Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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Hegel (1770-1831) e Vico (1668-1744): o idealismo dialético
Friedrich Hegel retoma o pensamento de seu patrício Kant no projeto de pensar a vida pela oposição entre o mundo subjetivo e objetivo. Só que ele acrescenta um passo fundamental: encontra a “síntese” que engloba a tese do eu pensante com a antítese do mundo exterior. Formula, então, o processo que ele chama de “dialético”, constituído pelos três momentos: tese (proposta), antítese (oposição) e síntese (conjunção), que lembra as três proposições do silogismo dos filósofos pré-socráticos e da escolástica medieval (premissa maior e menor, seguidas da conclusão). Hegel chama tal processo de dialético, do grego dia + lexis = “a palavra em movimento”, pois ele identifica o Absoluto com o Conceito. Para o filósofo alemão todo o conhecimento só é possível dentro da mente humana: a essência das coisas está na “idéia” que temos delas. Ele conecta, assim, seu pensamento ao idealismo do filósofo grego Platão.

O princípio dialético do procedimento por oposição e englobamento das oposições, exposto na sua obra máxima A fenomenologia do espírito (1807), pode ser aplicado não apenas à teoria do conhecimento, mas também ao estudo da história e do avanço das várias civilizações. O que fizera, de uma forma bem mais clara do que a complicada dialética alemã, o napolitano Giambattista Vico, quase um século antes de Hegel, ao publicar a obra Princípios de uma nova ciência relativa à natureza comum das nações (1725), considerada o primeiro tratado de Filosofia da História. Nela, contestando o racionalismo de Descartes, defendeu a tese de que o verdadeiro objeto do conhecimento não é a natureza, nem a razão, mas o mundo da cultura: o que o homem realmente cria e deixa para a posterioridade.

Vico é o primeiro a utilizar o método triádico, chamado de “cursos e recursos históricos”. Para ele, a civilização passa por três estágios: idade divina (mítica, teológica ou infantil), idade épica (heróica ou juvenil) e humana (racional ou madura). Após o terceiro estágio, termina um ciclo e reinicia uma nova etapa. Esta teoria explicaria, por exemplo, a volta à barbárie do Egito atual, após tantos séculos de civilização faraônica. Os Impérios, como todos os seres vivos, nascem, crescem e morrem. Algo semelhante aconteceu na religião judaico-cristã: o Deus de Abrão era um tirano que exigia submissão incondicional a leis intoleráveis; Jesus veio para libertar os seres humanos dessa escravidão, mas as igrejas de papas, pastores, rabinos e aiatolás voltaram a exercer a antiga tirania.
A Ciência: Copérnico, Bacon, Galileu, Newton
É na época do Renascimento que inicia a ciência moderna. Os primeiros matemáticos, astrólogos, físicos, biólogos europeus sofreram barbaridades nas mãos do papado de Roma, quando suas descobertas científicas começaram a contestar dogmas e crenças religiosas em que os fiéis vinham acreditando, ao longo de uma tradição milenar. Já falei um pouco de Leonardo da Vinci. Vou apontar agora mais outros expoentes da revolução iniciada na Renascença, resumindo as principais contribuições para o avanço da ciência.

Nicolau Copérnico (1473-1543), astrônomo polonês, foi o primeiro a publicar um tratado sobre a hipótese heliocêntrica, invertendo o sistema ptolemaico que regia a astronomia havia quase 14 séculos: não era o sol, mas a terra que girava. Após dez anos de estudos na Itália, ele chegou a demonstrar o duplo movimento dos planetas, em torno de si mesmos e em torno do sol. Mas, temendo as represálias por parte da Igreja Católica, relutou a apresentar sua idéia revolucionária que, contestando a Sagrada Escritura, iria emancipar a cosmologia com relação à teologia. Foi o astrônomo italiano Galileu Galilei que endossou a tese do sistema copernicano, mas foi processado por isso e precisou se retratar.



