Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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V – Maomé: o Islamismo e a volta do terror
O último Profeta
O sucesso do Islamismo deve-se, a meu ver, ao fracasso do Cristianismo. Após mais de seis séculos, a doutrina do amor e da fraternidade ensinada por Jesus não surtiu os efeitos esperados. A Igreja de Roma, ao acumular o poder espiritual e temporal, lançou a Europa no mais nefasto obscurantismo, de que falei no capítulo anterior. Destruiu a cultura greco-romana sem conseguir colocar em seu lugar uma nova proposta civilizacional, capaz de levar a humanidade ao progresso e à justiça social. O regime feudal, a que o Catolicismo aderiu, aumentou o fosso entre ricos e pobres. Os nobres e os altos clérigos passaram a constituir as duas classes dominantes, enquanto a grande massa do povo (a terceira classe) vivia na miséria e na ignorância.

Portanto, conforme a mentalidade vigente de subserviência a uma divindade, urgia o nascimento de um novo Messias. E apareceu Maomé. Visto que o núcleo original da civilização humana fora o Oriente Médio e que o Salvador dos judeus (Moisés) e dos cristãos (Jesus) não deram conta de resolver os graves problemas sociais e morais, que tal experimentar outro Profeta, desta vez oriundo de uma comunidade árabe? O advento de Maomé não representa a invenção de uma nova religião, mas a “restauração” dos ensinamentos originais do Judaísmo e do Cristianismo, que tinham sido esquecidos ou estavam corrompidos. Tanto é verdade que os próprios muçulmanos acham errado o termo “maometista”, pois Maomé sempre teve consciência da sua humanidade e em momento algum se considerou um Deus que veio ao mundo para impor uma nova religião. Sempre se considerou apenas outro Profeta, porta-voz de Alá, o nome árabe de Deus, o mesmo em quem acreditavam os fiéis das duas anteriores eligiões monoteístas: Judaísmo e Cristianismo.


Na caverna do monte Hira
Maomé é o nome português, do francês Mahomet, derivado do turco Mehmet e do árabe Moḥammed ou Muhammad. Nasceu, entre 560 e 570, na Meca, naquela época importante centro cultural e religioso da atual Arábia Saudita. Sua família pertencia a um clã que tomava conta do templo Caaba (”Cubo”), uma espécie de Panteon árabe, onde eram guardados vários ídolos e objetos sagrados, entre os quais a “Pedra Negra”. Para os geólogos trata-se de um meteorito, mas a tradição muçulmana criou a lenda de um objeto sagrado que veio do Céu e caiu no Jardim do Paraíso. Deus a teria dado a Adão como sinal de perdão: a Pedra, originariamente branca, ter-se-ia tornada preta por absorver os pecados dos homens. No segundo milênio antes de Cristo, o Arcanjo Gabriel teria dada a Pedra Negra ao patriarca Abraão, que a teria levada para a Meca, junto com a escrava Agar e seu filho Ismael.

No Caaba havia imagens de mais de 360 deuses, venerados por devotos locais e por chefes de caravanas que faziam ponto na passagem pela cidade. Órfão de pai e mãe, Maomé foi criado por um avô e um tio que iniciaram o jovem pastor no ofício de comerciante, não recebendo escolaridade alguma e continuando analfabeto até sua morte. Durante uma viagem de negócios ao Iraque, perto da cidade de Basra (Bassora), um eremita cristão de nome Bahira, ao olhar para o jovem Maomé, teria dito que ele era o enviado de Deus que todos estavam aguardando. Com 25 anos, Maomé conheceu a rica viúva Cadija, 15 anos mais velha, com a qual se casou, mudando assim seu status social, passando de pobre para rico. Além desta esposa, ao longo de sua vida, teve mais 15 mulheres, todas elas viúvas abastadas, com exceção de Aicha, menina que tinha apenas 9 anos quando ficou noiva do Profeta.

No ano de 610, tendo aproximadamente uns 40 anos, Maomé, numa noite, enquanto estava meditando, recolhido numa caverna do monte Hira, teve una visão. Conforme acreditou posteriomente, fora visitado pelo arcanjo Gabriel, que lhe anunciou ser ele o escolhido como o último Profeta que Deus enviara à terra para salvar a humanidade. Acontece que a visão o deixara em estado de transe, suando copiosamente. Pensou em alucinação ou em alguma possessão diabólica, mas a esposa Cadija o confortou e o levou a consultar o sábio cristão Waraqa, seu primo. Com a ajuda deste mestre, Maomé interpretou a visão como sendo uma experiência idêntica às vividas pelos profetas do Antigo Testamento e pelo próprio Jesus Cristo. A esta visão no monte Hira se sucederam várias outras, ao longo de sua vida, ministrando-lhe, paulatinamente, a doutrina que se encontra registrada no Corão, o livro sagrado da nova religião, o Islamismo.

