Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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IV- Jesus Cristo: o evangelho do amor e a religião do atraso.
A figura humana de Jesus: quem escreveu os Evangelhos?
A figura divina de Jesus Cristo continua sendo o enigma mais apaixonante da humanidade. A pessoa histórica que viveu na Palestina dois milênios atrás era realmente Filho de Deus? Os milagres a Ele atribuídos podem ser considerados verdadeiros? Efetivamente ressuscitou três dias após sua morte? Um recente achado arqueológico nos certifica de que, na tradição judaica, ao lado da esperança da vinda de um messias triunfante, que redimiria o povo hebreu do jugo romano, existia também a idéia de um salvador sofredor: uma lápide, datada antes da morte de Cristo, se refere a um homem chamado Simão, assassinado pelos judeus sob a proteção do império romano, que também teria ressuscitado após três dias.

Na verdade, o que sabemos de essencial sobre Jesus está escrito apenas no Novo Testamento, que está longe de ser um documento histórico. Trata-se de uma coletânea de 27 textos: 4 Evangelhos (Mateus, Marcus, Lucas e João), Atos dos Apóstolos, várias Epístolas (14 de Paulo, 1 de Tiago, 2 de Pedro, 3 de João, 1 de Judas) e o Apocalipse de João Evangelista.

Mas estes livros, que a Igreja Católica passou a considerar como sagrados, pois pressupostamente redigidos sob inspiração divina, não foram escritos na época de Cristo, e sim posteriormente, quase no fim do primeiro século da era cristã. Depois de uma tradição oral de mais de meio século, apóstolos (no sentido de “divulgadores” de doutrina) de Cristo começaram a registrar na língua grega ensinamentos e feitos de Jesus (que falara em aramaico), conforme escutavam no meio do povo. Os autores do Novo Testamento, da mesma forma que os Patriarcas e os Profetas do Antigo Testamento, não escreveram o que viram ou ouviram pessoalmente, mas o que lhes foi dito por outras pessoas. Trata-se, portanto, de um “ouvir dizer”, o que explica a ocorrência de tantas repetições e contradições. Na verdade, não sabemos ao certo quem escreveu os evangelhos e os outros livros sobre Jesus. Durante a passagem da oralidade para a escrita, sua difusão circulou no anonimato. Só mais tarde foi atribuída a autoria dos escritos a judeu-cristãos ilustres e devotos, considerados “Santos”, que escreviam em grego e viviam nas cidades helenísticas do Império Romano.

Tome-se, como exemplo, Paulo de Tarso, o apóstolo mais influente, venerado por toda a cristandade (católicos, ortodoxos e todos os crentes das várias igrejas protestantes) e considerado o verdadeiro cérebro da doutrina de Jesus. Ele nem sequer conheceu seu Mestre pessoalmente, pois Cristo tinha morrido há mais de três anos, quando houve a famosa aparição descrita no livro Atos dos Apóstolos. Ele era um judeu de nome Saulo de Tarso, antiga cidade da atual Turquia, província do Império Romano. Educado por rabinos, recebeu também cultura grega. O Sumo Sacerdote de Tarso lhe deu a incumbência de levar cartas para a sinagoga de Damasco com o fim de perseguir os judeus que estavam aderindo ao novo credo do “Caminho”, o primeiro núcleo da nascente religião cristã. Perto de Damasco, de repente, viu-se envolvido por uma luz intensa, que o cegou e o derrubou do cavalo, e ouviu uma voz: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” Deu-se, então, sua conversão ao Cristianismo, começando sua intensa pregação apostólica. Acusado por judeus, teria sido decapitado em Roma, no ano de 67.

Na verdade, a figura histórica de Saulo de Tarso, como a de Jesus Cristo, foi envolta por várias lendas. No final do século II, já venerado com o novo nome de São Paulo, Apóstolo dos Gentios (abriu o cristianismo para os não-judeus) e Mártir da fé cristã, vem descrito como baixinho, careca, manco, com problemas de visão, epilético (o motivo da queda do cavalo). Diferentemente dos discípulos de Cristo, ele era uma homem culto e viajado. É certo que escreveu Cartas (“Epístolas”) a diversas igrejas que ele tinha fundado para explicar a nova doutrina, mas elas só foram divulgadas quase no fim do século primeiro.

