Resgate no tempo



Baixar 1.83 Mb.
Página3/39
Encontro13.02.2018
Tamanho1.83 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   39

Foi na TechGate que o estilo severo de gestão de Doniger se tornou famoso. Durante as reuniões com os seus cientistas, sentava-se a um canto, inclinando a cadeira perigosamente para trás, enquanto ia disparando perguntas. «0 que é que se passa com isto?» «Porque é que não está a fazer aquilo?» «Qual a razão disto?». Se ficasse satisfeito com a resposta era capaz de responder: «Talvez...» Este era o maior elogio que qualquer um conseguia obter de Doniger. Mas se não gostasse da resposta - e normalmente era isso que acontecia - respondia num resmungo: «Será por acaso desmiolado?» «Tem aspirações a vir a ser um idiota?» «Quer morrer estúpido?» «Nem sequer pode ser considerado um atrasado mental.» Quando perdia mesmo a cabeça atirava com lápis e blocos, e gritava: «Imbecis! Corja de imbecis!»

39

Os empregados da TechGate procuravam desculpar os acessos de raiva da «Marcha Fúnebre de Doruger» porque era um físico brilhante, muito melhor do que eles; porque conhecia os problemas que as suas equipas enfrentavam; e porque as suas críticas eram invariavelmente justas. Por muito desagradável que fosse, este estilo azedo produzia resultados; em dois anos a TechGate fez progressos notáveis.



Em 1984 vendeu a sua companhia por cem milhões de dólares. Nesse mesmo ano, a revista Tíme considerou-o como uma das pessoas com menos de vinte e cinco anos «que iriam moldar o resto do século». Nesta lista também se encontravam incluídos Bill Gates e Steve Jobs.

«Raios partam tudo isto», exclamou Doniger voltando-se para Gordon. «Será que tenho que fazer tudo sozinho? Santo Deus. Onde é que eles encontraram Traub?»

«No deserto. Na reserva Navajo.» «Onde, exactamente?»

«Tudo o que sei é que foi encontrado num lugar a dez milhas a norte de Corazón. Segundo parece não há por ali grande coisa.»

«Muito bem», disse Doniger. «Sendo assim, manda chamar Baretto da segurança e diz-lhe que leve o carro de Traub até Corazón e que o deixe no deserto. Quando lá chegar, fura-lhe um pneu e vem-se embora.»

Diane Kramer pigarreou. Tinha cabelo escuro, cerca de trinta anos, e envergava um saia e casaco negro. «E capaz de não ser o mais indicado, Bob», disse ela no seu melhor tom legal. «Estás a adulterar as provas ... »

«É evidente que estou a adulterar as provas! A questão é essa precisamente! Vai haver quem pergunte o que é que Traub andava ali a fazer. É por isso que lhes vamos deixar o seu carro para que o encontrem.»

«Mas não sabemos exactamente onde ... »

«Não interessa o local exacto. Façam-no e acabou-se a história.»

«Isso quer dizer que Baretto e mais alguém vão ficar ao corrente da história... »

«E quem é que se preocupa com isso? Ninguém. Façam o que eu digo e mais nada, Diane.»

Seguiu-se um curto silêncio. Kramer olhava para o soalho, de sobrancelhas franzidas, notando-se claramente que não se sentia bem.

40

«Olha uma coisa», disse Doniger, voltando-se para Gordon. «Lembras-te quando Garman ia conseguir o contrato e a minha antiga companhia estava mais atrasada? Recordas-te da fuga para a imprensa?»



«Recordo», respondeu.

«Estavas tão Preocupado com a história», disse Doniger com um sorriso. Explicou a Kramer: «Garman era um autêntico suíno. Tempos depois perdeu peso porque a esposa o obrigou a fazer dieta. Deixámos escapar uma informação de que Garman sofria de um cancro que não podia ser operado e que a sua companhia ia falir. Negou a notícia mas ninguém acreditava nele por causa do aspecto que tinha. Conseguimos o contrato. Mandei um cesto de fruta à esposa dele.» Deu uma gargalhada. «Mas o importante é que ninguém foi capaz de relacionar connosco a fuga da informação. Vale tudo Diane. Negócio é negócio. Deixa a porra do carro no deserto.»

Ela acenou afirmativamente com a cabeça, embora continuasse a olhar para o chão.

