Resgate no tempo



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«E não querem que tudo isso seja falso. Não querem que seja alindado ou limpo. Querem que seja autêntico. Quem é que poderá garantir essa autenticidade? Quem é que se tornará na marca registada do passado? A ITC.

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«Irei demonstrar-lhes dentro em pouco», disse ele, «os nossos planos para o turismo cultural nos locais de todo o mundo. Irei concentrar-me num deles existente em França, mas também temos muitos outros. Em todos os casos entregamos sempre o projecto ao governo do país. Mas possuímos o terreno envolvente, o que quer dizer que seremos donos dos hotéis e restaurantes e lojas, todo o aparelho do turismo. Isto para não falar dos livros e filmes, guias, costumes e tudo o resto. Os turistas pagarão dez dólares para entrarem no local. Mas gastarão quinhentos dólares em custos de estadia fora dele. Tudo isso será controlado por nós.» Sorriu. «Para ter a certeza de que tudo isso será realizado convenientemente, como se compreende.»



Um gráfico foi projectado atrás dele.

«Calculamos que cada um dos locais irá gerar mais de dois biliões de dólares por ano, incluindo o merchandising. Calculamos que o rendimento total das companhias irá gerar mais de cem biliões de dólares por ano ao atingir a segunda década do século que vai entrar. É esta uma das razões para assumirmos estes compromissos.

«A outra razão é mais importante. Sob a aparência do turismo, estamos com efeito a construir uma marca registada intelectual. Tais marcas já existem em termos de software, por exemplo. Mas não existe nenhuma quando falamos de história. E, no entanto, a História é a mais poderosa ferramenta intelectual que a sociedade possui. Sejamos claros. A História não é um registo desapaixonado de acontecimentos mortos. Nem se trata de um recreio para académicos permitindo as suas disputas triviais.

«A finalidade da História é de explicar o presente - para dizer que o mundo à nossa volta é como é. A História diz-nos aquilo que é importante no nosso mundo e como é que isso aconteceu. Diz-nos porque é que as coisas que valorizamos são as que devíamos valorizar. E diz-nos aquilo que deve ser ignorado ou desprezado. Isto é o verdadeiro poder - um poder profundo. O poder para definir toda uma sociedade.

«0 futuro assenta no passado - em quem quer que controle o passado. Um tal controlo nunca antes havia sido possível. Agora é. Nós na ITC queremos assistir os nossos clientes na formação do mundo em que todos nós vivemos, trabalhamos e consumimos. E ao fazermos isso, acreditamos que iremos ter o vosso total e incondicional apoio.»

Não houve qualquer aplauso, apenas um silêncio de gelo. Esse foi o modo como sempre aconteceu. Levou-lhes algum tempo para compreender aquilo que ele estava a dizer. «Obrigado pela vossa atenção», disse Doniger, e saiu do palco a passos largos.

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«É melhor que seja importante», disse Doniger. «Não gosto de interromper uma sessão desta maneira.»



«É importante», disse Gordon. Caminhavam ao longo do corredor na direcção da sala das máquinas.

«Estão de volta?»

«Acho que sim. Temos as blindagens a funcionar e três deles estão de volta.» «Quando?»

«Há cerca de quinze minutos.» «E?»

«Passaram por muito. Um deles está bastante ferido e vai precisar de hospitalização. Os outros dois estão bem.»

«E depois? Qual é o problema?» Passaram a porta.

«Querem saber», disse Gordon, «porque é que a ITC não lhes contou os seus planos.»

«Porque não têm nada a ver com isso.» Respondeu Doniger. «Arriscaram as vidas... »

«Ofereceram-se como voluntários.» «Mas eles ... »

«Oh, que se fodam», explodiu Doniger. «Porquê toda esta súbita preocupação? Quem é que se preocupa? Não passam de um bando de historiadores - de qualquer modo, vão todos perder o trabalho, a não ser que estejam na disposição de trabalhar para mim.»

Gordon não respondeu. Estava a olhar por cima do ombro de Doniger. Este voltou-se lentamente.

Johnston estava ali de pé, e a rapariga, que agora tinha o cabelo cortado muito curto, e um dos homens. Estavam sujos, em farrapos e cobertos de sangue. Estavam junto a um monitor vídeo que mostrava o auditório. Os executivos estavam agora a deixar o auditório e o palco continuava vazio. Mas deviam ter ouvido o discurso, pelo menos parte disso.

