Resgate no tempo



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«Talvez sejam aqui as catacumbas», disse Kate, «mas estes ossos não se encontravam armazenados. Terá havido aqui alguma batalha?»

Marek encolheu os ombros. «Houve batalhas por toda a parte. Estou mais interessado nisto.» Apontou para o arco que se encontrava em frente, sem qualquer decoração, arredondado e levemente espalmado.

Kate disse: «Cisterciano, é capaz de ser do século doze...»

«Okay, certo. Mas o que é que me dizes disto?» Directamente por debaixo da curva central do arco, o desmoronamento da trincheira deixara uma abertura negra com cerca de três pés de largo.

Ela disse: «Em que é que estás a pensar?»

«Acho que o melhor é entrarmos ali. Imediatamente.» «Porquê?» exclamou ela. «Qual é a pressa?»

Foi Chang que lhe respondeu, «Parece que existe espaço para lá da abertura. Uma sala, talvez diversas salas.»

«E depois?»

«Agora encontra-se exposto ao ar. Pela primeira vez em talvez seiscentos anos.» Marek acrescentou: «E o ar tem oxigénio.»

«Achas que há ali artefactos?»

«Não sei o que é que há ali», respondeu Marek. «Mas podemos ter danos consideráveis dentro de poucas horas.» Voltou-se para Chang. «Temos uma cobra?» «Não, está em Toulouse para ser reparado.» A cobra era um cabo de fibra

óptica que podia ser ligado a uma câmara. Utilizavam-no para observar espaços que de outro modo seriam inacessíveis.

Kate observou: «Por que é que não te limitas a encher a sala com azoto?» O azoto era um gás inerte, mais pesado do que o ar. Se o bombeassem através da abertura, encheria o espaço como se fosse água. E protegeria quaisquer artefactos dos efeitos corrosivos do oxigénio.

«Não me importava», disse Marek, «se eu tivesse gás que chegasse. O maior cilindro que temos aí é de cinquenta litros.»

Não era suficiente.

Ela apontou para os crânios. «Eu sei, mas se fizeres alguma coisa agora, vais perturbar ... »

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«Eu não me preocupava com os esqueletos», disse Chang. «já mudaram de posição. E dá o aspecto de que se trata de um enterro em massa, depois de uma batalha. Mas não há muito que se possa aprender com eles.» Voltou-se e olhou para cima. «Chris, quem é que tem o reflector?»



No lado de cima, Chris disse: «Eu não. Julgo que a última vez foram usados aqui.»

Um dos estudantes disse: «Não, está do outro lado na grelha três.» «Vamos buscá-lo. Elsie, já acabaste com as fotografias?»

«Que chato!»

«Já acabaste ou não?» «Só mais um minuto.»

Chang estava a chamar os estudantes que se encontravam no lado de cima, dizendo-lhes para trazerem os reflectores. Quatro deles afastaram-se a correr. Marek estava a dizer aos outros: Okay, minha gente, quero flashes, quero

equipamentos de escavação, garrafas portáteis de oxigénio, máscaras, linhas de guia, a tralha toda -já.»

No meio de toda aquela excitação, Kate continuava a olhar para a abertura por debaixo do arco. O arco parecia-lhe frágil, com as pedras relativamente soltas. Normalmente um arco mantinha a sua forma graças à pressão das paredes sobre a pedra central, a chave do arco. Mas neste caso, toda a curva superior sobre a abertura podia simplesmente desmoronar-se. A terra que caíra do desmoronamento estava solta. Via os seixos soltarem-se e deslizarem aqui e ali. Não lhe parecia lá muito bem.

«André, não acho que seja muito seguro trepar aquele... »

«Quem é que está a falar em trepar? Vamos descer-te pela parte de cima.» «Eti?»

«Exactamente. Penduras-te na parte de cima do arco e entras a partir daí.» Deve ter parecido desorientada, porque ele sorriu. «Não te preocupes, eu vou contigo.»

«Estás a ver, se não tivermos razão ... » Pensava para consigo: «Podíamos ser enterrados vivos.»

«0 que é isso?», perguntou Marek. «Estás a perder a coragem?» Era tudo aquilo que ele tinha para dizer.

Dez minutos mais tarde, estava pendurada no ar, na beira do arco exposto. Tinha a mochila de escavação, com uma garrafa de oxigénio presa no lado de trás, e duas lanternas penduradas nas alças, parecendo granadas. Tinha a más-

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cara puxada para a testa. Cabos ligavam o rádio a uma bateria que transportava no bolso. Com tanto equipamento sentia-se esquisita, desconfortável. Marek permanecia acima dela, prendendo a sua linha de segurança. E, no fundo do poço, Rick e os seus estudantes olhavam para eles com um ar tenso.

Olhou para cima na direcção de Marek. «Dá-me cinco.» Libertou cinco pés de linha e ela deslizou até conseguir aflorar o monte de detritos. Pequenos deslizamentos de terra escapavam-se por entre os pés. Inclinou-se para a frente.

«Mais três.»

Deixou-se cair apoiada nas mãos e nos joelhos, apoiando no terreno todo o seu peso. Aguentava. Mas olhou para o arco que se encontrava acima dela. A pedra chave estava a desmoronar-se em ambos os lados.

«Está tudo bem?» perguntou Marek em voz alta. «Okay», respondeu ela. «Vou entrar agora.»

Rastejou de volta ao buraco que se encontrava debaixo do arco. Olhou para cima na direcção de Marek, e pegou numa das lanternas. «Não sei se conseguirás fazer isto, André. É possível que os detritos não suportem o teu peso.» «Que gracinha. Não vais fazer isto sozinha, Kate.»

«Bom, pelo menos deixa-me entrar primeiro.»

Acendeu a lanterna, ligou o rádio, puxou a máscara para baixo, para começar a respirar através dos filtros, e rastejou através do buraco, entrando na escuridão que a aguardava.

O ar estava surpreendentemente fresco. O feixe amarelo da lanterna avançava hesitante pelas paredes nuas em pedra, pelo pavimento em pedra. Chang tinha razão: era um espaço aberto por debaixo do mosteiro. E parecia continuar até a uma certa distância, até que os detritos e o cascalho desmoronado bloqueavam a passagem mais distante. Apontou o feixe de luz para o tecto, tentando ver em que condições se encontrava. Não conseguia ver muito bem. Mas não era lá grande coisa.

Continuou a rastejar apoiada nas mãos e nos joelhos, e em seguida começou a descer, deslizando um pouco pelos detritos na direcção do solo. Momentos mais tarde, punha-se de pé dentro das catacumbas.

«Já cá estou.»

Estava escuro à volta dela, e sentia a humidade do ar. Havia um odor frio e húmido que era desagradável mesmo através dos filtros. Os filtros eliminavam

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as bactérias e vírus. Nas escavações da maior parte dos locais de trabalho ninguém se preocupava com máscaras, mas aqui eram necessárias, porque no século catorze as pragas haviam surgido por diversas vezes, matando um terço da população. Embora uma das formas da epidemia tivesse sido originalmente transmitida por ratos infectados, outra forma foi transmitida pelo ar, através da tosse e de espirros, e assim toda a gente que entrasse num antigo espaço selado tinha que se preocupar...



Ouviu um ruído atrás dela. Viu Marek passando através do furo que se encontrava na parte superior. Começou a deslizar até que saltou para o solo. No silêncio que se seguiu, ouviram os sons suaves dos seixos e terra que deslizavam pelas terras do desmoronamento.

«já reparaste», disse ela, «que podíamos ficar aqui enterrados vivos.» «Deves olhar sempre para o lado bom,» respondeu Marek. Continuou em frente, segurando uma grande lâmpada fluorescente com reflectores. Iluminava uma secção completa da sala. Agora que podiam ver claramente, a sala parecia desalentadoramente vazia. Ã esquerda encontrava-se o sarcófago em pedra de um cavaleiro; a tampa, que havia sido removida, era esculpida em relevo. Quando inspeccionaram o interior do sarcófago, verificaram que se encontrava vazio. Encostada a uma das paredes encontrava-se uma mesa em madeira tosca. Estava vazia. Um corredor aberto para a esquerda, terminava numa escada de pedra, que subia até desaparecer num monte de detritos. Mais montes de terra nesta câmara, para o lado direito, bloqueando outra passagem, outro arco.

Marek suspirou. «Tanta excitação... para nada.»

Mas Kate continuava a estar preocupada com a terra que se soltava, caindo na sala. Fez com que olhasse atentamente para os montes de terra que se encontravam à direita.

E foi nesse instante que ela a viu. «André», disse ela. «Chega aqui.»

