Regina Protasio



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A Fernando, meu filho, pela continuidade. Ao meu irmão, Lu, pelo sonho. Ao meu pai, Oswaldo, pelo resgate. A Fernanda, minha mãe, pela permanência.



Regina Protasio

A Ricardo, meu sempre querido companheiro;

A Gilda, minha mãe, pelo exemplo de uma vida longa, produtiva e feliz;

Aos meus filhos Pedro, Mariana e João (a ordem é de chegada) de quem tanto me orgulho e que dão sentido a tudo o que eu faço.



Sylvia Leal

Agradecemos

A todas as nossas entrevistadas, parceiras queridas deste livro, por terem acreditado no projeto, descobrindo em suas agendas um tempo para a conversa que, muitas vezes, se estendeu além do previsto. Aprendemos muito com vocês. Ficarão guardados para sempre, em nossas lembranças, os momentos gostosos que passamos juntas falando de vida, de desafios e sonhos, do mundo, deste nosso ser mulher. Queremos dizer a cada uma de vocês, de modo pessoal, especial, intransferível: Obrigada, foi um prazer!

À amiga que esteve sempre conosco, nos incentivou com suas idéias e comentários, que não nos poupou (felizmente!) de críticas­ necessárias. Maria Amélia de Oliveira, jornalista, leitora contumaz deste e de todos os livros, acredite, a sua ajuda foi fundamental.

Regina Protasio e Sylvia Leal

Entrevistas:

Angela Vasconcelos, Constança Teixeira de Freitas, Elba Ramalho, Fadynha, Heloisa Seixas, Jane Corona, Monica Horta, Regina Navarro Lins, Rita Kaufman, Rosa Magalhães, Teresa Camarão, Tizuka Yamasaki, Vanda Klabin, Vera Holtz, Wanda Sá, Zezé Motta, Zezé Polessa.



Por Regina Protasio

Clarice Herzog, Denise Frossard, Elizabet Dias de Sá, Elizabeth Goldfarb, Irene Ravache, Leilah Assumpção, Lenny Niemeyer, Lucinha Lins, Maira Carvalho, Marcia Neder, Maria Adelaide Amaral, Mayana Zatz, Miriam Mamber, Rosiska Darcy de Oliveira, Selma Hinds, Silvia Poppovic, Vanete Almeida, Vera Fajardo.



Por Sylvia Leal

Nota

As entrevistas deste livro foram realizadas durante o ano de 2003.


Sumário

Maria Adelaide Amaral  25

Vera Holtz  31

Angela Vasconcelos  37

Denise Frossard  43

Irene Ravache  49

Miriam Mamber  55

Wanda Sá  61

Marcia Neder  67

Teresa Camarão  73

Regina Navarro Lins 79

Elizabet Dias de Sá  85

Lenny Niemeyer  91

Zezé Motta  97

Constança Teixeira de Freitas  103

Vanda Klabin  109

Heloisa Seixas  115

Selma Hinds  121

Rosa Magalhães  127

Mayana Zatz  133

Zezé Polessa  139

Elba Ramalho  145

Silvia Poppovic  151

Maira Carvalho  157

Leilah Assumpção  163

Rita Kaufman  169

Jane Corona  175

Clarice Herzog 181

Vera Fajardo  187

Lucinha Lins  193

Vanete Almeida  199

Monica Horta  205

Tizuka Yamasaki  211

Fadynha  217

Elizabeth Goldfarb  223

Rosiska Darcy de Oliveira  229
Prefácio

Lya Luft


Mulheres maduras relatando suas experiências. Até aqui,
nada de novo. Mas que mulheres, e que relatos! Para quem reflete e escreve sobre o valor da vida, a passagem do tempo como crescimento e não deterioração, o livro é sedutor. Quando se trata de mulheres desse gabarito, torna-se um desafio.

Cada página, um sabor de vitalidade. Sofrimento, mudanças, adaptações, transgressões. E a voz feminina séculos abafada aqui se solta num grito. E é preciso gritar, porque alguns velhos rótulos se preservam espantosamente.

Ainda me divirto quando alguém me pergunta se existe uma literatura feminina. Por que nunca indagam se existe uma literatura masculina? Ainda me assombro quando alguém, querendo me elogiar, diz que escrevo “com mão de homem”. Eu quero escrever com a mão de cada uma dessas mulheres que neste livro nos presenteiam com sua experiência in­trans­ferível e pessoal.

Depois dos 40 anos, costumo dizer, é que a pessoa começa a ser interessante. Só então pode espiar seu interior encontrando matéria de vida; avaliar e reavaliar sua traje­tó­ria, e ver se ali plantou — e cresceram — alguns valores. ­Sobretudo, o valor da vida, aí como preço e pagamento, juros, as duras prestações, a sensação de que não vai acabar nunca.

Porque viver mais plenamente é isso: fazer nossas escolhas, assinar embaixo, pagar os preços e não fazer parte da procissão dos eternos lamuriadores.

O tempo foi, para as autoras deste livro, uma sucessão de perdas e ganhos na qual as perdas acabaram menos importantes do que os ganhos. Porque elas, essas guerreiras, assim decidiram. São mulheres para as quais a idade não conta; conta a riqueza da alma; conta a força do corpo; conta a audácia do espírito, e contam, sobretudo, os afetos, a agregação que realizaram, não a desfragmentação ao seu redor.

Não acredito na velha fórmula mulher = amenidades, nem gosto demais da fórmula que nos impingiram duas décadas atrás, de que mulher tinha de ser igual a homem. Mulher tem de ser vital, visceralmente ela mesma — seja lá o que for que isso quer dizer. Algo profundo e secreto, mas também divertido­ e, graças a Deus, eventualmente um pouco frívolo. Assustador,­ mas acolhedor. Vulnerável, mas forte. Tudo isso numa mistura tal que assume ares alucinatórios, sendo tão palpável,­ tão concreto, tão real.

Mulher é gente admirável. Este livro foi escrito a sangue e fogo, e o invisível material da coragem. Que, exercida para compensar o nosso medo, nos faz tão ardentemente humanas.



Apresentação

Regina Protasio



A primeira menstruação chegou aos 10 anos, em plena aula
 de matemática. Alvoroço na escola: professora, diretora, coor­denadora conversando entre si, mas ninguém me dizia nada. Chamaram minha mãe, ela me levou para casa sem, também, tocar no assunto. Disse, apenas, que iríamos ao médico, e ele sim, me falaria tudo. Dr. Rios, o médico da família, fez os dois partos da mamãe, operou sua apendicite, o estômago do meu avô, a minha garganta. Devia entender de tudo mesmo, eu pensava.

No consultório, entre um esqueleto, preso no canto da parede, e alguns livros ilustrados, ouvi estranhas explicações sobre as funções do aparelho reprodutor feminino que, ao que parecia, estavam começando para mim. A despedida foi enfática: “Agora, Regina, você é uma mocinha, já pode engravidar (?!?!). Muito cuidado com os meninos, hein?”

Não entendi quase nada, muito menos o fim, mas o que importava? Tinha ficado mocinha, antes das primas, das amigas. Uma pioneira. Expert em cólicas, sangue, ciclo menstrual, ensinei a elas como encaixar, com precisão, um absorvente naquele horrendo cinto de elástico, com dois ganchinhos nas pontas. O da frente se prendia entre os cabelos; o de trás espetava o bumbum. Quantos transtornos... Mas, em compensação, se eu quisesse (e naturalmente soubesse como) até poderia ser mãe!

Aos 47 anos, veio a última menstruação. Não mais cólicas, não mais absorventes (agora, com abas e adesivos), não mais gravidez. Na ida ao médico, nenhum esqueleto ou desenhos de úteros, trompas e ovários; somente especulações: “Depende da mulher, algumas têm sintomas, outras, não; em algumas, eles são passageiros, em outras, não. Mas sempre se pode recorrer à reposição. Para algumas, funciona, para outras, não; algumas pesquisas dizem que hormônios sintéticos podem causar câncer, outras, não... Não há uma literatura.”

Na hora, entendi que o material para esta literatura éramos nós, mulheres de uma geração a quem caberia experimentar as novidades da medicina — tradicional ou naturalista — e esperar os resultados. Mais uma vez pioneira, me vejo comendo soja, vegetais verde-escuros, sementes diversas, inhame, tomando suplementos de vitaminas e minerais, caminhando antes das dez da manhã e depois das quatro da tarde (academia, nem pensar), repondo hormônios. Sempre em busca do estrogênio perdido. Ah, que falta ele nos faz!

Novos assuntos com as amigas: calores, osteoporose, remédios para a memória, para dormir, radicais livres, óculos, celulite, aquela fúria indomável quando o filho ouve um CD do Iron Maiden ou a derrota absoluta quando depois de fazer amor (sem usar os famosos géis), seu namorado está pronto para um exame de corpo de delito.

Agora, com 51 anos, percebo claramente (com o perdão do poeta) a distância entre intenção e gesto: quando a cabeça diz vai e o corpo simplesmente desobedece. Como se tivessem se desentendido de vez. Já o coração, mais apurado, perdeu o medo de se revelar, de se comover, de se deixar tocar. Coisas de mulher. Conversas de mulher.

Nosso livro nasceu da vontade de conversar com mais mulheres, de abrir a roda para aquelas de quem éramos amigas, para as que conhecíamos através da imprensa e, de certo modo, admirávamos e até para algumas de quem pouco sabíamos. Tivemos boas surpresas, tivemos recusas, desistências no meio do caminho, novas adesões. Descobrimos, sobretudo, que esta conversa está apenas começando. Muito mais vem por aí.

P.S.: Se tivesse dois, três anos menos, certamente seria minha primeira entrevistada: Melânia Sidorak, médica e amiga, que cuida de mim, mesmo quando eu não deixo. Obrigada a ela.

Apresentação


Sylvia Leal


De repente, os filhos usam gravata, viajam para longe, falam
de projetos arquitetônicos, merchandising, discutem Direito Constitucional, têm opiniões próprias, casam... Os óculos que servem para dirigir não ajudam a ler o cardápio. É preciso diminuir o sal, fazer mamografia, descobrir lojas que não vendam só blusas justinhas (está difícil!), pensar em como repor os hor­mônios, encarar sessões de alongamento, dormir cedo para não passar o dia seguinte como se arrastasse correntes. Sessenta anos, sessenta. Saudáveis e bem-vividos, vale reconhecer. Passado o susto, posso afirmar que a gente se acostuma com a idéia. É, lá vou eu envelhecendo.

Mas há também esta maravilhosa lucidez, uma certa calma, este saber esperar até quando existem poucas chances. À capacidade de sonhar soma-se agora a teimosia necessária para levar os sonhos adiante. Olho para o mundo e não vejo só as cores, sou capaz de vislumbrar suas nuances. Já me afirmei diante de mim mesma e de todos, não preciso mais mostrar serviço. E o que é melhor, descubro, aqui dentro, este imenso, imenso mesmo, prazer de estar viva.

Alguém disse que o ser humano tem somente duas idades: vivo ou morto. A verdade é que depois dos 50 fica meio complicado, dá trabalho. A nossa geração queimou sutiãs, acreditou na luta armada, no rock’n’ roll, no método liberdade sem medo para educar os filhos, inventou a pílula e investiu para valer no mercado de trabalho.

Vencidos tantos desafios, eis que surge mais um: temos que reinventar a maturidade. O modelo cadeira de balanço de nossas avós já não serve. Quanto ao eternamente jovem, descolado, tipo sou igual a minha filha, não faz sucesso com muitas de nós, apesar das pressões. Afinal, o que queremos, o que estamos buscando desta vez?

As mulheres que conheci ao escrever este livro não ditam regras, não prometem soluções milagrosas (quem as tem?) ou respostas definitivas. Com seus depoimentos corajosos, cada uma delas se dispôs apenas a contar suas experiências, a revelar os seus caminhos na maturidade.

Garanto que todos esses caminhos passam bem longe de uma corrida pela forma perfeita (“aos 50 com um corpinho de 30”), da obsessão pelo rosto sem rugas, enfim, da busca desenfreada por uma juventude que nem com muita malhação, dietas e botox conseguiremos reter.

Que nos perdoe a mídia, mas podemos envelhecer, sim. É direito nosso. Com projetos na cabeça, energia para muito trabalho, namorados e netos, criando, fazendo amor, de cabelos brancos­ ou não, construindo, refletindo, viajando. Saúde dez, bem-sucedidas, cuidadas, premiadas. Bonitas também. Em paz com a idade que temos, sem a obrigação de correr atrás de uma outra que só é possível aparentar.

Quem disse que não vamos desestruturar, revolucionar de novo, virar tudo de pernas para o ar, como temos feito até aqui?



Pessoal e Intransferível

Maria Adelaide Amaral

Ela oferece café, pergunta se o gato — Gabriel —
    incomoda, se aninha no sofá e começa pelo capítulo principal:
“Pobre de quem aposta suas fichas no que é fugaz como a juventude.” Maria Adelaide Amaral, uma das mais importantes escritoras brasileiras da atualidade, nasceu em Portugal, 1942, sob o signo de Câncer. Colecionadora de prêmios — ganhou todos! —, é autora de peças de grande sucesso como De braços abertos, Querida mamãe e de livros como Estrela nua. Para a TV, escreveu a novela Anjo mau e fez a adaptação de Os Maias e A casa das sete mulheres. Bateu recordes com a minissérie Um só coração, em homenagem à cidade que a adotou: São Paulo. Divorciada, dois filhos, Rodrigo e Guilherme, de 35 e 33 anos, avó de Ana Luiza, justifica sua enorme produção: “Escrever é o modo de me conhecer, de ser melhor, de não cometer desatinos. Como posso me aposentar?”­

• • •


Alguém que o escritor Marcel Proust não via há muitos anos encontrou-se com ele e lançou a pergunta: “Como lhe pareço?” Proust disse a verdade: “Igual, porém, menos.” É assim. A juventude passa, por mais que a gente se esforce para eternizá-la. Pagamos uma espécie de preço por ter vivido bastante: pele com menos viço, músculos menos flexíveis...

Há, no entanto, muitas mulheres dispostas a lutar desesperadamente, com todas as armas. Dedicam um tempo enorme — e precioso! — de suas vidas na tentativa de negar esta realidade. A obsessão pelo rejuvenescimento é tamanha que elas não conseguem encontrar satisfação, certas alegrias como as que sinto nesta passagem.

A verdade é que todas nós vamos envelhecer. Cedo ou tarde. A idéia não é nada agradável, mas eu diria que, passado o susto inicial, acabamos nos habituando. E envelheceremos com dignidade ou de um modo grotesco, com rostos desfigurados por sucessivas plásticas e que acabam inexpressivos, estranhos.

Nos últimos 25, 30 anos, tem se dado uma descabida ênfase à aparência física. Parece que estamos investindo menos na essência que na aparência, embora esta inversão de valores seja responsável direta por frustrações e desencanto.

A pressão, muitas vezes, surge na própria família. Durante um tempo, resolvi parar de pintar e deixar os meus cabelos grisalhos. Meu filho não gostou e veio argumentar: “Mãe, você é tão jovem, este cabelo não combina.” Que mulher hoje se arrisca a ter cabelos brancos sem que pareça descuidada ou velha? Eu não. Achei melhor voltar atrás, não correr o risco.

Sou vaidosa assumida. Unhas sempre pintadas de esmalte incolor, base e rímel, que considero parte dos meus hábitos higiê­nicos. Esta vaidade, porém, é diferente daquela de minha mãe. Aos 92 anos, ela usava uma peruca para ocultar os poucos fios que lhe restavam. Era extremamente preocupada com o envelhecimento da face. Não tinha a consciência, que a nossa geração tem, do quanto é fundamental cuidar também do corpo, fazer exercícios e consumir alimentos saudáveis.

Todas as manhãs, antes de sentar para escrever, eu dedico duas horas à minha saúde. Começo ao acordar, fortalecendo a musculatura de braços e pernas com o auxílio de uma tira elástica. Ainda­ na cama, cinco minutinhos. Tomo café e saio para uma caminhada pelas ruas do bairro. Sem cair na monotonia, na mesmice. Não abro mão de mudar de rota, de escolher percursos desconhecidos, que me levem a coisas novas. Prefiro abdicar de uma companhia, não quero submeter ninguém a um clima diário de aventura. Além do mais, confesso que a sensação de liberdade me fascina.

Não é apenas nas caminhadas que prefiro estar sozinha. No cinema e nas compras, também. Sou incapaz de comprar couve na feira com alguém do meu lado. Para jantar, ir ao teatro ou a um concerto, tudo muda e eu procuro logo com quem ir. Têm uma certa liturgia esses programas. É necessário se arrumar, estar bonita, perfumada. Sei lá, é diferente.

Com a maturidade fui descobrindo prazer nas coisas peque­nas: um bom filme, o sol da manhã, a voz da Ana Luiza, minha neta de dois anos. Hoje, sei que a felicidade é micro e não macro. Não depende de grandes acontecimentos, como pensava antes.

Por exemplo: me faz bem ir à missa aos domingos, comungar, acender vela, pensar positivamente a respeito das pessoas, não sacanear ninguém. Sou católica praticante. São Paulo disse que o bom cristão é uma pessoa alegre. Digamos que sou alegrinha. Nos idos de 1960, 1970, eu era comunista e não ia à Igreja. Mas esta adesão aos ideais da esquerda não representou um abandono das velhas crenças. Era uma espécie de fé, só que rezando em outro catecismo. Jamais deixei de acreditar em anjo da guarda e de rezar pedindo proteção.

Um astrólogo previu que eu me tornaria conhecida. Mais tarde, outro denunciou um nódulo no meu seio esquerdo. Acertaram e eu passei a ouvi-los antes de tomar decisões importantes. Quanto a escrever livros esotéricos, nem pensar!

disse o que curto, agora vamos falar do que detesto: o entra-e-sai de lojas ocupa lugar de destaque. Sou incapaz de experimentar um vestido, naquelas cabines apertadas. Apesar disso, é claro, permanece a expectativa de me sentir elegante. Vou dar um exemplo que me define como consumidora. Precisava comprar fogão, geladeira, aparelho de som, freezer, forno de microon­das, enfim, os eletrodomésticos para nossa nova casa na Serra da Cantareira. O que fiz? Entrei em uma loja e fui direto ao ponto: “Rapaz, você tem vinte minutos para me vender tudo isso.” Para espanto dele e minha alegria não gastamos mais que o suportável: meia hora.

Se herdei da minha mãe o gosto por estar bem, queria dizer o mesmo de alguns outros traços de sua personalidade. Uma mulher harmoniosa, terna, que em tudo descobria o lado alegre. Embora tivesse sido muito magoada pela vida, jamais demonstrava ressentimentos. Foi a pessoa menos amarga que conheci. Ah, como eu desejo ser assim!

Eu me magôo, me destempero, às vezes. Sou explosiva. Menos que no passado, graças a Deus, para sossego dos que convivem comigo. Quem sabe aos 90 consigo ser um pouco mais serena também?

Há cinco anos, dei de cara com a morte. Tudo corria às mil maravilhas, acabara de obter grande sucesso com uma peça e voltava de uma viagem fantástica. Foi quando recebi a notícia de um câncer de mama, possivelmente resultante do excesso de estrogênio da reposição hormonal. Retiraram a parte do seio atingida, fiz radioterapia e saí dessa experiência redimensionada, fortalecida, tendo tudo mais claro à minha frente. Falo um pouco desta experiência no romance O bruxo. Aí está um dos privilégios­ do escritor, transformar suas misérias em literatura.

Aumentaram as taxas de colesterol e triglicerídeos, tenho que ficar de olho. A artrose também incomoda, de vez em quando. Ainda padeço daquelas ondas de calor. Enfim, sou uma mulher saudável que convive com suas limitações. Nenhuma tragédia nisso, apenas faz parte da minha biografia. Sinto uma disposição enorme para o trabalho e, à noite, me resta fôlego para sair com os amigos. Mas com uma condição: jamais passar de uma hora da manhã. É o limite para quem escreve o dia inteiro, acorda cedo e precisa descansar.

Pobre de quem apostou suas fichas no que é fugaz, como a juventude. Este culto ao jovem faz parte do espírito da nossa época. A mídia apenas reforça. Acontece que algumas pessoas não são capazes de questionar e acabam comprando a idéia, curvando-se a esta moderna tirania.

Envelhecer fica mais fácil para quem gosta da vida que leva, do que faz, lê, vai ao cinema, tem sua família e uma boa roda de amigos de idades e valores semelhantes. E, sobretudo, para aquelas que sentem prazer na própria companhia. Vivo só, mas rodeada de gente interessante, bem-informada, que aprecia o mesmo que eu, que reflete e se diverte comigo. Gosto muito de gente, de observar. Sinto-me bem. O melhor que sei fazer na vida é sentir.

Estou namorando, mas não pensamos em morar juntos. É a solução perfeita para a minha idade. Quero partilhar tudo com ele, com exceção da rotina. Depois da separação do primeiro casamento, me acostumei a ser livre, dona do meu nariz. Não me passa pela cabeça, agora, dividir o banheiro ou ter que acordar todos os dias com alguém ao lado. Inclusive, acho um desastre esta supervalorização do sexo: mulher tem que ter um homem ao seu lado, senão está com problemas. Nada mais absurdo.

Tive uma infância cheia de privações, faltava dinheiro, meus pais viviam em eternas brigas. Os livros que lia sem parar se tornaram, então, a fuga de um dia-a-dia insuportável. Aos seis anos, fiz uma trovinha sobre verão e inverno, estações com características marcantes em Portugal.

Na adolescência, tentei os poemas. Eram muito ruins. Mas virou compulsão e, daí para a frente, nunca mais parei de escrever. Eu escrevo para me conhecer melhor, para ser melhor. Escrever me impede de cometer desatinos.

Se penso em me aposentar? Como poderia?


Vera Holtz

Amulher não pode ter preguiça de se reinventar.
 Depois­ dos 50 anos, temos direito a uma rein­venção.” Nem frase de efeito, nem projeto daqueles que ficam guardados em nossas­ gavetas internas. Docemente, Vera vem tecendo sua reinvenção: nos afetos, nas escolhas de vida, no resgate de um modo de ser feminino, que ela aprendeu na convivência com a mãe, com as tias, lá em Tatuí, onde nasceu, no interior de São Paulo. O corpo mudou, o jeito de se vestir, de se mostrar para o mundo. Da malhação para a dança clássica, do amor bandido para o companheiro, do estado de emergência para o de atenção. Na época da entrevista, ela fazia a Santana, a professora dependente química da novela Mulheres apaixonadas. Também uma mulher de 50, que ela ajudou a se reinventar.

• • •
Eu fiz uma viagem à China e me surpreendi com a delicadeza da mulher oriental, com seu gestual tão feminino. Quando voltei, mudei algumas coisas em casa, comprei um livro de ponto de cruz, me interessei por uma cortina bordada com o rosto de uma mulher na janela. Pensei: “O que está acontecendo comigo?” Como se fosse uma volta às minhas raízes, à minha mãe, às minhas irmãs, ao universo feminino que eu aprendi desde menina.

Sou de uma família muito feminina. Meu pai faleceu há três anos. Tenho três irmãs, muitas primas, mamãe, com 76 anos, uma irmã dela, com 80. Minha outra tia morreu, recentemente, aos 94. Com a morte dela, senti uma espécie de retorno no tempo. Fiquei ligada no seu livrinho do colégio de freiras, na primeira Bíblia, no mostruário de tricô, em fotos antigas. Juntei tudo o que havia em sua casa: móveis, objetos, roupas, cartas, fotos, bilhetes, quadros, e montei uma exposição: Rita Holtz, uma Vida, na Secretaria Municipal de Cultura de Tatuí. Na entrada, coloquei um cartaz, com uma frase de Samuel Beckett: “E quando tudo mais acabar, ainda resta a minha história.”

Desde os 50 anos, tia Rita começou a se desfazer da vida. Colocou etiquetas em todas as suas coisas com o nome das pessoas para quem ela gostaria que ficassem. As minhas, arrumei em uma caixa bem bonita, que comprei especialmente para isso. Botei um pouco de perfume lá dentro e fechei com um laço. Guardei a memória da minha tia.

Estou passando por muitas mudanças: o brinco diminuiu, virou brinquinho, com uma perolinha no meio, o anel, também; a saia ficou mais longa. Até o ano passado, estava assustada com as transformações do meu corpo, que ficou tão parecido com o das mulheres da família, nossas anconas, nossas bundas todas iguais. Não conseguia me diferenciar delas, daquela figura de mulher mais velha que vai virando uma coisa arredondada. Cada vez é mais difícil emagrecer, a textura da pele está diferente. Meu cabelo caiu muito; agora, voltou a crescer, a ganhar volume.



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