Segundo os estudiosos do assunto, Saulo escreveu cartas apenas aos romanos, coríntios, gálatas, filipenses e tessalonicenses. Após sua morte, cristãos esclarecidos e admiradores de São Paulo, desenvolveram suas idéias e escreveram em seu nome várias Cartas a outros destinatários. Refletindo um pouco, não faz sentido acreditar que Paulo tenha enviado epístolas também a Timóteo e a Tito, seus companheiros de viagens missionárias. Eles deviam ter aprendido e praticado a fé cristã junto com o mestre Saulo, que morrera antes deles. A não ser que pensemos em cartas “póstumas”, como teria acontecido com Moisés que teria relatadas passagens do Pentateuco acontecidas posteriormente a sua morte! O conjunto de escritos que compõe o Corpus Paulinum, a parte mais consistente da doutrina do Novo Testamento, foi compilado bem mais tarde por cristãos cultos, empenhados em fundamentar a fé em Jesus. Como observa Karen Armstrong (A Bíblia: uma Biografia, pág.63-64),


escreveu cartas a seus conversos, respondendo às suas perguntas, exortando-os e explicando a fé. Paulo nem por um instante pensou que fazia uma “Escritura”; como estava convencido de que Jesus retornaria ainda durante a sua vida, nunca imaginou que as gerações futuras estudariam cuidadosamente suas epístolas”.
Paulo nunca afirmou que Jesus era Deus, assim como Cristo nunca disse que ele era o Messias esperado pelos judeus. Aí está o grande erro de todas as religiões: a consagração do instante. Acontecimentos excepcionais, relacionados com realidades peculiares, são vistos como feitos milagrosos, expressões de uma vontade sobrenatural, que devem ser cultuados para sempre e em todos os lugares, fixados em dogmas, como verdades inquestionáveis.

É preciso salientar que notícias sobre a vida de Jesus não se encontram apenas nos 27 Livros, considerado o “cânone” do Novo Testamento pela Igreja de Roma. Existiam muitos outros escritos considerados “apócrifos” (não autênticos ou ocultos) ou “gnósticos”: de seitas cristãs heterodoxas, que juntavam judaísmo com helenismo, professando a crença no dualismo cósmico do princípio do mal (matéria) e do bem (o espírito, que se identificava com o “conhecimento” racional). Estes escritos, considerados não sagrados, foram destruídos por ordem do Concílio de Nicéia, em 325. Trata-se do primeiro crime contra a cultura perpetrado pela religião católica. Em nome de uma presumida “Autoridade Divina”, foram condenados à fogueira documentos que não estavam conforme idéias retrógradas e conveniências políticas.

Felizmente, monges egípcios não obedeceram à ordem papal e guardaram códices de papiros dentro de urnas de argila e as enterraram na base de um penhasco, à margem do rio Nilo, e ali ficaram esquecidos e protegidos por mais de quinze séculos. Os manuscritos foram descobertos, por acaso, em 1945. Este achado incentivou pesquisas arqueológicas, que continuam em andamento, especialmente nas proximidades do Mar Morto. Ao todo, foram já encontrados 112 textos, de vários tamanhos, 52 referentes ao Antigo Testamento e 60 em relação ao Novo, inclusive os evangelhos de Judas e de Maria Madalena.

Quer os escritores canônicos, quer os apócrifos, serviram-se também do texto grego do Antigo Testamento, a famosa Septuaginta, como fonte biográfica para falar da vida e das obras de Jesus. Na verdade, sob muitos aspectos, o Novo Testamento é uma retomada do Antigo, pois sua figura central, o Christós grego, corresponde ao Meshiah hebraico, o “ungido”, o Messias prometido para a salvação do povo judeu, conforme anunciado pelos Profetas. As correspondências entre os dois Testamentos são gritantes: quem redimiria o povo judeu seria um descendente da casa de Davi; ele viria montado num asno; os 12 discípulos de Jesus correspondem às doze tribos de Israel; os 40 anos da peregrinação dos hebreus no deserto têm um paralelo com os 40 dias do retiro de Cristo; as Tábuas da Lei no Monte Sinai têm a ver com o Discurso da Montanha; Isaias profetizara que uma Virgem daria a luz um filho chamado Emanuel; seu nascimento é anunciado por um anjo como aconteceu com Isaac, Ismael e Sansão; a destruição do templo de Jerusalém, em 70 d.C., é vista como o advento do Apocalipse, a “revelação” do final dos tempos. Enfim, o Antigo Testamento pode ser considerado um prelúdio do Cristianismo. A maioria dos eventos da vida de Jesus aconteceu “para cumprir as Escrituras”. Ele próprio afirmou que viera ao mundo “não para abolir, mas para completar a Lei e os Profetas”.

