Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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Doutrina Espírita: Allan Kardec, Chico Xavier, Gandhi
O moderno Espiritismo ou “Kardecismo” pode ser considerado uma acoplagem do antigo Budismo e Platonismo com o Cristianismo e a Parapsicologia, também chamada de Metapsíquica, uma disciplina que, a partir do final do séc. XIX, começou a estudar fenômenos que ultrapassam as leis conhecidas da natureza ou fogem da experiência comum. Seu fundador foi Allan Kardec (1804-1869). O fato extraordinário que motivou o professor francês foi o seguinte: em março de 1848, na cidade de Nova York, duas irmãs, Margareth e Katherine Fox, filhas de um pastor metodista, morando numa casa de madeira considerada mal-assombrada, passaram a ouvir estranhos ruídos. Incomodada, Katherine pediu que o “demônio” causador dos inexplicáveis ruídos repetisse as batidas que ela mesma produzira. O espírito teria atendido ao pedido da moça, inaugurando, assim, uma espécie de “telégrafo espiritual”, concomitantemente à invenção do telégrafo elétrico pelo cientista e pintor norte-americano Samuel F.B. Morse (1791-1872). Mediante a atividade de “médiuns” (meios, intermediários entre os Espíritos e os homens), perguntas verbais e mesmo mentais dos vivos podiam ser respondidas por uma série de batidas em código por parte das almas dos mortos. A faculdade mediúnica podia ser exercida também por outros sentidos humanos (vista, tato, olfato), chegando também à escrita diretamente ditada pelos Espíritos (psicografia).

Os fenômenos de comunicação com espíritos atraíram multidões e as irmãs médiuns ganharam muito dinheiro com isso, profissionalizando seus dotes. Houve investigações, desmentidos, confissões de fraude, seguidas de retratações, enfim, criou-se uma lenda sobre as irmãs Fox. Allan Kardec estudou as manifestações espíritas das irmãs norte-americanas e de outros médiuns, fenômenos paranormais (mesas girantes, levitação, telepatia) e, após uma série de experiências, passou a acreditar na existência das almas independentemente do corpo e da sua comunicação com as pessoas vivas. Então mudou seu nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail por Allan Kardec, nome de uma encarnação anterior, e expôs sua doutrina, em forma de perguntas e respostas, na obra O Livros dos Espíritos (!857), cujos prolegômenos, capítulos e conclusão são assinados, entre outros Espíritos Superiores, por São João Evangelista, Sócrates, Santo Agostinho e Swedenborg (1688-1772), um visionário sueco que pregara a doutrina da Nova Jerusalém, segundo a qual o mundo invisível dos anjos e dos demônios influenciaria a nossa realidade cotidiana.



O Espiritismo tem em comum com o Budismo os conceitos de karma, sansara e metempsicose: a vida humana é um elo de uma cadeia de vidas, o passado determinando o presente, que irá influir no futuro, conforme um processo de melhoramento (pelas boas ações) ou degradação (por ações ruins). Citando Allan Kardec, ao pé da letra:
“Deixando o corpo, a alma reentra no mundo dos Espíritos, de onde havia saído, para retomar uma nova existência material, depois de um lapso de tempo mais ou menos longo, durante o qual permanece no estado de Espírito errante”.
É evidente a aproximação com a teoria das “idéias”, entidades espirituais, puras e absolutas, preexistentes à conjunção com os corpos, substâncias materiais, temporárias e enganosas, conforme imaginadas pelo filósofo grego Platão. Budismo, platonismo e espiritismo comungam a idéia de que a vida neste planeta é uma prisão, um castigo por pecados cometidos numa vida anterior, o homem sendo expulso de outro mundo e exilado neste de cá. O moderno budismo tibetano, com centro no mosteiro de Dharamsala, no norte da Índia, domínio do líder espiritual Dalai Lama, e com filiais em vários outros países, prepara crianças para serem tulkus, “pequenos budas”. A regra para reconhecer um ser re-encarnado é submetê-lo a um teste para ver se lembra da vida anterior. Há muitas rixas entre os monges para promover um protegido à condição de pequeno Buda.

Mohandas Gandhi é considerado o Jesus Cristo indiano. Alcunhado de Mahatma (a Grande Alma), Gandhi (1869-1948) é o mais moderno representante da espiritualidade hinduísta, relacionada com o antigo Budismo. De uma família indiana de classe média, estudou Direito em Londres, viveu por muitos anos na África do Sul, onde lutou contra o racismo da dominação britânica. Na sua obra Autonomia da Índia contesta o materialismo da civilização ocidental, propondo um ascetismo sem violência. Seu meio de ação inspirava-se no princípio do Satyagraha (reivindicação cívica da verdade). Para Gandhi, não pode existir paz verdadeira sem justiça social. Lutando contra qualquer tipo de violência e acreditando na possibilidade no desarmamento mundial e numa paz universal, passou à história como “o santo do século”, também chamado de novo Jesus Cristo por ter morrido pregando o amor entre os homens: foi assassinado por um extremista hindu, que tinha o ódio no coração.

A Doutrina Espírita comunga com o Cristianismo, além da crença num Deus transcendental, o conceito de moral fundamentado no amor ao próximo. Reafirma a regra universal de conduta que já se encontra, como veremos, no Código de Hamurábi, nos mandamentos de Moisés e na legislação de todas as grandes religiões. Esta moral é ensinada pelos Espíritos “superiores”, cuja função é recordar e complementar o que Jesus Cristo ensinou. Mas o kardecismo se distingue fundamentalmente do cristianismo pela negação da divindade de Jesus (Ele seria apenas o maior Espírito Superior reencarnado) e do apocalipse: a lei cósmica do plantio e da colheita, do prêmio às almas boas e do castigo aos maus, não se realiza no Juízo Final, mas através das várias encarnações neste mundo.
Do ponto de vista filosófico ou científico, a doutrina espírita não tem nenhuma sustentação, pois nem a razão, nem a ciência conseguem atestar a existência das almas separadas dos corpos, neste mundo ou num outro. Quanto a fenômenos para-normais, atribuídos a forças mediúnicas, não porque a ciência ainda não consegue explicá-los completamente somos autorizados a admitir uma intervenção sobrenatural. É preciso lembrar que os gregos primitivos, não conhecendo a origem dos raios, pensavam que fossem setas de fogo de Júpiter, lançadas para punir os humanos faltosos! Acontece que o inconsciente pode levar algumas pessoas, dotadas de um alto grau de percepção (mediunidade), a fazer coisas extraordinárias, aparentemente até milagrosas, sem que a autoria tenha que ser atribuída a entidades sobrenaturais. Há indivíduos que, num estado alterado de consciência, dizem e fazem coisas inacreditáveis, chegando a manifestações de xenoglossia: falam linguagens estrangeiras, desconhecidas, arcaicas, nunca ouvidas antes por nenhuma pessoa presente. Fenômenos de animismo, assim como os milagres religiosos, são mistérios que a ciência ainda não conseguiu plenamente desvendar. Shakespeare já disse que

“há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”,
mas isso não nos autoriza a acreditar na existência de um mundo transcendental. Allan Kardec pode ser considerado mais um profeta, um homem que, num certo momento de sua vida, começou a se achar um “iluminado”, que veio ao mundo para salvar a humanidade. No capítulo VII da Introdução do seu Livro dos Espíritos, ele afirma:
“Quando as crenças espirituais forem vulgarizadas, quando forem aceitas pelas massas e, a julgar pela rapidez com que elas se propagam, esse tempo não estaria longe, ocorrerá com ela o que ocorre com todas as idéias novas que encontraram oposição: os sábios se renderão à evidência”.
Ora, depois de mais um século e meio, o Espiritismo ainda não se afirmou como ciência, não passando de uma crença semelhante ao antigo Budismo. O grande mérito de Allan Kardec foi o de que, diferentemente de outros profetas, como Moisés ou Maomé, não apelou pela violência para expandir seu credo, pregando o amor e o surgimento de uma fraternidade universal, respeitando o sentimento religioso de todas as etnias. No seu túmulo, lemos:
“Nascer, viver, morrer, tornar a nascer e evoluir sempre. Esta é a lei”
Lutar pela evolução do ser humano, estando sempre disposto a adequar a fé às novas conquistas da ciência, é um dos aspectos positivos (junto ao repúdio de qualquer forma de violência) que diferencia o Espiritismo das três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, todas atreladas a dogmas fixos, imutáveis, impostos pelas autoridades eclesiásticas.

No Brasil, onde 40 milhões de cidadãos declararam cultivar o Espiritismo, o mais célebre divulgador da Doutrina Espírita foi Francisco Cândido Xavier (1910-2002), médium de Uberaba-MG, vulgarmente conhecido por Chico Xavier. Ele publicou mais de 400 livros psicografados, entre os quais relevamos Queda e ascensão da Casa dos Benefícios. Esta obra, conforme a crença, foi-lhe ditada pelo espírito Bezerra de Menezes, que deu nome a vários hospitais psiquiátricos em muitas cidades do Brasil. Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (1831-1900), nascido no Ceará e formado médico no Rio de Janeiro, proclamou sua adesão ao Espiritismo em 1875 e dedicou sua vida à assistência dos pobres, passando à história como o apóstolo da caridade. Além da sua função social, o Kardecismo no Brasil visa melhorar a vida interior de cada um. Independentemente da crença na existência de almas fora de um corpo, de sua transmigração e de sua comunicação com os seres vivos, o Livro dos Espíritos pode ser aceito como uma boa leitura de auto-ajuda.

III - Moisés: as Tábuas da Lei e o Judaísmo
Como a civilização do Ocidente se divide em antes e depois de Cristo, assim a religião judaica tem em Moisés sua figura central. As três grandes religiões monoteístas têm uma origem comum, centrada na figura mítica do patriarca Abraão, conforme descrito por Moisés, seu descendente, que foi o primeiro historiador e legislador do povo hebraico: o Judaísmo: do Velho Testamento; o Cristianismo do Novo Testamento (Jesus, descendente de Abraão e Sara, via Isaac e Jacó, também chamado de Israel); e o Islamismo: de acordo com o Corão, Maomé descende de Abraão e Agar, via Ismael.

Conforme os relatos bíblicos, teríamos a seguinte genealogia: Adão (depois de oito gerações) Noé (Jafé, Sem e Cam) de Sem (depois de mais oito gerações)  Abraão, que casou com Sara e teve Agar como concubina. De Sara Isaac Jacó e Esaú. De Jacó, depois de 37 gerações, conforme o evangelho de São Mateus, nasceu Jesus, com base na tradição judaica. Já, pela tradição islâmica, apoiada no livro do Gênesis, outra mulher de Abraão, a serva egípcia Agar, deu à luz Ismael, considerado o ancestral dos muçulmanos.

Moisés, que viveu ao redor do séc. XIII a.C., é o personagem bíblico central, não apenas do ponto de vista mítico, mas também histórico, pois sua figura se encontra entre os Patriarcas, os lendários fundadores da religião judaica (a partir do séc.XVIII a.C.) e os Profetas, os mestres de doutrina e anunciadores da chegada do Messias, que se sucederam do séc.VIII até ao II a.C. A Bíblia foi compilada ao longo de mais de um milênio, contendo mitos, lendas, histórias, leis, profecias, ritos, poemas, orações. A história da formação dos textos bíblicos é muito complexa e controversa, devido o longo tempo que se passou entre a tradição oral e o início da escritura, sucedendo-se vários contadores de histórias e redatores.

O Velho Testamento (“Aliança” entre Jeová e o povo judeu) foi escrito na língua hebraica, com algumas passagens em aramaico. Os diferentes escritos passaram a compor uma antologia traduzida para o grego, entre 250 e 130 a.C. É a lendária “Versão dos Setenta” (Septuaginta), encomendada por Ptolomeu II para a célebre Biblioteca de Alexandria do Egito. A tradução da Bíblia para a língua latina, incluindo os quatro Evangelhos canônicos, chamada de Vulgata, foi supervisionada por São Jerônimo (342-420). Os demais textos do Novo Testamento foram reunidos num único volume apenas no séc. VI.


Moisés (séc.XIII a.C): libertador e legislador

Moisés foi o chefe carismático, libertador e legislador do povo de Israel, que lutou para que os antigos hebreus tivessem uma pátria, um conjunto de leis e uma religião monoteísta. Sua personalidade histórica foi envolvida, ao longo dos tempos, por inúmeras lendas sobre seu nascimento, a saída do Egito em busca da Terra Prometida, a travessia miraculosa do Mar Vermelho, o recebimento das Tábuas da Lei por Deus no monte do Sinai. O núcleo das notícias sobre a figura de Moisés está no Êxodo (“saída”, “passagem”), mas outros Livros Sagrados também falam dele, especialmente o Deuteronômio (“A Segunda Lei”), também denominado de 5º Livro de Moisés. Conforme a tradição judaica, ele seria o autor do Pentateuco, o conjunto dos primeiros cinco livros do Velho Testamento. No cântico final do Deuteronômio encontra-se a descrição da morte de Moisés, após a investidura do seu sucessor Josué. Evidentemente, trata-se de uma ficção literária, pois Moisés não poderia falar de sua própria morte. A não ser que dêsse uma de Brás Cubas, o protagonista de Memórias Póstumas, o famoso romance de Machado de Assis.



O núcleo histórico que sustenta os vários episódios lendários sobre a vida e os feitos de Moisés é a sujeição dos hebreus ao poderio egípcio. A história registra a presença de judeus no Egito, durante a XV e a XVI dinastia (1730-1580), quando Iksos (chefes de populações asiáticas) conquistaram a parte baixa do rio Nilo. Lá se instalaram algumas tribos de Israel, nômades em sua maioria ou provenientes dos arredores do monte Sinai, península desértica e montanhosa nas proximidades do Mar Vermelho. Avançaram, assim, no território egípcio, naquela época região rica e progressista. Lá trabalharam e tiveram certa prosperidade. A Bíblia narra que José, filho do patriarca Jacó, chegou a ocupar funções importantes na corte do faraó. Mas, quando os príncipes de Tebas derrotaram os Iksos, fizeram uma limpeza étnica, expulsando todos os estrangeiros e inaugurando o Novo Império dos Faraós. Provavelmente, as lendas sobre a vida e os feitos de Moisés e o êxodo dos israelitas do Egito têm como pano histórico o reinado de Ramsés II (1298-1235). Moshé, em hebraico, significa “retirado”. A tradução do nome Moisés, portanto, é “aquele que foi salvo das águas”. Segundo o relato bíblico, o Faraó deu a seguinte ordem a seu povo:

“Lançareis ao rio todos os indivíduos do sexo masculino que nasceram dos hebreus, e deixareis viver todas as raparigas”
Este trecho encontra-se no cap. 1° do Êxodo, onde o autor bíblico descreve a inveja dos egípcios perante a prosperidade dos hebreus no Egito e a conseqüente perseguição étnica, que culminou com a expulsão do povo judaico. Um recém-nascido, filho de um casal da tribo de Levi, o terceiro filho de Jacó e Lia, foi abandonado nas águas do rio Nilo. Uma filha do Faraó, enquanto tomava banho, ouviu o choro e avistou a criança. Apiedou-se, então, e o adotou como filho. A história de Moisés salvo das águas é pouco original, pois tem precedente (a lenda de Sargon, rei da Babilônia, 2300 a.C, metido num cesto de vime e abandonado nas águas do rio Eufrates) e subseqüente (o nascimento dos gêmeos Rômulo e Remo, os fundadores de Roma, no séc. VIII a.C., tirados do rio Tibre por uma loba e depois criados por pastores). Adulto, Moisés, ao defender um hebreu chicoteado por egípcios, comete assassinato e foge para a cidade de Madian, onde se casa com a filha de um sacerdote e tem um filho a quem dá o nome de Gersam. Enquanto apascentava o gado do sogro, teve a primeira visão sobrenatural, pela qual recebeu a missão divina:
“Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó...vai, envio-te ao Faraó, para que tire do Egito o meu povo, os filhos de Israel” (Ex., 3).
Moisés retorna à corte do Faraó e revela ser o enviado do deus de Israel para salvar seu povo. O Faraó recusa prestar homenagem a Jeová e a situação dos hebreus no Egito se agrava, passando a serem escravizados. Para obrigar os egípcios a libertar o povo hebreu, Deus envia dez pragas (as águas convertidas em sangue, as rãs, os mosquitos, as moscas venenosas, a peste dos animais, as úlceras, o granizo, os gafanhotos, as trevas, a matança dos primogênitos). A décima praga, além de ser a mais cruel, é a mais importante por instituir a Páscoa hebraica. Por ordem divina, Moisés convoca os anciãos do povo de Israel para imolarem carneiros, embeber ramos de hissope (planta medicinal) no sangue e aspergir as ombreiras das portas dos israelitas, com o fim de poupá-los do genocídio que iria acontecer:
“No meio da noite, o Senhor matou todos os primogênitos do Egito, desde o primogênito do Faraó, herdeiro do seu trono, até os primogênitos dos animais...Guardareis a festa dos ázimos (o pão sem fermento), porque, nesse dia, fiz sair os vossos exércitos do Egito. Guardareis esse dia de geração em geração como uma instituição perpétua” (Ex.,11).
O Faraó, primeiro deixou partir, depois perseguiu os hebreus até o Mar Vermelho, onde se deu o milagre da secagem das águas até a passagem dos judeus. Logo em seguida, as águas se reuniram, afogando o exército egípcio. Enfim, os filhos de Israel chegam ao deserto do Sinai, onde se dá a revelação mais importante do Velho Testamento: o Pacto de Aliança entre Jeová e o povo de Moisés, com a promulgação das Tábuas da Lei, contendo os Dez Mandamentos. Tendo como texto de base o cap. 20 do Êxodo (Bíblia Sagrada, ed. Missionários Capuchinhos, Lisboa, 1974), apresento uma síntese do Decálogo atribuído a Moisés, tecendo algumas considerações a respeito.
As Tábuas da Lei:
“O Senhor pronunciou, então, todas estas palavras: “Eu sou o Senhor, teu Deus, o que te fez sair do Egito, de uma casa de escravidão. Não terás outro Deus além de Mim. Não farás para ti imagens esculpidas, nem qualquer imagem do que existe no alto dos céus, ou do que existe em baixo, na terra, ou do que existe nas águas, por debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto, porque Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus cioso que pune a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e à quarta geração daqueles que me ofendem, e uso de misericórdia até à milésima geração para com os que Me amam e cumprem os Meus Mandamentos”. Eis, a seguir, os dez mandamentos resumidos:
Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outro deus além de mim. Não farás ídolos.

Não tomarás em vão o nome do Senhor, teu Deus.

Lembra-te do dia de sábado para santificá-lo.

Honra teu pai e tua mãe.

Não mentirás.

Não cometrás adultério.

Não furtarás.

Não darás falso testemunho contra teu próximo.

Não cobiçaras a mulher do teu próximo.

10°Não cobiçarás a casa e outros bens do teu próximo.

Os primeiros três mandamentos podem ser agrupados num único item, pois visam estabelecer relações entre o homem e Deus, enquanto os outros sete estipulam as normas de vida dos homens entre si. A referência ao Egito, onde os hebreus haviam servido como escravos, deixa claro que Moisés queria mudar o tipo de religiosidade que fazia do Faraó um deus, ao qual eram dedicadas estátuas e templos com o fim de reforçar seu poder. O legislador hebraico parece não aceitar o sistema teocrático, que juntava o poder político e religioso numa única pessoa, nem os costumes politeístas, praticados no Oriente Médio, na sua época. Por isso, reuniu tribos aparentadas entre si, dando-lhes unidade política e religiosa.

O grande mérito de Moisés foi a organização da nação israelita a partir do culto atávico de tribos do Sinai ao deus Javé. O nome de YHWH,“Javé” (Yaveh ou Jeová são apenas variantes), conforme atestam estudos recentes, já era conhecido na Babilônia, a partir do ano 2.000, portanto, muito antes de Moisés, anterior até à época do patriarca Abraão. Este nome era tão sagrado que não devia ser pronunciado, sendo substituído pela palavra “Adonai” (Senhor). É lícito supor que Moisés não foi escolhido, mas foi ele a escolher essa divindade para conferir um padrão ético ao povo judaico. Na verdade, Moisés pregou uma monolatria e não um monoteísmo. Ele não negou a existência de outros deuses, mas ordenou que o culto externo fosse prestado somente ao deus do patriarca Abraão. A idéia do monoteísmo, a existência de um deus único, irá tomar consistência mais tarde, na época dos Profetas.

A proibição da adoração de imagens pintadas ou esculpidas visava evitar o politeísmo, muito comum na época, quando os deuses eram representados por ídolos, para que o povo pudesse adorá-los. Entende-se que os antigos hebreus, como outros povos daquela época, não tinham evolução espiritual suficiente para adorarem um Deus invisível. Mas o segundo mandamento criou controvérsias que persistem até hoje. Em primeiro lugar, esta passagem entra em contradição com outros trechos da Bíblia, onde Jeová ordena que se façam imagens. Se o próprio Moisés afirma que Jeová fez o homem a sua imagem e semelhança, ele admite certa configuração da divindade. De outro lado, esse preceito bíblico poderia valer apenas para o Velho Testamento, pois o Novo relata a vinda do Filho de Deus, Jesus Cristo, encarnado numa figura humana e adorado na forma de Crucifixo. Sem falar do culto que os cristãos prestam às imagens da Virgem Maria e de todos os Santos da Igreja Católica. Seria, então, uma nova forma de politeísmo? E como admitir que um mandamento tenha vigor apenas num tempo e num lugar se, para ser considerado divino, um preceito deve ter os requisitos básicos da imparcialidade, universalidade e atemporalidade?

A falta de qualquer uma das características apontadas acima nos leva a deduzir que a lei não provém de Deus, mas do homem que faz uso do Seu nome para impor a sua vontade. É o que faz Moisés servindo-se do nome de Jeová, não “em vão”, mas para legitimar suas Tábuas da Lei ao povo hebraico. Não nomear o nome de Deus em vão não implica apenas na condenação da blasfêmia (ofensa a Deus pela palavra), do sacrilégio (por atos) ou de qualquer outro tipo de insulto à religião ou de ultraje a fé numa divindade, mas também na utilização do nome de Deus para impor ideologias ou conseguir bens materiais. Isso vale especialmente para igrejas ou seitas religiosas que se servem do nome de Deus para explorar a boa fé de seus seguidores, prometendo recompensas materiais ou espirituais em troca do pagamento de dízimos ou da exigência de doações.

Também o 3° mandamento, que ordena santificar o sábado, deve ser entendido não como um preceito divino, mas uma necessidade fisiológica de qualquer ser vivo: o direito ao repouso, ao descanso, para recuperar as energias gastas durante vários dias de trabalho, evitando-se assim o esgotamento físico e mental. O dia de sábado ainda continua sendo considerado sagrado pelos judeus, enquanto os cristãos passaram a respeitar o domingo (do latim dominus = Senhor) como dia do Senhor, acrescentando outros dias festivos. A necessidade do descanso semanal é apenas uma característica humana impropriamente atribuída à divindade. Aliás, tudo o que está escrito no Gênesis sobre os trabalhos de Jeová na criação do mundo em seis dias é pura fantasia de Moisés ou de outro escrivão que redigiu o livro pressupostamente sagrado. Deus que, por definição, é onividente, infalível e eterno, estando, portanto, acima do tempo, não poderia afirmar coisas que seriam posteriormente desmentidas pela ciência humana, como demonstra a teoria da evolução, da qual falarei um pouco num próximo capítulo.

O 4º mandamento ordena honrar o pai e a mãe. Mais do que uma ordem divina, trata-se de uma exigência natural. Os pais nos dão vida, assistência, educação, amor. Se eles cumprirem o dever do exercício da paternidade, terão o direito de exigirem gratidão, respeito, afeto. Enfim, trata-se de uma reciprocidade, com base no princípio da relatividade: o pai não nasce antes do filho, pois ele adquire o status da paternidade no mesmo instante em que o filho vem à luz. Portanto, o 4º mandamento deveria ser complementado pela obrigação dos pais honrarem seus filhos, também. Infelizmente, o Velho Testamento é essencialmente patriarcalista, como a maioria das sociedades primitivas ou pouco desenvolvidas. O patriarca bíblico, como o pater famílias da Roma antiga, o capo di tutti i capi da máfia siciliana ou o chefe de famílias judaicas e muçulmanas, parece ter poder absoluta sobre os filhos, exigindo uma obediência cega, até na escolha da profissão ou de um parceiro para o matrimônio. Que dizer, então, da irresponsabilidade de pais e de mães que põem crianças no mundo sem terem condições materiais e espirituais para sua criação e educação. Há mães que abandonam crianças recém nascidas e pais que estupram ou prostituem as próprias filhas. A tais progenitores os filhos devem respeito? Se se faltar ao dever, como exigir direitos?

Os restantes seis mandamentos podem ser reduzidos a um só, ao 7º: Não Roubar, que implica no amor ao próximo. Com efeito, “não matar”, quer dizer, respeitar a vida do seu semelhante; “não cometer adultério” equivale a não desonrar a mulher do outro; “não dizer falso testemunho” é não faltar com a verdade, prejudicando um seu semelhante; e o último mandamento, bem abrangente, proíbe a cobiça de qualquer bem alheio. O preceito de não roubar, portanto, pode ser considerado o mandamento maior, que deveria sustentar a nossa vida social. Quem for educado a não roubar respeitará qualquer bem que não lhe pertença, seja privado ou público. A honestidade é o requisito básico para a construção de uma verdadeira cidadania. Já pensou se os políticos não roubassem tanto, se não houvesse corrupção e impunidade? Seria o Eldorado, o paraíso sonhado neste mundo!
A doutrina de Moisés
Os dez mandamentos, como outras leis de Moisés que constituem a Torá hebraica, na sua essência, não é matéria original, nem coerente. Portanto, não pode ser considerado objeto de inspiração divina. Eis alguns motivos:

1) O Decálogo é a realaboração de uma coletânea de leis existentes antes de Moisés. Trata-se do famoso “Código Hamurábi”, que exerceu grande influência na Palestina e em todo o Médio Oriente. Hamurábi (1793-1759), sexto rei da 1ª dinastia de Babilônia, ocupou outros reinos da Mesopotâmia e se tornou famoso por ter gravado numa coluna tumular rochosa um código de direito consuetudinário. Também no Livro dos Mortos, do qual os antigos egípcios colocavam alguns trechos nos sarcófagos para orientar as almas dos defuntos, encontramos normas morais semelhantes aos preceitos de Moisés. Os estudiosos afirmam que, anteriormente a Moisés e na Ásia Meridional, havia muitas lendas sobre tábuas celestes que haviam descidas miraculosamente à terra e comunicado conhecimentos secretos de caráter sagrado.

2) A Torá hebraica é um complexo de leis (agrária, familiar, penal, ritual), oriundo de costumes milenares e de caráter teocrático, de forma que a transgressão de uma lei civil era considerada um pecado contra Deus. Ora, sua codificação pressupõe um trabalho de desenvolvimento que começou antes e continuou depois de Moisés. A disseminação de normas éticas ao longo do Pentateuco e de outros livros, especialmente os didáticos (, Salmos, Eclesiastes) prova que não houve “revelação” divina instantânea, diretamente dirigida a um Patriarca num tempo e num espaço delimitado.

3) A contradição sobre o castigo divino, apenas para darmos um exemplo entre as inúmeras incongruências que podem ser relevadas no Velho e no Novo Testamento, é outro fator que nos induz a não acreditar na existência de uma Palavra divina revelada ao homem. Repetimos a proposição do Gênesis (20, 5):


Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus cioso que pune a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e à quarta geração dos que Me ofendem”.
Diferentemente, no Deuteronômio (24, 16) está escrito:
Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais: cada um será morto por seu próprio pecado”.
Em vista de que se, conforme afirmam rabinos e exegetas cristãos, Moisés é o autor dos dois Livros, é lícito perguntar qual dos dois textos bíblicos devemos considerar verdadeiro e, portanto, sagrado. Evidentemente, optaremos pela segunda versão, pois seria um absurdo supor que Deus seja menos justo do que um juiz humano que não transfere a culpa para um inocente. O primeiro texto, então, além da crueldade, atesta a mentira de Moisés, que enganou seu povo ao inventar uma revelação divina que nunca existiu.

4) O tratamento que Moisés dá à mulher é próprio de uma cultura (melhor dizer “barbárie”!) primitiva e machista, incompatível com uma inspiração divina. O profeta, no décimo mandamento, considera a mulher como um “objeto”, igual à casa do próximo, ao seu touro, ao seu jumento, ao seu escravo (mais um absurdo: um deus admitiria a escravidão humana?), que não deve ser “cobiçado”. O verbo utilizado nos enseja pôr em evidência mais uma estupidez: como um legislador pode proibir até o “desejo”, o ato do pensamento, algo que é incontrolável por natureza, proibindo-se não apenas o fazer, mas também o querer e o pensar?

5) É mais fácil entender que a “teofania” (aparição de Deus) do Sinai foi imaginada por Moisés para dar sustentação ideológica aos preceitos que se encontram no Decálogo, como a outras prescrições religiosas. Se Moisés dissesse: “eu” ordeno que o povo adore um único deus, que não mate, roube ou peque contra a castidade, evidentemente, seu discurso não teria a aceitação que teve. Colocando Jeová como sujeito da enunciação, o Patriarca dava credibilidade ao seu discurso, pois seria a palavra de Deus e não do Homem. Esta é a postura ideológica comum a todos os “profetas”, os homens que fingiram ou realmente se acharam inspirados por alguma divindade ao longo da história da humanidade. Se não fosse assim, ficaria difícil entender porque Deus privilegiaria o povo hebreu, confiando só a ele revelações sobrenaturais, em certa época e num determinado espaço, prejudicando os demais povos com a privação da luz e do socorro. Talvez seja deficiência mental minha, mas não consigo conceber um Deus faccioso, cruel, injusto! Evidentemente, esta descrição da onipotência, do arbítrio, da vingança ilimitada convém mais a um imperador assírio, babilônico ou persa daquela época do que a uma divindade, sendo a maior prova de que a religião é criação do homem, espelhando a mundividência relativa a um tempo e espaço circunscritos.

6) A moral judaica é incompatível com um Deus imaginado, pela sua própria essência, como um ser justo e misericordioso: sacrifícios de sangue humano (Abraão pronto a imolar seu filho Isaac) e de animais (o cordeiro na comemoração da Páscoa); obrigação do corte do prepúcio; sexo incestuoso (Lot seduzido por suas filhas); poligamia e subjeção das mulheres; a prática da escravidão; a transferência da culpa individual para a coletividade. Dir-se-á que os princípios éticos foram ministrados de acordo com as condições intelectuais e psíquicas daquela época. Mas tal concepção de Deus não é “demasiadamente humana”, como diria Nietzsche? Como preceitos limitados no tempo e no espaço puderam se tornar dogmas de fé, apresentados como verdades eternas e absolutas?



Os mitos bíblicos anteiores a Moisés
A Bíblia não fala apenas da história dos judeus (Velho Testamento) e do começo do cristianismo (Novo Testamento), mas também das origens da Terra e do Universo. A idéia de “início” dos tempos está contida na etimologia do primeiro livro: Gênesis tem como radical o termo “gene” (= nascimento), que deu origem a uma família de palavras pertencentes a línguas antigas e modernas do Oriente Médio e do Ocidente: genética, gineceu, ginecológico, genealogia etc. Enquanto o livro do Êxodo pode ser considerado uma teofania (a “fala” de Deus ao homem), o Gênesis é uma Cosmogonia (a “luta” entre os elementos do Universo). Podemos dividir o Gênesis em duas partes: a Criação do Mundo e de seus primeiros habitantes (1-11) e a História dos Patriarcas (12-50).
A fábula da criação do mundo
“No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. Deus disse: “Faça-se a luz”. E a luz foi feita... Façamos o homem a nossa imagem...Concluída toda a obra, no sétimo dia Deus repousou”.
A concepção de Deus que aparece no Gênesis é de um Construtor que edifica uma obra grandiosa no prazo de uma semana. Os hebreus, como outros povos primitivos, imaginavam a terra, moradia do homem e dos outros seres vivos, como um disco plano e circular a boiar sobre as águas salgadas do abismo e em baixo do firmamento, acima do qual existia um mar de água doce, de onde derramava a chuva. No subsolo habitavam os defuntos, enquanto o andar superior era a residência dos deuses. Tal descrição está de acordo com as aparências, anterior ao conhecimento científico da natureza. Como dizia um filósofo pré-socrático, “o homem é a medida de todas as coisas”: só podemos expressar o que está dentro de nós ou ao alcanço da nossa percepção.

Se é assim, cabe inverter a expressão bíblica de que Deus fez o homem a sua semelhança. A verdade é exatamente o contrário: é o homem que cria os deuses conforme a imagem que ele tem das coisas. Se o Deus do Velho Testamento é apresentado como um ser prepotente, excludente, injusto, ciumento, vingativo, é porque os hebreus daquela época eram assim. Na medida em que o povo judeu vai evoluindo, sua concepção de Deus irá adquirir feições cada vez mais espirituais e universais. Tal “evolução” é um fato inegável, admitido por todos os estudiosos e exegetas dos livros considerados sagrados, sejam eles católicos, protestantes, rabinos ou muçulmanos. E aqui cabe a pergunta: se os crentes admitem a evolução do espírito humano, por que rejeitam a teoria da evolução da matéria biológica?

Como veremos ao estudarmos Darwin, o princípio universal da evolução da vida, seja ela orgânica ou inorgânica, material ou espiritual, é o grande achado da ciência moderna, a única resposta racionalmente possível face ao mistério do Universo. A teoria evolucionista, apoiada no princípio de que natura non facit saltus (a natureza não dá pulos), irá substituir definitivamente a teoria do criacionismo bíblico, regido pelo fiat lux (a luz apareceu de repente, apenas por ato da vontade divina). Mas é evidente que não se trata de vontade divina. Se Ele realmente existisse e tivesse criado o mundo nos moldes descritos no Gênesis, seria um Arquiteto bem ruim.

Damos apenas dois exemplos: como explicar a existência das plantas antes da criação do sol? Como criar o Universo todo em apenas seis dias, quando a ciência nos ensina que a passagem do caos para o cosmo levou bilhões de anos? Estas e tantas outras inverdades e contradições, não apenas cosmológicas, mas também éticas (ordenar o genocídio de crianças!), só podem ser atribuídas à ignorância e à maldade humana. Um deus nunca poderia cometer tamanhas monstruosidades.

Os “profetas” de todos os tempos e de qualquer lugar, líderes que, numa altura de sua vida, se sentiram imbuídos de um espírito divino, devem ser considerados como visionários que se serviram do nome de Deus para dar credibilidade à sua concepção do mundo e impor sua doutrina e suas leis. Quem comete erros só pode ser o homem, pois Deus, por definição, é o ser perfetíssimo, onividente, onipotente, sumamente misericordioso. Em todos os trechos bíblicos, portanto, por justiça, deveríamos substituir “Deus disse” por Moisés, Salomão, Paulo de Tarso... disse. O mesmo diga-se com relação ao Corão: quem afirma coisas é o homem Maomé e não o deus Alá!

A justificativa costumeira é que a Bíblia não deve ser lida ao pé da letra, pois ela contém sentidos simbólicos e didáticos, expressos através de imagens poéticas, que relatam realidades peculiares de tempos e lugares. Tudo bem, de acordo. Mas, então, perguntamos, qual é a diferença entre os escritos dos dois Testamentos e os poemas épicos que a tradição nos legou? A inspiração divina? Mas o poeta grego Homero, ao escrever a Ilíada e a Odisséia, também ele se sentiu inspirados pela divindade:


Canta, o deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu....”
Este primeiro verso do poema A Ilíada deixa claro que o poeta se considera um intermediário entre a divindade e a humanidade, um “vate”, um profeta que revela um saber proveniente de uma esfera superior. O mesmo diga-se com relação ao romano Virgílio, autor da Eneida, e do italiano Dante Alighieri, que escreveu a Divina Comédia. O grandíssimo poeta florentino é o enviado de Deus que, acompanhado pelo pagão Virgílio e pela sua angelical amada Beatriz, revela aos homens o que se passa no Inferno, no Purgatório e no Paraíso, conforme a doutrina católica medieval e a realidade histórica da Florença da época do Autor. Por que considerar, então, os escritos de Moisés “inspirados” por uma divindade e os dos outros poetas épicos desprovidos de sacralidade, se, do ponto de vista imaginativo e educativo, Homero e Dante são de longe bem superiores a qualquer autor de textos bíblicos ou alcoraicos? A única figura humana verdadeiramente sublime é Jesus Cristo, mas, infelizmente, ele não escreveu nada. O que sabemos dele foi redigido por intermediários, muito tempo depois de sua morte.
O pecado original: é proibido conhecer a verdade
Voltando à leitura do Gênesis, estamos no Éden, o Paraíso primordial, onde nossos ancestrais, Adão e Eva, viviam felizes, gozando dos dons preternaturais, que lhes conferiam as imunidades do trabalho, da dor e da morte. Mas o homem perdeu esses benefícios por cometer o pecado do orgulho: comeu da fruta da árvore que lhe daria o conhecimento do bem e do mal, igualando-se, assim, a Deus. Esta forma de soberba era chamada pelos gregos de Híbris, a presunção de poder ultrapassar, impunemente, os limites impostos por uma força superior. A figura mitológica de Prometeu está bem próxima da descrição bíblica: enviado por Júpiter na terra para fazer um ser diferente dos animais, o Titã pegou do barro e esculpiu uma massa em que colocou a fidelidade do cavalo, a força do touro, a esperteza da raposa e a avidez do lobo. Mas lhe faltava vida espiritual. Prometeu, então, roubou uma centelha do fogo divino para animar sua criatura. E Júpiter se vingou enviando Pandora com sua caixa de desgraças que se espalharam pelo mundo.

As duas narrativas, bem semelhantes, tentam explicar a origem da insatisfação humana, que não se contenta com sua condição precária, querendo sempre saber e obter mais. O que causa espécie, quer no mito bíblico de Adão, quer nas lendas gregas de Prometeu e de Édipo, é a transmissão da culpa de pai para filho, de geração para geração. Conforme a justiça humana, nenhuma culpa é transferível de uma pessoa para outra. Os filhos podem herdar a “pena”, ser vítimas de ações desastrosas feitas pelos pais, mas nunca a “culpa”. Porque Adão e Eva comeram a maça nas origens da criação da raça humana, ainda hoje, após milhões de anos, uma criança e sua mãe herdam não só a conseqüência desse pecado, a dor do parto, mas também a culpa, necessitando da água batismal para lavar a alma. E quem não receber a água benta na cabeça será um excluído do reino do céu. Coitados dos homens que tiveram a infelicidade de viver antes de Cristo ou de não encontrar um padre ou um pastor que os batizasse!

Na verdade, o mito da “queda” de Adão é, por si só, um absurdo, algo que ofende a inteligência humana. Se Deus criara o homem livre, feliz e imortal, por que o sufocou com uma proibição impossível de obedecer? Se é próprio da natureza humana o “querer saber”, pois o suposto Criador fez o homem com um cérebro dotado de neurônios, as células do pensamento, por que, então, a ordem de manter o homem na ignorância? E se Ele, como ser onividente e onipotente, sabia de antemão que Adão não teria resistido ao sabor da fruta, por que o submeteu ao fracasso? Algum pai humano assistiria indiferente à desgraça de um filho, se pudesse evitá-la, apenas para salvaguardar seu livre arbítrio?

Pior é que o culto à ignorância, a proibição do querer saber, ainda persiste na sociedade moderna. Se há algo em comum em todas as religiões é a recusa de aceitar o raciocínio lógico, o bom senso, a realidade histórica, a verdade científica. Mandam simplesmente acreditar no que alguns exaltados, achando-se inspirados por uma divindade, disseram milhares de anos atrás. E alguns homens, que tiveram a ousadia de refletir por conta própria, diferenciando-se do que Nelson Rodrigues chamou de “unanimidade burra”, foram considerados loucos e castigados. A literatura tem páginas admiráveis sobre este tema: O elogio da loucura, do humanista holandês Erasmo de Roterdam; O alienista, de Machado de Assis; Assim falou Zaratustra, de Friedrich Nietsche; Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.


A Arca de Noé
Adão, que tinha desobedecido a Deus, gera o filho Caim, que acaba matando o irmão Abel por ciúme, pois o Senhor gostava mais do churrasco do rebanho de Abel do que dos legumes oferecidos por Caim. Com tais ancestrais invejosos e fratricidas, não temos porque estranhar a continuada matança dos homens entre si, ao longo dos séculos! Talvez as lendas sobre Caim e Abel estejam ligadas à passagem da agricultura para a pecuária, ao longo da evolução da civilização hebraica.

Adão, que morreu com 930 anos, teve outros filhos. A linhagem de Set deu origem à série dos dez Patriarcas, anteriores ao Dilúvio, que constituem a ponte, sustentada por dez largos arcos, que liga Adão a Noé. Destaque para o patriarca Matusalém, que viveu 969 anos, vindo a ser o avô de Noé que, com 500 anos (e sem Viagra!) gerou Sem, Cam e Jafet. Essa cronologia bíblica gera muita suspeita, visto que os povos primitivos têm uma média de vida bem inferior à dos civilizados. Veja-se a grande mortalidade no meio das povoações indígenas, desprovidas de assistência médica, odontológica e hospitalar.

Sempre conforme a Bíblia, depois de uma época de heroísmo e grandiosidade, a humanidade se corrompeu e Deus se arrependeu de ter criado o mundo, determinando sua destruição. Quis salvar apenas o único homem justo, Noé, a quem deu a ordem de construir um enorme barco, onde pudesse abrigar sua família e um casal de cada espécie de animais e de plantas. Aí, abriu as torneiras do céu e mandou chover torrencialmente durante quarenta dias. As águas cresceram e levantaram a arca, fazendo-a flutuar, enquanto todas as outras criaturas desapareceram. Passado o dilúvio, Noé construiu um altar ao Senhor e ofereceu holocaustos. E Deus estabeleceu um Pacto de Aliança com Noé e sua descendência, prometendo nunca mais castigar a humanidade. E selou este acordo com a criação do Arco Íris.

Também o episódio bíblico do Dilúvio não é original. Nas mitologias antigas há várias formas de dilúvio descritas como castigo de Deus. Essa lenda mesopotâmica deve ter tido origem em inundações do rio Tigre ou Eufrates. Provavelmente, foi aproveitada por Moisés ou outro escritor bíblico para explicar a desordem cósmica: primeiro, Adão revolta-se contra Deus (humanidade vs divindade); depois, Caim contra Abel ( homem vs homem); enfim, as águas contra Noé (força da natureza vs homem). O Dilúvio é um dos pontos centrais do Velho Testamento, porque representa a mediação das três Alianças que o Deus bíblico teria estabelecido com o povo hebreu, estando no meio entre a Aliança que Deus fez com Abraão (escolha do Povo) e a que fará com Moisés (conquista da Terra Prometida). Certo é que o episódio bíblico do dilúvio está ligado à memória mítica de povos primitivos assustados por imensas inundações ocorridas quando se formaram o Mar Negro e o Mediterrâneo.


A Torre de Babel
Após o dilúvio, os três filhos de Noé, Sem, Cam e Jafet, se dispersaram, dando origens a várias tribos, que acabaram falando dialetos diferentes. Para explicar a origem da diversidade de línguas, o narrador bíblico reporta a lenda da Torre de Babel: Deus teria punido o orgulho dos homens que, pela construção de uma torre altíssima, queriam alcançar o céu. O Senhor, simplesmente, confundiu a língua dos pedreiros. A aspiração humana para o alto se encontra também no mito grego de Ícaro, que alçou vôo por cima do mar com duas asas de cera, que o sol derreteu. O fato histórico que está por baixo da narração bíblica é que na cidade de Babel (outro nome de Babilônia, então centro comercial do Oriente), chegavam mercadores de vários países, que falavam diferentes idiomas.

A verdade é que os primeiros onze capítulos do Gênesis, que acabo de resumir, constituem a pré-história da cultura judaica. A língua hebraica, em que foi redigida o Velho Testamento (descontando alguns trechos em aramaico), pertence ao ramo cananeu do grupo semítico. Sua origem remonta ao séc. X a.C., época em que se encontram registrados os primeiros documentos históricos, poéticos e litúrgicos. Tudo o que aconteceu anteriormente foi transmitido pela tradição oral e, só bem mais tarde, pessoas alfabetizadas começaram a pôr por escrito histórias que ouviram de seus antepassados. Se a isso acrescentarmos o fato de que os livros bíblicos tiveram vários redatores e em épocas diferentes, não é difícil entender a causa de tantas repetições, contradições, inverdades.


O Patriarca Abraão (séc.XVIII)
Abraão é o Patriarca ao qual estão ligadas as três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Pouco sabemos sobre sua origem histórica. Os estudiosos acham que foi um chefe de um clã arameu, tribo seminômade, que penetrou na região de Canaã (atual Palestina), proveniente da Mesopotâmia, entre o séc.XIX e XVIII. A opinião convergente é que Abraão viveu uns seis séculos antes de Moisés. Segundo a narração do Velho Testamento, Abraão foi escolhido por Deus para dar uma pátria às tribos hebraicas, que eram nômades. Ele instalou seu clã na cidade de Hebron, na região da Judéia (daí a etimologia do povo “hebreu” ou “judeu”), exercendo atividade pastoril.

Seu neto Jacó e seu bisneto José foram morar no Egito, no delta do Nilo, onde, como vimos, também viveu Moisés. A verdade é que, entre 2000 e 1500, a maioria dos povos da Ásia Ocidental e do Médio Oriente já havia sofrido influências dos impérios da Babilônia e do Egito, que apresentavam civilizações bem mais desenvolvidas. Somente no fim do séc. XIII o Egito cessou de exercer seu domínio sobre as cidades-estado da Cananéia. Portanto, ao falarmos de “êxodo”, não sabemos ao certo se foram os hebreus que saíram do Egito ou os egípcios que deixaram a região de Canaã. Tribos, que habitavam a região do Sinai, adoravam Jeová e haviam vivido sob o domínio egípcio, talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito, mas sem sair de sua própria terra.

Seguindo de perto o relato bíblico, conforme o Gênesis: Abraão casou com Sara, mas não teve filhos. Por comum acordo do casal, o patriarca engravidou a escrava egípcia Agar, que deu à luz a Ismael. Deus apareceu a Abraão e fez com ele uma Aliança: ele seria o pai de um menino que nasceria, milagrosamente, do ventre estéril de sua velha esposa, cuja descendência dominaria o mundo. Abraão e Sara, então, geraram Isaac, que se tornou o pai de todos os judeus, enquanto Ismael daria origem ao povo muçulmano.
A circuncisão: o batismo pelo sangue
O pacto estabelecido entre Jeová e o patriarca Abraão, que implicava a promessa da Terra de Canaã (a atual Palestina), tinha, como contrapartida, a obrigatoriedade da circuncisão, que se tornaria o batismo dos hebreus. Trata-se de uma mini-cirurgia para remover o prepúcio, a pele que envolve a cabeça do pênis, feita pelo mohel, a pessoa experta nesse ofício, sempre no oitavo dia do nascimento da criança. Em algumas sociedades muçulmanas, também os bebês do sexo feminino são submetidos ao ritual da circuncisão: a raspagem do clitóris e dos grandes lábios, seguida pela costura da vagina, deixando apenas uma pequena abertura para a passagem do sangue e da urina. Há várias hipóteses para a explicação de práticas tão nojentas. A circuncisão seria um rito preparatório, um vestígio simbólico de sacrifícios de homens e de animais à divindade para obter proteção? Uma medida higiênica e profilática para impedir a acumulação da secreção genital com o fim de evitar infecções? Provocar o enfraquecimento do prazer sexual? Este último objetivo parece o mais plausível, pois é comum a todas as religiões dominar a sociedade pelo controle do instinto sexual.

É preciso também salientar que a circuncisão não foi uma invenção de Moisés. Os hebreus assimilaram o rito da circuncisão dos egípcios e, mais tarde, ensinara-o aos muçulmanos, via Velho Testamento. Já os cristãos, de uma moralidade menos cruel, seguindo o exemplo de São João Batista, substituiram o batismo de sangue por um batisma incruento, mediante o uso da água, que purifica sem machucar. De qualquer forma, temos que admitir que a mutilação das genitálias infantis não é compatível com o argumento do “projeto”, a necessidade da existência do grande Arquiteto, o inteligente criador do universo: por que Deus faria nascer uma criança com o prepúcio para depois ordenar seu corte? Um bebezinho, que já nasce chorando pela desgraça de ter vindo ao mundo, logo deve ser submetido à dor de um derramamento de sangue. Tamanha crueldade não pode ser atribuída à vontade divina, mas apenas à estupidez humana.


O sacrifício de Isaac: a suma vergonha divina e humana
Deus pede a Abraão o sacrifício de seu filho único (Ismael, por ter sido gerado por uma escrava, não era considerado seu filho!) para testar sua fidelidade. O patriarca, obedecendo à voz do Senhor, ata as mãos e os pés de Isaac, coloca-o sobre o altar e pega num facão para degolar a criança. Mas um anjo intervém e substitui o menino por um carneiro para o sacrifício. Este episódio deixou uma mancha indelével na história do Velho Testamento. É inconcebível que um pai, seja ele deus ou homem, tenha a coragem de cometer um ato tão cruel! Vergonhoso é para quem ordena (Deus) e para quem obedece (Abraão). Pior é perceber que o patriarca conhecia muito bem o procedimento do sacrifício sangrento: prepara a lenha para o holocausto, amarra o garoto sobre ela, levanta a faca pronto a matar a criança como um animal.

E esse não é o único caso na história das religiões. Lembro apenas o sacrifício de Ifigênia: estamos na Grécia do séc. XII a.C. (quase na mesma época do bíblico Moisés), no início da Guerra de Tróia. Agamenão, o poderoso chefão da coligação grega, se vangloria de ser melhor caçador do que Diana. A deusa, então, se vinga exigindo o sacrifício de Ifigênia, a jovem filha de Agamenão. O pai, obedecendo à vontade divina, manda vir a filha da cidade de Micenas, com o pretexto de querê-la casar com o herói Aquiles. Mas ela encontra o altar, não preparado para o matrimônio, mas para o sacrifício humano. E também aqui, a divindade, no último instante, se apieda da jovem, substituindo-la por uma cerva. O poeta latino Lucrécio, ao comentar este episódio da mitologia grega na sua obra De Rerum Natura (Sobre a natureza das coisas), exclama:


Tantum religio potuit suadere malorium!

(Até que ponto a religião pode incentivar o crime!)


Este grande poeta romano viveu no primeiro século antes de Cristo e apresentou poeticamente a teoria atômica de Demócrito, o filósofo grego que tentara explicar, de uma forma materialista, a origem e a constituição do Universo. Lucrécio assumiu também a missão de divulgar os princípios éticos do filósofo Epicuro, que ensinava serem a ignorância e o medo os sustentáculos de qualquer religião. Ele antecedeu, por mais de dois milênios, os atuais pensadores Christopher Hitchens (Deus não é grande) e Richard Dawkins (Deus, um delírio), entre tantos outros, que demonstram como as religiões são nocivas ao desenvolvimento da civilização humana. Na verdade, ao longo dos séculos, sempre existiu gente que, fazendo uso da razão e do bom senso, contestasse os dogmas religiosos e o princípio da autoridade divina ou humana. Mas foram vozes isoladas e abafadas pelo poderio econômico, que se serve da religião para impor suas ideologias. A grande massa popular, pobre e ignorante, sempre foi (e continua sendo) vítima de impostores religiosos ou políticos.

Volto ao resumo do relato bíblico. Isaac, salvo do sacrifício, casou com Rebeca, que gerou Esaú e Jacó. Eram gêmeos, mas Isaac foi o primeiro a vir à luz, puxando Jacó que se segurou no seu calcanhar. Chegados à mocidade, porém, Esaú vendeu seu direito de primogênito por um prato de lentilhas, e casou, ao mesmo tempo, com duas mulheres, que lhe atormentaram a vida. Jacó vai para a Mesopotâmia, onde também ele, mas no prazo de uma semana, casa com duas jovens, as filhas de Labão, Lia e Raquel. Trabalha sete anos para conseguir a mão da amada Raquel, mas, na manhã seguinte à noite de núpcias, percebe que dormira com Lia, a filha mais velha de Labão, que o enganara, exigindo a promessa da obrigação de mais sete anos de trabalho para consentir seu casamento com Raquel. Terminado o contrato de trabalho, Jacó volta para a região de Canaã, levando consigo Lia e Raquel, além de seus filhos e de todos os bens de Labão. Deus aparece a Jacó e lhe troca o nome: passaria a se chamar Israel. Raquel morre de parto ao dar à luz Benjamim e é enterrada em Belém. O penúltimo filho de Jacó, José, preferido pelo pai e, por isso, odiado pelos irmãos, é vendido a caravaneiros que o levam para o Egito, onde é comprado pelo poderoso eunuco Putifar e é apresentado ao Faraó como intérprete de sonhos. Por isso é promovido e pode ajudar seu pai e os irmãos que o seguiram no Egito. O Gênesis acaba com os funerais de Jacó.


Os Profetas : do Êxodo à última Diáspora
Como temos visto anteriormente, seguindo o relato bíblico, Moisés, pelo Pacto da Aliança feito com o Senhor, teria tido a incumbência de construir uma unidade nacional. Para isso, libertou os judeus do jugo dos egípcios e, após quarenta anos de peregrinação no deserto ao redor do monte Sinai, acabou levando as doze unidades tribais para a região de Canaã (atual Palestina), a Terra Prometida. Conforme está escrito nos dois Livros de Samuel, redigidos bem mais tarde, ao redor do séc. VII a.C., Samuel, sucessor de Moisés, é o último dos Profetas-Juízes, pois seu sucessor, Saul, abdicou da judicatura em favor da realeza, tornando-se o primeiro Rei de Israel.

Mas a Monarquia se consolidou realmente com seu sucessor, Davi (1010-970), considerado o verdadeiro fundador do Estado hebreu. Ele venceu filisteus, amonitas, arameus e edomitas, construindo um relevante império judaico e escolhendo a cidade de Jerusalém como capital, ao redor do ano 1000. Seu filho e sucessor Salomão (970-931) foi famoso pela construção de um templo maravilhoso e pela sua sabedoria. Recentes escavações num sítio de mineração na Jordânia confirmam a existência das lendárias “minas do Rei Salomão”, provavelmente no primeiro milênio a.C.

Mas Salomão, pelo seu pendor para a magnificência e a idolatria, levou os hebreus à decadência moral e à cisão política. Após sua morte, as doze tribos se separaram em dois reinos. O de Israel, ao Norte, de 931 a 721, com capital em Sumária, teve 19 reis e 5 dinastias e acabou sucumbindo sob os golpes do império assírio. Outro reino, o de Judá (nome de um filho de Israel) durou até à destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, em 587, quando a elite do povo judaico foi deportada para a Babilônia. O exílio durou até à ocupação da Babilônia pelo império persa. Um edito de Ciro o Grande, no ano de 538, permitiu a volta dos exilados hebreus para a Palestina. Em 517, foi construído o segundo Templo de Jeová em Jerusalém. Mas muitos israelitas preferiram permanecer na Babilônia, região culturalmente mais avançada, de onde deram uma importante contribuição para a divulgação da cultura hebraica.

Por sua vez, os exilados, que preferiram retornar para sua terra de origem, levaram consigo nove rolos de papiros que traçavam a história de seu povo desde a criação até a deportação: Gênesis, Êxodo, Levítico e outros livros de Juízes, Reis e Profetas, estabelecendo, assim, o esqueleto da Bíblia hebraica. Passava-se, gradativamente, da heterogenia da coleção de textos à formação da unidade da Escritura. A prova de que tal unidade foi um produto posterior é que não encontramos diálogos entre os vários Livros do Velho Testamento. Os Profetas, por exemplo, nunca fazem referências às Leis de Moisés.

A verdade é que, após o avanço das pesquisas arqueológicas, a partir da década de 1980, muitos estudiosos passaram a não acreditar mais em relatos e personagens bíblicos que não fossem corroborados por fontes externas aos textos considerados sagrados. A maioria chegou à conclusão de que os eventos mais antigos descritos no Velho Testamento são invenções humanas e não revelações divinas. Após uma transmissão oral de longas gerações, apenas a partir do séc. V a.C., os episódios bíblicos, até então esparsos, começaram a ser reunidos e redigidos na língua hebraica.

As vitórias de Alexandre Magno, filho de Felipe da Macedônia, puseram fim à dominação persa. Em 322, conquistou a cidade de Tiro e, sucessivamente, toda a Palestina, que, em 301, ficou sendo província do Egito e, em 198, passou a ser domínio da Antioquia. Em 142, pelo valor de Judas Macabeu, a Síria concedeu independência política aos judeus. Em 63, Pompeu ocupou Jerusalém e, em 37, Herodes foi nomeado governador romano. O fato capital que dominou todo este período foi a difusão do Helenismo no mundo oriental. Com Alexandre e seus sucessores, a civilização grega penetrou no Oriente Médio, até então pouco conhecida naquelas regiões. E o Judaísmo não logrou escapar desta influência. Tanto é que foram os judeus alexandrinos a realizar a tradução em grego do Antigo Testamento, dita dos Setenta (Septuaginta).

O povo hebreu (israelitas e judeus), inicialmente nômade, ao contato com tantas outras etnias mais desenvolvidas, aprendeu a agricultura, a técnica de construir residências, o culto de deuses diferentes. A Bíblia relata que, até à destruição do Templo de Jerusalém por Nabucodonosor, em 586, os hebreus praticavam o politeísmo, prestando culto não apenas a Jeová, um bom deus guerreiro, mas também às divindades da fertilidade dos antigos habitantes da Cananéia, quando desejavam uma boa colheita. Os principais deuses locais, anteriores à invasão dos hebreus, eram Baal e sua irmã-esposa Anat (ou Astarte), representados, respectivamente, por um touro e uma vaca. Em sua homenagem, os devotos praticavam o rito sexual coletivo para tornar os campos férteis.

A estas divindades, expressões do instinto sexual e da paixão amorosa, eram imolados até seres humanos. A luta entre diferentes credos e costumes era inevitável. O Livro dos Juízes narra episódios de guerras fratricidas, raptos de moças, sacrifícios cruentos. Na época dos Juízes e dos Reis, os hebreus foram atraídos pelos cultos idolátricos. E por isso vinham sendo continuamente admoestados pelos Profetas (Isaias, Jeremias, Daniel etc.). Oséias, no início do séc.VIII, foi o profeta que mais invectivou contra esta prática, pois sentiu na carne a dor da infidelidade: sua mulher, Gomer, servira como prostituta sagrada ao deus Baal.

Um culto mais civilizado, através de orações nas sinagogas, já começado durante o Exílio na Babilônia, somente foi oficializado depois que os romanos destruíram o segundo Templo de Jerusalém, em 70 d.C., quando acabaram definitivamente os ritos de sacrifícios cruentos sobre o altar. Mas já estamos na época da última diáspora, palavra grega que significa “dispersão”. Após a diáspora no Egito, na Assíria e na Babilônia, os judeus, revoltando-se contra o domínio romano, perdem sua independência e sua pátria. A partir daí, tornam-se cidadãos do mundo, criando focos de cultura hebraica em Atenas, Alexandria, Roma e, evidentemente, na Palestina.
O Judaísmo depois de Cristo
O povo hebreu não reconheceu na figura de Jesus Cristo, pobre e crucificado, o tão esperado Messias, o enviado de Deus. Tanto é verdade que, pelo calendário judaico, o ano cristão de 2007 corresponde ao ano hebraico de 5768. A diferença dos 3.761 anos deve-se ao fato de que a contagem judia inicia com a data mítica do nascimento de Abraão, o primeiro patriarca. Os judeus sonhavam (e continuam sonhando) com o advento de um Messias como herói glorioso, tipo rei Davi, que viesse salvar sua gente dos invasores estrangeiros. Dispersos pelo mundo, continuaram a cultivar sua fé, acreditando na revelação que seu deus Jeová teria feita a Moisés e aos outros profetas.

No começo do séc. II d.C., começa a compilação do Talmude, que vai se tornar a nova bíblia judaica. Os hebreus consideram sagrados apenas os livros do Velho Testamento escritos em hebraico: Pentateuco (Torá ou Lei de Moisés), os Profetas (Neblim) e os Hagiógrafos (Ketubim). Visto como a interpretação autêntica da Torá mosaica, o Talmude divide-se em duas partes: Mishna, que contém a “Lei Oral”, que a tradição atribui a Moisés, e Gemara, os comentários dos rabinos. Atualmente, o texto mais utilizado pelos estudiosos judeus é o Talmude da Babilônia, editado no séc.VI d.C.

No fim do séc. XII, Maimônides, o maior teólogo hebreu, fixou os 13 princípios da fé judaica: 1) Deus é o criador e provedor do mundo; 2) Ele é uno e único; 3) Ele é puro espírito e não pode ser representado sob nenhuma forma; 4) Ele é eterno; 5) somente a Ele devemos elevar nossas orações; 6) todas as palavras dos profetas de Israel são verdadeiras; 7) Moisés foi o maior dentre os profetas; 8) a Lei conhecida pelos judeus foi dada por Deus a Moisés; 9) ninguém tem o direito de substituí-la nem de modificá-la; 10) Deus conhece todas as ações e todos os pensamentos dos homens; 11) Ele recompensa aqueles que cumprem seus mandamentos e pune aqueles que os transgridem; 12) Ele enviará o messias anunciado pelos profetas; 13) Ele dará vida aos mortos.

O Talmude não é apenas uma coleção de preceitos religiosos e morais, mas um ordenamento da vida dos que acreditam na religião judaica, legiferando sobre política, costumes, a prática da justiça, a necessidade do trabalho, o comportamento na guerra, as relações familiares (casamento entre pessoas da mesma fé, batismo pela circuncisão etc.).

O sofrimento do “hebreu errante”, o apátrida que é perseguido nas nações onde se hospeda, privado de exercer os mandamentos da sua fé, não é um mito, mas uma realidade histórica. No séc. XII, a Igreja Católica criou o Tribunal da Santa Inquisição para combater várias heresias (albingenses e cátaros, principalmente). Na península ibérica, a Inquisição atuou também contra os chamados “cristão-novos”, os hebreus que eram obrigados a renunciar ao Judaísmo e forçados a aderir ao Catolicismo. Da Espanha e de Portugal a perseguição contra os judeus chegou também ao Brasil e a outros países da América Latina. As penalidades iam do confisco dos bens, até à prisão e à condenação à morte. Essa infâmia só terminou na tradição lusitana com a Reforma do Marques de Pombal (1699-1782).

Muito pior ainda foi o “Holocausto”, etimologicamente significando uma imolação sagrada, a consumação da vítima sacrifical pelo fogo. Modernamente, passou a designar os 12 anos de perseguição nazista contra os judeus (1933-1945), especialmente durante a Segunda Guerra Mundial. Os campos de concentração e os fornos crematórios foram criados para realizar uma limpeza étnica, visando o extermínio de todos os judeus residentes na Europa. É incompreensível tanto ódio no coração humano, pois foram barbarizados velhos, crianças e gente inocente.

Mas, enfim, certa justiça foi feita: em 1947, atendendo a uma resolução da ONU, foi criado o Estado de Israel, numa faixa do território da Palestina, com sede em Jerusalém, que passou a ser considerada uma cidade internacional. Realizava-se, assim, o antigo sonho do Sionismo (de “Sion”, colina de Jerusalém), o movimento que reunia os judeus da diáspora, visando o retorno à antiga Canaã. O Sionismo foi intenso especialmente na época do Romantismo, quando na Europa se cultivou o sentimento do Nacionalismo. Em 1901 foi criado o Fundo Nacional Judeu para a compra de terras na Palestina, que deu início à imigração de hebreus.

Israel, porém, ganhara a pátria, mas não a paz. Após mais de três milênios, continua a luta entre judeus e seus vizinhos. E isso porque, o que é considerado “reconstrução” para os primeiros, é tido como invasão para os segundos. Os árabes não aceitam o mito bíblico da Terra Prometida por Jeová ao povo judeu. Na verdade, Israel não é a terra natal e original do povo hebraico, pois Moisés ocupou pela força bélica a terra onde habitavam os antigos cananeus. A própria etimologia da palavra Jerusalém, “fundamento de Shalem”, primitiva divindade da terra de Canaã, nos autoriza a pensar assim.

Enfim, por baixo das diferenças étnicas, predomina o contrastante credo religioso que, como sempre, fomenta ódio e violência. Na região do Médio Oriente, atualmente, continua se travando uma briga entre as três religiões monoteístas: Jeová (representado pelo seu profeta Moisés) vs Alá (representado pelo profeta Maomé) vs Deus Pai (representado pelo Filho, Jesus Cristo). E tais deuses, embora concebidos como seres onividentes, onipotentes e sumamente misericordiosos, dificilmente entram em acordo. Seria mais fácil se os homens, relegando o sentimento religioso à esfera individual, se entendessem entre si, usando a razão e o bom senso, preocupados apenas em viver da melhor forma possível neste mundo, do qual não é nos dado conhecer as origens, perdidas na noite dos tempos, nem prever seu fim.

Na história de qualquer religião, podemos notar a contradição entre a fixidez dos dogmas e a necessidade da evolução. No caso do Judaísmo, percebemos como o povo hebraico partiu de formas religiosas mesquinhas e violentas, próprias de gente primitiva e selvagem: Moisés foi assassino, fujão, polígamo, guerreiro cruel e vingativo, conforme está escrito no livro do Gênesis, de que ele próprio é considerado autor. E os Patriarcas, os outros Profetas e todos os seus seguidores não foram melhores. Mas, aos poucos, por evolução progressiva, o povo israelita sentiu a necessidade de aceitar o monoteísmo, de acreditar no messianismo e na retribuição futura, de depurar suas doutrinas, visando alcançar uma maior universalidade e espiritualidade.

Esta tese da evolução da fé judaica parece ser aceita por quase todos os estudiosos da Bíblia. Os rabinos chamavam a exegese dos textos bíblicos de midrash (“investigação”), pois trechos apresentavam interpretação diferente a cada leitura. A Palavra dos Profetas, portanto, como o sentido da Palavra dos Poetas, é inesgotável. Por isso, Religião e Literatura, por usarem uma linguagem polissêmica (sujeita a várias interpretações), são ramos de conhecimento perene e universalmente estudados.

Mas, se se admitir a contínua evolução do dogma religioso, a Escritura podendo ter erros de interpretação, onde fica a verdade da Revelação divina? Será que Jeová foi revelando sua doutrina a uma miríade de profetas, aos poucos, em picadinhos, ao longo de um milênio? E, se os vários redatores do Velho Testamento apresentam passagens conflitantes ou inverdades, como julgar quem estaria com a razão? A verdade é que em todas as épocas da humanidade e em todas as regiões do mundo sempre surgiram homens que se julgaram dotados de inspiração profética. Em quem acreditar, então? Simplesmente, em nenhum!

Efetivamente, com base em que critério pode-se acreditar que o povo hebreu foi escolhido por Deus, em detrimentos de outros povos? Os judeus, por acaso, são mais bonitos, mais inteligentes ou mais devotos do que outros seres humanos? Pensar assim é negar a própria existência de Deus, pois não se concebe uma divindade facciosa, arbitrária, discriminatória, vingativa, injusta. Voltamos a dizer, então, que seria a concepção de um Deus “humano...demasiadamente humano”, para usar outra vez a expressão de Nietzsche.

Talvez seja o orgulho dos judeus, que se acham os prediletos de Deus, uma raça superior que não admite miscigenação, a suscitar o ódio de nazistas (outra facção humana que se acha privilegiada!) e de outros grupos anti-semitas. É uma pena que não se chegue a uma convivência pacífica entre as várias etnias que habitam o Médio Oriente. Li, recentemente, sobre um projeto turístico internacional, que pretende recriar a rota percorrida pelo patriarca Abraão. A idéia é ligar, por uma estrada de rodagem, o Egito à Turquia, passando por Hebron (Cisjordânia), Jerusalém (Israel), Monte Nebo (Jordânia), Damasco (Líbano), chegando até Urfa, na Turquia, na tentativa de integrar vários povos de raças e credos diferentes.

Mas isso só será possível se o homem colocar a esperança de salvação não num outro mundo, mas neste em que vivemos, não na teologia, mas na filosofia, não na fé, mas na razão. Acima de qualquer preconceito religioso, temos que colocar o bom senso, visando uma convivência pacífica entre os povos. A Palavra do Deus de todos os profetas (Moisés, Cristo ou Maomé) converge numa moral natural. Devemos a Emanuel Kant, o filósofo alemão que revolucionou o estudo da ética, colocando a Razão ao centro do conhecimento (como Copérnico colocara o Sol ao centro do universo), a reflexão mais profunda sobre o estabelecimento de uma moral universal. Seu famoso imperativo categórico pode ser assim formulado:

“ame teu próximo, de forma a não causar a outra pessoa

o mal que não gostaria que fosse feito a ti!”.
Tal mandamento, que condensa todos os princípios éticos, no tempo e no espaço, não precisa de justificativa religiosa, pois é intrínseco ao viver em sociedade. Enfim, ao terminar este pequeno estudo sobre o Judaísmo, por justiça, é bom reconhecer que descendentes de Moisés, que viveram longe do pequeno mundo da Palestina, se tornaram benfeitores da humanidade. De um povo oprimido e ridicularizado surgiram gênios gigantescos no campo das ciências sociais, da indagação da psique humana e da compreensão das leis do universo. Falarei da contribuição dos judeus Karl Marx, Sigmund Freud e Albert Einstein em lugar apropriado.



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