A partir do ano de 613, Maomé, encorajado por familiares e amigos, começou a pregar publicamente os ensinamentos que teria recebido do arcanjo Gabriel. Nascia, assim, a religião chamada Islã (“submissão à vontade divina”). Ao proclamar a sua mensagem na cidade, ganhou seguidores e, como era de se esperar, também opositores. Na medida em que seus fiéis cresciam, Maomé começou a se tornar uma ameaça para as tribos locais, especialmente para os Coraixitas, a sua própria tribo, que tinha a responsabilidade de cuidar do Caaba, que nesta altura hospedava centenas de ídolos que os árabes adoravam como deuses. Muitos habitantes da Meca rejeitaram a sua mensagem e começaram a perseguí-lo, bem como aos seus seguidores. O motivo não deixava de ser também econômico: Maomé, pregando a fé apenas num único deus, Alá, prejudicava os negócios dos guardas do templo politeísta. A verdade é que Maomé, de forma semelhante a Jesus Cristo, pregando o amor e a fraternidade, encantou os homens das classes menos favorecidas, provocando o ódio dos judeus e dos cristãos abastados.

Para escapar da perseguição, em 622, Maomé foi obrigado a abandonar sua cidade natal, começando uma migração, conhecida como a Hégira, que deu origem ao calendário lunar muçulmano, estabelecendo-se na cidade de Medina. Lá, ele se tornou o chefe da primeira comunidade islâmica. É preciso relevar que, no século VII, a península arábica era habitada por povos que levavam uma vida nômade, divididos em tribos, lutando entre si. Maomé conseguiu dominar, através de sucessivas vitórias, não somente os habitantes de Meca e Medina, mas a maioria das povoações ao redor das duas cidades.

Ele se revelou um ótimo estrategista bélico, pois sua organização militar, criada durante estas batalhas, foi usada posteriormente para derrotar várias tribos da Arábia e povos de outras regiões. As conquistas dos muçulmanos se estenderam da Pérsia à bacia do mar Mediterrâneo, com relevância na península ibérica e na costa francesa. Além de militar, Maomé teve também um grande mérito político, conseguindo unificar vastos territórios sob o signo da religião islâmica. Os antigos costumes tribais das Arábias foram substituídos pela Sharia (lei do Corão) e pela Sunna (a Tradição de Muhammad, registrada nos hadith, ditos e feitos do Profeta). Organizava-se, assim, o Estado árabe, regido por um chefe que reuniu numa única pessoa o poder religioso, militar e político.

A criação de um Estado teocrático, juntando na mesma pessoa o poder material e espiritual, foi o grande erro involuntário de Maomé, pois ele não previu que seus sucessores não estariam à altura de sua portentosa personalidade. Sua morte é lendária: a crença mais comum é que o Profeta, acometido de um mal súbito, no ano de 632, ascendeu aos céus envolvido numa nuvem, a partir da Cúpula do Rochedo (que ainda não existia, pois foi construída pelo califa Abd al-Malik, em 691!), em Jerusalém. Ele teria feito uma viagem noturna, visitando o Paraíso, onde teria se encontrado com os dois outros grandes Profetas que o precederam, Moisés e Jesus Cristo. Com seu falecimento deu-se o mesmo que costume acontecer com os grandes ídolos religiosos ou líderes políticos: nenhum dos seguidores tem o carisma do mestre para continuar sua obra. A briga pela sucessão de Maomé, logo de cara, originou uma crise que dividiu o Islã em duas facções historicamente adversas: sunitas e xiitas.
A compilação do Alcorão
O Corão (ou Alcorão, pela aglutinação do artigo árabe “Al”: o sentido de nome é “recitação”) foi escrito por várias pessoas e ao longo de muito tempo. Maomé, por ser analfabeto, não escreveu nada. Quando em vida, recitava a parentes e discípulos letrados versos que teria ouvido durante suas visões, ao longo de duas décadas. Os amigos ouvintes registravam os ensinamentos do Profeta em folhas de tamareira, pedaços de pergaminho, omoplatas de camelos ou pedras de várias formas. Durante as noites de vigília do Ramadã, Maomé reunia seus discípulos e recapitulava o conteúdo de suas visões. Depois de seu falecimento, foi recolhido o material disperso que, junto com os relatos das pessoas que se lembravam das palavras do Mestre, passou a constituir o corpus básico da nova doutrina considerada sagrada pelos islamitas.

A redação oficial do Corão, o texto fundamental, foi realizada, entre 650 e 656 (aproximadamente vinte anos após a morte de Maomé), durante o califado de Otman, que nomeou uma comissão para decidir o que deveria ser incluído ou excluído do texto final do Alcorão. Foi então constituído um "livro-referência" a partir do qual se criaram seis cópias que foram enviadas para Meca e outras cidades importantes. Outro texto que apresenta a doutrina muçulmana é o Hadith (Tradições), uma coletânea de ditos e decisões do Profeta, não registrados no Corão.

Como é fácil perceber, o processo de composição da Escritura islâmica não é muito diferente da Escritura judaica, cristã e de outras religiões. Não são os Profetas (Moisés, Salomão, Buda ou Cristo) que escreveram os textos considerados sagrados, mas seus discípulos ou devotos, geralmente depois de uma longa tradição oral, que acaba mitificando acontecimentos e personalidades e apresentando variantes e contradições. A diferença é que, enquanto os textos bíblicos são constantemente submetidos a novas exegeses, na tentativa de dirimir as dúvidas e explicar as passagens contraditórias, o Alcorão está proibido de ser investigado para evitar que os muçulmanos tenham dúvidas e se afastem da fé em Alá.

Os devotos do Islã se orgulham do Corão ser a única Escritura da história da humanidade que se tem preservada no texto original, sem mudar sequer uma vírgula. É preciso acreditar no que está escrito sem questionamentos, pois a palavra revelada a Maomé é “final e inalterável”, a última e definitiva “revelação” de Deus à humanidade. Os versos do livro sagrado nem sequer podem ser traduzidos. Por isso, todos os muçulmanos, independentemente de sua língua materna, recitam o Corão no árabe original. Nenhuma tradução poderia reproduzir o som das palavras que levam os devotos às lágrimas. Trata-se de uma sinfonia inimitável!


A doutrina islâmica
Maomé nunca se considerou um novo deus, mas apenas um novo Messias, um ser humano igual a Moisés e Jesus, que veio ao mundo para lembrar aos seus contemporâneos da Meca, que praticavam o politeísmo e tinham desvios éticos, a palavra esquecida de Abraão, o primeiro patriarca ao qual Jeová se revelara. Portanto, a doutrina islâmica está visceralmente ligada à do Antigo Testamento judaico, melhorado pelo evangelho de Cristo. Mas, evidentemente, além de pontos em comum, a religião islâmica apresenta divergências dogmáticas com relação ao judaísmo e ao cristianismo. Substancialmente, o Islamismo também acredita em Deus, nos Profetas, nas Sagradas Escrituras, na Predestinação, na Ressurreição e no Juízo Final, mas com variantes peculiares. A saber:

Todo muçulmano deve acreditar que existe um único Deus, de nome Alá, sendo Maomé seu principal Profeta. Nega-se, portanto, o dogma católico da Santíssima Trindade, que admite a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Islamismo é frontalmente contrário à divinização de qualquer criatura humana, inclusive Jesus Cristo, que teria nascido da Virgem Maria. O próprio Maomé não é considerado um ser divino, mas apenas um enviado de Alá para ensinar uma nova doutrina. O Corão menciona mais de vinte profetas, anteriores a Maomé, considerados “mensageiros” de Deus, locais ou nacionais, sendo Maomé o último e o único Profeta universal. O mesmo diga-se das Escrituras Sagradas: os muçulmanos não desmentem o que está escrito na Torá e no Evangelho, mas, para eles, o Corão é a fonte primeira do exato conhecimento da verdade religiosa. Tudo o que estiver de acordo com o Livro de Maomé deve ser considerado como verdadeiro e o que for diferente deve ser rejeitado.

Quanto à Predestinação, o muçulmano acredita que todos os acontecimentos estão previstos pela vontade divina, estando previamente fixados no livro do Destino. Tal crença passou à história com o nome de “fatalismo árabe”. Recentemente, esta doutrina vem sendo modificada, pois se percebeu que o fatalismo contradiz o princípio da liberdade pessoal, que eximiria o indivíduo da responsabilidade pelos seus atos e constituiria um obstáculo para o desenvolvimento social. Além disso, contrariaria a crença no Juízo Final (Quiyáma). Em vista de que o Corão admite que haja o fim do mundo, a Ressurreição dos corpos, que se juntariam para sempre com suas almas, e o Julgamento derradeiro, como atribuir culpas pelas ações feitas em vida se já estavam determinadas pela vontade divina? Em base a qual critério Deus poderia separar os bons, que iriam para o céu (Saná) ou paraíso (Jannat), dos maus que seriam castigados por seus pecados? A fé no Dia do Juízo Final, assim como na existência do Paraíso e do Inferno, é indispensável para promover a causa da moralidade e da bondade. O sentimento de justiça, que premia o bem e castiga o mal, não realizado neste mundo, exige sua satisfação numa outra vida. O conjunto da religião islâmica está condensado em cinco Mandamentos: fé, oração, esmola, jejum de Ramadã, peregrinação a Meca.

1) (Chahara): “Eu testemunho que não há outra divindade além de Alá e que Maomé é seu enviado. O Islã não considera a religião como um assunto pessoal ou uma atividade independente da vida cotidiana, praticada num dia da semana, como o sábado dos judeus ou o domingo dos cristãos. Não são “seis dias para mim” e “um para o Senhor”. A fé em Deus constitui uma organização social e pública, que afeta trabalhos, indústria, relações nacionais e internacionais. Para a crença muçulmana não existe o que no Ocidente chamamos de “secularismo”, a vivência das ações diárias do homem independentemente do sentimento religioso. Igreja e Estado são uma coisa só, não se cogitando um tipo de cidadania fora da crença na divindade. O muçulmano não precisa de batismo, como o judeu ou o cristão, pois a Lei islâmica, chamada Xaria, diferentemente da Torá ou do Evangelho, é aplicada natural e automaticamente, independente da vontade da criança ou de seus pais: o filho de um casal muçulmano já nasce muçulmano!

2) Oração (Salat): conforme o espírito do Corão, a vida do muçulmano deve ser regida pela constante oração, que relaciona estritamente o homem com a divindade, estimulando os elementos positivos e eliminando as tendências más. Na oração, o devoto de Maomé encontra uma lição de vida que lhe dá força moral e paz interior. Pelo ritual, rezar é obrigatório cinco vezes ao dia: oração da Alvorada, do Meio-Dia, do Meio da Tarde, do Pôr do Sol, da Noite. Não havendo autoridades hierárquicas, como em outras religiões (padres, pastores, rabinos), as orações são dirigidas por um membro da comunidade com grande conhecimento do Corão. Os versos são recitados em árabe, enquanto as súplicas pessoais podem ser feitas no idioma de escolha do muçulmano. E não há necessidade de freqüentar a Mesquita, pois o fiel pode rezar em qualquer lugar, em casa ou no trabalho. Importante é a posição correta: o corpo deve inclinar-se com o rosto em direção ao Caaba da Meca, e não mais para o Templo de Jerusalém, conforme o costume judaico. As crianças devem ser obrigadas a rezar a partir dos sete anos. Os adultos só podem ser dispensados em casos excepcionais: 05 dias durante a menstruação, 40 dias em ocasião do parto, no decorrer de uma doença grave. Ligado à oração, há o rito da ablução: lavar as mãos até o pulso, por três vezes, cruzando os dedos no decurso da lavagem, antes das orações; tomar banho completo após a relação sexual e em ocasiões especiais.

3) Esmola (Zacat): além de esmolas facultativas e ocasionais, existe a contribuição obrigatória, chamada no Corão de Zacat. Ela purifica a alma do contribuinte e elimina do seu coração o egoísmo e a sede de riqueza. A percentagem mínima a ser paga é 2,5% sobre bens móveis e imóveis. Por ser proporcional aos rendimentos de cada muçulmano, a taxa funciona também como uma forma de diminuir a diferença entre as classes sociais. O pagamento da Zacat é uma prescrição divina, não podendo ser confundida com qualquer imposto do Governo. Seus beneficiários principais são os muçulmanos em serviço da causa de Alá através da investigação, estudo ou divulgação do Islã. Essa taxa islâmica é cobrada também das povoações dominadas pelos muçulmanos, embora não queiram aderir à religião de Maomé. Muda apenas o nome: os não-islâmicos, além de pagar os tributos governamentais, são obrigados a pagar também a “Jizia”.

4) Jejum (Saum): abstinência de comida, bebida, sexo e fumo, da alvorada ao pôr do sol, durante o Ramadã, o nono mês do ano islâmico. O jejum tem várias finalidades: mente clara para pensar e corpo leve para agir; espírito da igualdade de todos perante a lei; submissão à ordem e à disciplina; estímulo à poupança fazendo economias; renúncia aos interesses terrenos; regime para manter o corpo em forma. Diferentemente da Quaresma dos cristãos, o Ramadã, que segue o calendário lunar, muda de período, podendo acontecer em qualquer estação do ano.

5) Peregrinação a Meca (Hadjdj): lê-se no Antigo Testamento da religião judaica que Abraão tinha 100 anos quando teve Isaac com a esposa Sara e 86 anos quando nascera Ismael por uma relação extraconjugal com a escrava egípcia Agar (Hajra). Portanto, tendo Ismael nascido 14 anos antes de Isaac e Abraão levado para o sacrifício seu “filho único”, este só podia ter sido Ismael, nunca Isaac. A não ser que Deus fosse tão injusto ao ponto de negar a legitimidade de uma criança pelo fato de ser filho de uma escrava! Com base nisso, a tradição muçulmana narra que Agar, expulsa da casa de Abraão, levou seu filho Ismael para a Meca e lá ajudaram a construir o santuário do Caaba, depositário da Pedra Negra, em recordação do profeta Abraão, considerado o Grande Avô dos árabes. Ismael teria sido levado para o sacrifício no Monte Marwat, perto da Meca, cidade que se tornou o centro espiritual do Islã, como Jerusalém para os judeus e Roma para os cristãos. A Peregrinação a Meca é uma convenção anual de Fé coletiva (no último mês do calendário islâmico) e individual (em qualquer outra época), obrigatória para todo muçulmano em condições físicas e econômicas.


O Islamismo no tempo e no espaço
Maomé abandonou este mundo sem indicar seu sucessor ou deixar normas testamentárias para seus familiares e seguidores. Assim, as rivalidades e inimizades, que ele conseguira controlar durante sua existência, explodiram em lutas sangrentas, depois de sua morte. Cada chefe dos quatro clãs, chamado de “califa”, representante de Maomé na terra, achava-se o legítimo sucessor do Profeta. Enfim, ficaram para a história dois grupos: os “Sunitas” (de suna = caminho moderado), assim denominada a grande maioria que seguiu a doutrina original de Maomé; e os “Xiitas” (de shi at Ali), filiados ao partido de Ali, casado com Fátima, uma filha de Maomé, que constituem a ala extremista, mais rigorosa.

Mas, apesar das lutas intestinas, o Islamismo, gradativamente, avançou por todo o Oriente Médio, conquistando Iraque, Palestina, Pérsia, Síria, Egito. Chegou também à Europa Ocidental, conquistando várias regiões banhadas pelo mar Mediterrâneo, especialmente as costas da França, da Península Ibérica e do Sul da Itália. A expansão islâmica foi se intensificando ao longo de dois séculos de uma forma incontesta. Mas, a partir do séc. VIII, começou o período da decadência motivado por causas internas e externas. Houve uma fragmentação da umma, a comunidade muçulmana, pois a supremacia do califado começou a ser questionada e formaram-se vários governos independentes, cada um com feição própria. Decisivas foram as invasões dos mongóis e dos turcos.

De outro lado, a Europa cristã começava a se despertar do longo sono medieval, enfrentando os árabes em seu próprio território. As Cruzadas, a partir do séc. XI, quebraram o domínio dos muçulmanos na Palestina, tentando conquistar a cidade santa de Jerusalém, onde estava o Sepulcro de Cristo. O golpe final ao poderio islâmico na Europa se deu em 1492, quando o rei Fernando da Espanha derrubou o califado de Granada. A partir de 1500, o mundo islâmico se dividiu em vários centros de civilização muçulmana, entre os quais se destacam a cultura árabe, com o predomínio do Egito, e o império otomano, na Turquia, cuja capital Constantinopla, tomada pelo turcos em 1453, passara a se chamar Istambul. Para ter uma idéia da sobreposição de culturas, basta observar que a civilização “bizantina” passou por várias fases, cada qual dando um novo nome à cidade principal: Bizâncio era a antiga colônia grega, fundada no séc. VII a.C., no estreito do Bósforo, que separa a Turquia asiática da parte européia; tomou o nome de Constantinopla, quando o imperador Constantino o Grande a tornou capital do Império Romano do Oriente, no séc. IV d.C.; passou a se chamar Istambul ao ser conquistada pelos muçulmanos, no séc. XV d. C.
Reflexões sobre religião e cultura muçulmana
Deus deu a cada povo um profeta em sua própria língua”.
A afirmação acima é do profeta Maomé, justificando sua missão. Falando o árabe de sua época, sua pregação encantou a classe humilde dos pobres e das pessoas incultas, no mesmo tempo em que provocava a inveja e o ódio dos judeus e dos cristãos ricos. Lutando contra inimigos internos e externos, o Profeta teve o mérito de transformar tribos nômades, dispersas num árido deserto, no maior império do mundo daquela época. Isso foi possível porque Maomé conseguiu despertar nos árabes uma consciência de nacionalidade, unificando as tribos vizinhas sob a bandeira de Alá e infundindo em seus espíritos uma ideologia religiosa e patriótica, ao mesmo tempo, renovando assim a mensagem de redenção do povo árabe, na trilha do antigo profeta Moisés.

A expansão do Islã propiciou prosperidade econômica e renascimento cultural. Enquanto a Europa cristã continuava no atraso medieval, os descendentes de Maomé cultivavam filosofia, artes, ciências. Alfarabi (870-950) foi o primeiro grande filósofo do Islã, que escreveu tratados sobre metafísica e música. Avicena (980-1037), além de filósofo, foi também poeta e médico, conhecido por ter divulgado as obras do grego Galeno. Seu texto mais importante foi o Cânon da Medicina. Outro filósofo muçulmano, Averróis (1126-1198), tornou-se famoso pela tradução das obras de Aristóteles do grego para o latim. Tal façanha mereceu elogios até do grande poeta italiano Dante Alighieri, na sua Divina Comédia, visto que, naquela época, a língua grega era estranha aos europeus. Além disso, ele foi o primeiro estudioso a colocar a filosofia a serviço da teologia, servindo-se dos ensinamentos do filósofo de Atenas para a exegese de trechos do Corão.

Falta-me competência para falar da influência da religião islâmica nas artes plásticas, especialmente na arquitetura. As manifestações artísticas dos pequenos impérios de persas, bizantinos ou turcos, anteriores ao advento do Islamismo, encontraram seu ponto de convergência na língua árabe em que foi escrito o Corão e na nova espiritualidade imposta pela religião de Maomé. A maioria dos povos do Médio Oriente e do continente asiático passou a se identificar mais com o termo “muçulmano” do que “árabe”, pois não foi a política, mas a religião a dar o grande impulso para a construção de mesquitas maravilhosas em várias cidades dominadas pelos islamitas.

