Resgate no tempo



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Beverly pertencia ao quadro clínico do University Hospital em Albuquerque, mas ultimamente começara a vir dois dias por semana a GaIlup, para fazer companhia à avó de idade avançada, e nesses dias fazia um turno na Unidade Traumática do McKinley para conseguir mais algum dinheiro extra. Gostava do McKiriley com o seu moderno exterior pintado em riscas vermelho vivo e creme, O hospital era de facto dedicado à comunidade. E gostava de Gallup, uma cidade mais pequena do que Albuquerque, e um lugar onde se sentia mais confortável com um fundo tribal.

Na maior parte dos dias a unidade de Traumáticos estava perfeitamente calma. Por isso a chegada daquele velho, agitado e aos gritos, estava a causar uma enorme comoção. Abriu as cortinas do cubículo onde os auxiliares lhe haviam tirado a sotaina castanha e os sapatos de ténis. Mas o velho ainda continuava a debater-se, lutando contra eles, pelo que tiveram que o deixar amarrado. Estavam a cortar as jeans e a camisa xadrez para as tirarem.

Nancy Hood, a enfermeira chefe da unidade, disse que não fazia diferença Porque, de qualquer modo, a camisa tinha um enorme defeito; atravessando o bolso havia uma linha em que o padrão não condizia. «Deve ter rasgado a camisa e voltou a cosê-la. Temos de concordar que foi um trabalho muito mal feito. »

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«Não», disse um dos auxiliares, segurando a camisa. «Nunca foi cosida, é uma única peça de tecido. Pode parecer estranho, mas não condiz porque um dos lados é maior do que o outro ... »



«Seja como for, não vai sentir a falta dela», disse Nancy e atirou a camisa para o chão. Virou-se para Tsosie. «Quer tentar fazer-lhe um exame?»

O homem ainda se comportava de uma forma muito violenta. «Ainda não. Vamos dar-lhe uma injecção intravenosa em cada braço. E vejam o que é que ele tem nos bolsos. E vejam também se traz qualquer identificação. Se não tiver, tire-lhe as impressões digitais e mande-as por fax para D.C.; talvez o consigam encontrar num banco de dados.»

Vinte minutos mais tarde, Beverly Tsosie estava a examinar um miúdo que partira um braço numa queda durante uma prova desportiva. Era um miúdo de óculos, com um aspecto gorducho, e parecia quase orgulhoso com o acidente que tivera no desporto.

Nancy Hood aproximou-se e disse: «Estivernos a revistar o John Doe.» «E?»

«Nada que nos possa ajudar. Não tem carteira, nem cartões de crédito ou chaves. A única coisa que tinha com ele era isto.» Deu a Beverly uma folha de papel dobrada em quatro. Parecia uma impressão de computador, e mostrava um estranho padrão de pontos dispostos numa espécie de grelha. E no fundo

estava escrito mon.ste.mere .

«"Monsternere"? Isto diz-lhe alguma coisa?»

Hood abanou a cabeça. «Sei lá, para mim ele está passado.»

Beverly Tsosie disse: «Bom, posso mantê-lo sob sedativos até sabermos o que é que lhe vai na cabeça. O melhor é tirar-lhe radiografias do crânio para verificar traumas e hematomas.»

A radiografia está a ser remodelada, já se esqueceu 13ev? Os raios X podem ser feitos em qualquer altura. Porque é que não lhe faz uma ressonância magnética? Faça o scan de todo o corpo e tem todos os dados de que necessita.» «Faça a requísição», disse Tsosie.

Nancy Hood voltou-se para sair. «Oh, olha que surpresa. Temos aqui o Jimmy da polícia.»

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Dan Baker sentia-se inquieto. Exactamente como previra, haviam passado horas à espera na recepção do McKinley Hospital. Depois de terem almoçado



- burritos com chili picante - haviam regressado, encontrando um polícia no parque de estacionamento a olhar para o seu carro, passando a mão pelo painel da porta lateral. Só o facto de o ver fez com que Baker sentisse um arrepio. Pensou em ir ter com o polícia mas chegou à conclusão de que era melhor não o fazer. Em vez disso voltou à sala de espera. Telefonou à filha para lhe dizer que chegava mais tarde; para dizer a verdade, era muito possível que só chegassem a Phoenix no dia seguinte.

E esperaram. Finalmente, cerca das quatro da tarde, quando Baker se dirigiu ao balcão para pedir notícias sobre o velho, a mulher perguntou-lhe: «São parentes?»

«Não, mas ... »

«Então esperem ali se fazem favor. O médico vem já falar convosco.» Voltou ao seu lugar e sentou-se com um suspiro. Levantou-se de novo, caminhou até à janela e olhou para o carro. O polícia desaparecera mas agora via-se um papel preso no pára-brisas que esvoaçava ao vento. Baker tamborilou com os dedos no vidro da janela. Em cidades pequenas como aquela arranjam-se sempre problemas, qualquer coisa pode acontecer. E quanto mais esperava, mais cenários lhe acorriam à mente. O velhote estava em coma; não podiam sair da cidade até que ele acordasse. Se o velho morresse estavam implicados num caso de homicídio involuntário. Podiam não ser inculpados Mas teriam que comparecer no inquérito que se realizaria dentro de quatro dias.

Quando finalmente alguém veio falar com eles não era a pequena médica, era o polícia. Era um polícia jovem, com cerca de vinte anos, num uniforme impecavelmente passado a ferro. Usava o cabelo comprido e o crachá no peito indicava que se chamava JAMES WAUNEKA. Baker pensou para consigo próprio que nome seria aquele. Provavelmente Hopi ou Navajo.

«0 Senhor e a Senhora Baker?» Wauneka foi muito correcto, apresentando-se. «Acabei de falar com a médica. Terminou o seu exame e os resultados da ressonância já vieram. Não há a menor prova de ter sido atingido por um carro. E eu próprio estive a inspeccionar o vosso carro. Não há qualquer sinal de impacto. Estou convencido de que devem ter passado por um buraco e ficaram convencidos de que lhe tinham batido. Nesta zona a estrada é francamente má.»

Baker olhou de relance para a sua esposa que evitou o seu olhar. Liz perguntou: «Acha que vai ficar bem?»

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«Parece que sim.»



«Então podemos ir embora?» perguntou Baker.

«Querido», disse Liz, «não lhe queres dar aquilo que encontrámos?»

«Oh, com certeza.» Baker tirou a pequena peça de cerâmica do bolso. «Encontrei isto junto do lugar onde ele estava.»

O polícia fez rodar a peça de cerâmica entre os dedos. «ITC» - disse ele, lendo a marca num dos lados. «Onde é que encontraram isto exactamente?» «A cerca de 30 )jardas de distância da estrada. julguei que seguisse num carro

que tivesse saído da estrada e foi por isso que verifiquei. Mas não havia qualquer carro.»

«Mais alguma coisa?» «Não, é tudo.»

«Bom, muito obrigado», disse Wauneka, metendo a peça de cerâmica no bolso. Mas logo a seguir fez uma pausa. «Oh, já me esquecia.» Tirou uma folha de papel do bolso e desdobrou-a cuidadosamente. «Isto foi encontrado nas roupas dele. Queria saber se alguma vez viram isto.»

Baker olhou de relance para o papel: um conjunto de pontos dispostos em grelhas. «Não» respondeu, «nunca tinha visto isso.»

«Não foram vocês que lho deram?» «Não.»

«Algurna ideia sobre o que possa ser?»

«Não», disse Baker. «Não faço a menor ideia.» «Bom, acho que faço uma ideia», disse a esposa. «Acha que sim?», disse o polícia.

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«Julgo que sim», respondeu ela. «Importa-se se eu ... » E tirou o papel das mãos do polícia.



Baker suspirou. Agora Liz estava a ser o arquitecto, analisando o papel meticulosamente, voltando-o de um lado e de outro, olhando para os pontos de cima para baixo e de lado. Baker sabia porquê. Estava a tentar desviar a atenção do facto de que ela se enganara, de que o carro passara de facto num buraco, e que afinal de contas tinham passado ali todo o santo dia para nada. Estava a tentar justificar uma perda de tempo, procurando atribuir uma certa importância ao caso.

«Sim», disse ela finalmente. «Sei o que é. É uma igreja.»

Baker olhou para os pontos no papel. Perguntou incrédulo: «É uma igreja?» «Bom, é a planta de uma», disse ela. «Estás a ver? Aqui é o eixo maior da cruz, a nave... Vês? Não há dúvida de que é uma igreja, Dan. E o resto do desenho, os quadrados dentro de quadrados, todos rectilíneos, tem o aspecto de... sabes que isto pode muito bem ser um mosteiro?»

O polícia perguntou: «Um mosteiro?»

«Julgo que sim», disse ela. «E o que é que me diz da legenda no fundo: mon.ste.mere". Mon não será uma abreviatura de mosteiro? Aposto que sim. Estou a dizer-lhe, para mim trata-se de um mosteiro.» E devolveu o desenho ao polícia.

De forma expressa Baker olhou para o relógio. «Acho que devíamos ir embora.»

«Evidentemente», disse Wauneka apanhando a deixa. Apertou-lhes a mão. «Obrigado, pela vossa ajuda. E desculpem o atraso. Façam uma boa viagem.» Baker colocou o braço firmemente sobre os ombros da esposa e conduziu-a

para o exterior, para a luz da tarde. Estava mais frio; a leste erguiam-se balões de ar quente. Calhip era um centro de balões de ar quente. Dirigiu-se para o carro. O papel preso no pára-brisas que esvoaçava ao vento anunciava a venda de joias com turquesas num dos armazéns locais. Arrancou-o do pára-brisas, amarrotou-o e sentou-se ao volante. A esposa estava sentada de braços cruzados olhando em frente. Pôs o motor a trabalhar.

Finalmente ela disse. «Está bem. Desculpa.» O tom era mal-humorado mas Baker sabia que era a única coisa que seria capaz de conseguir.

Inclinou-se para ela e deu-lhe um beijo no rosto. «Não», disse ele. «Fizeste aquilo que estava certo. Salvámos a vida do velhote.»

A esposa sorriu.

Saiu do parque de estacionamento, dirigindo-se para a auto-estrada.

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No hospital o velho dormia, com o rosto parcialmente coberto por uma máscara de oxigénio. Agora estava calmo; ela dera-lhe um sedativo fraco e encontrava-se relaxado, respirando facilmente. Beverly Tsosie deixou-se ficar aos pés da cama, revendo o caso com Joe Nieto, um Apache Mescalero, um interno muito qualificado e excepcional em diagnósticos. «Indivíduo branco do sexo masculino com cerca de setenta anos de idade. Quando entrou estava confuso, com os sentidos embotados e muito desorientado. Pequena congestão com falha cardíaca, teor levemente elevado de enzimas no fígado, e julgo que é tudo.»



«Aparentemente não. Mas não deixa de ser engraçado. Dizem que o encontraram a vaguear a norte do Corazón Canyon. Naquele sítio não existe nada em redor numa distância de mais de dez milhas.»

«E?» «Este tipo não apresentava quaisquer sinais de exposição, Joe. Nenhuma desidratação, sem cetose. Nem sequer queimaduras do sol.»

«Achas que alguém se livrou dele? Alguém que estava cansado de ter a responsabilidade do avozinho?»

«Sim. já pensei numa coisa dessas.» «E o que é que me dizes dos dedos?»

«Francamente não sei», respondeu ela. «Tem um problema qualquer de circulação. As pontas dos dedos estão frias, a ficarem arroxeadas, correndo o risco de se iniciar um processo de gangrena. Seja o que for, tem piorado desde que chegou ao hospital.»

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«É diabético?» «Não.»



«Raynaud?» «Não.» Nieto, que se encontrava ao lado da cama, debruçou-se sobre o velho,

observando os dedos. «0 problema é só com as pontas dos dedos. Todo o dano é distal.»

«Certo», disse ela. «Se não tivesse sido encontrado no deserto diria que se tratava de um caso de ulceração pelo frio.»

«Verificaste a hipótese de metais pesados, Sabes que se pode tratar de uma exposição tóxica a metais pesados. Cádinio ou arsénico. Isso poderia explicar o problema dos dedos e a sua leve demência.»

«Tirei amostras. Mas as análises de metais pesados vão para o UNH em Albuquerque. Só vou receber o relatório dentro de setenta e duas horas.» «Tens uma identificação, historial médico, qualquer coisa?»

«Nada. Notificámos as pessoas desaparecidas e enviámos as suas impressões digitais para Washington, para uma verificação no banco de dados, mas isso pode levar uma semana.»

Nieto concordou com um aceno de cabeça. «E quando estava agitado, a balbuciar? O que é que ele dizia?»

«Falava em rima, repetindo as mesmas coisas interminavelmente. Qualquer coisa a respeito de Gordon e Stariley. E em seguida dizia, "0 telefone quondam faz-me vaguear."»

« Quondam? Isso é Latim?»

Ela encolheu os ombros. «já lá vão muitos anos desde que ia à igreja,> «Julgo que quondam é uma palavra em Latim», disse Nieto.

E em seguida ouviu uma voz que dizia, «Dão-me licença?» Era o miúdo de óculos na cama do outro lado da sala, sentado junto da mãe.

«Ainda estamos à espera do cirurgião, Kevin,» disse-lhe Beveriy. «Logo que ele chegue podemos tratar do teu braço.»

«Ele não estava a dizer telefone quondam, estava a dizer "espuma quântica" «0 quê?»

«Espuma quântica. Estava a dizer espuma quântica.»

Aproximaram-se dele. Nieto parecia divertido. «E o que quer dizer exactamente espuma quântica?»

O miúdo olhou para eles com ar grave, os olhos a pestanejarem por detrás dos óculos. «Em dimensões subatómicas muito pequenas, a estrutura do espaço-tempo é irregular. Não é homogénea, é de certo modo cheia de bolhas e

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espumosa. E porque isto se verifica a um nível quântico, dá-se-lhe o nome de espuma quântica.»



«Quantos anos tens?» perguntou Nieto. «Onze.»

A mãe disse: «Ele lê muito. O pai trabalha em Los Alamos.»

Nieto acenou com a cabeça. «E para que é que serve essa espuma quântica, Kevin?»

«Não se trata de uma questão de servir para isto ou para aquilo», respondeu o miúdo. «É apenas o modo como o universo se apresenta a um nível subatómico.»

«Por que é que o velhote havia de estar a falar de uma coisa dessas?» «Porque é um físico muito conhecido», disse Wauneka, aproximando-se deles. Olhou para uma folha de papel que trazia na mão. «Acabou de chegar ao M.PD. Joseph A. Traub, setenta e um anos de idade, físico de materiais. Especialista em metais supercondutores. Considerado como desaparecido pelo seu patrão, a ITC Research em Black Rock, desde o meio-dia de hoje.»

«Black Rock? Fica a caminho de Sandia.» Ficava a várias horas de distância, no centro do Novo México. «Pelas alminhas de quem é que este tipo veio procurar a Coraz6n Canyon no Arizona?>>

«Não faço a menor ideia» disse Beverly. «Mas ele ... » Os alarmes começaram a soar.

Aconteceu com uma suavidade que deixou jlmmy Wauneka boquiaberto. O velho ergueu a cabeça da almofada, olhou fixamente para eles com um olhar desvairado e, em seguida, vomitou sangue. A máscara de oxigénio ficou de um vermelho vivo; o sangue espirrou da máscara, correndo em fios pelas bochechas e pelo queixo, salpicando a almofada e a parede. Produziu um som de gorgolejar: estava a afogar-se no seu próprio sangue.

Beverly atravessou a sala a correr. Wauneka correu atrás dela, «Volta-lhe a cabeça!» estava Niete, a dizer quando chegou junto da cama. «Volta!» Beverly arrancara-lhe a máscara de oxigénio e estava a tentar voltar a cabeça do velho, mas este debateu-se, ainda a gorgolejar, os olhos arregalados com o pânico. Wauncka afastou-a para o lado, agarrou a cabeça do velho com ambas as mãos e voltou-o firmemente de lado. O homem vomitou novamente; o sangue espirrou para os monítores e sobre Wauneka. «Sucção!», gritou Beverly, apontando para um tubo que se encontrava na parede.

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Wauneka tentou segurar o homem e agarrar o tubo, mas o soalho estava escorregadio por causa do sangue. Escorregou, agarrando-se à cama para se apoiar.



Vá lá, gente!» gritou Tsosie. «Preciso de vocês! Sucção!» Estava de joelhos, metendo os dedos na boca do homem, puxando-lhe a língua. Wauneka levantou-se com dificuldade e viu Nieto que segurava uma linha de sucção. Agarrou-a com os dedos escorregadios por causa do sangue e viu Nieto a abrir a válvula de parede. Beverly pegou na sonda de neoprene e começou a limpar a boca e o nariz do tipo. Sangue de um vermelho vivo corria pelos tubos. O homem arquejou, tossiu, mas estava cada vez mais fraco.

«Não gosto disto», disse Beverly, «acho que era melhor ... » Os monitores mudaram de tom, agora mais agudo e firme. Paragem cardíaca.

«Porra», disse ela. A bata e a blusa estavam cheias de sangue. «Electrochoque! Tragam o equipamento!»

Nieto estava de pé junto da cama, segurando os terminais com os braços estendidos. Wauneka afastou-se atabalhoadamente de junto da cama quando Nancy Hood o empurrou para passar; naquele momento imensa gente se apinhava à volta do homem. Wauneka sentiu um odor acre e concluiu que os intestinos do homem se tinham aliviado. De repente compreendeu que o homem ia morrer.

«Pronto», disse Nieto, enquanto aplicava os terminais. O corpo estremeceu violentamente na maca. Os frascos na parede estremeceram. Os alarmes dos monitores continuavam.

Beverly disse: «Fecha a cortina, Jiminy.»

Olhou para trás e viu o miúdo de óculos do outro lado da sala, de olhos arregalados e a boca aberta. Wauneka fechou rapidamente as cortinas.

Uma hora mais tarde uma Beverly Tsosie completamente exausta deixou-se cair na cadeira da secretária a um canto da sala para redigir o relatório. Tinha que ser invulgarmente completo porque o paciente morrera. Enquanto folheava o Processo, Jimmy Wauneka aproximou-se dela trazendo-lhe um café. «Obrigada», disse ela. «A propósito, tens o número de telefone dessa companhia ITC? Tenho de lhes telefonar.»

«Posso fazer isso por ti», disse Wauneka, apoiando por instantes a mão no ombro dela. «Tiveste um dia estuporado.»

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Antes dela ter conseguido responder, Wauneka dirigiu-se para a secretária mais próxima, abriu o bloco que folheou e começou a marcar o número. Sorriu para ela enquanto esperava ser atendido.



«ITC Research.»

Identificou-se e em seguida disse: «Telefono-lhes por causa do vosso empregado dado como desaparecido, Joseph Traub.»

«Só um momento por favor. Vou ligá-lo ao nosso director de recursos humanos.»

Em seguida esperou durante vários minutos. Ouvia-se um fundo musical. Colocou a mão sobre o bocal e do modo mais descontraído que foi capaz, disse a Beverly: «Estás livre para jantar ou vais ver a tua avó?»

Ela continuou a escrever, não levantando os olhos dos papéis. «Vou vê-la.

Ele encolheu os ombros levemente. «Lembrei-me de perguntar», disse. «Mas ela deita-se muito cedo. Por volta das oito horas.»

«Estás a falar a sério?»

Ela sorriu, continuando a olhar para os seus apontamentos. «Estou.» Wauneka sorriu. «Bom, então estamos combinados, certo?»

«Certo.» O telefone voltou de novo à vida e ouviu uma voz de mulher que dizia: «Só um momento por favor, vou ligá-lo com o nosso primeiro vice-presidente, o Dr. Gordon.»

«Muito obrigado.» E ficou a pensar no primeiro vice-presidente.

Mais um estalido do telefone e, em seguida, ouviu uma voz grave: «Fala John Gordon.»

«Dr. Gordon, fala James Wauneka do Departamento de Polícia de GaIlup. Telefono-lhe do Hospital Mcl(inley em Gallup», disse. «Receio ter más notícias para lhe dar.»

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Vista através das janelas panorâmicas da sala de conferências da ITC, o sol amarelado daquela tarde dardejava nos cinco edifícios em vidro e aço dos laboratórios do complexo de investigação de Black Rock. à distância, nuvens de tempestade formavam-se sobre o deserto longínquo. Mas dentro da sala os doze membros da administração da iTC não se importavam com aquela visão. Estavam a tomar café numa mesa de apoio, conversando uns com os outros enquanto esperavam que a reunião começasse. Aquelas reuniões eram feitas sempre à noite porque o presidente da ITC, Robert Doniger, era conhecido por dormir muito pouco, o que fazia com que marcasse as reuniões para aquelas horas. Podia dizer-se que era um tributo ao brilhantismo de Doniger que todos os membros da administração, directores e os mais importantes investidores de capital comparecessem em tais condições.



Naquele instante Doniger ainda não aparecera. John Gordon, o atarracado vice-presidente de Doniger, estava convencido de que sabia porquê. Sempre a falar ao telemóvel, Gordon abriu caminho na direcção da porta. Em tempos Gordon fora project manager na Força Aérea, e ainda tinha um porte militar. O seu fato azul de homem de negócios tinha um aspecto impecável e os sapatos brilhavam. Aproximando o telemóvel da orelha, disse, «Compreendo Senhor Agente» e saiu da sala.

Exactamente como pensara, Doniger encontrava-se no átrio, andando de um lado para o outro como um miúdo irrequieto, enquanto Diane Kramer, chefe de advogados da iTC se encontrava próximo ouvindo o que ele dizia. Gordon viu que Doniger apontava o dedo irritadamente na sua direcção. Não havia dúvida de que lhe estava a passar uma descompostura.

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Robert Doniger tinha trinta e oito anos, era um físico brilhante e além disso era bilíonário. Apesar de um ventre saliente e do cabelo grisalho, o seu aspecto permanecia jovem - ou juvenil, dependendo da pessoa com quem falava. Não havia dúvida de que os anos não o tinham envelhecido. A ITC era a terceira companhia que arrancara desde o início; ficara rico com as outras mas a sua gestão continuava a ser tão cáustica e desagradável como sempre. Na companhia quase toda a gente tinha medo dele.



Por deferência para com a mesa da direcção, Doniger vestira um fato azul, esquecendo os seus habituais caquis e camisolões. Mas dava a impressão de se sentir desconfortável dentro do fato, parecendo um miúdo a quem os pais haviam obrigado a vestir-se daquela maneira.

«Bom, muito obrigado Agente Wauneka», disse Gordon ao telemóvel. «Vamos tratar de tudo o que for necessário. Sim. Vamos fazê-lo imediatamente. Mais uma vez muito obrigado.» Gordon desligou o telemóvel e voltou-se para Doniger. «Traub está morto e identificaram o seu corpo.»

«Onde?» «Gallup. A chamada era de um polícia a telefonar das Urgências.» «De que é que pensam que ele morreu?»

«Não sabem. Falam de uma paragem cardíaca maciça. Mas houve um problema com os dedos. Um problema circulatório. Vão fazer uma autópsia. É obrigatório por lei.»

Doniger fez um gesto com a mão com um ar irritado. «Merda de chatice. A autópsia não vai dar nada. Traub tinha erros de transcrição. Nunca serão capazes de fazer uma ideia daquilo que se passou. Porque é que está a perder tempo com essa merda?»

«Um dos seus homens acabou de morrer, Bob», disse Gordon.

«É verdade», respondeu Doniger friamente. «E sabe uma coisa? Quero que toda essa merda se lixe. Lamento, é a única coisa que posso dizer. Raios partam tudo isto. Mande algumas flores. Ocupe-se de tudo está bem?»

Em momentos como este, Gordon costumava respirar fundo e lembrar-se de que Doniger não era diferente da maioria de tantos outros empresários igualmente agressivos. Não se podia esquecer de que, por detrás daquele sar-

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casmo, Doniger quase sempre tinha razão. E também não se podia esquecer de que, em qualquer caso, Doniger sempre se comportara daquela maneira durante toda a sua vida.



Robert Doniger demonstrara sinais claros de gênio, embrenhando-se em manuais de engenharia quando ainda frequentava a escola primária. Com a idade de nove anos era capaz de reparar qualquer aparelho electrónico - um rádio ou uma televisão - mexendo em válvulas e fios até que o aparelho voltasse a funcionar. Um dia em que a mãe lhe disse que receava que ele ficasse electrocutado, respondeu-lhe: «Não sejas idiota.» E quando a sua avó favorita morreu, um Doniger de olhos enxutos informou a mãe de que a velha senhora lhe ficara a dever vinte e sete dólares e que ele esperava que a mãe honrasse a dívida.

Depois de se ter diplomado summa cum laude em Física pela Universidade de Stanford, com dezoito anos, Doniger foi trabalhar para o Fermilab, próximo de Chicago. Despediu-se ao fim de seis meses, dizendo ao director do labratório que «a física de partículas era para atrasados mentais». Regressou a Stanford, onde trabalhou naquilo que ele considerava como uma área mais prometedora: magnetismo supercondutor.

Nessa época cientistas de todos os tipos estavam a sair das universidades para iniciarem firmas onde pudessem explorar as suas descobertas. Doniger saiu ao fim de um ano para fundar a TechGate, uma companhia que fabricava os componentes para a gravação de precisão do chip que entretanto Doniger inventara. Quando Stanford reclamou, dizendo que essas descobertas haviam sido feitas enquanto ele ainda trabalhava no laboratório, Doniger respondeu: «Se acham que têm problemas processem-me. Caso contrário calem-se de uma vez por todas.»



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