Resgate no tempo



Baixar 1.83 Mb.
Página14/39
Encontro13.02.2018
Tamanho1.83 Mb.
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   39


«Vamos», disse ela, «ao Mosteiro de Sainte-Mère, no Rio Dordogne, no sudoeste da França. Chegaremos às 8.04 na manhã de quinta-feira, a 7 de Abril de 1357 - é o dia da mensagem do Professor. É bom para nós, porque há um torneio nesse dia em Castelgard, e o espectáculo irá atrair grandes multidões dos arredores, pelo que teremos maiores possibilidades de não repararem em nós.»

Bateu no mapa. «Apenas por uma questão de orientação, o mosteiro fica aqui. Castelgard está ali, do outro lado do rio. E a fortaleza de La Roque fica aqui nas escarpas sobranceiras ao mosteiro. Há perguntas?»

Abanaram as cabeças negativamente.

«Muito bem. A situação na zona está um pouco confusa. Como sabem, Abril de 1357 coloca-nos aproximadamente ao fim de vinte anos da Guerra dos Cem Anos. Estamos sete meses depois da vitória inglesa de Poitiers, onde o rei da França foi feito prisioneiro. O rei francês ainda se encontra em cativeiro, à espera de resgate. E a França, sem um rei, está numa completa desorganização.»

«Precisamente neste momento Castelgard encontra-se nas mãos de Sir Oliver de Vannes, um cavaleiro britânico nascido em França. Oliver também tomou La Roque, onde tem estado a fortalecer as defesas do castelo. Sir Oliver é um indivíduo desagradável, com um mau gemo que se tornou famoso. Chamam-lhe o Carniceiro de Crécy pelos seus excessos em combate.»

«Sendo assim Oliver tem o controlo de ambas as cidades?» perguntou Marek.

183

«Neste momento, sim. No entanto, uma companhia de cavaleiros renegados, comandados por um padre excomungado chamado Arnaut de Cervole ... » «0 Arcebispo», disse Marek.



«Sim, exactamente, o Arcebispo - está a deslocar-se para a área, e irá sem a menor dúvida tomar os castelos a Oliver. Estamos convencidos de que o Arcebispo ainda se encontra a alguns dias de distância. Mas o combate poderá surgir a qualquer instante, pelo que temos que andar o mais depressa possível.»

Deslocou-se para outro mapa, numa escala maior. Mostrava os edifícios do mosteiro.

«Chegamos aproximadamente aqui, na orla da floresta de Sainte-Mère. A partir do ponto de chegada seremos capazes de olhar directamente para o mosteiro que fica mais abaixo. Uma vez que a mensagem do Professor veio do mosteiro, iremos aí em primeiro lugar. Como sabem, no mosteiro toma-se a refeição principal do dia às dez da manhã, e é muito provável que o Professor esteja aí presente a essa hora do dia. Se tivermos sorte, vamos encontrá-lo aí e trazemo-lo de volta.»

Marek perguntou: «Como é que sabe tudo isso? Julgava que ainda ninguém tinha ido a esse mundo.»

«É verdade. Ninguém foi. Mas os observadores que se encontram junto das máquinas trouxeram o suficiente para conhecermos o ambiente geral dessa época. Mais perguntas?»

Abanaram as cabeças negativamente.

«Muito bem. É muito importante recuperarmos o Professor enquanto ele ainda se encontrar no mosteiro. Se ele se deslocar para Castelgard ou para La Roque, será muito mais difícil. Temos um perfil de missão muito apertado. Espero estar no terreno dentro de duas ou três horas. Permaneceremos sempre juntos. Se um de nós se separar dos outros, usamos os auriculares para nos reunirmos de novo. Descobriremos o Professor e regressaremos de imediato. Okay?»

«Compreendido.» «Terão dois seguranças, eu e Victor Baretto que se encontra ali ao canto. Digam olá ao Victor.»

O segundo segurança era um homem soturno que tinha ar de ex-marine

- um homem duro e capaz. As roupas da época que Baretto envergava eram mais do tipo camponês, largas, feitas de um tecido do tipo linhagem. Fez uma aceno com a cabeça e esboçou um leve cumprimento. Parecia estar maldisposto.

«Okay?» perguntou Gomez. «Mais perguntas.»