Todavia, o legado de Jesus superou, ao mesmo tempo em que frustrou, as expectativas judaicas. A figura do Nazareno se tornou um divisor de águas e a história da humanidade se distinguiu entre um “antes” e um “depois” de Cristo. Com Jesus nasceu uma nova Era, um novo Calendário, uma nova cosmovisão. Conforme os ensinamentos contidos no Novo Testamento, Jesus Cristo não veio ao mundo apenas para salvar o povo judeu da subjeção aos romanos, mas para redimir toda a humanidade do pecado original cometido por Adão.

O Pacto de Aliança não é mais entre Deus é um povo específico, privilegiado, de etnia hebraica, mas com todos os povos da Terra, com todas as raças humanas. A confirmação do compromisso entre o homem e a divindade, simbolizado pelo batismo, não será mais mediante o derramamento de sangue (a circuncisão), mas pela água purificadora. O sacrifício humano de Isaac será substituído pelo cordeiro pascal. A lei da vingança (“olho por olho, dente por dente”) cederá lugar ao imperativo do perdão (“oferecer a outra face”); o amor ao próximo é colocado como mandamento único, capaz de substituir todo o Decálogo de Moisés.

Penso não ser necessário relatar, neste trabalho, a vida de Jesus Cristo, os milagres a ele atribuídos e seus ensinamentos de vida, conforme se encontram no Novo Testamento, por serem por demais conhecidos. Acho melhor, em face das várias discordâncias, contradições, inverdades científicas e extravagâncias dos textos bíblicos, que ofendem nossa inteligência, indagar o que há de verdade no meio de tanta fantasia. Em vista de que a ignorância e o erro são atributos humanos e não divinos, não posso considerar nenhum livro “sagrado”, escrito sob inspiração de algum ser transcendental (mesmo que existisse!). Busco, portanto, a autenticidade histórica, desconfiando da palavra de qualquer ser humano que tem a arrogância de achar-se porta-voz de Deus.

Sabemos muito pouco de Jesus “histórico”. É estranho o fato de que nenhum historiador seu contemporâneo registrasse, em língua hebraica, grega ou latina, notícias relevantes acerca da figura de Cristo, um taumaturgo tão importante ao ponto de ser considerado o Messias esperado, o Filho de Deus encarnado. Ou não o era? Ou o foi apenas na cabeça de seus discípulos e apóstolos, quase um século depois de sua morte? O que me intriga é o fato de Jesus Cristo não ter deixado nada por escrito pessoalmente, nem ter-se claramente identificado como Filho de Deus.

Chamar Deus de Pai (“Pai, afasta de mim esse cálice!”) era e é uma forma comum de invocar a divindade. Se ele se achasse realmente um ser divino, a segunda pessoa da Trindade, não precisava implorar a ajuda de ninguém. Se ele veio ao mundo, adquirindo uma forma humana, para ensinar sua doutrina de paz e amor, por que não a registrou na língua grega, naquela época a mais universal? Por que confiar apenas em seus discípulos, gente inculta, que mal falavam o aramaico, língua pouco difundida, para evangelizar outros povos?

Acreditar em Jesus Cristo como Deus é um ato de fé, mas sua existência como ser humano é um fato histórico incontestável. Além dos relatos bíblicos, temos testemunhos de escritores insuspeitos. Há alguns historiadores latinos que fazem referências indubitáveis sobre a figura de Cristo: Tácito (55-120) fala de certos “cristãos” supersticiosos, que sofreram nas mãos de Pôncio Pilatos, na época do imperador Tibério; Suetônio (69-126), que foi arquivista do imperador Adriano, escreveu que houve um homem chamado “Chrestus”, que viveu na Palestina durante o primeiro século; Plínio, o Jovem (62-114) fala de cristãos que adoravam Jesus como Deus, fazendo inclusive referência à Santa Ceia. O filósofo grego Luciano de Samósata (125-192), um crítico das religiões, reconhece que Jesus foi adorado pelos cristãos, que praticavam o monoteísmo e a fraternidade entre os homens.

