Relato de mulheres acerca do parto vaginal: discutindo o processo assistencial em face das recomendações para a humanização do



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Morais, F. R. R.; Alves, A. M. & Traverso-Yépez, M. A. Da humanização ao cotidiano de desigualdades sociais na assistência ao parto e ao nascimento



Da Humanização ao Cotidiano de Desigualdades Sociais na Assistência ao Parto e ao Nascimento

From Humanization to Everyday Practices of Social Inequalities in Childbirth Health Care

Fátima Raquel Rosado Morais1

Adriana Maria Alves2


Martha Azucena Traverso-Yépez3

Resumo



A pesquisa objetivou estudar a experiência e os processos de geração de sentido das ações destinadas ao parto e nascimento entre usuárias do serviço público numa Maternidade do Nordeste articulando-as com o preconizado no Programa de Humanização do Pré-natal e Nascimento (PHPN) e nas recomendações da OMS. A abordagem narrativa adotada como estratégia metodológica permitiu o diálogo com a experiência de doze mulheres que se submeteram ao parto natural numa Maternidade conveniada ao SUS na cidade de Mossoró-RN. Os discursos evidenciam que as práticas deste serviço mantêm as configurações tradicionais e intervencionistas, caracterizadas pela mecanização e pela tendência a desconsiderar as necessidades da mulher num processo assistencial de precariedade e limitações estruturais. Considera-se que o processo de humanização dos serviços demanda uma reflexão permanente sobre a dinâmica de atendimento possível no atual contexto assistencial da saúde pública, tendo em conta as necessidades, tanto das usuárias e dos trabalhadores, bem como dos serviços e sua infra-estrutura.
Palavras-chave: humanização, assistência ao parto, PHPN, Psicologia Social.

Abstract

The research aimed at studying the experience and meaning making processes concerning the health care received during childbirth among women using public service, at a Maternity in the Northeastern part of the country, articulating them with what is recommended in the Pregnancy Care and Childbirth Humanization Program - Brazil (PHPN) and by WHO. The narrative approach was used as methodological strategy, having accomplished a postpartum study with twelve women who had their babies through natural childbirth at a Maternity Hospital in Mossoró-RN. Discourses show that daily practices at this Hospital maintain the interventionist traditional configurations, characterized by mechanized practices and the tendency to disregard women's needs in the assistance process within the poor conditions and structural limitations of the service. It is considered that the humanization of the health care service must acknowledge current shortcomings of the service and its infrastructure, as well as the needs of health professionals and service users.



Key words: humanization, childbirth health care, PHPN, Social Psychology.

Introdução

As práticas e os processos de significação e geração de sentidos relacionados ao parto e nascimento transformaram-se ao longo da história, estando perpassadas pelas peculiaridades de cada contexto sócio-cultural. A atenção às práticas discursivas em questão, tanto nos documentos oficiais quanto na experiência cotidiana de parturientes nos serviços públicos de saúde, traz à tona uma reflexão necessária sobre o conhecimento social e as ações relacionadas com o parto e o nascimento nos momentos atuais.

De um parto natural e doméstico, realizado por parteiras, nas residências das parturientes, passou-se para um parto medicalizado em ambientes hospitalares. As parteiras foram substituídas pelos médicos, e suas formas de atuação expectante e apoiadora por procedimentos invasivos e instrumentais cirúrgicos.

As mudanças ocorridas com os avanços científicos e tecnológicos fundamentaram-se no critério de oferecer às mulheres e aos recém-nascidos melhores resultados, diminuindo a morbimortalidade materna e fetal. Acabaram também por propiciar uma diminuição no tempo do trabalho de parto, através de práticas estandardizadas e mecanicistas (Vieira, 2002; OMS, 1996). Contudo estas práticas não necessariamente contribuíram para amenizar as elevadas taxas de morbimortalidade materna e perinatal ainda vigentes em alguns espaços geográficos (Tornquist, 2003).

Em face desta problemática, destaca-se em nível mundial um movimento em favor da maternidade segura fundamentado em evidências científicas, e que aponta para a reflexão das citadas práticas, especialmente nos contextos das iniqüidades sociais e econômicas dos países menos desenvolvidos e com maior morbimortalidade materno infantil. O debate iniciado em 1980 culminou em 1990, com a publicação, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), dos documentos “Safe motherhood: a practical guide” (WHO, 1996) e “Safe motherhood: pregnancy is special, let’s make it safe” (Who, 1998).

O Brasil se insere nestas discussões e o Ministério da Saúde (MS) lança, em junho de 2000, o Programa de Humanização do Pré-natal e do Nascimento (PHPN), propondo mudanças na assistência à mulher e ao neonato. Nos documentos oficiais brasileiros há uma tendência a se priorizar críticas contra o abuso das práticas intervencionistas e medicalizadoras e o desrespeito aos direitos das mulheres sobre os seus corpos. Todavia, as primeiras avaliações do programa não mostraram alterações significativas nas práticas tradicionais de assistência, persistindo o quadro de atenção à saúde anteriormente citado (Tanaka, 2004).

Observa-se que o discurso prescritivo, universalista e generalizador da humanização proposto na Política tende a desconsiderar as profundas diferenças contextuais nas formas de parir, em função dos condicionantes sociais, econômicos e estruturais que permeiam a vida das mulheres e o fazer saúde em um país com tantas iniqüidades sociais.

Assim, este estudo faz parte de um projeto maior de pesquisa de doutoramento no qual objetiva-se estudar o contexto institucional e as práticas discursivas de trabalhadores e usuárias no cotidiano das ações em saúde tendo em foco a discussão pela humanização do parto e nascimento. Para o efeito, uma das primeiras imersões no campo de trabalho permitiu estudar a experiência e os processos de geração de sentido das ações relativas ao parto e nascimento, na perspectiva de usuárias do serviço público de saúde. Desse modo, nesse artigo almejou-se caracterizar as práticas e as experiências numa Maternidade do Nordeste, articulando-as com o preconizado no Manual e nas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).


Os Discursos sobre a Assistência ao Parto e ao Nascimento no Brasil
No texto “Safe motherhood” (WHO, 1996) apresenta-se o processo técnico e as práticas para uma assistência segura, sendo seu objetivo “ter uma mãe e uma criança saudáveis, com o menor nível possível de intervenção compatível com a segurança” (OMS, 1996, p. 4). Na tradução para o português elaborada pelo MS há uma apresentação, ausente no original em inglês, enfocando a discussão na temática da humanização no atendimento, sendo esta compreendida como
(...) um conjunto de práticas que visam à promoção do parto e nascimento saudáveis e a prevenção da mortalidade materna e perinatal. Essas práticas incluem o respeito ao processo fisiológico e a dinâmica de cada nascimento, nos quais as intervenções devem ser cuidadosas, evitando-se os excessos e utilizando-se criteriosamente os recursos tecnológicos disponíveis. (OMS, 1996, p. 1)
Nesta apresentação, a humanização ganha um sentido prescritivo e universalista, propondo uma prática menos intervencionista, capaz de promover mudanças no quadro de morbimortalidade materna e perinatal. Entretanto, o texto não reconhece os aspectos macroestruturais, propulsores das condições precárias de vida e saúde da população na base da pirâmide social, e que acabam por complicar os aspectos técnicos do processo e por dificultar as mudanças no quadro de saúde do grupo em apreço.

Posteriormente se constitui o PHPN mediante decreto GM/MS 569 de junho de 2000, publicado oficialmente dois anos depois (Brasil, 2002). Para a sua operacionalização foi difundido em 2001 o Manual “Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher” (Brasil, 2001), o qual, em muitos aspectos segue as recomendações da OMS quanto à desmedicalização e o repensar das práticas intervencionistas. Tece, ainda, observações críticas acerca das rotinas costumeiras no trabalho de parto, enfatizando a necessidade do suporte psicossocial à parturiente. Contudo, mais uma vez, deixam-se de lado os aspectos sócio-estruturais enfatizados nos documentos da OMS, e concentra-se na discussão dos aspectos técnico-assistenciais com normas e orientações para preparação e acompanhamento da mulher durante a parturição e nascimento.

Assim, pouco se problematiza no Brasil os aspectos epidemiológicos da morbimortalidade materna e perinatal, estreitamente relacionados à capacidade econômica da população. Essa ênfase fora mais uma vez destacada por WHO (1998), ao associar a elevação das taxas de morbimortalidade ao redor do mundo, não apenas às formas de parir e nascer medicalizadas, mas às condições precárias de vida e saúde que permeiam significativa parcela da população, especialmente, nos países subdesenvolvidos.

Em Brasil (2001) também não há clareza quanto aos passos para a viabilização das mudanças propostas. Em nível pessoal, não se reflete quanto aos empecilhos para as novas formas de atuação/participação do trabalhador e da usuária, e, em nível estrutural-operacional, não se apresenta e disponibiliza os recursos mínimos necessários para a sua aplicabilidade. Assim, por negligenciar as condições macroestruturais, e desconsiderar os processos de subjetivação e os posicionamentos dos envolvidos no processo, sua aplicabilidade fica comprometida, fracassando na possível contribuição para a melhoria nas condições de vida e saúde.

Nesse contexto, há necessidade de se refletir sobre as práticas relacionadas ao parto e nascimento, a fim de se pensar em possibilidades para a construção de políticas que estejam em sintonia com as demandas e necessidades cotidianas dos atores envolvidos nos diferentes espaços de saúde. Considera-se que qualquer generalização tende a cair num vazio, quando deixa de lado as condições de vida da população e as dinâmicas intersubjetivas que a estrutura sócio-econômica condiciona nas práticas de atendimento da saúde pública.

Metodologia

Para apreender a experiência das ações em saúde destinadas ao parto, na perspectiva de usuárias do serviço público de saúde, optou-se, metodologicamente, pela abordagem narrativa (Brockmeier & Harré, 2003; Lira, Catrib & Nations, 2003). A narrativa é utilizada no âmbito da pesquisa social em saúde para “obter acesso aos sentidos atribuídos e à experiência dos indivíduos e de seus esquemas interpretativos no que concerne à realidade da vida cotidiana” (Lira et al, pp.59-60). As narrativas são práticas específicas de discursos nas quais são tecidos e expressados o universo de experiências e os processos de geração de sentidos dos atores sociais.

As participantes da pesquisa foram mulheres residentes na área de abrangência da Unidade Básica de Saúde do bairro Carnaubal, zona sul da cidade de Mossoró, e todas haviam tido seus filhos na Maternidade citada. As entrevistas ocorreram nas residências após o período puerperal.

Esta maternidade é uma entidade filantrópica que atende SUS, convênios e particulares. Apresenta demanda aproximada de 300 partos por mês, incluindo os partos cirúrgicos. A coleta dos dados ocorreu em janeiro de 2005, a partir de um roteiro de entrevista que abordava as experiências assistenciais vivenciadas pelas mulheres nos seus partos. Os critérios para a seleção das participantes foram ter se submetido ao parto vaginal, no máximo, há seis meses e se encontrar disposta a contribuir com o estudo, concedendo a entrevista. A delimitação temporal ocorreu pela necessidade que a mulher teria de relembrar a assistência recebida durante o último período de permanência na maternidade, caso tivesse mais de um filho.

Foram entrevistadas doze mulheres após Consentimento Informado. Estas serão identificadas a partir de nomes bíblicos, em respeito aos aspectos éticos previstos na Resolução nº. 196/96 (Brasil, 1996), garantindo anonimato por ocasião da publicação do material da pesquisa.

Os dados sócio-demográficos revelam que as idades das participantes variavam entre dezenove e quarenta e nove anos; a renda familiar, na sua maioria, não ultrapassava o salário mínimo e residiam na periferia da cidade, geralmente morando com parceiros e filhos. Todas tiveram, no mínimo, três filhos e tinham experiência anterior com o parto vaginal e o cirúrgico. A associação renda / filhos por família aponta para a condição de pobreza do grupo em estudo, o que não foge à realidade de parcela considerável da população brasileira atendida pelo Sistema Único de Saúde.


A Assistência ao Trabalho de Parto – uma Leitura a partir da Parturiente
Todas as participantes da pesquisa fizeram acompanhamento pré-natal, realizando suas consultas na Unidade de Saúde da Família da sua área de residência. O material da experiência assistencial acerca do processo de parturição foi sistematizado a partir dos períodos do trabalho de parto:
Recepção na maternidade
Algumas mulheres relataram ter sido “boa”, pois “assim que cheguei lá fui logo atendida” (Seforá) ou “quando cheguei tinha duas esperando para serem examinadas pelo médico. Depois fui eu e a parteira disse que eu ia ficar” (Judite). Estes discursos evidenciam que a qualidade da assistência é julgada associada à rapidez no atendimento e na possibilidade de ficar no serviço, pela dificuldade em se garantir o internamento para parir. Nestes depoimentos, observa-se que é a rápida evolução do trabalho de parto que é considerada “bondade” no atendimento e não a prática de uma assistência acolhedora e personalizada como referendado na proposta do programa. Isto leva a refletir acerca da necessidade de esclarecer e tornar evidente para o usuário que o atendimento em saúde é direito garantido e não um favor por parte dos trabalhadores e do serviço.

As dificuldades parecem surgir na aparição de complicações ou diante de quadros de ansiedade. Assim, outras mulheres referendaram sentirem a falta de garantia no internamento para parir, talvez por não conhecerem os trabalhadores que atuam na assistência ao parto, reforçando também o pouco conhecimento e clareza quanto ao processo vivenciado. Apontaram, ainda, a peregrinação a que foram submetidas:


Eu ia lá, pois estava com medo, aquela barriga estava sendo toda diferente (...) Quando chegava, a parteira me examinava, ligava para o médico e dizia que não estava na hora de ficar, me mandava ir para casa. Só na terceira vez que fui é que fiquei internada para dar a luz. (Milca)
Mandaram Milca ir embora, sem explicações, só informando que não era hora de ficar, o que aumentou o medo e a ansiedade e dificultou a vivência tranqüila do processo de parturição. Observa-se falha na comunicação entre a equipe de saúde e a mulher, não sendo esta tranqüilizada, nem orientada devidamente, quanto às reações e acontecimentos no seu corpo neste momento.

A procura antecipada pode ser determinada, em parte, pelo desconhecimento do corpo e pelo fato das reações nele nem sempre serem as mesmas, aspecto que deveria ser tratado no pré-natal. O corpo não é uma máquina pré-programada, podendo agir diferentemente em cada momento da vida, e sendo fundamental que o pré-natalista ajude a mulher a entender as alterações e expressões da gravidez em si.

Nos depoimentos o pré-natal segue uma rotina, obedecendo a um modelo mecanicista. Por não se agir em face às necessidades individuais, e nem se buscar promover o encontro intersubjetivo, persistem os limites de uma assistência que não qualifica o cuidado, nem a pessoa, transformando-os apenas em patologia e corpo biológico. Deste modo, as orientações até podem ser oferecidas no modelo pré-formatado, mas por não se levar em conta à subjetividade e as necessidades de cada usuária, aspectos importantes do processo podem acabar sendo deixados de lado, inclusive a efetiva preparação para o trabalho de parto.

Assim, é preciso refletir quanto à qualidade do atendimento durante o pré-natal. Coutinho, Teixeira, Dain, Sayd & Coutinho (2003) afirmam ter havido um incremento na cobertura numérica da assistência pré-natal, todavia, além da parte técnica, muito pouco é discutido acerca deste acompanhamento. Isto porque a gestação e o nascimento não são apenas fenômenos biológicos, mas eventos sociais que determinam e são determinados pelo contexto simbólico-cultural que os cercam. De fato, a relevância do pré-natal é cada vez mais enfatizada no processo de reflexão e mudança de mentalidade quanto aos mitos e pré-conceitos que cercam o processo de parturição (Domingues, Santos & Leal, 2004).

Merece destaque nos documentos oficiais a ênfase na necessidade de articulação do trabalho desenvolvido durante o pré-natal com o conhecimento da maternidade na qual se irá parir (Brasil, 2001). Contudo, percebe-se que esta interação raramente acontece, apesar de que como prática acolhedora poderia minimizar alguns anseios, especialmente o medo do desconhecido, quer seja físico, funcional e/ou dos trabalhadores com os quais a futura mãe irá se relacionar.

O trabalho de parto

Para algumas mulheres, o trabalho de parto foi tranqüilo, sem condições angustiantes: “Eu não sofri muito não... Cheguei e com pouco tempo o meu filho nasceu...” (Judite). Entretanto, para outras participantes, o período de expectação foi acompanhado por dor, desconforto, angústia, solidão, fome e sede:


Eu senti muita dor... Ai, a parteira olhava e dizia: mãe fique deitadinha do lado esquerdo que diminui a dor... (Ágar);

Eu estava era morrendo de sede, mas disseram que não podia tomar água não... (Sara);

Eu chorei muito quando vi meu marido na porta esperando por notícias... Mas me deixaram falar com ele e eu fui até a porta.... (Raquel)
Em muitos casos, pouca ou nenhuma informação foi oferecida à mulher visando minimizar estes sentimentos. “Não, não, não... não me disseram nada não... como ia ser... Eu que já imaginava...” (Izabel).

Caron & Silva (2002) confirmam a necessidade da interação com orientações quanto aos acontecimentos, pois no seu estudo observaram que as mulheres buscavam estabelecer contato durante o trabalho de parto. “No entanto, sua busca de interação é frustrada quando recebe respostas de forma incompleta, autoritária, plena de dupla mensagem, impessoal e distante, sem satisfazerem as suas necessidades” (pp. 489-90). Igualmente, a pesquisa de Domingues, Santos & Leal (2004) mostram que a “informação recebida durante a internação sobre diversos aspectos relacionados à assistência ao trabalho de parto e ao parto foi variável e, de modo geral, insuficiente” (p. S56). Isto confirma as dificuldades na comunicação e no apoio durante o trabalho de parto, podendo contribuir com o sofrimento na vivência deste momento.

Lembra-se, mais uma vez, que o trabalho de parto pode ser estressante e fonte de ansiedade, não apenas pela dinâmica fisiológica, mas também por questões culturais. Além da dor presente, é um evento cercado por mitos e tabus, construídos nos imaginários, a partir de uma vivência cultural contextualizada. Culturalmente, as mulheres trazem consigo além do medo da morte durante o parto, a construção social de ser esta uma experiência sofrida, durante a qual elas devem atuar com passividade e obediência” (Almeida, 2005, p. 35).

Realçando as dificuldades descritas, muitas vezes, a dinâmica institucional dificulta ações que favoreçam o acolhimento e o encontro com o outro. Em muitos serviços do Nordeste, por uma conjuntura econômica e funcional, há insuficiência e/ou pouca qualificação dos recursos humanos, definindo um campo de intervenção restrito, quase exclusivamente com ações de cunho técnico.

Nos depoimentos, observou-se a manutenção nesta maternidade de práticas hoje consideradas inadequadas (Brasil, 2001). Assim, perdura o decúbito lateral esquerdo como única posição neste momento, e a ausência de qualquer alimento e/ou líquido nas situações em que o trabalho de parto evolui bem. Isto, por sua vez, tende a refletir um desconhecimento quanto aos avanços nas práticas destinadas ao parto e ao nascimento

Do mesmo modo, persiste a ausência de acompanhante no serviço, apesar de resolução instituída na Lei número 11.108 de 02 de dezembro de 2005. Esta disposição fundamenta-se em estudos baseados em evidências científicas comprovando que o acompanhante escolhido pela parturiente promove segurança e tranqüilidade neste momento (Almeida, 2005; Reis & Patrício, 2005). Esta lei, que deu um prazo de seis meses aos hospitais/maternidades conveniados a rede SUS para se organizarem e adequarem seu espaço para receber a mulher em trabalho de parto com o seu acompanhante, continua sem ser concretizada. Por não terem sido implantadas as mudanças impetradas na lei, torna-se evidente a falta de acompanhamento das resoluções instituídas por parte dos órgãos gestores. Assim, reflete-se o relativo pouco interesse no desencadeamento das mudanças propostas a partir das evidências científicas e que trariam benefícios de ordem pessoal e social durante o processo de parturição.

De modo geral, as mulheres relataram, sem clareza na indicação, o uso de medicação e manobras para acelerar o trabalho de parto. O uso do “soro” (com ocitocina), que foi relatado, pode causar maior desconforto e risco (OMS, 1996) e aumentar o medo do parto normal. “Bastou colocar o soro, as dores aumentaram muito, muito, muito...” (Judite).

As práticas em favor da humanização, propostas pelo PHPN, resgatam a possibilidade de empoderamento das mulheres, mudança nas ações desempenhadas e na organização dos serviços de saúde, em favor da naturalidade, com intervenções pontuais, utilizadas quando se comprovarem necessárias (Tornquist, 2002; Tornquist, 2003; Almeida, 2005). Mesmo com as contra-indicações existentes, as ações aceleradoras do processo prevalecem e reafirmam as práticas medicalizadoras e intervencionistas e o desrespeito à fisiologia da parturinte.

Há que se considerar ainda a existência de um processo de formação profissional que tende a priorizar as tecnologias duras, como equipamentos e instrumentais (Merhy, 2005), em detrimento do encontro intersubjetivo e do reconhecimento das necessidades do outro (Hotimsky & Schraiber, 2005). Isto acaba por estimular as intervenções e o controle, como o caminho para a assistência e para a redução na morbimortalidade materno-infantil. Geralmente chegam às novas propostas oficiais, mas não existem pessoas, nem serviços, verdadeiramente habilitados para essas mudanças. Tende-se, assim, a desconsiderar a realidade contextualizada dos serviços, dos trabalhadores e dos usuários, tornando-se pouco viável a implantação das novas propostas da forma gestada. Falta ainda no interior das instituições de saúde mais espaços de reflexão sobre os novos saberes e fazeres, para a produção de novos atores, em consonância com as necessidades sociais e econômicas da população.

Acerca do parto

O parto em si, ainda segue as regras e rotinas da prática medicalizadora.


O médico subiu em cima de mim, me apertando e mandava eu botar força e disse que se eu não ajudasse mais, poderia morrer eu e o menino. Eu cheguei a desmaiar. Me cortou duas vezes, aí o menino saiu.... (Sara)

Apertaram tanto minha barriga que ela ficou roxa. (Séfora)
As mulheres que sofreram episiotomia relatavam: “o corte incomodava e eu passei muitos dias sem poder sentar...” (Raquel). Esta prática, a partir dos discursos, parece se configurar como rotina. Contudo, “não existem evidências confiáveis que o uso liberal ou rotineiro da episiotomia tenha um efeito benéfico, mas há evidências claras de que pode causar dano” (OMS, 1996, p. 30).

Os procedimentos utilizados seguem uma perspectiva tradicional de assistência ao nascimento. Entretanto, podem não contribuir em quase nada e, ao contrário, promover o aumento na tensão e dificultar a descida do feto (OMS, 1996). Essas práticas caracterizam-se como “dor iatrogênica”, potencializando os desconfortos e devendo ser evitadas, pela ausência de evidências científicas que justifiquem o uso rotineiro (Diniz & Duarte, 2004).

Contudo há de se refletir acerca da dinâmica existente neste serviço, no qual parece não haver espaço para questionamentos, expressões das necessidades e, menos ainda, para a manutenção de um diálogo esclarecedor. Ao contrário, há imposição de práticas, sendo as mulheres submetidas às diversas intervenções, tendo que aceitar passivamente os procedimentos, como no caso de Sara. A não colaboração da forma imposta implica um risco e a responsabilização para a usuária por todo o mal que acaso venha acontecer. Há uma desconsideração sumária dos sentimentos da mulher neste momento doloroso, e ainda a imposição de um tipo de saber, como afirmado anteriormente.

Para dez das participantes, a dor do parto normal foi classificada como “quase insuportável”, embora ao seu término tornava-se inexistente. Esta é influenciada por fatores funcionais, psicológicos e emocionais, compondo-se, assim, uma tríade. Quando estamos com medo, ficamos tensos e nossa tensão faz a dor aumentar (Wagner, 2002). Assim, a presença de um ambiente agradável, com pessoas queridas e trabalhadores que forneçam um cuidado qualificado e acolhedor, tenderia a amenizar a dor, tornando a vivência do parto menos traumática e até prazerosa.


Considerações gerais relacionadas à assistência ao parto
Questionadas, ainda, quanto à qualidade da assistência recebida durante o tempo em que estiveram na maternidade, oito das entrevistadas apontaram-na como deficiente, relatando que:
(...) eu não fui bem atendida. Elas são um pouco ignorantes, um pouco bestas, porque eu era nova e vinham com ignorância (Agar)

Tem parteira que parece estar rasgando a gente. (Madalena);

Eu fiquei lá sozinha, com medo de ter o menino lá mesmo, em cima da cama e elas dormindo. (Sara)
Percebe-se a insatisfação com o atendimento, especialmente, decorrente da falta de acolhimento e consideração pelo que estavam sentindo. Almeida (2005) afirma que “as preocupações e os medos não se restringem à dor do parto... mas ao imprevisível; ao desconhecido, à forma como vão ser tratadas pelos profissionais de saúde, o que lhes causa desconforto, insegurança e ansiedade” (p. 35).

Contudo, há que se levar em conta a carga ideológica e cultural que se encontra sobreposta às ações dos trabalhadores da saúde. Tanto o trabalhador, quanto às usuárias, em geral, são frutos desta sociedade medicalizada e de um processo de formação em saúde que prioriza apenas a tecnologia e os avanços da medicina moderna, esquecendo-se das pessoas e dos processos de intersubjetivação envolvidos.

Assim, a intenção não é culpabilizar ninguém, mas sim refletir acerca da complexa dinâmica de interações no cotidiano dos serviços. Deve-se repensar também o processo de produção de políticas e programas destinados ao cuidado da população, em especial na atenção ao parto e ao nascimento e, ainda, há de se contextualizar toda a produção e reprodução social decorrente da política econômica hegemônica e das profundas desigualdades sociais existentes. Pensar estratégias desta ordem provavelmente apontarão para a produção de um saber e um fazer mais condizente com as necessidades cotidianas nos serviços públicos de saúde.
Considerações Finais
Refletir sobre a dinâmica de humanização, de forma geral, faz-se necessário por não existir consenso acerca das práticas capazes de promover mudanças no contexto da atenção à saúde da população. Acrescenta-se que a discussão acerca da humanização se faz mais imprescindível ainda, quando se reporta às práticas relacionadas ao parto e ao nascimento e, em particular, às relações humanas estabelecidas nos serviços de saúde.

De todo modo, e obedecendo a lógica da mudança, o Brasil avança na perspectiva de implantar uma política de atenção ao parto e ao nascimento que perca o viés medicalizador e intervencionista e que busque resgatar o protagonismo da mulher neste momento. Contudo, pode-se inferir que a humanização das práticas em saúde, seguindo o ideário proposto pelo PHPN (Brasil, 2002) e referendado no Manual (Brasil, 2001), ainda se encontram muito incipientes na maternidade foco desta investigação. Assim, “o simples fato de criar programas e estratégias destinadas à humanização da assistência não é suficiente para a transformação do modo de assistir. Torna-se imperativo que haja uma mudança de atitude por parte dos profissionais e das instituições” (Meleiro & Tronchin, 1999, p. 52).

Considera-se que mudança de atitudes não é tarefa fácil e que a dinâmica da humanização precisa de espaços de reflexão, pois é uma questão complexa e que extrapola os limites do fazer em saúde. Cientes dessa complexidade, acredita-se com Tornquist (2006) que
não haverá mudança efetiva sem embates, não haverá assistência humanizada sem enfrentamento das relações de poder que, historicamente, fizeram do parto um evento médico e, da mulher, um mero objeto da reprodução humana, ao invés de sujeito de direito e senhora de seu destino. (p. 258)
A humanização, enquanto política transformadora de práticas e capaz de promover mudanças nos paradigmas, deve acontecer a partir dessa dinâmica de reflexividade e contextualização das necessidades de saúde, em seu sentido mais amplo, tanto dos serviços, com sua infra-estrutura, quanto dos trabalhadores e das usuárias.

Desse modo, a reconstrução da gestação e do nascimento como evento fisiológico e natural não seria uma ação pontual a ser pensada apenas pelos gestores/trabalhadores no campo da saúde. Deveria incluir uma proposta de reflexão e desconstrução do paradigma biomédico dominante na atenção à saúde da mulher, bem como a consideração das iniqüidades sociais que se refletem de forma negativa nas condições de vida e, especialmente, na atenção à saúde das pessoas na base da pirâmide social. Este processo teria assim um sentido mais abrangente, dentro de uma concepção ampliada de saúde.


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Categoria de contribuição: Relato de Pesquisa

Recebido: 28/08/07



Aceito: 12/01/08

1 Professora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Faculdade de Enfermagem (FAEn) e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da UFRN/UFPB, Natal, Brasil.

2 Enfermeira, Programa Saúde da Família da Secretaria Municipal de Saúde, Mossoró, Brasil.

3 Professora-Doutora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Dep..Psicologia, Doutorado em Psicologia Social, UFRN/UFPB, Natal, Brasil. Contato: Ind. João Motta 1637, Apt. 1003 - Capim Macio, 59082-410, Natal (RN). (84) 99020569/36421569. E-mail: traverso@ufrnet.br.



Pesquisas e Práticas Psicossociais 2(2), São João del-Rei, Fev. 2008




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