Regina souza vieira



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A PROSA
À LUZ DA POESIA

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Autora: REGINA SOUZA VIEIRA

Av. Delfim Moreira 770, ap.601

CEP: 22441-000 Leblon

Rio de Janeiro R.J

Tel / Fax: (021) 294-0411

e-mail: reginasv@terra. com.br




Este livro fica dedicado

À MINHA MÃE, amiga e

companheira da vida inteira.



À MINHA IRMÃ

AOS MEUS AFILHADOS: Ana

Regina e Paulo José.



AO MESTRE, ORIENTADOR e

AMIGO: Gilberto Mendonça Teles.

SUMÁRIO

I- QUANDO O POETA SE TORNA ENSAÍSTA 1

II- O CRONISTA E O POETA 63

III- DA POESIA AO CONTO 148

IV- BIBLIOGRAFIA DO AUTOR 211

V- BIBLIOGRAFIA GERAL 213



APRESENTAÇÃO

Por que não darmos graças a Deus por

nos ter dado Carlos Drummond de

Andrade?

Gilberto Freyre

O presente livro, A Prosa à luz da poesia, foi parte do objeto que constituiu minha tese de doutorado, orientada pelo prof. Gilberto Mendonça Teles e defendida na PUC-RJ em 1995 .

Cumprindo a longa missão do escritor, que é escrever e reescrever sempre, decidi, dada a abrangência do assunto, analisar, primeiramente, os ensaios, as crônicas e os contos de Carlos Drummond de Andrade, considerando a forma poética através da qual o autor se expressou lingüísticamente. Tendo sido, antes de tudo poeta, tendo uma propensão não só literária, mas instintiva para a poesia, Carlos Drummond de Andrade não conseguia, em nenhum gênero, se desprender do lirismo intrínseco à sua linguagem. Dizer que prosa e poesia conflitavam com sua intenção de se manifestar simplesmente num único gênero é repetir suas próprias palavras. Minha perspectiva é mais ampla: ela visa a confirmar nas inúmeras produções e, neste momento, nos livros de ensaio, de crônicas e de contos as constantes referências e alusões poéticas. E tal é a força com que o autor se empenha num discurso reduzido e metafórico, que até mesmo quando a denúncia é o alvo principal, a linguagem se ameniza, preenchendo-se de imagens. Perde-se a crítica, em meio ao desvio poético? De forma alguma; por trás do que se afigura como mensagem sutil, está sempre presente a ironia, a contradição e o riso malicioso de quem quer despertar atenção. Aliás, este é o propósito mais elevado do cronista, cuja observação do cotidiano fê-lo arquivar na matéria jornalística todo o testemunho de seu tempo. Por sua vez, o propósito do ensaísta levou-o também, por trás de seus óculos, a se tornar observador não do escritório, mas do mundo. Logo a seguir ou concomitantemente, surgiu o contista, que buscando, constantemente, a inserção mítica e mística não se distanciou nunca das intenções que persuadiram o poeta.

Nestas páginas, escritas até com certa lentidão, procurei esmiúçar a habilidade do Drummond - escritor que, se propondo, antes de tudo, a ser poeta, desempenhou-se como crítico, cronista e contista, funções que não se realizariam a contento sem a ávida perspicácia de quem quer corrigir alguma coisa ou, no mínimo, dizer com exagero ou moderada astúcia que algo não vai bem, mas que pode ser corrigido com a consciência de todos. Tentarei não me distender muito na análise que farei; aliás, este é o motivo primeiro de me ter debruçado uma vez mais sobre as páginas escritas por ocasião do meu trabalho acadêmico. No entanto, por mais que me empenhe, tenho, desde já, a sensação de que não serei tão breve quanto pretendo nem tão omissa a ponto de deixar em brancas nuvens observações indispensáveis ao tema sobre o qual me dou o direito de discorrer.

Cumpre como uma justificativa a mais, esclarecer que a intimidade que estes longos anos me levaram a ter com o autor dá-me livre-arbítrio para referir-me a ele, ora empregando o seu nome completo, ora chamando-o Carlos Drummond, Drummond de Andrade ou simplesmente CDA.

Creio que nenhuma análise nem tampouco nenhum trabalho literário se completa no todo algum dia. Este, porém, escrito como pesquisa acadêmica e reescrito com séria preocupação literária, encerra em suas páginas o empenho suficiente de quem, apesar da excessiva paixão, procurará se distanciar, a fim de que a crítica não se perca nos enleios do imaginário.


REGINA SOUZA VIEIRA

  1. QUANDO O POETA SE TORNA ENSAÍSTA



Le bon critique est celui qui raconte les aventures de son âme au milieu des chefs d’oeuvre.


ANATOLE FRANCE

Em muitos de nós há um artista que

se resignou a ser crítico

CDA


Um escritor se faz tanto mais presente no conhecimento de seu público quanto múltiplas são suas diversidades literárias e sua perspectiva de mundo, capazes de se exteriorizarem não só num gênero, mas no leque de opções que a literatura oferece. Ser poeta e ao mesmo tempo ensaísta, cronista e contista é, sem dúvida, uma particularidade reveladora de quem sabe lidar com a linguagem, dispondo de um acervo de conhecimentos através do qual se torna possível adaptar os artifícios próprios ao assunto solicitado no momento. Esta fluência permite que o escritor passe da poesia à prosa ou da prosa à poesia sem que a intenção se perca ou o tema deixe de ser devidamente explorado, enriquecendo o leitor com a complexidade vocabular de que o autor dispõe. No caso do ensaísta, há ainda a necessidade de ele possuir um revestimento pautado em valores previamente adquiridos, esboçados através de uma metalinguagem que, somando-se, em seu intelecto, aos valores culturais adquiridos, lhe proporcionam a condição sine qua non para o desempenho de sua tarefa. O ensaio se caracteriza por uma atribuição de julgamentos e conclusões previamente apoiadas na discussão e na análise. Após Montaigne ter trabalhado o gênero, seus praticantes foram, ao longo do tempo, se transformando e se reunindo em grupos destinados a ocupar as colunas dos jornais: críticos, políticos e filosóficos. No Brasil, o ensaio se encaminhou e assumiu evidenciável identidade com a crônica. (COUTINHO, Afrânio: 1990; pág.547)

Carlos Drummond de Andrade se tornou tão altamente conhecido como poeta e cronista que poucos se referem a ele, hoje, como ensaísta ou contista. No entanto, nestes dois últimos gêneros, a importância de sua obra merece ser também enfatizada. Trata-se, sem dúvida alguma, de um autor múltiplo, um poeta, que eclode no mundo literário com o “Poema das Sete faces”, enquanto ele mesmo, como autor, poderia se apresentar com múltiplas faces, entre elas: poeta, cronista, ensaísta, contista. É claro que a importância do poeta sobrepuja publicamente o desempenho nos demais gêneros, embora não se possa desconhecer a importância de uma obra que , como esta, coloca o leitor diante do Drummond de Andrade-crítico. Aliás, é nestas abordagens, que não chegam a defender conceitos, impôr regras ou exigir manifestações revolucionárias como seria o caso das vanguardas, que se pode também identificar no autor o espírito contestatório e desacomodado a qualquer tipo de literatura ou de arte cujos princípios não se fundamentam no conhecimento. O que diferencia o poeta do crítico é, certamente, o fato de o primeiro criar e recriar o seu universo poético, enquanto o segundo tenta recriar e explicar o que foi feito (TELES, Gilberto Mendonça: 1976; pág. 170).

Apesar de não se poder assinalar em Carlos Drummond a presença do crítico, que se empenha em exigir radicalismos para a literatura, cumpre valorizar a “observância” em torno do que é produzido à sua volta, a preocupação para com a obra pessoal ou alheia, que se pode fazer melhor, em se apoiando na palavra e na diversidade vocabular que demonstra todo o apparatus de conhecimento necessário para acrescentar sempre valores novos ao leitor. É claro que esta evolução do poeta, desdobrando-se também em crítico, reflete a duplicidade que a literatura passou a ter, depois de certo tempo, tornando-se não só “objeto (mas) olhar sobre esse objeto, fala e fala dessa fala, literatura e metaliteratura”(TELES, Gilberto Mendonça:1972; pág.11).

É à luz destes preceitos que certamente Carlos Drummond de Andrade escreveu neste gênero os livros que revelam a sua preocupação crítica e o seu espírito de ensaísta: Confissões de Minas(1944), páginas que, consoante o autor, visam a despertar nos jovens conceitos positivos, autênticos e até piedosos; Passeios na ilha (1952), uma espécie de convite ao isolamento e, portanto, ao ambiente próprio à reflexão e ao sonho; O observador no escritório (1985), no qual os óculos do poeta e do crítico observam os fatos mais implacáveis e O avesso das coisas (1988), cuja denúncia do cotidiano, feita através de provérbios, remete mais ao imediatismo do riso do que propriamente a conceitos e a considerações ou juízos.

Claro que o Carlos Drummond-ensaísta nada mais é senão o desdobramento do Carlos Drummond-poeta, uma tendência própria aos poetas modernos que, aliás, se valem da linguagem, tornando-a o meio feroz para a crítica da realidade. (PAZ, Octavio:1967). O crítico, à quem se refere este estudo, se preocupou sempre em defender seus conceitos literários através da “luta corpo a corpo com a palavra” (CAMPOS, Haroldo: 1967, pág.39), um dado que, aliás, é constante em sua obra e que se adequa perfeitamente às intenções literárias modernas. A este respeito, cumpre assinalar que se trata de um autor perfeitamente inserido em seu tempo e constantemente envolvido com a problemática existencial. Tendo o seu primeiro livro surgido em 1930 e, contando o autor “em sua estréia com o acervo de conquistas da primeira fase do modernismo” (TELES, Gilberto Mendonça: 1989, pág.12), não seria de estranhar que os reflexos da modernidade e a constante presença dos traços sincrônicos que cerceavam os meios cultural e social se fizessem presentes continuamente em suas produções. Entretanto, mesmo sem pertencer a manifestações vanguardistas, preocupado unicamente em defender uma literatura que correspondesse às exigências do mundo moderno, Drummond optou por discutir severamente as problemáticas que emergiam dos limites sociais e literários da existência. A estes elementos acrescentam-se ainda, como reflexo de um recente movimento literário de mudança, a insistência em constantes renovações lingüísticas e criativas, ante as quais o autor mineiro não se podia acomodar.

Verdade é que, como conseqüência das mudanças de 22, praticamente todos os poetas se tornaram, de fato, irremediavelmente críticos, concedendo à linguagem um valor primordial e indispensável à prática da literatura. Era “da linfa inesgotável da palavra” (FIGUEIREDO, Fdelino:1944; pág.36) que, nesse momento, advinha tudo quanto povoava o espírito com paisagens e todas as hierarquias de valor existente no interior do homem.

Dada, pois, a necessidade de desenvolverem as suas obras criando e recriando a linguagem, poetas e escritores realizaram seu desempenho num processo que levava a inserir a prosa em meio à poesia e vice-versa. Neste particular, oscilando constantemente entre estes dois gêneros, Carlos Drummond se desempenhava literariamente. A tendência poética se deve a uma propensão pessoal, à sua interioridade mais dedicada, talvez, à subjetividade de seus sentimentos. Ele tinha plena consciência de sua tendência para uma linguagem reduzida e, portanto, mais adequada ao verso; logo, talvez por timidez ou por introspeção, ele se apercebia de que a prosa fluía menos velozmente em seu discurso.

O ensaio reflete a forma de Carlos Drummond observar-se a si mesmo como poeta e escritor, observando, simultaneamente, o desempenho de seus contemporâneos diante da literatura. E, ávido em sua auto-crítica, apercebia-se também de sua propensão maior para a poesia; preocupação crítica que fez com que se antecipasse a possíveis estudiosos de sua obra e advertisse, ele mesmo, o leitor de que, apesar de aquele ser um livro em prosa, era “assinado por quem preferiu quase sempre exprimir-se em poesia”. (Confissões de Minas, pág.722).

Considerando-se o desempenho do autor na crônica e no conto, o Drummond-crítico nunca deixou de ser, também, simultaneamente poeta. Além da tendência poética, o que seus ensaios revelam é, na verdade, uma necessidade muito grande de observar o que estava sendo criado à sua volta, que influências modernas podiam ajudar ou, em sendo exageradas, extrapolavam os limites da coerência. Uma outra forma de afirmar a sua dedicação ao ensaio se revela na necessidade de ele se relacionar com todos aqueles que participavam de seu mundo literário, influenciando-o ou despertando-o para uma realidade que impunha, a esta altura, conceitos modernos de arte. Esta busca de aproximação se evidencia na atitude de o Drummond-ensaísta buscar nos contatos diretos ou indiretos com os amigos, nas trocas de posicionamentos críticos sobre literatura ou arte, um meio de quebrar o isolamento de seu tempo, legando, assim, algo de positivo àqueles que vivenciavam com ele o ato criativo ou que, na condição de leitores futuros, chegariam mais tarde à gare literária. As páginas escritas neste gênero confirmam de tal modo esta intenção que, ao apresentá-las ao público, o autor declara “uma tentativa de convivência literária: divagações e reações do cronista ”que lhe cumpre transmitir ao leitor” (Passeios na ilha pág.2).

Escrever, manifestando opiniões ou dando conselhos foi a forma encontrada por Carlos Drummond de Andrade para quebrar o isolamento com os homens e superar, pelo menos em parte, a sua introspecção. No ensaio, sentia-se, certamente, mais à vontade para se comunicar e passar as experiências que ele ia adquirindo e outras tantas que já havia adquirido, sobretudo, com poetas e escritores que, tanto quanto ele se empenhavam por uma literatura consciente. Não mais se defendia uma arte instintiva, onde apenas o sentimento servia de veio à formação do poema, buscava-se, isto sim, uma literatura trabalhada também à luz do pensamento, digna, portanto, de ser contestada e transformada no “novo” que todos buscavam. Em Carlos Drummond de Andrade, a prática do ensaio reflete ainda seu espírito de juventude, o espírito daqueles anos iniciais de vida e convívio com os literatos mineiros que, tanto quanto ele, imbuídos dos ideais da modernidade, transformavam os contatos amistosos numa espécie de aprendizado, fazendo-os resultar, então, em crítica literária.

Observa-se que, também ao se exercitar no ensaio, à semelhança do sentimento que se revelava no cronista e no poeta, havia em Drummond uma intenção muito forte em ser solidário, em, a par com a crítica, desenvolver no imaginário do leitor certo prazer de “convivência literária” e certa propensão para a fantasia, para a necessidade de escapar à realidade, imergindo no sonho. É claro que estas características já são suficientes para mostrar o sentimento poético que flui da linguagem, das alusões metafóricas e da tentativa de o autor quebrar a solidão de seu tempo, ora aproximando-se de amigos que tanto quanto ele buscavam na literatura um veio de comunicação, ora transportando esses mesmos indivíduos a um grau de solidariedade maior. O modo como a crítica drummondiana é desenvolvida, visando sempre o outro, transmitindo franqueza e objetividade num tom meramente coloquial, revela também um pouco do Drummond-cronista que, a par com o poeta, desempenhava mais assíduamente sua missão de escritor nas publicações quase diárias, nos jornais do país. Na condição de cronista jamais podia se afastar do leitor, empenhando-se, inclusive, em se fazer amigo daqueles que o liam e em mostrar a sua participação em todos os acontecimentos. Aliás, na concepção do autor mineiro, a tarefa mais importante da literatura é exatamente a de propiciar o contato entre os homens em todos os tempos, tornando-os próximos, ainda que a distância. Segundo ele, o mais importante, na arte da escritura, é a comunhão que ela estabelece entre os homens, mortos ou vivos, indivíduos de quem nos sentimos sempre amigos.(Tempo, vida, poesia; quarta capa).

Este contato com autores de todos os tempos, esta intimidade que se vai adquirindo à medida que se penetra numa determinada obra, é, sem dúvida, um laço de união entre passado e presente, desdobrável em conhecimento que, impondo novas mudanças, se torna profícuo para nosso tempo. A perspicácia maior de se criar o novo consiste, desde já, no anseio de o literato anunciar produções ainda mais inusitadas para o futuro. Torna-se, pois, necessário que as atenções estejam despertas, que os ideais dos praticantes da literatura se voltem para novas idéias, apoiando-se não apenas no que lhes parece imediato, mas sobretudo no que já está também cognitivamente fundamentado. Certo deste ponto-de-vista é que o senso crítico leva o poeta ou o prosador a apelar, diretamente, para os leitores, exigindo que todos modifiquem em si as concepções que possuem de arte, tornando-as sempre atuais e passíveis de mudanças (Confissões de Minas (pág.722).

Carlos Drummond de Andrade, imbuído deste mesmo ponto-de vista, empenhava-se para que as concepções de arte se modificassem, conservando-se, porém, aqueles valores culturais que devem permanecer no tempo a fim de servir de respaldo às novas teorias. Em outras palavras, o novo tinha de ser criado sem eliminar, definitivamente o embasamento teórico do passado. Talvez, o melhor testemunho desta intenção sejam as alusões críticas que o ensaísta faz à figura e às obras do Aleijadinho e até mesmo aos amigos mortos com quem, segundo ele, também morremos um pouco, já que o esquecimento se torna inevitável no tempo.(Passeios na ilha pág.10)

Por outro lado, há, evidentemente, uma grande necessidade de aceitação das normas modernas, já que é através delas que se determina o marco de um recomeço na criação. Explicando melhor, cabe aceitar o novo para que, a partir dele, a literatura, numa nova elaboração artística, atue sobre esse “nascimento” que promete superar ou atualizar tudo quanto até àquele momento havia sido considerado literariedade. Este chamamento que o crítico faz ao leitor, no início de Confissões de Minas, solicitando-lhe novos “olhos” sobre o presente, demonstra sua urgência em se fazer ouvido e interpretado, buscando uma participação mais ativa por parte daqueles que o lêem. As suas palavras atingem, sob este aspecto, uma forma bastante direta e exigente, sobretudo no tom quase impositivo com que ele solicita que os seus leitores compartilhem de sua arte, única forma de se aperceberem do espetáculo novo que estão vivenciando (ibidem pág.s/n).

Mesmo em O observador no escritório, livro diário, que restringe a apenas alguns anos os registros sociais, políticos e literários do país, o autor demonstra a mesma necessidade de despertar atenções, de se fazer ouvido e, desta forma, legar aos mais novos um “olhar” moderno e proveitoso de literatura.

Imbuído, pois, de sua condição de poeta e, conseqüentemente de crítico, Carlos Drummond procurou manter-se à distancia do texto, posicionando-se como mero observador, como alguém que apenas transmite aquilo que está dentro de si e que, embora sendo fruto de suas observações constantes, precisa atingir outros espíritos e outras sensibilidades. Consciente de que não devia também se envolver demasiadamente no texto que escrevia, colocou-se como alguém que, apesar de distante, reconhecia que a oportunidade de externar os seus pensamentos abrira as suas “gavetas secretas”( Confissões de Minas pág.722).

Fica bem claro que Carlos Drummond se utilizou do ensaio como de um espaço no qual fazia aflorar todo aquele conhecimento que serviria de experiência aos novos autores, confirmando-se não só a sua preocupação de passar informações como de ser interpretado e de engajar os seus supostos neófitas de literatura em suas próprias experiências. Em todos os momentos, ele exigia senão uma resposta imediata, no mínimo, uma reflexão, tornando o indivíduo que está à frente de suas páginas um sujeito ativo e não um mero ouvinte de suas apreciações. Na época em que seus escritos se desenvolviam, todos os autores, poetas e, de um modo geral, escritores buscavam esta mesma atitude, uma vez que a literatura moderna requisitava para si uma resposta interpretativa, solicitada, nesse momento, pela teoria da recepção. Ao escritor já não era dado falar só para si ou simplesmente impôr seus conceitos, cabia-lhe, sobretudo, levar o leitor a formalizar os seus critérios e completar, com a sua leitura, a feitura do texto. Esta busca do outro se reflete em todos os instantes da obra drummondiana, inclusive na obra crítica, que se utiliza, propositadamente, de uma linguagem rica de artifícios irônicos e poéticos. Interessado sempre em deixar ao outro o desvelamento total daquilo que pretendia dizer, o ensaísta omitia-se, não raro, por trás da máscara que, mesmo servindo-lhe como auto-defesa, permitia-lhe dizer o que, talvez diretamente, não conseguisse ser dito. Esta espécie de disfarce se caracterizava pela ironia que, impondo sempre uma dupla interpretação, velando ou exagerando a intenção deveras pretendida, leva o leitor ou a penetrar no não-dito que, às vezes, é mais significativo do que aquilo que uma leitura superficial indica, ou a passar despercebido ante a mensagem. Além do aspecto irônico, a linguagem empregada por Carlos Drummond é dupla no propósito de inserir em meio à prosa elementos e sentimentos mais propensos à poesia. Esta se reflete, de fato, na presença de elementos fantasiosos, presentificados nos textos críticos em meio a alusões que, na verdade, não exigiriam mais do que uma linguagem denotativa. Apesar disto, por tendência natural ou por uma fluência comum à prosa drummondiana, as referências e os artifícios lingüísticos interpenetram-se constantemente de denominações, metáforas e ritmo, remetendo, inevitavelmente, ao discurso poético.

O título Passeios na ilha nada revela, de imediato, sobre o conteúdo ensaístico da obra, indicando até, com mais fidelidade, um livro, quem sabe, de aventuras. No entanto, é apelando para um lugar paradisíaco, um lugar ao qual, segundo o autor, tanto ele quanto todos seus leitores gostariam de chegar um dia, que Carlos Drummond de Andrade encontra espaço para discorrer sobre assuntos engajados ou experiências literárias que, por vezes, se transformam em conselhos para os menos avisados. Dir-se-ia, pela forma como o leitor é introduzido no livro, que certo envolvimento poético o acompanhará nestas apreciações cujo engajamento constitui-se no ambiente tranqüilo de uma ilha, peregrina de todas suas idas e vindas (Passeios na ilha, pág.3).

Demonstrando sentir-se bem numa ilha, mais exatamente naquela sua “ilha”, local solitário e convidativo para uma boa leitura, o crítico continua afirmando a necessidade de quebrar parte do silêncio à sua volta. E a forma de partilhar com os demais as suas idéias se caracteriza no chamado que ele faz aos amigos para se juntarem consigo e, assim, estabelecerem uma discussão fundamentada em autores e movimentos literários e artísticos. Mais uma vez, surge na crítica, a idéia de que, apesar de idealizar um lugar quieto e tranqüilo, a convivência e o acerco de pessoas capazes de se solidarizarem com ele, é indispensável. A ilha figura como um lugar idílico, onde o crítico não procura, exatamente, a felicidade, mas a tranqüilidade ou “a segurança de uma noiva”, metáfora bastante excêntrica para quem pretende defender seus ideais. Ideais que, aprovativos ou contraditórios sobre o que se passa no círculo literário precisam contar com uma recepção solidária. Carlos Drummond revela, nesta comunicabilidade, que se vai formando entre ele e o leitor, a necessidade de passar experiências, de afirmar no tempo o aprendizado que sedimentava sua cultura, através de uma convivência mais íntima com poetas e literatos que ia conhecendo ao longo dos anos. Em se utilizando desta experiência, conforme ele declarou nas anotações pessoais, o crítico visava a conseguir também, resgatar “o eco de um tempo abolido” (



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