Tais depoimentos de estudiosos laicos são importantes para a confirmação da historicidade do Jesus bíblico, embora fossem escritos no começo do séc. II, quando os ditos e os feitos de Cristo já vinham sendo alterados pela criação de mitos ao redor da figura do Mestre. Valiosas são também as fontes históricas hauridas de hebreus que se mantiveram à margem dos textos da Bíblia. O mais famoso foi Flávio Josefo (37-100), fariseu de Jerusalém, que escreveu As antiguidades judaicas. Ele se refere a um Tiago como “o irmão de Jesus, que era chamado Cristo”. Josefo, considerado o historiador oficial dos judeus, afirma que estes, na época do Segundo Templo, se dividiam em vários grupos, que viviam em atritos entre si : macabeus, fariseus, saduceus, essênios.

A este último clã teria pertencido Jesus, conforme a própria tradição cristã. Os essênios retiraram-se por um tempo no deserto, praticando vida ascética e vivendo em comunidades. Eles aboliram a propriedade privada, vestiam sempre de branco, eram vegetarianos, não contraíam núpcias, banhavam-se antes das refeições, praticavam o batismo por imersão nas águas fluviais. A proposta de um sistema de vida comunitário nos lembra a utópia da República de Platão, o filósofo grego que viveu uns dois séculos antes da seita judaica dos essênios.

Pelo que podemos verificar, as notícias verdadeiramente históricas sobre a pessoa de Cristo podem ser assim resumidas: Jesus foi um judeu culto, talvez professor ou pedagogo, um homem de bem que pela sua pregação chamou a atenção de um pequeno grupo de galileus e, após um período de ministério, foi crucificado pelos romanos na Palestina, durante o governo de Pôncio Pilatos. O resto, especialmente sua atividade milagrosa, é puro mito. Talvez, sua pertinença à comunidade essênica nos ajude a entender muitos episódios descritos no Novo Testamento, visto que alguns estudiosos consideram os essênios como precursores do Cristianismo.

A historia de Jesus tem muito a ver com a prática de vida e o ideal ético desta seita judaica: após uma infância e juventude dedicada aos estudos bíblicos (aos 12 anos discutia com os doutores da Lei, no Templo de Jerusalém), ele desaparece (é lícito pensar que se tenha refugiado no deserto para meditação, vivendo numa comunidade de essênios); aos 30 anos, retorna à vida da cidade, se submete ao ritual do batismo nas águas do rio Jordão e começa a liderar um movimento entre tantas seitas em competição, pregando o desapego aos bens materiais, a lealdade ao grupo mais do que à própria família, a não violência, o perdão dos pecados, o amor ao próximo, a espera dos últimos dias do mundo.

Sua figura carismática atrai especialmente pessoas humildes e necessitadas, doentes que lhe pedem socorro. Sua força espiritual é tão grande que consegue feitos considerados milagrosos, como recuperar a visão ou ressuscitar defuntos. Tais sucessos provocam a inveja da seita rival dos fariseus que instigam o povo contra ele, ao ponto de ser condenado e crucificado. Mas sua mensagem era muito maravilhosa para morrer com seu corpo. Os discípulos e algumas mulheres devotas acreditaram na sua ressureição, como ele havia anunciado, começando a divulgar sua doutrina.
Primeira fase da Idade Média: a era das trevas
O Cristianismo começa seu apogeu quando o Império Romano entra em declínio. O ano de 325 pode ser considerado um divisor de águas: o Imperador Constantino I, o Grande, que disputara com mais seis pretendentes o poder absoluto sobre Roma, entre 306 e 337, obteve a vitória final e convocou o Concílio de Nicéia, colocando o Cristianismo a serviço da política. Há tempo ele vinha protegendo os cristãos, influenciado pela mãe, a concubina Helena, que se converteu e acabou sendo canonizada, tornando-se a atual Santa Helena.

