Reflexões sobre Filosofia, Religião, Literatura, Política, Cidadania



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Lutero: Reforma Protestante e Contra-Reforma Católica
O termo “protestante”, de etimologia latina e de uso panromânico, passou a indicar os cristãos do Norte da Europa que se rebelaram contra a Igreja Católica Romana, passando a cultuar uma nova forma de religiosidade. O fundador do Protestantismo foi o monge agostiniano alemão Martinho Lutero (1483-1546). Sua magistral tradução da Bíblia do latim para o alemão constitui o primeiro grande monumento literário em língua germânica, assim como fora a Divina Comédia de Dante Alighieri para a língua italiana, uns três séculos antes. Aproveitando a descoberta da imprensa pelo seu patrício Gutenberg, Lutero possibilitou a divulgação dos livros do Velho e do Novo Testamento. Desta forma, o conhecimento da Escritura, considerada sagrada, deixava de ser uma exclusividade dos clérigos e se tornava de domínio público, accessível a qualquer cristão alfabetizado.

A gota de água que precipitou a reforma protestante foi a campanha do padre dominicano alemão Johannes Tetzel, encarregado de pregar as indulgências dos pecados àqueles que contribuíssem monetariamente para a reconstrução da Basílica de São Pedro. Isto aconteceu em 1517, mas já vinha de longe a indignação dos povos do Norte da Europa contra a prepotência e a corrupção da Igreja de Roma. Em 1381, o teólogo inglês John Wycliffe, junto com frades franciscanos, organizou manifestações públicas para uma reforma de costumes, exigindo que bispos e cardeais renunciassem aos bens materiais e que padres e monges fossem trabalhar. E foi condenado como herege. Jan Huss, estudante de teologia da Boêmia, denunciou a venda das indulgências (o perdão dos pecados em troca de pagamento) e a ganância e a imoralidade do alto clero. E, em 1415, foi condenado a morrer na fogueira.

Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou na porta de uma igreja suas 95 teses que questionavam princípios e práticas da Igreja Romana. Sua intenção não era afastar-se da religião professada, mas apenas criticar os abusos. Após três anos de polêmicas com os teólogos de Roma, porém, o conjunto de sua doutrina acabou sendo condenado pelo papa Leão X. Daí o maior cisma do Cristianismo, que deu origem à fragmentação dos ensinamentos de Jesus em várias igrejas. Apontamos os pontos de conflito, que se encontram expostos nos quatro principais escritos de Lutero: Comentário (à Epistola de São Paulo aos Romanos), manifesto À Nobreza Cristã da Nação Alemã, O cativeiro da Babilônia e Da Liberdade do Cristão.

Meditando sobre a frase do apóstolo Paulo “O justo viverá pela fé”, Lutero sente uma revelação interior que o leva a pensar que a fé não requer informação, conhecimento, certeza, mas uma rendição livre e uma aposta feliz na bondade não sentida, experimentada e conhecida de Deus. Encontra, então, a salvação apenas na fé em Deus, concebido como amor, sempre disposto a perdoar nossos pecados. Ele nega a autoridade eclesiástica, pois a palavra de Deus está contida apenas nos textos sagrados, não podendo ser alterada pela intervenção do Papa ou de bispos reunidos em Concílios: sola scriptura (apenas a Escritura Sagrada contém a verdade).

Lutero não aceita, portanto, o dogma da infalibilidade papal, mesmo falando “ex cátedra” sobre assuntos de fé: todo ser humano está sujeito a erro. Qualquer cristão pode dirigir-se diretamente a Deus, não precisando de intermediários: daí a iconoclastia, que prega a derrubada de imagens e estátuas da Virgem Maria e dos Santos, assim como o culto de relíquias, a celebração de missas e a confissão. Rejeita, portanto, todos os “Sacramentos” inventados pela Igreja, aceitando apenas os dois que se encontram no Novo Testamento: o Batismo (que Jesus recebeu de João Batista) e a Eucaristia (a comunhão do pão da Última Ceia). Ele deu o exemplo de dessacralização do matrimônio, juntando-se com a ex-freira Katharina von Bora com quem teve seis filhos.

