Resgate no tempo



Baixar 1.83 Mb.
Página5/39
Encontro13.02.2018
Tamanho1.83 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   39

«Sempre na mesma, sempre na mesma. Mas na minha idade isso já é mais do que suficiente.» Observou o local demoradamente e, em seguida, colocou a mão no ombro de Johnston, num ar conspiratório. «Edouard, tenho que te pedir um favor. Estou com um pequeno problema.»

«Oh?»

«Conheces aquela repórter do Express ... » «Não», disse johnston. «De modo nenhum.» «Mas Edouard ... »



«Já falei com ela ao telefone. É uma dessas pessoas intriguistas que nem sequer sabe aquilo que quer. O capitalismo é mau, todas as corporações são obra do diabo ... »

«Eu sei, eu sei, Edouard, tudo aquilo que dizes é verdade.» Aproximou-se mais. «Mas vai para a cama com o ministro da Cultura.»

«Isso não quer dizer que nos limite o campo de manobra» disse johnston.

65

«Edouard, por favor. As pessoas começam a ouvir aquilo que ela diz. Ela pode causar problemas. Para mim. Para ti. Para este projecto.»



Johnston suspirou desalentado.

«Sabes que existe um sentimento generalizado de que os americanos só servem para destruir as outras culturas, ao mesmo tempo que não têm cultura própria. Tem havido Problemas com o cinema e a música. E tem sido discutida a possibilidade de banir os americanos de todos os locais culturais franceses. Hmm?»

Johnston disse:

«E o teu próprio patrocinador, a ITC, pediu-te que fales com ela.» isso é verdade?»

«Exactamente. Uma tal Ms. Kramer pediu-te que fales com ela.» Johnston suspirou mais uma vez.

«Só perdes alguns minutos, prometo-te», disse Bellin apontando para o Land Rover. «Ela está no carro.»

Johnston perguntou: «Trouxeste-a pessoalmente?»

«Edouard, estou a tentar explicar-te», disse Bellin. «Temos que levar esta mulher a sério. Chama-se Louise Delvert.»

Quando ela desceu da viatura, Chris viu uma mulher com pouco mais de quarenta anos, esguia e morena, um rosto agradável e de aspecto atraente. Tinha o estilo das mulheres europeias a entrar na idade madura, exalando de uma forma subentendida uma sexualidade sofisticada. Vestia-se como se estivesse preparada para uma expedição, camisa e calças de caqui, máquina fotográfica, vídeo e gravador pendurados ao pescoço. Trazia na mão um bloco de notas e dirigiu-se para eles com um ar profissional.

Mas ao aproximar-se abrandou o passo.

Delvert estendeu-lhe a mão. «Professor Johnston», disse ela num inglês sem sotaque. O seu sorriso era sincero e quente. «Nem sabe como lhe estou agradecida por perder o seu tempo para me receber.»

«Não tem de quê», respondeu Johnston, apertando-lhe a mão. «Fez uma grande viagem, Miss Delvert. Tenho o maior prazer em ajudá-la naquilo que me for possível.»

Johnston continuava a segurar-lhe a mão. Ela continuava a sorrir para ele. Esta situação prolongou-se por mais dez segundos, até que ela disse que era muito amável da parte dele e ele respondeu que, muito pelo contrário, era o mínimo que podia fazer por ela.

66

Caminharam ao longo das escavações do mosteiro num pequeno grupo compacto: o Professor e Miss Delvert à frente, Bellin e Chris seguindo atrás, não demasiado perto mas mesmo assim tentando ouvir a conversa. Bellin ostentava um sorriso calmo denotando satisfação; Chris pensou que havia mais do que uma maneira de lidar com um incómodo ministro da Cultura.



Quanto ao Professor, a esposa morrera há muitos anos, e embora circulassem rumores, Chris nunca o vira com outra mulher. Sentia-se fascinado ao vê-lo agora. Johnston não havia mudado o seu modo de proceder; simplesmente concedeu à repórter a sua total atenção. Conseguia transmitir a ideia de que não existia nada mais importante no mundo do que ela. E Chris tinha a impressão de que as perguntas dela eram muito menos agressivas do que havia planeado.

«Como sabe, Professor», disse ela, «desde há algum tempo que o meu jornal tem estado a preparar uma história sobre a companhia americana ITC.» «Sim, já ouvi falar nisso.»