«E em seguida», disse Doniger, «quero saber por alminhas de quem é que Traub teve acesso à sala de trânsito. Não se esqueçam de que já tinha feito demasiadas viagens, e acumulara muitos defeitos de transcrição. Já passara o seu limite. Não devia fazer mais nenhuma viagem. Não tinha luz verde para o trânsito. A segurança é muito apertada em volta dessa sala. O que me leva a perguntar, como é que ele conseguiu entrar?»

«Julgo que tinha uma autorização de manutenção, para poder trabalhar nas máquinas», respondeu Kramer. «Esperou até ser noite e na altura da mudança de turnos enfiou-se numa das máquinas. Mas estamos presentemente a verificar isso tudo.»

«Não quero que verífiques», respondeu Doniger em tom sarcástico. «Quero que faças o necessário para que não volte a acontecer, Diane.»

«Podes contar com isso, Bob.»

«É melhor que seja assim», disse Doniger. «Não nos esqueçamos de que neste momento a companhia enfrenta três problemas significativos. E o Traub é o de menor importância. Os outros são maiores. Muito, muito maiores.»

Doniger sempre fora dotado para uma visão à distância. Ainda em 1984 vendera a TechGate, porque previra que os chips para computador «Iam bater na parede». Nessa altura uma opinião deste género parecia insensata. Os chips para computador duplicavam de potência todos os dezoito meses enquanto o

41

custo descia para metade. Mas Doniger reconhecera que esses avanços eram feitos à custa de uma acumulação de componentes dentro do chip cada vez mais apertada. Não podia continuar assim indeterminadamente. Chegaria uma altura em que os circuitos estariam tão atravancados dentro do chip que este derreteria com o calor. Isto implicava um limite superior em termos de potência do computador. Doniger sabia que a sociedade iria exigir cada vez mais poder bruto para o computador, mas não conseguia descortinar nenhum modo de o conseguir.



Frustrado, voltou-se para o seu interesse inicial, o magnetismo supercondutor. Arrancou com uma segunda companhia, Advanced Magnetics, que possuía diversas patentes essenciais para as novas máquinas de Imagiologia por Ressonância Magnética, que estavam a começar a revolucionar a medicina. A Advanced Magneties recebia um quarto de milhão de dólares em royalties por cada máquina IRM que era construída. Era «uma vaca parideira», disse Doniger uma vez: «e quase tão interessante como ordenhar uma vaca leiteira.» Aborrecido e procurando novos desafios, vendeu a firma em 1988. Tinha vinte e oito anos e valia um bilião de dólares. Mas segundo o seu ponto de vista, ainda tinha que se afirmar.

No ano seguinte, 1989, começou com a ITC.

Um dos heróis de Doniger era o físico Richard Feynman. No princípio da década de 80, Feyriman apresentara uma hipótese de que talvez fosse possível construir um computador usando as propriedades quânticas dos átomos. Teoricamente, um «computador quântico» deste género seria biliões e biliões de vezes mais potente do que qualquer computador até então construído. Mas a ideia de Feyriman implicava uma tecnologia genuinamente nova - uma tecnologia que era preciso construir desde o esboço, uma tecnologia que modificava todas as regras. Considerando que ninguém era capaz de descobrir um modo prático de construir um computador quântico, a ideia de Feyriman foi esquecida rapidamente.

Mas Doniger não a esqueceu.

Em 1989 Doniger preparou tudo para iniciar a construção do seu primeiro computador quântico. A ideia era tão radical - e tão arriscada - que nunca anunciou publicamente a sua intenção. Maliciosamente deu à sua nova companhia a designação de ITC, iniciais de International Technology Corporation.

42

Estabeleceu a sua sede em Geneva, seleccionando os seus colaboradores entre o grupo de físicos que trabalhavam para a CERN'.



Durante vários anos a partir daí ninguém ouviu falar de Doniger ou da sua companhia. As pessoas concluíram que se retirara, isto se alguma vez chegaram a pensar nele. Afinal de contas era vulgar, no caso de empresários para as altas tecnologias, desaparecerem de vista depois de terem conseguido as suas fortunas.

Em 1994, a revista Time apresentou uma lista de vinte e cinco pessoas com menos de quarenta anos que estavam a moldar o mundo. Robert Doniger não se encontrava incluído nesta lista. Ninguém se preocupou; ninguém se lembrou dele.

Nesse mesmo ano mudou as instalações da ITC para os Estados Unidos, instalando os laboratórios da firma em Black Rock, Novo México, uma hora a norte de Albuquerque. Um observador atento poderá ter notado que se mudou novamente para um lugar onde tinha uma equipa de físicos disponíveis. Mas de propósito ou não, não existiam observadores.

Foi assim que ninguém se apercebeu de que durante o ano de 1990 a ITC se desenvolveu de forma notável. Foram construídos mais laboratórios nas instalações do Novo México; foram contratados mais físicos. O conselho de directores de Doniger aumentou de seis para doze. Eram todos directores executivos de companhias que haviam investido na ITC, ou accionistas. Todos assinaram um acordo draconiano de não revelação, exigindo-lhes um compromisso significativo adicional, de se submeterem a um teste de polígrafo sempre que lhes fosse exigido, e de permitirem que a ITC colocasse os seus telefones em escuta sem aviso prévio. Para além disso, Doniger pediu um investimento mínimo de 300 milhões de dólares. Era, conforme explicou de forma arrogante, o custo de um lugar no conselho de direcção. «Querem saber aquilo que eu pretendo, querem fazer parte daquilo que estamos a fazer aqui, o que corresponde a um terço de um bilião de dólares. É pegar ou largar. Em qualquer dos casos, estou-me nas tintas.»

Mas é evidente que não era esse o caso. A ITC tinha gastos terríveis: nos últimos nove anos haviam desaparecido mais de 3 biliões de dólares. E Doniger sabia que ia precisar de mais.

' Organização EUropeia para a Investigação Nuclear. (N. T)

43

«Problema número um», disse Doniger. «A nossa capitalização. iremos precisar de mais um bilião antes de vermos a luz do dia.» Acenou na direcção da sala do conselho. «Não estarão na disposição de uma coisa dessas. Tenho que conseguir que aprovem mais três membros da direcção.»



Gordon disse: «É um problema bicudo, naquela sala.»

«Eu sei que é», disse Doniger. «Vêem o que estamos a gastar e querem saber quando é que isto vai ter um fim. Querem ver resultados concretos. E é isso que lhes vou dar hoje.»

«Que resultados concretos?»

«Uma vitória», respondeu Doniger. «Esses merdas vão precisar de uma vitória. Algumas notícias excitantes sobre um dos projectos.»

Kramer inspirou profundamente. Gordon disse: «Bob, os Projectos são todos a longo prazo.»

«Um deles há-de estar quase pronto. Por exemplo, o Dordogne?» «Não está. Não aconselho essa abordagem.»

«E eu preciso de uma vitória», respondeu Doniger. «0 Professor Johnston passou três anos em França com essa malta de Yale, à nossa custa. Precisamos de ter qualquer coisa para mostrar.»

«Ainda não, Bob. De qualquer modo, não temos tudo.» «Temos o suficiente.»

«Bob ... »

«Diane vai ter com eles. Pode pressioná-los de uma forma delicada.» «0 Professor Johnston não vai gostar disso.»

«Tenho a certeza de que a Diane é capaz de manobrar o Professor Johnston. » Um dos assistentes abriu a porta da sala de conferências e olhou para o átrio. Doniger exclamOUI «Só um minuto!» Mas imediatamente começou a dirigir-se

para a porta.

Olhou para eles por cima do ombro e disse: «Mãos à obra!» E, em seguida, dirigiu-se para a sala e fechou a porta.

Gordon caminhou com Kramer ao longo do corredor. Os seus saltos altos martelavam o soalho. Gordon olhou para baixo e verificou que em complemento do saia e casaco negro Jil Sander muito correcto e corporatiVo, ela usava sapatos de salto alto de tira em preto. Era o aspecto clássico de Kramer: sedutora e ao mesmo tempo inatingível.

44

Gordon perguntou-lhe: «Já sabias disto antes?»



Ela acenou com a cabeça. «Mas não há muito tempo. Tinha-me dito há cerca de uma hora.»

Gordon não disse nada. Conteve a sua irritação. Há já doze anos que Gordon estava com Doniger, desde os dias da Advanced Magnetics. Na iTC dirigira uma operação de investigação industrial de primeiro plano em dois continentes, utilizando dúzias de físicos, químicos e cientistas de informática. Tivera que aprender sobre metais supercondutores, compressão fractal, qubits quânticos e troca lónica de alto fluxo. Ficara farto dos físicos teóricos - a pior espécie - e mesmo assim foram alcançadas metas; o desenvolvimento estava dentro do prazo; os excessos de custo eram aceitáveis. Mas apesar do seu sucesso, Doniger continuou a não confiar nele.

Por outro lado Kramer sempre tivera uma relação muito especial com Doniger. Começara como advogada numa firma de juristas exterior à empresa, executando trabalho para esta. Doniger chegou à conclusão de que ela era elegante e tinha classe, pelo que a contratou. Foi sua namorada durante o ano seguinte, e mesmo que isso já tivesse acabado há muito tempo, ainda a ouvia. Ao longo dos anos ela fora capaz de evitar vários desastres potenciais.

«Durante os últimos dez anos», disse Gordon, «fornos capazes de conservar esta tecnologia em sossego. Quando se pensa nisso temos que concordar que foi um milagre. Traub é o primeiro incidente que temos de enfrentar. Felizmente foi cair nas mãos de um chui imbecil e fica por aí. Mas se Doniger começa a fazer pressão em França, corremos o risco de as pessoas começarem a somar dois mais dois. já tivemos a história daquele repórter em Paris que não nos largava. Bob pode deixar isto escancarado.»

«Eu sei que ele considerou todos esses aspectos. É o segundo grande problema.»

«0 ser do conhecimento público?» «Exacto. Vir tudo à luz do dia.» «E ele não está preocupado?»

«É evidente que está preocupado. Mas parece que tem um plano para lidar

COM o assunto.»

«Espero bem que sim», disse Gordon. «Não podemos estar à espera de termos sempre um chui idiota a lidar com a nossa roupa suja.»

45

O agente James Wauneka chegou ao Hospital Mcl(inley na manhã seguinte, à procura de Beverly Tsosie. Pensava verificar os resultados da autópsia do velhote que morrera, Mas disseram-lhe que Beverly fora para a Unidade de Imagiologia no terceiro andar. Sabendo isto dirigiu-se ao seu encontro.



Foi encontrá-la numa pequena sala de paredes pintadas em bege, adjacente ao scanner branco. Estava a falar com Calvin Chee, o técnico da IRM. Estava sentado na mesa do computador, enquanto iam passando no monitor imagens a preto e branco, umas atrás das outras. As imagens mostravam cinco círculos dispostos numa fila. Enquanto Chee passava as imagens, os círculos tornavam-se cada vez mais pequenos.

«Calvin», estava ela a dizer. «É impossível. Tem de ser artificial.» «Pediste-me para rever os dados», disse ele, «e agora não acreditas em mim? Estou a dizer-te, Bev, não é artificial. É real. Aqui, olha para a outra mão.»

Chee serviu-se do teclado e apareceu então uma imagem oval no monitor, com cinco círculos pálidos dentro dela. Okay? Esta é a palma da mão esquerda, vista num corte a meia secção.» Voltou-se para Wauneka. «Muito semelhante àquilo que verias se colocasses a tua mão num cepo de talho e cortasses a direito.» «Muito bem Calvin.»

«Bem, o que eu quero é que fique tudo bem claro.»

Voltou-se novamente para o monitor. Okay, pontos essenciais. Os cinco círculos redondos são os cinco ossos palmares. Estas coisas são os tendões que vão para os dedos. Não te esqueças de que os músculos que fazem trabalhar a mão se encontram quase todos no antebraço. Okay. Este círculo mais pequeno é a artéria radial que transporta o sangue para a mão através do pulso. Okay.

46

Agora afastamo-nos do pulso em cortes seccionais.» As imagens alteraram-se. A figura oval ficou mais estreita, e um por um os ossos foram-se separando, fazendo lembrar uma arruba a dividir-se. Agora havia quatro círculos. «Okay. Agora já passámos a palma e vemos apenas os dedos. Pequenas artérias dentro de cada dedo, dividindo-se à medida que avançamos, ficando cada vez mais pequenas, embora ainda se possam ver. Estás a ver, aqui e aqui? Okay. Agora, caminhando para as pontas dos dedos, este é o dedo proximal, a articulação... e agora ... olha para as artérias, vê como se encontram dispostas... secção por secção ... e agora!»



Wauneka franziu as sobrancelhas. «Parece uma falha. Como se qualquer coisa tivesse saltado.»

«Houve qualquer coisa que saltou mesmo», disse Chee. «As arteríolas estão fora do lugar. Não se encontram alinhadas, Vou passar isto de novo.» Voltou à secção prévia e em seguida passou à seguinte. Era perfeitamente claro - os círculos das minúsculas artérias pareciam ter sido afastados para os lados. «É por isso que o tipo apresentava gangrena nos dedos. Não havia circulação porque as artérias não se encontravam alinhadas. Parece uma incompatibilidade ou qualquer coisa no género.»

Beverly abanou a cabeça, «Calvin.»

«Estou a dizer-te. E não é só aqui, também verificámos o mesmo em outros lugares do corpo. Como por exemplo no coração. O tipo morreu de um ataque coronário maciço? Não é surpresa nenhuma, porque as paredes ventriculares também não se encontram alinhadas.»

«É tecido com cicatrizes já antigas», disse ela, abanando a cabeça. «Vá lá, Calvin. O tipo tinha setenta e um anos. Mesmo que houvesse qualquer coisa de errado com o coração dele, este trabalhou mais de setenta anos. O mesmo se passa em relação às mãos. Se esse desalinhamento das arteríolas estivesse de facto presente, os dedos já lhe deviam ter caído há anos. Mas isso não aconteceu. De qualquer modo, tratava-se de um novo ferimento; piorou quando já estava no hospital.»

«Se é assim, o que é que estás a querer dizer-me, que a máquina não está a funcionar como deve ser?»

«Tem que ser. Não é verdade que se podem registar erros de hardware? E que por vezes se encontram vírus na limpeza do software?»

«Verifiquei a máquina, Bev. Está em perfeitas condições.»

Ela encolheu os ombros. «Desculpa, mas não acredito. Tens que ter um problema em qualquer sítio. Olha uma coisa, se tens tanta certeza de que está tudo bem, vai lá abaixo à patologia e verifica o tipo em pessoa.»

47

«Já tentei», disse Chee. «0 problema é que já tinham levantado o corpo.»

«às cinco da manhã. Alguém da sua companhia.»

«Bom, deve ter sido feito pela Sandia», disse Wauneka. «Talvez ainda estejam a caminho ... »

«Não», Chee abanou a cabeça. «Foi cremado esta manhã.» «A sério? Onde?»

«Na morgue de Gallup.»

«Cremaram-no aqui?», perguntou Wauneka.

«Estou a dizer-te», afirmou Chec, «que há mesmo qualquer coisa de muito estranha a respeito deste tipo.»

Beverly Tsosie cruzou os braços sobre o peito. Olhou para os dois homens. «Não há nada de estranho,» disse ela. «A sua companhia procedeu assim porque foram capazes de organizar tudo à distância, pelo telefone. Telefonaram para a casa mortuária, eles vieram cá e cremaram-no. Está sempre a acontecer, em especial quando não há família. Agora acabem com isso», disse ela, «e chamem os técnicos para reparar a maquina. Vocês estão com um problema com a IRM - e é tudo.»

Jimmy Wauneka queria encerrar o caso Traub tão rápido quanto possível. Mas de volta às Urgências, viu um saco de plástico que continha as roupas e os artigos de uso pessoal do velho. A única coisa que podia fazer era voltar a telefonar para a ITC. Desta vez falou com outro vice-presidente, uma tal Ms. Kramer. O Dr. Gordon estava em reunião e não se encontrava disponível. «É a respeito do Dr. Traub,» disse ele.

«Oh, sim.» Um suspiro de tristeza. «Pobre Dr. Traub, era um homem tão simpático.»

«0 seu corpo foi cremado hoje, mas ainda tenho aqui alguns dos seus artigos pessoais. Não sei o que é que querem que faça com eles.»

«0 Dr. Traub não tem parentes vivos», respondeu Ms. Kramer. «Duvido de que alguém queira as suas roupas ou qualquer outra coisa. De que artigos é que está a falar?»

«Bom, tinha um diagrama no bolso. Parece uma igreja ou talvez um mosteiro.»

«Uh-huli.» «Faz alguma ideia da razão pela qual tinha um diagrama de um mosteiro?»

48

«Não, na verdade não sei. Para lhe dizer a verdade, o Dr. Traub andava um bocado estranho nestas últimas semanas. Ficou bastante deprimido desde que a esposa morreu. Tem a certeza de que é um mosteiro?»



«Não, certeza não tenho. Não sei ao certo o que é que possa ser. Quer que lhe mande este diagrama?»

«Se não lhe fizer muita diferença.» «E quanto a esta coisa em cerâmica?» «Coisa em cerâmica?»

«Tinha uma peça em cerâmica. Tem cerca de uma polegada quadrada e uma gravação que diz ITC.»

«Oh. Okay. Não há problemas.»

«Dei voltas à cabeça a pensar no que é que poderia ser.» «0 que é que poderia ser? É uma chapa de identificação.»

«Não se parece com qualquer chapa de identificação que alguma vez tenha visto.»

«Trata-se de um novo tipo. Usamo-la para passar por portas de segurança e coisas no género.»

«Também quer a chapa de volta?»

«Se não lhe causar muita maçada. Vamos combinar uma coisa. Vou dar-lhe o nosso número de correio expresso FedEx e basta-lhe meter isso num envelope e expedir para o nosso endereço.»

Jimmy Wauneka pousou o auscultador e pensou com os seus botões: Tretas.

Telefonou ao Padre Grogan, o pároco da Igreja Católica da sua zona, e falou-lhe sobre o diagrama e a abreviatura que se via no fundo: mon.ste.mere.

«Poderia ser o Mosteiro de Sainte-Mère», respondeu ele prontamente. «Com que então é um mosteiro?»

«Oh, absolutamente.» «Onde?

«Não faço a menor ideia. Não se trata de um nome espanhol. «Mère» é o termo em Francês para «Mãe». Santa Mãe quer dizer a Virgem Maria. Talvez na Louisiana.>>

«Como é que eu o poderia localizar?»

«Tenho algures uma lista de mosteiros. Dá-me uma hora ou duas para descobrir.»

49

«Lamento Jimmy. Não vejo que haja aqui qualquer mistério.»



Carlos Chavez era o adjunto do chefe da polícia de Gallup, quase que a atingir a reforma, e fora o conselheiro de jímmy Wauneka desde o início. Naquele momento estava sentado com as botas em cima da secretária, ouvindo aquilo que Wauneka lhe dizia com um ar céptico.

«Bom, aqui vai>, disse Wauneka. «Apanham este tipo no Corazón Canyon, demente e com um ataque de fúria, mas não se verificam nem queimaduras solares, nem desidratação, nem exposição.»

«Sendo assim, foi abandonado. A família atirou-o para fora do carro.» «Não. Não existem parentes vivos.»

«Okay, então foi ele que conduziu até lá.» «Ninguém viu um carro.»

«Quem é esse ninguém?»

«As pessoas que o encontraram.»

Chavez deu um suspiro. «Já foste tu mesmo ao Corazón Canyon e procuraste encontrar um carro?»

Wauncka hesitou. «Não.»

«Aceitaste a palavra de um estranho a esse respeito.» «Sim. Acho que foi isso.»

«Achas? Isso quer dizer que ainda se pode encontrar lá um carro.» «É possível.»

Okay. Então o que é que vamos fazer a seguir?

Telefonei para a companhia dele, a ITC.» «E o que é que eles te disseram?»

«Disseram-me que andava deprimido porque a esposa falecera.» «Compreendo.»

«Não estou lá muito certo», disse Wauneka. «Também telefonei para o apartamento onde Traub viveu. Falei com o administrador do condomínio. A esposa já morreu há um ano.»

«Sendo assim, tudo isto aconteceu perto do aniversário da morte dela, não é? É normalmente nessas alturas que as coisas acontecem, Jimmy.»

«Acho que devíamos ir lá e falar com alguns dos tipos do Centro de Investigações da ITC.»

«Pelas alminhas de quem? Estão a duzentas e cinquenta milhas do local onde este tipo foi encontrado.»

50

«Eu sei, mas ... »



«Mas o quê? Quantas vezes é que já encontrámos um turista espalmado nas reservas? Três, quatro vezes por ano? E em metade das vezes já estavam mortos, certo? Ou morreram pouco depois, não é verdade?»

«SIM ... »

«E é sempre por uma de duas razões. Ou se trata de gajos do gênero New Age que vêm sentir-se em comunhão com o deus das águias e que se lixam por causa de uma avaria do carro. Ou então estão deprimidos. Ou uma coisa ou outra. E este tipo estava deprimido.»



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   39


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal