Resgate no tempo



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RESGATE NO TEMPO

Michael Crichton

RESGATE NO TEMPO

Esta Obra foi digitalizada e Revista por Vítor Chaves

Tradução de Joaquim N. Gil

DOM QUIXOTE

Todos os grandes impérios do futuro serão impéríos da mente. WINSTON CHURCHILL, 1953

Quem não conhecer a história, não conhece nada. EDWARD JOHNSTON, 1990

Não estou interessado nofuturo. Estou interessado nofuturo dofuturo. ROBERT DONICER, 1996

Se disséssemos a um físico em 1899 que em 1999, cem anos mais tarde, imagens em movimento seriam transmitidas para os lares em todo o mundo a partir de satélites no céu; que bombas de uma potência inimaginável ameaçariam as espécies; que os antibióticos aboliriam a doença mas que esta iria contra-atacar; que as mulheres conseguiriam o voto e pílulas para o controlo da reprodução; que a todas as horas milhões de pessoas seriam transportadas pelos ares em aeronaves capazes de levantarem voo e de aterrarem sem o toque humano; que seria possível cruzar o Atlântico a duas mil milhas por hora; que a humanidade viajaria até à Lua para logo em seguida se desinteressar; que os microscópios seriam capazes de ver átomos individuais; que as pessoas transportariam telefones pesando pouco mais de cem gramas ou até menos e que falariam para qualquer parte do mundo sem necessidade de fios; ou que a maior parte destes milagres dependiam de dispositivos com o tamanho de um selo de correio, que utilizavam uma nova teoria designada por mecânica quântica - se o leitor dissesse tudo isto, o físico quase de certeza afirmaria que estava louco.

A maior parte destes desenvolvimentos nunca poderiam ter sido previstos em 1899 porque a teoria científica que prevalecia dizia que era impossível. E para os poucos desenvolvimentos que não eram impossíveis, como as aeronaves, a simples dimensão do seu uso eventual teria desafiado a compreensão. Seria possível imaginar um aeroplano - mas dez mil aeroplanos no ar ao mesmo tempo teria estado para lá da imaginação de qualquer um.

Torna-se portanto razoável afirmar que os cientistas mais informados, no limiar do século vinte, não faziam a menor ideia daquilo que estava para vir.

Agora que nos encontramos no limiar do século vinte e um, a situação é estranhamente familiar. Mais uma vez, os físicos acreditam que o mundo físico foi explicado e que já não existem revoluções à nossa frente. Recordando a história passada, deixaram de exprimir esta opinião publicamente, mas não deixam de pensar deste modo. Alguns observadores chegaram mesmo ao ponto de defender que a ciência como disciplina terminou o seu trabalho; afirmam ainda que não ficou nada de importante para a ciência descobrir.'
John Horgan, The End ofScience (Nova iorque: Addison-Wesley, 1996). Ver também Gunther Stent, Paradoxes ofProgress (Nova iorque: W H. Freeman, 1978).

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Mas do mesmo modo que os finais do século dezanove deixaram supor aquilo que estava para vir, também o século vinte fornece algumas pistas para o futuro. Uma das mais importantes é o interesse na chamada tecnologia quântica. Trata-se de um esforço em diversas frentes para criar uma nova tecnologia que utiliza a natureza fundamental da realidade subatómica, e promete revolucionar as nossas ideias sobre aquilo que é possível.



A tecnologia quântica contradiz frontalmente as nossas ideias de senso comum sobre o modo como o mundo funciona. Defende um mundo em que os computadores funcionam sem serem ligados e em que os objectos são encontrados sem os procurarmos. Um computador de um poder inimaginável pode ser construído a partir de uma simples molécula. A informação move-se instantaneamente entre dois pontos sem cabos ou redes. Os objectos distantes são examinados sem qualquer contacto. Os computadores fazem os seus cálculos em outros universos. E a teleportação - «Beam me up, Scoty» é vulgar e usada das mais diferentes maneiras.

Em 1990, a investigação em tecnologia quântica começou a mostrar resultados. Em 1995 mensagens quânticas ultra-seguras foram enviadas a uma distância de 8 milhas, sugerindo que uma Internet quântica virá a ser construída no próximo século. Em Los Álamos físicos mediram a espessura de um cabelo humano usando um feixe de laser que, na realidade, nunca chegou a ser visto no cabelo, mas apenas pode lá ter estado. Este resultado bizarro «contrário aos factos» iniciou um novo campo de interacção - detecção livre: aquilo que foi designado por «descobrir qualquer coisa sem olhar».

E, em 1998, a teleportação quântica foi demonstrada em três laboratórios em diferentes pontos do mundo - em Imisbruck, em Roma e na Cal Tech.' O físico jeff Kinible, líder da equipa da Cal Tech, disse que a teleportação quântica podia ser aplicada a objectos sólidos: «0 estado quântico de uma entidade podia ser transportado para outra entidade... Julgamos que conhecemos o modo como é possível fazê-lo.» Kinible deteve-se exactamente na altura em que se preparava para sugerir que seria possível teleportar um ser humano, mas lembrou-se de que alguém o poderia tentar com uma bactéria.

' Dick Bouwmeester etal., «Experimental QuantumTeleportation», Nature390(11 Dez. 1997): 575-9.

2Maggie Fox, «SpookyTeleportation Sttídy Brings Futtire Closer», Reuters, 22 Out. 1998. Para Jeffrey R.

Mmble, ver A. Furusawa et al, «Unconditional Quantum Tè1eportatior1>, Science 282 (23 Out. 1998):

706-9.

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Estas curiosidades quânticas, desafiando a lógica e o senso comum, receberam pouca atenção do público mas isso ainda virá a acontecer. De acordo com alguns cálculos, nas primeiras décadas do novo século, a maioria dos físicos em todo o mundo irão trabalhar num ou noutro dos aspectos da tecnologia quântica.'



Deste modo não se torna surpreendente que, por volta de meados da década de 90 várias corporações se tenham debruçado sobre a investigação quântica. A Fujitsu Quantum Devices foi estabelecida em 1991. A 113M formou uma equipa de investigação quântica em 1993, sob a orientação do pioneiro Charles Bennett.' Dentro em pouco foram seguidos pela ATT e por outras companhias, o que igualmente foi realizado por universidades como a Cal Tech e instalações governamentais como Los Álamos. E o mesmo foi feito por uma companhia de investigação do Novo México chamada ITC. Localizada a poucas horas de carro de Los Álamos, a iTC deu passos notáveis logo no início da década. Na realidade, está agora perfeitamente claro que a ITC foi a primeira companhia em 1998 a ter uma aplicação prática e funcional utilizando tecnologia quântica avançada.

Em retrospectiva, foi uma combinação de circunstâncias peculiares - e de considerável sorte - que deu à iTC a liderança de uma tecnologia dramaticamente nova. Embora a companhia tenha defendido que as suas descobertas eram completamente benignas, a sua chamada expedição de recuperação demonstrou os perigos de uma forma perfeitamente clara. Duas pessoas morreram, uma desapareceu e outra sofreu ferimentos graves. Não temos dúvidas de que para os jovens licenciados que tomaram parte na expedição, esta nova tecnologia quântica, anunciadora do século vinte e um, provou que era apenas benigna.

Colin P. Williams e Scott H. Clearwater, Fxplorations in Quantum Computing (Nova iorque: Springer-Verlag,

1998). Ver tamb6m Gerard J. Milburn, Schrddinger Machines (Nova iorque: W H. Freeman, 1997) e The Feynman Processor (Reading, Mass.: Perseus, 1998).

2C. H. Bennett et al., ,Teleportation an Unknown Quanturn State via Dual Classical and Einstein-Podolsky-Rosen Channels,), Physical Review Letters 70 (1993): 1895.

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Ocorreu em 1357 um episódio típico de uma guerra privada. Sir Oliver de Vannes, um cavaleiro inglês de nobreza e carácter, havia conquistado as cidades de Castelgard e La Roque, situadas nas margens do Rio Dordogne. Em todos os relatos que chegaram até nós se afirma que «este lorde à força» governava com honesta dignidade e era amado pelo povo. Em Abril, as terras de Sir Oliver foram invadidas por uma tumultuosa companhia de dois mil brigandes, cavaleiros renegados sob o comando de Arnaut de Cervole, um ex-monge conhecido como o «Arcebispo». Depois de ter reduzido Castelgard a cinzas, Cervole arrasou o vizinho Mosteiro de Sainte-Mère, assassinando monges e destruindo o famoso moinho no Dordogne. Em seguida Cervole perseguiu Sir Oliver até à fortaleza de La Roque onde se desenrolou uma terrível batalha.



Oliver defendeu o seu castelo com perícia e ousadia. Relatos contemporâneos creditam os esforços de Oliver ao seu conselheiro militar, Edwardus de Johnes. Pouco se sabe a respeito deste homem, em torno do qual se desenvolveu uma mitologia do tipo Merlin: dizia-se que podia desaparecer num relâmpago. O cronista Audreim diz que Johnes veio de Oxford, mas outros relatos dizem que era de Milão. Uma vez que viajava com uma equipa de jovens assistentes era, segundo tudo indica, um especialista itinerante, trabalhando para quem lhe pagasse os seus serviços. Tinha grandes conhecimentos sobre a utilização da pólvora e da artilharia, uma tecnologia nova naquela altura...

Por último, Oliver perdeu o seu inexpugnável castelo quando um espião abriu uma passagem no interior, permitindo aos soldados do Arcebispo que entrassem. Traições deste tipo eram típicas das intrigas complexas da época.

De The Hundred Years War in France (A Guerra dos Cem Anos em França), por M. D. Backes, 1996.

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CORAZON



« Quem não se sentir chocado com a teoria quântíca não a compreende. » Neils Bohr, 1927

«Ninguém compreende a teoria quântica.» Richard Feynman, 1967

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Nunca devia ter seguido por aquele atalho.

Dan Baker estremeceu quando o seu novo sédan Mercedes S500 começou a descer aos solavancos a estrada poeirenta, embrenhando-se cada vez mais na reserva Navajo no norte do Arizona. Ã sua volta a paisagem era cada vez mais desolada: as distantes mesas vermelhas a leste, o deserto plano estendendo-se a perder de vista para ocidente. Tinham passado por uma aldeia hora e meia antes - casas poeirentas, uma igreja e uma pequena escola empoleíradas numa falésia - mas desde aí não haviam visto mais nada, nem sequer uma vedação. Apenas o árido deserto vermelho. Há mais de uma hora que não avistavam um único carro. Era meio-dia e o sol dardejava sobre eles na vertical. Baker, um construtor civil em Phoenix, com cerca de 40 anos, começava a sentir-se pouco à vontade. Especialmente tendo em consideração que a sua esposa, uma arquitecta, era uma daquelas pessoas dedicadas à arte com pouca experiência em coisas simples como gasolina e água. O tanque da gasolina estava meio. E o carro começava a aquecer.

«Liz», perguntou ele, «tens a certeza de que é este o carninho?»

Sentada ao seu lado, a esposa debruçava-se sobre o mapa, traçando o percurso com um dedo. «Tem que ser», respondeu ela. «0 gula diz quatro milhas depois do Canyon Corazón.»

«Mas já passámos o Canyon Corazón há mais de vinte minutos. De certeza que não demos por ele.»

«Como é que será possível não reparar numa loja na berma da estrada?» «Não faço a menor Ídeia.» Baker olhava fixamente para a estrada à sua frente. «Mas não há nada por estas redondezas. Tens mesmo a certeza de que queres

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continuar com isto? Não te esqueças de que podemos conseguir grandes tapetes Navajo em Sedona. Em Sedona vendem todos os tipos de tapetes.»



«Sedona» exclamou ela com um ar de desdém, «não são autênticos.» «Olha que são, querida. Aliás, um tapete é sempre um tapete.» «Temos que considerar a textura.»

«Okay», concordou ele com um suspiro, «é uma questão de textura.»

«E podes ter a certeza de que não é tudo igual» respondeu ela. «Essas lojas de Sedona só têm lixo para turistas - são em acrílico, não em lã. Quero o género de tapetes tecidos em tear manual que se vendem na reserva. E estou convencida de que o posto de venda terá uma velha peça do tipo Sandpainting (pintura de areia) tecída algures durante os anos vinte, por Hosteen Klah. E eu quero-a.»

Okay, Liz.» Pessoalmente Baker não via porque é que precisavam de outro tapete Navajo - fosse qual fosse a textura. já tinham qualquer coisa como duas dúzias. Espalhara tapetes por toda a casa. E também guardara alguns nos armários.

Continuaram em silêncio. A estrada à frente deles brilhava vagamente com o efeito do calor, dando a ideia de um lago de prata. E havia ainda as miragens, casas ou pessoas que se erguiam na estrada, mas que desapareciam quando se aproximavam, como é habitual.

Dan Baker suspirou de novo. «Já devemos ter passado.» «Vamos andar mais algumas milhas», respondeu a esposa. «Quantas mais?»

«Não faço ideia. Mais algumas.»

«Quantas, Liz? Vamos decidir de uma vez por todas até onde é que vamos com esta história.»

«Mais dez minutos», respondeu ela. Okay», concordou, «mais dez minutos.»

Estava a olhar para o indicador da gasolina quando Uz levou a mão à boca e disse, «Dan!» Baker voltou a olhar para a estrada mesmo a tempo de ver uma forma que lhes surgiu de repente - um homem de castanho na berma da estrada - e ouviu um som cavo de uma pancada.

«Valha-me Deus!» exclamou ela. «Baternos nele!»

«0 quê?»


«Batemos naquele tipo.»

«Não batemos nada, foi um buraco.»

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No retrovisor Baker conseguia ver o homem ainda de pé na berma da estrada. uma figura de castanho desaparecendo rapidamente na nuvem de poeira que o carro deixava atrás de si.



«Não é possível termos batido nele» disse Baker. «Ainda está de pé.» «Dari, estou a dizer-te que lhe batemos. Eu vi.»

«Acho que não, querida.»

Baker olhou de novo para o espelho retrovisor. Mas agora só conseguia ver a nuvem de poeira que o carro deixava para tras.

«É melhor voltarmos para trás», disse ela. «Porquê?»

Baker tinha a certeza absoluta de que a esposa não tinha razão e de que não tinham batido no homem que estava na estrada. Mas se tivessem batido nele e se ele estivesse ferido, por muito levemente que fosse - nem que fosse um corte na testa, um arranhão - então isso iria representar uma grande demora na sua viagem. Seria impossível chegar a Phoenix ao cair da noite. Quem quer que andasse por ali tinha que ser forçosamente um Navajo; teriam que o levar para um hospital, ou pelo menos para a cidade mais próxima, que era Gallup, e que ficava fora do seu caminho.

«Julguei que querias voltar para trás», disse ela. «E quero.»

«Então vamos voltar para trás.»

«Só não quero arranjar problemas, Liz.» «Dan. Não acredito.»

Suspirou, e abrandou o carro. «OK, estou a dar a volta, tem calma.»

E deu a volta, tendo cuidado para não ficar enterrado na areia vermelha, regressando pelo caminho por onde tinham vindo.

«Valha-me Deus.»

Baker encostou e saltou para o exterior, sentindo-se envolvido pela nuvem de poeira que ainda pairava no ar. Respirou com dificuldade, sentindo o impacto do calor no rosto e no corpo. Devem estar cento e vinte graus no exterior, Pensou ele.

Quando a poeira começou a desvanecer-se viu o homem deitado na berma da estrada, tentando levantar-se apoiando-se nos cotovelos. O tipo estava trémulo, devia ter cerca de setenta anos, era careca e usava barba. A pele era pálida;

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não tinha ar de Navajo. Usava um vestuário castanho dando a ideia de uma sotaina. Talvez seja um padre, pensou Baker.



«Sente-se bem?», disse Baker, enquanto ajudava o homem a sentar-se na estrada poeirenta.

O velho tossiu. «Sinto. Estou bem.»

«Quer levantar-se?», perguntou-lhe. Sentiu-se aliviado porque não via sangue. «Só mais um minuto.»

Baker olhou à sua volta. «Onde é que está o seu carro?»

O homem voltou a tossir. Erguendo a cabeça com dificuldade, olhou para a estrada poeirenta.

«Dan, julgo que ele está ferido.»

«Talvez», respondeu Baker. Não havia dúvida de que o velho parecia confuso. Baker olhou à sua volta mais uma vez: nada, a não ser o deserto plano estendendo-se numa neblina tremeluzente, em todas as direcções.

Nem um único carro. Nada.

«Como é que ele chegou até aqui?», disse Baker.

«Deixa-te disso», respondeu Liz, «temos que levar o homem para o hospital.» Baker colocou as mãos debaixo dos braços do homem e ajudou o velho a pôr-se de pé. As roupas do homem eram pesadas, feitas de um material que parecia feltro, mas o calor não o fazia suar. De facto o corpo estava fresco, quase frio.

O velho apoiava-se pesadamente em Baker enquanto atravessavam a estrada. Liz abriu a porta de trás. O velho disse: «Eu posso andar. Eu posso andar.» «Okay. Ainda bem.» Baker ajudou-o a instalar-se no banco de trás.

O homem estendeu-se no assento, encolhendo-se numa posição fetal. Por baixo da sotaina usava roupas normais: jeans, uma camisa xadrez, sapatos de ténis. Fechou a porta e Liz voltou ao banco da frente. Baker hesitou, permanecendo no exterior exposto ao calor. Como é que era possível que aquele velho estivesse ali sozinho? Vestindo toda aquela roupa e sem estar a suar?

Era como se ele tivesse acabado de sair do carro.

É muito capaz de ter vindo a conduzir, pensou Baker. Talvez tenha adormecido. Talvez tenha saído da estrada e tenha tido um acidente. Talvez houvesse mais alguém preso dentro do carro.

Ouviu o velho a murmurar: À esquerda, sobe. Volta agora, apanha agora e vê como.»

Baker atravessou a estrada para dar uma vista de olhos. Passou por um enorme buraco, considerando que o devia mostrar à esposa, mas finalmente decidiu que não valia a pena.

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Fora da estrada não conseguia avistar quaisquer rastos de pneus, mas via claramente as pegadas do velho na areia. Trinta metros à frente viu o leito de um arroio, um corte abrupto na paisagem. Parecia que as pegadas vinham daquela direcção.



Vendo isso, seguiu as pegadas na direcção do arroio, parou junto da margem e olhou para baixo. Não havia qualquer carro. Viu apenas uma cobra que deslizava por entre as rochas fugindo dele. Estremeceu.

Qualquer coisa branca chamou a sua atenção, brilhando à luz do sol a cerca de meio metro na encosta. Baker debruçou-se para ver melhor. Era uma peça de cerâmica branca com cerca de uma polegada quadrada. Parecia um isolador eléctrico. Baker pegou nele e ficou surpreendido ao notar que era frio ao toque. Talvez fosse um desses novos materiais que não absorviam o calor.

Olhando mais de perto para a cerâmica viu as letras iTC gravadas numa das extremidades. E havia uma espécie de botão numa reentrância de um dos lados. Tentou adivinhar o que é que aconteceria quando o botão fosse premido. Ali de pé ao calor, com enormes calhaus à sua volta, premiu o botão. Não aconteceu nada.

Premiu mais uma vez. Mais uma vez nada aconteceu.

Baker subiu novamente a ravina, regressando ao carro. O velho estava a dormir, ressonando ruidosamente. Liz consultava os mapas. «A próxima cidade grande é GaIlup.»

Baker ligou o motor. «Pois seja Gallup.»

De volta à estrada, fizeram uma média melhor enquanto rumavam a sul na direcção de Gallup. O velho continuava a dormir. Liz olhou para ele e disse, «Dan ... »

«0 que é?»

«Estás a ver as mãos dele?»

«0 que é que têm as mãos dele?» «As pontas dos dedos.»

Baker desviou os olhos da estrada, olhando de relance para o banco de trás. As pontas dos dedos do velho estavam vermelhas até à segunda articulação. «E o que é isso tem? São queimaduras do sol.»

«Só nas pontas dos dedos? E o resto da mão?» Baker encolheu os ombros.

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«Os dedos dele não estavam assim antes», disse ela. «Não estavam vermelhos quando o encontrámos.»



«Querida, de certeza que não reparaste nisso.»

«Notei Porque tinha as unhas arranjadas. E pensei que não deixava de ser interessante que um velho no deserto tivesse as unhas arranjadas.»

«Uh- huh.» Baker olhou para o relógio. Pensava no tempo que iriam ter que esperar no hospital em Gallup. Provavelmente horas.

Suspirou. A estrada continuava em linha recta.

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A meio caminho de Gallup, o velho acordou. Tossiu e disse: «já chegámos? Onde é que nós estamos?»



«Como é que se sente?», disse Liz.

«Como é que me sinto? Tenho a cabeça a andar à roda. Estou bem, estou mesmo bem.»

«Como é que se chama?», disse Liz. «0 velho telefone fez-me vaguear.»1 «Mas qual é o seu nome?»

O homem disse: «Nome é o mesmo, a culpa é do jogo.»' Baker disse: «Está a rimar tudo o que diz.»

Ela respondeu: «já tinha notado Dan.»

«já vi um programa de televisão a este respeito», disse Baker. «0 facto de rimar significa que ele é esquizofrénico.»

«Rimar é regular» disse o velho. E então começou a cantar em voz alta, quase gritando uma quadra da velha canção de john Denver:

«As recordações fazem-me vaguear de volta ao lar,

velhas montanhas, caminhos do campo, as recordações, continuam a vaguear.»

«Isto está bonito,» disse Baker.

«Senhor,» disse Liz mais uma vez, «pode dizer-me como é que se chama?» «0 nióbio pode causar opróbrio. Atitudes estranhas não permitem inanhas.»

So original: «Thequondamphone made me roam.» E, na frase seguinte: «Namesarne, biamegame.» (N. T)

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Baker suspirou. «Querida, este tipo está marado de todo.»



«Marado ou qualquer outro nome que se queira, cheira a vagabundo sem eira nem beira.»

Mas a esposa não desistia. «Senhor? Sabe como é que se chama?»

«Norne é Gordon», disse o homem começando a gritar mais uma vez. «Nome é Gordon, nome é Stariley. Mas fica tudo em família.»

«Mas, senhor ... »

«Liz» disse Baker «deixa-o em paz. Deixa-o assentar, está bem? Ainda temos muito que andar?»

Rugindo, o velho cantou: «0 lugar a que pertenço, velha magia negra, é tão trágico, país de espuma faz-me gerner.»

E logo a seguir, começou a cantar o mesmo de novo. «Ainda falta muito?», perguntou Liz.

«Não faças perguntas desse género.»

Tendo telefonado antes, quando estacionou o Mercedes debaixo do pórtico em tons de vermelho e creme da Unidade Traumática do McKinley Hospital os auxiliares já estavam à espera com uma maca. O velho continuou sem reacção quando o transferiram para a maca, mas quando começaram a apertar as correias de segurança, ficou agitado, gritando: «Tirem as mãos de cima de mim, não me prendam!»

«É para a sua própria segurança, senhor», disse um dos auxiliares.

«Isso é o que você diz, saia da minha frente! A segurança é o último refúgio dos patifes!»

Baker ficou impressionado com o modo como os auxiliares manuseavam o tipo, gentilmente mas ao mesmo tempo com firmeza enquanto lhe apertavam as correias. Ficou igualmente impressionado com a mulher de pequena estatura e cabelos escuros, envergando uma bata branca, que se encontrava Junto deles. «Sou Beverly Tsosie», disse-lhe ela apertando-lhe a mão. «Sou a médica de serviço às urgências.» Continuava perfeitamente calma, embora o homem na maca continuasse a gritar enquanto o levavam para o centro traumático. «0 velho telefone fez-me vaguear ... »

Toda a gente na sala de espera estava a olhar para ele. Baker viu um miúdo de dez ou onze anos, o braço ao peito, sentado numa cadeira junto da mãe, que olhava o homem curiosamente. O miúdo murmurou qualquer coisa ao ouvido da mãe.

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velho cantava: «Para o lugar a que pertenço ... »



doutora Tsosie perguntou: «Há quanto tempo é que ele está assim?>, «Desde o início. Desde o momento em que o encontrámos.» «Excepto quando estava a dormir», disse Liz.

«Alguma vez esteve inconsciente?» «Não.»

«Teve náuseas, vórnitos?» «Não.»

«E onde é que o encontrou? Para lá de Corazón Canyon?» «Cerca de cinco a dez milhas antes.»

«Não há grande coisa por aqueles lados», disse ela. «Conhece a zona?», perguntou Baker.

«Cresci para aqueles lados.» Sorriu levemente. «Chinle.»

Transportaram o homem, sempre a gritar, através de uma porta de vaivem. A doutora Tsosie disse: «Se quiser esperar aqui, volto o mais depressa possível, logo que saiba alguma coisa. Provavelmente ainda vai demorar um bocado. É capaz de preferir ir almoçar enquanto espera.»



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