Francis Bacon (1561-1626), considerado o pai do Empirismo, inaugura uma nova vertente no pensamento filosófico e científico. O estudioso inglês tem em comum com o contemporâneo francês Descartes a luta contra o dogmatismo religioso e secular, herança da cosmovisão medieval, propondo o livre exame da realidade física e psíquica, sem as amarras de qualquer forma de preconceito. Mas discorda quanto à existência das “idéias inatas”, postuladas pelo filósofo francês. Para Bacon,
nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos”.
A mente humana é uma “tábua rasa” sobre a qual se imprimem as idéias produzidas pelas sensações provenientes do mundo exterior. A experiência sensível é a única fonte do conhecimento. Mas sua grande contribuição reside na formulação do método científico de pesquisa, até hoje utilizado. Na sua obra mais conhecida, Novum Organun, apresenta as etapas do seu método: 1) observação do fenômeno; 2) análise de seus elementos constitutivos, estabelecendo relações quantitativas e qualificativas entre eles; 3) indução de hipóteses; 4) verificação das hipóteses por meio do experimento; 5) generalização do resultado formulando uma lei, se as hipóteses forem confirmadas.
Galileu Galilei (1564-1642) testou empiricamente a teoria copernicana do movimento da terra ao redor do sol, observando os planetas através de um grande telescópio. Mas foi silenciado pelo Tribunal da Inquisição e obrigado a se desdizer. Como podiam as revoluções da Terra se harmonizar com a ascensão de Cristo ao céu? Somente após 360 anos de atraso, em 1982, o papa João Paulo II retirou as acusações de heresia, reconhecendo a injustiça feita pela Igreja Católica contra o grande gênio da Renascença italiana. O dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956) criou uma peça maravilhosa, A vida de Galileu, em que representa artisticamente o conflito do intelectual no seio da sociedade em que vive. O mais grave é que as igrejas, todas elas, presas a preconceitos atávicos e absurdos, ainda continuam impedindo o livre avanço da ciência em busca da verdade e do melhoramento humano. Veja-se, por exemplo, a recente celeuma acerca das pesquisas científicas sobre as células-troncos embrionárias, que poderiam aliviar dores e salvar vidas.
Isaac Newton (1642-1727) reconheceu sua dívida aos cientistas que o precederam pela imagem de que um gênio é apenas um anão sentado em cima de uma montanha, construída pela tradição cultural. As contribuições do grande cientista inglês no campo da física, da matemática e da astronomia são incalculáveis. Lembramos apenas o episódio lendário que o levou ao descobrimento da lei da gravitação universal e da atração terrestre. Narra-se que Newton, estando descansando em baixo de uma macieira, uma fruta lhe caiu na cabeça. Ele se perguntou, então, por que a maça caíra em lugar de subir ou ficar parada no espaço. Tal fato o induziu a realizar uma série de experiências, jogando objetos de diferentes pesos e de várias alturas, que o levaram à confirmação da tese de que os corpos físicos mais densos caíam mais rapidamente ao solo por vencerem com maior facilidade o atrito do ar atmosférico. Ele pôs em prática as três fases principais do método científico: observação, comprovação, formulação da lei.
Iluminismo, Enciclopédia, fim da Escravidão, Democracia.
Descartes, Bacon, Galileu, Spinoza e outros filósofos e cientistas dos séculos XVI (Quinhentos) e XVII (Seiscentos) criaram a base teórica para a grande revolução política e social que aconteceu no século XVIII (Setecentos) na Europa e na América do Norte. Estamos na época do Iluminismo, Ilustração ou “Século das Luzes”, quando se publicou a grande Enciclopédia, o Estado se separou da Igreja, foi abolida a Escravidão, nasceram os regimes Constitucionais e a Democracia moderna, aconteceu a Revolução Francesa içando a bandeira da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

O advento do Iluminismo foi preparado especialmente pelo Liberalismo, com base na teoria política de Locke e na prática do Presidente dos EUA, Thomas Jefferson (1743-1826). O pensador inglês John Locke (1632-1704), contestando a existência das idéias inatas admitidas por Descartes, professa um materialismo sensualista, pois o conhecimento só pode advir pelos sentidos, observando as leis da natureza. O desenvolvimento das ciências naturais e a reorganização da sociedade em bases estritamente racionais acabariam com todos os preconceitos religiosos. Mas os verdadeiros criadores do liberalismo político foram os economistas ingleses Adam Smith e John Stuart Mill. Apontamos as linhas-mestres da doutrina político-liberal:


a) o regime democrático e a independência dos três poderes;

b) o direito à propriedade e à liberdade de pensar e de agir;

c) o livre jogo da concorrência nas relações comerciais (lei da oferta e da procura);

d) a intervenção apenas reguladora do Estado para evitar abusos ou injustiças.