184


Chris perguntou: «0 Professor está lá já há três dias?» «Exactamente.»

«Quem é que os, locais pensam que ele é?»

«Não sabemos», disse Comez. «Em primeiro lugar, não sabemos porque é que ele saiu de junto da máquina. Deve ter tido uma boa razão. Mas uma vez que ele está no mundo, a solução mais fácil para ele será a de se fazer passar por um amanuense ou por um académico de Londres, ou ainda por um peregrino a caminho de Santiago de Compostela em Espanha. Sainte-Mère encontra-se na rota de peregrinação e é vulgar os peregrinos interromperem a sua jornada, permanecendo um dia ou uma semana, especialmente se conseguem fazer amizade com o Abade, que é um tipo extraordinário. O Professor poderá ter feito isso. Ou talvez não. Simplesmente não sabemos.»

«Mas espere um momento», disse Chris Hughes. «A sua presença não irá alterar a história local? Não irá influenciar a evolução dos acontecimentos?» «Não. Não vai.»

«Como é que tem a certeza disso?» «Porque não pode.»

«E o que é que me diz dos paradoxos do tempo?» «Paradoxos do tempo?»

«Precisamente.» Respondeu Stern. «Está a ver, é como se regressasse no tempo e matasse o seu avô, o que faria que não pudesse nascer e não pudesse regressar para matar o seu avô ... »

tOh, isso. » Ela abanou a cabeça com um ar impaciente. «Não existem paradoxos do tempo.»

«0 que é que isso quer dizer? Está claro que existem.»

«Não, não existem», disse uma voz firme atrás deles. Voltaram-se. Doniger estava ali. «Os paradoxos do tempo não acontecem.»

«0 que é que quer dizer?» exclamou Stern. Tinha a sensação de que a sua questão fora tratada de uma forma muito agressiva.

«Os chamados paradoxos do tempo», disse Doniger, «na realidade não implicam, o tempo. Envolvem ideias sobre a história que são sedutoras mas estão erradas. Sedutoras porque nos levam a pensar de que tivemos influência no curso dos acontecimentos. E erradas porque é evidente que isso não aconteceu.» «Não podemos ter impacto nos acontecimentos? »

185

«Não.» «É evidente que sim.» 1



«Não. Não é possível. É mais fácil de compreender se considerarmos um exemplo contemporâneo. Digamos que vai a um desafio de basebol. Os Yankees e os Mets - os Yankees vão ganhar obviamente. Quer mudar o curso dos acontecimentos de modo a que os Mets ganhem. O que é que pode fazer? Você não é mais do que uma pessoa na multidão. Se tentar ir ao túnel, será impedido. Se tentar entrar no campo, será afastado. As acções mais vulgares que possa julgar estarem à sua disposição terminarão em falhanço e não irão alterar o resultado do jogo.

«Digamos que escolhe uma acção mais extrema: matar a tiro o lançador. Mas no instante em que sacar uma arma, provavelmente será dominado pelos adeptos que se encontrem próximo. Mesmo que consiga disparar, o mais certo é que falhe. E mesmo que consiga atingir o lançador, qual será o resultado disso? O lançador será substituído por outro.

«Digamos que escolhe uma acção ainda mais extrema. Libertar gás dos nervos e matar toda a gente que se encontra no estádio. Mais uma vez, o mais provável é que não consiga ter sucesso, do mesmo modo como não era provável ter sucesso com uma arma de fogo. Mas mesmo que consiga matar toda a gente, mesmo assim não terá conseguido alterar o resultado do jogo. Poderá argumentar que conseguiu desviar a história numa outra direcção - e talvez assim seja - mas não criou as condições para que os Mets ganhassem o jogo. Na realidade não há nada que possa fazer para que os Mets ganhem. Continua a ser aquilo que sempre foi: um espectador.

«E este mesmo princípio aplica-se à grande maioria das circunstâncias históricas. Uma única pessoa pouco pode fazer para alterar os acontecimentos de um modo significativo. É evidente que grandes massas de povo podem alterar o curso da história. Mas uma pessoa? Não.»

«Talvez assim seja», disse Stern, «mas eu posso matar o meu avô. E se ele estiver morto eu já não posso nascer, o que quer dizer que não existo e assim já não é possível tê-lo morto. E isto é um paradoxo.»

«Sim, é um paradoxo - partindo do princípio de que de facto mata o seu avô. Mas na prática isso pode mostrar-se difícil. Há tantas coisas na vida que podem correr mal. Pode não encontrar-se com ele na altura certa. No caminho pode ser atropelado por um autocarro. Ou pode apaixonar-se. Pode ser preso pela polícia. Pode matá-lo demasiado tarde, depois do seu pai já ter sido concebido. Ou pode encontrar-se face a face com ele e chegar à conclusão de que não é capaz de premir o gatilho.»

186

«Mas em teoria ... »



«Quando estamos a lidar com a história, as teorias não têm o menor valor», disse Doniger fazendo um gesto desdenhoso. «Uma teoria só é válida quando tem a capacidade de prever resultados futuros. Mas a história é o registo da acção humana - e não há nenhuma teoria que seja capaz de prever a acção humana.» Esfregou as mãos.

«Muito bem. Não será melhor acabarmos com esta especulação e seguirmos o nosso caminho?»

Ouviram-se murmúrios dos outros.

Stern pigarreou. «Para ser sincero», disse ele, «acho que eu não vou.»

Marek estivera à espera de uma coisa daquelas. Observara Stern durante a reunião, notando o modo como se agitava na cadeira, como se não se sentisse confortável. A ansiedade de Stern fora aumentando progressivamente desde que a volta começara.

O próprio Marek não tinha dúvidas sobre a sua partida. Desde a sua juventude vivera e respirara o mundo medieval, imaginando-se em Warburg e Carcassone, Avignon e Milão. Alistara-se nas guerras de Gales com Edward 1. Vira os burgueses de Calais entregarem a sua cidade e estivera presente nas Feiras da Champagne. Vivera nas cortes esplêndidas de Eleanor da Aquitânia e do Duque de Beiry. Marek ia fazer esta viagem, acontecesse o que acontecesse. Quanto a Stern...

«Peço desculpa», estava Stern a dizer, «mas esse problema não é meu. Só me alistei na equipa do Professor porque a minha namorada ia para um curso de Verão em Toulouse. Não sou historiador. Não sou cientista. E, de qualquer modo, não acho que seja seguro.»

Doniger perguntou: «Não acha que as máquinas sejam seguras?»

«Não, o lugar. O ano de 1357. Depois de Poitiers espalhou-se a guerra civil em França. Companhias livres de soldados fizeram pilhagens por toda a parte. Bandidos, assassinos e homens sem lei- em todos os cantos.»

Marek acenou com a cabeça. Pelo menos Stern estava a compreender a situação. O século catorze fora um mundo que desaparecera, e ao mesmo tempo perigoso. Era um mundo religioso; a maioria das pessoas iam à igreja pelo menos uma vez por dia. Mas era um mundo incrivelmente violento, onde os exércitos invasores matavam toda a gente, onde mulheres e crianças

187

eram chacinados de uma forma rotineira, onde as mulheres grávidas eram esventradas por uma questão de desporto. Era um mundo que abria as portas aos ideais da cavalaria em simultâneo com pilhagens e assassínios indiscriminados, onde se imaginava que as mulheres eram frágeis e delicadas, mesmo que controlassem fortunas, comandassem castelos, tomassem amantes à vontade e conspirassem para cometer assassínios e rebeliões. Era um mundo com fronteiras sempre em modificação e alianças a alterarem-se constantemente, muitas vezes mudando-se de um dia para o outro. Era um mundo de morte, de pragas devastadoras, de doença, de guerras constantes.



Gordon disse a Stern: «Certamente não desejaria de modo nenhum estar a forçá-lo.»

«Mas não se esqueça», disse Doniger, «de que não estará sozinho. Vamos mandar seguranças consigo.»

«Peço desculpa.» Continuava Stern a dizer. «Peço desculpa.»

Finalmente Marek disse: «Deixe-o ficar. Ele tem razão. Não é o seu período e não é o seu problema.»

«Agora que fala nisso», disse Chris, «estive a pensar: Também não é o meu período. Sinto-me muito mais à vontade nos finais do século treze do que no verdadeiro século catorze. Talvez também deva ficar com o David ... »

«Esquece isso.» Disse Marek colocando um braço pelos ombros de Chris. «Vais ver que não há problemas.» Marek tratava o assunto como se fosse uma brincadeira embora soubesse que Chris não estava exactamente a brincar. Não exactamente.

188

A sala estava fria. Um nevoeiro gelado cobria-lhes os pés e os tornozelos. Enquanto se dirigiam para as máquinas deixavam um rasto no nevoeiro.



Quatro máquinas haviam sido ligadas pelas bases e uma quinta gaiola encontrava-se isolada. Baretto explicou: «Esta é a minha», e entrou na gaiola isolada. Permaneceu erecto, olhando em frente, esperando.

Susan Gomez entrou numa das gaiolas ligadas entre si, e disse: «0 resto do grupo vem comigo.» Marek, Kate e Chris subiram para as gaiolas que se encontravam ao lado da sua. As máquinas pareciam estar assentes sobre molas; oscilavam levemente à medida que cada um deles entrava.

«Todos prontos?»

Responderam todos num murmúrio, acenando com a cabeça. Baretto disse: «As senhoras primeiro.»

«Tens toda a razão», respondeu Gomez. Parecia não existir a menor amizade entre os dois. «Okay», disse ela para os outros. «Partida.»

O coração de Chris começou a bater desordenadamente. Sentia tonturas e tinha a sensação de começar a entrar em pânico. Cerrou as mãos com firmeza.

Gomez disse: «Descontraiam-se. Estou convencida de que vão achar a viagem agradável.» Introduziu a placa de cerâmica numa fenda que se encontrava aos seus pés e voltou a erguer-se.

«Cá vamos nós. Não se esqueçam: toda a gente perfeitamente imóvel quando chegar a altura.»

As máquinas começaram a zumbir. Chris sentiu uma leve vibração na base, Por debaixo dos pés. O zumbido das máquinas foi aumentando de intensidade.

189


O nevoeiro elevava-se em volutas da base das máquinas. As máquinas começaram a gemer e a guinchar, como se o metal estivesse a ser torcido. O som foi aumentando rapidamente até se tornar constante e atingir um volume que fazia lembrar um grito.

«É por causa do hélio líquido», disse Gomez. «Está a arrefecer o metal até atingir temperaturas de supercondução.»

Abruptamente terminou o guinchar e começou o som de crepitar. «Luz verde para os infravermelhos», disse ela. «Chegou a altura.»

Chris sentiu que todo o corpo começava a tremer involuntariamente. Tentou controlar a reacção mas as pernas continuavam a tremer. Teve um momento de pânico - talvez fosse melhor desistir - mas nesse instante ouviu uma gravação que dizia: «Permaneçam IMóveis - olhos abertos... »

Demasiado tarde, pensou. Demasiado tarde. « ... respirem fundo - aguentem... Agora!»

O anel que se encontrava acima da sua cabeça desceu, deslizando suavemente até aos seus pés. Produziu um pequeno ruído metálico quando tocou na base. E um momento depois houve um flash de luz deslumbrante - mais brilhante do que o sol - que vinha de todos os lados à sua volta - mas não sentiu absolutamente nada. Para dizer a verdade, teve uma súbita e estranha sensação de fria descontracção, como se estivesse a observar uma cena distante.

O mundo à sua volta estava completamente, estranhamente silencioso. Viu a máquina próxima de Baretto que se tornava cada vez maior, começando a debruçar-se sobre ele. Baretto, um gigante, o rosto enorme com poros monstruosos, inclinava-se, olhando para eles de cima para baixo.

Mais flashes.

à medida que a máquina de Baretto se tornava cada vez maior também parecia que se distanciava deles, revelando um aumento progressivo do soalho: uma vasta planície de soalho em borracha escura que desaparecia à distância. Mais flashes.

O pavimento em borracha tinha um padrão de círculos em relevo. Os círculos começaram a erguer-se à volta deles fazendo lembrar escarpas negras. Rapidamente as escarpas cresceram tanto que se pareciam com arranha-céus negros unindo-se por cima das suas cabeças, obstruindo a luz que vinha de cima. Finalmente os arranha-céus uniram-se uns aos outros e o mundo escureceu. Mais flashes.

Mergulharam numa escuridão de tinta da china por alguns momentos e logo em seguida começaram a distinguir pontos de luz cintilante, dispostos

190


num padrão que fazia lembrar uma grelha, afastando-se em todas as direcções. Era como se estivessem dentro de uma espécie de enorme estrutura cristalina brilhante. Enquanto Chris observava, os pontos de luz foram-se tornando mais brilhantes e maiores, de orla imprecisa, até que cada um deles se transformou numa bola brilhante de contornos imprecisos. Pensou se aquilo não seriam os átomos.

já não conseguia distinguir a grelha, apenas as bolas que se encontravam mais próximo. A sua gaiola moveu-se directamente na direcção de uma das bolas brilhantes que parecia pulsar, mudando a sua forma em padrões trémulos.

E foi então que se encontraram dentro da bola, imersos num nevoeiro de um brilho intenso que parecia pulsar com energia.

Foi então que o brilho começou a desvanecer-se, e desapareceu completamente.

Permaneciam numa escuridão informe. Nada. Apenas escuridão.

Mas foi então que viu que continuavam a mergulhar, dirigindo-se para a superfície agitada de um oceano negro numa noite negra. O oceano agitava-se e fervia, produzindo uma espuma de um tom azulado. À medida que desciam para a superfície a espuma ia crescendo. Chris viu que especialmente uma das bolhas tinha um brilho azul particularmente intenso.

A sua máquina moveu-se na direcção desse brilho a uma velocidade crescente, voando cada vez mais depressa, e teve a estranha sensação de que se iam esmagar na espuma, até que entraram na bolha e ouviu um guinchar metálico num tom alto e penetrante.

Em seguida silêncio. Escuridão. Nada.

191

Na sala de controlo, David Stern observava os flashes no soalho coberto de borracha ficarem cada vez mais pequenos e mais fracos e finalmente desaparecerem por completo. As máquinas tinham desaparecido. Os técnicos voltaram-se imediatamente para Baretto e começaram a sua contagem regressiva.



Mas Stern continuava a olhar para o ponto do soalho em borracha onde Chris e os outros haviam estado.

«E onde é que eles estão agora?» perguntou a Gordon. «Oh, agora já chegaram», disse Gordon. «Já lá estão.» «Foram reconstruídos?»

«Exacto.» «Sem uma máquina de fax do outro lado.» « Precisamente.»

«Diga-me porquê», pediu Stern. «Diga-me os detalhes que não interessam

aos outros.»

«Muito bem», disse Gordon. «Não tem nada de mal. Pensei apenas que os outros pudessem achar tudo isto um tanto, bem, perturbador.»

«Uhin.» «Voltemos atrás,» continuou Gordon, «aos padrões de interferência que, conforme se recorda, mostravam que outros universos podem afectar o nosso próprio universo. Não temos que fazer nada para que o padrão de interferência ocorra. Acontece simplesmente por si próprio.»

«Sim.» «E esta interacção é muito fiável; acontece sempre que exista um par de ranhuras.»

192

Stern acenou com a cabeça. Estava a tentar adivinhar onde é que aquilo ia parar, mas não era capaz de antever a direcção que Gordon estava a tomar.



«Deste modo sabemos que, em certas situações, podemos contar com que outros universos façam com que aconteçam coisas. Montamos as ranhuras e os outros universos estabelecem sempre o padrão que nós vemos.»

«Okay ... »

«E se transmitirmos através de um dos orificios, a pessoa é sempre reconstituída na outra extremidade. Também podemos esperar que isso aconteça.» Houve uma pausa.

Stern franziu as sobrancelhas.

«Espere um minuto, exclamou. «Está a dizer-me que ao transmitir a pessoa é reconstituída por outro universo?»

«De facto é isso mesmo. Isto é, tem que ser. Não podemos reconstituí-los muito bem porque não estamos lá. Estamos neste universo.»

«Sendo assim, não está a reconstituir ... » «Não.»

«Porque não sabe como fazê-lo», disse Stern.

«Porque não achamos que seja necessário», respondeu Gordon. «Do mesmo modo como não achamos que seja necessário colar os pratos numa mesa para que eles não se mexam. Permanecem imóveis por eles próprios. Utilizamos uma das características do universo, a gravidade. E neste caso estamos a usar uma das características do multiverso.»

Stern franziu as sobrancelhas. Discordou de imediato da analogia; era demasiado enganosa, demasiado fácil.

Véja», disse Gordon, «a base da tecnologia quântica é o facto da sobreposição de universos. Quando um computador quântico calcula - quando a totalidade dos trinta e dois estados do electrão estão a ser usados - tecnicamente o computador está a transportar esses cálculos para outros universos, certo?»

«Sim, sob um ponto de vista técnico está certo, mas ... » «Não, não é sob um ponto de vista técnico. É na realidade.» Houve uma pausa.

«Poderá ser mais fácil de compreender», disse Gordon, «se observarmos esta situação sob o ponto de vista do outro universo. Esse universo vê uma pessoa chegar de repente. Uma pessoa de outro universo.»

«Sim ... »

«E foi isso exactamente o que aconteceu. A pessoa vem de outro universo. E não foi exactamente o nosso.»

193


«Repita isso?»

«A pessoa não chegou do nosso universo», respondeu Gordon. Stern pestanejou. «Então de onde?»

«Chegaram de um universo que é quase idêntico ao nosso - idêntico sob todos os aspectos - excepto que nós sabemos como reconstituir na outra extremidade.>

«Está a brincar.» «Não.»

«A Kate que vai aterrar lá não é a mesma que saiu daqui? É uma Kate de outro universo?»

«Exacto.» «Então é quase a Kate? Uma espécie de Kate? Uma meia Kate?»

«Não. É a Kate. Tanto quanto sabemos, com base nos nossos testes, é absolutamente idêntica à nossa Kate. Porque o nosso universo e o seu universo são praticamente idênticos.»

«Mas mesmo assim, continua a não ser a Kate que saiu daqui.» «Como é que poderia ser? Foi destruída e reconstruída.» «Sente alguma diferença quando isso acontece?» disse Stern. «Só durante um ou dois segundos», respondeu Gordon.

194

Escuridão. Silêncio, e em seguida, à distância, uma luz branca deslumbrante. Aproximando-se. Rapidamente.



Chris estremeceu como se um forte choque eléctrico tivesse atravessado o seu corpo, fazendo-lhe contrair os dedos das mãos, Por instantes sentiu o seu corpo, como sentimos roupas novas quando as vestimos pela primeira vez; sentiu a carne que o envolvia, sentiu o peso dela, o impulso para baixo da gravidade, a pressão do corpo nas solas dos pés. Em seguida uma dor de cabeça que o cegava, um pulsar simples, para logo em seguida desaparecer, sentindo-se rodeado por uma intensa luz púrpura. Teve um arrepio e pestanejou.

Estava de pé, banhado pela luz do sol. O ar era frio e húmido. Os pássaros chilreavam nas enormes árvores que se erguiam acima dele. Feixes de luz atravessavam a luz do sol, sarapintando o solo. Estava a ser banhado por um desses feixes de luz. A máquina encontrava-se ao lado de uma estreita vereda lamacenta que serpenteava através da floresta. Directamente à sua frente, através de um intervalo entre as árvores, avistou uma aldeia medieval.

Primeiro um grupo de leiras e cabanas, penachos de fumo cinzento erguendo-se dos tectos de colmo. Em seguida uma parede de pedra e os telhados de pedra escura da própria cidade e finalmente, à distância, o castelo com os seus torreões circulares.

Reconheceu-o imediatamente: a cidade e a fortaleza de Castelgard. E já não era uma ruína. As paredes estavam completas.

Tinha chegado.

195
7:00:00

Gomez saltou agilmente da máquina. Marek e Kate saíram lentamente das suas gaiolas, parecendo ofuscados enquanto olhavam à sua volta. Os pés pousaram na relva cheia de musgo. O terreno parecia esponjoso.

Marek disse: «Fantástico!» e imediatamente se afastou da máquina, atravessando a vereda lamacenta para observar melhor a cidade. Kate seguiu atrás dele. Dava a ideia de ainda se encontrar em estado de choque.

Mas Chris queria permanecer junto da máquina. Virou-se lentamente olhando para a floresta. Deixou-o chocado, parecendo-lhe escura, densa, primitiva. Notou que as árvores eram enormes. Algumas tinham troncos tão espessos que se podiam esconder tres ou quatro pessoas atrás deles. Elevavam-se para o céu, espalhando um enorme dossel de folhas sobre eles que escurecia a maior parte do solo.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   39


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal