Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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Atenas: o berço da nossa civilização
A cidade mais importante da Grécia leva o nome de uma divindade, Atena, cultuada em Roma com o nome de Minerva. Deusa da sabedoria e da guerra, nasceu já armada da cabeça de Júpiter, que lá a colocou para esconder o fruto de seu adultério com Métis, a personificação da Prudência. Apenas o s final distingue o nome da cidade do da deusa. Ao longo de longos séculos obscuros, ocorreu a unificação de vários povoados que, a partir do séc. VI, deram origem a uma cidade com uma estrutura política consistente. O apogeu deu-se sob o governo de Péricles (495-429). Em pouco mais de meio século de liberdade política, Atenas, que já tinha a herança da poesia épica (Homero) e didática (Hesíodo), criou a poesia lírica (Safo, Píndaro), trágica (Ésquilo, Sófocles, Eurípides), cômica (Aristófanes), as artes plásticas (especialmente a arquitetura), a historiografia, a retórica, as olimpíadas.

Sem dúvida alguma, a maior conquista da Grécia foi a instituição do regime democrático, que possibilitou alcançar tão alto grau de civilização. Péricles entendeu que o melhor tipo de governo é aquele baseado na vontade da maioria e não apenas de um indivíduo ou de uma elite dominante. E o sustento da democracia é a “meritocracia”, cada qual ganhando conforme o mérito, independentemente da classe social a que pertencer. Mas, no mesmo tempo em que o grande estadista estimulava o sentimento cívico, enaltecendo os valores da igualdade de todos perante a lei e a justa recompensa pelo trabalho realizado, ele, na prática, cultivava a demagogia, que se tornou a maior praga da democracia. Para angariar votos, ele inventou a “mistoforia”, a remuneração para quem ocupava cargos do governo, o financiamento público de espetáculos teatrais e outras formas de ajuda à massa popular. Este tipo de populismo foi condenado pelo filósofo Sócrates que censurou Péricles por tornar os cidadãos de Atenas preguiçosos e corruptos. E não sem razão, pois o estadista acabou sendo condenado por prática de peculato. Os atuais políticos brasileiros têm gloriosos antecedentes!

O espírito inventivo dos gregos transformou os principais mitos sobre deuses e heróis, transmitidos pela tradição oral, em obras de arte literária e plástica, tornando-os eternos. Mesmo quando acabou a crença no politeísmo grego, ficou sua mensagem cultural pela ação transformadora e indelével da arte. A partir do séc. IV, com a perda da independência (batalha de Queronéia, 338), submetida a Felipe II da Macedônia, Atenas começou seu declínio. Seu espírito inventivo se transformou em reflexivo, produzindo grandes filósofos, como veremos a seguir.

A capital da Grécia, então, se tornou centro de debates, passando a questionar as verdades religiosas, antes aceitas sem discussão. Atenas deu origem à primeira forma de Humanismo, pois o parâmetro para a vida em sociedade passou a ser o homem e não mais a divindade. A cultura grega apresenta a idéia inovadora de que os padrões existenciais estão embutidos na própria realidade, perceptíveis pelo raciocínio, sem precisar recorrer ao sobrenatural. Com o culto da filosofia, o pensamento se descobre a si próprio, se acostuma a refletir e dialogar, substituindo os dogmas religiosos pelas leis da lógica e do bom senso.


Sócrates (470-399): “Sei de nada saber”
O pensamento reflexivo, pelo qual os gregos começaram a questionar seus mitos sobre as divindades do Olimpo e a procurar a origem e a formação do universo, a partir da própria natureza cósmica, começou com os filósofos pré-socráticos. Mas, como afirma o escritor latino Marcuss Túlio Cícero, foi Sócrates

o primeiro a fazer descer a filosofia do céu e a instalou nas cidades e a introduziu nos lares, obrigando-a a indagar acerca da vida e dos costumes, do bem e do mal”. O pensamento do primeiro grande mestre de filosofia está contido nos Diálogos do seu discípulo Platão que, por sua vez, foi mestre de Aristóteles. Esta tríade de pensadores gregos lançou a base de toda a filosofia no Ocidente. Sócrates não deixou nenhum escrito, por dois motivos: ele achava que não sabia nada e que se aprende algo só através do diálogo, da discussão. Seu método de ensino tinha duas etapas: pela “ironia”, ele fazia perguntas a seus discípulos, criando a dúvida sobre seus conhecimentos; pela “maiêutica” (= parteira, a profissão de sua mãe), fazia com que a verdade, que estava no espírito do interlocutor, viesse à luz da consciência.

Ele foi, portanto, o criador da “autognose”, o conhecimento a partir de si próprio, pois o saber está dentro de nós, não vem de fora. Ele nos ensinou a pensar com a nossa própria cabeça, questionando a doxa, a opinião comum, que é enganosa, e legitimando o “paradoxo”, o pensamento que vai “além” do parecer, buscando uma verdade verdadeira. Por colocar em dúvida as crendices e os valores morais da época foi acusado de corruptor da juventude e condenado à morte, tornando-se o primeiro mártir do livre pensamento. Sua figura é comparada à de Jesus Cristo, também ele vítima de uma massa ignorante que se deixa influenciar por líderes fundamentalistas, contrários a qualquer forma de evolução.

Para dar um exemplo do funcionamento do método socrático de ensinamento, praticado por perguntas e respostas, transcrevo um trecho da peça do comediógrafo grego Aristófanes, As Nuvens, adaptado por Christopher Hitchens (Deus não é grande, pág.237):


“Um fazendeiro das vizinhanças (da escola de ceticismo, em Atenas) se sai com uma das habituais perguntas obtusas feitas pelos fiéis, como: se não há Zeus, quem manda a chuva para regar as plantações? Convidando o homem a utilizar sua cabeça por um segundo, Sócrates (o filósofo funciona como personagem da peça) destaca que, se Zeus pudesse fazer chover, poderia haver chuvas em céus sem nuvens. Como isso não acontece, deve ser mais sábio concluir que as nuvens são a causa da chuva. Tudo bem, diz o fazendeiro, mas então quem coloca as nuvens em posição? Certamente deve ser Zeus. Não, diz Sócrates, que explica os ventos e o calor. Bem, nesse caso, replica o velho rústico, de onde vêm os raios para punir os mentirosos e os que agem errado? Os raios, é gentilmente explicado a ele, não parecem discriminar justos e injustos. De fato, freqüentemente é noticiado que eles atingem os templos do próprio Zeus olímpico. Isso é suficiente para derrotar o fazendeiro, embora ele depois abjure sua falta de reverência e queime a escola com Sócrates dentro”.
Também, pudera! O autor da peça, Aristófanes (445-386), era um rico proprietário de terras, crente reacionário e misógino. Conseqüência da postura filosófica de Sócrates era sua concepção da moral, que devia ser liberta de qualquer superstição religiosa. Ele achava que o único pecado do mundo era a ignorância, vista como a causa de todos os males. A maldade, dizia o velho mestre, não existe em si, sendo apenas o desconhecimento do que é o certo. Quando o homem comete uma atrocidade é porque ele não sabe o que está fazendo ou, melhor, ele pensa de estar fazendo a coisa certa. Efetivamente, quanto mal não se comete, pensando de fazer uma obra de bem. Hoje diríamos que de boas intenções está cheio o inferno!

Platão (428-348): o mundo das idéias
O discípulo mais famoso de Sócrates foi Platão, um rico aristocrata, fundador da Academia (do nome do herói Academos, amigo do mestre), um parque de Atenas onde se juntavam, além dos esportistas, também pensadores, poetas e artistas. Platão começou sua atividade de filósofo questionando a democracia de Atenas que condenara à morte Sócrates, “o mais sábio e o mais justo de todos os homens”. Politicamente, ele propunha uma república comunitária, onde seria abolida a propriedade privada, inclusive dos filhos que seriam educados pelo Estado. Na sua República, os cidadãos seriam divididos em três classes, de acordo com as três partes da alma humana: a razão, própria dos filósofos, a coragem dos guerreiros e o instinto dos trabalhadores. O Estado encaixaria cada indivíduo numa classe social conforme sua aptidão natural. Evidentemente, o governo da cidade estaria a cargo dos filósofos, a classe privilegiada.

Como se vê, apesar dos melhores propósitos, também os gênios escrevem besteiras, propondo uma ditadura educacional exclusivamente estatal, sem a participação da família, num contexto cultural eugênico de elite. O problema de Platão é que ele foi essencialmente um sonhador, vivendo no mundo das idéias, que ele inventou de uma forma gratuita, apenas como pressuposto teórico, sem nenhuma sustentação no plano da realidade. Foi por isso que o qualificativo “platônico” passou a ser sinônimo de ideal, utópico, algo inatingível. Sua teoria do conhecimento está baseada em duas hipóteses completamente indemonstráveis: a existência do mundo das idéias, essências puras e eternas, das quais os objetos do mundo real seriam apenas cópias imperfeitas; e a reminiscência, pela qual a alma humana, preexistente ao nascimento da parte material do homem, teria contemplado as idéias antes de juntar-se ao corpo, considerado a prisão do espírito.

Para o filósofo grego, portanto, saber é “recordar” o que a alma sabia antes da encarnação. Talvez, Platão, ainda ligado à tradição grega de criar mitos divinos para explicar comportamentos humanos, tenha inventado o “mito da caverna”, para entender o processo psicológico da aprendizagem, que se dá pela repetição e recordação. Geralmente, nós não aprendemos pela primeira vez. Precisamos voltar no tempo para que imagens e sensações amadureçam no nosso espírito. Um livro, um filme, uma música adquirem uma compreensão bem melhor quando revistados após anos de experiência. No livro VII de seu diálogo República, o filósofo narra a seguinte alegoria: numa caverna há homens amarrados por correntes, de frente para uma parede e de costas para a luz. Na parede são projetadas apenas as sombras dos objetos. O ser humano só percebe a aparência (os fenômenos) das coisas, pois a realidade (as idéias) está fora da caverna, na luz do sol, somente atingível pela atividade intelectual, pelo pensamento reflexivo. Na unidade do Sol estaria contida a trindade das idéias fundamentais: a do bom, do belo e do verdadeiro, que interagem, pois não existe Bondade sem Verdade ou sem Beleza.
Aristóteles (384-322): alma e corpo inseparáveis
Já Aristóteles constrói um sistema filosófico oposto ao do seu mestre Platão. Ele se recusa a aceitar qualquer raciocínio por hipótese, negando qualquer tipo de transcendência. Para ele nada existe além da natureza observável. As idéias das coisas estão na própria realidade, sendo percebidas pelo princípio da abstração, que separa o geral do particular. Por exemplo, a idéia de árvore está na própria árvore e não num outro mundo. Pela operação mental da abstração, posso distinguir o que é próprio de uma árvore específica (tamanho e cor das folhas, tipo de ramificação) do que é comum a todas as árvores (raiz, folha e tronco). O que é genérico me fornece a idéia da árvore, sem precisar recorrer a um mundo transcendental.

O sistema filosófico de Aristóteles se baseia no “ilemorfismo” (ilê = matéria e morfê = forma), a conjunção da matéria com a forma, do corpo com a alma. Os dois elementos são distintos, mas inseparáveis. É como se fosse uma folha de papel: conseguimos distinguir uma face da outra, mas não é possível separar os dois lados (esta imagem é do lingüista suíço Ferdinand de Saussure, 1857-1913, aplicada à distinção entre significante e significado). No ser humano, distinguimos a alma (a parte espiritual, que nos faz sentir, amar, pensar) do corpo (a parte biológica e vegetativa), mas não conseguimos imaginar como seria a existência de um corpo sem alma, nem de uma alma sem o corpo. Esta concepção filosófica de Aristóteles é a matriz de correntes realistas, positivistas e materialistas que se sucederam ao longo da cultura ocidental, enquanto seu mestre Platão será o inspirador das correntes idealistas, românticas e espiritualistas. Realmente, Aristóteles, o pedagogo de Alexandre o Grande, pode ser considerado o maior pensador da Grécia antiga. Em Atenas, deu aulas no Liceu. Sua escola era chamada de “peripatética”, porque discutia com os discípulos sobre cultura passeando pelos pórticos. Dante Alighieri, o imortal poeta da Divina Comédia, define Aristóteles como “o pai dos que sabem”.


Epicuro (342-270): o culto do prazer (hedonismo)
Carpe diem (aproveite o momento que passa): este verso do poeta latino Horácio, um admirador entusiasta de Epicuro, se tornou proverbial, pois sintetiza uma doutrina que coloca na busca do prazer a finalidade de qualquer atividade dos seres vivos. O homem estuda e trabalha para adquirir posição social e dinheiro, de que se serve para satisfazer, da melhor forma possível, seus dois instintos básicos: a conservação própria, pela alimentação, e da sua espécie, pelo acoplamento sexual. Sábio, porém, é quem usa o prazer de uma forma ponderada, pois qualquer excesso é prejudicial: se comer menos do que precisa, pode sofrer por inédia ou anorexia, se comer mais, estará sujeito aos males causados pela obesidade. Portanto, in médio stat virtus (a virtude está no meio-termo), citando outro verso do epicurista Horácio.

As poucas notícias sobre o filósofo grego Epicuro, considerado, como Sócrates, um “mestre” de vida, nos foram transmitidas por discípulos e admiradores. Sabemos que lecionou em várias cidades da Grécia, em Atenas inclusive, pregando o Atomismo de Demócrito, com uma postura materialista. Mas ele passou à posterioridade pela sua doutrina moral, fundamentada no Hedonismo (do grego hedone = prazer), que prega o equilíbrio entre os prazeres possíveis. Epicuro foi o primeiro pensador ocidental a negar claramente a possibilidade da existência de uma “providência transcendental”, de um Deus preocupado com suas criaturas. Num fragmento de seus escritos, lemos:


Ou Deus pode e não quer evitar o mal: então não é bom;

ou quer mas não pode: então não é onipotente.

Em cada qual das duas hipóteses: ele não existe!”
A contradição da existência do mal, junto com a crença na bondade divina, inquietou não apenas Epicuro, mas também muitos sábios posteriores que procuraram encontrar uma explicação racional. Santo Agostinho tentou resolver o dilema pela teoria do livre arbítrio: Deus deu ao homem a liberdade de fazer o mal e, portanto, ele pagaria o preço pela maldade cometida. Mas, e quando não há culpa pessoal? Como acreditar num Deus Onipotente e Misericordioso face à dor das vítimas inocentes de um terremoto ou de um desastre aéreo? Que dizer, então, da mortalidade infantil, de genocídios, de ódios étnicos, de bolsões de miséria extrema?

Em verdade, o mal, em qualquer uma de suas formas, constitui um mistério racionalmente inexplicável para quem acredita na existência de um Ser Transcendental que, por ser Deus, deve necessariamente ser “Perfeito”, possuindo todas as virtudes, no máximo grau, na virtualidade e na ação. O epicurista prefere não se inquietar com problemas religiosos insolúveis à luz da razão, com a morte e a hipótese da existência de outra vida, vivendo apenas o momento presente, da forma mais natural e prazerosa possível, atento apenas em respeitar a liberdade e os direitos do seu semelhante. Se alguém me perguntasse qual é meu credo, não teria dúvida em responder: não sou judeu, ateu, cristão ou islamita: considero-me apenas um epicurista!


Estoicismo: a virtude, acima de tudo!
Na Grécia antiga, quase concomitante com o Epicurismo, surge outra importante doutrina filosófica, mas em direção oposta. Enquanto o mestre Epicuro exaltava o prazer, Zenão de Cítio (335-264) ensinava que o sumo bem estava na virtude, no desapego aos bens materiais. Ele fundou a Escola do Pórtico (stoá, significa “pórtico”, o átrio sustentado por coluna onde o mestre discursava sobre filosofia) e teve ilustres seguidores, especialmente na Roma do 1° e 2° séc. d.C: Sêneca (60-39), Epicteto (55-135), Marcus Aurélio (121-180).

Conforme alguns estudiosos, a “teoria do justo”, apregoada pelo Estoicismo, estaria na base do Direito Romano, disciplina ainda hoje estudada nos cursos de jurisprudência. Os estóicos, como a maioria dos pensadores antigos, não acreditavam na existência de um ser fora do universo, preexistente e criador, pois, para eles, Deus era a própria totalidade do mundo. Todos os seres existentes (homens, animais, plantas, pedras) participariam desta forma de panteísmo (Deus está em todas as coisas), cada qual sendo uma partilha cósmica, de acordo com sua natureza. A morte, para os estóicos, não é aniquilamento, mas transformação, uma passagem para outro estado, no seio do universo. Segundo um profundo estudioso de Epicteto, Luc Ferry (Aprender a viver), as duas grandes fontes de infelicidade, apontadas pelos estóicos, são o peso do passado e as miragens do futuro. É preciso viver o momento presente, deixando de lado quer a carga pesada das tradições inibidoras, quer as ilusões de uma vida feliz num além misterioso.

Mas a doutrina estóica, também ela, não consegue superar a angústia existencial, causada pela finitude do ser humano. A idéia da transmigração da alma de um corpo para outro, que já se encontrava no Budismo e será retomada pela Doutrina Espírita, além de não ter nenhum fundamento lógico, não é satisfatória. O homem não gostaria de ser transformado num fragmento cósmico indiferenciado, nem, após sua morte, reencontrar os entes queridos sob forma de legumes. Por isso, o estoicismo, como as outras doutrinas morais da antiguidade, foi superado pelo nascente Cristianismo, que prometia ao homem um final bem mais feliz.
Cinismo: vida de cão!
A doutrina cínica tem muito em comum com o pensamento estóico, tanto que Crates de Tebas (365-285), discípulo de Diógenes de Sínope, o maior expoente do cinismo, foi mestre de Zenão de Cítio, o pai do estoicismo. A diferença pode residir no fato de que os estóicos construíram um sistema teórico-cosmológico acima do que os cínicos consideravam apenas uma prática de vida, uma moral sem nenhum fundamento filosófico. A origem etimológica do termo “cínico” é kunós, que em grego significa “cão”, o animal mais impudico. Na verdade, o cinismo defende um retorno à vida da natureza, com base apenas no instinto, rejeitando qualquer forma de cultura ou civilização, ensinando a viver naturalmente. Narra-se que Crates chegava a fazer sexo em público com sua esposa Hiparquia, imitando os animais.

Em verdade, o que houve foi uma crise de valores, pois os cínicos passaram a desacreditar nas instituições jurídicas, religiosas e sociais, incapazes de proporcionar felicidade ao homem. Apelaram, então, para formas de autarquia, às vezes chegando à anarquia. Ensinavam e praticavam a auto-suficiência, dispensando tudo o que fosse desnecessário para viver. A libertação não era apenas dos objetos materiais, mas também com relação aos sentimentos, não se preocupando com o sofrimento, a saúde ou a morte nem de si próprios, nem dos outros, familiares ou amigos Por isso, a palavra cinismo adquiriu a conotação, que ainda persiste hoje em dia, de indiferença e insensibilidade ao sentir e sofrer dos outros.


Alexandria: Helenismo (difusão da cultura grega)
Com a perda da independência da Grécia, ocupada pelos macedônicos, o centro de irradiação da cultura ocidental se deslocou de Atenas para Alexandria, cidade fundada em 331 a.C. por Alexandre Magno, no Delta do rio Nilo. Pela sua posição geográfica privilegiada, na confluência entre Oriente e Ocidente, a metrópole se tornou o ponto nevrálgico de diferentes civilizações. Ao Egito “faraônico” (de que trataremos no próximo capítulo) sucedeu o Egito helenístico, seguido sucessivamente pelo Egito romano, bizantino, muçulmano e, enfim, moderno.

Hélade, do grego Hellas, era o nome restrito à região central da Grécia antiga. Mais tarde, o nome heleno passou a ser usado como sinônimo de grego, em geral. Historicamente, os termos helenismo e helenístico indicam a difusão da cultura grega no período que vai das conquistas de Alexandre (331-323) no Oriente Médio e na Ásia até à dominação romana, que começou a partir do ano 31 a.C. Neste sentido, falamos de período helenístico como sinônimo de alexandrino. Ao contato com o mundo grego, os egípcios começaram a deixar de lado as antigas crenças, cultivando artes, ciência e filosofia. Alexandria, depois de Atenas e antes de Roma, tornou-se o centro irradiador de cultura, conservando e difundindo o patrimônio artístico, literário, filosófico e científico produzido pela criatividade do povo grego ao longo dos séculos anteriores. Na sua famosa Biblioteca se reuniam os maiores sábios da época (Arquimedes, Apolônio de Rodes, Teócrito, Calímaco, entre outros).

Mas o mundo helenístico, construído por Alexandre Magno, não se limitou ao Egito, pois ele levou a civilização grega para toda a bacia do Mediterrâneo e Oriente Médio, renovando culturas de vários povos que viviam nas margens dos rios Tigre e Eufrates. Babilônios e assírios, anteriormente à dominação dos grandes impérios da Pérsia (o atual Irá) e da Macedônia, devem ter tido uma civilização semelhante à dos egípcios. Escavações efetuadas, a partir da segunda metade do séc. XIX, colocaram em luz ruínas de antigas cidades (Assur e Babilônia, entre outras), exumando templos e palácios e revelando uma multidão de textos cuneiformes, com data provável a partir do ano 3.000. Tais descobertas contribuíram para o entendimento de vários trechos do Velho Testamento e de relatos de historiadores não religiosos. O helenismo teve o mérito de amalgamar as antigas civilizações formadas à margem dos rios Nilo, Tigre e Eufrates, realizando um sincretismo religioso entre elementos indígenas, politeísmo grego e a incipiente cultura latina. O deus grego Zeus é identificado com o romano Júpiter e o egípcio Osíris, assim como Afrodite com Vênus e Ísis.

A lição que podemos aprender de tal sincretismo é que a natureza humana é essencialmente a mesma, apesar de suas diferentes manifestações no espaço e no tempo. Não conformado com suas limitações, fraquezas e sofrimentos, o homem imagina a existência de seres sobrenaturais e de uma outra vida após a morte. Ele ergue os braços aos céus ou se prostra no chão, pedindo ajuda a divindades criadas a partir de elementos do mundo que ele conhece, mas conferindo-lhes poderes sobrenaturais. Invoca-sa a proteção dos deuses através de preces, ladainhas, procissões, oferendas, sacrifícios. Quando mais primitiva ou carente é a sociedade humana, mas necessidade sente de recorrer ao auxílio divino. Antigamente, como agora: veja-se a pieguice do povo frequentador das várias igrejas, especialmente evangélicas e muçulmanas!


ROMA: a cidade eterna e o culto da esmola
Um ditado popular afirma que “todos os caminhos levam a Roma”, mas a verdade é também seu contrário: “todos os caminhos partiram de Roma”. A cidade, alcunhada de “eterna”, situada no centro da Itália, é o ponto crucial da Europa e do mundo ocidental, geográfica e historicamente. Há duas lendas sobre as origens da caput mundi, o antigo centro do Império Romano e atual capital da Nação italiana e da Religião Católica. A primeira, mais antiga e idealizada, conecta as origens de Roma à civilização troiana (séc. XII a.C.), pois o herói Enéias, após o incêndio de Tróia, em busca de uma nova terra prometida pelo Fado, teria chegado até o Lácio, lutado contra os povos indígenas da região e casado com a latina Lavínia. Seu filho Ascânio, também chamado de Julo, teria dado origem à família Júlia, a que pertencia o imperador Otávio Augusto. Tal lenda encontra-se consagrada no famoso poema épico A Eneida, do escritor romano Virgílio, do séc.I a.C. Outra lenda remonta ao séc. VIII: o deus Marte engravidou a bela Réia Sílvia, filha do rei de Alba, consagrada à Vesta, a deusa da castidade. Deste amor proibido nasceram os gêmeos Rômulo e Remo que, jogados nas correntezas do rio Tibre, foram salvos por uma loba. Daí o símbolo de Roma ser a estátua de uma loba amamentando dois recém-nascidos. A imagem dos bebês pendurados nas tetas da loba se perpetrou por longos séculos no subconsciente dos italianos e hoje está a representar os políticos, divididos numa miríade de partidos, a sugar no peito da amada Pátria. Atualmente, a Itália e o Brasil estão travando uma acirrada disputa com a Grécia moderna para a conquista do troféu do país mais corrupto e mais leniente com a impunidade, entre todos os povos do Ocidente.

Criados por pastores, Rômulo e Remo fundaram a cidade de Roma. Rômulo acabou matando seu irmão por transgredir a ordem de não ultrapassar os limites estabelecidos por ele. Em seguida, o valentão perpetrou o que passou à história como o “Rapto das Sabinas”: para povoar a nova cidade, Rômulo, junto com um bando de primitivos, foi a uma festa na cidade de Sabina e levou embora várias moças. Enquanto os pais, irmãos e maridos das jovens raptadas organizavam a vingança, os romanos engravidaram suas mulheres que, portanto, impediram a luta entre as duas povoações. A união de antigos habitantes do Lácio foi o núcleo do que será mais tarde o glorioso Império romano.

Conforme esta segunda lenda, Roma foi fundada ao redor do ano 753 a.C e povoada por etruscos e outras etnias da península itálica. Aos poucos, todos os antigos povos da Itália foram dominados pelos romanos, que começaram a se preocupar com as instituições públicas para dar consistência ao Estado. Terminado o período arcaico da monarquia, quando se sucederam sete Reis, Roma passou a ser governada por dois cônsules, eleitos anualmente pelos dois partidos: o aristocrático (dos ricos = patrícios) e o democrático (dos pobres = plebeus). O órgão político superior era o Senado.

Roma iniciou seu caminho para se tornar uma grande potência com as duas Guerras Púnicas (de 264 a 201), subjugando os fenícios, cuja capital era Cartago, na atual Tunísia. Os pesados tributos dos cidadãos e os impostos que o governo romano cobrava das províncias dominadas acirravam as disputas políticas e engordavam o funcionalismo público. Logo começaram lutas intestinas pelo poder entre os dois partidos: de um lado, os irmãos Tibério e Caio Graco, tribunos do povo, seguidos por Mário, Catilina, Júlio César e Marcus Antônio; de outro lado, os aristocratas Sila, Pompeu, Cícero e Otávio Augusto.

Os idos de março (dia 15) de 44 a.C. é uma data memorável na civilização ocidental. Júlio César foi apunhalado até à morte, em plena luz do dia e no átrio do palácio do governo romano, por um grupo de Senadores, incluído seu filho adotivo Brutus, que conspiraram contra sua vida. Ele fora um grande general (conquistara boa parte da Europa Central, entre outras vitórias), um exímio escritor (De Bello Gallico e De Bello Civile, que tratam da conquista da Gália e da guerra civil na própria Roma) e um político de grande visão. Pertencente ao partido democrático, queria acabar com os latifúndios, distribuindo terras para os soldados que, voltando das guerras, não encontravam emprego. Continuara, assim, a luta dos irmãos Graco, assassinados por defenderem a reforma agrária.

Mas César encontrou a oposição de um Senado decrépito e conservador, temeroso de perder suas mordomias. Aparentemente, o motivo do assassínio era nobre: a defesa das liberdades democráticas, face ao perigo da instauração de um regime ditatorial. Júlio César, aproveitando-se do enorme prestígio popular, quer pelas suas vitórias militares, quer pela sua compreensão das necessidades do povo, poderia tentar um golpe de estado, fechando o Congresso. É difícil saber quais eram as intenções do grande líder. Uma coisa é certa: ele tinha consciência de que a corrupção dos costumes políticos tornara Roma ingovernável, precisando de uma nova ordem institucional.

E a história lhe deu razão: logo após a morte de César, não houve mais eleições livres. O poder foi arbitrariamente e por acordo nupcial (Antônio casou com Otávia, irmã de Otaviano) dividido entre o cônsul Marcus Antônio, a quem coube o domínio do Oriente e Otávio, sobrinho e filho adotivo de César, que ficou com Roma e a parte ocidental do império. Antônio estabeleceu sua capital em Alexandria e, repudiando a esposa Otávia, se casou com a ambiciosa e sedutora Cleópatra VII, última rainha da dinastia dos Ptolomeus. Ela, depois de enviuvar de dois seus irmãos (casara, sucessivamente, com Ptolomeu XIII e XIV), acabou seduzindo Júlio César que a levou para Roma. Após o assassinato do seu amante, voltou para Alexandria e, logo em seguida, enredou nas suas malhas amorosas o recém chegado novo chefe romano, Marcus Antônio.

Antonio e Cleópatra ampliaram o domínio de Alexandria no Oriente, subjugando várias províncias romanas, o que suscitou a vingança de Otávio, que declarou guerra aos dois e os venceu na batalha de Ácio, em 31 a.C, tornando-se o único dono do mundo romano. Marcus Antônio, acreditando na morte de Cleópatra, se suicida. Shakespeare deve ter-se inspirado no final desta paixão amorosa quando escreveu Romeu e Julieta. Aliás, o dramaturgo inglês compôs duas peças sobre os dois amantes da rainha do Egito: Júlio César e Antônio e Cleópatra.



Enquanto isso, em Roma, o Senado conferia a Otávio o título de Princeps, com o nome de Caius Julius Caesar Octavianus Augustus, e de Grande Pontífice, somando o poder militar, político e religioso. O regime de Roma passou de República a Principado, uma monarquia disfarçada, que logo após sua morte se tornou Império, permitindo a transferência do poder por herança genética. Adeus democracia romana! Mas o Principado de Augusto teve seus méritos. Em poucas décadas, de 31 a.C. a 14 d.C., Roma teve uma florescência comparável ao apogeu da Atenas da época de Péricles. Augusto foi, sem dúvida alguma, um déspota esclarecido. Ele conseguiu pacificar as correntes políticas internas e frear o ritmo de expansão externa, estabelecendo a pax romana, também chamada “Paz de Augusto”.

Convencido de que uma reforma de costumes não se faz pela força, mas pela mudança de mentalidade, com base em princípios ideológicos, Augusto se circundou das mais belas inteligências da época. Servindo-se da amizade do rico Mecenas, protetor de poetas e artistas, solicitou a colaboração de Virgílio e Horácio, as duas maiores expressões da Literatura Latina. Toda a obra do poeta Virgílio veio ao encontro do propósito de Augusto. O poema épico A Eneida, baseado na lenda da viagem do herói Enéias ao Lácio, conecta a origem de Roma com a antiga civilização troiana; os Carmina Bucólica, também chamados de Éclogas, exalta o amor, a alegria e dor dos que vivem no campo; as Geórgicas, poema didático em quatro livros, ensina o cultivo da terra, o plantio das árvores, a criação do gado e das abelhas. O poeta Horácio, por sua vez, em várias de suas Odes, exalta o espírito patriótico.

O programa de Augusto, porém, não teve êxito, pois seus sucessores transformaram o Principado numa ditadura imperial, cometendo as maiores barbaridades. O primeiro Imperador foi Tibério, enteado de Augusto, que assumiu o nome de Tiberius Julius Caesar, dando continuação no poder à família Júlia, institucionando o cesarismo. No início, Tibério foi um general de costumes austeros, mas, aos poucos, sensível à hostilidade do Senado e de outras forças políticas, tornou-se amargo e vingativo, estabelecendo um regime de terror. Até que, em 29 d.C., se refugiou na ilha de Capri, curtindo uma refinada devassidão. Seu sucessor, Cláudio I, gago e sofrendo de uma espécie de “delírio tremens”, mandou matar a escandalosa esposa Messalina, casando-se com Agripina, que o envenenou para que seu filho Nero o sucedesse no trono. Lucius Domitius Claudius Nero (37-68), embora educado pelo filósofo estóico Sêneca, não conseguiu escapar da tutela perniciosa da mãe Agripina. Após determinar o envenenamento de Britânico, o filho do seu antecessor Cláudio, mandou matar a própria mãe e obrigou seu mestre a suicidar-se. O incêndio de Roma, em 64, atribuído aos cristãos, segundo outra versão, foi provocado pelo próprio Nero como inspiração para compor um poema épico, imitando Homero que tinha cantado a destruição de Tróia.

O regime monárquico e hereditário levou, aos poucos, ao declínio do Império romano, apesar de sua expansão sob a família Flávia (Vespasiano, Tito Domiciano) e os Antoninos (Trajano, Adriano, Marcus Aurélio), em razão dos conflitos internos e das revoltas dos povos subjugados. Assim, em 410, os dois filhos do Imperador Teodósio I dividiram o Império em duas partes: o Ocidente latino e o Oriente grego. O Império Romano do Ocidente teve vida breve não resistindo às invasões de visigodos, francos, hunos e burgúndios: em 455 Roma foi saqueada e em 476 foi deposto Rômulo Augústulo, o último Imperador. Já o Império do Oriente durou por quase um Milênio, com sede em Constantinopla, a antiga Bizâncio, terminando em 1453, quando os muçulmanos ocuparam a antiga capital bizantina, dando-lhe o nome de Istambul.

A herança de Roma teve aspectos positivos e negativos. O grande mérito dos latinos foi ter helenizado os territórios por eles ocupados. Diferentemente de outros povos invasores e colonizadores, os romanos respeitaram e divulgaram a cultura grega. Este reconhecimento é dado por uma pessoa insuspeita, o poeta latino Horácio:
Graecia capta ferum victorem vicit

et artes intulit agresti Latio
“A Grécia conquistada (pelas armas), por sua vez, conquistou (pela cultura) o bárbaro vencedor (o povo latino) e introduziu as artes no Lácio selvagem.”
Roma adaptou à psique de seus habitantes e difundiu pelo mundo o conjunto da cultura que herdara da Grécia: a mitologia, a poesia épica e lírica, o teatro, a filosofia, as artes plásticas, as olimpíadas, a democracia. Talvez, a única contribuição propriamente latina fosse uma compilação de leis civis e penais, o chamado Direito Romano, disciplina ainda hoje ministrada em Faculdades de Direito. Ma o conceito de cidadania para todos e de justiça social ficou apenas no papel, nunca foi posto em prática.

A sociedade romana, como a grega e a oriental, não deixou de ser machista, escravagista e injusta. Os povos vencidos nas guerras eram considerados escravos; as mulheres não tinham direitos civis; a própria sociedade romana era dividida em estamentos: a classe dos senadores, dos cavaleiros, dos magistrados. Quem não tivesse recursos econômicos (a plebe) era chamado de “proletário”, pois o único bem que ele podia oferecer ao Estado era a “prole”, o filho, para servir como soldado ou como agregado a uma família nobre, vivendo de caridade. Nos períodos de carestia, de turbulência social ou na vigência de campanhas eleitorais o governo distribuía panem et circenses (o pão e o circo) para esconjurar as tentativas de revolta popular. Este costume não mudou muito: hoje se oferece ao povo carente e desinformado a bolsa família e os campeonatos de futebol, em troca dos votos para clãs de políticos se perpetuarem no poder. Nihil novi sub sole (“nada de novo sob o sol”): a história da exploração do povo ignaro se repete!




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