«Muito bem», disse Doniger, sorrindo repentinamente. «Sinto-me muito contente por estarem de volta.»

«Também nós», disse Johnston. Mas não sorriu. Ninguém falou.

Limitaram-se a olhar para ele intensamente.

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«Oh, vão todos para o raio que os parta», disse. Voltou-se para Gordon. «Porque é que me trouxe para aqui? Porque os historiadores estão preocupados? Este é o futuro, gostem ou não gostem. Não tenho tempo para esta merda. Tenho uma companhia para dirígir.»

Mas Gordon tinha um pequeno cilindro de gás na mão. «Houve algumas discussões, Bob», disse. «Julgo que a partir de agora a companhia deverá ser dirigida por alguém mais moderado.»

Ouviu-se um silvo. Doniger sentiu um cheiro acre, parecido com éter.

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Acordou, ouvindo um zumbido em tom agudo, e aquilo que se parecia com o ruído de metal lacerado. Estava dentro da máquina. Viu que todos olhavam para ele atrás das blindagens. Sabia que não devia sair, pelo menos até ter começado. Disse em voz alta, «Isto não vai funcionar» e, logo em seguida, o flash violeta da luz laser cegou-o. Os flashes começavam agora a surgir rapidamente. Viu a sala de trânsito erguer-se no ar enquanto ele encolhia - em seguida o silvar da espuma enquanto ela descia na sua direcção - e, por último, o rangido final nos ouvidos, enquanto fechava os olhos, esperando pelo impacto. Negrume total.

Ouviu o chilrear dos pássaros e abriu os olhos. A primeira coisa que fez foi olhar para o céu. Estava claro. Não era portanto o Vesúvio. Encontrava-se numa floresta primitiva com enormes árvores. Portanto não era Tóquio. O chilreio dos pássaros era agradável. Não era Tunguska.

Onde raio é que ele estava?

A máquina pousou fazendo um pequeno ângulo; o solo da floresta descia para a esquerda. Viu luz por entre os troncos das árvores a uma certa distância. Saiu da máquina e desceu a encosta. Algures à distância ouviu o rufar lento de um tambor solitário.

Fez uma pausa junto das árvores e olhou para baixo na direcção de uma sociedade fortificada. Estava parcialmente obscurecida pelo fumo de muitas fogueiras, mas reconheceu-a de imediato. Oh, que raio, pensou ele, é apenas Castelgard. O que é que seria tão importante para ter que vir aqui?

Era Gordon, evidentemente, que se encontrava atrás dele. Essa treta de posição sobre o modo como os académicos se encontravam desapontados. Era

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Gordon. O filho da mãe estivera a desenvolver a tecnologia, e agora estava convencido de que também passaria a dirigir a companhia. Gordon mandara-o de regresso, convencido de que não seria capaz de voltar.



Mas Doniger conseguia regressar e era isso que iria fazer. Não se sentia preocupado, porque trazia sempre com ele uma cerâmica. Enflou-a numa ranhura no tacão do sapato e, em seguida, tirou o sapato e olhou para a ranhura. Sim, não havia dúvida, a cerâmica branca estava lá. Mas entrara muito na fenda e parecia ter bloqueado dentro da ranhura. Quando sacudiu o sapato a cerâmica não caíu. Tentou com um pauzinho que meteu na ranhura, mas o pau partiu-se.

Tentou tirar o tacão do sapato, mas não conseguiu arranjar um ponto de apoio; o tacão não se moveu. Aquilo de que precisava era de uma ferramenta metálica de qualquer espécie, uma cunha ou um cinzel. Tinha a certeza de que podia encontrar uma ferramenta na cidade.

Voltou a calçar o sapato, tirou o casaco e a gravata e começou a descer a encosta. Olhando para a cidade, notou alguns detalhes estranhos. Estava muito perto da porta leste da muralha da cidade, mas o portão estava aberto de par em par. E não se viam soldados ao longo das muralhas. Era estranho. Qualquer que fosse o ano era obviamente um tempo de paz - havia essas épocas, entre as invasões inglesas. Mas, mesmo assim, era de opinião de que a porta deveria estar sempre guardada. Olhou para os campos e não viu ninguém a tomar conta deles. Pareciam descurados, com grandes tufos de ervas daninhas.

Mas que raio é que se passa? pensou.

Passou pelo portão e entrou na cidade. Viu que o portão não estava guardado porque o soldado de guarda jazia morto, deitado de costas. Doniger ,debruçou-se para o observar melhor. Viam-se laivos brilhantes de sangue na zona dos olhos. Pensou que devia ter sido atingido na cabeça.

Voltou-se para a cidade. O fumo, via agora, saía de pequenos potes que haviam sido colocados por toda a parte - no solo, nas muralhas ou nos postes de vedação. E a cidade parecia estar deserta, vazia naquele brilhante dia de sol. Dirigiu-se para o mercado mas não havia lá ninguém. Ouviu o som de monges que entoavam um cântico; dirigiam-se na sua direcção. E ouviu o tambor. Sentiu um arrepio.

Uma dúzia de monges, todos de negro, viraram a esquina numa espécie de procissão, entoando um cântico. Alguns deles estavam nus até à cintura, fustigando-se com chicotes de couro reforçado com pontas de metal. Os ombros e as costas sangravam abundantemente.

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Flagelantes. Era aquilo que eles eram, flagelantes. Doniger deu um pequeno gemido

e afastou-se dos monges, que passaram por ele em formação cerrada, ignorando-o. Continuou a afastar-se, cada vez mais, até que as suas costas tocaram em qualquer coisa de madeira.

Voltou-se e viu uma carroça de cavalos feita de madeira, mas não havia cavalo. Viu montes de roupas empilhadas na carroça. Em seguida viu um pé de criança saindo de uma das pilhas de roupa. Um braço de mulher saía de outra pilha. O zumbido das moscas era muito alto. Uma nuvem de moscas cobria os corpos.

Doniger começou a tremer.

No braço viam-se estranhas manchas negras. A Morte Negra.

Sabia agora qual era o ano. 1348. O ano em que a praga atingiu Castelgard pela primeira vez e matou um terço da população. E sabia como é que se espalhava - com as picadas das moscas, pelo toque e pelo ar. O facto de respirar o mesmo ar era suficiente para matar. Sabia que podia matar rapidamente, que as pessoas caíam simplesmente nas ruas. Num minuto uma pessoa estava perfeitamente bem. Em seguida vinha a tosse e a dor de cabeça. Uma hora depois a pessoa estava morta.

Estivera muito perto do soldado que se encontrava no portão de entrada. Estivera perto do rosto do homem.

Muito perto.

Doniger encostou-se sem forças a uma parede enquanto o torpor do pânico o ia invadindo.

Sentou-se sem forças e, nesse momento, começou a tossir.

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Epílogo

A chuva fustigava a cinzenta paisagem inglesa. Os limpa-pára-brisas chiavam num movimento para a esquerda e para a direita. No lugar do condutor, Edward Johnston inclinou-se para a frente e semicerrou os olhos tentando ver através da chuva. Lá fora avistavam-se pequenas colinas de um verde escuro, demarcadas por sebes escuras e tudo nublado por causa da chuva. Já tinham passado a última quinta há um par de milhas.

johnston perguntou: «Elsie, tens a certeza de que é esta a estrada?» «Absolutamente», disse Elsie Kastner que tinha o mapa aberto no colo. Traçou o percurso com o dedo. «Quatro milhas depois de Cheatham Cross no caminho para Bishop'S Vale, e uma milha mais tarde, devia ser mais ou menos aqui, à direita.»

Apontou para a encosta de uma colina onde se viam alguns carvalhos raquíticos.

«Não vejo nada», disse Chris do assento de trás.

Kate perguntou: «0 ar condicionado está ligado? Estou cheia de calor.» Estava grávida de sete meses e andava sempre cheia de calor.

«Sim, está ligado», respondeu Johnston. «Esteve sempre ligado?»

Chris deu-lhe uma palmadinha no joelho, tranquilizador.

johnston conduzia lentamente, olhando para os marcos quilométricos ao lado da estrada. A chuva diminuiu. Já conseguiam ver melhor. Foi nessa altura que Elsie exclamou: «Ali!»

No topo da colina via-se um rectângulo escuro, com paredes em ruínas. «É aquilo?»

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«É Eltham Castle», disse. «Aquilo que resta dele.»



Johnston estacionou o carro ao lado da estrada e desligou a ignição. Elsie lia o gula. «Construído inicialmente neste lugar por John d'Elthaim, no século onze, com várias construções adicionais posteriores. Notavelmente as ruínas aguentaram-se desde o século doze, e uma capela no estilo gótico inglês desde o século catorze. Não se encontra relacionado com o Castelo Eltham em Londres, que é de um período muito posterior.»

A chuva abrandou, Passando a algumas gotas arrastadas pelo vento. Johnston abriu a porta do carro e saiu, encolhendo-se dentro da gabardina. Elsie saiu do lado do passageiro, os documentos guardados num dossier em plástico. Chris correu à volta do carro para abrir a porta a Kate e ajudá-la a sair. Passaram uma pequena parede de pedra e começaram a trepar na direcção do castelo.

A ruína era mais substancial do que parecera da estrada; elevadas muralhas de pedra, escurecidas pela chuva. Não havia tectos; as dependências abriam directamente para o céu. Ninguém falou enquanto caminhavam por entre as ruínas. Não viram quaisquer sinais, nem marcadores de antiguidades, nada que indicasse o que fora aquele lugar ou até mesmo o seu nome. Finalmente Kate perguntou: «Onde é que é?»

«A capela? Ali.»

Contornando uma elevada muralha, viram a capela, surpreendentemente completa, com o tecto reconstruído algures no passado. As janelas eram meros arcos abertos na pedra, sem vidro. Não havia porta.

Dentro da capela o vento assobiava através de fendas e janelas. Água escorria do tecto. Johnston pegou numa grande lanterna e apontou-a às paredes. Chris perguntou: «Como é que conseguiste encontrar este lugar, Elsie?» «Nos documentos como é lógico», disse ela. «Nos arquivos Troyes havia

uma referência a um rico salteador inglês chamado Andrew d'Eltham que fez uma visita ao Mosteiro de Sainte-Mère nos últimos anos da sua vida. Trouxe toda a sua família de Inglaterra, incluindo a esposa e os filhos já crescidos. Foi isso que me levou a iniciar a investigação.»

«Aqui», disse Johnston, apontando a lanterna para o solo. Aproximaram-se todos para verem.

Ramos quebrados e uma camada de folhas encharcadas cobriam o solo. Johnston baixara-se, apoiando-se nas mãos e joelhos, limpando-as com as mãos para expor pedras tumulares gastas pelo tempo que haviam sido colocadas no solo. Chris susteve a respiração quando viu a primeira. Era uma mulher, vestida sobriamente com vestido comprido, deitada de costas. A figura era indis-

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cutivelmente de Lady Claire. Em contraste com muitas outras esculturas, Claire era representada com os olhos abertos, encarando francamente o visitante. «Ainda bela», disse Kate, mantendo-se de pé com as costas curvas, a mão apoiada na cinta.

«Sim», disse johnston. «Ainda bela.»

Limpavam agora a segunda pedra tumular. jazendo ao lado de Claire, viram André Marek. Também ele tinha os olhos abertos. Marek parecia mais velho e notava-se um vinco no lado do rosto que podia ter sido da idade ou até mesmo de uma cicatriz.

Elsie disse: «De acordo com os documentos, Andrew escoltou Lady Claire de regresso a Inglaterra desde França, e em seguida casou-se com ela. Não se preocupou com os rumores de que Claire havia assassinado o marido anterior. Não havia a menor dúvida de que se encontrava profundamente apaixonado pela esposa. Tiveram cinco filhos e foram inseparáveis durante toda a vida.

«Nos seus últimos anos», disse Elsie, «o velho caminhante assentou, adoptando uma vida tranquila e dedicou-se aos seus netos. As palavras de Andrew ao morrer foram "Escolhi uma boa vida" Foi enterrado na capela da família em Ehham, em junho de 1382.»

«Mil trezentos e oitenta e dois», disse Chris. «Tinha cinquenta e quatro anos.» johnston estava a limpar o resto da pedra. Viram o escudo de Marek: um leão inglês sentado num campo de lilases franceses. Acima do escudos liam-se palavras em Francês.