Depois da destruição do último Templo de Jerusalém, em 70 d.C., passaram-se mais de seis séculos até que a Cidade Santa, sede das três grandes religiões monoteístas, tivesse outro templo majestoso. E, desta vez, sobre a égide do Islã. O califa Abd al-Malik, em 691, mandou construir a dourada Cúpula do Rochedo, sobre a rocha Sakkra, ponto culminante do Monte Moriah, lugar indicado a Abraão por Jeová para o sacrifício de seu filho Isaac. Desta Cúpula, Maomé teria ascendido ao Céu, conforme está escrito no Corão. Relevamos, de passagem, um anacronismo: se a construção terminou 59 anos após a morte do Profeta, como ele podia ter partido de lá? Efetivamente, a religião tem pouco a ver com a história ou outra ciência humana! Voltando ao assunto: foi a partir desta época que o estilo arabesco começou a influenciar outras formas de arte, como a bizantina, a gótica, a renascentista.

Também quanto ao aspecto especificamente religioso, o Islamismo registrou relevantes avanços com relação aos credos anteriores. A meu ver, o ponto crucial em que a doutrina islâmica supera a cristã se encontra na afirmação do princípio jurídico da “intransferibilidade” da culpa. Em nenhum Tribunal ou Corte de Justiça do mundo humano alguém pode ser responsabilizado pelo pecado de outra pessoa. Se isso se dá na Terra, por que no Céu deveria ser diferente? Como pode se considerar culpado um ser inocente, uma criança que acaba de nascer? Será que Deus é menos justo do que o homem, sua criatura?

O Alcorão, diferentemente da Bíblia, ensina que o pecado de Adão não se transferiu para a humanidade e que ninguém nasce com uma culpa original. A responsabilidade pelo pecado não é hereditária, nem transferível, nem comunitária. Conseqüentemente, vários dogmas da religião católica são rechaçados: Jesus Cristo foi apenas mais um Profeta, não sendo Filho de Deus, pois existe apenas Unidade e não Trindade divina; não há necessidade de batismo, pois a alma não nasce maculada; as pessoas que não receberam instruções divinas não podem ser castigadas neste mundo nem no outro; a crucificação de Cristo não aconteceu para redimir a humanidade, que não precisava desse sacrifício; nenhum ser que nasce do homem pode ser considerado Santo, com o poder de interceder junto a Deus.

Quanto à moral, os conceitos básicos do Islã, que podem ser apontados surfando os versos do Alcorão e do Hadith, como igualdade, liberdade, fraternidade, paz, comunidade, caridade, se aproximam de uma ética universal. Na verdade, os escritos atribuídos a Maomé e considerados sagrados são apenas uma miscelânea composta de versículos da Torá e dos Evangelhos, de máximas dos rabinos, de provérbios indianos, da sabedoria do persa Zaratustra, de trechos de pensadores gregos. A doutrina moral muçulmana está baseada na filosofia do bom senso e do equilíbrio, na busca da aurea mediocritas, já decantada em versos belíssimos pelo poeta latino Horácio. A ética de Maomé teve como antecedente o Evangelho do Amor, apregoado por Jesus Cristo e, como conseqüente, os ideais da Revolução Francesa. Como exemplo do conceito de honestidade, transcrevo o seguinte trecho atribuído a Maomé:
Quem confiar a uma pessoa um cargo público enquanto na sua sociedade houver outra melhor para desempenhar aquele cargo, atraiçoa a confiança nele depositada por Deus, pelo seu Mensageiro e pelos muçulmanos”.

Um estudioso dos textos islâmicos comenta que um governante religioso deveria ter responsabilidade dupla: perante seu Deus e seu povo; e um fiel de Alá tem que participar ativamente na solução dos assuntos públicos.

Mas, na prática, a teoria é outra. Tudo muito bonito e edificante, mas, para quem não quiser renunciar à lucidez mental, é difícil acreditar que o que está escrito no Alcorão é realmente a palavra de Deus. Passaram-se quase 14 séculos e o Islamismo não apresentou os resultados esperados. Segundo o dito evangélico, “uma árvore se conhece por seus frutos”. E os frutos do Islamismo, assim como os do Judaísmo e do Cristianismo, não foram bons, pois a realidade humana continua salpicada de ódios étnicos, guerras, injustiça, miséria. A verdade é que, como as outras religiões, o Islamismo é uma grande ilusão, pois não existem messias, enviados de Deus. Quem ousa achar-se tal deve ser considerado um presunçoso que, num sentido contrário, nos dá uma prova cabal da não existência de Deus. E sim, porque se Deus existisse realmente, Ele se revelaria a todos os homens, seus filhos. Por que escolher Moisés ou Maomé, judeus ou árabes? E os outros povos que viveram antes destes profetas ou habitam regiões longínquas, como os indígenas da Patagônia ou da Oceania? Eles não merecem ouvir a palavra de Deus? Será que não foram criados por Ele e não são também seus filhos?

A resposta mais ouvida é que a vontade de Deus é inquestionável. Ele faz o que quer, quando quer, como quer e onde quiser. Mas, então, não estaríamos falando de um Deus, mas de um déspota qualquer. Todavia, Ele é concebido por todas as religiões como o Ser Supremo, possuidor de todas as virtudes no máximo grau: Ele é onipotente, onividente, onipresente, previdente, amoroso, justo. Mas, ao mesmo tempo em que afirmam tudo isso, os devotos de qualquer religião atribuem a Deus características que são próprias dos humanos, tais como o orgulho (Ele exige subserviência, adoração, sacrifícios, preces), o ciúme (não pode se prestar culto a outra divindade), a prepotência (manda e desmanda, sem dar satisfação a ninguém), injustiça (escolhe um homem ou um povo para salvação, em detrimento de outros).

Acontece que, como dizia um filósofo pré-socrático, “o homem é a medida de todas as coisas”: cada qual julga tudo a partir de si. Portanto, qualquer líder religioso, sendo humano, só pode olhar as coisas pelo prisma da sua precariedade. Aliás, ele deve ser considerado de uma humanidade inferior porque seu fanatismo religioso lhe impede de pôr ao serviço da busca da verdade a capacidade de raciocínio, que é uma peculiaridade da natureza humana. O pior é que a grande massa do povo, tendo preguiça de pensar, acaba sendo levada pela cabeça de ídolos religiosos e líderes políticos. Com relação específica à religião muçulmana, são oportunas algumas reflexões:

1) Conforme estudiosos do Islamismo, Maomé recebeu a Revelação não apenas no monte Hira, pelo Arcanjo Gabriel, mas ao longo de 23 anos, de uma forma ininterrupta. Sendo ele analfabeto, costumava ter ao seu lado escribas, que tomavam nota de seus ensinamentos. Ora, não está explicado se o Arcanjo Gabriel apareceu só uma vez ou constantemente ou havia outros emissários divinos. É mais provável que a doutrina vinha sendo redigida pelos assessores de Maomé, que era gente culta, durante as conversas com o Profeta. Portanto, é lícito duvidar da autoria divina dos textos que compõem o Corão. “Maomé disse” não quer dizer que foi ele mesmo quem disse e muito menos que o próprio Deus tivesse dito a ele!

2) Por que Maomé é considerado o “último” Profeta? Por que a palavra dele tem que ser ouvida como definitiva e absoluta? Pensar que Deus o teria escolhido como ponto final da Revelação, a pessoa em quem se condensasse toda a Verdade, per omnia saecula saeculorum, não é muita pretensão? O que mais causa estranhamento no Islamismo é a fixidez, o imobilismo de sua doutrina. Os versos do Corão são intraduzíveis e indiscutíveis, irredutíveis assim como seus rituais (rezar cinco vezes por dia, na hora marcada, na posição correta) e seus costumes, que têm que seguir tradições multisseculares. Ora, a rigidez é própria da morte, enquanto a vida é movimento, evolução que leva ao melhoramento. Ninguém aprende nada de novo, se ficar apenas repetindo as mesmas convicções. Creio que se Maomé (ou o círculo de seus discípulos cultos) voltasse ao mundo agora, ele daria um banho de Darwin e de Einstein no seu Corão!

3) Pela obrigação da Guerra Santa (Jihad), os muçulmanos estão convencidos de ter recebido a permissão de Deus para divulgar sua fé pela ponta da espada. As primeiras lutas sangrentas de Maomé contra seus perseguidores da Meca são explicáveis, pois se tratava de legítima defesa da liberdade de culto. Já a sede de sangue e do botim de guerra com que assaltaram outros povos para impor o credo muçulmano não tem a mesma motivação. Afinal, foram os navios árabes que bloquearam o mar mediterrâneo e dominaram cidades costeiras habitadas por cristãos e não primeiramente os ibéricos a invadir o solo africano.

Na verdade, para o muçulmano, a luta religiosa é um mandamento divino, pois o Corão obriga seus fiéis a difundir a fé em Alá, sob pena de serem responsabilizados pelos pecados dos que não forem convertidos. O verdadeiro crente não pode descansar enquanto o mundo inteiro não se ajoelhar aos mandamentos da Lei islâmica. Neste sentido, a religião apregoada por Maomé apresenta aspectos de fanatismo racista, como qualquer tipo de radicalismo ou de fundamentalismo. Um exemplo clamoroso de violência contra a liberdade de pensamento foi a condenação à morte do escritor Salman Rushdie, em 1989, pela publicação da obra Os versos satânicos, considerada ofensiva à religião de Maomé, segundo os Aiatolás do Irá: sua cabeça foi posta a prêmio por dinheiro e pela promessa do paraíso. Ele ficou durante muito tempo escondido, temendo a vingança dos fiéis da Jihad.

4) O estudo da personalidade de Maomé nos leva a perceber que o último dos três grandes profetas está mais próximo do primeiro do que do segundo. Era de se esperar que, como a figura espiritual de Jesus superou a de Moisés, substituindo o Antigo pelo Novo Testamento, o novo profeta viesse, seis séculos depois, para aperfeiçoar ainda mais a mensagem de Cristo. Mas, neste aspecto, houve um retrocesso. Maomé retomou a velha tradição judaica de matar em nome de Deus e de usar as mulheres como escravas domésticas. Acontece que as tribos humanas, quanto mais afastadas no tempo e no espaço, mais se aproximam dos animais, vivendo em função da lei da selva: matam para conseguir os alimentos (instinto da conservação própria) e os machos irrigam o sêmen em várias fêmeas (instinto da conservação da espécie).

Esse era o costume que ainda vigorava nas povoações árabes na época de Maomé. Teria sido muito bom se o novo Profeta, sentindo-se inspirado por Deus para dar uma nacionalidade ao povo árabe e difundir um novo conceito de espiritualidade no mundo todo, tivesse superado essas antigas tradições desumanas. Infelizmente, do ponto de vista ético, seu exemplo de vida foi pior do já existente: enquanto os costumes tradicionais dos árabes permitiam que um homem pudesse ter mais de uma esposa, desde que tivesse condições econômicas para sustentá-las, Maomé, pobre e inculto, encostou-se numa viúva rica, bem mais velha do que ele, para ascender socialmente. Inverteu a tradição: a mulher, em lugar de exigir, ela oferece o dote para ficar com o Profeta. E não foi só uma: conforme relatam os escritos sobre ele, Maomé casou com mais 15 mulheres, todas elas viúvas abastadas. Por ultimo, já mais velho, ficou noivo de uma menina de 9 anos, para aquecer sua concupiscência.

5) Questionando a estrutura da família: por que o deus Alá, que teria se revelado a Maomé, não lhe fez entender que a poligamia gera um caos familiar, sendo um desrespeito ao direito das mulheres e das crianças? É humanamente impossível que um homem possa cuidar dignamente de várias esposas e de inúmeros filhos, ao mesmo tempo. Se o relacionamento entre um homem e apenas uma mulher já é conflitante por gerar o choque entre duas personalidades diferentes, imagine-se que inferno deva ser a convivência entre várias esposas do mesmo marido. Isso só é possível numa sociedade em que a mulher seja desprovida de qualquer direito ou vontade, considerada apenas mais um objeto de uso doméstico, uma prisioneira coberta por uma burca, que torna desnecessário o uso de depilação, de maquiagem, de estudo, de trabalho, de participação na vida social. Será que a escravidão da mulher é vontade de Alá? Até quando irá durar o costume do pai do noivo escolher esposas em troca de porcos ou camelos?

E o que dizer, então, da prole numerosa? Quem é pai de verdade sabe que cada filho é um problema para o resto da vida, precisando de sustento, assistência, afeto, educação, encaminhamento para uma profissão. E isso não é um favor, mas um dever do pai e um direito da criança, pois nenhum ser humano pede para vir ao mundo. Gerar muitos filhos é seguir o costume dos animais que criam sem educar. Não é difícil constatar que quanto mais uma sociedade humana é civilizada, menor é o índice demográfico. A escravidão da mulher e a falta de planejamento familiar são heranças de uma sociedade patriarcal e machista que ofende a inteligência e o sentimento humano.

6) O fator fundamental que impede o avanço civilizacional dos povos de religião muçulmana é o regime teocrático, que permite o acúmulo do poder civil e religioso nas mãos de aiatolás, os mais altos dignitários da hierarquia islâmica. Estes se apresentam ao povo como enviados de Alá, tornando, assim, doutrina e preceitos incontestáveis. A submissão das mulheres, por exemplo, é legitimada por ser considerada vontade de Deus, conforme está escrito no Corão. O declínio da civilização árabe, em contraste com o progresso do mundo ocidental, é sempre atribuído a um culpado externo, especialmente o capitalismo norte-americano, considerado o grande Satã, contra o qual são alimentadas as várias forma de terrorismo, que chegam à autodestruição.

Mas uma luz está aparecendo no fim do túnel. Ultimamente, especialmente no Irã, a antiga Pérsia de longa tradição cultural, as mulheres estão começando a protestar publicamente contra a opressão dos aiatolás, lutando pela igualdade dos direitos civis. Esta luta poderá finalmente ter êxito graças à mídia eletrônica, contra a qual a censura religiosa e política têm pouco poder. A invenção da internet está tirando os povos do isolamento, da ignorância, do engano. Gente de cultura islâmica pode entrar diretamente em contato com pessoas de outra civilização, comparando e julgando diferentes modos de vida. Os horizontes se ampliam, permitindo constatar a relatividade da verdade e a estupidez da crença em valores absolutos.



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