Resenha: cultura e sociedade



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RESENHA: CULTURA E SOCIEDADE

Maria Luiza Gomes Vasconcelos*

MARCUSE, Herbert. Cultura e sociedade. Tradução: MAAR, Wolfgang; LOUREIRO, Isabel Maria; OLIVEIRA, Robespierre. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. v. 2. 175 p.

Herbert Marcuse (Berlim, 1898 - Starnberg, 1979) Filósofo e sociólogo alemão de origem judaica, naturalizado norte-americano durante o período nazista, Herbert Marcuse foi, juntamente com Theodor Adorno e Max Horkheimer, um dos fundadores da chamada "Escola de Frankfurt", um centro de marxismo independente. Muito do seu trabalho assentou em duas teses centrais: a analogia entre a libertação das massas (alienadas pelo capitalismo) e a libertação erótica do inconsciente (reprimido pelo consciente). Durante a década de 1920, o interesse pela sociologia, e foi influenciado por Max Weber, embora o marxismo crítico de orientar, por fim, que brilha através da grande influência da história e da consciência classe Lukcs. O nome de Herbert Marcuse ficou também ligado aos movimentos estudantis de Maio de 1968.

A obra Cultura e Sociedade de Herbert Marcuse (1988), volume 02, composta de seis ensaios escritos entre 1938 e 1964 intitulados, respectivamente: Sobre os fundamentos filosóficos do conceito de trabalho da ciência econômica; O existencialismo; A obsolescência da psicanálise; Industrialização e capitalismo na obra de Max Weber; Ética e revolução; e por fim Comentários para uma redefinição de cultura. Possui um total de 175 (cento e setenta e cinco) páginas, publicado pela Editora Paz e Terra da cidade do Rio de Janeiro, 2ª reimpressão. O filósofo articula sua crítica aos impasses da sociedade industrial sem perder de vista a dimensão de um horizonte utópico. O autor constrói um edifício conceitual forjado no diálogo com a história da filosofia, com a economia política e com a psicanálise.

O primeiro ensaio, Sobre os fundamentos filosóficos do conceito de trabalho da ciência econômica, versa acerca de os conceitos filosóficos de trabalho, o autor inicia relatando a dificuldade em conceituar esta palavra, uma vez que vigora a teoria econômica, ou seja, entende se por trabalho apenas uma atividade com fins lucrativos. Vale ressaltar que esta apreensão do trabalho influenciou de maneira decisiva na própria essência de trabalho. Conforme Marcuse o trabalho tem uma conceituação ontológica, isto é, “um conceito que apreende o ser da própria existência humana como tal”.

Por mais diversas que sejam as definições de trabalho, as mesmas coincidem em expressá-lo como atividade humana determinada, contendo sempre finalidade, objeto e resultado. O trabalho na verdade pode ser uma atividade considerada prática específica da natureza humana no mundo, podendo proporcionar ao homem um encontro com si mesmo. O fazer do trabalho se caracteriza por sua continuidade essencial, por sua permanência e por seu caráter penoso, e a prioridade no trabalho é sempre a própria ‘coisa’ e não o trabalhador.

O segundo ensaio, intitulado de O existencialismo: comentário entre o Ser e o Nada aborda o sentimento do absurdo que predomina em nosso mundo, expressando assim o clima no qual o existencialismo se origina. O pensamento encontra-se na situação cartesiana, uma vez que o pensamento cartesiano está entre os mais expressivos da modernidade, justamente porque estabelecem de forma legítima os argumentos que confirmam à existência do homem enquanto ser pensante e, por conseguinte seu poder cognoscível, após duvidar de modo radical de tudo que existe. O desenvolvimento do existencialismo de Sartre abarca o período da guerra, da libertação e da reconstrução. Nem o triunfo nem o colapso do fascismo provocaram qualquer mudança fundamental na concepção existencialista.

A existência dos conceitos não se situa no nível filosófico, a filosofia não possui os instrumentos conceituais para compreender a existência dos conceitos. Os conceitos filosóficos necessariamente prescindem da existência concreta, quando se discutiu a existência concreta, abandonou-se e condenou-se a filosofia, desde então, o abismo entre os conceitos da filosofia e os da existência foram alargados. A experiência da organização totalitária da existência humana proíbe entender a liberdade de qualquer outro modo que não o de sociedade livre.

A obsolescência da psicanálise, terceiro ensaio da obra, acerca-se da discussão da contribuição dos princípios fundamentais da teoria freudiana e do seu desenvolvimento. A psicanálise sobreviveu nas duas diferentes escolas e se difundiu em variados domínios da sociedade, o texto se atém ao pensamento político, procurando mostrar o conteúdo social e político dos próprios conceitos psicanalíticos fundamentais. O conflito tem suas raízes não apenas na história patológica privada, mas também no destino geral do indivíduo sob o princípio de realidade estabelecido, o indivíduo é um processo de mediação em que toda repressão e toda liberdade tornam se o comportamento próprio do indivíduo. A psicanálise extrai sua força da sua obsolescência, na sua insistência nas necessidades e possibilidades individuais, ultrapassadas pelo desenvolvimento social e político, vale ressaltar que o que é obsoleto nem sempre é falso, a verdade da psicanálise consiste em manter a fidelidade às suas hipóteses mais provocadoras.

O ensaio intitulado Industrialização e capitalismo na obra de Max Weber expõe o quanto a industrialização e o capitalismo se tornam problemáticos na obra de Weber, tanto pelo fato do destino histórico do Ocidente, quanto o destino atual da Alemanha. Para Weber o capitalismo precisa ser apreendido como razão necessária. Em sua análise se inter-relacionam por princípios motivos filosóficos, históricos, sociológicos e políticos. A ideia da razão se realiza efetivamente em um sistema da cultura material e intelectual que encontra seu pleno desenvolvimento no capitalismo industrial. Em Weber existe uma racionalidade que somente se tornou efetiva no Ocidente, formando o capitalismo. O capitalismo Ocidental surge sob condições sociais, políticas e econômicas determinadas no final da Idade Média e da Reforma, desenvolvendo assim seu espírito na racionalidade formal que se impõe na posição e no comportamento psicológico e econômico dos pregadores do processo capitalista. A racionalidade formal do capitalismo celebra seu triunfo nos computadores eletrônicos que calculam tudo independe de sua finalidade, a razão técnica se revela nesses termos a razão política, determinada pelo interesse do dominador. Max Weber considerava-se burguês e tinha orgulho dessa condição, vinculando assim sua própria razão à da burguesia, e não assistindo a decadência desta sociedade de massas do capitalismo em seu apogeu.

O quinto ensaio da obra de Marcuse, Ética e revolução, discute a relação entre ambas, tendo como fio condutor se a questão da revolução ser considerada oportuna, justa, necessária, não somente em sentido político, mas também ético. Ao traçar o estudo depara-se primeiramente com alguns questionamentos: quem determina o interesse geral de uma coletividade? Quem pode determiná-lo e com que direito? Pensando assim questiona-se também o que é individual e o que é coletivo, ou mesmo até que ponto a felicidade depende do indivíduo? São questionamentos um tanto complexos.

Para o autor revolução seria a queda de um governo e de uma constituição legalmente estabelecidos por uma classe social ou um movimento que objetiva tanto transformar a estrutura social quanto política. As revoluções históricas foram normalmente aprovadas e começaram em nome de uma maior liberdade para camadas mais amplas da população. A ética da revolução é, portanto testemunha do choque do conflito entre dos direitos históricos, o do que é e o do que pode ser, precisando para isso de critérios racionais, e se realmente existe a ética da revolução, estará em harmonia não com critérios absolutos, mas com critérios históricos. A tendência objetiva das grandes revoluções dos tempos modernos consistiu na ampliação do espaço social da liberdade e na ampliação da satisfação das necessidades.

No sexto e último texto, Comentários para uma redefinição de cultura, Marcuse parte da definição de cultura dada por Webster, na qual é compreendida como o complexo específico de crenças religiosas, aquisições, tradições, entre outras, permeadas em uma sociedade. Fala-se de uma cultura existente apenas quando os objetivos e valores representativos foram reconhecimentos traduzidos na realidade social. A cultura sempre foi considerada privilégio de uma minoria, uma questão de riqueza, de tempo e feliz coincidência. Para a massa popular os ‘valores superiores’ sempre foram palavras vazias, ilusões, enganos. A cultura superior ainda existe, embora seja bem mais acessível, é lida e ouvida por muitas pessoas, porém a sociedade bloqueou os domínios espirituais há algum tempo.

Não se podem ignorar algumas implicações da relação dicotômica entre Cultura e Civilização, enquanto na Civilização estão permeados o Trabalho Material, o Dia do Trabalho, o Trabalho, Reino da Necessidade, a Natureza e o Pensamento Operacional, na Cultura encontra-se o Trabalho intelectual, o Dia Festivo, o Ócio, Reino da Liberdade, Espírito e o Pensamento não operacional. A relação de Cultura e Civilização se alterou devido à nova sociedade tecnológica, mas para se manter precisa de uma nova definição. Vale a pena refletir sobre a frase de Marcuse, ao finalizar seu sexto ensaio: o “conceito de uma educação na sociedade existente para uma sociedade melhor no futuro é uma contradição, uma contradição sem dúvida que deve ser resolvida se o progresso deve se realizar”.



Em seus textos, segundo Vladimir Safatle, Marcuse, chama a atenção pelo seu enfoque materialista-dialético com a finalidade de compreender experiências intelectuais, consideradas cruciais para o século atual: a psicanálise, o existencialismo e a sociologia weberiana. Convoca a metapsicologia de Freud para que sirva de fundamento antropológico a uma teoria social, e arrisca se a esclarecer a dinâmica das sociedades industriais no capitalismo, através delas descobre-se como o pensamento pode ser mais radical do que o já existente e encontrar, no interior do mundo tecnológico a chave da própria liberdade.

* Mestre em Letras e Linguística pela UFG, Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós Graduação pela PUC-GO, turma 2012/01. Orientador professore Doutor José Ternes. Celular: 62 9965-2471. E-mail: mluizagv@gmail.com/ lilizapgtu@hotmail.com


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