Relações, disputas e valores. Um estudo sobre os fiéis da Igreja Universal em Uberlândia



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Relações, disputas e valores. Um estudo sobre os fiéis da Igreja Universal em Uberlândia.

Rodrigo Barbosa Lopes*


RESUMO

O presente artigo mostra, por meio de um diálogo constante com as fontes orais, uma reflexão sobre a prática e a experiência de trabalhadores adeptos ao neopentecostalismo. Trata-se de entender e pensar a prática dessa doutrina como uma expressão de resistência da modernidade.


PALAVRAS-CHAVE

Experiência; neopentecostalismo; Igreja Universal.


ABSTRACT

This article shows, through a constant dialogue with the oral sources, a reflection on the practical experience of workers and supporters to neopentecostalismo. It is understood the thinking and practice that doctrine as an expression of resistance to modernity.


KEY-WORDS

Experience; neopentecostalismo, the Universal Church.

Há muitos caminhos para explicar o crescimento e expansão do fenômeno religioso neopentecostal, que ocorre desde o final do século XX. No entanto, a opção da pesquisa que precede este artigo não foram as grandes construções arquitetônicas ou a atuação de líderes religiosos, mas sim sujeitos que se identificam com a doutrina da Igreja Universal do Reino de Deus. São homens e mulheres ligadas ao fenômeno religioso neopentecostal e que participaram da produção de fontes, posteriormente analisadas a partir de reflexões e problemáticas inspiradas nos estudos de Thompson e outras fontes relacionadas a esta corrente historiográfica.

Sendo assim, é necessário questionar e problematizar o fenômeno religioso, refletindo-o como um fenômeno social, e não metafísico. Aqueles que lotam os templos religiosos, mesmo em frias manhãs de domingo, estão lá por um motivo concreto, que não faz parte de um imaginário. Doenças incuráveis, desemprego, queda da renda e outros diversos problemas brotam da fala em entrevistas e conversas informais.


Erik Fadul: Antes da igreja eu tinha uma vida fracassada. Sou formado em administração de empresas, tenho curso superior completo e sou de Belo Horizonte. Não conseguia emprego lá, eu recebia o mínimo…
Rodrigo Lopes: Estagiário?
E.F.: É! E eu já tinha minha família e morava num barracão e… era eu, minha esposa e minhas duas meninas é… eu bebia muito, fumava muito é… tinha dias que eu nem conseguia colocar comida em casa… minha esposa também tinha assim uma vida miserável… e as nossas filhas passavam dificuldades. Foi assim que eu cheguei na [Igreja] Universal. Ela [a esposa de Erik] chegou primeiro né, ela foi primeiro depois me levou, depois de um mês e… com o passar do tempo a gente foi aprendendo né a… a conhecer este Deus que até então eu era católico vindo de um berço católico né (…). (Entrevista com Erik Fadul Magalhães. Feita em fevereiro de 2005).
Tornar trágica a vida “antes da igreja” enaltece a conversão, transforma a IURD em instrumento poderoso e capaz de transformar lobos em cordeiros, ou homens falidos em homens de sucesso. Será?
E.F.: Estou a seis anos na igreja, até hoje a gente vai vendo as transformações pelo que a gente vai passando. E... lá em BH minha esposa tinha um instituto de beleza. Ela conquistou um título beleza, eu tenho um carro, um carro muito bom. A gente tem apartamento lá, eu vim para cá transferido. Já sou gerente de uma grande empresa. E vim para cá transferido para Uberlândia, eu moro numa casa muito boa que tem piscina, três quartos, suíte. A gente... eu, eu tenho... gado, meu pai mexe com fazenda lá no Pará e... eu compro gado dele também e, tenho alguns investimentos e cada dia Deus vai transformando mais a vida da gente. (Entrevista com Erik Fadul Magalhães. Feita em fevereiro de 2005).
Parecem de pessoas diferentes, mas as palavras, juntamente com os silêncios, foram ditas por um mesmo sujeito, na mesma entrevista. É importante observar como a fazenda do pai ou o instituto de beleza da esposa inexistem quando Erik Fadul fala sobre o próprio passado, pois há uma preocupação em denegrir o momento anterior de “chegar a Igreja Universal”. É possível extrair muitas constatações sobre este trecho, mas é importante identificar como os problemas reforçados por ele desaparecem em seguida. São problemas sociais que, segundo Fadul, são superados graças à fé na doutrina praticada pela Igreja Universal. Mas esta crença deve, necessariamente, ser problematizada.
Com o ato de contar e reler o passado à luz de um presente vivido simbolicamente como “novo nascimento”, a narrativa-testemunho recupera, no movimento e produção da memória, uma verdade de si, a verdade de uma nova identidade que, se não rompe de todo com o passado, busca construir, no presente novo, um novo modo de afirmação social, atravessado pelos valores e sentidos que a crença carrega. (FRANCISCO, 2007. p. 163)
Mas o que é a fé? Mais importante que buscar responder em que essas pessoas creem, é necessário questionar como e por que acreditam. A fé, um termo e ao mesmo tempo uma prática, aparece com frequência em entrevistas e diálogos e justifica diversas escolhas destes fiéis. Mesmo assim, para alguns, explicar tal termo pareceu um desafio.
Rodrigo Lopes: O que é fé?
Dona Divina: Fé… você vai consciente de que aquilo ali... de que Deus vai te ajudar. Eu vou porque Deus está comigo, e eu vou lá na casa do senhor e ele vai me ajudar… você pensa assim. (silêncio) (Entrevista Divina Viani. F. Requieri, de 66 anos e Elizabete Ferreira Oliveira, de 32 anos. Realizada em maio de 2006).

Rodrigo Lopes: O que é fé?
Dona Juceli: Fé, pra mim, é tipo assim… quando você está com fome e tem um bom prato de comida e você olha e fala assim “ah, eu não posso comer agora”… ai você vê assim, “mas o que está me impedindo de comer”? aí você vai, e come!, saceia da fome olha para o tempo e fala, “nossa, mas como é bom ta de barriga cheia”, você entendeu?, é mais ou menos nesse estilo, aquilo dentro de você fica calmo, pacífico, fica numa harmonia muito grande…(Entrevista com Juceli de Fátima Silva, 39. Feita em 10 de maio de 2007.)
É realmente complexo entender o termo fé por meio das analogias, palavras e ou silêncios. As práticas destes trabalhadores podem socorrer melhor esta questão. Participar das campanhas religiosas, criadas pela Igreja Universal do Reino de Deus, significa para os sujeitos o fortalecimento do vínculo que eles estabelecem com Deus ou, como se observa com frequência nas entrevistas, é o momento no qual cada um busca garantir os próprios propósitos. Os objetos utilizados são simples e comuns aos sujeitos: um vaso, facilmente substituído por um copo descartável, para depositar as maldições; um anel vermelho para quebrar a inveja; caminhar sobre sal para se livrar de problemas espirituais.

É importante destacar que não se trata de entender como estes eventos são promovidos ou qual nome atribuir a esta prática da Igreja Universal, mas sim entender como aqueles trabalhadores que frequentam as diárias sessões espirituais se identificam com estas campanhas. Os significados que eles atribuem não fogem da experiência: não está fora da consciência social dos trabalhadores que lotam os templos ostentosos da Igreja Universal. Mesmo se considerarmos que as interpretações bíblicas fornecidas pelos pastores influenciam no entendimento, não se pode entender tais explicações como determinações. É a partir da vivência, traçada e elaborada com os demais sujeitos, que os frequentes da Igreja Universal criam as falas, os silêncios e as interpretações sobre as próprias ações, práticas e escolhas.


Rodrigo Lopes: Nestas libertações, muitas vezes eu assisti alguns eventos da Igreja Universal e eles fazem geralmente campanhas, e usam alguns elementos, a senhora pode me explicar o que são estas campanhas?
(…)
Dona Divina e Dona Elizabete: Aí tem de tudo né, tem muita coisa, tem o caminho do sal... a gente vai tudo pela Bíblia, na Bíblia tem tudo isto, né Beti? (Tem.) Na Bíblia tem tudo isto... então a gente vive a Bíblia, ali o que está escrito na Bíblia... na Bíblia a vida espiritual né, agora a gente vive fazendo aquilo que está na Bíblia, a gente vive no dia-a-dia, por exemplo, tem o caminho do sal, no caminho do sal tem um... (Porque o Davi venceu a maioria dos inimigos dele no caminho do sal) venceu no caminho do sal... então ele venceu lá não sei quantos homens, porque eu não tenho lá gravado assim na cabeça né... porque é muita coisa que a gente aprende né... então ali naquele vale de sal ele venceu muitos homens... aí então a gente faz o vale do sal e quando faz de vez em quando... e quando faz, faz muitas semanas, meses né Beti? (Umas nove terça feira.) porque sempre sempre é feito na terça feira né, a quebra da aliança sempre é feita na terça feira, então é muita coisa que a gente faz, a gente faz na terça-feira por que é dia do descarrego né... o descarrego é fazer um descarrego espiritual, né... espiritual assim, do espírito do mal, né.. para libertar gente, liberta a família da gente do espírito do mal... para não acontecer nada... por exemplo, se você estiver numa igreja você pode orar para... orar para sua família toda, porque o que tiver de acontecer às vezes... se na sua família você tiver um irmão, e ele tiver junto com outro, e acontecer um acidente de moto, o outro pode machucar, mas seu irmão não machuca, por quê? Porque através da sua oração e da sua fé (Você dá o livramento.) dá o livramento, você livra seu irmão e não acontece nada com ele, mais por mais uns arrainhãozinhos… mas não acontece nada com ele. (Entrevista com dona Vilma Vieira de Oliveira, 66. As falas entre parênteses e em itálico são de Elizabete Ferreira Oliveira, 32. Feita em 26 de outubro de 2005).

São nestas campanhas em que ocorre um dos eventos mais polêmicos da Igreja Universal. Muitos estudos afirmam, graças a estes eventos, que fiéis são hipnotizados e, de certa forma, forçados a doarem altas quantias em dinheiro para a Universal. Mas, por meio de entrevistas e diálogo com os sujeitos (e não com a estrutura), é possível obter outras conclusões, que retiram o caráter ingênuo daqueles trabalhadores que frequentam a Igreja. A hipnose não é o motivo principal dos fiéis doarem alta quantia em dinheiro para a Igreja. Além disto, é interessante destacar que não há esta constante doação, ao contrário do que se afirma.

O impulso que existe nestas campanhas, muito maior do que o espetáculo sobre o palco feito pelo pastor, é o sentimento daquela multidão que lota os grandes espaços religiosos da Igreja Universal e de outras igrejas neopentecostais. Além do medo e a busca por fugir dos diversos problemas sociais que existem na realidade social daqueles trabalhadores, estes também entendem a relação com a Igreja Universal como valores comerciais, de compra e venda. Certa vez, em uma das sessões espirituais que fui à Igreja Universal, o pastor solicitou em meio à sessão a quantia de R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Foi constrangedor. Ninguém se levantou. Um silêncio quebrado apenas pelo pedido seguinte do pastor, que insistia: “quem tem quatro mil reais para sacrificar para Deus agora? Esta pessoa irá conseguir o impossível!”.

O silêncio no templo persistia entre sujeitos que frequentavam o templo naquela manhã. Ninguém se manifestava. Ouviam-se poucos murmurinhos, mas ninguém se levantou e foi ao palco depositar a quantia solicitada para o sacrifício. O pastor reduziu o valor do sacrifício e, em poucos minutos, a bênção impossível de R$ 5.000,00 poderia ser adquirida por R$ 50,00. Só assim houve movimento. Por esse valor, era mais fácil conseguir o impossível.

Apesar do sacrifício, o impossível prometido pela doutrina neopentecostal não será fornecido como pronta-entrega. A Igreja Universal e as outras que assumem a prática neopentecostal se posicionam como caminho entre Deus e os fiéis. A participação em campanhas, as orações e os sacrifícios não surgem como um pedido de um fiel a um Deus, mas sim como desafio. A fé, na dimensão neopentecostal, é medida pela capacidade que o sujeito possui de enfrentar Deus, colocando os pedidos como desafios. As conquistas, que vão desde a cura do câncer à conquista da casa própria, são comuns em entrevistas feitas nessa pesquisa ou aparecem no cotidiano dos programas de televisão, jornais e outros meios de comunicação neopentecostais.
Acho que depende muito da fé da pessoa né, de mim depende muito da fé, porque eu tenho muita fé em Deus (…) eu tenho muita fé, então eu consigo muita coisa pela minha fé, mas que manda é a fé. Se tiver fé você consegue, mas sem fé não adianta você ir não…(Entrevista Divina Viani. F. Requieri, de 66 anos e Elizabete Ferreira Oliveira, de 32 anos. Realizada em maio de 2006.)
É certo que nem todos conseguem o impossível. Dificilmente Deus será o culpado do não atendimento dos desafios. Ele atendeu outros pedidos, visto que é comum aparecer durante as sessões indivíduos que compartilham um testemunho vitorioso, mostrando como conseguiram prosperar em suas vidas. O mesmo serve para a Igreja Universal. Como culpá-la pelo fracasso no atendimento ao desafio feito mediante as ofertas? Afinal, outros conseguiram e a Igreja esteve lá, sempre aberta e receptiva para os sacrifícios e oferecendo diversas campanhas numa mesma semana.

Resta, como culpado por não conseguir alcançar o propósito, o próprio indivíduo. Faltou-lhe fé. “Se tiver fé você consegue, mas sem fé não adianta você ir não…”. Não adianta os sacrifícios ou campanhas: sem a fé do indivíduo, nada lhe é concedido. Isso, no entanto, não é novidade em religião. Tais práticas persistem e acontecem em outras doutrinas, algumas muito distintas. O que torna diferente o neopentecostalismo de outras doutrinas não são os ritos ou dogmas pregados, mas sim como os sujeitos se relacionam e se identificam com estes espaços.



Uma diferença importante está no entendimento que estes sujeitos mostram ter sobre destino. Não há destino dentro da doutrina neopentecostal. Ao contrário de muitas outras doutrinas, os desafios impostos pelos fiéis a Deus sucumbem qualquer perspectiva de destino, fazendo com que as escolhas dos indivíduos sejam as únicas capazes de decidir sobre o futuro.
Rodrigo Lopes: Então no caso não existe a questão do destino… orando eu posso, por exemplo, conseguir uma salvação ou participando do caminho do sal eu posso, no caso, eliminar isto [o mal]?
Dona Divina: Pode eliminar isto da sua vida, se você tiver, por exemplo, um… você o povo fala é… como é que você falou?
RL: Destino.
D. Divina: Destino! (risos) Não acredito no destino né, Beti? A gente não acha assim, para nós é assim, nós acreditamos muito no encosto, né… coisa espiritual, coisa do mal, não sei se você acredita… tem gente que acredita, tem gente que não… tem gente que acha que existe, tem outros que acha que não existe… mas na verdade existe e muito, porque o espírito do mal vive em volta da gente 24 horas por dia, e nisso ele está ali só mesmo prestes a pegar em qualquer falhazinha sua desse tamazinho… ele tá pronto para te ferrar.
Dona Elizabete: E a gente vence ele quando tem as reunião de quarta-feira e domingo, né, aí a gente fica revestido de Deus né, aí a gente busca nos domingos… (Entrevista Divina Viani. F. Requieri, de 66 anos e Elizabete Ferreira Oliveira, de 32 anos. Realizada em maio de 2006).
Outra dimensão importante sobre essa relação se trava numa guerra espiritual, enfatizada pela prática da doutrina neopentecostal como uma disputa intensa entre o bem (Deus) e o mal (encostos, demônios, diabo etc.). A este mal, os sujeitos atribuem os problemas que enfrentam no cotidiano, como a violência, problemas de saúde ou o próprio desemprego. A fé, deste modo, é testada no cotidiano e não apenas no templo. Homens e mulheres vivem o neopentecostalismo como prática social, e não como uma representação em determinados espaços. Experimentam os problemas sociais e buscam a superação destes por meio da reza, da crença e da fé.
Eu tenho, a expectativa que eu tenho lá é de vencer né, é de vencer tanto a mim quanto para minha família também, tenho fé em Deus que eu também vou conseguir levar minha família… para a igreja para poder vencer tudo que tiver de ruim aqui no mundo… porque só assim que a gente pode ganhar a salvação. (Entrevista Divina Viani. F. Requieri, de 66 anos e Elizabete Ferreira Oliveira, de 32 anos. Realizada em maio de 2006).
Também, diferente de outras doutrinas, as vitórias e conquistas entre os neopentecostais ocorre ainda em vida. Não é preciso esperar a morte para experimentar o paraíso. Dentro das práticas neopentecostais, a vitória e as conquistas estão sempre num momento futuro, como algo ainda a ser conquistado. Isso não significa que eles não identifiquem a prosperidade e as conquistas, quando estas acontecem. Há sim, entre aqueles que permanecem praticantes de tal doutrina, a identificação da transformação em suas vidas. No entanto, sempre há algo a mais que deve ser conquistado. A vitória na batalha espiritual acontece sempre que estes sujeitos conseguem ser atendidos em um determinado propósito. Tal vitória é a superação dos problemas do cotidiano.
Márcia Olímpia: Sim, trabalhava e vivia endividada. A partir daí, o primeiro milagre foi a cura, e a partir de então eu passei a frequentar a Igreja e fazer correntes conforme o pastor havia me orientado, passei a fazer corrente e perseverar nas correntes de prosperidade, e onde fui aprendendo a ser dizimista, aprendendo a ser fiel, a ofertar na casa de Deus e eu fui vendo o resultado na minha vida.
Rodrigo Lopes: Antes de você começar a vir na igreja... (ela começa a falar, interrompendo).
Márcia Olímpia: Gastava muito com farmácia, não ganhava mal na época, mas mesmo assim eu não via onde tava indo meu dinheiro, então era uma vida de miséria, de fracasso, era terrível... (Entrevista com Márcia Olímpia, 45. Feita em fevereiro de 2005).

As práticas neopentecostais encontram muitos adeptos nos tempos de hoje. São trabalhadores, homens e mulheres, que se identificam com os valores doutrinados pelo neopentecostalismo. Querem aquilo que o pastor oferece. Querem aquilo que os “irmãos de fé” conseguiram na fogueira santa. A partir disto, pode-se desconstruir os estereótipos da hipnose ou do histerismo. Não há problemas psicológicos que podem justificar milhões viverem esta doutrina em seu cotidiano, mas há importantes questões sociais. Não é necessário buscar uma biblioteca de teoria sobre crises provocadas por políticas econômicas malsucedidas, basta apenas ouvir os sujeitos que participaram deste artigo e da pesquisa. Há uma disputa social, tensão que impede o acesso aos bens de consumo por boa parte da população trabalhadora. Há, ao mesmo tempo, uma intensa propaganda que veicula, contraditoriamente, os bens de consumo como de fácil acesso para a população trabalhadora.



Neste sentido, a prática neopentecostal consegue adeptos. Muitos, milhões. O crescimento numérico é rápido, mas ao mesmo tempo, a saída de fieis desta doutrina é constante. É fácil entender por quê: quando desafiam Deus e não são atendidos, os sujeitos mudam de Igreja, de doutrina ou abandonam as práticas religiosas. Esse trânsito entre as religiões é uma expressão de resistência da modernidade. Seguir os princípios do neopentecostalismo, que não fogem da doutrina cristã, é uma expressão de como os sujeitos se identificam com a consciência afetiva e moral destes espaços religiosos. Ao mesmo tempo, a busca pela prosperidade, ao ponto de desafiarem Deus, é um meio de identificar a resistência ao desespero, ao medo e às atribulações que estes trabalhadores vivem em seus cotidianos.
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* Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia, mestrando no Programa de Pós-Graduação em História pelo mesmo instituto.



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