Resgate no tempo



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«Pareces um pouco distante.»

«Talvez antes surpreendido. Mas está tudo bem. Pelo menos julgo que está bem.» Fez uma pausa para continuar em seguida: «E quanto ao projecto? O que é que se passa contigo?»

«Neste momento estou com Rick no mosteiro. Estamos a escavar nas catacumbas do quadrante quatro. Estou convencido de que acabamos hoje ao fim do dia, o mais tardar amanhã.»

«Excelente. Procura manter o ritmo, André. Falo contigo dentro de um ou dois dias.»

E desligou.

Marek voltou a colocar o telemóvel no cinto e franziu as sobrancelhas. Que raio é que tudo aquilo queria dizer?

O helicóptero zumbiu por cima dele, com as caixas dos sensores em suspensão. Stern mantivera-o por mais um dia, para fazer passagens de manhã e de tarde; queria inspeccionar os aspectos que Kramer referira, para ver o que conseguia descobrir numa passagem dos instrumentos.

Marek gostava de saber o que se estava a passar, mas para falar com ele precisava de um rádio. O aparelho mais próximo estava no armazém.

«Elsie», disse Marek enquanto se dirigia para o armazém. «Onde é que está o rádio para falar com o David?»

É evidente que Elsie Kastrier não lhe respondeu. Elsie era uma linda mulher de aspecto determinado que era capaz de uma grande concentração. Passava

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horas sentada no armazém, decifrando a escrita dos pergaminhos. O seu trabalho exigia-lhe que conhecesse não só as seis principais línguas da Europa medieval, como também os dialectos esquecidos há muito tempo, o calão e as abreviaturas. Marek sentia-se feliz por ter a colaboração dela, mesmo que se mantivesse separada do resto da equipa. E por vezes podia parecer bastante estranha. Voltou a repetir: «Elsie?»



Ergueu o olhar repentinamente: «0 quê? Oli, desculpa, André. Estava só, tih, quer dizer um pouco ... » Fez um gesto para o pergaminho que se encontrava na frente dela. «Isto é uma factura do mosteiro para um conde alemão. Por o ter recebido durante uma noite com a sua comitiva pessoal: vinte e nove pessoas e trinta e cinco cavalos. Era o que este conde trazia consigo na sua viagem pela região. Mas está escrito numa mistura de Latim e Occitan e a caligrafia é insuportável.»

Elsie pegou no pergaminho e levou-o para o equipamento de fotografia. Uma câmara estava montada num suporte de quatro pés acima da mesa, iluminada com holofotes por todos os lados. Ela pousou o pergaminho, endireitou-o, colocou o código de barras de identificação no fundo, dispôs uma escala de duas polegadas para padronização no fundo, e disparou a fotografia.

«Elsie? Onde é que está o rádio para falar com o David?»

«Oh, desculpa. Está na mesa ali ao fundo. É aquele com fita adesiva que diz DS.»

Marek foi buscá-lo e premiu o botão: «David? É André.»

«Olá, André.» Marek ouvia-o com díficuldade por causa do barulho do helicóptero.

«0 que é que descobriste?»

«Zip. Nada. Absolutamente nada», disse Stern. «Verificámos o mosteiro e verificámos a floresta. Não aparece nenhuma das marcas de Kramer: nem no SLS, radar, infravermelhos ou ultravioletas. Não faço a menor ideia de como fizeram essas descobertas.»

Galopavam a toda a brida por uma crista relvada sobranceira ao rio. Pelo menos Sophie galopava; Chris seguia aos solavancos, segurando-se desesperadanente para não cair. Ordinariamente ela nunca cavalgava para o exterior, por causa da falta de habilidade de Chris, mas hoje ria-se deliciada enquanto seguia pelos campos.

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Chris tentava acompanhá-la, rezando a todos os santos para que parasse depressa, o que ela finalmente fez, puxando as rédeas do seu cavalo negro completamente suado, dando-lhe uma pancadinha no pescoço, esperando que ele recuperasse.



«Não foi excitante?» perguntou.

«De facto», disse ele, procurando recuperar o fôlego. «Não há dúvida de que foi.»

«Andaste muito bem, Chris, tenho que confessar. O teu estilo está a melhorar.»

Tudo aquilo que ele conseguia fazer era acenar com a cabeça. Tinha o fundo das costas dorido de tantos saltos e as coxas ardiam-lhe de apertar com tanta força.

«Aqui é muito bonito», disse ela apontando para o rio, com os castelos escuros nas encostas distantes. «Não achas glorioso?»

E em seguida olhou para o relógio, o que o aborreceu. Mas caminhar veio a mostrar-se surpreendentemente agradável. Ela seguia muito perto dele, os cavalos quase a tocarem-se, e ela inclinou-se para murmurar ao seu ouvido; a dada altura colocou o braço por cima do ombro dele e beijou-o na boca, antes de olhar para o outro lado, aparentemente embaraçada pelo seu momento de fraqueza.

Da posição em que se encontravam naquele momento, estavam sobranceiros a todo o recinto: as ruínas de Castelgard, o mosteiro, e na colina mais distante, La Roque. Nuvens passavam no alto, projectando sombras na paisagem. A atmosfera estava quente e suave, e tudo estava tranquilo, com excepção do ruído distante de um automóvel.

«Oh, Chris», exclamou ela, e beijou-o de novo. Quando se separaram, olhou para longe e de repente acenou com a mão.

Um descapotável amarelo subia a estrada sinuosa na direcção deles. Era um tipo qualquer de carro de desporto, de linhas baixas, destacando-se o rugido do motor. A pouca distância deles o carro parou, e o condutor saiu de trás do volante, sentando-se nas costas do assento.

«Nigel!» exclamou ela num tom encantado.

O homem do carro correspondeu ao aceno preguiçosamente, a mão traçando um arco lento.

«Oh, Chris, queres ser um querido?» Sophie estendeu a Chris as rédeas do seu cavalo, desmontou e correu colina abaixo na direcção do carro. Quando aí chegou abraçou o condutor. Os dois entraram no carro. E enquanto se afastavam ela olhou para trás na direcção de Chris e soprou-lhe um beijo.

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A cidade medieval restaurada de Sarlat era particularmente encantadora à noite, quando os seus edifícios encavalitados uns nos outros e as ruas estreitas eram iluminadas suavemente pelas lâmpadas de gás. Na rua Tourny, Marek e os estudantes licenciados estavam sentados na esplanada de um restaurante, debaixo de guarda-sóis brancos, saboreando naquela noite o vinho de Caliors de um vermelho escuro.



Normalmente Chris gostava daquelas noites, mas desta vez nada parecia estar certo para ele. A noite estava demasiado quente; a sua cadeira de metal era desconfortável. Encomendara o seu prato favorito, pintade aux cèpes', mas a pintada estava demasiado seca e os cogumelos estavam moles. Até a conversa o irritava: normalmente os estudantes licenciados falavam do trabalho do dia que tinha terminado, mas naquela noite a jovem arquitecta, Kate Erickson, encontrara alguns amigos de Nova iorque, dois casais americanos com cerca de trinta anos - negociantes da bolsa com as suas namoradas. Antipatizou com eles quase de imediato.

Os homens passavam o tempo a levantar-se da mesa para falarem ao telemóvel. As mulheres trabalhavam as duas em publicidade na mesma firma de Relações Públicas; acabavam de sair de uma grande festa de apresentação do novo livro de Martha Stewart. O grupo, inchado com um sentimento da sua própria auto-importância rapidamente colidiu com os nervos de Chris; e, como muitos homens de negócios de sucesso, tinham a tendência de tratar os académicos como se estes fossem um tanto atrasados mentais, incapazes de funcionar no mundo real, de jogarem os jogos reais. Ou talvez, pensou ele, achassem

1 Em francês, no original: galinha do mato com molho de cogumelos. (N. T)

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simplesmente que era inexplicável que alguém pudesse ter uma ocupação que não fizesse dele milionário aos vinte e quatro anos.



E, no entanto, tinha que admitir que eram perfeitamente agradáveis; bebiam muito vinho e faziam imensas perguntas sobre o projecto. Infelizmente as questões habituais, aquelas que normalmente eram colocadas pelos turistas: O que é que esse lugar tem de tão especial? Como é que sabem onde é que devem escavar? Como é que sabem aquilo que devem procurar? Até que profundidade escavam e como é que sabem quando é que devem parar?

«Porque é que estão a trabalhar ali? Afinal de contas, o que é que o lugar tem de tão especial?» perguntou uma das mulheres.

«A zona é perfeitamente típica do período», respondeu Kate, «com dois castelos opostos. Mas o que faz disto uma verdadeira descoberta é o facto de ter sido negligenciado, e de nunca ter sido anteriormente escavado.»

«E isso é bom? O facto de ter sido negligenciado?» A mulher franziu as sobrancelhas; vinha de um mundo onde a negligência era uma coisa má.

«É muito atraente», disse Marek. «No nosso trabalho, as verdadeiras oportunidades surgem quando o mundo passa ao lado. Por exemplo como no caso de Sarlat. Esta cidade.»

«Isto é muito agradável», disse uma das mulheres. Os homens afastaram-se para falar ao telemóvel.

«Mas a questão», disse Kate, «é a questão de poder ser considerado um acidente o facto desta velha cidade ainda existir. Originalmente Sarlat era uma cidade de peregrinos que se foi desenvolvendo em torno de um mosteiro com relíquias; a dada altura tornou-se tão grande que o mosteiro procurou um outro lugar, em busca de paz e de tranquilidade. Sarlat continuou a desenvolver-se como um próspero centro de comércio para a região do Dordogne. Mas a sua importância foi diminuindo acentuadamente ao longo dos anos, e)á no século vinte, o mundo passou ao lado de Sarlat. Era tão pouco importante e pobre que a cidade não tinha dinheiro para reconstruir as velhas secções. Os velhos edificios limitaram-se a ficar à espera, sem canalização moderna nem electricidade. Grande parte deles foi abandonado.»

Kate explicou que, em 1950, a cidade começou finalmente a demolir o velho quarteirão e a construir novos edifícios. «André Malraux parou os trabalhos. Convenceu o governo francês a disponibilizar fundos para a restauração. As pessoas pensaram que ele estava maluco. Presentemente, Sarlat é em toda a França a cidade medieval mais precisa e uma das maiores atracções turísticas do país.»

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«É bonita», disse a mulher em tom vago. De repente os dois homens voltararn para a mesa, sentaram-se, e guardaram os telefones no bolso com um ar de quem tinha acabado.



«0 que é que aconteceu?»

«0 fecho da bolsa», explicou um deles. «Muito bem. Estavam a falar de Castelgard- O que é que ele tem de especial?»

Marek respondeu: «Estávamos a discutir o facto de nunca ter sido escavado antes. Mas também é importante porque Castelgard é uma cidade típica inter-muralhas do século catorze. A cidade é mais velha do que isso, mas a maior parte da suas estruturas foram construídas ou modificadas entre 1300 e 1400, para se conseguir uma maior defesa: muralhas mais espessas, muralhas concêntricas, fossos e portões mais sofisticados.»

Isso foi quando? Na Idade das Trevas?» perguntou um dos homens enquanto se servia de vinho.

«Não», respondeu Marek. «Tecnicamente trata-se da Idade Média Alta.» «Não tão alta como eu vou estar», disse o homem. «Sendo assim, o que é que vem antes disso, a Idade Média Baixa?»

«Exactamente», respondeu Marek.

«Hey!» disse o homem erguendo o copo de vinho. «Certo à primeira vez!»

Cerca do ano 40 a.C. a Europa começou a ser governada por Roma. A região da Europa onde agora se encontravam, a Aquitânia, foi originalmente a colónia romana da Aquitânia. Por toda a Europa os Romanos construíram estradas, supervisionaram o comércio e mantiveram a lei e a ordem. A Europa prosperou.

Mais tarde, por volta do ano 400 d.C., Roma começou a retirar os seus soldados e abandonou as suas guarnições. Depois do colapso do império, a Europa mergulhou na ausência de leis, que durou os quinhentos anos seguintes. A população baixou, o comércio morreu, as cidades ruíram. A região foi invadida por hordas bárbaras: Godos e Vândalos, Hunos e Vikings. Este período de trevas constituiu a Idade Média Baixa.

«Mas por alturas do último milénio - ou seja 1000 d.C. - as coisas começaram a ficar melhores,» disse Marek. «Surgiu uma nova organização a que damos o nome de sistema feudal - embora nessa altura ninguém tivesse usado o termo.»

Ao abrigo do feudalismo, senhores poderosos mantiveram a ordem local. O novo sistema funcionou. A agricultura desenvolveu-se. O comércio e as cidades floresceram. Por alturas de 1200 d.C. a Europa prosperava mais uma

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vez, com uma população superior àquela que tivera durante o Império Romano. «É assim que o ano de 1200 é considerado como o início da Idade Média Alta



- um tempo de crescimento quando a cultura floresceu.»

Os americanos mostravam-se cépticos. «Se foi assim tão grande, porque é que toda a gente construía cada vez mais defesas?»

«Por causa da Guerra dos Cem Anos», disse Marek, «que foi travada entre a Inglaterra e a França.»

«0 que é que foi, uma guerra religiosa?»

«Não,» disse Marek. «A Religião não teve nada a ver com isso. Nessa altura toda a gente era Católica.»

«A sério? E os Protestantes?» «Não havia Protestantes.» «Onde é que eles estavam?»

Marek respondeu: «Ainda não se haviam inventado a si próprios.» «Não me diga! Então porque é que foi a guerra?»

«Por causa de uma questão de soberania», respondeu Marek. «Foi por causa do facto de a Inglaterra possuir uma grande parte da França.»

Um dos homens franziu as sobrancelhas com um ar céptico. «0 que é que me está a dizer? A Inglaterra já foi proprietária da França?»

Marek suspirou.

Ele tinha uma designação para gente daquele gênero: provincianos temporais - pessoas que eram ignorantes sobre o passado e que se sentiam orgulhosas com isso.

Os provincianos temporais estavam convencidos de que o presente era o único tempo que interessava e de que qualquer coisa que tivesse acontecido anteriormente poderia ser ignorada sem problemas. O mundo moderno era competitivo e novo, e o passado não tinha nada a ver com isso. Aprender história era tão inútil como aprender o código Morse, ou como conduzir uma carroça puxada a cavalos. E o período medieval - todos aqueles cavaleiros nas suas armaduras de estrépitos metálicos e as damas em vestidos compridos e chapéus pontiagudos - era tão obviamente irrelevante como sem o menor interesse.

E, no entanto, a verdade residia no facto de que o mundo moderno fora inventado na Idade Média. Tudo desde o sistema legal, às nações-estado, à fiabilidade da tecnologia, ao conceito de amor romântico havia sido estabelecido

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em primeiro lugar nos tempos medievais. Esses investidores da bolsa estavam mesmo convencidos da noção da economia de mercado na Idade Média. E se não soubessem isso, então nem sequer conheciam os factos básicos daquilo que eram. Porque faziam aquilo que faziam. De onde é que tinham vindo.



o Professor johnston afirmara muitas vezes que, quando não conhecemos a História, não conhecemos nada. Seríamos uma folha que não fazia a menor ideia de que era parte de uma árvore.

o investidor da bolsa continuou, assumindo a atitude casmurra de algumas pessoas quando eram confrontadas com a sua própria ignorância: «A sério? A Inglaterra chegou a possuir parte da França? Isso não faz o menor sentido. Os Ingleses e os Franceses sempre se odiaram uns aos outros.»

«Nem sempre», disse Marek. «Isto foi há seiscentos anos. Era um mundo completamente diferente. Nessa altura os Ingleses e os Franceses estavam muito mais próximos. A partir do momento em que os soldados da Normandia conquistaram a Inglaterra em 1066, toda a nobreza inglesa passou a ser basicamente francesa. Falavam francês, comiam alimentos Franceses, seguiam as modas francesas. Não era surpreendente que possuíssem território francês. Aqui no sul, governaram a Aquitânia durante mais de um século.»

«E depois? Qual foi a causa da guerra? Os Franceses decidiram que queriam tudo para eles?»

«Foi isso mais ou menos.»

«Compreende-se», disse o homem, com um aceno de cabeça de quem compreende.

Marek continuou a explicação. Chris passou o tempo tentando captar o olhar de Kate. Ali à luz da vela os traços do rosto dela pareciam mais duros, embora à luz do sol os traços se suavizassem. Achou que ela era inesperadamente atraente.

Mas ela não devolveu o seu olhar. A sua atenção estava centrada nos seus amigos investidores da bolsa. Era típico, pensou Chris. Fizessem aquilo que fizessem, as mulheres só se sentiam atraídas por homens com poder e dinheiro. Até homens maníacos e delicadinhos como aqueles dois.

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Surpreendeu-os a olharem para os relógios. Ambos os homens usavam grandes e pesados relógios Rolex, mas as pulseiras de metal eram bastante largas, de modo que os relógios oscilavam de um lado para o outro como pulseiras de mulher. Era um sinal de indiferença e de riqueza, um desleixo casual que sugeria que estavam permanentemente em férias. Era uma coisa que o aborrecia.



Quando um dos homens começou a brincar com o relógio, fazendo-o rodar no pulso, foi a gota de água que não permitiu a Chris conseguir aguentar mais. Levantou-se abruptamente da mesa. Murmurou uma desculpa qualquer sobre ter que voltar ao local de trabalho para verificar as suas análises, e começou a descer a rua Tourny na direcção do parque de estacionamento que ficava no início do velho quarteirão.

Enquanto ia seguindo ao longo da rua, parecia-lhe que só via apaixonados, pares que passeavam de braço dado, a mulher com a cabeça apoiada no ombro do homem. Estavam à vontade um com o outro, não sentindo necessidade de falar, limitando-se a gozar o ambiente. Cada um dos casais por quem passava fazia com que se sentisse mais irritado, obrigando-o a caminhar cada vez mais depressa.

Foi um alívio quando finalmente chegou junto do seu carro e se dirigiu

para casa.

Nigel! Que espécie de idiota se poderia chamar Nigel?

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Na manhã seguinte Kate vagueva de novo pela capela de Castelgard quando o rádio crepitou e ouviu o grito: «Hot tamales! Hot tamales! Grelha quatro. Venham servir-se! O almoço está na mesa.»



Este era o sinal da equipa, indicando que fora feita uma nova descoberta. Usavam palavras de código para todas as suas transmissões importantes porque sabiam que os funcionários locais por vezes se encontravam à escuta. Em outros projectos o governo enviara ocasionalmente agentes para confiscarem descobertas na altura em que haviam sido efectuadas, antes de os investigadores terem tido a oportunidade de as documentar e avaliar. Embora o governo francês tivesse uma posição esclarecida quanto às antiguidades - sob muitos aspectos melhor do que no caso dos Americanos - certos inspectores em campo eram notoriamente inconsistentes. E além disso era óbvio que se verificavam muitas vezes ressentimentos contra os estrangeiros que se apropriavam da nobre História de França.

Ela sabia que grelha quatro significava a zona por cima do mosteiro. Sentia-se indecisa entre permanecer na capela ou dirigir-se directamente para lá, mas finalmente decidiu que ia mesmo. A verdade era que grande parte do seu trabalho diário era monótona, não acontecendo nada de especial. Todos eles Precisavam do entusiasmo renovado que vinha com a excitação das descobertas.

Caminhou através das ruínas da cidade de Castelgard. Em contraste com muitos outros, Kate era capaz de reconstruir as ruínas mentalmente e conseguir ver toda a cidade. Gostava de Castelgard; era uma cidade que fazia sentido, concebida e construída em tempo de guerra. Apresentava toda a autenticidade frontal de que sentira a falta na escola de arquitectura.

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Sentia o sol na nuca e nas pernas e pensou pela centésima vez em como se sentia feliz por estar em França e não instalada em New Haven, no seu pequeno e atafulhado local de trabalho no sexto andar do Edifício A & A, com grandes janelas panorâmicas dando para a Universidade de Daveriport em imitação de estilo colonial e para o Payne Whitney Gym em imitação de estilo gótico. Kate achara que a arquitectura da escola era deprimente, achara que o Edifício das Artes e Arquitectura era muito deprimente, e nunca lamentara a sua mudança para a História.



É certo que não se pode discutir com um Verão no sul da França. Integrara-se bastante bem na equipa ali em Dordogne. Pelo menos até ali tinha sido um Verão agradável.

Evidentemente tivera que afastar alguns homens. Marek atirara-se descaradamente logo no início, em seguida fora o Rick Chang, e pouco depois também tivera que aturar o Chris Hughes. Chris levara muito a mal a rejeição da rapariga inglesa - aparentemente fora o único em Périgord apanhado de surpresa - e agora comportava-se como um cachorrinho magoado. Na noite passada estivera todo o jantar a olhar para ela. Parecia que os homens não se convenciam de que o comportamento de rejeição era levemente insultuoso.


Perdida nos seus pensamentos, dirigiu-se para o rio, onde a equipa conservava o pequeno barco a remos que usava para as travessias.

E ali à espera, sorrindo para ela, estava Chris Hughes.

«Eu remo», ofereceu-se ele enquanto entravam no barco. Ela concordou. Chris começou a atravessar o rio em remadas fáceis. Ela não disse nada, limitando-se a fechar os olhos e voltar o rosto para o sol. O calor era agradável, relaxante.

«Está um lindo dia», ouviu-o dizer. «Sim, está um dia agradável.»

«Você sabe, Kate», começou ele. «Gostei de facto do jantar da noite passada. Estava a pensar que talvez ... »

«Sinto-me envaidecida, Chris», disse ela. «Mas tenho que ser honesta para consigo.»

«A sério? Sobre o quê?»

«Terminei recentemente com alguém.» Oh. Uh-huh ... »

«E quero parar durante algum tempo.»

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«Oh», exclamou ele. «Está bem. Compreendo. Mas mesmo assim talvez pudéssemos ... »

Fez o seu sorriso mais amável. «Acho que não», respondeu.

Oh. Okay.» Viu que ele começava a amuar. Então ele disse: «Sabe uma coisa, acho que tem razão. De facto penso que o melhor é continuarmos como simples colegas.»

«Colegas», disse ela, apertando-lhe a mão. O barco chegou à outra margem.

No mosteiro, um grupo enorme de pessoas encontrava-se à volta do topo da grelha quatro, olhando para baixo, para o poço de escavação.

A escavação era um quadrado exacto, com vinte pés de lado e descendo a uma profundidade de dez pés. Nos lados norte e leste, os escavadores haviam descoberto superfícies planas de arcos em pedra, que indicavam que a escavação se encontrava agora ao nível da estrutura da catacumba, abaixo do mosteiro original. Os arcos estavam enterrados em terra sólida. Na semana passada haviam cavado uma trincheira através do arco norte, mas parecia que não levava a sítio nenhum. Escorada com vigas, encontrava-se agora ignorada.

Presentemente toda a excitação se encontrava focada no arco leste onde recentemente havia sido cavada uma nova trincheira. O trabalho havia sido lento porque se encontravam continuamente despojos humanos, que Rick Chang identificou como corpos de soldados.

Olhando para baixo, Kate viu que as paredes da trincheira se haviam desmoronado em ambos os lados, a terra caindo para dentro, cobrindo a própria trincheira. Havia agora um enorme monte de terra, como um desmoronamento, bloqueando progressos futuros, e ao mesmo tempo que a terra desmoronou, crânios acastanhados e longos ossos - montes deles - haviam surgido à superfície.

No grupo que se encontrava ali Kate viu Rick Chang, Marek, e Elsie que saíra da sua toca para dar uma vista de olhos. Elsie montara a câmara digital num tripé, disparando a torto e a direito. Mais tarde as fotografias seriam reunidas em computador para conseguir panoramas a 360 graus. Seriam tiradas com intervalos de uma hora, para registar cada fase da escavação.

Marek olhou para cima e viu Kate debruçada na balaustrada. «Viva», disse ele. «Tenho andado à tua procura. Chega cá abaixo.»

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Desceu a escada até ao fundo em terra da escavação. Ao sol do meio da tarde cheirava a detritos e a um leve odor de decomposição de matéria orgânica. Um dos crânios soltou-se e rolou até aos seus pés. Mas ela não lhe tocou; sabia que os despojos deviam permanecer onde eram encontrados até que Chang os rernovesse.



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