O fruto de tantas idéias inovadoras no campo da filosofia, da ciência e da política foi a elaboração da Enciclopédia (“Dicionário racional das ciências, das artes e das profissões”), que levou uma geração (de 1751 a 1766) para ser publicada, devido à ação repressora da censura eclesiástica. Colaboraram mais de 60 especialistas, sob a direção de Diderot e D’ Alembert, além dos três grandes escritores Montesquieu, Rousseau e Voltaire. Na medida em que cada volume era editado, o papa de Roma esperneava, emitindo repetidos atos condenatórios das doutrinas contidas na Enciclopédia. Mas ela começou a penetrar nos lares burgueses, criando-se até associações para discutir os assuntos contidos na majestosa obra. De modo semelhante ao que acontecera com a publicação da Origem das Espécies, a leitura da Enciclopédia foi substituindo a Bíblia Sagrada. Era o Humanismo tomando o lugar do Teologismo. A intenção era substituir a Religião pela Ciência e a Fé pela Razão.
O Iluminismo propunha um novo contrato social, abolindo qualquer forma de despotismo e pregando a igualdade de todos os homens perante a lei. De imediato, a conseqüência mais benéfica foi a abolição da escravidão: o Parlamento inglês, em 1807, proibiu o tráfico de escravos em todo o império britânico. É interessante notar que foi um governo laico a acabar com o instituto da escravidão, a maior vergonha do gênero humano, sempre tolerada pelos regimes religiosos. Até então a escravidão era considerada uma constante inerente à própria natureza humana, permitida por todas as teologias. A mão de obra escrava era utilizada para a construção de obras majestosa, com as Pirâmides, por exemplo. Os escravos, pois, constituíram a principal força motriz de civilizações. Encontramos escravatura no Egito dos Faraós, no Velho Testamento, nas póleis gregas, no Império Romano. Era de se esperar que a chegada de Jesus Cristo, o doce apóstolo do amor, pusesse fim a tal execrável instituição, mas foi um ledo engano. O Cristianismo tolerou o sistema escravagista por mais de 18 séculos. Papa algum excomungou donos ou traficantes de seres humanos, como fazia com hereges, e menos ainda os condenou à morte na fogueira, como fez como a valente mocinha Joana D’ Arc. E a outra religião monoteísta, o Islamismo, não deixou por menos: a oitava sura do Corão manda fazer escravos todos os prisioneiros de guerra!

A vergonha maior está no tráfico de escravos pelos três continentes: da África para a América, com navios que partiam da Europa. Os negros escravizados não eram cativos de guerra, mas cidadãos livres, capturados a laço em seu próprio território por capatazes a serviço de comerciantes de escravos e colocados nos navios negreiros. Durante séculos houve um comércio triangular de seres humanos entre capitais européias, costas africanas e litorais americanos. E tal horrenda indústria teve a complacência de todas as igrejas.

No Brasil, esse comércio teve a mais longa duração, acrescida pela escravidão também de sua prole, os afro-descendentes. Milhares de jovens africanos eram presos e conduzidos até os navios. Lá eram batizados (ironia ou hipocrisia?) e marcados com ferro em brasa, como se faz com o gado. Ao chegar aos portos brasileiros, eram leiloados no mercado público e submetidos a trabalhos desumanos. Castro Alves, o poeta romântico baiano, pelo seu poema O Navio negreiro, denuncia a degradação humana a que eram submetidos os africanos durante a travessia oceânica. Apesar de uma lei brasileira de 1850, que proibia o tráfico de escravos, o vergonhoso comércio ainda continuava em 1868, quando foi publicado o poema. Vale a pena transcrever alguns versos:
Era um sonho dantesco... o tombadilho  
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar de açoite...  
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar...


Negras mulheres, suspendendo às tetas  
Magras crianças, cujas bocas pretas  
Rega o sangue das mães:  
Outras moças, mas nuas e espantadas,  
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs!  ...


Se o velho arqueja, se no chão resvala,  
Ouvem-se gritos... o chicote estala...


Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!


Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão.


Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão...  
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar...


Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!..
.
Mais triste foi a destruição do sentimento de nacionalidade. Como precaução contra possíveis revoltas, logo que os capturados chegavam ao navio, os marinheiros eram instruídos a misturar as várias etnias africanas, formando grupos de línguas e costumes diferentes. Para se comunicarem entre si, todos eram obrigados a falar o português, a língua dos dominadores. Junto com a desagregação da pátria, havia também a disjunção familiar. Enquanto os trabalhadores dormiam em senzalas, que separavam os homens das mulheres, as escravas jovens e bonitas residiam na casa grande, servindo ao senhorio especialmente como objeto de prazer sexual.

A desculturação se estendia também a rituais, costumes, hábitos alimentares, chegando-se a uma miscigenação de usos entre as três raças: indígena, africana e européia. As conseqüências do regime escravagista são ainda hoje visíveis. O gosto brasileiro pela feijoada, por exemplo: a mistura do que restava nos pratos dos patrões era posto num tacho para saciar a fome dos escravos. Pior do que a herança de costumes é a da mentalidade social e econômica: o povo brasileiro, especialmente a maioria mais pobre, se acostumou a viver de esmolas do poder público ou privado, vendendo até seu voto em troca de favores, enquanto os políticos se locupletam com o dinheiro de seus impostos. Em lugar de clamar pela justiça, se contenta com a caridade!

Além da condenação da escravatura, ao Iluminismo devemos também o surgimento dos governos constitucionais e da democracia moderna. Também no campo político dá-se uma revolução comparável à de Bacon (teoria do conhecimento), Copérnico (sistema heliocêntrico), Darwin (teoria evolucionista). Chegou-se à convicção de que o poder não devia mais emanar de cima para baixo, mas no sentido inverso, da periferia para o centro. Quem devia estabelecer leis não era Deus ou o Rei, mas o povo que sustentava o Estado com seus impostos, através de representantes por ele escolhidos. Assim, o surgimento de uma burguesia abastada provocou a Revolução Francesa (1789), que derrubou o absolutismo monárquico, instituindo regimes constitucionais em várias nações da Europa e da América do Norte.

O movimento constitucionalista vinha de longe e não surgiu na França, mas na Inglaterra. A primeira Carta Magna foi inglesa e remonta a 1215, ainda na Idade Média, quando um grupo de nobres exigiu do rei João Sem Terra que consignasse por escrito os limites do poder da Monarquia, colocando a lei acima de tudo e de todos. Os princípios aí designados passaram a constituir a base da Revolução Puritana (1640) e Gloriosa (1688), quando iniciou o sistema bipartidarista e se afirmou a liberdade de imprensa. A visão newtoniana levou ao florescimento da ciência e o comércio marítimo deu início ao império britânico. A mesma filosofia de vida norteou a Revolução Americana que culminou na Declaração da Independência dos EUA (1776), proclamando o direito natural de todos os homens à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Os princípios democráticos se universalizaram quando, em dezembro de 1948, a Organização das Nações Unidas (ONU) promulgou a Declaração Universal dos Direitos Humanos.



VII – Romantismo e Realismo
Alternância do real e do ideal
O Romantismo e o Realismo, além de serem dois momentos históricos opositivos no conjunto da cultura ocidental, representam também duas posturas de contraste perante a visão de vida, ensejando diferentes pedagogias. Já falei, no primeiro capítulo deste trabalho, dos mitos de Apolo, o deus da luz, e Dioniso, o deus do vinho, como representações, respectivamente, da razão e do instinto, do código cultural e do código natural. Na história da evolução humana podemos perceber uma alternância da prevalência ora de um princípio ora de outro.

A teoria dos movimentos literários nos mostra que à época de predominância da cultura greco-romana sucedeu o atraso do longo período medieval. A Renascença retoma o espírito apolíneo da Grécia antiga, especialmente com o Neoclassicismo francês (Corneille, Racine, Molière). Com o Romantismo dá-se a volta ao espírito dionisíaco da Idade Média pela tomada de posição contra o Classicismo generalizante, em favor do caráter nacional da cultura e da prevalência dos interesses do indivíduo sobre o social. O Realismo, que surge em oposição aos ideais românticos, retorna aspectos do Classicismo, valorizando a contribuição das ciências na produção da obra de arte, o papel fundamental da estrutura social para o desenvolvimento civilizacional e a busca da perfeição formal (vejam-se os poetas parnasianos).

Como podemos perceber, um movimento literário surge em oposição ao anterior e retoma aspectos do anterior ao anterior. Mas não se trata de um simples retorno. Cada momento artístico tem variedades de estilo e de significado conforme sua época. Por exemplo, Aristóteles define a arte como imitação da realidade. Tal definição é aceita também pela estética realista. Só que, enquanto na estética clássica a realidade é idealizada, transfigurada pela mão ou pela mente do artista, na época do Realismo a realidade é expressa como ela é e não como gostaríamos que fosse. O mundo da fantasia ou de ideologias cede seu lugar à exposição da verdade existencial exterior e interior, exposta na sua crueldade.
Rousseau: o mito do bom selvagem
O Romantismo iniciou na França, mas teve seu apogeu na Inglaterra e na Alemanha, ao longo de um século: segunda metade do séc. XVIII e primeira do XIX. Seus pressupostos filosóficos e políticos podem ser encontrados no movimento iluminista: a afirmação dos direitos do indivíduo e a livre expressão da sensibilidade. Romantismo é sinônimo de liberdade em todos os sentidos: liberdade política, opondo-se a qualquer forma de absolutismo; religiosa, rejeitando todo tipo de dogmatismo; estética, contra as regras poéticas do Classicismo; social, contra a opressão das classes dominantes. Contra o espírito aristocrático da Renascença e do Iluminismo, o Romantismo prega a popularização da cultura, propondo uma nova maneira de sentir e de viver.

O suíço Jean-Jacques Rousseau, filósofo e escritor de origem francês, conviveu com os maiores expoentes do Iluminismo e colaborou na Enciclopédia. Ele é considerado o precursor do Romantismo pela criação do mito do “bom selvagem”. Convencido de que o homem é bom por natureza, sendo o viver em sociedade a causa da sua degradação moral, passou a condenar o estudo das ciências e a prática das artes. Privilegiando o naturalismo, o primitivismo e os costumes indígenas, tornou-se um implacável crítico da organização social. Tanto que um seu opositor afirmou que, de tanto ouvir Rousseau exaltar a vida animal, dava vontade de “andar de quatro”.

O absurdo de privilegiar o código da natureza contra o avanço civilizacional, propiciado pelo culto da ciência, da filosofia e das artes, só podia germinar numa mente dominada por preconceitos religiosos. Rousseau teve uma educação calvinista, que lhe impedia alcançar a verdade, que se encontra na constatação dos fatos históricos, irrecusáveis por qualquer inteligência não comprometida por idéias fixas. Apenas a ignorância ou a má-fé pode achar que há mais moralidade entre os homens primitivos do que nos civilizados.

Os exemplos de selvageria entre tribos indígenas são inúmeros: astecas que arrancam o coração dos vencidos; índios norte-americanos que escalpam os perdedores; ancestrais que se alimentam de carne humana para se apossar da força dos vencidos. O culto do primitivismo, compartilhado também por alguns atuais ambientalistas que chegam a praticar formas de zoofilia, prejudica o avanço científico e o progresso social. Lembro que numa visita à ilha de Fernando de Noronha, o paraíso ecológico onde falta água e eletricidade, notei que uma pá para geração de energia eólica não estava funcionando. Perguntado o motivo, fiquei sabendo que a paralisação foi devida a um protesto de ecologistas pela morte acidental de uma ave!

A meu ver, a importância de Rousseau reside mais no campo político, onde suas idéias foram frutíferas, antecipando os ideais da Revolução Francesa, e ainda hoje sustentáveis e benéficas. Ele achava que a desigualdade entre os homens tinha como causa o Estado despótico e o acúmulo de riquezas nas mãos de poucos. Era preciso evitar a exploração do homem pelo homem. Propunha, então, para a formação de um Estado ideal, um acordo entre os cidadãos visando a cessação de direitos individuais em prol da coletividade, balanceando benefícios sociais com os deveres de cada um. Seus ideais foram retomados pelo revolucionário Robespierre e por Victor Hugo, o escritor mais prolífero do Romantismo francês.

O Romantismo, por ser muito abrangente no tempo e no espaço, afirmando-se em cada país de uma forma diferente, não deixa de ser um movimento cultural contraditório consigo mesmo, apresentando facetas contrastantes. Os estudiosos distinguem duas correntes principais, uma “quietista” que se alimenta de sonho e de ilusões, idealizando a realidade; e outra “revolucionária” que repudia o modelo burguês de vida, insurgindo-se contra qualquer tipo de autoritarismo e de obrigação social ou moral.

Entre os maiores poetas do primeiro tipo de Romantismo aponto os franceses Alfred de Musset e Lamartine, o italiano Giacomo Leopardi, o inglês John Keats, o norte-americano Edgar Allan Poe. Este último escritor, muito bom na poesia e na prosa (criou o moderno conto policial) é considerado o primeiro autor das colônias a influenciar a cultura européia, invertendo a direção das influências. Seu poema The Raven (O Corvo) exprime artisticamente o refúgio dos poetas românticos no mundo do sonho e da imaginação, pois a realidade é opressora dos sentimentos. A imagem do corvo imóvel, acocorado no umbral do seu quarto, simbolizando a insensibilidade do pai adotivo do poeta e a impossibilidade de vencer as forças adversas aos anseios individuais, é reforçada pelo verso-estribilho never more (“nunca mais”).

A corrente revolucionária do Romantismo surgiu na Alemanha, provocada pela aloucada peça de Frederico Maximiliano Klinger, Sturm und Drang (“Tempestade e Revolta”), publicada em 1776, que colocou em xeque as normas estéticas do Neoclassicismo francês. Mas a revolta não era apenas contra as regras poéticas, mas também contra o imperialismo francês e o secular predomínio da cultura clássica, até então apanágio dos povos latinos. Após as grandes navegações e o descobrimento de novos continentes, o desenvolvimento do comércio provocou o início da Revolução Industrial para atender às exigências dos novos mercados. E nisso os povos anglo-saxônicos se sobressaíram. O imperialismo inglês começou a se afirmar em detrimento das anteriores superpotências da Espanha e da França. E, como sempre acontece, o poder econômico impõe a cultura dos vencedores.


Goethe: o mito do Dr. Fausto (a venda da alma ao demônio)
O maior expoente do Romantismo e de toda a literatura alemã é Johann Wolfgang Goethe (1749-1832), considerado o poeta nacional da Alemanha, como Dante da Itália e Shakespeare da Inglaterra. Sua obra é muito vasta, produzindo textos maravilhosos nos três gêneros literários: narrativa, lírica e drama. Neste estudo, vou fazer apenas referência à peça Fausto, onde se encontra o mito do homem que vendeu sua alma ao diabo. A tradição cultural européia registra, com o nome de Doutor Fausto, um homem que viveu na Alemanha entre 1480 e 1540. Ele acabou sendo qualificado por historiadores como um falso médico, praticante de alquimia e de magia, audacioso aventureiro, milagreiro e charlatão, luxurioso e homossexual, bom humanista. Goethe deu vida literária a esta lenda, tornando a figura de Fausto mundialmente famosa.

O drama apresenta três personagens principais: Fausto (um jovem estudante), Margarida (uma moça ingênua) e Mefistófeles (a personificação do Diabo). Lá, no céu, há uma aposta entre Deus e o Diabo a respeito do comportamento, lá na terra, de Fausto, jovem irrequieto e amante dos prazeres da vida, mas atormentado pelo desejo de tudo conhecer e pela aspiração ao infinito. O Senhor diz a Mefistófeles que logo Fausto, pelas suas qualidades intelectuais e espirituais, conseguirá a Luz Divina, que lhe resolverá todas as dúvidas. O Diabo contesta e desafia Deus, pedindo-lhe permissão para descer na terra e seduzir o jovem, oferecendo-lhe bens materiais em troca de sua alma imortal. Aceito o desafio, o diabo se encarna em Mefisto, um estudante andarilho e aparece a Fausto, fazendo-lhe a proposta da troca da sua alma por todos os prazeres desejados.

O jovem aceita o pacto e, cumprindo o prometido, Mefisto leva Fausto numa adega para tomar vinho e na tenda de uma feiticeira que lhe dá um elixir para reforçar seu poder sexual. Logo se apaixona pela belíssima Margarida, mocinha de quinze anos, que não lhe dá bolas. Mefisto explica a Fausto que o diabo não tem poderes sobre uma jovem virgem e honesta, mas que nenhuma mulher resiste a presentes caros. Um cofre cheio de jóias preciosas acaba amolecendo o coração de Margarida, que ministra um soporífero a sua mãe e passa a noite com o namorado. Mas logo o pecado é castigado, dando origem a uma serie de desgraças. Seu irmão Valentim, jovem soldado, para vingar a honra da família, desafia Fausto num duelo, mas acaba sendo morto, pois o sedutor conseguira a ajuda do diabo. O sentimento de culpa pela morte do irmão e pela gravidez inesperada deixa Margarida num estado de prostração e de loucura. Margarida, na prisão, sente horror à presença do Diabo, que sempre acompanha o amado Fausto e prefere entregar-se à Justiça de Deus, suplicando pela salvação da sua alma. Vozes vindas do Alto anunciam que ela está salva. Fausto e Mefisto desaparecem sobre corcéis na fria madrugada. Cai o pano.

