Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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JÚPITER: o complexo do autoritarismo


O Estado sou Eu” (Luís XIV)

Zeus na Grécia e Júpiter em Roma, o maior personagem da mitologia greco-latina foi definido pelo poeta grego Homero como “o pai dos deuses e dos homens”. A história lendária de Júpiter é muito semelhante à de seu pai Saturno, o que salienta o caráter repetitivo dos mitos. Como Saturno desposou a irmã Cibele, assim Júpiter casou-se com a irmã Juno (Hera). Mas, além deste matrimônio "legítimo", foram atribuídas a Zeus várias relações extraconjugais com deusas, ninfas e mulheres mortais, sendo inumerável sua prole. Sua fama de conquistador incorrigível aparece artisticamente retratada na comédia Anfitrião, do escritor romano Plauto, encenada no Brasil pela companhia teatral de Tônia Carrero e Paulo Autran com o título “Um deus dormiu lá em casa”.

A peça narra o estratagema usado por Júpiter para seduzir a linda e virtuosa Alcmena, a princesa de Micenas, casada com o soldado Anfitrião. Usando do seu poder divino, fez com que o jovem esposo fosse para a guerra. A seguir, tomando a figura de Anfitrião, Júpiter apareceu a Alcmena e fez amor com ela. Numa manhã, o marido verdadeiro estranhou a frieza sexual de Alcmena. Esta, então, disse-lhe que estava exausta, pois passara com ele tórridas horas de sexo quando, na noite anterior, o marido, ao voltar da guerra, lhe trouxera o rico colar que estava em cima da cômoda. A comédia termina com a revelação do engano, inocentando Alcmena pelo adultério. Na cultura ocidental, o personagem Anfitrião passou a significar o hospedeiro, aquele que faz as honras de casa.

Além da concupiscência, o pai dos deuses tinha como atributos a onipotência e a previdência. A iconografia o representa como homem maduro, majestoso, barbudo, que tem como emblema o raio (símbolo do domínio sobre as forças atmosféricas e de sua força vingativa), o cetro (o poder) e a águia (a longevidência). Na cultura grega, o correspondente humano ao autoritarismo do deus Zeus é Agamenão, o prepotente rei de Micenas, que se dispôs a sacrificar a filha Ifigênia, comandou a liga grega na guerra contra Tróia, brigou com o herói Aquiles e, ao retornar para sua pátria, foi assassinado pela esposa Clitemnestra.

Na Psicologia, o mito de Júpiter passou a exprimir o arquétipo do chefe da família patriarcal, denominando-se "complexo de Júpiter" à tendência do subconsciente ao autoritarismo, que pode se encontrar na figura do governante, do juiz, do pai, do marido, do professor. A experiência da vida em sociedade nos ensina que o abuso do poder cria neuroses que atacam principalmente os homens públicos. Todo autoritarismo, de esquerda ou de direita, acaba estabelecendo relações desumanas, estimulando a corrupção e a violência. O despotismo se encontra não apenas nos governos absolutistas (monarquias hereditárias, ditaduras militares, oligarquias religiosas), mas também em regimes democráticos.

No Brasil, podemos apontar casos recentes de manifestação pública do mito de Júpiter: um coronel do exército que interrompe a decolagem de um avião civil e ordena que dois passageiros cedam seus lugares para ele e a esposa; um juiz do Supremo Tribunal Federal que manda calar a boca a um depoente numa seção de Comissão Parlamentar de Inquérito; um Ministro de Estado que solicita a quebra do sigilo bancário de um caseiro; Presidentes da República, Governadores e Prefeitos que usam a máquina do Estado para se reeleger.

Outras formas de atualização do mito de Júpiter podem ser encontradas no bullyng americano e na ação dos pitboys cariocas: um tipo de comportamento cruel e ameaçador, muito usado entre traficantes de drogas, marginais, presidiários. Infelizmente, a postura jupteriana é muito mais generalizada do que se possa pensar. Encontra-se na violência familiar e na prepotência dos poderosos, como também nos garotos musculosos que, especialmente depois de beber ou tomar drogas, praticam assédio sexual ou outras formas de intimidação. Enfim, sofre do complexo de Júpiter todo ser humano que lança mão da lei da selva, da razão do mais forte, não sendo educado a respeitar o direito e a vontade do semelhante.

A Suprema Corte do Afeganistão, país que se acha vítima da violência do sistema capitalista, recentemente, ratificou a condenação à morte do cidadão Abdul Rahman por ter rejeitado a fé islâmica. Que todos os fanáticos do mundo reflitam sobre o que disse Napoleão: “a maior parte daqueles que não querem ser oprimidos quer ser opressora”. Que dizer, então, do regime Talibã que ainda considera as mulheres propriedade do macho, podendo ser apedrejadas em praça pública, caso namorem fora do casamento? Infelizmente, apesar do reconhecimento dos direitos da mulher, o machismo ainda predomina em sociedades presas a tradições milenares. Casos recentes de seqüestros e assassinatos de moças por maridos ou namorados enciumados demonstram como a prepotência masculina ainda está enraizada em nossos costumes.