Narra a tradição que, em 312, na véspera da batalha contra o imperador insurreto Maxêncio, na ponte Mílvia sobre o rio Tibre, em Roma, Constantino teve uma visão (semelhante à de Paulo de Tarso!), aparecendo-lhe uma cruz luminosa onde se lia In hoc signo vincet (“com este símbolo, tu vencerás”). E ele venceu (aconteceu mais um milagre!) e se converteu ao Cristianismo. No ano seguinte proclamou o Édito de Milão, garantindo a liberdade de culto e ordenando a restituição aos cristãos de todos os bens confiscados. Logo em seguida, deixou a cidade de Roma aos cuidados do Papa Silvestre I, mudando a capital do Império Romano para Bizâncio, que foi rebatizada com o nome de Constantinopla, no ano de 330. O Papa mandou forjar um documento, chamado “A doação de Constantino”, segundo o qual o Imperador, em seu leito de morte, teria legado ao Sumo Pontífice o poder sobre Roma e todos os territórios do mundo cristão.

Então, como veremos em seguida, os cristãos, de perseguidos, passaram a ser perseguidores. Acabara o tempo dos primórdios do cristianismo, quando a nascente igreja vivia aterrorizada pelas comunidades hostis do judaísmo na Palestina e pelos habitantes de Roma que não perdoavam a tentativa cristã de derrubar as estátuas de suas divindades tradicionais, em nome do culto a um único deus, o Cresthos dos hebreus, que morreu numa cruz. Os latinos sempre foram tolerantes com relação às religiões. Em Roma edificaram um templo, o Panteon (que ainda hoje pode ser visitado), para abrigar todos os deuses, nacionais e importados. Os romanos teríam colocado, de bom grado, o Cristo dos judeus junto ao Zeus grego e a Osíris do Egito. Foram os cristãos a não querer, pois consideravam todos os deuses pagãos como falsos e mentirosos, sendo verdadeiro apenas o deus deles.

Da Palestina, os cristãos foram a Roma para impor sua nova religião, desprezando os cultos tradicionais dos que lhes davam abrigo. Os romanos reagiram à invasão dos cristãos jogando-os aos leões, obrigando-os a lutar nas arenas contra gladiadores, perseguindo-os nas catacumbas. Tais histórias fantasiosas fizeram a fortuna dos produtores cinematográficos de Hollyood. Mas ninguém pode negar que a fé dos primitivos cristãos era tão grande que eles preferiam o sofrimento e até o martírio, esperançosos na ressureição dos corpos e na conquista do paraíso.

Toda essa crença, porém, não impedia a presença do medo em seus espíritos. E o medo gera o ódio! A angústia e a revolta estão expressas plasticamente no Novo Testamento, especialmente no Apocalipse, que pode ser considerado o contraponto ao Sermão da Montanha, que é um hino à paz entre os homens. O livro atribuído a João de Patmos apresenta o dualismo cósmico da luta entre as forças do bem contra as do mal. Satã e suas cortes atacam Miguel e seus anjos no céu, enquanto os perversos agridem os homens justos na terra.

Mas, a partir da atuação do imperador Constantino, a situação se reverte. Os que eram vítimas se tornaram agressores. A Igreja de Roma, junto com o poder espiritual, assumiu também o poder temporal, dando início a uma teocracia que dominou a Europa por longos e tenebrosos séculos, estendendo sua influência também nas Colônias do Novo Mundo. E a vingança não era apenas contra os pagãos politeístas. Os bispos, após o Concílio de Nicéia, mandaram destruir os evangelhos apócrifos e todos os outros escritos que não se encaixavam no cânone por eles estabelecido, além de condenar e punir qualquer forma de heresia.

Quando Teodósio II (401-50) promulgou o Cristianismo como a fé oficial do Império, os judeus foram proibidos de ocupar cargos civis ou militares e sua língua hebraica não pôde mais ser ensinada, nem sequer nas sinagogas. O terror imposto pela religião à ciência e ao conhecimento ao longo dos primeiros séculos do Cristianismo encontra-se descrito nas obras de Apologistas, Doutores e Padres da Igreja. Para Santo Agostinho os deuses pagãos eram demônios que vagavam numa Terra achatada, que tinha apenas seis mil anos de idade. Tertuliano afirmava que quanto maior o absurdo, mais forte era sua fé, prometendo aos devotos o gozo do espetáculo das torturas eternas a que Deus condenava os que morressem no pecado. Não diferentemente, os pregadores de várias igrejas ou seitas da atualidade continuam aterrorizando os incautos crentes com as ameaças de Satanás, extorquindo seu dinheirinho, em troca da benção divina!