«É verdade que a ITC patrocina este projecto?» «Sim, são eles de facto.»

Ela disse: «Disseram-nos que eles contribuem com um milhão de dólares

por ano.»

«É mais ou menos isso.»

Continuaram a caminhar por mais alguns momentos. Parecia que ela preparava a pergunta seguinte cuidadosamente.

«No jornal há quem pense», disse ela, «que é muito dinheiro para gastar em arqueologia medieval.»

«Bom, pode dizer a essa gente do jornal», disse Johnston, «que não é. Para dizer a verdade, é o valor médio para um projecto deste tamanho. iTC dá-nos duzentos e cinquenta mil em custos directos, cento e vinte e cinco mil em custos indirectos pagos à universidade, mais oitenta mil em bolsas de estudo, salários e despesas de viagem e alimentação, e ainda cinquenta para custos de laboratório e arquivo.»

«Mas de certeza que deve haver muito mais do que isso», disse ela, brincando com o cabelo com uma esferográfica e pestanejando rapidamente. Chris pensou, a fulana está a fazer-lhe olhinhos. Nunca vira uma mulher fazer uma coisa daquelas. Só uma francesa era capaz daquilo.

O Professor pareceu não ter notado. «Sim, de facto há mais», respondeu, «Mas não tem nada a ver connosco. O resto tem a ver com custos de recons-

67

trução do próprio local. É contabilizado à parte dado que, como é do seu conhecimento, os custos de reconstrução são partilhados com o seu governo.»



«Eu sei», disse ela. «Sendo assim, o meio milhão de dólares que a sua equipa gasta, na sua opinião é uma coisa perfeitamente normal?»

«Bom, acho que podemos perguntar ao François qual é a sua opinião», disse Johnston. «Mas não nos podemos esquecer de que se trabalha em vinte e sete locais arqueológicos neste canto da França. Vão desde as escavações do Paleolítico que a Universidade de Zurique está a fazer com a Carnegic-Mellon, ao castrum Romano, o forte, onde a Universidade de Bordéus está a trabalhar com Oxford. O custo médio anual destes projectos é de cerca de meio milhão de dólares por ano.»

«Não sabia disso.» Olhava-o directamente nos olhos, numa atitude de total admiração. Admiração a mais, pensou Chris. Lembrou-se de repente de que poderia ter interpretado mal o que se estava a passar. Podia tratar-se simplesmente de uma tentativa dela para conseguir uma história.

Johnston olhou de relance para Bellin, que caminhava logo atrás dele. «François? Qual é a tua opinião.»

«Acho que sabes aquilo que estás a fazer - isto é, a dizer», respondeu Bellin. «Os fundos variam entre quatrocentos e seiscentos mil dólares americanos. Os Escandinavos, Alemães e Americanos custam mais. O Paleolítico custa mais. Mas acho que sim, podemos considerar meio milhão como uma média razoável. »

Miss Delvert continuou sem tirar os olhos de Johnston: «E para os seus subsídios, Professor Johnston, quais são os contactos que necessita de manter com a ITC?»

«Praticamente nenhuns.» «Praticamente nenhuns? A sério?»

«0 seu presidente, Robert Doniger, visitou-nos há dois anos. É um apaixonado pela história e mostrou muito entusiasmo parecia quase uma criança. Além disso a ITC manda um vice-presidente uma vez por mês. Neste momento temos cá um. Mas de um modo geral deixam-nos em paz.»

«E o que é que sabe da ITC em si?»

Johnston encolheu os ombros. «Fazem investigação em física quântica. Fabricam componentes usados em IRM'S aparelhos médicos e coisas análogas. E estão a desenvolver diversas técnicas de base de dados de suporte quântico, precisamente para conseguir datar qualquer artefacto. Estamos a colaborar nesse aspecto.»

«Estou a ver. E essas técnicas, funcionam?»

68

«Temos protótipos de dispositivos no nosso escritório da quinta. Até agora têm-se mostrado demasiado delicados para trabalho de campo. Avariam-se com muita frequência.»



«Mas é por isso que a iTC o está a subsidiar - para testar o seu equipamento?»

«Não», respondeu johnston. «É exactamente o contrário. A iTC está a produzir equipamento de datar pela mesma razão que leva a iTC a subsidiar-nos

- porque Bob Doniger é um entusiasta a respeito da história. Somos o seu hobby.»

«É possível. Mas Mr. Doniger também é um homem de negócios agressivo e com visão.»

«É verdade.»

«Está mesmo convencido de que ele o está a subsidiar sem qualquer interesse pessoal?» Falava num tom ligeiro, quase provocante.

johnston olhou directamente para ela. «Nunca se sabe, Miss Delvert, Por vezes torna-se extremamente difícil conhecer a fundo as razões de uma pessoa.» Chris pensou: Ele também está desconfiado.

Delvert deu a impressão de que também o sentiu e imediatamente passou para um tom mais profissional. «É evidente que sim. Mas tenho um motivo para fazer esta pergunta. É ou não verdade que não detém a propriedade dos resultados da sua investigação? Qualquer coisa que encontre, qualquer coisa que descubra, é propriedade da ITC.»

«Sim, está correcto.»

«E isso não o incomoda?»

«Se eu trabalhasse para a Microsoft, Bill Gates seria o dono dos resultados da minha investigação. Bill Gates tomaria posse de qualquer coisa que eu encontrasse ou descobrisse.»

«Concordo. Mas dificilmente poderemos afirmar que se trata da mesma situação.»

«Porque não? A iTC é uma companhia técnica, e Doniger estabeleceu este subsídio dentro dos moldes que as companhias técnicas utilizam para tais situações. O acordo não me preocupa. Temos o direito de publicar as nossas descobertaS - vão ao ponto de pagarem essa mesma publicação.»

«Depois de as terem aprovado.»

«É verdade. Primeiro enviamos os nossos relatórios para eles. Mas nunca fizeram qualquer comentário.»

«Sendo assim, não vê qualquer plano especial que a iTC tenha na manga?» perguntou ela.

69

«Acha que sim?»



«Não faço ideia», respondeu ela. «É por causa disso que lhe estou a perguntar. É evidente que existem diversos aspectos mesmo muito estranhos no comportamento da ITC enquanto companhia.»

«Que aspectos?»

«Por exemplo», disse ela, «são um dos maiores consumidores de xénon em todo o mundo.»

«Xénon? Está a falar do gás?»

«Exactamente. É usado em lasers e em válvulas electrónicas.»

johnston encolheu os ombros. «Por mim podem ter todo o gás xérion que quiserem. Não consigo entender como é que isso possa estar relacionado comigo.» «E o que é que me diz do interesse deles a respeito de metais raros? Há

pouco tempo a iTC comprou uma companhia nigeriana para assegurar o seu fornecimento de nióbio.»

«Nióbio.» Johnston abanou a cabeça. «0 que é o nióbio?» «É um metal semelhante ao titânio.»

«E é usado em quê?»

«Em electroímans supercondutores, e em reactores nucleares.»

«E tem alguma ideia sobre aquilo em que a iTC o usa?» johnston abanou a cabeça mais uma vez. «Tem de lhes perguntar, Miss Delvert.»

«já o fiz. Disseram que era para 1ma investigação em magnetismo avançado. Está a ver? Tem alguma razão para não acreditar naquilo que lhe disseram?» «Não», respondeu ela. «Mas conforme me disse, a ITC é uma companhia

de investigação. Empregam duzentos físicos na sede das suas instalações, um lugar chamado Black Rock, no Novo México. É claramente e sem qualquer dúvida uma companhia de alta tecnologia.»

«SIM ... »

«É isso que me leva a pensar. Porque é que uma companhia de alta tecnologia havia de querer tantos terrenos?»

«Terrenos?» «A iTC comprou grandes parcelas de terreno em lugares remotos por todo o mundo: nas montanhas de Sumatra, no norte do Cambodja, no sudeste do Paquistão, nas selvas da Guatemala central, nas terras altas do Peru.»

johnston franziu as sobrancelhas. «Tem a certeza?»

«Tenho. Também fizeram aquisições na Europa. A oeste de Roma, 500 hectares. Na Alemanha, próximo de Heidelberg, setecentos hectares. Na França, 1000 hectares nas colinas calcáreas sobre o Rio Lot. E finalmente, aqui também.»

70

«Aqui?» «Exacto. Servindo-se de companhias de holding britânicas e suecas, nos mais



diversos locais em torno deste local. Presentemente é, na sua maioria, terra arável e florestas.»

«Companhias de holding?» perguntou.

«Tudo isto se torna muito difícil de detectar. O que quer que seja que a ITC está a fazer, é evidente que requer secretismo. Mas porque é que esta companhia há-de subsidiar a sua investigação e, ao mesmo tempo, comprar os terrenos em torno do local?»

«Não faço a menor ideia», disse Johnston. «Especialmente porque a iTC não é proprietária do local. Não se esqueça de que no último ano eles deram toda a área - Castelgard, Sainte-Mère e La Roque - ao governo francês.»

Evidentemente. Por uma questão de isenção de impostos.»

«Mas mesmo assim, a ITC continua a não possuir o local. Porque é que haviam de comprar os terrenos em torno dele?»

«Tenho o maior prazer em mostrar-lhe tudo aquilo que tenho.» «Talvez», disse Johnston, «fosse melhor.»

«Tenho os elementos da minha investigação no carro.»

Dirigiram-se os dois para o Land Rover. Olhando para eles enquanto se afastavam, Bellin deu um estalo com a língua. «Ah, valha-me Deus. Nos nossos dias torna-se tão difícil uma pessoa acreditar!»

Chris preparava-se para responder no seu francês péssimo quando o rádio crepitou. «Chris?» Era David Stern, o técnico do projecto. «Chris, o Professor está contigo? Pergunta-lhe se conhece alguém chamado James Wauneka.»

Chris premiu o botão do emissor. «Neste momento o Professor está ocupado. O que é que se passa?»

«É um tipo qualquer de Gallup. Já telefonou duas vezes. Quer mandar uma fotografia do nosso mosteiro que ele diz ter encontrado no deserto.» «0 quê? No deserto?»

«É possível que tenha um parafuso a menos. Diz que é polícia e continua a gaguejar qualquer coisa sobre um empregado da iTC que faleceu.» «Diz-lhe que a mande para o nosso endereço de e-mail.» disse Chris.

«E quando chegar dá-lhe uma vista de olhos.»

Voltou a desligar o rádio. Bellin estava a olhar para o relógio e em seguida voltou-se para o carro, junto do qual se encontravam johnston e Delvert, as cabeças tão juntas que quase se tocavam, enquanto consultavam diversos papéis.

71

«Tenho reuniões», disse ele em tom desalentado. «Quem sabe quanto tempo é que isto ainda vai durar?»



«Acho», disse Chris, «que já não deve demorar muito».

Vinte minutos mais tarde Bellin afastava-se no Land Rover com Miss Delvert sentada ao seu lado, e Chris encontrava-se de pé junto do Professor, acenando uma despedida. «Acho que correu tudo bastante bem», disse johnston. «0 que é que ela lhe mostrou?»

«Alguns registos de compra de terrenos da área situada em volta. Mas não é convincente. Quatro parcelas foram compradas por um grupo alemão de investimento sobre o qual se sabe muito pouco. Duas parcelas foram compradas por um advogado britânico que garante ir passar ali a sua reforma; outra por um banqueiro holandês para a sua filha de maior idade; e outras situações do mesmo gênero.»

«Há anos que os Britânicos e os Holandeses têm estado a comprar terrenos no Périgord»I disse Chris. «Não é novidade nenhuma.»

«Exactamente. Ela tem uma ideia qualquer de que todas as compras efectuadas podem conduzir à ITC. Mas é uma coisa muito vaga. É preciso ser de facto um crente.»

O carro tinha desaparecido. Voltaram-se e caminharam na direcção do rio. O sol erguera-se no céu e estava mais quente.

Cautelosamente Chris observou: «Não há dúvida de que é uma mulher encantadora.»

«Acho», respondeu johnston, «que se dedica exageradamente àquilo que faz. »

Entraram no barco a remos que se encontrava na margem do rio, e Chris remou na direcção de Castelgard.

Deixaram o barco a remos para trás e começaram a trepar em direcção ao topo da colina de Castelgard. Viram os primeiros sinais das muralhas do castelo. Deste lado, tudo aquilo que ainda existia das muralhas eram aterros cheios de ervas que terminavam em longas cicatrizes de pedras expostas e quase desfeitas. Depois de seiscentos anos quase que parecia uma característica normal da paisagem. Mas, na realidade, eram os restos de uma muralha.

72

«Você está a ver», disse o Professor, «aquilo que ela na realidade detesta é o aspecto do patrocínio feito por uma corporação. Mas a investigação arqueológica dependeu sempre de benfeitores externos. Há sete anos atrás, os benfeitores eram todos individuais: Carnegie, Peabody, Stanford. Mas actualmente a riqueza encontra-se nas corporações, e é por isso que a Nippon TV financia a Capela Sistina, a British Telecom financia York, a Philips Electronics financia o castrum de Toulouse, e a ITC nos financia a nós.»



«Falai no iria]», disse Chris. Ao chegarem ao topo da colina viram a silhueta morena de Diane Kramer que se encontrava junto de André Marek.

o Professor suspirou. «Este dia está completamente perdido. Quanto tempo é que ela vai estar aqui?»

«0 avião dela está em Bergerac. Está tudo programado para que ela saia daqui às três da tarde.»

«Peço desculpa por causa daquela mulher», disse Diane Kramer quando Johnston se aproximou dela. «Tem andado a chatear toda a gente mas temos sido incapazes de fazer o que quer que seja para remediar a situação.»

«Bellin disse-me que você queria que eu falasse com ela.»

«Queremos que toda a gente fale com ela», disse Kramer. «Estamos a fazer tudo o que se encontra ao nosso alcance para lhe demonstrar que não temos segredos.»

«Deu-me a ideia de que aquilo que a preocupa mais», disse Johnston, «é o facto da ITC estar a comprar terrenos nesta área.»

«Comprar terrenos? A ITC?» Kramer deu uma gargalhada. «É a primeira vez que ouço uma coisa dessas. Também lhe fez perguntas sobre móbio e reactores nucleares?»

«De facto perguntou. Disse que vocês compraram uma companhia na Nigéria para garantir o fornecimento.»

«Nigéria», repetiu Kramer abanando a cabeça. «Valha-me Deus. O nosso nióbio vem do Canadá. Como Sabe, o nióbio não é exactamente um metal raro. Vende-se a setenta e cinco dólares a libra.» Abanou a cabeça. «Convidámo-la a fazer uma visita às nossas instalações, a entrevistar o nosso presidente, a trazer um fotógrafo, os seus próprios especialistas, tudo aquilo que ela quisesse. Mas não. É o jornalismo moderno: não deixemos que os factos se atravessem no nosso caminho.»

73

Kramer voltou-se e apontou para as ruínas de Castelgard que se encontravam à volta deles. «De qualquer modo», disse ela, «fiz uma excelente visita com o Dr. Marek, de helicóptero e a pé. É evidente que vocês estão a fazer um trabalho absolutamente espectacular. O progresso é notávell o trabalho é de uma qualidade académica extremamente elevada, os registos são excepcionais, a sua gente sente-se feliz, o projecto está a ser muito bem dirigido. Não há dúvida de que é fabuloso. Não podia sentir-me mais feliz. Mas o Dr. Marek disse-me que ia chegar atrasado para a sua... o que era?»



«0 meu plano de ataque», disse Marek.

«0 seu plano de ataque. Acho que sim. Acho que não se podia esperar outra coisa dele. Não parece que seja qualquer coisa que se possa mudar, como uma lição de plano. Entretanto, vamos todos dar uma volta pelo local?»

«Por mim acho bem», disse Johnston.

O rádio de Chris crepitou. Ouviu-se uma voz que dizia, «Chris? É a Sophie para ti. »



«Não, não», disse Kramer. «Telefone à vontade. Entretanto posso falar com o Professor a sós.»

Johnston disse rapidamente: «Normalmente tenho o Chris comigo para tomar apontamentos.»

«Estou convencida de que hoje não precisamos de apontamentos.»

«Está bem. Pois seja.» Voltou-se para Chris. «Mas dá-me o teu rádio, não vá acontecer alguma coisa.»

«Não há problemas», respondeu Chris. Tirou o rádio do cinto e entregou-o a Johnston. Quando Johnston pegou no rádio, activou propositadamente o comutador de activação da voz. Em seguida colocou-o no cinto.

«Obrigado», disse Johnston. «Agora é melhor telefonares à Sophie. Já sabes que ela não gosta de ficar à espera.»

«Está certo», respondeu Chris.

Enquanto Johnston e Kramer começaram a caminhar pelas ruínas, disparou a correr através do campo que o separava da casa agrícola onde haviam instalado os gabinetes do projecto.

Logo a seguir às paredes em ruínas da cidade de Castelgard, a equipa havia comprado um armazém em pedra bastante delapidado, e tinham reconstruído o telhado e reparado as paredes em pedra. Era ali que armazenavam todos os

74

dispositivos electrónicos, equipamento de laboratório e os computadores de arquivo. Registos e artefactos ainda não processados encontravam-se espalhados no solo dentro de uma ampla tenda verde adjacente à casa agrícola.



Chris foi ao armazém, uma ampla dependência que eles haviam dividido em duas. Do lado esquerdo, Elsie Kastner, linguista da equipa e especialista em grafologia, sentava-se na sua própria sala, debruçada sobre documentos em pergaminho. Chris ignorou-a e dirigiu-se sem parar para a sala atafulhada com equipamento electrónico. Nessa sala David Stern, o técnico do projecto, um indivíduo magro e usando óculos, estava a falar ao telefone.

«Bom», estava Stern a dizer, «vai ter que fazer o scan do seu documento com uma resolução bastante alta para o mandar para nós. Vocês têm aí scanner?» Chris tocou no ombro de Stern. Com os lábios formou a palavra, Rádio. Stern acenou com a cabeça num gesto de compreensão e tirou o seu pró-

prio rádio do cinto. «Bom, acho que sim, o scanner do hospital está perfeito. Talvez tenham alguém que o possa ajudar. Precisamos de mil duzentos e oitenta por mil e vinte e quatro, gravado como ficheiro JPEG. Em seguida transmite-o para nós ... »

Chris correu para o exterior, sem deixar de comutar os canais rádio um a UM.

Da porta do armazém conseguia avistar todo o estaleiro. Viu Johnston e Kramer caminhando na berma do planalto sobranceiro ao mosteiro. Ela tinha um bloco de notas aberto e mostrava-lhe qualquer coisa no papel.

E finalmente encontrou-os no canal oito.

« ... celeração significativa no ritmo da investigação», estava ela a dizer. E o Professor disse: «0 quê?»

O Professor Johnston olhou por cima dos seus óculos sem armação para a mulher que se encontrava de pé à sua frente. «É impossível», exclamou.

Ela inspirou profundamente. «Talvez não me tenha explicado bem. Neste Momento já está a fazer uma certa percentagem de reconstrução. Aquilo que Bob gostaria de fazer», disse ela, «era aumentar para um programa completo de reconstrução.»

«Pois sim. E isso é impossível.» «Posso saber porquê?»

«Porque ainda não sabemos o suficiente, é essa a razão», respondeu johnston irritadamente. «Veja uma coisa: a única reconstrução que até agora fizemos foi

75

por uma questão de segurança. Reconstruímos paredes para que não caiam em cima dos nossos investigadores. Mas neste momento ainda não nos encontramos em condições para começarmos a reconstruir todo o estaleiro.»



«Mas de certeza que se pode fazer pelo menos em relação a uma parte», disse ela. «Quer dizer, olhe por exemplo para o mosteiro que temos ali. Tenho a certeza de que podia reconstruir a igreja, o claustro que se encontra ao lado, o refeitório e ... »

«0 quê?», exclamou Johnston. «0 refeitório?» O refeitório era a sala de jantar onde os monges tomavam as suas refeições. Johnston apontou para o local, onde paredes baixas e trincheiras que se entrecruzavam estabeleciam um padrão confuso. «Quem é que disse que o refeitório ficava a seguir ao claustro?» «Bom, eu ... »

«Está a ver? É esse exactamente o meu ponto de vista», disse Johnston. «Ainda não temos a certeza da localização do refeitório. Só muito recentemente é que começámos a pensar que poderá situar-se a seguir ao claustro, mas ainda não temos a certeza.»

Ela disse irritadamente: «Professor, os estudos académicos podem continuar indefinidamente, mas num mundo real de resultados ... »

«Sempre estive totalmente receptivo a resultados», disse Johnston. «Mas a finalidade básica de uma escavação como esta é a de não repetirmos os erros do passado. Há cerca de cem anos um arquitecto chamado Violletle-Duc reconstruiu monumentos por toda a França. Em alguns casos os trabalhos correram bem. Mas quando não tinha informação suficiente não deixava por isso de continuar. E nestes casos os edifícios não eram mais do que um produto da sua fantasia.»



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   39


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal