Resgate no tempo



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«Compreendo que deseje trabalhar com precisão ... »

«Se me tivessem dito que a ITC queria a Disneyland, nunca teria concordado.»

«Nunca dissemos que queríamos a Disneyland.»

«Se começar agora a reconstruir, é isso que vai ter, Miss Kramer. Não terá mais do que uma fantasia. Terra Medieval.»

«Não», disse ela. «Posso garantir-lhe de uma forma absolutamente categórica. Não queremos uma fantasia. Queremos uma reconstrução do local que seja historicamente correcta.»

«Mas não pode ser feita.»

«Estamos convencidos de que é possível.» Com

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todo o respeito, Professor, está a exagerar nas suas precauções. Sabe mais do que aquilo que pensa. Por exemplo, a cidade de Castelgard por baixo do próprio castelo. É uma das coisas que de certeza podia ser reconstruída.» «Acho que sim... parte dela acho que sim.»



«E é apenas isso que estamos a pedir. Reconstruir apenas uma parte.»

David Stern saiu lentamente do armazém, para encontrar Chris a ouvir com o rádio colado ao ouvido. «Andas a escutar às portas, Chris?»

«Shhh!» respondeu Chris. «Isto é importante.»

Stern encolheu os ombros. Normalmente sentia-se pairar um pouco acima dos entusiasmos dos estudantes licenciados que encontrava à sua volta. Os outros eram historiadores, mas Stern treinara-se como físico e tinha a tendência para ver as coisas de um modo diferente. Simplesmente não conseguia sentir-se excitado quando se encontrava mais um cadinho medieval, ou meia dúzia de ossos de uma campa. De qualquer modo, Stern só tinha aceite este trabalho

- que o obrigava a trabalhar com o equipamento electrónico, fazer diversas análises químicas, datagem do carbono, etc. - para estar perto da sua namorada que frequentava um curso de verão na Universidade de Toulouse. Sentira-se intrigado com a datagem quântica, mas pelo menos até àquela altura o equipamento não funcionara em condições.

No rádio, Kramer estava a dizer: «E se reconstruir parte da cidade, então também. podia reconstruir parte da muralha exterior do castelo, na zona em que é adjacente à cidade. Aquela secção ali.» Apontava para uma parede exterior semidestruída que atravessava o local no sentido norte-sul.

O Professor disse: «Bom, suponho que podíamos ... »

«E», continuou Kramer, «podia estender-se a muralha para sul, na zona ali em baixo, na zona em que penetra nos bosques. Podia limpar os bosques e reconstruir a torre.»

Stern e Chris olharam um para o outro.

«De que raio é que ela está a falar», exclamou Stern. «Que torre?»

«Ainda não houve ninguémque tivesse inspeccionado os bosques», disse Chris. «Deve estar limpo no final do ano, após o que será mantida uma vigilância a partir do Outono.»

Através do rádio ouviram o Professor dizer: «A sua proposta é muito interessante, Miss Kramer. Deixe-me discutir isso com os outros e voltamos a falar à hora do almoço. »

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E foi então que no campo mais abaixo Chris viu o Professor voltar-se, olhando directamente para eles e apontando um dedo acusador na direcção dos bosques.



Deixando o campo aberto das ruínas para trás, treparam um talude relvado e embrenharam-se no bosque. As árvores eram esguias mas cresciam muito próximas, e debaixo das suas copas estava escuro e fresco. Chris Hughes seguiu a velha muralha exterior do castelo que ia diminuindo de uma altura que lhe dava pelo peito até se reduzir a um simples amontoado de pedras e finalmente a nada, desaparecendo entre a vegetação rasteira.

A partir daí tinha que se curvar, afastando para os lados com as mãos os fetos e pequenas plantas para conseguir ver a vereda da muralha.

O bosque ia-se tornando mais denso à sua volta. Sentia que o invadia um ambiente de paz. Lembrou-se de que, quando vira pela primeira vez Castelgard, o local se encontrava quase que completamente rodeado por uma floresta como esta. As poucas paredes que ainda se encontravam de pé estavam cobertas de musgo e líquen, e pareciam surgir da terra como formas orgânicas. Na altura o local constituíra um mistério. Mas este desaparecera depois de terem feito a desmatação e terem começado as escavações.

Stern arrastava-se atrás dele. Stern não estava muito habituado a sair do laboratório e parecia estar a gostar do passeio.

«Porque é uma floresta nova», respondeu Chris. «Quase todas as florestas na região de Périgord têm menos de cem anos. Era costume toda esta terra ser desmatada para plantação de vinhas.»

«E?»


Chris encolheu os ombros. «Foi a doença. Essa praga, a filoxera, matou todas as vinhas por volta do virar do século. E a floresta voltou a crescer.» E acrescentou: «A indústria vinícola francesa quase que desapareceu. Foram salvos pela importação de vinhas da Califórma que eram resistentes à filoxera. Qualquer coisa que era preferível terem esquecido.»

Enquanto falava continuava a olhar para o solo, descobrindo um bocado de pedra aqui e ali, o suficiente para lhe permitir seguir a linha da antiga muralha. Mas, de repente, todos os vestígios tinham desaparecido. Perdera-a completamente. Agora tinha de voltar atrás para encontrar de novo a pista.

«Porra.»

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«0 que é que foi?» perguntou Stern.



«Não consigo encontrar a muralha. Seguia por aqui» - apontou com a palma da mão - «e agora desapareceu.»

Encontravam-se numa zona de vegetação rasteira bastante densa, enormes fetos misturados com uma espécie de vinha brava cheia de espinhos que lhe arranhavam as pernas. Stern tinha calças e tomou a dianteira, enquanto dizia: «Não sei Chris, mas tem que estar algures por aqui ... »

Chris sabia que tinha que voltar atrás. Acabara de se voltar para fazer o mesmo caminho no sentido inverso quando ouviu Stern gritar.

Chris voltou-se para trás.

Stern desaparecera. Evaporara-se.

Chris encontrava-se sozinho no bosque.

«David?» Um grunhido. «Ah... porra.» «0 que é que aconteceu?»

«Bati com o joelho. Dói como o caraças.»

Chris não o conseguia ver em parte nenhuma. «Onde é que estás?» «Num buraco», disse Stern. «Caí. Tem cuidado se vieres nesta direcção. De facto ... » Um grunhido. Praguejar. «Não te preocupes. Consigo pôr-me de pé. Estou okay. De facto - hey.»

«0 que é que foi?> «Espera um minuto.» «0 que é?»

«Aguenta um minuto, okay?»

Chris viu a vegetação rasteira mover-se, os fetos agitarem-se para um lado e para o outro, enquanto Stern surgia do lado esquerdo. Foi então que Stern falou. A sua voz parecia estranha. «Uh, Chris?»

«0 que é?»

«É uma secção da muralha. Curva.» «0 que é que estás a dizer?»

«Julgo que estou em cima da parte inferior daquilo que foi em tempos uma torre redonda, Chris.»

«Não brinques», disse Chris. Pensou com os seus botões, como é que Kramer sabia de uma coisa daquelas?

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«Verifique o computador», disse o Professor. «Veja se temos alguma inspecção feita por helicóptero - infravermelhos ou radar - que mostre uma torre. Talvez já esteja registado e nunca tenhamos prestado atenção a isso.»



«Uma inspecção por infravermelhos ao final da tarde será talvez a melhor hipótese», disse Stern. Estava sentado numa cadeira segurando um saco de gelo em cima do joelho.

«Porquê ao final da tarde?»

«Porque este calcário conserva o calor. É por isso que os homens das cavernas gostavam tanto desta zona. Mesmo no Inverno, uma caverna nos calcários de Périgord tinha uma temperatura de mais dez graus em relação ao exterior.» «Então no final da tarde ... »

«A muralha conserva o calor enquanto a floresta arrefece. E consegue distinguir-se em infravermelhos.»

«Mesmo que esteja enterrada?» Stern encolheu os ombros.

Chris sentou-se ao computador e começou a martelar as teclas. O computador produziu um bip suave. A imagem mudou abruptamente.

«Olá. Temos um e-mail.»

Chris seleccionou a caixa do correio. Havia apenas uma mensagem e levou imenso tempo a fazer a entrada. «0 que é?»

«Aposto que é aquele tipo, o Wauneka», disse Stern. «Disse-lhe para me enviar um gráfico bastante grande. Provavelmente não o comprimiu.»

Nesse instante a imagem surgiu no ecrã: uma série de pontos dispostos numa forma geométrica. Todos a reconheceram de imediato. Era sem a menor dúvida o Mosteiro de Sainte-Mère. O seu próprio local de trabalho.

Em maior detalhe do que aquele que tinham obtido até então.

Johnston olhou para a imagem. Tamborilou com os dedos no tampo da secretária. «É estranho», disse ele finalmente, «que Bellin e Kramer tenham aparecido aqui no mesmo dia.»

Os assistentes olharam um para o outro. «0 que é que isso tem de estranho?» disse Chris.

«Bellin não pediu para se encontrar com ela. E está sempre na disposição de se encontrar com fontes de subsídios.»

Chris encolheu os ombros. «Parecia que estava muito ocupado.»

«Exacto. Era isso que parecia.» Voltou-se para Stern. «De qualquer modo, imprime essa coisa», disse ele. «Vamos ver o que é que o nosso arquitecto tem a dizer a esse respeito.»

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Katherime Erickson - cabelos de um louro acinzentado, olhos azuis e muito morena - encontrava-se suspensa no ar a cerca de cinquenta pés de altura, o rosto a centímetros do tecto gótico arruinado da capela de Castelgard. Estava de costas suspensa de um arnês e calmamente tomava notas sobre a construção que se encontrava acima dela.



Erikson era a assistente licenciada mais recente que se encontrava no local, tendo-se juntado ao projecto apenas alguns meses antes. Originalmente fora para Yale para estudar arquitectura, mas chegou à conclusão de que não gostava da área que escolhera e transferira-se para o departamento de história. Foi aí que Johnston a descobriu e a convenceu a Juntar-se a ele do mesmo modo que fizera com todos os outros: «Porque é que não põe de lado os velhos livros e vem trabalhar em história a sério? Qualquer coisa como história aplicada?»

E ali estava ela a trabalhar em história aplicada - pendurada naquele local. Não era que se importasse muito com isso: Kate crescera no Colorado e era uma alpinista inveterada. Passava todos os domingos a trepar as falésias que havia na região do Dordogne. Raras vezes havia mais gente, o que era formidável: em casa era preciso esperar na bicha para se conseguir uma boa escalada.

Usando a picareta, retirou algumas escamas de argamassa de diferentes zonas para levar para uma análise espectroscópica. Colocou cada uma delas em sacos de plástico, como os que se usam para filmes, que ela trazia pendurados dos ombros e em bandoleira sobre o peito.

Estava a rotular os sacos de plástico quando ouviu uma voz que dizia: «Como é que sais daí? Tenho uma coisa para te mostrar?»

Olhou por cima do ombro e viu Johnston que se encontrava em baixo. «É fácil», disse. Kate libertou a linha e desceu suavemente até ao solo, aterrando com elegância. Afastou os cabelos do rosto. Kate Erickson não era uma rapariga bonita - como a mãe, célebre na UC, tantas vezes lhe dissera - mas tinha aquele ar de frescura, uma qualidade típica Americana, que os homens achavam atraente.

«Estou convencido de que és capaz de trepar a qualquer coisa,» disse Johnston.

A rapariga desapertou o arnês. «É a única maneira de recolher estes dados.» «Se assim o dizes,»

«A sério», disse ela. «Se quisermos uma história arquitectónica desta capela, temos que trepar lá acima e recolher amostras da argamassa... Não nos podemos esquecer de que este tecto foi reconstruído por diversas vezes - ou porque

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fora mal construído e passava a vida a cair, ou por ter sido destruído em guerras devido aos engenhos de guerra.»



«0 mais certo é ter sido por causa dos engenhos de guerra», disse Johnston. «Bom, não tenho tanto a certeza», disse Kate. «A estrutura básica do castelo - o grande salão, os apartamentos interiores - são sólidos, mas algumas das paredes não foram bem construídas. Em alguns casos parece que foram acrescentadas paredes para fazer passagens secretas. Este castelo tem várias. Há mesmo uma que vai até à cozinha! Quem quer que tenha feito essas modificações devia ser perfeitamente paranóico. E talvez o tenham feito demasiado depressa.» Limpou as mãos aos calções. «Muito bem. O que é que tinha para me mostrar?»

Johnston estendeu-lhe uma folha de papel. Era uma impressão de computador, uma série de pontos dispostos de uma forma regular, num padrão geométrico. «0 que é isto?», perguntou ela.

«Estou à espera que me diga.» «Parece Sainte-Mère.»

«Acha que sim?»

«Eu diria que sim. Mas o problema é que ... »

Saiu da capela e olhou para as escavações do mosteiro, situadas a cerca de uma milha na planície que ficava mais abaixo. Estavam dispostas de uma forma quase tão clara como o desenho que tinha na mão.

«Hul---i.» «0 que é que foi?»

«Há pormenores neste desenho que ainda não foram descobertos», disse ela. «Uma capela apsidal a seguir à igreja, um segundo claustro no quadrante nordeste, e... isto parece um jardim, dentro dos muros... Afinal de contas, onde é que arranjou este desenho?»

O restaurante em Marqueyssac estava situado na berma do planalto, com vistas sobre todo o vale do Dordogne. Kramer ergueu o olhar da mesa e sentiu-se surpreendida ao ver o Professor que chegava na companhia de Marek e de Chris. Franziu as sobrancelhas. Estava à espera de almoçar sozinha. Encontrava-se sentada a uma mesa para dois.

Sentaram-se todos juntos, depois de Marek ter trazido duas cadeiras da mesa do lado. O Professor inclinou-se para a frente, olhando para ela intensamente. «Ms. Kramer», disse o Professor, «corno é que sabe onde é que fica a reitoria?»

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«A reitoria?». Ela encolheu os ombros. «Se quer que lhe diga, não sei. Não estava mencionado no relatório de progresso semanal? Não? Então talvez tenha sido o Dr. Marek que me falou nisso.» Olhou para os rostos solenes que tinha diante de si. «Meus senhores, os mosteiros não são exactamente a minha especialidade. Devo ter ouvido isso em qualquer parte.».



«E a torre no bosque?»

«Deve ter sido num dos relatórios. Ou em velhas fotografias.» «já verificámos. Nem uma coisa nem outra.»

O Professor fez deslizar o desenho na mesa na sua direcção. «E porque é que um empregado da iTC de nome Joseph Traub tem um desenho do mosteiro que está mais completo do que o nosso?»

«Não sei... Onde é que arranjaram isto?»

«De um polícia em GaIlup, Novo México, que está a fazer algumas das perguntas em que também tenho pensado.»

Ela não disse nada. Limitou-se a olhar para ele.

«Ms. Kramer», disse ele finalmente. «Julgo que nos está a esconder alguma coisa. Estou convencido de que tem estado a fazer a sua própria análise nas nossas costas, sem nos contar o que descobriu. E estou convencido de que juntamente com Bellin tem estado a negociar a exploração do projecto para o caso de eu não me mostrar cooperativo. E o governo francês ficará extremamente feliz por conseguir expulsar os americanos de um local que faz parte da sua herança.»

«Professor, isso não tem o menor fundamento. Posso garantir-lhe ... » «Não, Ms. Kramer. Não pode.» Olhou para o relógio. «A que horas é que o seu avião regressa à ITC?»

«Às três.»

«Já estou pronto para ir.» Afastou a cadeira da mesa.

«Mas eu vou para Nova Iorque.»

«Então acho melhor mudar os seus planos e seguir para o Novo México.» «Vai querer falar com Bob Doniger e eu não conheço a sua agenda ... » «Ms. Kramer.» Debruçou-se sobre a mesa. «Desenrasque-se.»

Quando o Professor saiu, Marek disse: «Peço a Deus que o ampare na sua jornada e que o traga de volta são e salvo.» Era aquilo que dizia sempre que amigos partiam. Fora uma frase favorita do Conde Geofrey de la Tour, seiscentos anos antes.

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Marek sentia-se de certo modo fascinado com o passado, a ponto de constituir uma obsessão. Mas, de facto, era uma coisa natural nele: já em criança Marek se sentia fortemente atraído pelo período medieval e, em muitos aspectos, parecia agora que ainda vivia nele. Num restaurante disse uma vez a um amigo que não deixava crescer barba porque naquela altura não estava na moda. Espantado o amigo protestou: «Mas é evidente que está na moda, olha as barbas que encontras à tua volta.» A isto Marek respondeu: «Não, não é isso, quero dizer que não está na moda no meu tempo.» Referia-se deste modo aos séculos treze e catorze.



Muitos académicos do período medieval eram capazes de ler as velhas línguas, mas Marek era capaz de as falar: inglês medieval, francês arcaico, occitan, e latim. Era especialista nos detalhes do período em vestuário e modos de conduta. E com a sua altura e porte atlético, conseguiu dominar as artes marciais do período. Afinal de contas, dizia ele, era um período de guerra contínua. Conseguia cavalgar facilmente os enormes Percherons que haviam sido usados como corcéis ou cavalos de batalha. E era razoavelmente especializado em justas, tendo passado horas a praticar com o boneco rotativo de torneio a que chamavam quintana. Marek era tão bom com um arco longo que começara a ensinar a técnica a outros. E agora estava a aprender a combater com um montante.

Mas este conhecimento detalhado do passado afastava-o estranhamente do presente. A súbita partida do Professor deixara todos os elementos do projecto magoados e inquietos: corriam rumores estranhos, especialmente entre os não licenciados: a ITC ia anular os subsídios. A iTC ia mudar o projecto para

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'território Medieval. A ITC matara alguém no deserto e estava com problemas. O trabalho parou; as pessoas limitavam-se a andar de um lado para o outro e a falar.



Marek decidiu finalmente que era melhor fazer uma reunião para acabar com os rumores e foi assim que, ao final da tarde, reuniu toda a gente na grande tenda verde ao lado do armazém. Marek explicou que surgira uma disputa entre o Professor e a ITC, e que o Professor se deslocara à sede da ITC para esclarecer as coisas. Marek explicou que se tratava apenas de um desentendimento que seria resolvido em meia dúzia de dias. Disse que iria estar em contacto permanente com o Professor, o qual organizara as coisas para lhes telefonar de doze em doze horas; e que esperava que o Professor regressasse rapidamente e que as coisas voltassem ao que eram antes.

Não ajudou. A sensação profunda de desconforto manteve-se. Alguns dos licenciados sugeriram que da parte da tarde estava demasiado calor para trabalhar, e que era melhor andar de kayak no rio; Marek, sentindo o que se estava a passar, concordou que afinal de contas talvez não fosse má ideia.

Um a um, os estudantes licenciados decidiram também fazer folga no resto do dia. Kate apareceu, com várias libras de metal em volta do peito que se entrechocavam, e anunciou que ia escalar a escarpa que ficava da parte de trás de Gageac. Perguntou a Chris se queria ir com ela (para segurar as cordas sabia que ele nunca se atreveria a fazer a escalada), mas ele respondeu que ia até aos estábulos com Merek. Stern declarou que ia de carro até Toulouse onde jantaria. Rick Chang dirigiu-se para Les Eyzies, para visitar um colega no local de trabalho do Paleolítico. Só Elsie Kastner, a grafologista, se deixou ficar na parte de trás do armazém, consultando pacientemente os documentos que tinha à sua frente. Marek perguntou-lhe se queria ir com ele. Mas ela disse-lhe: «Deixa-te de patetices, André», e continuou a trabalhar.

O Centro Equestre nos arredores de Souillac ficava a cerca de quatro milhas, e era aí que Marek se treinava duas vezes por semana. No canto mais distante de um campo pouco usado instalara uma estranha barra em forma de T numa plataforma rotativa. Num dos extremos da barra havia um quadrado almofadado; no outro extremo um saco de couro parecido com os que se usavam nos treinos de boxe.

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Sophie era aluna no Cheltenham College; vinte anos, quatro anos mais nova do que ele. O pai, Hugh Hampton, era advogado em Londres; era dono da quinta que o projecto alugara para o Verão. Sophie viera com alguns amigos passar uns dias numa quinta próxima. Um dia viera buscar qualquer coisa ao escritório do pai. Chris olhara para ela e de imediato tropeçou num tronco de árvore.



Isto parecera estabelecer o tom das suas relações, pensou ele lugubremente. Olhando agora para ele, disse: «Sinto-me lisonjeada por ter este efeito em ti, Chris. Mas sinto-me preocupada com a tua segurança.» Deu uma gargalhadinha e beijou-o levemente no queixo. «Telefonei-te hoje.»

«Eu sei, estava ocupado. Tivemos uma crise.»

Uma crise? O que é que constitui uma crise arqueológica?» «Oh, tu sabes. Problemas com subsídios.»

«Ab, estou a ver. Essa malta da ITC. Do Novo México.» Emitiu um som como se quisesse representar o fim do mundo. «Sabias que pediram ao meu pai para lhes vender a quinta?»

«Ah, sim?»

«Disseram que precisavam de a alugar durante tantos anos que o melhor talvez fosse comprar. É evidente que ele disse que não.»

«É evidente.» Ele sorriu-lhe. «Jantar?»

«Oh, Chris, esta noite não posso. Mas amanhã podemos andar a cavalo. Combinado?»

«Está certo.»

«De manhã? Às dez horas?»

«Tudo bem», respondeu ele. «Vejo-te às dez.» «Não estou a interromper o teu trabalho?» «Sabes que sim,»

«Por mim pode ser num outro dia qualquer.» «Não, não», respondeu ele. Amanhã às dez horas.»

«Então está combinado», dísse ela com um sorriso deslumbrante.

Para dizer a verdade, Sophie Hampton era quase demasiado bonita, o seu corpo demasiado perfeito, as suas maneiras demasiado encantadoras para se poder dizer que era real. Marek era um dos que ela tinha repelido.

Mas Chris estava completamente deslumbrado.

Depois de ela se ter afastado, Marek carregou novamente. Desta vez Chris desviou-se do quintana em rotação. Quando Marek recuava mais uma vez, disse-lhe: «Estás a ser levado, meu amigo.»

«É possível», respondeu Chris. Mas a verdade era que se estava nas tintas.

No dia seguinte estava Marek no mosteiro, ajudando Rick Chang nas escavações das catacumbas. Há semanas que estavam com aquelas escavações, E as coisas avançavam muito lentamente, porque encontravam continuamente restos humanos. Sempre que encontravam ossos paravam de cavar com as pás e mudavam para trolhas e escovas de dentes.

Rick Chang era o antropólogo físico da equipa. Estava treinado para lidar com descobertas humanas; era capaz de olhar para um bocado de osso do tamanho de uma ervilha e dizer se era do pulso direito ou do pulso esquerdo, macho OU fêmea, criança ou adulto, antigo ou contemporâneo.

Mas os restos humanos que estavam a encontrar ali eram muito estranhos. Primeiro, porque eram todos de indivíduos do sexo masculino; e alguns dos ossos longos apresentavam evidência de ferimentos em combate. Alguns dos crânios apresentavam ferimentos de flechas. Fora assim que a maior parte dos soldados morrera no século catorze, com ferimentos de setas. Mas não havia registo de qualquer batalha que alguma vez tivesse sido travada no mosteiro. Pelo menos nenhuma de que eles tivessem conhecimento.

Acabavam de encontrar aquilo que parecia ser um pedaço de elmo enferrujado quando o telemóvel de Marek tocou. Era o Professor.

«Já estiveste com o Doniger?» «Já. Esta tarde.»

«E?» «Ainda não sei.»

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«Ainda querem avançar com a reconstrução?»



«Bom, não tenho lá muito a certeza. As coisas aqui não são exactamente como eu estava à espera.» O Professor parecia vago e preocupado.

«Como é que isso é possível?»

«Não posso estar a discutir isto ao telefone», disse o Professor. «Mas quero dizer-te uma coisa: não te telefono nas próximas doze horas. Provavelmente até nem te consigo falar nas próximas vinte e quatro horas.»

«Uh-huh. Okay. Está tudo bem?» «Está tudo bem, André.»

Marek não tinha lá muito a certeza. «Queres uma aspirina?» Era uma das frases de código que haviam estabelecido, uma maneira de perguntar se havia qualquer coisa de errado, no caso da outra pessoa não poder falar livremente. «Não, não. De modo nenhum.»



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