstro com cabeça de touro e corpo de homem, nascido de uma relação sexual da esposa do rei Minos com um touro enviado pelo deus Netuno. Pela contínua evolução da mente humana, passando para um estágio mais avançado, chegamos a uma concepção antropomórfica da divindade. Entramos, assim, no riquíssimo mundo da mitologia grega, conforme descrições em poemas didáticos, épicos, líricos e dramáticos, que remontam ao séc. VIII.

O termo grego mythos significa uma “história” fantástica, de origem anônima e coletiva, inventada para tentar explicar fenômenos naturais ou comportamentos existenciais, anteriormente ao avanço da filosofia e das ciências. Assim, por exemplo, o povo grego primitivo, não conhecendo a natureza do raio, imaginava ser uma seta incandescente de Júpiter, fabricada por Vulcano, o deus do fogo, pela qual o pai dos deuses punia os homens faltosos. A narrativa mítica apresenta aspectos divinos de acordo com concepções antropomórficas da natureza cósmica e da vida humana. Contrariamente ao que nos ensinam as diferentes religiões, não é Deus que cria os homens, mas são estes que criam os deuses a sua imagem e semelhança. Por exemplo, na África, a configuração da Virgem Maria é de cor preta, de lábios grossos e de seios abundantes.

As divindades são apenas projeções do inconsciente coletivo, que inventa figuras transcendentais para expressar plasticamente seus desejos e seus temores. Mas o mito, apesar de inverossímil, não deixa de ser uma “crença-verdade”. O estudioso Mircea Eliade, na famosa obra Mito e Realidade, afirma que a narrativa mítica é considerada verdadeira, uma vez que o mito, depois de criado, passa a ser objeto do culto popular, especialmente nas sociedades mais primitivas. Ele é verdadeiro porque é vivido através dos atos litúrgicos. Os rituais, ao rememorarem as façanhas realizadas pelas divindades, exercem um grande fascínio sobre os fiéis, que se sentem tomados por um poder sagrado. Isso acontecia com as bacantes da cultura greco-romana e acontece hoje com as mães-de-santo do candomblé baiano.

Com a passagem da tradição oral para a escrita, a palavra mítica adquire o caráter de dogma de fé, não admitindo contestação: “o que está escrito, é a verdade”, pois Buda disse e, sucessivamente, Moisés, Cristo e Maomé disseram! Mesmo quando o mito contraria a lógica, em vista de que sua criação não depende da formação de uma consciência reflexiva. Trata-se de uma “protofilosofia”, porque a resposta à pergunta do homem sobre o universo e seus fenômenos é dada não pelo pensamento conceptual, mas pela fantasia criadora de imagens. Daí a relação profunda entre mito, poesia e infância, categorias estas que superam os limites do tempo e do espaço.

Com a evolução da sociedade, o homem começa a pensar e a reflexão consagra o fim da inocência mítica. Aos poucos, vai acontecendo a separação entre o Eu, Deus e o Mundo, concepções não distintas na época mítica. Uma vez perdidas as verdades coletivas e absolutas do estágio mítico, cada homem é obrigado a descobrir seus próprios valores de vida. O mito, não mais vivido, perde sua sacralidade e torna-se apenas uma lenda representada artisticamente no poema, no conto, no teatro.

Com o progresso das ciências, o papel do mito passa a ser exercido por poetas e artistas. A estes cabe lançar mão da fantasia para criar mundos imaginários, onde as aspirações do inconsciente coletivo possam se realizar. O mito pode ser definido como uma “macro-metáfora”, pois é a criação de uma história ficcional que estabelece parentescos entre realidades diferentes, para captar parcelas de sentido do mundo. Em contrapartida, qualquer texto de arte literária encerra aspectos míticos pelo concurso da imaginação, que desafia a lógica existencial. Os arquétipos míticos da luta e do triunfo do princípio do bem sobre o princípio do mal se encontram na concepção do herói épico e na idealização do cavaleiro andante da novela medieval. Estão também na inspiração do romance de amor e de aventura, na literatura de cordel, no duelo entre o detetive e o criminoso do conto policial, na configuração do herói da ficção científica, na elaboração de fábulas e personagens da telenovela.

Fernando Pessoa, no poema Ulisses, ao recontar a lenda do herói grego que, durante a viagem de volta de Tróia para Ítaca, sua terra natal, teria fundado a cidade de Lisboa (evolução fonética do nome Ulissipona, “cidade de Ulisses”), afirma que o mito é o “nada” (pois não existiu no plano histórico), mas é “tudo”, porque foi a figura aventurosa do herói grego que estimulou os lusitanos a desbravar “os mares nunca dantes navegados”, deslocando o eixo do comércio do Mediterrâneo para o Atlântico.


EROS: a força cósmica do Amor

Eros é uma das “Divindades Primordiais”, aquelas que pertencem à “pré-história” da Mitologia grega. Segundo o pensamento órfico (de Orfeu, figura mítica que deu origem a uma doutrina filosófica e religiosa), Eros teria nascido do Ovo primordial (o Caos), engendrado pela Noite, cujas metades se separaram, dando origem à Terra e ao Céu. Ele é o princípio da atração universal, que leva as coisas a se juntarem, criando a vida. Eros é a força que assegura a coesão interna do Cosmo e a continuidade da vida na terra. Para o filósofo grego Platão, ele seria um dáimon, um demônio, uma força espiritual intermediária entre a divindade e a humanidade. Na cultura romana, Eros é confundido com Cupido, filho de Vênus (a deusa do amor) e de Marte (o deus da guerra), representado como uma criança alada, nua, armada com arco e flechas ou com espada e escudo, símbolo da paixão arrebatadora.

Vênus, a grega Afrodite, conforme narra o mito mais tradicional, nasceu da espuma do mar formada pelo esperma derramado pelo deus Céu (Urano), quando seu filho Saturno (o Cronos grego = deus do Tempo: passagem da eternidade para a temporalidade, início da História) lhe cortara os testículos. A deusa do amor e da beleza casou com Vulcano, o feioso deus do fogo, mas o traiu seguidamente: com Marte teve Cupido; com o mortal Anquises teve Enéias, o maior herói troiano e o fundador da raça latina; com Baco gerou Priapo; com Hermes (Mercúrio) deu à luz Hermafrodito, o ser bissexuado.

Com o passar do tempo, o sentido etimológico da palavra “erótico” se desfigurou, reduzindo o conceito a um tipo de satisfação carnal proibida (“sexo sem pecado é como ovo sem sal”, diria o cineasta Luís Buñuel), à nudez, à sacanagem, aos filmes pornôs. Confundiu-se Eros com Priapo, o deus do sexo, representado com um falo enorme, protetor dos reprodutores e símbolo da procriação. O Eros verdadeiro é o deus do amor no seu sentido integral, que engloba corpo e alma. A atração puramente física é animalesca e não humana. É apenas o bicho que tem o período do cio. O homem e a mulher se amam (ou deveriam se amar!) sempre e em todos os lugares por uma comunhão de sentimentos que transcende o aspecto corporal.

O erotismo, que verdadeiramente funciona e faz perdurar a atração recíproca por longo tempo, está no olhar apaixonado, na admiração que o amante sente pelas qualidades físicas e espirituais que consegue enxergar na pessoa amada. A função erótica, que estimula o desejo de uma forma mais duradoura, está evidenciada na poesia lírica, na pintura, na dança, nos filmes sentimentais, na arte em geral, pois supera o nível do real e penetra no mundo da fantasia, do sonho, do vago sentimento do inacessível. Por esse prisma, os Cânticos de Salomão e a poesia trovadoresca são mais eróticos do que o Kama Sutra. O erotismo está mais no sugerir do que no mostrar totalmente, no claro-escuro, na promessa do idílio, no mistério a ser desvendado, na repetição do ato do amor como se fosse sempre pela primeira vez. Como diz a poeta Adélia Prado, “erótica é a alma”! Só que conhecer o espírito de alguém é bem mais difícil do que lhe conhecer o corpo. Manuel Bandeira nos oferece uma reflexão interessante a respeito:
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque corpos se entendem; as almas, nem sempre”.
E, sobre a necessidade da renovação do desejo erótico, esta bela imagem do poeta Mário Quintana: “amar é mudar a alma de casa”. Enfim o erotismo, entendido como prática do amor num sentido bem geral, é onipresente a qualquer atividade humana bem sucedida. A escritora existencialista francesa, Simone de Beauvoir, companheira do poeta-filósofo Jean-Paul Sartre, é quem melhor define a essência da relação carnal: “O erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a sociedade”.



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