Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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VI A Renascença da Europa: do Humanismo ao Iluminismo.
O Renascimento depois do ano Mil: as Cruzadas.
Volta e meia, são veiculadas notícias sobre um próximo fim do mundo por crentes de vários credos, que acham que os tempos estão acabando, tendo chegada a hora do Juízo Final ou do Apocalipse. Tornaram-se famosas as profecias de Nostradamus, médico e alquimista francês da época da Renascença. Anteriormente, na primeira fase da Idade Média, as superstições sobre o fim do mundo eram abundantes. Por uma delas, os povos acreditavam que o mundo acabaria no fim do milênio. Mas, a data redonda passou e a vida no planeta continuou. Então, um sopro de vitalidade se espalhou pela Europa toda, despertando o homem do longo sono em que vivera na primeira época da Idade Média. O devoto esclarecido começou a sentir a necessidade de questionar os dogmas em que devia acreditar, de entender sua crença, de ter a liberdade de pensar com sua própria cabeça. O pioneiro deste novo tipo de homem medieval foi o francês Pedro Abelardo (1079-1142), lingüista, teólogo e filósofo. Ele se tornou famoso por nutrir uma louca paixão amorosa pela bela Heloísa, sobrinha de um cônego rico, contrário ao casamento por motivo de diferença de classe social. O trágico fim dos dois amantes espelhou o mito do amor romântico de larga fortuna na literatura e nas outras artes. Ficou famosa sua expressão:
intelligo ut credam (“quero entender para acreditar”),
em oposição ao lema anteriormente usado

credo ut intelligam (“eu acredito para entender”).
Esta postura intelectual de Abelardo será retomada séculos depois, quando a Renascença européia chegou ao ápice.

O primeiro passo importante para a gradativa passagem da Idade Média ao Renascimento foram as Cruzadas. Até a segunda metade do séc. XI, houve uma convivência pacífica entre os muçulmanos, chamados também de árabes ou sarracenos, e os cristãos que faziam suas peregrinações a Jerusalém, onde estava o Sepulcro de Cristo, e a outros lugares sagrados. Mas, com o início da decadência do Império Romano do Oriente, de cultura greco-bizantina, hordas de turcos da dinastia dos seldjúcidas ocuparam, em 1071, a cidade considerada santa pelas três religiões monoteístas. Eles começaram a capturar os peregrinos, vendendo-os como escravos. O Papado de Roma, apesar do cisma de 1054, que separara a igreja cristã em Romana (ocidental) e Ortodoxa (oriental) reagiu ao ataque dos turcos, convocando todos os reis e príncipes cristãos da Europa para libertar a cidade de Jerusalém.

O apelo do papa Urbano II foi atendido de bom grado, porque, além do motivo da defesa da fé cristã, os comandantes dos exércitos europeus vislumbravam negócios lucrativos com o Médio Oriente, uma vez quebrada a hegemonia árabe no mar Mediterrâneo. Foram organizadas seis expedições militares ao longo de quase dois séculos. A primeira “Cruzada”, assim chamada porque os soldados cristãos usavam uma cruz estampada no peito, aconteceu em 1096 e foi um fracasso. Logo se seguiram outras, capitaneadas por príncipes franceses e alemães, que conseguiram libertar o Santo Sepulcro de Cristo, mas não de uma forma definitiva.

Se, do ponto de vista militar, as Cruzadas não tiveram o resultado esperado, sua contribuição para o desenvolvimento econômico e cultural da Europa foi enorme. Ao romper o predomínio muçulmano na bacia do Mediterrâneo, abriam-se as portas para a troca de mercadorias e o intercâmbio cultural entre civilizações diferentes. Quem mais se beneficiou foram as cidades marítimas italianas (Nápoles, Gênova, Pisa, Veneza), banhadas pelo Tirreno e Adriático, que se tornaram as primeiras potências econômicas da época medieval. As Cruzadas provocaram a primeira revolução comercial estabelecendo uma ponte entre o Ocidente e o Levante.


O surgimento das línguas neolatinas: a lírica trovadoresca
Outro fator fundamental para o início do renascimento foi o surgimento das línguas neolatinas, também chamadas românicas ou modernas, em oposição às línguas clássicas ou mortas (grego e latim). A maior parte dos povos europeus, a partir do séc. I a. C., foi obrigada a aprender a língua dos conquistadores romanos, que impuseram o latim em todas as regiões por eles colonizadas. Tal fenômeno é comum, pois o fator cultural geralmente está na dependência do poder militar e econômico. Aconteceu não apenas com o império romano, mas, sucessivamente, com o poderio espanhol, francês e britânico. Hoje, estamos sob a égide do imperialismo norte-americano, que nos obriga a estudar a língua inglesa elevada à condição de língua internacional.

Com a decadência do império dos Césares, no séc. V d.C., não havendo mais a pressão de Roma sobre suas colônias, os povos que habitavam a península ibérica e italiana e o centro da Europa iniciaram um longo processo de diferenciação de suas falas, afastando-se da língua do antigo dominador. A língua latina, que permanecera o idioma oficial da igreja católica e das instituições públicas, já não sendo mais falada pelo povo, começa a ceder lugar aos dialetos regionais, que vinham se afirmando por força do substrato (os dialetos locais anteriores à imposição da língua dos romanos) e do superstrato lingüístico (os dialetos dos bárbaros e dos árabes, que passaram a ocupar os territórios dos latinos).

O processo de formação das línguas nacionais durou, aproximadamente, seis séculos, devido ao isolamento regional e ao predomínio da religião cristã que conservava e universalizava o uso do latim (o que tenta fazer até hoje!). Somente depois da virada do primeiro milênio começaram a aparecer documentos escritos em francês, italiano ou galego. Os fatores do substrato e do superstrato explicam as diferenças entre as várias línguas modernas, enquanto a descendência do mesmo cepo, o latim, que é a língua-mãe, dá conta das semelhanças.

Os primeiros documentos numa língua românica foram escritos no francês falado na região da Provença, a langue d’ oc. E, como nas origens de qualquer língua, estão registrados em versos, pois a poesia (a linguagem infantil e natural) vem sempre primeira do que a prosa (a língua da maturidade, regulada pela gramática). A poesia provençal é chamada também trovadoresca, de “trovador” (do latim trobare, que deu o italiano trovare = encontrar), o poeta que encontrava a rima certa. Do Sul da França os trovadores se espalhavam pelas cortes da Europa, prestando sua vassalagem às damas em versos do mais puro lirismo. O tema recorrente é a aspiração a um amor impossível, pois a dama cantada geralmente é uma senhora casada e de condição econômica bem superior à do menestrel. A poesia trovadoresca apresenta uma concepção revolucionária do amor, ao mesmo tempo espiritual e adulterino, nunca antes vista na literatura ocidental.

Tal temática tem instigado os estudiosos, que formularam várias teses na tentativa de explicar essa contradição. A hipótese mais sugestiva é que a mulher amada é considerada um ideal inalcançável por representar a soma das virtudes que ultrapassam o desejo sexual, material. A namorada do trovador seria o símbolo da Grande Mãe partenogenética, que dá à luz sem a intervenção do macho, constituindo o princípio estável em que o homem se refugia, especialmente quando se sente acossado pelas dificuldades da vida. A união espiritual do trovador e de sua amada seria a reconstrução do mito ancestral do ser bissexuado, chamado de andrógino ou hermafrodito, que existiria no mundo antes de Júpiter separar o elemento masculino do feminino, com o fim de enfraquecer o ser humano. E, sendo a mulher amada casada com um homem poderoso, o desejo de um amor adúltero, mesmo fisicamente irrealizável, não deixa de ser uma revolta contra o autoritarismo machista, simbolizado pelo marido, pai, governante, personificado no mito grego de Júpiter, como vimos anteriormente.

A poesia provençal influenciou as composições líricas de outras regiões da Europa. Na língua portuguesa, a “cantiga de amor” é que melhor espelha o rebuscamento da poesia trovadoresca. Mas, paralelamente à imitação da poética que vinha do Sul da França, os poetas galego-portugueses cultivaram também formas poemáticas autóctones: o lirismo paralelístico e simbólico da “cantiga de amigo” e os versos realísticos e satíricos da “cantiga de escárnio”. As produções poéticas medievais da península ibérica, de 1200 a 1350, de autoria de Dom Dinis, Martim Codax e Pero Meoro, entre outros, foram conservadas no Cancioneiro da Ajuda, da Biblioteca Nacional de Lisboa e da Biblioteca do Vaticano, em Roma.

Mas o maior poeta lírico da época medieval foi o italiano Francesco Petrarca (1304-1374) que superou a herança do trovadorismo, tornando-se um mestre de poesia pela criação do chamado “doce estilo novo”. Abolindo o formalismo dos poetas de inspiração provençal, ele ensinou a adequar as palavras ao sentimento, expressando o que realmente o poeta sente por dentro. Nas duas coletâneas, As Rimas e Os Triunfos, o grande poeta florentino exprime a antítese entre as aspirações ascéticas, próprias da mundividência medieval, e as seduções mundanas do início da renascença. Seu modo de fazer poesia, chamado de “petrarquismo”, influenciou a produção lírica da posteridade. Camões, o maior poeta lírico da renascença portuguesa, muito lhe deve.
A formação das nacionalidades européias: os cantos épicos
Além da poesia lírica, a segunda fase da idade Média nos deixou o registro de filões de ficção narrativa transmitidos oralmente, ao longo de muitos séculos: o ciclo bretão, centrado sobre a figura do Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, na Inglaterra; o ciclo carolíngio, em torno de Carlos Magno e os Paladinos da França; El cantar de mio Cid, na Espanha; a Canção dos Nibelungos, na Alemanha. Trata-se de histórias fantásticas criadas pela imaginação popular sobre os heróis que contribuíram para a formação das várias nacionalidades. Não havendo ainda uma língua escrita, as façanhas eram narradas em versos, para uma melhor memorização e transmissão de pai para filhos. Segue uma breve apresentação desses poemas, relevando sua importância para a tradição cultural e a formação das principais nacionalidades européias. Se a poesia lírica medieval tratava do tema do amor, o canto épico e a novela de cavalaria têm por assunto principal a luta patriótica. Mas os dois motivos se entrelaçam, pois amor e guerra andam sempre juntos.
A Demanda do Santo Graal: a epopéia britânica e o espírito medieval
A lenda sobre o “Santo Graal” (vaso) remonta a José de Arimatéia, o discípulo de Jesus que recolheu num cálice as últimas gotas do sangue de Cristo e colocou o corpo do crucificado no túmulo, razão pela qual foi perseguido e aprisionado pelos judeus. Ele teria sido visitado por Jesus na prisão e libertado por Vespasiano, depois que este foi curado de lepra, envolto no véu da Verônica, a mulher de Jerusalém que enxugou o rosto de Cristo. Esta lenda deu origem à devoção do Santo Sudário, imagem de Jesus ainda conservada na Catedral de São Pedro, em Roma. (Olhem a anacronia: Vespasiano foi Imperador no decênio 69-79 depois de Cristo, quando José de Arimatéia devia estar... bem velhinho!). Enfim liberto, José instituiu a confraria do Graal, com o fim de guardar a santa relíquia do sangue de Cristo. Depois de sua morte, um cunhado teria levado o Santo Vaso, junto com seus doze filhos, para a Inglaterra.

A lenda cristã acerca do Graal se cruza com a vida do lendário rei de Gales, Artur, que viveu entre o séc. V e VI. A figura do rei Artur como herói nacional está ligada à resistência dos celtas contra os anglo-saxões. Ele teria apaziguado as tribos rivais e conferido unidade nacional ao povo britânico, sob a égide do Cristianismo, de forma semelhante ao que fizera Moisés com tribos hebraicas e fará Maomé, um século depois, com tribos arábicas.

Sobre o assunto, na França e na Inglaterra, se divulgaram vários cantos de amor e guerra que, após uma longa tradição oral em versos, deram origem às novelas de cavalaria em prosa, traduzidas em várias línguas modernas, a partir do início do séc. XIII. A matéria da Bretanha constitui um vastíssimo complexo de textos, em versos e em prosa, que narram aventuras mirabolantes. Além do rei Artur, personagens importantes são os heróis Percival, Boors e Galaaz, o traidor Lancelot que arrebata a noiva do bondoso Artur, Tristão e Isolda. Apenas para saborear a forma e dar uma idéia do conteúdo da Demanda do Santo Graal, transcrevo um trecho do episódio “A Tentação de Galaaz”, quando o jovem herói, cavaleiro andante, junto com o amigo Boors, chega ao castelo do rei Bruto e recebe hospedagem:

E depois que estavam dentro e foram desarmados, o rei os fez assentar perto de si e fez-lhes muita honra e começou a perguntar de seus feitos. E eles lhe disseram um pouco de algumas coisas. E a filha do rei Brutos, que era muito formosa, olhou muito tempo Galaaz e pareceu-lhe tão formoso e tão bem feito, que o amou entranhadamente, como nunca amou tanto nada do mundo, que não tirava dele os olhos; e quanto mais o olhava, mais gostava dele e mais o amava”.

O texto continua narrando que a mocinha, de noite e apenas de camisola, entra no quarto do jovem herói e se deita na cama junto dele. Mas, ao passar a mão pelo corpo para despertá-lo, percebe que ele usava a “estamenha”, uma malha que funcionava como cinto de castidade. Mesmo assim queria que o jovem fizesse amor com ela, caso contrário ela se mataria. Galaaz não acreditou na ameaça e não cedeu ao apelo erótico da mocinha. E ela, não suportando o sentimento de rejeição, trespassa seu corpo com a espada de Galaaz.

Do ponto de vista da coerência interna à própria obra, podemos apontar vários elementos de inverossimilhança no texto em tela, especialmente na caracterização da personagem feminina: uma paixão repentina e tão violenta não é admissível numa mocinha de apenas quinze anos; o impulso amoroso é sem motivo, pois o jovem herói nem sequer olhara para ela; a moça nem teria a força física suficiente para empunhar a espada enorme e fazê-la penetrar no corpo inteiro, do peito até às costas; a espada nem sequer estava no quarto de Galaaz, pois, conforme está dito acima e seguindo as normas do código da cavalaria, a arma foi deixada na casa das armas, na entrada do castelo. Como se vê, o princípio da verossimilhança (a arte parecida com a realidade), que era o preceito fundamental da estética clássica, não é tido em conta pela arte medieval. Não existe mais racionalidade, bom senso, equilíbrio, meio termo. O ser humano é visto ou como um anjo ou como um demônio.

Tal mentalidade medieval é expressa teoricamente pela doutrina do pensador religioso Maniqueu (216-277), também chamado de Mani ou Manés), oriundo de uma seita da Mesopotâmia, também ele crucificado por pregar uma nova doutrina de salvação e se achar outro profeta. O fundador do Maniqueísmo admitia uma perpetua luta entre o princípio do Bem (Deus, o espírito) e o princípio do Mal (o Diabo, a matéria). Os dois princípios seriam antagônicos e irredutíveis, constituindo um Dualismo Cósmico que explicaria a oposição entre a alma e o corpo, a luz e as trevas, o amor e o ódio, a bonança e a tempestade. A igreja de Roma, evidentemente, condenou a doutrina maniqueísta, pois não podia admitir a coexistência de dois seres absolutos, independentes na sua origem. Mas persistem as perguntas: se o Diabo existe, por quem ele foi criado? Se foi um anjo que se rebelou, por que Deus lhe deu tanto poder? Como conciliar a existência do mal, do sofrimento de criaturas inocentes, face à imensa misericórdia divina?

Na verdade, o dualismo cósmico é uma configuração mental de arquétipos do comportamento humano, existentes antes e depois da teoria do agnóstico Mani. Encontramos tal dualismo nos mitos cosmológicos de Urano (Céu) e Gaia (Terra), na oposição apolíneo vs dionisíaco, nos personagens bíblicos de Abel e Caim, na postura opositiva da estética clássica e romântica, no estudo das profundezas da psique humana, onde Freud diferencia o “id” (a força do instinto individual) do “superego” (o poder das injunções sociais). Felizmente, o pai da Psicanálise encontra uma síntese entre a oposição do código da natureza vs o código cultural: é o “ego”, o eu consciente, que medeia entre os dois extremos, propiciando o equilíbrio ao ser humano. É a inteligência que faz a diferença!


La Chanson de Roland: a epopéia francesa.
Em 778, poucos anos antes do rei da França, Carlos Magno, ser coroado Imperador pelo papa de Roma, houve uma expedição militar na Espanha para lutar contra Marsílio, emir da cidade de Saragoça, tomada pelos muçulmanos. Ao redor deste fato histórico, a imaginação popular foi criando lendas que exaltavam o valor dos paladinos da França, especialmente de Roland, o mais valente guerreiro. Após uma tradição oral de mais de três séculos, os cantos épicos foram juntados num único poema. O manuscrito original, de autoria desconhecida, remonta ao ano de 1170. Mas ficou obliterado por longos séculos. Descoberto em 1832, na época do Romantismo, quando se buscavam e exaltavam as origens das várias nacionalidades dos povos europeus, o texto começou a ser estudado e editado. Eu utilizo a tradução em língua portuguesa, calcada sobre o manuscrito de Oxford.

No início da trama, o exército de Carlos Magno está sediado em território espanhol.

O mouro Marsílio envia ao Rei da França um embaixador propondo sua retirada em troca de valiosos presentes e da promessa de conversão ao Cristianismo. Numa reunião no acampamento militar, os principais líderes franceses, com exceção do herói Roland, aceitam a proposta de paz e enviam Ganelão, cunhado de Carlos Magno a Saragoça para selar o pacto. Mas Ganelão, invejoso da glória de Roland, trama sua morte, aconselhando o Rei a voltar com o grosso do exército para a França, deixando apenas Roland e um grupo de paladinos na retaguarda.

O punhado de franceses é atacado por milhares de muçulmanos no estreito de Roncesvales, nas montanhas dos Pirineus. Apesar da heróica resistência, os franceses são massacrados, pois Carlos Magno, avisado da traição pelo som da corneta de Roland ferido, não chega a tempo. Segue a vingança e o castigo: o exército cristão massacra todos os soldados muçulmanos, conquista Saragoça, obriga seus habitantes a receberem o batismo e retorna a Aix, a cidade francesa sede do Império, onde Ganelão é julgado e condenado à morte por esquartejamento.

Este é o resumo da fábula do poema La Chanson de Roland. Mas a história é outra. A literatura, como a religião, não está preocupada com a realidade histórica ou científica. A arte e a fé são frutos da imaginação, que cria mundos fantásticos. Apontamos algumas discrepâncias entre o mito e a realidade: quem libertou a cidade de Saragoça do domínio muçulmano não foi o rei francês Carlos Magno, mas Afonso I de Aragão, em 1118; a expedição francesa não durou tanto tempo e acabou com a derrota e não com a vitória de Carlos Magno; o número dos componentes dos exércitos, de um lado e de outro, é exagerado (centenas de milhares de soldados!); os cristãos bascos são transformados em muçulmanos; o maravilhoso cristão apresentado na obra é uma repetição de passagens da Bíblia ou do Corão: o arcanjo Gabriel, que já apareceu a Moisés, à Virgem Maria e a Maomé, aparece também na hora da morte do herói Roland, levando sua alma para o céu; o rei Carlos, como fizera Josué, pede a Deus que pare o sol para retardar a chegada da noite e dar-lhe tempo para matar todos os infiéis em Roncesvales; os episódios bélicos são misturados com assuntos familiares e amorosos: o herói Roland é visto como sobrinho do rei da França, tendo como noiva a bela Aude, que morre de dor ao saber da morte do amado, antecipando o mito shakespeariano de Romeu e Julieta.

Portanto, mais do que um episódio histórico, a epopéia francesa deve ser vista como a exaltação de um conjunto de valores ideológicos que vigoraram na Idade Média e formaram o ideal da instituição da Cavalaria: a defesa da religião cristã, o patriotismo, o sentimento de honra e de amizade, do amor idealizado. É por isso que a figura de Roland se tornou um mito e transcendeu os limites da França, com os nomes eufônicos de Rolando ou Orlando. Sua fortuna se manifesta principalmente na Itália renascentista, quando se retoma o gênero da poesia épica greco-romana, tingido dos matizes do romance cavalheiresco. Ludovico Ariosto, retomando o poema inacabado Orlando Apaixonado, de Matteo Boiardo, escreveu a obra imortal Orlando Furioso, de que Camões imitou a estrutura rímica para a composição dos Lusíadas. Outro poema do gênero épico-cavalheiresco é Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso.


Poema del Cid: a epopéia espanhola.
O Cid (em árabe “Senhor”, com o apelido “Campeador” = campeão) está à Espanha como Roland à França: são os dois heróis-símbolos das respectivas nacionalidades. O elemento de convergência é a luta dos cristãos contra os mouros. Mas há profundas diferenças entre os dois personagens. Enquanto Roland é uma figura mítica, o Cid é o protagonista de fatos historicamente comprovados. Seu nome civil é Ruy Díaz de Vivar, um condutor de exércitos que morreu em 1099. Apenas poucas décadas depois de sua morte, a partir de 1140, aproximadamente, já surgiram os primeiros cantares sobre suas façanhas bélicas, seu envolvimento com os políticos de sua época e seus laços familiares. Como acontecia em todos os poemas épicos, primeiro houve uma tradição oral e depois começaram a aparecer cantos escritos. O primeiro manuscrito encontrado do Poema del Cid remonta ao ano de 1307, mas só foi descoberto e publicado, pela primeira vez, em 1779, na época do Romantismo, quando os povos europeus buscavam as origens de suas nacionalidades.

O poema conta a vida de Ruy Díaz, senhor de Vivar e vassalo de D. Alfonso de Castilha. As vitórias militares lhe proporcionam fama e riqueza, o que suscita inveja nos nobres de Castilha. O rei, acatando as intrigas, acaba exilando o herói. Mas ele continua sua campanha de conquistas de territórios muçulmanos, chegando a penetrar em Valência, onde assenta seu quartel general. Defende bravamente a cidade do ataque do rei do Marrocos, Yucef, que desembarcara na Espanha para reconquistar Valência. De lá, o Cid envia presentes a D. Alfonso, ao bispo, aos amigos e parentes, solicitando a revogação do decreto de exílio. O Rei reconhece o seu valor e permite que sua esposa Jimena, junto com as filhas Elvira e Sol, visitem o herói em Valência, arrumando o casamento das mocinhas, ainda em tenra idade, com dois nobres de Carrión, Diego e Fernando. Mas logo os dois genros do Cid se revelam covardes, interesseiros e violentos, batendo em suas esposas. O herói reclama por justiça e o tribunal de Toledo condena os dois velhacos a restituir os bens. O poema termina com duelos e novas núpcias.

Na verdade, El cantar de mio Cid foge das características do gênero épico tradicional por não fazer uso do maravilhoso, do extraordinário. Não há intervenções divinas, revelações sobrenaturais, nenhuma espécie de milagre. A religião está presente apenas como ritual: antes das batalhas, os muçulmanos invocam Maomé e os cristãos Santiago. São professados dogmas e sacramentos da fé, conforme a tradição católica. Como também não há nenhuma idealização de ações humanas. Cid derrota o conde de Barcelona e exige um resgate, vende a cidade de Alcácer, cobre pesados impostos das povoações subjugadas, compra o perdão do Rei com valiosos presentes, estipula o preço do dote, enfim, tudo é calculado, pesado, quantificado: a espada Tizona vale mil Marcus, ao herói cabe a quinta parte de cada botim de guerra. Da mesma forma que as Cruzadas, a defesa da religião cristã contra o Islamismo é apenas um pretexto para o enriquecimento à custa de cidades-estado vizinhas: o valor militar, aos poucos, vai suplantando a nobreza de sangue.
A canção dos Nibelungos: a epopéia germânica.
O assunto da Canção dos Nibelungos remonta, aproximadamente, à mesma época do rei Artur, que deu origem ao ciclo de cultura da Bretanha, a partir do séc. V, quando vários povos do norte da Europa, considerados “bárbaros”, despedaçaram o império romano e se converteram ao cristianismo. Desta vez, o centro das ações é a antiga Germânia. O episódio histórico, que deu origem às lendas, foi a conquista do antigo reino da Burgûndia, região da parte alta do rio Reno, por Átila, alcunhado “flagelo de Deus”, chefe da horda dos hunos, no ano de 437. Burgundos e Nibelungos, povos que se consideravam mais civilizados e já tinham aderido ao cristianismo, não se conformaram com o fato de terem sido derrotados por uma tribo de gente primitiva, proveniente da Ásia central. Então, como aconteceu com os gregos que inventaram o mito do rapto de Helena para justificar o assédio à cidade de Tróia, assim a fantasia dos povos da antiga Alemanha imaginou que a derrota foi devido ao ciúme que duas belas princesas sentiam pelo herói Sigfrido.

O jovem nibelungo Sigfrido, príncipe da Neerlândia, sobe o rio Reno, do burgo de Xante até à cidade de Worms, para conhecer e pedir em casamento a linda Cremilda, princesa da Burgûndia. Lá, ele ajuda na luta contra os reis invasores da Dinamarca e da Saxônia. Seu heroísmo bélico lhe cativa a simpatia de Cremilda e do seu irmão Gunther, que, por sua vez, estava apaixonado pela bela e valorosa Brunilda, princesa da Islândia. Estabelece-se, então, um pacto de ajuda mútua: Sigfrido ajudaria Gunther na conquista de Brunilda, em câmbio da mão de sua irmã Cremilda. Os dois viajam para a Islândia, Sigfrido disfarçado como vassalo do rei Gunther. A intrépida Brunilda tinha feito uma promessa: só se casaria com o cavaleiro capaz de vencê-la em várias provas. O desafiante perdedor seria condenado à morte. Gunther fica com medo e pede a ajuda de Sigfrido que, vestindo um manto mágico, derrota a princesa. A vitória é atribuída a Gunther e Brunilda é obrigada a acompanhar os dois jovens até à Burgûndia. Lá se realiza o duplo matrimônio: Sigfrido casa com Cremilda e Gunther com Brunilda.

Mas a noite de núpcias de Gunther foi um desastre: Brunilda que, talvez inconscientemente, gostava mais de Sigfrido do que do seu noivo, sofre de um ataque de ciúme ao perceber a paixão de Cremilda. Recusa-se, então, a fazer amor com Gunther, aduzindo que não achava certo que sua cunhada se casasse com um vassalo de seu marido. Gunther, na tentativa de possuí-la pela violência, é subjugado pela jovem princesa, que o pendura numa janela, atando-lhe as mãos e os pés. Mais uma vez o rei recorre ao amigo Sigfrido que, na noite seguinte, tornado invisível pelo manto mágico, consegue subjugar Brunilda em luta corporal, entregando-a ao esposo. A seguir, Sigfrido leva sua esposa para Xante, sua cidade natal, e passam-se anos de felicidade para os dois casais abençoados por filhos.

Esta situação de harmonia muda quando Brunilda inventa de rever a cunhada Cremilda. Ela mesma tinha pedido ao marido Gunther que convidasse a irmã e o cunhado para a festa da primavera. Sigfrido, a esposa, os filhos, os pais e numeroso séqüito, levando muitos presentes, fazem a longa viagem, sendo acolhidos festivamente. Mas a presença de Sigfrido reacende o ciúme de Brunilda, que humilha a cunhada Cremilda, dizendo que ela lhe era socialmente inferior, pois casara com um vassalo de seu marido. Ao que a jovem responde que não era verdade, pois Sigfrido, além de ser nobre, era o mais valente e amoroso dos homens. Revela, então, a verdadeira identidade de Sigfrido, dizendo que não fora Gunther, mas seu marido que a subjugara no campo de batalha e na cama, na noite de núpcias. Como prova, mostra-lhe o anel que Sigfrido levara consigo quando saiu do quarto.

A revelação deixa a altiva Brunilda furiosa ao ponto de maquinar uma terrível vingança. Ela fica sabendo que o herói Sigfrido, após vencer um dragão, banhara-se no seu sangue, que lhe fechou o corpo e o tornou invencível. Mas havia um ponto fraco no seu ombro, onde uma folha cobrira o osso omoplata durante o banho. Com esta indicação, ela encarrega um nobre amigo seu, o astuto Haguen, para efetuar a vingança: durante uma caçada, enquanto Sigfrido está inclinado para beber das águas de um riacho, uma espada lhe é enfiada nas costas, provocando a morte do herói.

Agora é a vez de a viúva Cremilda jurar vingança. Ela chora amargamente a morte do esposo e se sente culpada por ter revelado, imprudentemente, o ponto de vulnerabilidade de Sigfrido. A notícia da triste sorte da viúva se expande pela Europa central e Átila, rei dos hunos, encantado pela fama da beleza e da fidelidade de Cremilda, envia cavalheiros para pedir sua mão em casamento. A rainha aceita por um dúplice propósito: vingar a morte de Sigfrido e converter Átila ao cristianismo. Viaja, então, do Reno para o Danúbio, chegando à cidade de Viena, onde se realizam as núpcias, abençoadas pelo nascimento de um filho. Mas Cremilda, que nunca desistiu de vingar a morte de Sigfrido, convida seus irmãos e outros nobres da Burgûndia para visitá-la na Hungria. Lá há um confronte entre os nibelungos e os hunos, com a vitória destes últimos. Gunther, o marido de Brunilda e Haguen, o assassino de Sigfrido, são levados prisioneiros até Cremilda, a nova rainha do reino da Hungria, que acaba matando o irmão, na tentativa de reconquistar o tesouro dos nibelungos, escondido no rio Reno. Mas ela também morre pelas mãos de um vassalo de Teodorico, rei dos visigodos. Com ela morre a última nobre representante da raça dos nibelungos.

Essa história fabulosa sobre os antigos povos germânicos, evidentemente, sofreu um longo processo de maturação pela tradição oral. Os episódios originais do séc. V, aos poucos, foram enriquecidos por rapsodos posteriores, cada qual contribuindo com seu cabedal cultural, até chegarmos ao séc. XVIII, no começo do Romantismo alemão, quando foram descobertos os vários manuscritos acerca do Poema dos Nibelungos. A semelhança com passagens homéricas e bíblicas supõe certo grau de cultura inconcebível em povos primitivos. Por exemplo, o episódio da morte de Sigfrido pela descoberta de seu ponto vulnerável, parece uma versão adaptada do mito grego do “calcanhar de Aquiles”.

Na verdade, o poema é a exaltação do ideal de vida da nobreza medieval, baseado no princípio da fidelidade e da honra. O que é relevante e faz a diferença entre a epopéia germânica e os cantos épicos latinos, especialmente espanhóis, é o tratamento da mulher. Enquanto no Cantar de mio Cid, a figura feminina é considerada apenas um objeto de uso ou de troca, a moça sendo obrigada a casar em tenra idade e sem possibilidade de escolha, configurando uma sociedade profundamente machista, no poema dos Nibelungos é a vontade da mulher que prevalece. O homem nobre ou o herói de guerra é visto apenas como um vassalo da mulher, a quem ele deve obedecer, conforme o código cavalheiresco que já vimos na poesia lírica da Provença.


La Divina Commedia, de Dante Alighieri.
A Divina Comédia constitui, sem dúvida alguma, o maior monumento literário que nos deixou a segunda fase do Medievo, sendo seu autor o florentino Dante Alighieri (1265-1321), o maior poeta da língua italiana. Ele se tornou o símbolo da cultura da Itália e da Idade Média, assim como Shakespeare o é com relação a Inglaterra e ao Renascimento, Goethe com a Alemanha e o Romantismo, Dostoievski com a Rússia e a Idade Moderna. Dante intitulou sua obra “Comédia”, por um sentimento de humildade, visto que os antigos gregos distinguiam este gênero da “Tragédia”, que tratava de fatos gloriosos e de personagens heróicos.

Conforme alguns estudiosos, Aristóteles, além do primoroso estudo sobre a tragédia grega, que se encontra na sua Poética, teria composto também um tratado sobre a “Comédia”. Mas este texto, infelizmente, teria se perdido. O crítico e ficcionista italiano Umberto Eco concentra a trama de seu famoso romance O Nome da Rosa na busca desta obra de Aristóteles, não perdida, mas escondida na biblioteca de uma abadia medieval, tendo como título o Livro do riso. Crimes horríveis são cometidos para manter oculto este antigo tratado sobre o humor. Talvez o propósito principal do romance e do filme homônimo é demonstrar como o dogmatismo religioso impede a liberdade do ensino, da pesquisa, de qualquer conhecimento estranho às escrituras consideradas sagradas.

O poema de Dante é, pois, chamado de Comédia por tratar da vida e das crenças, dos pecados e das virtudes dos homens comuns da Florença de sua época e também porque, ao contrário da tragédia, começa com a tristeza (a vida no inferno) e termina com a alegria do paraíso. Mas é considerado, igualmente, um poema épico pela grandiosidade temática que transcende os limites da epopéia de uma nacionalidade para se tornar o canto da humanidade toda em busca da ascese espiritual. Quem lhe acrescentou o qualificativo de “divina” foi o escritor contemporâneo e conterrâneo de Dante, Giovanni Boccaccio, encantado pelo valor estético dos versos e pelo assunto transcendental da obra.

O poeta imagina que teve um sonho, durante a Semana Santa de 1300, o primeiro “Ano Santo” ou jubilar, inventado pelo papa Bonifácio VIII, para conceder indulgências dos pecados a todos os peregrinos que fossem rezar em Roma (qualquer semelhança com a viagem dos muçulmanos a Meca é pura coincidência!). Durante o longo sonho visitou as três partes do mundo ultraterreno, conforme a crença da religião católica: Inferno, Purgatório e Paraíso. A descrição desta viagem é o conteúdo da Divina Comédia, poema dividido em três cânticos, cada cântico composto de 33 cantos, em estrofes de três versos. O número três, calcado na Trindade divina, era considerado mágico na Idade Média e está presente na obra toda: três feras e nove (3+3+3) círculos no Inferno, nove patamares no Purgatório, nove céus no Paraíso. As três partes da obra terminam todas com a mesma palavra: “estrelas”. A soma das três partes, 3 vezes 33, dá 99 cantos, mais um introdutório no começo do Inferno, completa o número 100. Tudo isso faz da Divina Comédia o poema melhor estruturado de toda a literatura ocidental.

Dante imagina o Inferno formado por uma profunda voragem, em forma de funil, aberta pela queda de Lúcifer, quando o anjo rebelde foi derrotado por Deus e lançado no centro da terra, nas proximidades da cidade de Jerusalém. Nesta cratera, composta de nove círculos, sempre mais estreitos na medida em que se desce, estão distribuídas as almas dos que morreram em estado de pecado e, por isso, condenadas às penas eternas. Dante, acompanhado pelo poeta latino Virgílio de quem se sente discípulo, pois da leitura do poema Eneida ele teve a inspiração para a viagem no mundo do além-túmulo, começa a descida, visitando e conversando com as almas famosas da antiguidade greco-romana e de seus contemporâneos. A intensidade do sofrimento é correlata à gravidade dos pecados cometidos, sempre aumentando na medida em que se aproxima do último círculo, o dos traidores, onde está afixada para sempre a figura imensa de Lúcifer.

Um dos episódios mais comovente, descrito no canto V do Inferno, é a narração do amor, da morte e do castigo de dois jovens, Paula e o cunhado Francisco. Percebe-se, no espírito do poeta, a coexistência de dois sentimentos conflitantes: a ética cristã que condena o adultério e o impulso irresistível da atração sexual que, por ser natural, não deixa de ser divino também, posto que Deus é o autor da natureza. Sua consciência de cristão reprova especialmente o “modo” como a vingança foi feita: colhidos no ato do adultério, os amantes foram assassinados sem chance de arrepender-se do seu pecado. Uns dois séculos mais tarde, o imortal dramaturgo Shakespeare vai descrever algo semelhante: Hamlet, o príncipe da Dinamarca, tendo a missão de vingar a morte do pai, ao perceber que o assassino estava sozinho na capela, rezando, reflete: se o matar agora, estando ele em estado de graça por ter pedido perdão de seus pecados, ele irá para o céu. Vou aguardar, então, outra oportunidade para causar sua morte, quando ele estiver numa orgia. É o requinte da vingança: matar o corpo e mandar a alma para o inferno!

O segundo cântico fala do Purgatório, uma montanha que se formou pelo deslocamento da terra para o lado oposto de Jerusalém, no hemisfério austral, depois da queda de Lúcifer. O sentido do movimento é o inverso: enquanto se desce para o Inferno (em forma de funil), sobe-se para o Purgatório (em forma de cone), até chegar à parte mais alta, próxima do céu. Dante e Virgílio visitam as almas que vão subindo, carregando os sete P (os pecados capitais): na medida em que alcançam um terraço vão se purificando e um P cai de suas costas. Os orgulhosos carregam recifes; os invejosos andam com as pálpebras costuradas; os raivosos são envolvidos por uma nuvem de fumaça; os preguiçosos têm que correr; os avarentos estão com pés e mãos atados; os gulosos sofrem do suplício de Tântalo: não conseguem alcançar as frutas na sua frente; os luxuriosos ardem em chamas.

Enquanto o Inferno é o reino da rigidez, onde tudo é fixado no tempo e no espaço, no Purgatório predomina o movimento, a passagem de um lugar para outro, do hoje para o amanhã. Estamos no reino da esperança da salvação, sendo a escalada da montanha o símbolo da ascese espiritual. O termo purgatório significa purificação, que se dá pela passagem das trevas da ignorância para a luz do conhecimento. Fazendo psicanálise antes do tempo, Dante nos ensina que a superação do mal só é possível por uma tomada de consciência do passado. Era preciso passar pelo Inferno para poder descobrir a origem do mal e encontrar sua cura. A causa primordial da desgraça humana é vista no egoísmo que caracteriza as almas que estão no Inferno; enquanto no Purgatório se evidencia um sentimento de compreensão mútua, pois as almas se comunicam entre si, com os vivos na terra e com os santos no céu, solicitando ajuda recíproca.

O Paraíso está bem no alto, acima da montanha do Purgatório, composto de nove céus, cada qual regendo um planeta. No topo de tudo está o empíreo, o céu imóvel, composto de pura luz, onde vivem Deus, a Virgem Maria, os coros angélicos, todos os santos e as almas dos justos, purificadas de seus pecados. Aqui o movimento não é nem ascendente, nem descendente, mas circular, a indicar a comunhão de todos na visão beatífica de Deus. Mas para Dante poder visitar este lugar, seu guia não pode ser mais o poeta Virgílio, porque, por ele ser pagão, não tem as credenciais para ascender ao céu. Seu novo guia vai ser a amada Beatriz, jovem angelical, inspiradora de sua poesia, que morrera havia alguns anos e já estava no gozo das belezas celestiais. Ela vai funcionar como intermediária entre Deus e o poeta. Por sua intercessão ele consegue a salvação. No Paraíso os olhos de Beatriz são constantemente apresentados como fonte de luz e de amor. É a concepção do amor idealizado da poesia trovadoresca que em Dante adquire sua expressão mais sublime.

É muito difícil colocar num pequeno espaço possível neste presente trabalho toda a magnitude da Divina Comédia. Queria apenas estimular a leitura do fabuloso poema dantesco. Ele encerra o que de melhor o gênio humano tinha produzido até então. É a súmula da cultura ocidental até o século XIV, antes da explosão da verdadeira Renascença européia. Dante Alighieri é o primeiro poeta numa língua neolatina a retomar a literatura e a filosofia da Grécia e da Roma antiga, obliteradas durante a longa noite da Idade Média. Ele nos fala da mitologia greco-romana, da filosofia de Aristóteles, da poesia épica de Virgílio.

Mas todo o cabedal cultural da antiguidade passa pelo prisma da religião cristã, em que foi educado desde a primeira infância. Sua concepção de fé está fundamentada na Summa Theologica de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), chamado de “Doctor Angelicus” pela profundidade de seu pensamento e pela santidade de sua vida. O frade dominicano tentou harmonizar a filosofia aristotélica com a doutrina cristã, achando que fosse possível a razão andar junto com a fé.

O sonho de juntar a crença com o raciocínio, o humano com o divino, foi possível a Tomás de Aquino porque era um santo e foi também possível a Dante porque era um poeta. Para a Arte, como para a Religião, tudo é possível, pois as duas atividades humanas utilizam o mesmo meio de expressão: a fantasia, que é a grande criadora de mitos, de histórias fantásticas, que nos convidam à crença, independentemente da lógica. Nunca poderíamos saber se Dante, como homem e não como poeta, acreditava realmente na existência de um mundo ultraterreno, num inferno ou purgatório, em penas eternas, na sobrevivência das almas, enfim, nos dogmas e nos princípios éticos da religião cristã.

O problema é que o ser humano, por mais genial que seja, não deixa de ser filho da sua época, educado desde a terna infância num conjunto de valores que o inclinam para uma determinada visão do mundo. Os gregos chamavam de “paidéia” e os latinos de “forma mentis” o conjunto de fatores genéticos e ambientais, decisivos para a formação da personalidade humana. O florentino medieval Dante Alighieri acreditava nos dogmas da fé católica da mesma forma como o grego Aristóteles, talvez o homem mais sábio da antiguidade, considerava ético o estado de escravidão humana ou se perguntava se a mulher teria uma alma. É apenas uma questão de tempos!
A Renascença italiana: Leonardo da Vinci
O termo Renascimento ou Renascença (do francês renaissance) passou a indicar o ressurgimento da Europa após as longas trevas da Idade Média. Como se o homem, que viveu intensamente na era greco-romana, tivesse morrido, soterrado pela ideologia cristã, e depois voltasse a viver novamente. O Renascimento propriamente dito ocupa os séculos XV (Quatrocentos) e XVI (Quinhentos), tendo como centro de irradiação a península italiana. Mas a Renascença não foi um movimento que surgiu de uma forma abrupta e com uma tomada de consciência opositiva a um movimento anterior, como será mais tarde, por exemplo, o Realismo em contraste com o Romantismo. Ele foi crescendo aos poucos, em lugares e em tempos diferentes. Tanto é que os estudiosos falam de vários renascimentos: 1) carolíngio, na época de Carlos Magno, no início do séc. IX; 2) em conseqüência das Cruzadas, a partir do séc. XII; 3) na segunda fase da Idade Média, séculos XIII (Duzentos) e XIV (Trezentos); 4) italiano ou propriamente dito: sec. XV e XVI.

Na verdade, houve uma Pré-Renascença, quando as línguas modernas começaram a produzir os primeiros documentos de arte literária e a Europa saiu do isolamento, entrando em contato direto com a cultura bizantina e muçulmana. Mas a visão do mundo estava ainda impregnada pelo espírito da religiosidade. O pensamento reflexivo e a arte continuavam a serviço da ideologia cristã. O que aconteceu na literatura com os três grandes escritores considerados os fundadores da língua italiana e os precursores do Renascimento: Dante (poesia épica), Petrarca (poesia lírica) e Boccaccio (narrativa curta). Mas o espírito religioso prevaleceu, sobretudo, nas artes plásticas. O estilo gótico (relativo aos godos, povo primitivo da França) predominou especialmente na arquitetura: as catedrais com suas agulhas finíssimas a indicar o movimento vertical em direção ao céu. Na pintura sobressaiu o mestre italiano Giotto (1266-1337) com seus afrescos sobre temas da vida da Virgem Maria e de Jesus Cristo.

Mas o verdadeiro Renascimento tem como pressuposto teórico o Humanismo. Ele acontece quando se substitui o teocentrismo pelo antropocentrismo: o centro de preocupação não é mais Deus, mas o Homem. A razão começa a predominar sobre a fé, tentando a reintegração do homem à natureza e à história. A felicidade é procurada nesta terra e não transferida para um hipotético reino sobrenatural. O termo Humanismo historicamente está ligado à palavra latina humanitas, um conjunto de disciplinas pedagógicas ministradas para a formação do cidadão: gramática, retórica, história, ética, política. O homem renascentista procura sua salvação se desvinculando da religião medieval e se conectando ao ideal de vida da antiguidade greco-romana. Daí a busca e a valorização de textos de Virgílio, Horácio, Cícero e de outros escritores romanos, obliterados por séculos nas bibliotecas de palácios e monastérios.

A grande revolução do Humanismo e da Renascença foi o nascimento da consciência do “indivíduo”, cujos valores se tornaram mais importantes do que as instituições religiosas e o os textos sagrados. O longo processo de evolução política e cultural chegou ao seu apogeu na península italiana, a partir do séc. XV, devido às peculiares condições econômicas de que gozavam as cidades marítimas. Genova, Veneza, Pisa, Nápoles, deitadas no meio dos mares Tirreno e Adriático, se tornaram os estados mais opulentos por estabelecerem relações comerciais com outras cidades banhadas pelo Mediterrâneo. Primeiro, a Florença da época dos Médici, e depois Roma, pela importância que foi adquirindo o Papado, se tornaram centros de irradiação de cultura, rivalizando entre si para contratar arquitetos, escultores e pintores com o fim de embelezar suas igrejas, praças, palácios.

O homem-emblema do Renascimento italiano e europeu foi o florentino Leonardo da Vinci (1452-1519), artista e sábio (pintor, escultor, arquiteto, poeta, matemático, físico, filósofo), sendo definido como “o mais completo dos homens” de todos os tempos e lugares. Foi com ele que a Europa despertou do sono medieval e abriu as portas para a modernidade. Ele viajou pelas principais cidades da Itália (Florença, Milão, Mântua, Roma), solicitado para fazer obras de pintura e de escultura, ora rivalizando, ora trabalhando em conjunto com os outros dois pintores famosos da sua época, Rafael e Michelangelo. Enfim, morreu a serviço do rei da França Francisco I. Além das artes, Leonardo cultivou a investigação científica, estudando fenômenos naturais, anatomia, hidráulica, mecânica. A obra de arte que o tornou imortal foi a tela Mona Lisa, também chamada de “Gioconda”, o retrato da esposa do nobre florentino Francesco Del Giocondo, que se encontra em exposição no museu do Louvre, em Paris. A peculiaridade deste quadro é que a imagem sorri para o observador de qualquer lado que ele a olhe e de uma forma enigmática. Como pensador nos deixou vários ensinamento. Eis um, apenas como amostra:
"Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa,

nunca tem medo e nunca se arrepende".
Para falar sobre a complexa e maravilhosa figura de Leonardo da Vinci me falta tempo, espaço e competência. Quero apenas citar a apreciação do artista e crítico Giorgio Vasari (1511-1574) sobre o gênio florentino:
De tempos em tempos, o Céu nos envia alguém que não é apenas humano, mas
também divino, de modo que, através de seu espírito e da superioridade de
sua inteligência, possamos atingir o Céu".

Ele, sim, pode ser considerado um “enviado” de Deus e não gente tosca, tipo Moisés ou Maomé!

Os Lusíadas, de Camões: os descobrimentos marítimos e a revolução comercial.
A obra literária do maior poeta do classicismo português, Luís Vaz de Camões (1524-1580), é pouco estudada no nosso país e quase desconhecida por quem fala outro idioma. E essa é uma grande injustiça. Camões, além de ter sido um dos maiores poetas líricos do Renascimento europeu, escreveu o poema épico que melhor ilustra a importância e o espírito do movimento renascentista. Enquanto outros poetas trataram de aventuras cavalheirescas (Orlando Furioso, do italiano Ludovico Ariosto) ou religiosas (O Paraíso Perdido, do inglês John Milton), seus Lusíadas abordam o assunto mais importante da época: as grandes navegações e os descobrimentos marítimos, que causaram uma verdadeira Revolução Comercial que, por sua vez, propiciou o advento da Revolução Industrial.

Lembramos que, até o final do séc. XV, os europeus pensavam que o Ocidente acabava nas lendárias Colunas de Hércules, o nome de dois promontórios que estão à entrada do Estreito de Gibraltar, separando a ponta da Europa (península ibérica) da África (região montanhosa de Ceuta). As transações comerciais eram feitas apenas no mar Mediterrâneo, chamado de mare nostrum (o nosso mar). Com as Grandes Navegações e a descoberta de regiões e costumes de sociedades humanas bem diferentes, o eixo do comércio se desloca do Mediterrâneo para o Oceano Atlântico. A viagem do navegador português Vasco da Gama tinha a finalidade de descobrir o caminho marítimo para a Índia, em vista de que o percurso via terra era muito demorado pela precariedade do meio de transporte da época, limitado ao uso da carroça. Não faltava também a motivação religiosa: difundir o cristianismo, batizando os infiéis.

A armada portuguesa larga do porto de Belém, em Lisboa, no ano de 1498. A esquadra marítima lusitana passa pela ilha da Madeira, atravessa as Canárias, costeia o Cabo Verde, navegando pela costa africana. Beira províncias do Zaire e do Congo e, após meses, chega ao cabo das Tormentas, batizado com o nome de Boa Esperança. Após um breve descanso em terra firme, os portugueses retomam o caminho marítimo até Moçambique e Melinde. De lá, finalmente, chegam à Índia, desembarcando no porto de Calicute. Depois de transações comerciais, os portugueses retomam o caminho de volta para Lisboa, não sem antes ter feito uma parada na fabulosa Ilha de Vênus. A deusa do amor recompensa o herói e seus companheiros pelo sofrimento da longa viagem, pedindo ao seu filho Cupido que acalente a paixão nos corações dos visitantes. O poema termina com a descrição da festa dos marinheiros portugueses com lindas ninfas.

Este é o resumo da fábula dos Lusíadas, exposto na ordem cronológica dos fatos para facilitar o entendimento da história. O poema é muito longo e complexo para ser analisado em poucas páginas. Sua interpretação exige um bom conhecimento de mitologia greco-romana (o próprio título remete a Luso, filho de Baco) e de história e geografia de Portugal, além de poética para apreciar a beleza de seus versos. Vou fazer referência apenas a dois episódios, transcrevendo alguns versos. A triste história da personagem Inês de Castro chegou até ao anedotário popular, pela expressão “agora Inês é morta”, parodiando o verso de Camões:

Aquela que depois de morta foi Rainha”
O poeta conta como o fogo da paixão amorosa incendiou o coração do príncipe Infante pela bela aia Inês:

Estavas, linda Inês, posta em sossego...

Tu só, tu, puro amor, com força crua...

Mas o rei Afonso IV não aceita o relacionamento ilegítimo de seu filho e decreta a morte da jovem. Inês implora a clemência do Rei pelos dois filhos que tivera com o príncipe herdeiro:

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito...

A estas criancinhas tem respeito...

O Infante, no ano seguinte à morte de Inês, assumindo o trono com o nome Dom Pedro I de Portugal, em 1355, resgata a memória da amada, afirmando que casara com ela secretamente e que, portanto, os filhos que tivera com Inês eram legítimos.

Outro episódio famoso d’ Os Lusíadas tem como protagonista o Velho do Restelo e como cenário o porto de Belém, em Lisboa, de onde os expedicionários partiram para chegar à Índia por uma via marítima mais curta. Na despedida, um senhor de idade, comovido pelo choro de mulheres e crianças, se levanta e faz um veemente discurso reprovando as aventuras marítimas, que causam o abandono de esposas e filhos e deixam a pátria desprotegida:

Mas um velho de aspecto venerando,...



Tais palavras tirou do experto peito:

Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!”
A figura do Velho do Restelo, em contraste com o Poeta do prólogo que exalta as grandes navegações, expressa a voz crítica de Camões. Ele, olhando os acontecimentos da Índia com uma perspectiva de aproximadamente 70 anos, julga o domínio português nas colônias improdutivo e causa do enfraquecimento do Reino de Portugal. O episódio exprime, ainda, o Camões cansado das lutas e das guerras, que anseia à paz, com saudade da terra natal e das tradições bucólicas de seu povo. Como se pode perceber, o poeta lusitano tem uma personalidade dividida, múltipla, apresentando, ao lado da exaltação patriótica, uma consciência crítica dos fatos que está cantando. É um prenúncio da criação dos heterônimos de Fernando Pessoa: a expressão artística da coexistência de uma pluralidade de seres na mesma pessoa. São os laços da inteligência crítica que fazem a ponte entre os dois maiores poetas de Portugal, o renascentista e o modernista.

Dom Quixote, de Cervantes: a novela de Cavalaria
A Cavalaria, em sua origem romana, era uma ordem ou status social a que pertencia o cidadão que tinha meios para sustentar um cavalo com as vestimentas e as armas adequadas. A ordem eqüestre estava por baixo da classe senatorial e por cima da infantaria, constituída pelos soldados que provinham da plebe, o povão que fornecia ao Estado apenas a “prole”, isto é, seus filhos para ir à guerra. O termo plebeu, em oposição a patrício, mais tarde, na época de Karl Marx, será substituído por “proletário”, no mesmo sentido etimológico de ter sua única riqueza nos filhos (prole), que só dispunham da mão de obra para o trabalho.

Na Idade Média, os cavaleiros andantes tinham a função de transmitir notícias de um castelo para outro, participar de rodeios, proteger viúvas, mocinhas e crianças desamparadas, promover a ordem e a justiça. A imaginação popular foi criando inúmeras histórias sobre os feitos grandiosos destes cavaleiros. Menestréis narravam aventuras mirabolantes nos paços e nas tavernas, em prosa e em versos. Ouvir histórias era o principal meio de diversão de um povo analfabeto, numa época em que ainda nem se sonhava com imprensa, rádio, televisão, cinema, internet.

A obra literária que melhor retrata o mundo da cavalaria é El Engenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha, conhecida pelo título abreviado Dom Quixote. Seu autor é o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616). O protagonista do romance é Alonso Quijano, fidalgo da província da Mancha, fanático leitor de livros de cavalaria. Lembro que a descoberta da imprensa pelo alemão Gutenberg, na segunda metade do séc. XV, facilitou o uso da leitura de textos sagrados e profanos, antes restrito a poucas pessoas em condições de adquirir manuscritos caríssimos pela raridade. Alonso, deixando-se envolver pelas aventuras fabulosas encontradas nos livros, confunde ficção com realidade e decide pôr em prática os ideais dos cavaleiros, andando pelo mundo para restabelecer o sentimento de honra e de justiça.

Escolhe o nome Dom Quixote de la Mancha, uma camponesa, que passa a chamar Dulcinéia do Toboso, como a dama do seu coração e o gordo Sancho Pança como escudeiro. Limpada uma velha armadura e montado no cavalo Rocinante parte em busca de aventuras. Chega a uma hospedaria e pede ao taverneiro, pensando que é o senhor do castelo, que o consagre cavaleiro, tendo por testemunhas duas prostitutas, tidas como nobres damas. Luta contra moinhos de vento, tomados por enormes gigantes. Sua derrota é justificada pela inveja de inimigos feiticeiros. Seguem-se outras aventuras, sempre descritas pelo modo irônico: confunde uma manada de ovelhas com um exército inimigo, um enterro com o rapto de um cavaleiro ferido, uma bacia de barbeiro com o elmo do lendário herói Mambrino.

Para escapar da polícia, Dom Quixote se refugia na serra Morena, onde fica em meditação, assumindo o nome de “Cavaleiro da Triste Figura”. Lá, é alcançado pelo vigário e o barbeiro, os amigos que estavam em sua busca. Eles arrumam um estratagema para conduzi-lo de volta a sua casa, onde o espera a sobrinha que mora com ele. Mas o herói escapa outra vez, indo até Toboso para rever a amada, confundida com uma moça feia e malcriada. Sempre acompanhado pelo fiel escudeiro, vai para Saragoça e luta contra um bacharel camuflado de “Cavaleiro dos Espelhos”. Em Barcelona, Dom Quixote e Sancho Pança são objetos de gozação, este último sendo eleito “Governador da ilha de Barataria”.

Enfim, o mesmo bacharel, desta vez com o nome de “Cavaleiro da Branca Lua”, desafia nosso herói a um duelo, desta vez sob juramento de que, se derrotado, voltaria para sua terra. O que acontece. Dom Quixote chega em casa, adoece e morre.

Este é apenas um resumo de uma obra extensa e complexa, onde, na narrativa principal, a fábula de Dom Quixote, se encontram encaixadas várias histórias de personagens secundárias, ouvidas pelo protagonista em suas andanças pelas tavernas. Por isso, há críticos que consideram a obra de Cervantes não um romance, mas uma “novela”, devido a sua estrutura aberta, sempre suscetível de acrescentar mais um episódio, como acontece atualmente com os capítulos da novela de televisão. Aliás, o próprio autor tem consciência disso quando publica uma “Segunda Parte” do Dom Quixote, após o sucesso da primeira edição. Mas não é aqui o lugar de discussões técnicas sobre a estrutura e o valor estético da obra do grande escritor espanhol. Quero apenas salientar que, além do sentido denotativo, explícito, que salta aos olhos (a sátira aos livros de cavalaria e a gozação de seus heróis), a obra possibilita uma interpretação simbólica centrada na caracterização dos dois personagens principais.

O personagem Dom Quixote exprime o ideal cavaleiresco que admite a possibilidade da existência de um mundo onde reine a justiça social, a verdade, o amor puro, a beleza, a honestidade, a honra acima de tudo. Neste sentido, Cervantes retoma o mito bíblico do Paraíso Terrestre antes da culpa de Adão e a lenda pagã da Idade de Ouro, assim como fazem outros escritores utópicos da Renascença européia. O personagem Dom Quixote está fechado num subjetivismo absoluto, que julga tudo a partir de si próprio:


yo pienso y es así...deben de ser y son”
Se as duas moças da taverna podem ser vistas como duas nobres donzelas, por que considerá-las prostitutas vulgares? Mais uma vez, permito-me estabelecer o paralelismo entre a fantasia poética e a crença religiosa: se o devoto pode acreditar na existência de um mundo sobrenatural, por que se contentar com as limitações da vida terrena? A arte, como a religião, prescinde de qualquer fundamentação lógica, colocando-se acima da filosofia, da história e da ciência.

Já o escudeiro Sancho Pança revela uma personalidade completamente oposta, representando o que é material e prático, a vida do burguês renascentista. A própria figura física já estabelece o contraste: gordo e barrigudo. Ele simboliza o conjunto de valores cultivados pelo meio ambiente, especialmente o desejo de riqueza e de uma posição social de prestígio: ele acompanha o herói exclusivamente porque lhe prometeu o governo de uma ilha. Sancho não tem instrução alguma, exprimindo-se por provérbios populares e deixando-se guiar pelo bom senso. Os dois personagens vivem apresentando opiniões opostas. Mas é próprio na descrição da tensão entre as duas forças opostas, o ideal e o real, que reside a beleza humana e poética do romance. O personagem Dom Quixote fica doente e morre quando é impedido de “sonhar seu sonho impossível”, quando se convence de que é inútil lutar contra a massificação da realidade.

Mas o personagem de uma obra de arte verdadeira morre? É claro que não! Morre o autor, morre o ator que interpreta o papel, mas sua mensagem perpassa o tempo e o espaço. Dom Quixote está aí continuamente presente na poesia, no teatro, no cinema, na escultura, como um deus que muda de religião (judeu, cristão, muçulmano), mas não de espiritualidade. Afinal, viver numa sociedade onde reine a justiça é sempre preferível ao domínio da prepotência, do egoísmo, da selvageria. Então, por que não continuar a luta para alcançar tal ideal? É uma questão de inteligência, de reflexão, de bom senso!
O Teatro de Shakespeare
William Shakespeare (1564-1616) é o maior dramaturgo de todos os tempos. São atribuídas ao imortal gênio teatral da Inglaterra 38 peças, aproximadamente, entre tragédias, comédias e dramas históricos. Viveu a cavaleiro entre o Renascimento e o Barroco, absorvendo, do primeiro movimento, a cultura greco-romana e, do segundo, a perplexidade espiritual causada pela oposição entre a herança pagã e a moral cristã. Dedicou sua vida inteira ao teatro, funcionando como autor, ator, diretor, empresário, cenógrafo. Apenas como amostragem, eis a sinopse de três tragédias que apresentam as determinações espaciais e temporais mais recorrentes na dramaturgia do poeta inglês: a Roma dos Césares, a corte real do povo anglo-saxão, a Itália medieval e renascentista.
Júlio César

A peça está centrada sobre o assassinato político mais famoso da história do Ocidente: no dia 15 de março de 44 a.C., no palácio do Capitólio em Roma, Júlio César, cônsul e herói nacional, é morto a punhaladas por um grupo de senadores. As vitórias do grande general sobre os gauleses e sobre os inimigos internos, junto com a grande popularidade, suscitaram o temor de que César pusesse fim ao regime democrático. Alguns senadores por inveja, outros realmente preocupados com a sorte da república romana, resolvem conspirar, solicitando a adesão também do nobre Bruto, que César considerava como um filho. Fazendo pouco caso do conselho dos adivinhos e da esposa Calpúrnia, que previam os idos de março como fatídicos e nefastos, o cônsul vai à reunião no Capitólio, onde é circundado por vários senadores armados. Ao receber os primeiros golpes de punhais tenta se defender, mas desiste quando percebe que até seu melhor amigo está entre os conspiradores, pronunciando a famosa frase:


Tu quoque, Brute, fili mi?” (Também você, Bruto, meu filho?).
Durante os funerais, o cônsul Marcus Antônio, quebrando o pacto de não acusar os conspiradores, após o discurso de Bruto, ele toma a palavra. Começa, então, a instigar a plebe contra os assassinos de César com um discurso sutil, usando a figura retórica da reticência, fingindo não querer dizer o que realmente diz:
“Amigos romanos...estou aqui para sepultar César, não para glorificá-lo...Bruto disse que ele era ambicioso e Bruto é um homem honrado... César trouxe muitos cativos para Roma, cujos resgates encheram os cofres do Estado ...derramava lágrimas ao ouvir as queixas dos pobres...eu lhe apresentei uma coroa real e, por três vezes, César a recusou. Isto era ambição? Entretanto, Bruto disse que ele era ambicioso e, sem dúvida alguma, Bruto é um homem honrado”.
O discurso do cônsul do partido democrata alcança seu objetivo: Bruto, Cássio e os outros assassinos fogem de Roma, perseguidos pelas tropas de Otávio e Marcus Antônio. Em Filipos, cidade da Macedônia, acontece o enfrentamento. Bruto, vencido, acaba se suicidando. Ao morrer, ele exclama: “César, descansa agora”, pois o espectro do antigo amigo não deixava de persegui-lo.
Hamlet, Príncipe da Dinamarca

Da luta pelo poder na antiga Roma, Shakespeare passa a descrever sangrentos conflitos militares e políticos entre povos primitivos da Escandinávia para o domínio dos países da Dinamarca e da Noruega, no Norte da Europa. Sobre a figura de Hamlet foi se criando um mito que remonta ao séc. XII. A peça começa quando a morte de Hamlet Pai motiva o Príncipe Hamlet, seu filho, a retornar à corte de Elsenor, interrompendo os estudos na universidade de Wittenberg. O jovem fica furioso ao assistir ao novo casamento da rainha Gertrudes, com Cláudio, irmão de seu recém-falecido pai. Ironicamente, o jovem reflete: minha mãe fez uma grande economia, pois utilizara as flores do enterro para a festa do matrimônio!

O espectro do velho Rei Hamlet aparece nas ameias do castelo ao amigo Horácio e, depois, ao próprio filho, pedindo vingança, revelando que sua morte não fora natural, mas provocada pelo ciúme e pela ambição do irmão Cláudio. Ele estava descansando uma tarde no jardim, quando um veneno mortífero foi instilado no seu ouvido.

O jovem Hamlet faz um teste para confirmar a versão do fantasma: contrata uma companhia italiana para representar uma peça em que manda inserir uma cena semelhante à do envenenamento do pai. A perturbação de Cláudio convence o Príncipe, que maquina a vingança. Sem querer, começa matando o lorde camarista Polônio, pai da noiva Ofélia e espião de Cláudio. O rei-tio tenta se livrar do jovem mandando-o para a Inglaterra, acompanhado por dois capangas. Mas Hamlet consegue escapar e volta a Elsenor. Enquanto estava longe, Ofélia, profundamente abalada pela morte do pai e pelo abandono do amado, acaba enlouquecendo e comete suicídio. Seu irmão Laertes, voltando da França, é induzido pelo Rei a desafiar Hamlet para vingar a morte do pai e da irmã. Cláudio, mais uma vez, se serve do veneno, colocando gotas no florete de Laertes e numa taça de vinho. E o veneno causa a morte dos quatro personagens: Hamlet e Laertes pelo florete envenenado, a rainha Gertrudes pelo vinho e Cláudio pelo florete e pelo vinho. Resta vivo apenas o amigo Horácio, incumbido de comunicar a Fortimbrás, Príncipe da Noruega, que era vontade do moribundo Hamlet que ele assumisse o trono da Dinamarca. A peça se encerra com as honras fúnebres prestadas ao príncipe Hamlet por Fortimbrás, pelos embaixadores da Inglaterra e pelo povo todo. Realmente, naquela época, “havia algo de podre no reino da Dinamarca”!

Esta peça é uma das mais representadas e comentadas ao longo da cultura ocidental. Como toda obra de arte verdadeira, ela é poliédrica, ensejando várias interpretações. Um sentido épico-político pode ser visto no aproveitamento do mito de Hamlet para explicar a derrota histórica da Dinamarca por parte da Noruega: antigamente, a Dinamarca, país poderoso que dominava as nações vizinhas da Noruega, Polônia e Inglaterra, entrou em decadência por causa da ambição e do ódio de seus governantes. Uma interpretação psicanalítica explicaria o desprezo de Hamlet pela bela noiva Ofélia. O complexo de Édipo levaria o jovem a considerar o tio como um rival na disputa do amor de Gertrudes. A conduta indecorosa da mãe provoca nele um profundo sentimento de misoginia, que o afasta do relacionamento sexual. Mas, a meu ver, o tema que perpassa esta peça de ponta a ponta e que se avoluma no monólogo do personagem Hamlet, que inicia com o famoso verso

ser ou não ser, eis a questão!”


é a dúvida, a incerteza, a perplexidade. Shakespeare coloca aqui o dilema fundamental do ser humano: aceitar pacificamente o ultraje e a injustiça ou rebelar-se e enfrentar as adversidades, retrucando com as mesmas armas da perfídia e da violência? Não seria melhor refugiar-se no esquecimento do sono, do sonho, da morte? Mas como encontrar na morte o descanso de todas as opressões, se os suicidas são castigados com penas terríveis no desconhecido mundo do além?

Triste condição do ser humano, incapaz de enfrentar os males presentes e temeroso dos males futuros. O questionamento do sentido da vida, face ao mistério da morte, não inquietou apenas o homem da época do Barroco, atormentado pelo severo espírito da Contra-Reforma, mas as mais brilhantes inteligências do mundo da filosofia, da arte e da ciência, em todos os tempos. Daí a perene modernidade desta obra do poeta inglês.


Romeu e Julieta:

Na cidade de Verona, no Norte da Itália, duas poderosas famílias são inimigas juradas de morte: Montecchio e Capuleto. O jovem Romeu, da família dos Montecchio, resolve participar, mascarado, de um baile no palácio dos Capuleto. Ao ver a linda Julieta, sente-se atraído irresistivelmente. Seu olhar de amor é correspondido, mas, ao se apresentarem, os dois jovens ficam decepcionados, pois descobrem pertencer a famílias inimigas. Mas a atração amorosa é irresistível: Romeu, às escondidas, penetra nos jardins dos Capuleto e ouve Julieta na janela confessar às estrelas sua paixão pelo jovem Montecchio. Romeu se apresenta, então, e revela a reciprocidade do sentimento. Um padre franciscano, Frei Lourenço, amigo da família dos Montecchio, em segredo, celebra o casamento, na esperança de que o enlace apaziguasse as duas famílias rivais.

Mas a desgraça pairava no ar: numa briga entre amigos dos Montecchio e parentes dos Capuleto, Romeu acaba matando Teobaldo, primo de Julieta, que acabara de causar a morte de seu amigo Mercúrio. Romeu foge para a cidade de Mântua e Frei Lourenço prepara um plano para salvar o casal: pede a Julieta que tome um sonífero, parecendo um veneno, para fingir-se morta e ser sepultada. Romeu chega na sala mortuária e, não tendo recebido a carta de Frei Lourenço, pensa que a amada está morta de verdade. Suicida-se, então, para ficar ao lado da amada. Julieta acorda e, vendo Romeu morto, acaba trespassando seu peito com a espada do esposo. A peça termina com o arrependimento dos membros das duas famílias que põem fim às inimizades. A mensagem contida na cena final afirma o triunfo do amor sobre o ódio.

Todas as peças trágicas de Shakespeare estão construídas a partir de um fato histórico ou de um precedente cultural. E o drama Romeu e Julieta não foge à regra. Conforme os críticos, o episódio verídico teria acontecido na primeira década do séc. XIV, dando origem a poemas e dramas em francês e em inglês. Shakespeare, na construção de sua peça, se inspirou no poema Tragical History of Romeo and Juliet, publicado em 1562, cinco anos antes da primeira encenação da tragédia. Mas isso não tem muita importância, pois a concepção estética da Renascença, calcada sobre o conceito clássico de beleza, considerava a imitação como uma qualidade e não um defeito. A arte não reside no conteúdo, mas na forma como o material é utilizado. No caso da Literatura, o que vale é o arranjo estético da linguagem humana. E nisso o bardo inglês é insuperável!



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