Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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XI - Modernidade: proposta de um Humanismo laico
Vanguarda
A palavra “moderno” é uma evolução fonética do latim hodiernus, adjetivo formado de hodie (hoje), qualificando o que é atual, com relação à pessoa que fala. Evidentemente, o que era moderno no ano passado, já não o é agora. Na história da nossa cultura, podemos encontrar vários momentos rotulados como modernismo: 1) chamamos de línguas modernas (português, italiano, francês etc.), os idiomas que surgiram a partir do séc. XI d.C, em oposição às línguas antigas (grego e latim); 2) no Brasil, deu-se o nome de Modernismo à adaptação das correntes da Vanguarda Européia, revolução cultural consagrada pela famosa “Semana de Arte Moderna”, evento de 11 a 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo; 3) usa-se o termo moderno para indicar o tempo atual, como sinônimo de contemporaneidade. A meu ver, as denominações “pré” ou “pós” moderno são semanticamente incorretas, pois a primeira se refere ao passado e a segunda ao futuro. O termo modernidade deveria ser entendido apenas como sinônimo de atualidade.

A partir do início do séc. XX, antes e durante as duas Guerras Mundiais, surgiram na Europa vários movimentos de renovação literária e artística. Embora diferentes nos vários países, quanto aos modos de manifestação, eles comungavam o mesmo espírito de “antipassadismo”. Apregoavam a ruptura contra toda a cultura do passado, especialmente as tradições acadêmicas de poetas e artistas românticos ou parnasianos. O nome genérico de vanguarda é de origem francesa: avant-gard, antônimo de retaguarda, significa avançar, lutar na frente. Vou falar, de leve, sobre alguns movimentos da vanguarda européia que influenciaram nosso modo de sentir e de pensar.


Futurismo
Em 1909 saiu publicado no jornal Le Figaro de Paris o “Manifesto Futurista”, de autoria do poeta italiano Marinetti, que deu origem aos vários movimentos literários e artísticos da Vanguarda Européia. A proposta era fazer tábua rasa do passado, construindo uma arte diferente, capaz de expressar a nova realidade da era da máquina. O novo espírito devia se manifestar não apenas na literatura, mas em todas as artes: pintura, escultura, arquitetura, teatro, música. Portanto, seguindo o exemplo de Marinetti, vários autores futuristas foram divulgando manifestos respectivos a cada arte, sugerindo novas normas de composição e princípios ideológicos diferentes.

O movimento futurista teve alguns aspectos positivos como, por exemplo, a criação da atmosfera de libertação que alimentaria a arte moderna e contemporânea. A recusa de seguir as normas estéticas de românticos, parnasianos ou realistas, impostas pelas anquilosadas academias de Ciências, Letras e Artes, foi, sem dúvida, um avanço civilizacional. Mas o desejo de destruir por completo a milenar tradição cultural era um absurdo, pois nada se constrói a partir do nada. O Futurismo tinha a pretensão de acabar não apenas com o Humanismo (a cultura baseada na tradição filosófica e literária), mas também com o humanitarismo (o sentimento da piedade). Este pensamento de Marinetti explica bem sua postura mecanicista:


