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Para Annalena


"Cara senhorita Morland, pense o quanto são horrorosas as suspeitas que tem nutrido. Em que se fundamentam tais julgamentos? Pense em que país e em que era vivemos. Lembre que somos ingleses, que somos cristãos. Consulte seu próprio entendimento, seu senso do que é provável, sua observação do que se passa à sua volta. Como nossa formação poderia nos preparar para tais atrocidades? Como nossas leis seriam coniventes com elas? De que modo coisas assim poderiam ser perpetradas sem que ninguém delas soubesse num país como este, em que as relações sociais e literárias são como são, em que cada homem está cercado por toda uma vizinhança de espiões voluntários, e as estradas e os jornais deixam tudo às claras? Querida senhorita Morland, que idéias a senhorita tem se permitido conceber?"

Haviam chegado ao final da galeria, e com lágrimas de vergonha ela foi embora correndo para seu quarto.


Jane Austen, Northanger Abbey

1.

A peça — para a qual Briony havia desenhado os cartazes, os programas e os ingressos, construído a bilheteria, a partir de um biombo dobrável deitado de lado, e forrado com papel crepom vermelho a caixa para guardar dinheiro — fora escrita por ela num furor criativo que durara dois dias e que a levara a perder um café da manhã e um almoço. Terminados todos os preparativos, só lhe restava contemplar o texto pronto e aguardar a vinda dos primos do Norte longínquo. Só haveria tempo para um dia de ensaios antes de seu irmão chegar. A peça, emocionante em alguns trechos, de uma tristeza desesperada em outros, era uma história do coração, cuja mensagem, expressa num prólogo rimado, era a de que todo amor que não fosse fundado no bom senso estava fadado ao fracasso. A paixão imprudente da heroína, Arabella, por um malvado conde estrangeiro é punida pelo infortúnio quando ela contrai cólera numa viagem impetuosa com seu amado a uma cidade costeira. Abandonada por ele e por praticamente todo mundo, acamada numa água-furtada, Arabella descobre que tem senso de humor. A fortuna lhe apresenta uma segunda oportunidade na pessoa de um médico sem dinheiro — o qual, na verdade, é um príncipe disfarçado, que optou por trabalhar para os pobres. Curada por ele, Arabella dessa vez faz uma escolha sensata e é recompensada pela reconciliação com a família e pelo casamento com o príncipe-médico "num dia primaveril de vento e sol".



A Sra. Tallis leu as sete páginas de Arabella em apuros em seu quarto, sentada à penteadeira, com o braço da autora em seu ombro o tempo todo. Briony observava com atenção o rosto da mãe para detectar qualquer sinal de emoção, e Emily Tallis não a decepcionou, reagindo com expressões de espanto, risos maliciosos e, no final, sorrisos de gratidão e acenos de sábia aprovação. Abraçou a filha, colocou-a no colo — ah, ela se lembrava daquele corpinho infantil, quente e macio, e que por ora não a havia deixado, não de todo ainda —, disse que a peça era "estupenda" e permitiu imediatamente, cochichando no pequeno remoinho da orelha da menina, que seu comentário fosse citado no cartaz a ser posto sobre um cavalete no hall de entrada, junto à bilheteria.

Briony não sabia no momento, mas seria esse o auge da gratificação que lhe haveria de proporcionar o projeto. Nada chegaria perto disso em matéria de contentamento; todo o resto seriam sonhos e frustrações. Havia momentos no crepúsculo de verão, depois que se apagava a luz, em que ela, entocada na escuridão deliciosa de sua cama de baldaquino, fazia seu próprio coração disparar com fantasias luminosas e ávidas, cada uma delas uma pequena peça completa, todas contracenadas por Leon. Numa, o rosto largo e simpático dele derretia-se de sofrimento enquanto Arabella mergulhava na solidão e no desespero. Em outra, ele aparecia com uma taça na mão em algum bar da moda na cidade, vangloriando-se num grupo de amigos: E, minha irmã mais moça, Briony Tallis, a escritora, vocês certamente já ouviram falar nela. Na terceira, ela o via socando o ar em êxtase quando descia a cortina ao final, embora não houvesse cortina, não houvesse sequer a possibilidade de cortina. A peça não era para os primos, era para o irmão, para comemorar sua volta, despertar sua admiração e afastá-lo daquela sucessão descuidada de namoradas, orientá-lo em direção a uma esposa adequada, aquela que o convenceria a voltar para o interior, que requisitaria, com doçura, a participação de Briony como dama de honra.