Mas a doutrina luterana não deixa de ter um substrato político e econômico. Trata-se, enfim, da insurreição dos povos anglo-saxônicos contra a tirania do poder papal, que de Roma impunha pesados tributos e uma moral hipócrita. Ele pregou a substituição do decadente clericalismo romano pela instituição de um sacerdócio universal de todos os cristãos, abolindo qualquer tipo de hierarquia, posto que todos somos iguais perante Deus. E por isso que a Reforma luterana provocou rebeliões na Alemanha, na Suíça, na Inglaterra e em outros países do Norte da Europa, que transcenderam o aspecto religioso, entrando no social. Os nobres empobrecidos, junto com a seita popular dos “anabatistas” (os novos batizados), assaltaram abadias e mosteiros, lançando o grito comunitário: se todos os homens são iguais perante Deus, é justo que todos os bens sejam divididos entre todos. Mas esta forma de comunismo antecipado não foi aprovada por Lutero, que sempre esteve ao lado da burguesia.

O apoio à burguesia foi mais evidente ainda no segundo patriarca da reforma protestante, o suíço João Calvino (1509-1564), que transformou Genebra numa cidade-igreja, regida pelos princípios do Evangelho. A base ideológica está na crença de que o sucesso social e econômico, o enriquecimento, mesmo ilícito pela usura, é um sinal da benção divina. O historiador Marx Weber escreveu uma obra que, publicada em 1905, se tornou clássica sobre o assunto: A Ética protestante e o espírito do Capitalismo, tese que pretende dar a razão pela qual a maioria dos povos de religião protestante são mais ricos e desenvolvidos do que as etnias latinas onde predomina a religião católica, que prega (apenas na doutrina, bem entendido!) a renúncia aos bens materiais. É preciso salientar que o fundador do Protestantismo, Lutero, fora educado na filosofia escolástica de Guilherme Ockham (1287-1347), que havia instado os cristãos a tentar merecer a graça de Deus por meio de suas obras: estava lançada a base da meritocracia, cada qual devendo ganhar conforme o mérito.

O princípio fundamental do Protestantismo, que defende o direito ao julgamento individual na interpretação das Escrituras, teve como conseqüência natural o aparecimento de um grande número de seitas ao longo do tempo e do espaço. Além do luteranismo e do calvinismo, apontamos o anglicanismo, as igrejas batistas, metodistas e evangélicas (em suas várias ramificações), o pentecostalismo, os quacres, os mórmons, entre outras seitas que não param de surgir. Volta e meia aparece um novo pregador que se acha possuído pelo Espírito Santo para fundar uma igreja diferente.

O sucesso da Reforma protestante provocou a Contra-Reforma católica. A igreja de Roma, para enfrentar a disseminação das várias seitas protestantes, convocou o Concílio de Trento, cidade do Norte da Itália, que durou de 1545 a 1563. Os bispos dos vários países católicos fizeram uma revisão da doutrina cristã, reafirmando os dogmas tradicionais e impondo severas normas de moralidade. Ficou a cargo da ordem religiosa, chamada de Companhia de Jesus, que surgira na Espanha em 1534, chefiada por Santo Inácio de Loyola, contestar as doutrinas heréticas dos protestantes, através do ensino religioso dirigido. Mas o Jesuitismo que assim nascia, embora posteriormente viesse a ter méritos inegáveis pela sua ação social e cultural, na época do barroco espanhol, sendo o braço forte da Contra-Reforma, foi acusado de crimes horríveis na tentativa de reprimir protestantes e outros praticantes de religiões consideradas hereges.

Em verdade, o Concílio de Trento restaurou o antigo Tribunal da Inquisição, criado no começo do século XIII para reprimir as heresias de cátaros e albigenses. Na Idade Média, quem agisse de uma forma extravagante, fora dos parâmetros religiosos da época, era considerado herege ou bruxo e condenado à fogueira. O que aconteceu, por exemplo, com a “Donzela de Orléans”, a mítica heroína francesa Joana D’Arc, sacrificada em 1431, sob a acusação de ter recebido vozes divinas e de ter vestido roupa masculina para lutar contra os opressores ingleses. Depois de quase meio milênio, em 1920, a Igreja Católica lhe fez justiça, proclamando-a Santa. O padre dominicano Tomás de Torquemada (1420-1498), Inquisidor-geral para toda a península ibérica, passou à história como sinônimo de intolerância religiosa, tendo condenado à morte milhares de heréticos, especialmente judeus.

A Contra-Reforma ensejou inúmeras e sangrentas guerras de religião em toda a Europa, especialmente entre franceses e espanhóis, motivadas também por motivos políticos, devido à disputa por territórios limítrofes entre os dois países. A noite de 24 de agosto de 1572 é lembrada como a “Noite de São Bartolomeu”, quando foram massacrados aproximadamente trinta mil “huguenotes” (nome depreciativo dos protestantes franceses). O conflito só começou a declinar a partir de 1594: pelo Edito de Nantes, Henrique de Navarra concedeu liberdade de culto aos protestantes. Ainda hoje, a rivalidade entre as duas religiões continua, especialmente na Irlanda.

Mas o crime maior que a Igreja Católica cometeu foi contra a ciência, atrasando o desenvolvimento que a Renascença européia vinha iniciando. No ano de 1600, o monge italiano Giordano Bruno foi queimado vivo em meio a uma praça pública de Roma, condenado como herege pela Inquisição, não apenas por duvidar da virgindade de Maria e da Trindade de Deus, mas, especialmente, por acreditar na existência de outros planetas, que ameaçariam a hegemonia terrestre. Conseqüentemente, a narrativa bíblica da criação do mundo podia ser contestada: se existissem outras terras, poderiam existir outras criaturas. Estas também teriam nascidas com o pecado original, precisando de outros Cristos?

Galileo Galilei (1564-1642), o grande cientista italiano, sucessor do polonês Copérnico e do inglês Newton, acusado de ensinar que era a Terra a mover-se ao redor do Sol e não o contrário, conforme o sistema ptolomaico até então aceito, precisou abjurar publicamente de sua teoria para escapar da morte. Um dos seus pensamentos mais profundo se conecta à sabedoria da Grécia antiga, retomando o método socrático da autognose:
Você não pode ensinar nada a um homem; você pode apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo.

Voltando ao Protestantismo, a nova religião, como o Judaísmo, também teve o seu “êxodo”. Puritanos ingleses e calvinistas radicais, que se sentiram perseguidos na sua pátria, decidiram emigrar para o Novo Mundo. A América recém descoberta passou a ser vista como sua terra prometida, assim como fora Canaã para o povo hebreu. Lá, os emigrantes do Norte da Europa se juntaram a judeus e a grupos de outras etnias perseguidos ou desajustados em sua terra de origem para construir uma nova pátria onde os indígenas não tinham capacidade nem vontade de trabalhar.

Na nova terra, irmanados pelo espírito do trabalho e do progresso civilizacional, não há conflito entre cristãos, judeus e muçulmanos. O evangelismo americano pouco se diferencia do catolicismo: a remissão dos pecados e a promessa do paraíso não se paga mais por indulgências, mas por dízimos. As igrejas, todas elas, se enriquecem às custas de seus fiéis. Parece que padres, pastores, rabinos, lamas, mulás, aiatolás formem um coro sussurrando:
vocês, idiotas, ficam com a fé, nós ficamos com o dinheiro!”.
A política - Maquiavel: “o fim justifica os meios”
A frase em epígrafe, de autoria de Niccoló Machiavelli (1469-1527), Maquiavel em português, continua sendo interpretada de uma forma variada, quase sempre com um sentido depreciativo, longe do contexto histórico. Ele foi Secretário de Estado da República de Florença, desempenhando funções diplomáticas em vários governos do centro da Europa. Tal experiência lhe fez deduzir que o único modo de salvar o rico território italiano, cobiçado por reis germânicos, espanhóis e franceses, era a aparição de um Príncipe (o título da sua obra mais conhecida) forte e glorioso, capaz de organizar um exército nacional e dar unidade política à Itália. Este fora também o sonho do seu conterrâneo Dante Alighieri, o poeta autor da Divina Comédia, que viveu uns 200 anos antes de Maquiavel. Mas os italianos precisariam esperar até 1860, quando o general Giuseppe Garibaldi conseguirá unificar o território da península, da Sicília ao Piemonte.

O estudioso florentino é considerado o primeiro grande teórico da ciência política moderna. Na verdade, ele é muito mais prático do que teórico. Maquiavel nos ensina que governar é propiciar o bem coletivo, arrancando o homem da sua maldade natural, o egoísmo individualista. Ele foi o inventor da “política do possível”: o governante deve atuar conforme as condições existentes em dada sociedade, sem almejar o alcance de ideais inatingíveis. Foi o primeiro a separar nitidamente os interesses do Estado dos dogmas religiosos, pregando a completa laicidade de qualquer governo. Ao Príncipe é dado o direito de utilizar todos os recursos ao seu alcance possíveis, pois o fim justificaria os meios. Admite até o uso da mentira ou da violência, quando for indispensável, por um breve lapso de tempo e sempre visando o bem comum. Mal interpretada, sua doutrina foi utilizada por correntes políticas extremistas e diametralmente opostas: o fascista Mussolini e o marxista Gramsci se declararam seus seguidores.


A Filosofia: Descartes, Pascal, Hobbes, Spinoza, Kant, Hegel, Vico


A retomada da cultura greco-romana no Renascimento europeu não se deu apenas na literatura e nas artes plásticas, mas também no pensamento filosófico. O mestre Sócrates e seus dois principais discípulos, Platão e Aristóteles, além de Epicuro, estóicos e pré-socráticos, influenciaram os homens que colocaram na razão, e não nos escritos considerados sagrados e nas crenças religiosas, o fulcro do conhecimento da realidade. Eis uma breve apresentação dos principais pensadores que mais contribuíram, ao longo da Renascença e do Iluminismo, para o desenvolvimento do raciocínio humano.
Descartes (1596-1650): Cogito, ergo sum (“Penso, logo existo”)
O estudioso francês René Descartes é conhecido também pelo nome latino Renatus Cartesius, de que resultou o nome italiano Cartesio e o adjetivo qualificativo “cartesiano”, no sentido de uma verdade clara e indiscutível. Além de filósofo, foi também um grande matemático, associando as duas atividades mentais: para ele, o pensamento reflexivo devia ter a mesma clareza e objetividade da ciência exata. Ele operou uma revolução no campo da filosofia semelhante a que seus contemporâneos Copérnico e Galilei estavam realizando no mundo da astronomia (o heliocentrismo): como o centro do universo até então conhecido não era mais a terra, mas o sol, assim o conhecimento da realidade não residiria no mundo exterior, variável e enganador, mas no mundo interior, na mente que o pensa, na razão. Por isso, ele é considerado o pai do moderno Racionalismo.

Descartes seguiu – consciente ou inconscientemente, pouco importa - o método socrático da dúvida sistemática, não acreditando em nada que não pudesse ser demonstrado cientificamente, que não tivesse uma evidência incontestável. A primeira coisa de que não podia duvidar era o fato de pensar: daí o famoso achado “penso (ou duvido), portanto eu existo”. A grande contribuição de Descartes à filosofia foi a valorização do ato de pensar, o estabelecimento da primazia da razão. A única coisa que não é ilusória é o eu pensante. A própria objetividade da ciência não pode existir fora da subjetividade de quem a estuda. O conhecimento parte de dentro para fora. Rompe-se, assim, o automatismo cognitivo fundamentado na tradição cultural, desmonta-se o mundo do autoritarismo: tudo é submetido ao controle da lógica.

Mas, infelizmente, a clareza e a coerência cartesiana não penetram o domínio da ética. Filho de sua época, Descartes sucumbe aos preconceitos da teologia escolástica e da moral burguesa. Ele acaba professando a necessidade de uma ética “provisória”, de tolerância, conformista em relação aos ditames de ordem política, social e religiosa. Quando fica sabendo da condenação de Galilei, Descartes deixa de publicar um trabalho científico em que apresentava idéias inovadoras semelhantes. O medo o torna omisso e hipócrita. Precisamos esperar a vinda do alemão Emanuel Kant para que os valores humanos da sinceridade, da verdade e da justiça fossem considerados “imperativos categóricos”.
Pascal (1623-1662): Destino e livre arbítrio
O africano Santo Agostinho (354-420), o espanhol Luís Molina (1535-1601) e o holandês Otto Jansen (1585-1638) podem ser considerados os predecessores do francês Blaise Pascal no tocante à discussão sobre o controvertido tema da religião católica que trata das relações entre a predestinação e a liberdade humana: se a salvação do homem só é possível pela graça divina e esta, por definição, é um ato gratuito, um presente de Deus, como condenar quem não recebeu este dom?

A questão do livre arbítrio vem de longe, já sendo objeto de perplexidade na mitologia grega: Édipo pode ser visto como o arquétipo do inocente-culpado. O Fado (o destino) determinara que ele matasse o pai e casasse com a mãe, independentemente da sua vontade. Os filósofos estóicos admitiam uma liberdade apenas interior, na possibilidade do “eu” dispor de si mesmo, considerando como princípio de opressão todo o mundo exterior: a natureza, a sociedade, as paixões. Já, conforme a Bíblia, todos os seres humanos, ao nascerem, contraem uma culpa por um pecado que não cometeram. O determinismo psicológico é claramente expresso por São Paulo na sua Epistola aos Romanos:


faço não o bem que quero, mas o mal que não quero”.
O problema é estudado com uma maior profundidade uns três séculos mais tarde com os Padres da Igreja. Santo Agostinho tenta conciliar a liberdade de escolha do homem com a presciência divina, mas a existência do mal cria dúvidas em seu espírito: se Deus prevê e pode, por que não evita a maldade e a desgraça de que são vítimas não apenas os culpados, mas também tantos inocentes e ignaros? De outro lado, admitir a coexistência de uma dualidade cósmica, o princípio do Bem e do Mal, seria aceitar o Maniqueísmo, doutrina considerada herética. Na verdade, Santo Agostinho dá a entender que a presença da maldade no mundo, face à imensa sabedoria e bondade divina, é algo de inexplicável, beirando o mistério.

Na época do Barroco europeu, a questão se torna uma polêmica, ainda hoje não resolvida plenamente pela igreja católica, entre molinistas e jansenistas. O jesuíta espanhol Luís Molina, como reação às teorias protestantes da predestinação, em 1588, publicou a obra “Acordo do livre-arbítrio com o dom da graça, com a presciência divina, a providência, a predestinação e a condenação”. O bispo holandês Jansênio, partidário do agostinianismo integral, doutrina que dava maior importância à graça divina, em detrimento da liberdade humana, iniciou uma campanha contra os jesuítas que, aceitando o pensamento de Molina, privilegiavam a teoria da salvação pelo mérito pessoal. Sua obra Augustinus foi publicada em1640, dois anos após sua morte, pelos seus discípulos, alcunhados de jansenistas. Blaise Pascal conduziu a controvérsia entre molinistas e jansenistas, escrevendo uma obra a respeito, intitulada As Carta Provinciais (1657), em que ataca o casuísmo dos padres jesuítas.

Pascal, o grande físico, matemático e filósofo francês, se tornou famoso pela obra Pensées (Pensamentos: 1670), entre tantas outras. Ele costumava freqüentar a sociedade mundana, onde esbanjava seu espírito de finura e de elegância verbal, sendo por isso considerado o fundador da prosa literária francesa. Em 1654, escapando da morte num acidente de carruagem, teve um êxtase que o induziu a dedicar sua vida a Deus, tornando-se um homem extremamente religioso. Ao freqüentar a escola jansenista de Port-Royal, Pascal se deixou cada vez mais levar pelo sentimento, acusado, por isso, de reacionário pelos intelectuais do Iluminismo. Conhecido é seu adágio: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, confirmando assim o aspecto misterioso das relações entre o elemento espiritual e material do ser humano, já apontado por Santo Agostinho.
Thomas Hobbes (1588-1679): Homo homini lupus
“O homem é o lobo do homem” (a guerra de todos contra todos): esta famosa frase do filósofo inglês sintetiza seu pensamento sobre as relações entre o indivíduo e a sociedade. O homem, pela sua natureza animal, acossado pela autopreservação, acaba invadindo o espaço do seu semelhante, provocando lutas sangrentas. É necessário, portanto, que os homens se reúnam em sociedade e estabeleçam normas rígidas de convivência pacífica. Para tanto, urge celebrar um “contrato social” pelo qual os indivíduos cedam seus direitos e sua liberdade ao Estado, regido por um Soberano, que ele simboliza no Leviathan (titulo da sua obra mais conhecida), monstro da mitologia fenícia, lembrado pelo profeta bíblico Isaías. A ele, considerado como Deus na terra, deve ser dado todo o poder, pois contratos sem a ameaça da espada são impotentes para garantir a paz e a segurança.

A proposta de um governo absolutista deve ser vista num contesto histórico: Hobbes teve a experiência da Guerra Civil inglesa e dos inúmeros conflitos religiosos que se espalhavam pela Europa toda. Seguindo, de alguma forma, o pensamento político de Maquiavel, imaginou, então, que a solução estaria na separação do Estado da Igreja e na constituição de um Governo único e totalitário que impusesse a paz pela força. O filósofo inglês estava certo quanto à necessidade de um Estado laico, pois todas as religiões são fomentadoras de conflitos éticos, mas errou redondamente ao propor um regime ditatorial. Ele, de uma forma inconseqüente, não calculou que qualquer monarca ou salvador da pátria, por ser ele também um humano, poderia se tornaria um lobo ainda maior, tipo Hitler ou Stalin, conforme demonstrará a história a ele posterior.


Spinoza (1632-1677): Deus é o próprio mundo
Baruch Spinoza, a meu ver, é o pensador mais lúcido e coerente que antecedeu o Século das Luzes. Ele teve a altivez de não se dobrar aos poderosos da sua época, enfrentando o ostracismo da sinagoga de Amsterdã e não aceitando a cátedra da Universidade de Heidelberg, para não renunciar à liberdade de pensar, de sentir e de agir. Judeu descendente dos primeiros israelitas da Espanha, expulsos da península ibérica e refugiados na hospitaleira e liberal Holanda, estudou para ser rabino, mas chegou à conclusão de que as contradições encontradas nas Sagradas Escrituras eram provas da sua origem não divina. Tratava-se apenas de histórias fantasiosas, escritas ao longo de vários séculos e por muitos autores (por exemplo, como ele releva, seria impossível Moisés ter redigido o Pentateuco sozinho). Acreditar em revelações divinas improcedentes e contraditórias se tornou incompatível com os conhecimentos que vinha adquirindo através do estudo da física, da matemática, da lógica, da astronomia e, especialmente da filosofia: Galileu, Giordano Bruno e Descartes passaram a ser seus principais mestres.

Spinoza publicou em vida apenas duas obras, Princípios da filosofia de Descartes (1663) e Tratado teológico-político (1670), mas elas suscitaram ataques tão violentos contra sua pessoa que o levaram a decidir não mais publicar escrito algum. O restante de sua produção teve edições póstumas, com destaque pelo seu tratado mais importante, Ética, onde expõe seu pensamento sobre a divindade e a moral. Para ele, o que chamamos de Deus é simplesmente a própria natureza em que essência e existência são uma coisa só, sem criador nem criatura. É a teoria da pura imanência, não existindo nenhuma divindade ou entidade sobrenatural: nada transcende o mundo da realidade, o espírito não existindo fora da matéria.

Coerente com sua concepção teológica é seu conceito de moral. Se eu estiver interpretando bem a idéia de Spinoza, para ele não existe uma ética religiosa nem individual, pois qualquer forma de moralidade é sempre de cunho social. A própria etimologia da palavra moral vem do acusativo latino mores, que significa “costumes”, normas necessárias para se viver em sociedade de uma forma harmoniosa. Tais normas não fazem parte de um contrato explicito, exarado por um profeta ou um príncipe, mas são naturais, implícitas no próprio conceito de comunidade, que implica em direitos e deveres. Num regime democrático, os cidadãos devem ser educados a respeitar a liberdade de seus semelhantes, independentemente de qualquer postura ideológica ou credo religioso. “Não roubar”, no sentido geral de respeito ao que pertence a outra pessoa (vida, dinheiro, mulheres - ou homens - e outros bens materiais e espirituais), antes de um mandamento divino, é um “imperativo categórico”, conforme a denominação de outro grande filósofo, Emanuel Kant, de quem falarei em seguida.

Emanuel Kant (1724-1804): o imperativo categórico


Diferentemente de outros pensadores que foram também cientistas, teólogos, literatos ou artistas, o alemão Emanuel Kant pode ser considerado um filósofo puro, no sentido de que dedicou sua vida inteira à especulação intelectual. Entre suas numerosas obras, assinalamos: Crítica da razão pura, Crítica da razão prática, Crítica do juízo, A religião nos limites da simples razão, Fundamentos da metafísica dos costumes. Quase todas suas pesquisas foram direcionadas para descobrir os limites entre os sentidos e a razão, tentando responder a três perguntas fundamentais: O que preciso saber? O que devo fazer? O que posso esperar?

Retomando a discussão entre o determinismo e a liberdade humana, que tanto tinha preocupado os estudiosos anteriores, a partir de santo Agostinho, ele considera o conflito apenas aparente, não existindo na realidade. Efetivamente, se, pelo seu ser empírico, o homem deve submeter-se às leis da natureza, pelo poder de sua inteligência ele pode afastar-se dela ou operar sobre ela. A conexão entre o reino da liberdade e o reino da necessidade dá-se dentro de uma realidade unitária, embora pertencendo, dentro de sua unidade, a dois mundos diferentes, o material e o espiritual. Entre as duas realidades há distinção, mas não separação. A alma se distingue do corpo, mas não existe sem ele. Na linha de Descartes, Kant coloca a razão como o princípio fundamental do conhecimento humano, pois é só a partir do sujeito pensante que se constrói o mundo exterior. O saber vem de dentro para fora e não ao contrário, como pensam os cientistas. E, para superar o subjetivismo e o relativismo, passa a admitir o caráter absoluto de certas formas de raciocínio.

Mas é no domínio da ética que o pensamento de Kant tem seus melhores resultados práticos. Ele postula a existência de uma alma livre, que possui uma vontade autônima. Só que a vontade individual deve ser submetida a uma lei natural proveniente de uma necessidade lógica: existe algo “apodítico”, no sentido de incontestável, válido para todos os homens, em qualquer tempo e em qualquer lugar, não dependendo de religião alguma, pois faz parte do próprio viver em sociedade, que Kant chama de “imperativo categórico”: agir conforme uma máxima tal que você possa querer que se torne lei universal. Tal princípio ético fundamental pode ser assim formulado: ”trate seu semelhante como você gostaria de ser tratado”! Este conceito de Kant está de acordo com a essência da "regra de ouro", exposta de maneira semelhante pelos maiores profetas e filósofos da história da humanidade:
"Este é o resumo de todos os deveres: não façais nada aos outros que, se fosse feito a vós, vos causasse mágoa" (Mahabharata);

"Não magoeis os outros com aquilo que vos magoa a vós" (Buda);

"Deus diz: amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Levítico);



"Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós" (Evangelho segundo Mateus);

"Se queres ser amado, ama" (Sêneca);



"Nenhum de vós é um crente, até quererdes para o vosso vizinho aquilo que quereis para vós" (Maomé).
Se os homens detentores do poder político ou religioso observassem esse mandamento, aí sim poderíamos construir uma verdadeira cidadania!

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