Talvez o exemplo mais cabal do atraso civilizacional provocado pela religião cristã foi a proibição dos jogos olímpicos. No fim do séc. IV d.C., o imperador romano Teodósio I (347-395), alcunhado o “Grande” por ter assegurado o triunfo definitivo do cristianismo, ordenou a destruição do templo de Zeus, na cidade grega de Olímpia, para acabar com o politeísmo pagão. Determinou, também, o fim das Olimpíadas, que vinham sendo disputadas desde o séc. VII a.C., por considerá-las nocivas à formação religiosa dos jovens. O lema clássico mens sana in corpore sano (cabeça boa num corpo sarado), foi substituído pelo princípio da moralidade cristã: mens sana in corpore castigato (alma pura num corpo flagelado).

Precisaram passar aproximadamente 15 séculos para que a humanidade retomasse o espírito olímpico da Grécia antiga. O magnata francês Pierre de Coubertain lutou para criar o Comitê Olímpico Internacional, que organizou a primeira Olimpíada da era moderna, em Atenas, em 1896. Seu símbolo é o entrelaçamento dos cinco Continentes, seu lema é citius (mais rápido), altius (mais alto) e fortius (mais intenso). A Carta Olímpica proíbe qualquer espécie de propaganda política, religiosa ou racial, afirmando a isenção ideológica do torneio e exortando à paz e à concórdia entre os povos.

O domínio da Igreja Católica se intensificou com a queda do Império Romano do Ocidente (476), causada pelas invasões barbáricas. A Idade Antiga, caracterizada pela civilização greco-romana, chega ao fim, dando origem à chamada Idade Média. O termo é bem explicativo, pois medieval significa “mediano”, entre um antes e um depois, isto é, entre a cultura clássica e a moderna, que começaria a partir do século XI. Quer dizer que do séc. V ao XI não houve civilização alguma, sendo a cultura medieval caracterizada simplesmente pela ausência de cultura.

Efetivamente, notamos na Europa um longo tempo de vazio civilizacional, passado para a história como a “época das trevas”. Parece exagero de historiadores, mas é a pura verdade. Uma pergunta intrigante: algum leitor deste meu livrinho poderia me citar o nome de apenas uma pessoa ilustre no campo da filosofia, das ciências, das artes, dos esportes, que viveu na Itália, na França ou em qualquer outro país da Europa, em algum momento, ao longo de aproximadamente 600 anos, do séc. V ao XI? A resposta só pode ser negativa e se configura como uma constatação espantosa. A única personalidade importante que passou para a história, durante este longo período de tempo, foi o Rei da França, Carlos Magno, coroado pelo Papa como Imperador do Ocidente no ano 800, como recompensa de suas lutas contra os mouros e em defesa da religião cristã. E, sintomaticamente, ele era analfabeto, assinando documentos com o dedão.

Como explicar tamanho atraso na Europa toda e durante vários séculos, se a pequena Grécia, em poucas décadas, apenas na época de Péricles, no longínquo séc. V a.C., criara obras maravilhosas de literatura, teatro, artes plásticas, além de inventar a filosofia, a democracia, as olimpíadas? Será que a crença na fantasmagórica diversidade de seus mitos pagãos estimulava a mente dos gregos para a criatividade, enquanto o monoteísmo cristão levara a inteligência humana ao reducionismo?

Sem dúvida, houve um retrocesso da Humanidade na época medieval, causado pela centralização no problema da salvação da alma que, após a morte corporal, deveria prestar contas a um deus no além. A preocupação do homem é limitada ao aspecto religioso. Os dois principais ciclos de cultura, o bretão e o carolíngio, estão intimamente ligados à difusão e à defesa da doutrina cristã. O primeiro trata do rei Artur, o herói lendário da Grã-Bretanha, com seus Cavaleiros da Távola Redonda (Galaaz, Percival e Boors), em busca do Santo Graal, o vaso onde teria sido recolhido o sangue de Cristo na Cruz. No final do séc. V, o rei Artur dominou os anglos do norte e os saxões do oeste, introduzindo o Cristianismo na Inglaterra. O segundo ciclo, o carolíngio, está centrado sobre a figura de Carlos Magno e os Paladinos da França, cujo herói principal é Roland (Orlando, em italiano), em luta contra os muçulmanos que, a partir do final do século VII, começaram a invadir o Sul da Europa.

Mas é preciso relevar que estas e outras narrativas épicas, embora situadas na primeira fase da Idade Média, somente foram escritas em versos e em prosa depois do séc. XI, quando os países europeus tiveram suas línguas nacionais. Anteriormente, havia apenas uma tradição oral, passada de geração para geração. Repete-se, então, com A Demanda do Santo Graal e La Chanson de Roland, o mesmo fenômeno que aconteceu com a Ilíada e a Odisséia da Grécia, a Torá hebraica, os cantos épicos da Espanha (El cantar de mio Cid) e da Alemanha (Os Nibelungos): o fato histórico inicial é transformado e idealizado pela tradição oral ao longo de muitos anos, até que uma nação consiga um nível de linguagem adequado e gente intelectualizada capaz de consagrar os feitos de seus heróis em obras de arte literária.

Para explicar a paralisia cultural da primeira fase da Idade Média (do séc. VI ao XI) é preciso considerar vários fatores de ordem histórica, política, social, lingüística e religiosa. Faltam-me tempo, espaço e competência para aprofundar o assunto. Tocarei apenas em alguns aspectos que reputo importantes. Uma das culpas imperdoáveis da Igreja de Roma foi ter fechado as escolas que os romanos iam abrindo na medida em que ocupavam os territórios da Gália e de outras regiões da Europa. Lá eles ensinavam a língua latina e as demais disciplinas escolares, inclusive as obras dos escritores gregos e romanos, que já eram considerados “clássicos”, pois eram lidos nas classes.

O fechamento das escolas públicas se explica porque bispos e padres consideravam a leitura de textos de Homero, Virgílio, Horácio ou Ovídio, como nocivos para a educação das crianças, pois falavam de divindades pagãs ou de amores profanos. Observamos, de relance, que eliminar a memória do passado é condição essencial para a afirmação de qualquer modalidade de totalitarismo. O que a Igreja da Idade Média fez com relação à cultura greco-romana é semelhante ao que o marxismo e o nazismo tentaram fazer na Europa moderna, apagando a memória do passado através de lavagem cerebral e de processos de depuração de idéias. A tentativa da destruição da tradição judaica por Hitler e da mundividência pagã e cristã por Lênin e Stalin era considerada necessária para a imposição de ideologias racistas ou populistas, outras formas funestas de absolutismo, que igualmente esmagam a liberdade de pensar, de sentir, de agir.

Em decorrência do fechamento das escolas romanas, aconteceu algo de estranho na Europa medieval: os povos falavam uma língua que não era escrita e escreviam (os pouquíssimos letrados) numa língua que não era falada. A língua oficial era o latim, que só era estudada por clérigos e alguns nobres, enquanto a massa popular falava os dialetos nativos das várias regiões. Mais de 90% da população era analfabeta, pois recebiam o ensino apenas oralmente, nas igrejas, durante os cultos religiosos. E sem uma língua escrita e falada pela maioria dos cidadãos não há possibilidade de civilização. A própria palavra literatura vem de littera, que significa “letra”, a palavra escrita. Tal situação de atraso cultural se alastrou até à virada do milênio, quando vários dialetos falados por povos europeus se tornaram línguas escritas. Os primeiros documentos dos idiomas modernos, as chamadas línguas românicas ou neolatinas (italiano, francês, espanhol, português, romeno) remontam ao início do séc.XII, quando acaba a primeira fase da Idade Média e começa a pré-renascença.

Outro fator determinante do atraso medieval foi o sistema político-social, fundamentado no Feudalismo. As invasões dos bárbaros, uma das causas da desagregação do Império Romano, provocaram uma profunda mudança na economia, que de citadina se tornou campesina. Para fugir da violência dos ataques dos invasores, gente de posse abandonava as grandes cidades e se refugiava nas regiões interioranas, onde construía castelos, circundados por fossos e ameias. A descentralização e a ruralização causaram o emprego de mão-de-obra servil, que se aproximava muito da escravatura. Os camponeses, que trabalhavam nas terras do dono do feudo, vivam nos burgos (daí o nome de “burguês”), vilarejos construídos nas proximidades do castelo fortificado, produzindo apenas o necessário à subsistência.