Expondo um dos sentidos possíveis da peça de Goethe, o protagonista Fausto representaria o ideal romântico do homem que, insatisfeito com a sua condição de mortal, recorre a qualquer meio para realizar seu sonho de atingir a felicidade. Só que o processo se desenvolve pelo modo irônico: chegar a Deus pela ajuda do Demônio; ser feliz renunciando à própria alma; conquistar um amor angelical mediante trapaças diabólicas. A renúncia à alma imortal em troca de bens materiais só poderia resultar numa degradação. Daí a conseqüência trágica da loucura de Margarida, vítima de sua paixão inocente. Talvez a beleza desta peça de Goethe esteja mesmo na representação do mundo de uma forma dialética: de um lado, a tese do amor puro, angelical, personificado em Margarida; de outro lado, a antítese do mundo sinistro, diabólico, de Mefistófeles, símbolo da sedução e do encanto dos desejos carnais; atraído pelas duas visões de vida contrárias, está no meio, como síntese, o personagem Fausto, amante de Margarida e amigo de Mefistófeles, símbolo da alma romântica constantemente balançando entre o ideal do sonho e o grotesco da vida real.

A insatisfação do homem com a sua condição de ser contingente, nascido para a morte e para a dor, tendo aspirações infinitas e realizações efêmeras, já criara mitos belíssimos na cultura hebraica e pagã. Vejam-se, por exemplo, os mitos bíblicos de Adão, que comeu o fruto proibido, e de Caim, que pecou contra Deus matando seu irmão; ou os mitos gregos de Prometeu que roubou o fogo divino e de Ícaro que queria alcançar o Céu voando com asas de cera. Trata-se de idealizações da revolta do homem contra as leis do universo, na tentativa de se igualar à divindade, como fizeram os mitológicos Titãs, que lutaram contra o todo-poderoso Júpiter.

Na cultura moderna, o personagem histórico-mítico de Fausto surge na época do Barroco, quando a alma européia acusa o conflito entre o gozo dos prazeres da vida, herança do Renascimento, e a ameaça de penas infernais sancionadas pelo Tribunal da Inquisição da Contra-Reforma católica. As sucessivas gerações românticas, especialmente nos países anglo-saxões, idealizam a figura de Fausto, fazendo dele o arquétipo do jovem colérico, revoltado contra a hipocrisia da vida burguesa, procurando refúgio na bebida, na arte, no amor, na morte. O lado positivo do “homem faustiano” é a figura ideal da humanidade moderna, que sonha com a liberdade e o progresso, libertando-se de qualquer tipo de preconceito. Do protótipo do homem faustiano ao modelo do homem nietzschiano o passo é breve. Outro alemão, o filósofo F. Nietzsche (1844-1900), negando qualquer forma de transcendência divina, irá exaltar o poder da vontade humana contra o determinismo religioso ou biopsíquico.

Mas o mito de Fausto, além de qualquer especulação de ordem filosófica ou religiosa, sobrevive na nossa realidade cotidiana, revelando uma postura ética recorrente. A lenda do homem que vende sua alma ao diabo é uma denúncia de todas as formas de desonestidade. Pelo “dando que se recebe”, praticado nos nossos dias, se realiza uma troca entre dois valores: o imediato e o individual que esmaga o futuro e o social. Vende sua alma ao diabo o político que se enriquece com o dinheiro público, que deveria ser destinado a escolas e postos de saúde; o banqueiro que, com sua pratica de agiotagem, se alimenta das lágrimas do endividado; o homem que não assume a paternidade; a mulher que não dá assistência a seus filhos; qualquer pessoa, enfim, que, cedendo a determinismos psicológicos, é levada a viver egoisticamente, praticando maldades contra seus semelhantes.



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