Era uma protuberância cor de terra, castanha contrastando com o castanho da terra, mas a superfície tinha um brilho muito leve. Limpou-a com a mão. Era oleado. Destapou um canto afiado. Oleado que embrulhava qualquer coisa.

Marek espreitou por cima do ombro dela, «õptimo, muito bem.» «Naquela altura já tinham oleado?»

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«Oh, sim. O oleado é uma invenção Viking, talvez do século nono. Bastante vulgar na Europa no nosso período. Embora esteja convencido de que não se encontrou mais nada no mosteiro que esteja embrulhado em oleado.»

Ajudou-a a escavar. Fizeram-no cautelosamente, procurando evitar que as terras desabassem sobre eles, mas dentro em pouco tinham o objecto exposto. Era um rectângulo com cerca de sessenta centímetros quadrados, protegido com uma corda embebida em óleo.

«Julgo que são documentos», disse Marek. Os dedos iluminados pela luz fluorescente tremiam, com a ansiedade de o abrir, mas procurou controlarse. Levamo-lo connosco.»

Colocou-o debaixo do braço e dirigiu-se para a entrada. Ela olhou uma última vez para o monte de terra, pensando se não teria falhado qualquer coisa. Mas não tinha. Moveu o feixe de luz e...

Parou.

Pelo canto do olho teve uma visão fugaz de qualquer coisa brilhante. Voltou-se para olhar mais uma vez. Por momentos não conseguiu encontrá-la até que finalmente ali estava.



Era uma pequena peça de vidro, saindo da terra. «André?», disse ela. «Tenho a impressão de que há mais.»

O vidro era fino e perfeitamente transparente. A borda era curva e macia, quase moderna na sua qualidade. Limpou a sujidade com as pontas dos dedos expondo uma lente de uns óculos.

Era uma lente bifocal.

«0 que é?», perguntou André dirigindo-se para ela. «Isso gostava eu de saber.»

Semicerrou os olhos, aproximando o feixe da lanterna. O rosto estava tão próximo do vidro que quase lhe tocava com o nariz. «Onde é que encontraste isto?» O seu tom de voz denotava preocupação.

«Mesmo aqui.»

À mostra, como está agora?» A sua voz estava tensa, quase acusadora. «Não, só se via uma das bordas. Fui eu que a limpei.»

Como?» «Com o dedo.»

«Estás a querer dizer-me que estava parcialmente enterrada?» O seu tom de voz dava a entender que não acreditava nela.

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«Hey, qual é a tua ideia?» Limita-te a responder, por favor.»

«Não, André. Estava quase toda enterrada. Estava toda enterrada menos este bordo esquerdo.»

«Gostava que não lhe tivesses tocado.» «Também eu, se soubesse que ias reagir ... »

«Isto tem que ter uma explicação», disse ele. «Volta-te.» «0 quê?»

«Volta-te.» Agarrou-a pelo ombro e voltou-a com brusquidão, de modo a ficar de costas para ele.

«Valha-me Deus.» Olhava por cima do ombro para ver o que é que ele estava a fazer. Segurava a lanterna muito perto da mochila dela e deslocava-a ao longo da superficie muito lentamente, examinando a mochila minuciosamente e em seguida os calções. «Olha lá, estás a querer dizer-me ... »

«Está calada por favor.»

Passou-se um minuto à vontade antes dele ter terminado. «0 zipe do fecho inferior da tua mochila está aberto. Foste tu que o abriste?»

«Não.» «Então tem estado sempre aberto. Desde a altura em que colocaste a mochila?»

«Julgo ... »

«Houve alguma altura em que te tivesses encostado à parede?»

«Acho que não.» Procurara ter o maior cuidado com esse aspecto porque não queria que a parede se desmoronasse.

«Tens a certeza?» perguntou ele.

«Pelo amor de Deus! Não, André, não tenho a certeza.»

«Está bem. Agora faz-me o mesmo.» Estendeu-lhe a lanterna e voltou-se de costas para ela.

«Verifico o quê?» perguntou ela.

«Esse vidro é uma contaminação», respondeu. «Temos que explicar como é que ele apareceu ali. Verifica se algum dos bolsos da minha mochila se encontra aberto.»

Ela fez aquilo que ele lhe pedia. Não havia nada aberto. «Viste cuidadosamente? »

Sim, vi cuidadosamente», disse ela num tom aborrecido. «Acho que o fizeste muito depressa.»

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«André, já te disse que verifiquei cuidadosamente. »

Marek ficou a olhar para o monte de terra que se encontrava na frente deles. Enquanto olhava, pequenos seixos deslizavam pelo declive. «Podia ter caído de uma das nossas mochilas e depois ficar coberto ... »

Sim, acho que é possível.»

«Se conseguiste limpá-lo com a ponta do dedo é sinal de que não se encontrava profundamente enterrado ... »

«Não, não, estava perfeitamente solto.»

«Tudo bem. Então, de certo modo, temos aqui a explicação.» «Que é?»

«Não sei bem como, trouxemos esta lente connosco e enquanto estávamos a trabalhar nos documentos embrulhados no oleado, caiu da mochila e ficou coberto pelos detritos. Mais tarde viste-o, e limpaste-o. É a única explicação.» «Okay ... »

Mark tirou a máquina fotográfica, fotografou o vidro várias vezes de diferentes distâncias - de muito perto e em seguida progressivamente mais longe. Só depois tirou um pequeno envelope de plástico, pegou cuidadosamente no vidro com uma pinça e introduziu-o no envelope. Tirou um pequeno rolo de fita adesiva, fechou o envelope, selou-o com a fita e entregou-lhe o embrulho. «Leva-o contigo. Por favor tem cuidado.» Parecia mais descontraído. Estava a mostrar-se mais amável com ela.

«Está bem», disse ela. Voltaram a trepar o declive do aterro, dirigindo-se para o exterior.

Foram saudados com vivas pelos estudantes, e o embrulho com o oleado foi entregue a Elsie, que o transportou rapidamente para a casa agrícola. Toda a gente ria abertamente ou sorria, excepto Chang e Chris Hughes. Usavam auscultadores e tinham ouvido tudo aquilo que se passara na cave. Tinham um ar sombrio e preocupado.

A contaminação de um local de trabalho era um assunto extremamente sério e todos sabiam isso. Porque implicava uma técnica de escavação descuidada levando a questionar qualquer outra bem como descobertas legítimas que tivessem sido feitas pela equipa. No ano anterior, em Les Eyzies, um caso semelhante quase que ia redundando num pequeno escândalo.

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Les Eyzies era um local Paleolítico, uma povoação de homens primitivos no rebordo de uma falésia. Os arqueólogos estavam a fazer escavações a um nível que datava de 320 000 a.C., quando um deles encontrou um preservatívo meio enterrado. Ainda se encontrava na sua embalagem metálica e ninmguém se atreveu a pensar nem por instantes que fizesse parte daquele nível. Mas o facto de ter sido encontrado ali - meio enterrado - sugeria que não estavam a ser cuidadosos com a sua técnica. A equipa quase que entrou em pânico, mas continuaram depois de um dos estudantes licenciados ter sido mandado de volta para Paris, desacreditado.

«Onde é que está a lente?» «É a Kate que a tem.»

Ela entregou a lente a Chris. Enquanto toda a gente festejava, ele afastou-se, desembrulhou o pacote e expôs o envelope à luz.

«Moderno sem a menor dúvida.» Abanou a cabeça com um ar infeliz. «Vou verificar isto. Não te esqueças de mencionar isto no relatório de trabalho.» Marek garantiu que não se esqueceria.

Nessa altura Wek Chang voltou-se e bateu as palmas. «Ok, meninos, a brincadeira acabou. Toca a trabalhar!»

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Para essa tarde Marek havia planeado um treino de tiro com arco. Os alunos gostavam imenso do treino e nunca faltavam a uma sessão; recentemente Kate também se havia juntado ao grupo. Naquele dia o alvo era um espantalho cheio de palha, colocado a cerca de trinta metros. Os miúdos estavam todos alinhados, empunhando os seus arcos, e Marek passou lentamente por detrás deles.

«Para matar um homem», disse-lhes ele, «não se podem esquecer de uma coisa: é quase certo que usa placa de armadura no peito. É menos provável que tenha protecção de armadura na cabeça e no pescoço, ou nas pernas. Sendo assim, para o matar terão que o atingir na cabeça, ou nas partes laterais do tronco que não se encontram protegidas pela armadura.»

Kate ouvia a explicação de Marek divertida. André levava tudo muito a sério. Para matar um homem. Como se, na realidade, fosse isso que ele quisesse fazer. Ali de pé, gozando o sol da tarde do sul da França, ouvindo o buzinar distante dos carros que passavam na estrada, a ideia parecia levemente absurda.

«Mas se quiserem deter um homem», continuou Marek, «disparem para as pernas. Vai logo abaixo. Hoje vamos usar arcos de dois quilos.»

Dois quilos representava o esforço de abertura, aquilo que era necessário para esticar o arco. Os arcos eram pesados sem qualquer dúvida, e difíceis de disparar. As flechas tinham quase sessenta centímetros de comprimento. Muitos dos miúdos viam-se atrapalhados, especialmente quando treinavam pela primeira vez. Normalmente Marek terminava cada sessão de treino com levantamento de pesos, por uma questão de musculação.

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Marek era capaz de atirar com um arco de quatro quilos e meio. Embora fosse difícil de acreditar, insistia em que era o tipo das verdadeiras armas do século catorze - muito além daquilo que qualquer deles era capaz de usar.

«Muito bem, disse Marek, «escolham as vossas flechas, apontem e podem disparar.» As flechas cruzavam o ar. «Não, não, não, David, não abras o arco até começares a tremer. Procura manter o controlo. Carl, olha para a tua posição. Bob, demasiado alto. Deanna, não te esqueças do dedo. Rick, essa foi muito melhor. Muito bem, mais uma vez, escolham as vossas flechas, apontem, e. .. disparem!»

A tarde já ia no fim quando Stern chamou Marek no rádio e pediu-lhe para ir à casa agrícola. Disse-lhe que tinha boas notícias. Marek foi encontrá-lo debruçado sobre o microscópio a examinar a lente.

«0 que é que se passa?»

«Chega aqui. Vê tu mesmo.» Chegou-se para o lado e Marek observou. Viu a lente e a linha nítida do corte bifocal. Aqui e ali a lente estava levemente manchada com círculos brancos, como se fosse devido a bactérias.

«0 que é que eu devo ver?», perguntou Marek. «Borda esquerda.»

Moveu a lamela, trazendo a borda esquerda para o campo de visão. Com a refracção da luz a borda parecia muito branca. Em seguida notou que a brancura partia da borda, espalhando-se para a superficie da lente.

«São bactérias a desenvolverem-se na lente», disse Stern. «É como verniz de rocha.»

Verniz de rocha era o termo para a pátina de bactérias e bolor que crescia na parte inferior das rochas. Uma vez que era orgânico, o verniz de rocha podia ser datado.

«Isto pode ser datado?» disse Marek.

«Podia», respondeu Stern, «se houvesse o suficiente para um teste C-14. Mas Posso dizer-te já que não temos. É impossível conseguir uma datagem decente com esta quantidade. Nem sequer vale a pena tentar.»

«E então?»

«A questão é que se trata da parte exposta da lente, não é verdade? A borda que a Kate disse que saía da terra?»

«Exacto ... »

«Então é antiga, André. Não tenho dados concretos mas posso garantir que não se trata de contaminação do local. O Rick está a analisar os ossos que ficaram expostos ho)e e está convencido de que alguns deles são posteriores ao nosso período, século dezoito ou até mesmo século dezanove. O que quer dizer que um deles poderia usar bifocais.»

«Olha que não sei. Esta lente apresenta uma técnica muito apurada...»

isso não quer dizer que seja nova», respondeu Stern. «Há duzentos anos já tinham boas técnicas de polimento. Vou tratar das coisas para que esta lente seja examinada por um técnico de óptica em New Haven. Pedi à Elsie para se adiantar e verificar os documentos que se encontravam no oleado, prevendo o caso de que exista alguma coisa fora do normal. Entretanto, acho que nos podemos descontrair um pouco.

«Não há dúvida de que são boas notícias», disse Marek com um sorriso. «Tinha a certeza de que querias saber. Encontramo-nos ao jantar.»

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Tinham preparado as coisas para jantarem na velha praça de Dorrime, uma aldeia empoleirada no topo de uma falésia, a poucos quilómetros do local de trabalho. Ao cair da noite Chris, que estivera rabugento durante todo o dia, recuperara da sua má disposição e preparava-se para jantar. Pensava se Marek recebera instruções do Professor e, caso contrário, o que é que iam fazer a esse respeito. Sentia-se na expectativa.



A sua boa disposição desvaneceu-se ao chegar, quando viu que os casais de correctores da bolsa se encontravam de novo sentados à mesa deles. Aparentemente haviam sido convidados para uma segunda noite. Chris preparava-se para voltar as costas e ir-se embora, mas Kate levantou-se rapidamente, pôs-lhe um braço pelos ombros e conduziu-o para a mesa.

«É melhor ir-me embora», disse-lhe ele em voz baixa. «Não suporto essa gente.» Mas ela deu-lhe um beijo fugaz e obrigou-o a sentar-se numa cadeira. Verificou que deviam ser os correctores da bolsa que estavam a encomendar o vinho naquela noite - Château Lafite-Rothschild'95, nunca menos de dois mil francos a garrafa.

E pensou para consigo, «Que se lixe».

«Bom, não há dúvida de que é uma cidadezinha encantadora» estava uma das mulheres a dizer. «Fomos dar uma volta para ver as muralhas no exterior. Estendem-se por uma distância muito considerável. Também são altas. E aquela porta extraordinária de entrada na cidade, está a ver, aquela que tem duas torres redondas uma de cada lado.»

Kate acenou com a cabeça. «Não deixa de ser irónico», disse ela, «que um grande número de aldeias que achamos tão encantadoras fossem na realidade os centros comerciais do século catorze.»

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«Centros comerciais? O que é que quer dizer?», perguntou a mulher. Nesse momento o rádio de Marek, que este trazia preso no cinto, crepitou com a estática.

«André? Estás a ouvír?»

Era a Elsie. Nunca vinha jantar com os outros, trabalhando até tarde na sua catalogação. Marek pegou no rádio. «Diz Elsie.»

«Encontrei aqui uma coisa que acho muito estranha.» «Sim ... »

«És capaz de dizer ao David para dar aqui um salto? Preciso da ajuda dele para os testes. Mas dígo-vos uma coisa, meninos - se isto é uma brincadeira, não acho piada nenhuma.»

Com um click o rádio ficou mudo. «Elsie?»

Não houve resposta.

Marek olhou em volta da mesa. «Alguém lhe pregou uma partida?» Abanaram todos a cabeça numa negativa.

Chris Hughes comentou: «Talvez ela comece a sentir-se esgotada. Não me surpreendia com tantas horas a olhar para os pergaminhos.»

«Vou ver o que é que ela quer», disse David Stern, levantando-se da mesa. Afastou-se desaparecendo na escuridão.

Chris pensou em ir com ele, mas Kate olhou para ele rapidamente e sorriu-lhe. Fez com que ele se sentasse mais confortavelmente, pegando no copo de vinho.

«Estava a dizer - que estas cidades eram como centros comerciais?» «Grande parte delas eram», respondeu Kate Erickson. «Estas cidades eram

organizações comerciais para fazerem dinheiro para os que queriam desenvolver as terras. Mais ou menos como os centros comerciais de hoje. E, como se verifica nos centros comerciais, eram construídas em padrões idênt'icos.»

Voltou-se na cadeira e apontou para a praça da cidade de Dorrime que ficava atrás deles. «Está a ver o mercado coberto a madeira que se encontra no centro da praça da cidade? Encontra mercados cobertos semelhantes a este em montes de cidades aqui à volta. Quer dizer que a cidade é uma bastilha, uma nova aldeia fortificada. Durante o século catorze foram construídas em França cerca de mil cidades bastilha. Algumas delas foram construídas para defender o território. Mas muitas delas foram construídas simplesmente para fazer dinheiro.»

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Esta explicação chamou a atenção dos correctores da bolsa.



um dos homens olhou directamente para ela e disse: «Só um momento. como é que construir uma aldeia pode fazer com que alguém ganhe dinheiro?» Kate sorriu. «Economia do século catorze», respondeu. «Funcionava da seguinte maneira. Imaginemos que é um nobre, dono de um grande número de terras. A maior parte da França do século catorze é floresta, o que quer dizer que a maior parte das suas terras são florestas, habitadas por lobos. Poderá ter aqui e ali alguns agricultores que lhe pagam rendas miseráveis. Mas assim nunca conseguirá ficar rico. E porque é um nobre, tem continuamente uma necessidade desesperada de dinheiro, para fazer a guerra e para receber no estilo sumptuoso que se espera de si.



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