É preciso não confundir “autoridade” com “poder”. O étimo de auctoritas vem do verbo latino “augere”, que significa aumentar, crescer, desenvolver, adquirir beleza e fama. O príncipe Caio Otávio, sobrinho de Júlio César, foi denominado “Augusto” pela grandiosidade de sua personalidade, que deu paz e prosperidade ao povo romano. Já seus sucessores, os imperadores Nero, Calígula etc., tiverem o poder, transmitido por herança genética, mas não autoridade, pois foram tiranos cruéis, nocivos à nação. Numa democracia, o poder vem do povo mediante eleições para a escolha de representantes. Mas nem o voto nem a nomeação dão autoridade, que se consegue somente através do mérito, do empenho pessoal. Podemos atribuir a um governante, político ou religioso, poder, mas nem sempre autoridade.
Apolo e Dioniso: a ordem e o instinto, a luz e as trevas.
Entre as criações míticas da Grécia antiga, as que mais contribuíram para a formação da civilização ocidental são as configurações de Apolo e Dioniso, que estão ao centro de duas concepções de vida. Apresento alguns traços da “biografia” ficcional dos dois deuses, que apontam sentidos possíveis de vida, a partir de seus símbolos. Apolo, também chamado de Febo (deus da luz), Hélios (nuance das cores) e Sol (solus = o único), nasceu de uma relação adúltera de Júpiter com a jovem Latona, que por isso foi perseguida pela ciumenta Juno. O deus-astro tinha a missão de trazer para a terra a luz, o calor e a vida. Diariamente, um coche dourado transportava o Sol para o alto do céu e, à noite, guardava-o atrás das montanhas. O Cosmo devia a ele não só a alternância dia / noite, mas também a mudança das estações: o inverno era causado pela ausência de Apolo, que ia passar férias no extremo norte do planeta.

Apolo era uma divindade essencialmente luminosa: pela luz cósmica, protegia a vida vegetal, animal e humana (patrono dos agricultores, dos pastores e dos navegantes); pela luz intelectual, era o protetor dos médicos e dos artistas; pela luz divina, era o deus dos oráculos, desvendando os mistérios da natureza. Apolo, com a musa Calíope, gerou Orfeu, poeta e músico, venerado pelos gregos porque seu canto abrandava a dor e fascinava homens e animais. A dor de Orfeu pela morte da amada Eurídice constitui uma das páginas mais líricas da mitologia clássica.

Nas artes plásticas, Apolo é esculpido ou pintado como um belo jovem completamente nu ou coberto por arco e lira, com uma coroa de flores na testa. Tal iconografia de Apolo atesta o conceito de beleza clássica entendida como harmonia de formas: abstraindo de vários efebos (jovens bonitos) as partes corporais mais bem acabadas, os artistas gregos procuravam chegar à criação de um modelo de beleza masculina, universal e absoluta, em que o todo fosse resultante de partes harmonicamente estruturadas. Apolo é apresentado, portanto, como o deus de todas as faculdades criadoras de formas. A arte que nele se inspira — a apolínea -- tem como fundamento o sonho, a imaginação, a ilusão, um radical otimismo, a confiança nas forças do homem, considerado capaz de alcançar a vitória sobre o mal e a mentira.

Contrastando com o deus Apolo, Dioniso, o romano Baco, teve uma vida bastante acidentada. Conforme o mito, ele foi duplamente filho de Júpiter, daí o apelido de ditirambo (“aquele que nasceu duas vezes”), que era também o nome do hino religioso a ele consagrado. O pai dos deuses, em outra aventura amorosa, seduziu a princesa tebana Sêmele. Sua esposa Hera, então, roída pelo ciúme, provocou a morte da bela jovem grávida de seis meses, instigando-a a solicitar que seu amante noturno lhe mostrasse sua verdadeira identidade. Ao ver o senhor dos deuses em toda sua majestade, Sêmele caiu fulminada, não suportando a intensidade luminosa dos raios celestes. Júpiter, então, realizou a primeira cesariana: abriu o ventre da princesa morta, recolheu o feto e, porque naquela época não havia estufas, com a mesma faca, fez um corte na sua coxa esquerda, onde colocou o prematuro, dando continuidade à gestação.

Fruto híbrido de um amor divino-humano, Dioniso não foi aceito no Olimpo e precisou conquistar o direito à imortalidade por suas próprias forças. Errou pelo mundo até então conhecido e conseguiu o caminho da glória pela descoberta da uva, ensinando os homens a produzirem o vinho. Tocando flautas ou tamborins, acompanhado pelo cortejo de sátiros, bacantes, centauros e pelos deuses Sileno e Pã, Baco propiciava aos homens e aos deuses alegria e felicidade. Enquanto durava o estado de embriaguez, seus devotos sentiam a presença do deus do vinho dentro de si e se deixavam levar pelos ritos orgíacos, entrando em transe histérico.

Dioniso sempre foi considerado pelos gregos como um deus subversivo, pois personificava a desobediência à ordem e à medida, a vida do instinto, a liberdade e o prazer sem limites, a inversão dos valores sociais. O espírito dionisíaco encontrou sua primeira manifestação artística no coro ditirâmbico que, segundo a maioria dos estudiosos da literatura grega, foi o embrião da tragédia antiga, quando o mito de Dioniso, no lugar de ser apenas cantado (poesia lírica) e contado (narrativa), passou a ser também encenado (teatro). As pessoas que compunham o coro dionisíaco se sentiam transformadas pela embriaguez e punham de lado a máscara social, manifestando sua verdadeira personalidade. No estado dionisíaco, nos momentos de excitação orgíaco, esquecido de seu status, o homem sentia-se membro de uma comunidade universal em que se quebravam as barreiras de classes. Assim, o homem divinizava-se, o escravo emancipava-se, a crueldade tornava-se prazer, o grotesco misturava-se ao sublime. Este espírito dionisíaco, vivido também nas saturnálias romanas, persiste em todas as manifestações carnavalescas da cultura ocidental.

O mito de Dioniso invadiu a Literatura e as outras Artes, ao longo da nossa história. A obra do filósofo-poeta alemão F. Nietzsche (1844-1900) está toda ela impregnada do espírito báquico, ele mesmo definindo-se um “demônio dionisíaco”. Duas de suas obras são fundamentais para entendermos a importância do mito de Baco na evolução do pensamento e da arte européia: A Origem da Tragédia e Assim falou Zaratustra. Nietzsche remete à oposição “apolíneo vs dionisíaco” duas posturas perante a vida: viver conforme a razão e as ideologias sociais (código cultural) ou de acordo com o instinto que privilegia a busca da satisfação individual (código natural).

O contraste entre as duas divindades está evidente no mito da disputa entre Apolo e Pã (deus dos bosques, amante da lua e, como Priapo, deus do sexo, participante do cortejo de Baco). A tensão representa não apenas a vitória da lira sobre a flauta, da música suave e harmoniosa sobre os acordos rudes, da beleza com relação a feiúra, mas também o triunfo da civilização grega sobre a barbárie asiática. Em psicanálise, usando a linguagem de Sigmund Freud, podemos associar o id (a força do instinto, o código natural) ao mito de Dioniso e o superego (o conjunto das normas culturais) ao mito de Apolo.


Édipo e Fedra: o tema do incesto
A atração natural do filho pela mãe ou da filha pelo pai que, a partir de Sigmund Freud, passou a ser objeto de estudo da psicanálise, antigamente já fomentara a fértil imaginação dos gregos, dando origem a vários mitos ou histórias fantásticas sobre relacionamentos endógamos. O mais famoso é o mito de Édipo: Jocasta, a esposa de Laio, rei de Tebas, informada pelo oráculo de Delfos que o nascituro estava destinado a matar o pai e casar com a mãe, ordenou que um serviçal desse fim ao bebê. Mas o criado ficou com dó, abandonando Édipo (o “dos pés atados”, como se fosse um franguinho) no campo. Criado por pastores, o belo jovem, quando ficou sabendo do oráculo, achando que era filho de Políbio e Peribéia, se afastou da casa dos pais putativos e, por ironia do destino, foi parar na cidade de seus pais verdadeiros.

Ao chegar em Tebas, numa encruzilhada, teve uma altercação com um senhor de idade e acabou matando o velho sem saber que Laio era o rei, seu pai. Ao entrar na cidade, enfrentou a Esfinge, um monstro metade mulher e metade leão, que devorava os estrangeiros que não conseguissem desvendar o enigma: “Qual é o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?”. Édipo respondeu: “é o homem”, pois na infância engatinha, depois anda e, quando velho, usa a bengala. Vencido o desafio, o forasteiro é acolhido como herói e, porque acabara de ser assassinado o rei Laio, é-lhe ofertada a bela viúva Jocasta em casamento. Édipo casa com a rainha de Tebas, sem saber que era sua mãe natural, e com ela tem quatro filhos.

Após longos anos de felicidade conjugal e de sábio governo, o rei tem que enfrentar uma terrível desgraça: a cidade de Tebas sofre de uma misteriosa epidemia que dizima homens e animais. Consultado o oráculo de Apolo, a resposta é de que a peste não cessaria enquanto o assassino do rei Laio ficasse impune. Édipo ordena que se investigue o caso e o adivinho Tirésias esclarece que o culpado é o próprio rei. Perante tal monstruosa revelação, Jocasta se suicida e Édipo fura seus olhos e abandona a cidade. O mito de Édipo foi explorado por escritores e artistas ao longo dos 25 séculos da cultura ocidental. Mas a melhor representação ainda é a peça do dramaturgo Sófocles, Édipo Rei, que remonta ao século V a.C. e foi submetida a diversas interpretações pelos exegetas. Os versos da fala de Jocasta a Édipo:

Não tenha medo da cama de tua mãe:



Quantas vezes em sonho um homem dorme com a mãe!”
inspiraram Sigmund Freud na formulação do famoso “complexo de Édipo”, onde o médico austríaco explica que o sonho é a realização disfarçada de um desejo recalcado e que o seio materno é a primeira fonte de prazer do ser humano. Além do tema do incesto, a peça de Sófocles apresenta outros motivos recorrentes. Na fala do adivinho Tirésias a Édipo, aparece o tema do saber, a busca da própria identidade:
Sabes, ao menos, de quem és nascido?”
O drama fundamental do protagonista, que reside em querer descobrir sua verdadeira filiação, simboliza o questionamento filosófico do homem: Quem eu sou? De onde venho? Para onde vou? Por que vivo? O tema da fatalidade, do destino inelutável:
O que está por vir virá”
perpassa o drama de Sófocles de ponta a ponta. A lição transmitida pela peça é que é inútil lutar contra os desígnios do Fado, configurado como uma força cósmica superior à vontade dos próprios deuses. O que caracteriza o mito trágico é a coexistência dos contrários: Édipo é culpado, pois matara o pai e casara com a mãe, mas, ao mesmo tempo, é inocente, pois não sabia. O motivo do inocente-culpado tem sua explicação, pois a culpa não é individual, mas atávica: Édipo paga o preço de um pecado cometido pelo seu progenitor. Narra o mito que Laio, o pai de Édipo, durante umas férias, raptou, seduziu e abandonou o jovem Crisipo, filho do rei da Frigia, que acabou se suicidando. O pai do rapaz amaldiçoou o raptor, pedindo aos deuses que ele nunca tivesse um filho; mas, caso o tivesse, que ele fosse a causa da sua morte. O que estava escrito nas estrelas aconteceu: o parricídio e o incesto de Édipo são o castigo pela violência homossexual praticada por Laio. A lenda de Édipo nos lembra o mito bíblico do pecado original: Adão comeu a maçã e toda sua descendência herdou, não apenas a pena, mas também a culpa! Outro tema importante é o da catarse, a purificação pela dor, o sofrimento como condição indispensável para a felicidade:
Enquanto alguém deixar esta vida sem conhecer a dor,

não pode dizer que foi feliz”.
Estes dois últimos versos da peça Édipo Rei nos ensinam que, se o conhecimento da verdade nos leva ao sofrimento, de outro lado, será somente através deste que o homem, adquirindo a verdadeira dimensão de sua essência, terá condição de ser feliz. O brilho de Édipo, o decifrador de enigma e o bom governante de Tebas, era falso, pois fundado sobre o desconhecimento da própria identidade. O herói trágico se encontra verdadeiramente na dor, na fraqueza, no abandono: reencontrar-se na impotência, nisso reside o supremo saber. Na última peça de Sófocles, Édipo em Colona, a cidadezinha perto de Atenas onde o herói se refugiara, feliz na companhia da filha Antígona, sentimos certa identificação do poeta com o protagonista mítico: Sófocles escreveu este drama com mais de 80 anos, consolado na sua velhice por uma jovem e bela hetera (cortesã de costumes livres).

O mito de Édipo, que explora o tema do incesto, tem o seu equivalente feminino no mito de Electra, que trata da atração da filha pelo pai, e de Fedra, que aborda relações sexuais entre membros da mesma família. Electra é filha de Agamenão e Clitemnestra, soberanos de Micenas. Durante a longa ausência do rei, que fora comandar a frota naval grega na Guerra de Tróia, a rainha se apaixona pelo cunhado Egisto e juntos maquinam o assassinato de Agamenão, quando do seu regresso. Electra ajuda o irmão Orestes a vingar a morte do pai, causando a morte da mãe adúltera e do tio assassino.

A psicanálise, assim como apresentada por C.G.Jung, denomina “complexo de Electra” à atração sexual não sublimada que uma filha possa sentir pelo próprio pai. Depois de uma fase de fixação afetiva na mãe, quando da amamentação e na primeira infância, a menina pode passar a sentir um sentimento mórbido pelo pai, em quem constrói a imagem do homem ideal. Electra simboliza a tendência a um amor incestuoso da filha pelo pai, quando o sentimento de apego não é resolvido de uma forma adequada, podendo causar neuroses. O mito de Electra, como o de Édipo, inspirou muitas obras de arte dramática e plástica, através dos tempos. Citamos apenas a peça O luto fica bem em Electra, do dramaturgo norte-americano Eugene O’Neill, representada pela primeira vez em 1931. No Brasil, esta peça foi encenada com o título Electra e os fantasmas.

A figura de Fedra, irmã de Ariadne, está ligada ao mito do pai Minos, rei de Creta, e de Teseu, o maior herói de Atenas, famoso por inúmeras aventuras de luta e de amor. A façanha mais conhecida foi sua vitória sobre o Minotauro, na ilha de Creta. Matou a socos a fera, fechada no Labirinto e de lá conseguiu sair graças à ajuda da esposa Ariadne, que lhe deu um novelo de fio para marcar o caminho de volta. Mas, ingrato, abandonou a jovem na ilha de Naxos, onde ela morreu de dor. E pagou por isso, de acordo com a justiça cósmica. Já velho,Teseu casou com a cunhada mais nova, Fedra, que, enquanto o marido participava da expedição dos Argonautas, se apaixonou pelo jovem enteado Hipólito. O rapaz, que tinha feito voto de castidade a Diana, deusa da caça, não quis saber da madrasta. Sentindo-se repudiada, ela apela pela vingança: escreve uma carta ao marido, acusando o jovem de assédio sexual. Hipólito é executado e Fedra se enforca.

O que mais impressiona no mito de Fedra, largamente representado na cultura ocidental, além do alto grau de violência a que pode levar uma paixão louca não correspondida, é a maldade possível no coração de uma mulher: ela acusa o rapaz justamente daquilo que ele não quisera fazer, transformando a vítima num agressor. Esta lenda me faz tecer um paralelo com a trama do filme Assédio sexual, onde a atriz Demi-Moore representa o papel da bela executiva Meredith Johnson, que destrói a carreira de um jovem subordinado por ele não ceder a sua sedução, preferindo manter-se fiel à esposa. O mito de Édipo, como outros mitos, enquanto arquétipos de ações humanas, vive se repetindo continuamente ao longo da nossa existência.
Tróia: Ilíada e Odisséia
Tróia é o nome latino da antiga Ílion, próspera cidade situada na costa da Ásia Menor. No séc. XII a.C., a cidade troiana sofreu um assédio por uma frota de navios gregos que, depois de dez anos de luta, conseguiram expugná-la e incendiá-la. A guerra de Tróia é um fato histórico, documentado por resíduos arqueológicos, ao redor do qual, ao longo de quatro séculos de tradição oral, a fantasia popular foi inventando histórias fabulosas sobre deuses e heróis, gregos e troianos. Só em meados do séc. VIII, a Grécia já tendo uma língua escrita, um rapsodo “costurou” ( “rapsódia” significa juntar partes) vários episódios de heróis divinos e humanos, deixando para a posteridade documentos de alto valor poético e civilizacional. Se este rapsodo foi Homero ou os dois poemas épicos foram escritos por vários autores e em épocas diferentes, é assunto da proverbial “questão homérica”, que deu tanto trabalho a exegetas. Mais importante do que descobrir a autoria, é admirar a beleza da obra.

Antes de expor fatos, personagens e sentidos dos dois poemas, acho didático lembrar a história mítica criada para justificar a agressão grega ao território troiano. A guerra contra Tróia estava escrita nas estrelas, pois diretamente relacionada com o mito de Vênus e de outras divindades. Mitos divinos se misturam com lendas humanas, no céu e na terra. Narra o mito que o último rei de Tróia foi Príamo, casado com Hécuba. Quando a rainha estava grávida de seu 50° filho, sonhou com chamas e um adivinho aconselhou o casal a matar o nascituro, pois ele seria a causa da destruição de Tróia. Mas o servo encarregado da morte ficou com dó do recém-nascido e o abandonou no monte Ida, sendo criado por pastores, que lhe deram o nome Páris, “o que protege” o gado. Aqui se dá o cruzamento do mito humano com o divino. Houve uma festa de casamento, lá no Olimpo, para a qual não foi convidada Éris, a deusa da Discórdia (pudera! quem convidaria uma encrenqueira?). E ela, por vingança, pela janela do salão de festas, lançou um pomo com a escrita “para a mais bela”. As três principais deusas do Olimpo, Atena (Minerva), Hera (Juno) e Afrodite (Vênus), começaram uma briga, cada qual achando que o pomo era para si. Júpiter, então, escolheu como juiz um ser humano, o belo jovem Páris que, não sabendo de sua verdadeira filiação, vivia no meio de pastores.

Para obter a vitória, cada deusa tentou corromper o juiz, oferecendo o que possuía: Minerva lhe prometeu a sabedoria, Juno o poder e Vênus o amor. Páris entregou o Pomo da Discórdia a Afrodite, em troca da promessa da posse da mulher mais bonita da terra. Naquela época, por acaso, a miss mundi era a linda Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta, irmão do poderoso Agamenão. Para cumprir a promessa, Vênus armou o encontro dos dois, que se tornaram amantes. Páris, já reconhecido como filho pelo rei Príamo, apesar dos tristes presságios da irmã Cassandra que tinha o dom da profecia, levou Helena para Tróia, sua cidade natal. Para vingar a honra maculada, uma coligação de príncipes gregos assediou Tróia. O mito, evidentemente, foi inventado para justificar a sanha expansiva dos gregos. É por causa dessa lenda que, na poesia épica grega, romana e lusitana, encontramos sempre Vênus protegendo os troianos e seus descendentes, os latinos, enquanto as outras duas deusas protegem o exército grego.

Mas, neste ponto, deve ser inserido outro mito fundamental da cultura ocidental: o de Ulisses, o grego Odisseu, o protagonista do outro poema épico, A Odisséia, e, talvez, o maior herói humano de todos os tempos. Ulisses nasceu como conseqüência de uma dúplice artimanha, preparada pelos dois homens mais inteligentes da Grécia da era pré-histórica: Sísifo, rei de Corinto, para vingar-se de Autólico, que lhe roubara o rebanho, seduziu-lhe a filha Anticléia. Mas isso era tudo o que o próprio Autólico tinha planejado, pois desejava ter um neto que herdasse a astúcia de seu rival Sísifo. A moça Anticléia, já grávida, abandonada por Sísifo, desposou Laertes, rei de Ítaca, que assumiu a paternidade da criança.

O jovem Ulisses, educado pelo sábio centauro Quirão, na idade de contrair núpcias, apaixonou-se por Helena, a mulher mais bonita da Grécia; mas, por serem muitos os pretendentes, desistiu da competição, estabelecendo o famoso “pacto”: os concorrentes à mão de Helena se comprometiam a respeitar a vontade da moça na escolha do esposo e a defender a união do casal. Helena escolheu como marido o príncipe grego Menelau e Ulisses casou-se com Penélope, prima de Helena. Declarada a guerra dos gregos contra Tróia para a reconquista de Helena, raptada pelo príncipe troiano Páris, Ulisses foi obrigado a participar do assédio de Tróia, vítima do acordo por ele próprio inventado. De sua inteligência nasceu o estratagema da construção do famoso Cavalo de Tróia. Mais façanhas de Ulisses encontram-se no poema que leva seu nome como título. Voltemos, agora, à apresentação do primeiro poema homérico.

Ilíada significa “sobre Ílion”, o nome antigo da cidade de Tróia, mas o poema se limita apenas a descrever alguns episódios e não a história dos dez anos que durou a briga entre gregos e troianos. O poema começa com a invocação:
Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles...
Observemos que Homero não diz “eu canto”, mas coloca como narrador da história a própria divindade. E isso por uma questão de coerência: como um ser humano poderia saber o que se passa lá no céu, estar presente em todos os lugares e em épocas diferentes? Ele se considera apenas um ser inspirado, um vate que recebeu o dom de ser o intermediário entre a divindade e a humanidade. É claro que se trata de um fingimento poético (e Fernando Pessoa bem dizia que “o poeta é um fingidor”, que finge tão bem ao ponto de enganar a si próprio), mas, pergunto eu, a sensação de sentir-se inspirado por uma força divina no ato de escrever não seria comum também aos líderes e escritores de textos considerados sagrados pelas várias religiões? Poeta é Profeta, e vice-versa: religião e arte sempre andaram juntas!

O assunto do que trata o poema Ilíada está anunciado nas duas palavras citadas acima: “a cólera de Aquiles”. Este é o protagonista do poema, filho do rei Peleu e da deusa Tétis que, segurando o recém-nascido pelo calcanhar, o banhou nas águas do rio Estige para torná-lo invulnerável. Portanto, o único ponto fraco ficou sendo o calcanhar que não recebeu a água sagrada. Daí, o proverbial “calcanhar de Aquiles”. Sua “cólera”, ira ou raiva está relacionada com a perda da bela escrava Briseida pelo prepotente chefe Agamenão (Helena, Briseida, Cleópatra, Cremilda... sempre elas, as moças bonitas, causas e vítimas de desgraças: cherchez la femme, dizem os franceses, quando buscam o motivo de um crime).

Os gregos, para se proverem de comida, roupa e mulheres, costumavam saquear cidadezinhas perto de Tróia. Na divisão de um butim, Agamenão e Aquiles ficaram com duas belas jovens, feitas escravas. Mas, a que ficara com o chefão, Criseida, era filha de um sacerdote de Apolo, que pediu vingança. O deus, então, lançou flechas envenenadas que começaram a dizimar homens e animais no acampamento. Para aplacar a ira divina, o conselho dos gregos obrigou Agamenão a devolver Criseida. Mas o poderoso chefão exigiu em troca a escrava Briseida, que era a concubina de Aquiles. Este, louco da vida, se retirou do combate. Os troianos, percebida a ausência do valoroso Aquiles, saíram dos muros da cidade e atacaram os gregos em seus acampamentos na praia. O herói troiano Heitor, filho do rei Príamo, acaba matando Pátroclo, amigo de Aquiles. Este, então, para vingar a morte de seu amigo, volta a combater os gregos, dirigindo sua ira especialmente contra o inimigo Heitor, encurralando-o até os muros de Tróia e matando-o, após uma luta singular e dramática. O poema acaba com os funerais de Heitor, pois o velho rei conseguira comover o raivoso herói grego, que lhe entrega o cadáver do filho.

Este pequeno resumo apresenta apenas uma pálida idéia da beleza poética e humana da Ilíada. Contar episódios de vida de deuses e homens que participaram da Guerra de Tróia é a forma que o poeta encontra para fixar para sempre, por virtude da arte literária, a galeria de heróis e de posturas humanas que a tradição oral foi criando e transmitindo ao longo de séculos e que se tornaram arquétipos na cultura ocidental. Aquiles, o protagonista deste poema épico (o nome certo deveria ser “Aquileida”, título de um poema do escritor latino Estácio e de outros imitadores de Homero), representa a força física, a perícia na guerra, o sentimento de honra, o caráter indomável que não se dobra perante a prepotência do chefe Agamenão, nem face aos desígnios do destino: mesmo conhecendo o vaticínio que anunciara sua morte logo após a de Heitor, ele mata o herói troiano para vingar a morte do amigo Pátroclo.

Aquiles encarna o homem na idade juvenil que se deixa dominar ora pela violência das paixões (ódio e agressividade), ora pela delicadeza dos sentimentos (amizade e piedade). Helena, a moça grega, que passou à história como Helena de Tróia, também ela semideusa, pois fruto do relacionamento de Júpiter com a mortal Leda, embora seja o pivô da guerra, não é considerada culpada. O próprio sogro dela, o rei Príamo, que mais sofre com a desgraça que está caindo sobre Tróia e sua imensa família, tem muito carinho por ela e sempre a defende, pois entende que Helena é vítima do destino, contra o qual ninguém pode. Ela é a representante humana da deusa Vênus, que simboliza o instinto, a força da paixão amorosa que vence qualquer norma moral. Helena é o símbolo da mulher fatal, seduzida e sedutora, que vive apenas em função do sexo. O mito narra que, após a tomada de Tróia, quando o marido Menelau a procura no palácio para vingar-se da traição, ela, sem falar uma palavra em sua defesa, simplesmente se despe: a visão da beleza do seu corpo transforma o ódio em novo amor.

Além de Aquiles e Helena, outros personagens importantes da Ilíada são: Agamenão, o prepotente chefe da armada grega; Heitor, o maior herói troiano, que luta bravamente para defender sua família e sua cidade; sua esposa Andrômaca que, contrastando com Helena, é a mais bela configuração de fidelidade conjugal, antecipando a Penélope de Ulisses, personagem da Odisséia; o belo Páris, que não sai da cama de Helena, preferindo fazer o amor em lugar da guerra, embora tenha sido ele a causa dela; Menelau, o marido traído, caracterizado como homem indulgente e sensato, preocupado em preservar os valores ideológicos da união conjugal e do respeito pelos bens alheios, pois, independentemente de qualquer sentimento amoroso, a mulher era considerada posse do esposo.

O segundo poema homérico, a Odisséia, narra a viagem do herói grego Ulisses (nome latino de Odisseu) que, cumprido a missão da reconquista de Helena e da destruição de Tróia, começa a caminhada de regresso a Ítaca, sua terra natal, onde o espera a virtuosa esposa Penélope. Conforme a tradição mítica, o herói grego leva dez anos para retornar. Somados aos dez da Guerra de Tróia, perfazem 20 anos de ausência do lar. Ítaca, ilha do mar jônico, não fica tão longe de Tróia, situada na costa da Ásia Menor. Mas era vontade divina que o herói grego tivesse uma viagem de volta bem acidentada.

A narração das aventuras de Ulisses não procede conforme a ordem cronológica. O poema começa quando o herói chega náufrago na ilha dos Feácios (a atual Corfú), após sete anos de sua partida de Tróia. Encontrado na praia pela bela princesa Nausica, Ulisses é acolhido na corte do rei Alcino e, durante um banquete, conta retrospectivamente suas aventuras. Este recurso técnico de narrar uma história começando pelo meio, in medias res, próprio da poesia épica, como veremos na Eneida, de Virgílio e nos Lusíadas, de Camões, será utilizados também pelo conto policial ou de suspense e pelo cinema.

Vou tentar reconstruir e resumir a fábula da Odisséia, colocando os principais acontecimentos na ordem cronológica para facilitar seu entendimento. O náufrago Ulisses, acolhido na corte dos Feácios, durante um banquete, ouve o aedo Demódoco contar como os gregos enganaram os troianos, construindo um enorme cavalo de madeira, dentro do qual esconderam dúzias de soldados. Convenceram, então, o rei Príamo a permitir sua entrada na cidade, pois se tratava de um presente divino. Como se pode ficar, aos poucos, os episódios da guerra de Tróia começaram a ser objetos de cantos populares.

Ao ouvir esse canto, Ulisses não resiste à comoção e começa a chorar, revelando que é ele o herói da história. Conta, então, como, após o incêndio de Tróia, junto com outros gregos, em doze embarcações, inicia o caminho de volta para sua terra de origem. Após várias tempestades, os ventos jogam Ulisses e seus companheiros no Sul da Itália. Perto da ilha da Sicília, numa região vulcânica, são capturados pelo ciclope Polifemo, monstro antropófago com apenas um olho na fronte, que encerra os gregos numa gruta e toda a manhã come um forasteiro. O astuto Ulisses, que lhe diz chamar-se “Ninguém”, embebeda o ciclope e lhe enfia um pau no olho, conseguindo escapar do antro com o restante dos companheiros. Polifemo pede ajuda aos outros ciclopes, gritando “Ninguém me cegou”. Os irmãos, pensando que ele, bêbedo, estava brincando, não o acodem e os gregos conseguem alcançar os barcos e fugir.

Chegam à ilha de Éolo, o guardião dos ventos (daí o nome da energia “eólica”), que fecha num odre os ventos adversos para facilitar a chegada a Ítaca. Mas seus companheiros furam o saco, pensando conter vinho. E, mais uma vez, os ventos contrários os desviam do caminho certo. No litoral do Lácio, desembarcam numa ilha onde vive a feiticeira Circe, que transforma os companheiros de Ulisses em porcos. O herói, passado um ano feliz nos braços da bela deusa, resolve continuar a viagem, indo parar no golfo de Nápoles, numa localidade onde se acreditava estar o reino dos mortos. Feito um sacrifício ritual, desce numa gruta onde encontra as almas de figuras míticas: Tântalo, Sísifo, Agamenão, Aquiles, entre outras, cada qual contando sua história. Ao atravessar o estreito de Messina, entre os escolhos Cila e Caribdes, que separa a ilha da Sicília da península italiana, Ulisses coloca cera nos ouvidos de seus companheiros. Por sua vez, pede ser amarrado ao mastro do navio para não sucumbir ao irresistível canto das sereias, grandes pássaros com cabeça de mulher, que costumavam atrair os marinheiros contra os recifes.

Chegados na Sicília, a ilha consagrado a Hélios, o deus Sol, acabados os mantimentos, os companheiros de Ulisses matam e comem as vacas sagradas, sendo por isso condenados a uma morte violenta. Salva-se apenas o herói que respeitara a ordem divina. Após nove dias de naufrágio, Ulisses chega na ilha Ogígia (talvez a atual Gibraltar), no limite extremo do Ocidente, perto da península ibérica, o fim do mundo até então conhecido. A patroa da ilha é a bela ninfa Calipso que se apaixona perdidamente pelo herói grego, estando disposta a desposá-lo e a conceder-lhe a imortalidade.

Mas a deusa Atena, lá numa assembléia do Olimpo, exige que o destino seja cumprido e que Júpiter tome as providências necessárias para o retorno de Ulisses a sua pátria. Obediente à vontade divina, Calipso aconselha o herói a construir uma jangada e iniciar a viagem de volta para Ítaca. Mais uma vez o deus Netuno provoca uma tempestade que arrebenta o barquinho. Atena salva o herói providenciando um véu que o impede de afogar. A nado e exausto chega na ilha Esquéria, onde é protegido pela bela Nausica, a princesa dos Feácios.

Eis o resumo da narração em flash-back, a retrospecção dos fatos que Ulisses conta ao rei Alcino, na ilha dos Feácios, situada no mar Egeu, não muito longe de Ítaca. A partir daí, a narração dos fatos continua no tempo linear. Ulisses recusa a oferta de casamento com Nausica, desejoso de, finalmente, após quase vinte anos de aventuras, retornar ao seu lar. Um navio feácio leva o herói adormecido na praia de Ítaca. Em sonho, a deusa Atena aconselha Ulisses a não revelar sua identidade, pois há mais inimigos a enfrentar, também na sua terra. Ele, então, assume a feição de um fugitivo da ilha de Creta e pede hospitalidade, sendo reconhecido apenas pelo velho cão Argos e pelos escravos Eumeu e Euricléia.

Apresentado ao filho Telêmaco, os dois preparam a vingança contra os pretendentes à mão de Penélope. Acontecera que, devido à longa ausência de Ulisses, pensando que ele estivesse morto, vários nobres de Ítaca queriam que a bela rainha escolhesse outro marido. Mas o coração de Penélope lhe dizia que o esposo estava ainda vivo e um dia voltaria. Por isso ficava adiando a escolha, dizendo que só se casaria de novo após terminar uma mortalha para seu sogro Laertes. Mas ela desfazia de noite o que tecia de dia. Os pretendentes, após descobrirem a artimanha, ficaram violentos, dilapidando o patrimônio da corte.

Quando seu pai chegou disfarçado, Telêmaco aconselhou sua mãe a escolher como esposo o vencedor da prova do machado: usando o arco de Ulisses, os candidatos deviam fazer atravessar uma flecha pelo buraco de doze machados enfileirados. Ninguém conseguiu superar a prova. O estrangeiro, então, pediu permissão para também ele tentar. Ulisses superou o desafio, revelou sua verdadeira identidade e, com a ajuda do filho e dos antigos servos, acabou com os pretendentes. Penélope só se convenceu que ele era seu verdadeiro marido quando Ulisses lhe revelou segredos de alcova. O poema épico termina com a intercessão da deusa Atena junto a Júpiter para que uma paz duradoura reine sobre os soberanos e os habitantes da ilha de Ítaca.

O valor estético e educativo da Ilíada e da Odisséia é atestado pelas contínuas reedições dessas obras nas línguas mais diferentes dos cinco continentes. Apenas os livros da Bíblia superam os poemas atribuídos a Homero no mercado livresco internacional. E isso porque gregos, troianos, latinos e seus descendentes encontraram na poesia épica, além da beleza artística, ensinamentos de vida. Enquanto a Ilíada é a epopéia da guerra, a Odisséia é a epopéia do mar. O primeiro poema de Homero, mais antigo, retrata a luta dos gregos para a conquista de novos territórios. Neste estágio de civilização, o heroísmo guerreiro era fundamental.

Já a Odisséia espelha uma fase posterior, quando os gregos, deixando de ser nômades, se fixaram em cidades, chamadas póleis. Passaram, então, a descrever a vida nas cortes e nos palácios, usos, costumes, utensílios. A viagem marítima de Ulisses durou dez anos porque o poeta estava mais interessado em mostrar como viviam as várias povoações por ele visitadas do que o retorno do herói a sua terra natal. Enquanto na Ilíada predomina o valor dos homens nos campos de batalha, na Odisséia encontramos a valorização da família. Ulisses prefere o amor da esposa aos atrativos de deusas e rainhas, pois é a mulher que dá estabilidade ao lar. Vejam-se as belíssimas caracterizações de figuras femininas, como Penélope, Nausica, Calipso, Circe. Enfim, estamos perante uma concepção ética predominantemente conservadora e aristocrática, baseada na nobreza de sangue, na virtude, na honra, na sabedoria, na beleza. A presença dos deuses, que nasceram no tempo, mas se tornaram imortais, concebidos como representações de ideais humanos levados ao seu maior grau, atesta o desejo de superar a precária condição humana.



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