A estrutura social era semelhante a uma pirâmide: no topo estava o “Suserano” (rei ou príncipe), que concedia um “feudo” ou benefício (título de propriedade de terras) a um nobre (conde, duque etc.), mediante a condição de vassalagem, que implicava fidelidade política e ajuda econômica. O dono do castelo, por sua vez, podia ter outros vassalos (“valvassori”, em italiano) e a estes era dado o direito de ter vassalos inferiores (“valvassini”). Tal escala de vassalagem ligava estritamente a autoridade com a propriedade rural, estabelecendo entre suseranos e vassalos uma forte relação de dependência.

O sistema feudal, que dominou na época medieval, parece coisa do passado. Ledo engano! Mutatis mudandis (trocando apenas o contexto), os antigos feudatários podem ser visto como os ancestrais dos atuais políticos de muitos países que se acham democráticos. O chefe do partido (ou a cúpula partidária) é o suserano que vai indicar os candidatos aos cargos eletivos e executivos (os feudos) dos vários escalões do Governo federal, estadual e municipal. Uma vez empossados, os feudatários têm obrigações com o partido e seus eleitores, pagando dízimos e distribuindo cargos entre parentes e compadres, visando abastecer seus currais eleitorais para se reeleger sucessivamente.

Cria-se, assim, o círculo vicioso: quem tiver mais benesses para distribuir, terá mais vassalos, e quem tem mais vassalos goza de chance maior para se reeleger e permanecer no poder. Evidentemente, presidentes, governadores, prefeitos, deputados federais e estaduais, assim como os senadores, estão mais inclinados a retribuir os favores recebidos do que atender às necessidades reais e gerais da Nação. A miséria e a ignorância do povo, que troca seu voto por um benefício qualquer, estão na base da construção de redutos eleitorais que há séculos governam países subdesenvolvidos, sempre adiando as indispensáveis reformas estruturais no tocante a educação, a saúde, o transporte coletivo.

O sistema feudal provocou outra causa do atraso medieval: o isolamento em que a Europa viveu durante tantos séculos. A vida social se passava em castelos muito distantes entre si. O meio de comunicação mais usado era o cavalo, cabendo aos “cavaleiros andantes” a incumbência de transmitir notícias e mensagens de um lugar para outro. A isso se acrescente o bloqueio do mar mediterrâneo pela irrupção do Islamismo, de que vou falar no próximo capítulo. Para termos uma idéia dessa precariedade basta comparar o sistema de comunicação entre tribos indígenas da atualidade e povos que se servem da Internet! O avanço tecnológico que nos permite saber o que acontece no resto mundo de uma forma rápida e poder intervir fazendo críticas e dando sugestões via correio eletrônico contribui, sem dúvida, para o melhoramento da espécie humana.

Mas, segundo meu entendimento, o fator que mais concorreu para o atraso medieval foi a cosmovisão do Cristianismo. De um lado, a Igreja de Roma construiu um sistema feudal paralelo ao da sociedade civil pela semelhança de sua hierarquia (papa, bispos, vigários, fiéis que pagam dízimos em troca de indulgências) e por possuir grandes propriedades (a imposição do celibato aos bispos-feudatários visava não criar vínculos de hereditariedade). De outro lado, projetando a felicidade num outro mundo, desestimulou qualquer forma de progresso. Para que estudar e trabalhar se a vida nesta terra é apenas uma passagem, pois nosso destino é a eternidade? Para que cultivar o físico e o intelecto, se nascemos do pó e ao pó voltaremos?

A única coisa a fazer é conquistar méritos para salvar nossa alma imortal. E lá vão rezas, penitências, jejuns, sacrifícios, abstenções de comidas, bebidas e sexo, enfim de qualquer prazer da carne. Dá-se preferência à vida contemplativa, monástica, em conventos e mosteiros. Se a finalidade da vida é a espera da morte, por que cultivar ciências e artes? Basta-nos seguir os ditames da Sagrada Escritura. Tal postura perante a vida não deixa de ser coerente com os princípios do Cristianismo, assim como postos em prática na primeira fase da Idade Média.



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