O sofrimento de um homem não é para nós mais interessante

de que o sofrimento de uma lâmpada atingida pelo curto-circuito”.
Expressionismo
A explosão da estética expressionista começou na Alemanha, contemporaneamente ao Futurismo na Itália. Em Berlim, em 1912, a livraria e galeria de arte Derem Sturm reuniu os trabalhos de alguns pintores chamados “expressionistas”, porque para eles a arte era expressão do “eu” subjetivo, operando de dentro para fora, do centro para a periferia, contrariamente ao “Impressionismo” da época realista, cuja estética estava baseada no movimento de fora para dentro. Das artes plásticas, especialmente da pintura, a estética expressionista passou também a ser utilizada pela literatura, cinema, dança, música, teatro. Em literatura, encontra no lirismo sua manifestação mais apropriada. As combinações rítmicas, os cortes surpreendentes, o jogo de imagens ousadas, permitiram a sublimação do patético e a exaltação das paixões. O processo técnico usado era a extrema liberdade léxica, sintática e semântica. Os temas mais explorados pelos poetas expressionistas são o sexo, visto por uma nova ótica moral; a crítica à sociedade, atacando autoritarismo e hipocrisia; a simpatia para com o mundo dos miseráveis e dos injustiçados. O movimento expressionista tem em comum com o Futurismo a disposição de demolir a cultura passada e criar um novo homem; mas dele se difere pelo pacifismo, pelo sentimento de fraternidade universal e pelo desprezo da civilização materialista, industrial, mecanizada. Por não aderir ao Nazismo foi por ele destruído, a partir de 1933, quando Hitler subiu ao poder. No Brasil, o Expressionismo marcou uma forte influência no teatro de Oswald de Andrade e de Nélson Rodrigues e na pintura: Portinari (especialmente as cinco telas da série Emigrantes), Osvaldo Goeldi, Emiliano Di Cavalcanti, Lasar Segall.

Dadaísmo
Um decênio depois, durante a Primeira Guerra Mundial (1915-1918), surgiu na Suíça outro movimento de Vanguarda, ainda mais radical do que o Futurismo, chamado Dadaísmo, de “dá-dá”, as primeiras sílabas pronunciadas por uma criança, que não significam nada. É a ausência de sentido da vida que poetas e artistas querem expressar face aos horrores da guerra. É a rebelião da juventude contra os velhos detentores do poder, que usam os progressos da ciência para matar e destruir. Este sentimento de descrença nos valores humanos, junto com a vontade de anarquia, é expresso em forma de arte pela estética do acaso: a pintura automática, a poesia por colagem de recorte de jornais, a escultura pela mistura de materiais diversos.

Os dadaístas ridicularizavam os valores tradicionais e convidavam os visitantes de exposições a destruírem seus próprios quadros e outros objetos de arte, pois achavam que nada podia ter um valor eterno. Para demonstrar seu repúdio da concepção de vida burguesa, eles davam risadas durante os funerais e choravam nas cerimônias de casamento. O Dadaísmo representa a forma artística do niilismo filosófico, já presente no pessimismo de Schopenhauer.


Surrealismo e Cubismo
André Breton (1896-1966), filósofo, poeta, médico, soldado francês, saiu do movimento dadaísta quando percebeu que a postura niilista não levava a nada. Apaixonado pela psicanálise de Freud, achou que a crise existencial pudesse ser superada pelo encontro do meio termo entre o lado político ou real do ser humano e sua parte inconsciente, onírica. Chamou de “surrealismo” ao novo movimento por ele idealizado, que tinha como propósito anular as barreiras entre o sonho e a realidade. Para tanto, lançou mão do método do automatismo psíquico pelo qual o pensamento se liberta do controle exercido pela razão e por qualquer outro condicionamento de ordem religiosa, estética, ética ou social. Daí a exaltação do maravilhoso que se encontra no mundo do sonho e da fantasia ou nos estados psíquicos paranormais. A finalidade era fazer sair o surreal (a parte mais recôndita da alma) fora do seu esconderijo.

É bom salientar que a proposta surrealista da superação dos limites da razão e da consciência humana é uma característica geral da cultura moderna e contemporânea, podendo ser encontrada na ciência, na filosofia e na arte. Está na geometria não euclidiana, na física quântica, na teoria da relatividade de Einstein, no intuicionismo de Bergson, na descoberta freudiana das forças do inconsciente. Está também no teatro de Antonin Artaud, no cinema de Buñuel e de Rossellini, na poesia de Paul Éluard e Apollinaire, na crítica de Gaston Bachelard, na pintura de De Chirico, de Salvador Dali. Está especialmente nas telas de Pablo Picasso, o maior artista do século passado, o pai de outro movimento da vanguarda, o Cubismo.

Esta nova técnica pictórica reproduz plasticamente a idéia de que a realidade não deve ser vista a partir de um único ângulo. A estética cubista faz ver “simultaneamente” aquilo que a visão normal só apresenta sucessivamente. Enquanto a pintura tradicional está centrada no impressionismo, procurando apreender a realidade “tal qual a vemos”, na sua aparência, através da nossa percepção limitada dos objetos, o Cubismo tenta apresentar a realidade “tal como ela é” na sua essência, em suas múltiplas facetas. Passo, agora, a falar um pouco a respeito de mais algumas personalidades que deixaram marcas profundas na cultura do século passado: Einstein, Kafka, Fernando Pessoa.
Albert Einstein: a teoria da relatividade
“A ciência é a tentativa de fazer com que a diversidade caótica da nossa experiência sensível corresponda a um sistema lógico uniforme de pensamento”
A afirmação acima é de Albert Einstein (1879-1955), que levou até o campo das ciências a dúvida dos filósofos e a perplexidade dos artistas que inquietavam o espírito humano na primeira metade do século passado, negando qualquer forma de determinismo ou crença em verdades absolutas. Alemão, filho de judeus, educado num colégio católico, teve dificuldades na aprendizagem escolar e só de adulto revelou sua genialidade no domínio da matemática. Exerceu a humilde função de verificador de patentes no serviço público de Berna, até começar a publicar artigos revolucionários, que lhe fizerem merecer o Prêmio Nobel de Física, em 1921. Levou uma vida de viajante, estudando e ministrando palestras em várias cidades européias, até aceitar uma cátedra na Universidade de Princeton, naturalizando-se norte-americano, em 1940.

A expressão “tudo é relativo” tornou famoso Einstein, da mesma forma que outras frases imortalizaram outros autores: “Eppur si muove” (a terra gira), de Galileu; “o homem descende do macaco”, de Darwin; “Freud explica”, com referência ao complexo edipiano; “a religião é o ópio do povo”, de Marx. São as marcas da genialidade, as verdades essenciais, que os grandes homens deixaram para a posteridade.

Não tenho competência para explicar cientificamente a teoria da relatividade, nem a conhecida fórmula E= mc², sendo E a energia, m a massa e c a velocidade da luz, e muito menos os princípios da física quântica que Einstein aprendeu de seu patriota Marx Planck. Limito-me a relevar que Einstein realizou uma revolução na concepção da categoria do Tempo, semelhante a que os cientistas renascentistas Copérnico e Galileu fizeram com relação ao Espaço. O Tempo não é visto mais como um valor absoluto, independente do Espaço, pois o cientista alemão demonstra que as duas categorias andam juntas.

O grande achado de Einstein foi ter colocado o observador dentro da ciência natural para funcionar como perspectiva ou ponto de vista. O tempo, assim, é calculado a partir da posição de quem vê. Isso já vinha sendo feito na ficção literária. As narrativas de “fluxo de consciência” de Proust, Joyce, Virginia Woolf, Clarice Lispector, influenciadas pelo Intuicionismo do filósofo francês Henri Bergson e seu conceito de tempo como durée (duração), exploram o tempo interior ou psicológico. Este não segue a cronologia dos acontecimentos, mas as livres associações de idéias e sentimentos do narrador, misturando o presente com a recordação do passado e a imaginação do futuro.

Para Einstein, também no mundo da física o tempo deixa de ser uma grandeza independente e objetiva para se tornar subjetiva, relativa ao observador. A imagem de uma estrela que dista anos-luz da terra não é a mesma daquela que chega ao telescópio do cientista, pois o modo de sua recepção é alterado pelo percurso realizado. Quer dizer, o observador vê a estrela como era “há pouco” e não como é “agora”.

Vou dar um exemplo de fácil entendimento. Partindo do aeroporto de Auckland (Nova Zelândia), ao chegar a Buenos Aires (Argentina), via rota polar, olhando no meu relógio, pude perceber que chegara duas horas antes de ter saído de lá. E isso porque o vôo durou 12 horas, enquanto a diferença do fuso horário da Oceania é de 14 horas. Da mesma forma, uma pessoa que viaja muito de trem ou de avião tem a sensação de viver mais do que aquele que não sai de casa, pois a multiplicidade dos espaços visitados parece alterar a noção do tempo.

O princípio da relatividade está presente também no plano moral. Conforme sua etimologia, o morem (moral) latino, correspondente ao ethos (ética) grego, se refere a usos e costumes de povos ou grupos sociais, que variam no tempo e no espaço. O que é permitido agora e aqui pode ser proibido lá ou num outro tempo. Por exemplo, conforme a tradição de tribos de esquimós, que vivem a grande distância uma da outra, o dono da casa oferece ao visitante, além do teto e da comida, também a cama da esposa. E se ofende se o hospede não achar sua mulher atraente. Simplesmente, o esquimó oferece o que gostaria de receber, se estivesse na mesma situação do visitante. A hospitalidade é uma necessidade de sobrevivência, em lugares onde não há restaurantes, nem hotéis.

Mas a assertiva “tudo é relativo, inclusive a verdade” que se ouve por aí, pronunciada por aficionados entusiastas de Einstein, é verdadeira apenas em termos. Como toda a regra, ela tem exceções. Há realidades de ordem matemática, física, biológica, histórica ou até ética que não são relativas, mas absolutas, pois verificáveis e logicamente incontestáveis. Tomemos, por exemplo, o mandamento bíblico “não furtarás”. Como já tentei explicar anteriormente, ao falar de Moisés e de Kant, esta é uma exigência moral absoluta, válida em qualquer tempo e em qualquer lugar onde se vive em sociedade.

O respeito ao que é do outro é um “imperativo categórico”, na linguagem do filósofo Emanuel Kant, que constitui a base da vida em comunidade. Se não aceitarmos este princípio como verdadeiro e absoluto, teríamos de ir viver na selva e não numa aldeia e muito menos numa cidade civilizada. O homem voltaria a seu estado primitivo de animal selvagem, sendo regido pela lei do mais forte. De outro lado, um relativismo total, com valor absoluto, se negaria a si próprio, visto que a afirmação “tudo é relativo” é uma contradição em seus termos: se tudo é relativo, também a lei da relatividade deve ser considerada como relativa. Simples questão de lógica!

Einstein, além de ser um cientista genial, foi também um pensador brilhante, que participou dos problemas de sua época, assumindo posições sobre assuntos palpitantes, tais como o Estado de Israel, o repúdio ao nazismo, o regime soviético, a luta contra a proliferação de armas nucleares, a existência de Deus. A este respeito, recentemente veio a público uma carta inédita dirigida ao filósofo e amigo Eric Gutkind, datada de 1954, ano anterior a sua morte, em que Einstein considera qualquer prática religiosa como “infantil”, afirmando textualmente no seu manuscrito: “A palavra Deus é para mim nada mais do que expressão e produto da fraqueza humana”. Seu pensamento sobre religião aparece mais claramente numa entrevista concedida a jornalistas. Interrogado acerca de sua fé, ele responde:

Eu não acredito em um Deus pessoal, e nunca neguei isso; ao contrário, o disse claramente. Assim, se há algo em mim que possa ser chamado de religioso é a ilimitada admiração pela estrutura do mundo na medida em que nossa ciência possa revelá-la... Eu não acredito na imortalidade do indivíduo, e considero que a ética é uma preocupação exclusivamente humana sem qualquer autoridade sobre- humana por trás dela(in Christopher Hitchens, Deus não é grande, pág.249).
Tais declarações dão a impressão de contradizer algumas afirmações feitas anteriormente, quando, em plena atividade acadêmica, Einstein era obrigado a usar um discurso “politicamente correto”. Naquela época a confissão de ateísmo era algo de execrável. Ainda hoje, não causa estranhamento alguém se professar judeu, budista, evangélico, muçulmano, católico, espírita ou homossexual. Mas coitado do homem que afirmar publicamente ser ateu: é olhado como se fosse um leproso. Nossa sociedade admite apenas a liberdade da crença, não da descrença!

Franz Kafka: o absurdo existencial
A complexa personalidade de Franz Kafka (1883-1924) é fruto do cruzamento de quatro culturas: judaica, cristã, alemã e checa, pois ele nasceu de família judia, na cidade de Praga, de tradição católica e dominada pelo império germânico. Sua portentosa ficção literária acusa a influência dessas etnias, bem como de sua educação familiar e de suas atividades profissionais. Isto pode ser verificado através de uma breve análise das três narrativas mais importantes de Kafka, consideradas suas obras-prima: O Processo, O Castelo e A Metamorfose.

O protagonista do romance O Processo, Joseph K., uma manhã é acordado no seu quarto de pensão por dois indivíduos que lhe comunicam sua prisão, sem dar-lhe explicação alguma. Apenas dizem que ele pode responder ao inquérito em liberdade, continuando sua vida normal de alto funcionário de um banco. Ele tem somente a obrigação de submeter-se aos interrogatórios no tribunal de justiça, quando intimado. Avisado pelo telefone, Joseph se apresenta ao juiz de instrução, que o confunde com um pintor de paredes. Enquanto K. pronuncia um longo discurso tentando demonstrar o absurdo de sua detenção, o juiz fica olhando revistas pornográficas e um estudante de direito faz sexo com a lavadeira que, com o consentimento do marido, se entrega ao pessoal do tribunal para não perder o emprego.

Não conseguindo saber do que ele é acusado, K. contrata um advogado que lhe faz longos discursos sobre a máquina burocrática do tribunal, mas, quanto ao seu processo, pede tempo para apresentar a petição inicial, pois está aguardando o momento oportuno. Além disso, ele vive acamado. O único consolo de K. é transar com a jovem e bela empregada do advogado, que costuma satisfazer sexualmente os clientes do patrão, condoída pelo pressentimento de serem condenados. Ele vai ter alguma notícia sobre o processo apenas pelo capelão da prisão, durante uma visita à Catedral, que o informa sobre o processo, dizendo-lhe que o tribunal inferior considerara sua culpa provada. Às reclamações de K. contra a justiça, o abade responde narrando-lhe o apólogo do homem que passa longos anos de sua vida perante a porta da lei, impedido por uma sentinela de entrar, morrendo sem ter acesso a ela. Depois de um ano de idas e vindas do tribunal sem conseguir descobrir qual é o delito cometido, dois oficiais de justiça chegam, de noite, à pensão e levam Joseph até uma pedreira. Lá, tiram suas roupas, dobram sua cabeça numa pedra, sacam um facão de açougueiro e cortam seu pescoço, como se fosse um frango. No alto de um prédio, uma mulher olha o assassinato e fecha a janela.

Este é um pequeno resumo do enredo do romance de Kafka, objeto de inúmeros estudos de críticos de todos os países civilizados. O Processo, como as outras obras do ficcionista checo, só pode ser analisado ao nível simbólico, pelo princípio da analogia. As personagens ficcionais representam idéias, sentimentos ou comportamentos da vida real. Eis algumas leituras possíveis:

a) Interpretação psicanalítica. O estudo da biografia de Kafka nos informa que seu pai era uma pessoa austera e intransigente. A imagem do seu progenitor incomunicável e insensível à necessidade de afeto teria criado no pequeno Joseph um complexo de inferioridade, personificado no juiz inatingível que aparece no romance, símbolo do autoritarismo paterno.

b) Interpretação religiosa. Pela educação judaica recebida, Kafka é levado a acreditar no relato bíblico do pecado original, pelo qual os homens são acusados de uma culpa que não cometeram. A salvação estaria na graça divina, mas Deus, simbolizado pelo Juiz da Suprema Corte de Justiça, é um ser misterioso e inatingível. E seus intermediários, representados por padres, juízes, advogados e funcionários do tribunal, são seres ineptos e corruptos. A revolta de K. no tribunal simbolizaria a revolta do homem contra Deus, que o acusa de um pecado que não cometeu e lhe nega a possibilidade de defesa pela sua incomunicabilidade.

c) Interpretação racista. Alguns estudiosos vêm neste romance, como em outras obras kafkianas, a antecipação do holocausto dos judeus que irá acontecer uma década após a morte do escritor. É a reativação do mito bíblico do “hebreu errante” que, sem pátria, se sente estrangeiro na terra onde vive. O regime nazista, como a corte da Justiça no romance, acusará os judeus de uma culpa inexistente e sem direito de defesa. Basta ser circuncidado para ser considerado um criminoso!

d) Interpretação sociológica. O Processo pode ser visto como a representação artística da impotência do indivíduo face às instituições políticas e religiosas irracionais e corruptas, contra as quais é inútil lutar. A organização social destrói a individualidade: todos sabem que ele é acusado, embora ninguém saiba do quê; todos estão dispostos a ajudá-lo, embora ninguém possa fazer nada por ele. Quem acusa, quem julga e quem condena K. não é um ser determinado, mas o sistema como um todo.

e) Interpretação existencial. A culpa do protagonista do romance poderia ser vista no isolamento humano. O personagem de ficção Joseph K., como a pessoa do mundo da realidade Franz Kafka, não consegue se integrar no consórcio social onde reina a hipocrisia. Ele fica à margem dos valores ideológicos: não tem um lar, vivendo sozinho numa pensão, não tem esposa, mas apenas amantes, não curte amizades nem tem envolvimento afetivo com colegas ou clientes do banco onde trabalha. E paga por isso, como toda pessoa que não consegue se integrar no convívio social. Configura-se, assim, o absurdo existencial: os homens se reúnem em sociedades, criam instituições civis, militares e religiosas para sua proteção material e espiritual, e são essas mesmas instituições que esmagam os homens que as criaram.


No romance O Castelo, encontramos alguns pontos temáticos já explorados em O Processo. O protagonista é nomeado apena com a letra K. Ele é descrito como um agrimensor que, numa noite, chega num vilarejo governado por um senhor que vive num castelo sobre a colina. Para poder trabalhar, ele necessita chegar até o dono das terras que mora lá no alto, mas é impedido pela hostilidade dos moradores do burgo e dos burocratas do castelo. Para conseguir seu intento, ele seduz a jovem Frieda, amante do poderoso funcionário Klamm. Assim ele penetra nos meandros da burocracia castelana. Mas, abandonado pela moça, sozinho e sem forças para chegar ao dono do castelo, acaba perdendo até a noção da própria identidade.

Nesta obra de Kafka predomina o tema da xenofobia, simbolizando o judeu errante, sem pátria, que luta em vão para ser bem aceito pelo povo que o hospeda. Mas, de um modo geral, pode representar o esforço de qualquer indivíduo que queira se integrar numa comunidade, o homem que luta para obter um lar e um trabalho, sendo hostilizado pela incomunicabilidade humana, pelo egoísmo grupal que fecha as portas para quem vem de fora. Essa lógica parece absurda, olhando de fora, mas por dentro é de uma coerência que nos assusta. Ainda hoje assistimos ao triste espetáculo de emigrantes de regiões pobres que são enxotados ao chegarem em cidades prósperas, cujos habitantes não estão dispostos a dividir nada com gente que tem outra cultura.


A Metamorfose é a obra mais conhecida de Kafka. O titulo, etimologicamente, significa “além da forma”, transformação. O tema da mudança de forma é bem antigo. Famosa é a obra As Metamorfoses, do escritor latino Apuleio (séc. II d.C.), conhecida vulgarmente pelo nome O Asno de Ouro, que narra a história do jovem Lúcio transformado em burro pelas artes mágicas de uma feiticeira. No conto do escritor checo, o protagonista Gregor Samsa, ao acordar certa manhã, percebe que seu corpo está transformado num inseto medonho, parecido com uma enorme barata, não sabendo entender o que aconteceu. Trata-se de um fato completamente extraordinário, pois não há uma explicação de ordem científica, religiosa ou mágica. A mudança de forma é um fantástico absoluto, fruto de um puro acaso.

Gregor, apesar de seu aspecto animalesco, não perdeu as características humanas do sentir e do pensar e, por isso, pode refletir sobre sua nova situação. Ele tenta sair da cama para não perder o horário do trem que o levaria à firma onde trabalha como caixeiro-viajante. Mas não consegue e fica preocupado, pois ele é o único sustento dos pais e da irmã, uma mocinha que estuda piano. O atraso provoca a chegada do inspetor da firma na sua casa e a revelação da sua nova forma de inseto monstruoso. Seu aspecto provoca nojo e repulsa no empregador e nos familiares. Apenas a irmã fica com dó e lhe leva comida no quarto. Não podendo mais contar com ele, seus familiares são obrigados a providenciar o próprio sustento: o pai arruma um emprego de guarda num banco, a irmã vai trabalhar como garçonete e a mãe intensifica seus bordados. Gregor, sentindo-se rejeitado e inútil, decide não mais se alimentar, entregando-se à morte.



A Metamorfose, como outras ficções de grande valor artístico e humano, é uma obra aberta, possibilitando interpretações variadas ao longo do tempo. O protagonista Gregor Samsa pode simbolizar o indivíduo esmagado pela sociedade, sofrendo uma tríplice degradação: física, pela deformação do seu corpo; funcional, pela perda do emprego; afetiva, pelo abandono da família. Quando ganha dinheiro, é estimado; quando se torna inútil, é varrido como lixo. Mas é preciso observar que seu processo de degradação provoca, por ironia do destino, um processo de melhoramento da família que ele tanto amara. Pai, mãe e irmã encontram no trabalho sua realização existencial, passando a viver melhor do que quando eram sustentados por Gregor. Dá-se uma inversão de perspectiva, pela qual quem tenta ajudar acaba, sem querer, prejudicando as pessoas que ama. É uma das sutilezas do mundo “kafkiano”, o adjetivo que passou a indicar o que é ilógico, estranho, apavorante, burocraticamente tortuoso.
Fernando Pessoa: a personalidade despedaçada (os “heterônimos”)

A produção literária em versos do maior poeta de língua portuguesa traz quatro principais assinaturas, as de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, além de outras de autores menores. Quer dizer, são quatro grandes poetas num só ou um poeta que se divide em quatro personalidades distintas. É o fenômeno da “heteronímia”, que tanto caracteriza a poesia de Fernando Pessoa. Heterônimo significa, etimologicamente, “outro nome”, diferente de pseudônimo que é um falso nome. Os heterônimos foram concebidos como seres diferentes de seu autor, pois Fernando Pessoa não apenas assinou poemas com nomes fictícios, mas criou, junto com cada nome, uma personalidade humana e poética com biografia e visão do mundo específica. Essencialmente, a heteronímia é um desdobramento de personalidade: da aparente unidade intelectual e psíquica de Fernando Pessoa emanam e se substancializam diferentes modos de sentir o mundo e a poesia. Ele procura entender e botar para fora as diversas tendências humanas, filosóficas e artísticas que estavam confusas no seu espírito:


Multipliquei-me para me sentir,

Para me sentir, precisei sentir tudo,

Transbordei, não fiz senão extravasar-me,

Despi-me, entreguei-me,

E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente...

Quebro a alma em pedaços

E em pessoas diversas”.
Estas “pessoas diversas” são os heterônimos, dos quais apresento um rápido esboço:
Fernando Pessoaortônimo” (com o nome verdadeiro): o poeta do saudosismo português.

Fernando Pessoa (1888-1935), “ele próprio”, nasceu em Lisboa, mas com apenas sete anos de idade foi morar na África do Sul, pois sua mãe contraiu segundas núpcias com o cônsul português em Durban. Lá, ele completa os estudos do ginásio e do colégio, familiarizando-se com os principais autores da literatura anglo-americana: Shakespeare, Milton, Byron, Keats, Edgar Allan Poe. Com 17 anos, em 1905, ele volta para Portugal e nunca mais sai do país natal, inteirando-se com a tradição poética portuguesa e participando da renovação modernista. Ele se sustenta fazendo traduções, especialmente do inglês para o português. Sua primeira produção literária, anterior à criação dos heterônimos, é uma coletânea de poemas líricos e saudosistas, publicada com o título Mensagem, onde Fernando Pessoa enaltece os fundadores da nacionalidade portuguesa, as viagens marítimas e o mito do Sebastianismo. Transcrevo e analiso brevemente um poema famoso que ilustra a estética e a temática desta primeira fase do escritor português:




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