Briony era uma dessas crianças possuídas pelo desejo de que o mundo seja exatamente como elas querem. Enquanto o quarto da irmã mais velha era um caos de livros abertos, roupas jogadas, cama desfeita e cinzeiros sujos, o de Briony era um santuário erigido a seu demônio controlador: a fazenda em miniatura, espalhada no largo parapeito da janela, continha os animais tradicionais, porém todos virados para o mesmo lado — para a dona —, como se estivessem prestes a começar a cantar, e até mesmo as galinhas estavam muito bem dispostas em seu galinheiro. Na verdade, o quarto de Briony era o único cômodo arrumado do andar de cima. Suas bonecas, de costas bem eretas, dentro de sua mansão de muitos quartos, pareciam obedecer à injunção de jamais se encostar-se às paredes; os diversos bonequinhos que habitavam sua penteadeira — caubóis, mergulhadores de escafandro, ratos humanizados —, de forma tão ordenados, mais pareciam um exército de cidadãos aguardando ordens.

O gosto pelas miniaturas era um dos aspectos de seu espírito organizado. Já outro era a paixão pelos segredos: numa escrivaninha envernizada, objeto de sua predileção, havia uma gaveta secreta que se abria apertando-se numa junta em cauda-de-andorinha contra o sentido dos veios da madeira, e ali Briony guardava um diário trancado com cadeado e também um caderno no qual escrevia num código que ela própria inventara. Num cofre de brinquedo, com segredo de seis números, arquivava cartas e cartões-postais. Uma velha lata de guardar trocados ficava escondida sob uma tábua corrida removível, debaixo de sua cama. Dentro dessa lata havia tesouros por ela acumulados desde o dia em que fizera nove anos, quatro anos antes, quando dera início à coleção: uma bolota dupla, mutante; um pedaço de ouro-besouro; uma fórmula mágica para fazer chover, comprada num parque de diversões; um crânio de esquilo, leve como uma folha.

Porém não havia gaveta oculta, diário com cadeado nem sistema de criptografia que pudesse esconder de Briony a verdade pura e simples: ela não tinha segredos. Seu desejo de viver num mundo harmonioso, organizado, negava-lhe as possibilidades perigosas do mal. A violência e a destruição eram caóticas demais para seu gosto, e além disso lhe faltava crueldade. Vivendo, na prática, como filha única, e numa casa relativamente isolada, permanecia, ao menos durante as longas férias de verão, afastada das intrigas com as amigas. Não havia nada em sua vida que fosse interessante ou vergonhoso que chegasse para merecer ser escondido; ninguém sabia do crânio de esquilo debaixo de sua cama, mas também ninguém queria saber. Nada disso era particularmente aflitivo; ou melhor, só passou a ser visto assim em retrospecto, depois que uma solução foi encontrada.

Aos onze anos de idade Briony escreveu sua primeira história — uma bobagem, imitação de meia dúzia de narrativas folclóricas; faltava-lhe, ela percebeu depois, aquele vital conhecimento do mundo que faz jus à admiração do leitor. Mas aquela primeira tentativa desajeitada lhe mostrou que a própria imaginação era uma fonte de segredos: quando ela começava a escrever uma história, ninguém podia saber. Fingir com palavras era uma coisa tão hesitante, tão vulnerável, tão constrangedora, que ninguém podia ficar sabendo. Só de escrever - disse ela ou então, Briony envergonhava-se, sentia-se ridícula, por fingir conhecer as emoções de um ser imaginário. Cada vez que falava sobre a fraqueza de um personagem, inevitavelmente se expunha; era fatal que o leitor imaginasse estar ela descrevendo-se a si própria. De que outra maneira poderia ter descoberto aquilo? Era só quando a história ficava pronta, todos os destinos resolvidos, toda a questão encerrada do início ao fim, tornando-se, pelo menos sob esse aspecto, semelhante a todas as outras histórias concluídas no mundo, que Briony se sentia imune, pronta para fazer furos nas margens, encadernar os capítulos com barbante, pintar ou desenhar a capa e levar a obra pronta para a mãe, ou o pai, quando ele estava em casa.

Suas tentativas eram incentivadas. Aliás, eram muito bem recebidas, pois os Tallis começavam a se dar conta de que a caçula da família tinha uma inteligência incomum e certa facilidade com as palavras. As longas tardes gastas folheando dicionários resultavam em construções absurdas, porém de certo modo fascinantes: as moedas que o vilão levava no bolso eram "esotéricas"; um marginal preso em flagrante roubando um carro chorava com "desavergonhada auto-escusa"; a heroína, montada em seu garanhão puro-sangue, cavalgava "célebre" pela noite; a testa franzida do rei era um "hieróglifo" de reprovação. Pediam-lhe que lesse suas histórias em voz alta na biblioteca, e os pais e a irmã mais velha ficavam surpresos ao ver aquela menina tão quietinha representar com tamanha desenvoltura, esboçando gestos largos com o braço livre, arqueando as sobrancelhas quando fazia as vozes dos personagens, levantando a vista por alguns segundos durante a leitura para examinar os rostos dos ouvintes, cobrando sem nenhum pudor a atenção total da família enquanto exercia a magia da narrativa.

Mesmo sem a atenção, os elogios e o prazer evidente de seus familiares, teria sido impossível para Briony não escrever. Aliás, estava começando a perceber, como tantos escritores antes dela, que nem todo elogio ajuda. O entusiasmo de Cecília, por exemplo, parecia um pouco exagerado, talvez marcado por condescendência, e também intrometido; sua irmã mais velha queria que cada história encadernada fosse catalogada e colocada nas estantes de livros, entre Rabindranath Tagore e Tertuliano. Se a intenção era fazer graça, Briony fingia não perceber. Agora já havia deslanchado, e também encontrava satisfação em outros níveis; escrever histórias não apenas envolvia o segredo como também lhe proporcionava todos os prazeres da miniaturização. Era possível criar todo um mundo em cinco páginas, um mundo que dava mais prazer que uma fazenda em miniatura. A infância de um príncipe mimado era apresentada em meia página; um galope ao luar, passando por várias aldeias adormecidas, era uma só frase marcada por ênfases rítmicas; o ato de apaixonar-se cabia numa única palavra — um olhar. As páginas de uma história recém-terminada pareciam vibrar em sua mão, de tanta vida que continham. Também conseguia desse modo satisfazer sua paixão pela organização, pois o mundo caótico ficava exatamente como ela queria. Uma crise na vida da heroína podia coincidir com uma chuva de granizo, vendavais e trovões; já os casamentos eram normalmente abençoados por sol e brisas suaves. O amor à ordem também estava por trás dos princípios de justiça: a morte e o casamento eram seus principais instrumentos de implementação, aquela reservada exclusivamente aos que eram moralmente questionáveis, este um prêmio que só era conferido na última página.

A peça escrita para comemorar a volta de Leon era sua primeira incursão no teatro, e a transição lhe parecera bastante simples. Era um alívio não ter de estar escrevendo disse ela, nem descrevendo o tempo, a chegada da primavera, o rosto da heroína — a beleza, Briony constatara, ocupava uma faixa estreita. A feiúra, por outro lado, continha infinitas variações. Um universo reduzido ao que nele era dito era o máximo em matéria de ordem, quase a ponto de anular-se; para compensar, cada fala era proferida no auge de algum estado afetivo, cuja presença era necessariamente assinalada pelo ponto de exclamação. Arabella em apuros era certamente um melodrama, mas a autora ainda não conhecia o termo. O objetivo era inspirar não o riso, mas terror, alívio e edificação, nessa ordem, e a intensidade inocente com que Briony se entregou ao projeto — os cartazes, os ingressos, a bilheteria — tornava-a particularmente vulnerável ao fracasso. Ela poderia simplesmente receber Leon com mais uma de suas histórias, mas a notícia de que os primos do Norte vinham ficar com eles lhe havia instigado a explorar uma forma nova.

Briony deveria ter dado mais importância ao fato de que Lola, então com quinze anos, e Jackson e Pierrot, os gêmeos, de nove anos, eram refugiados de uma verdadeira guerra civil familiar. Ela já ouvira a mãe criticar o comportamento impulsivo de sua irmã mais moça, Hermione, lamentar a situação das três crianças e fazer acusações a seu cunhado Cecil, homem fraco e evasivo, que havia fugido da situação para o refúgio do Ali Soul's College, em Oxford. Briony ouvira a mãe e a irmã analisar as mais recentes peripécias e barbaridades, acusações e contra-acusações, e sabia que a visita de seus primos não tinha prazo para terminar, podendo até se estender após a volta às aulas. Ouvira dizer que na casa cabiam facilmente mais três crianças, e que os Quincey podiam ficar o tempo que quisessem, desde que os pais, se alguma vez viessem ao mesmo tempo ver as crianças, não brigassem naquela casa. Dois quartos perto do de Briony haviam sido espanados, instalaram-se cortinas novas e móveis foram transferidos de outros cômodos. Em circunstâncias normais Briony teria participado desses preparativos, mas eles coincidiram com seus dois dias de surto criativo e também com o início da construção do teatro. Briony tinha uma vaga idéia de que o divórcio era um problema sério, mas não o considerava um assunto apropriado e, portanto, não pensou mais naquilo. Era um desenredo mundano que não podia ser desfeito, e desse modo não oferecia oportunidades para o contador de histórias: fazia parte da esfera da desordem. Já o casamento, sim, esse interessava, uma cerimônia formal e organizada em que se recompensava a virtude, com pompas e banquetes emocionantes, e a promessa fascinante de união para toda a vida. Um bom casamento era uma representação disfarçada de algo ainda impensável — o êxtase sexual. Em igrejas rurais e magníficas catedrais na cidade grande, com a aprovação de toda uma sociedade de parentes e amigos, as heroínas e os heróis de Briony chegavam a um clímax inocente e não precisavam ir adiante.

Se o divórcio se manifestasse como a antítese vil de tudo isso, poderia facilmente entrar no outro prato da balança, juntamente com a traição, a doença, o roubo, a agressão e a mentira. Porém era apenas um processo de uma complexidade tediosa, cheio de disputas intermináveis, sem nenhum glamour. Tal como o rearmamento, a questão abissínia e a jardinagem, o divórcio simplesmente não servia como tema, e quando, após uma longa espera numa manhã de sábado, Briony por fim ouviu o som de rodas no cascalho à sua janela, pegou as páginas de seu texto e desceu correndo a escada, atravessou o hall e saiu à luz deslumbrante do meio-dia, foi menos por insensibilidade do que por ambição artística concentrada que gritou para os jovens recém-chegados, perplexos, parados ao lado de sua bagagem: "Já preparei os papéis de vocês todos, tudo pronto. A estréia é amanhã! Os ensaios começam daqui a cinco minutos!".

Imediatamente, a mãe e a irmã propuseram outro horário menos rígido. Os visitantes — todos os três ruivos e sardentos — foram conduzidos a seus quartos, suas malas foram levadas para cima por Danny, o filho de Hardman; depois beberam refresco na cozinha, conheceram toda a casa, tomaram um banho de piscina e almoçaram no jardim do lado sul, à sombra das trepadeiras. O tempo todo Emily e Cecilia Tallis falavam incessantemente, por certo impedindo que os recém-chegados se sentissem à vontade, como era a intenção delas. Briony sabia que, se tivesse viajado trezentos quilômetros, estivesse chegando a uma casa desconhecida e fosse submetida a um sem-fim de perguntas animadas e comentários espirituosos, e lhe dissessem de cem maneiras diferentes que ela estava livre para fazer o que quisesse, certamente se sentiria oprimida. As pessoas não percebiam que o que as crianças mais queriam era serem deixadas em paz. Porém os Quincey se esforçavam ao máximo para dar a impressão de que estavam se sentindo alegres e à vontade, o que era bom para Arabella em apuros: aqueles três claramente levavam jeito para ser o que não eram, muito embora não tivessem a menor semelhança com os personagens que deveriam representar. Antes do almoço, Briony deu uma escapulida e foi até o quarto vazio onde teriam lugar os ensaios — o antigo quarto das crianças — e ficou andando de um lado para outro sobre as tábuas pintadas no chão, pensando quem faria qual papel.

Sem dúvida, Arabella, cujo cabelo era tão negro quanto o de Briony, não teria pais sardentos, nem haveria de fugir com um conde estrangeiro sardento, nem alugar uma água-furtada de um taberneiro sardento, nem se apaixonar por um príncipe sardento e ser casada por um vigário sardento diante de uma congregação sardenta. Mas tudo teria de ser assim. A cor de seus primos era viva demais — praticamente fluorescente! — para que fosse possível disfarçá-la. O melhor que se podia dizer era que a ausência de sardas do rosto de Arabella era o sinal — e era o hieróglifo, como Briony poderia ter escrito — de sua distinção. Sua pureza de espírito jamais estaria em dúvida, embora ela vivesse num mundo maculado. Os gêmeos levantavam um outro problema, pois só as pessoas que os conheciam sabiam distinguir um do outro. Como poderia o conde mau ser tão parecido com o belo príncipe, ou os dois serem parecidos com o pai de Arabella e também com o vigário? E se Lola interpretasse o príncipe? Jackson e Pierrot pareciam ser meninos bem típicos, que provavelmente fariam tudo o que lhes fosse pedido. Mas será que a irmã deles aceitaria fazer papel de homem? Tinha olhos verdes e rosto ossudo, as faces cavadas, e havia algo de frágil em sua reserva que parecia indicar uma vontade firme e um gênio difícil. Talvez a simples idéia de Lola assumir aquele papel gerasse uma crise, e estaria Briony realmente disposta a ficar de mãos dadas com ela diante do altar, enquanto Jackson recitava passagens do Livro de oração comum?

Foi só às cinco da tarde que Briony conseguiu reunir seu elenco no quarto das crianças. Havia disposto três bancos numa fileira e acomodou seu próprio traseiro numa velha cadeirinha alta de criança — um toque boêmio que lhe conferia a vantagem da altura, como se fosse o árbitro numa partida de tênis. Os gêmeos vieram com relutância da piscina, onde haviam permanecido três horas sem interrupção. Estavam descalços, de camiseta e calção, e por onde passavam deixavam uma trilha de água no soalho. Dos cabelos emaranhados a água escorria-lhes pescoço abaixo; os dois tiritavam e esfregavam um joelho no outro para se esquentar. Com a longa imersão na água, sua pele ficara engelhada e esbranquiçada; assim, à luz relativamente pobre do quarto das crianças, suas sardas pareciam negras. A irmã, por outro lado, sentada entre eles, perna esquerda apoiada no joelho direito, estava perfeitamente à vontade, tendo se perfumado abundantemente e colocado um vestido de guingão verde para disfarçar o alvor da tez. As sandálias deixavam à vista uma tornozeleira e unhas pintadas de vermelho. Ao ver aquelas unhas, Briony sentiu uma constrição no peito e percebeu na mesma hora que não podia pedir a Lola que fizesse o papel do príncipe.

Estavam todos sentados, e a dramaturga estava prestes a dar início a seu pequeno discurso, em que resumiria o enredo e evocaria a emoção de apresentar-se para uma platéia de adultos no dia seguinte, à noite, na biblioteca. Mas foi Pierrot quem falou primeiro.

"Eu detesto teatrinho, essas coisas todas."

"Eu também, e botar fantasia", disse Jackson.

Na hora do almoço, fora explicado que era possível distinguir os gêmeos graças ao fato de que faltava um pequeno triângulo de carne no lóbulo esquerdo da orelha de Pierrot, por causa de um cachorro que ele havia atormentado quando tinha três anos de idade.

Lola desviou a vista. Argumentou Briony, razoável: "Como é que você pode detestar teatro?".

"É coisa de quem gosta de se mostrar." Pierrot deu de ombros ao enunciar essa verdade evidente.

Briony reconheceu que ele tinha certa razão. Era justamente por isso que ela adorava peças, ou pelo menos a peça dela; todo mundo ia adorá-la. Olhando para os meninos, vendo a água formar poças embaixo de seus assentos antes de escapulir por entre as tábuas do assoalho, deu-se conta de que eles jamais compreenderiam a sua ambição. A misericórdia suavizou seu tom de voz.

"E o Shakespeare, ele estava só querendo se mostrar?"

Pierrot olhou para Jackson, do outro lado de sua irmã. Aquele nome feroz, que evocava a escola e as certezas adultas, lhe era vagamente familiar, mas a presença de um dos gêmeos dava coragem ao outro.

"Estava, sim. Todo mundo sabe." É mesmo.

Quando Lola falou, dirigiu-se primeiro a Pierrot e, no meio da frase, virou-se para o outro lado, concluindo sua fala com Jackson. Na família de Briony, a Sra. Tallis jamais tinha algo a dizer que precisasse ser dito simultaneamente a ambas as filhas. Agora Briony sabia como era.

"Vocês vão trabalhar na peça, senão vão levar um cascudo e depois vou contar para Os Pais."

"Se você der cascudo na gente, nós é que vamos contar para Os Pais."

"Vocês vão trabalhar na peça, senão eu vou contar prós pais."

Embora tivesse sido discretamente atenuada, nem por isso a ameaça perdera sua força, ao que parecia. Pierrot mordeu o lábio inferior.

"Por que é que a gente tem que trabalhar?" Havia naquela pergunta uma concessão infinita, e Lola tentou despentear-lhe o cabelo grudento.

"Lembra o que Os Pais disseram? Nesta casa nós somos convidados, e aqui a gente tem que ser... o que é mesmo que a gente tem que ser? Vamos lá. O que é que a gente tem que ser?"

"Flexível", responderam os gêmeos num coral desanimado, tropeçando na palavra difícil.

Lola virou-se para Briony e sorriu. "Por favor, conte para nós como é a sua peça."

Os Pais. A força institucional contida nesse plural estava prestes a rachar ao meio, o que talvez até já tivesse acontecido, mas por ora o fato não podia ser admitido, e mesmo os mais jovens tinham de ser corajosos. Briony de repente teve vergonha do egoísmo daquela sua iniciativa, pois jamais lhe ocorrera a possibilidade de que seus primos não quisessem desempenhar seus papéis em Arabella em apuros. Mas também eles estavam em apuros; acontecera uma catástrofe em suas vidas, e agora, como convidados na casa de Briony, julgavam lhe dever um favor. Pior ainda, Lola deixara claro que também ela estava agindo por obrigação. Os Quincey, vulneráveis, estavam sob coação. E no entanto — Briony esforçava-se para apreender a idéia complexa — não estaria havendo uma manipulação, não estaria Lola usando os gêmeos para transmitir alguma coisa a ela, algo hostil ou destrutivo? Sentia a desvantagem de ser dois anos mais moça que a outra menina, dois anos a menos de refinamento a pesar contra ela, e agora sua peça parecia uma infelicidade, um constrangimento.

Evitando o olhar de Lola o tempo todo, pôs-se a resumir o enredo, embora a consciência de que a peça era uma idiotice já começasse a avassalá-la. Não tinha mais ânimo de tentar convencer os primos de que a estréia seria emocionante.

Assim que terminou, Pierrot disse: "Quero ser o conde. Quero ser uma pessoa má".

Jackson disse apenas: "Eu sou um príncipe. Eu sou sempre um príncipe".

Briony teve vontade de abraçá-los e beijar seus rostinhos, porém arrematou: "Então está combinado".

Lola descruzou as pernas, alisou o vestido e se levantou, como se estivesse indo embora. Com um suspiro de tristeza ou resignação, disse: "Imagino que você, porque escreveu a peça, vai ser a Arabella...".

“Não, não”, disse Briony. "De jeito nenhum."

Embora dissesse não, queria dizer sim. Claro que ia fazer o papel de Arabella. O que estava negando era o "porquê" de Lola. Ela não ia ser Arabella porque havia escrito a peça, e sim porque nenhuma outra possibilidade jamais lhe passara pela cabeça, porque era assim que Leon tinha de vê-la, porque ela era Arabella.



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