Elsie disse: «A divisa da sua família, recordando Richard Lionheart, via-se acima da cota de armas, Mes compaingnons cuij`amole et cuij`aím,... Me di, chanson.» Fez uma pausa. «Companheiros que amei e que ainda amo... Dizei-lhes a minha canção.»

Olharam para André durante longo tempo.

johnston tocou os contornos de pedra do rosto de Marek com as pontas dos dedos. «Muito bem,» disse ele então, «finalmente sabemos o que é que aconteceu.»

«Achas que ele foi feliz?», perguntou Chris.

«Sim», disse Johnston. Mas estava a pensar que por muito que Marek gostasse dele, nunca poderia ser o seu mundo. De modo nenhum. Deve ter tido sempre a sensação de que não passava de um estranho, uma pessoa separada daquilo que a rodeava porque viera de outro lugar muito diferente.

O vento gemia. Algumas folhas ergueram-se no ar, deslizando pelo solo. O ar estava húmido e frio. Permaneceram em silêncio.

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«Gostava de saber se ele pensava em nós», disse Chris olhando para o rosto de pedra. «Gostava de saber se alguma vez sentiu a nossa falta.»



«Certamente que sim», disse o Professor. «Não sentes a falta dele?» Chris acenou com a cabeça. Kate fungou e assoou o nariz.

«Eu sinto», disse Johnston.

Regressaram ao exterior. Desceram a colina em direcção ao carro. Naquela altura a chuva parara completamente, mas as nuvens continuavam escuras e pesadas, mantendo-se baixas sobre as distantes colinas.

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AGRADECIMENTOS

A nossa compreensão do período medieval mudou de forma dramática nos últimos cinquenta anos. Embora ainda se ouça ocasionalmente um ou outro cientista falar da Idade das Trevas, a visão moderna há muito que pôs de parte tais atitudes. Uma idade que durante muito tempo se pensou ser estática, brutal e mergulhada na ignorância é agora compreendida como dinâmica e mudando rapidamente: uma idade onde o conhecimento era procurado e valorizado; onde nasciam grandes universidades, e a aprendizagem era apoiada; onde a tecnologia era entusiasticamente avançada; onde as relações sociais eram em fluxo; onde o comércio era internacional; onde o nível geral de violência era muitas vezes menos mortal do que nos nossos dias. Quanto à reputação dos tempos medievais como um tempo sombrio de paroquialismo, perseguições religiosas e chacinas, o registo do século vinte deverá conduzir qualquer observador atento a concluir que não somos de modo nenhum superiores.

De facto, a concepção de um período medieval brutal foi uma invenção da Renascença, cUjos defensores tinham a maior dificuldade em definir um novo espírito, mesmo à custa dos factos. Se um mundo medieval mergulhado na ignorância provou ser um erro total, poderá dever-se ao facto de confirmar uma apreciada crença contemporânea - de que a nossa espécie se move sempre em frente, na direcção de melhores e mais iluminados modos de vida. Esta crença não passa de fantasia, mas é difícil de anular. Torna-se especialmente difícil para as pessoas modernas aceitar que a nossa idade moderna e científica possa não ser uma melhoria em relação ao período pré-científico.

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Um mundo sobre a viagem no tempo. Embora seja verdade que a teleportação quântica já foi demonstrada em laboratórios de todo o mundo, a aplicação prática de um tal fenômeno ainda se encontra no futuro. As ideias apresentadas neste livro foram estimuladas pelas especulações de David Detusch, Kip Thorne, Paul Nahin e Charles Bennett, entre outros. Aquilo que aqui foi escrito poderá diverti-los, mas nunca o levarão a sério. Isto é uma novela; a viagem no tempo ainda permanece firmemente no campo da fantasia.
Mas a representação do mundo medieval tem uma base mais substancial e, por esse motivo, sinto-me em débito para com um grande número de académicos, alguns dos quais se encontram identificados na bibliografia que se segue. Os erros são meus, nunca deles.

Sinto-me igualmente grato a Catherine Karmer pelas suas ilustrações, e a Brant Gordon por todos os esquemas gerados em computador.



Finalmente, um agradecimento muito especial ao historiador Bart Vranken pela sua inestimável visão, e pelo seu companheirismo enquanto deambulámos por ruínas pouco conhecidas e muito descuradas da região de Périgord.

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