Resgate no tempo



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«Sendo assim, o que é que você pode fazer para aumentar o rendimento das suas terras? Constrói uma nova cidade. Atrai gente para viver na sua nova cidade, oferecendo-lhe reduções especiais de impostos, facilidades especiais designadas no foral da cidade. Basicamente, liberta a gente da cidade de obrigações feudais. »

«Qual é a razão de se darem todas essas facilidades?»

«Porque dentro em breve irá ter mercadores e mercados na cidade, e as taxas e impostos irão gerar muito mais dinheiro para si. Aplica impostos a tudo. Pela utilização da estrada para chegar à cidade. Pelo direito de entrar nas muralhas da cidade. Pelo direito de instalar uma tenda no mercado. Pela despesa dos soldados para manterem a ordem. Por fornecer agíotas ao mercado.>,

«Não está mal», disse um dos homens.

«Não está mesmo nada mal. E além disso ainda recebe uma percentagem de tudo aquilo que é vendido no mercado.»

«A sério? Que percentagem?»

«Depende do lugar, e em especial do tipo de mercadoria. De um modo geral, um a cinco por cento. Deste modo, o mercado é de facto a razão de ser da cidade. Pode ver-se claramente pelo modo como a cidade é construída. Olhe para a igreja que está ali», disse ela, apontando para o lado. «Nos primeiros séculos a igreja era o centro da cidade. As pessoas iam à Missa pelo menos uma vez por dia. Toda a vida girava em torno da igreja. Mas aqui no Dorrime, a igreja está afastada para um dos lados. O mercado é agora o centro da cidade.» «Sendo assim, todo o dinheiro vem do mercado?»

«Não totalmente, porque a cidade fortificada oferece protecção para a área, o que quer dizer que novos agricultores irão limpar as terras nas proximidades e começar novas culturas. Deste modo também vão aumentar as suas rendas

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agrícolas. De um modo geral, uma nova cidade é um investimento sólido e de confiança. Razão pela qual tantas destas cidades foram construídas.»

«É só por isso que as cidades foram construídas?»

«Não, muitas foram construídas por razões militares como ... » O rádio de Marek crepitou. Era Elsie mais uma vez. «André?» «Diz», respondeu Marek.

«É melhor vires já aqui porque não sei o que é que hei-de fazer.» «Porquê? O que é que se passa?»

«Vem já. Agora.»

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O gerador trabalhava ruidosamente, e a casa parecia brilhantemente iluminada no meio do campo às escuras, sob um céu crivado de estrelas.

Estavam todos reunidos na casa agrícola. Elsie, sentada à secretária que se encontrava no centro, olhava para eles. O seu olhar parecia distante.

«Elsie?» «É impossível», disse ela.

«0 que é que é impossível? O que é que aconteceu aqui?»

Marek olhou para David Stern que ainda se encontrava a fazer uma análise qualquer num dos cantos da sala.

Elsie suspirou. «Não sei, francamente não sei ... »

«Bom», disse Marek, «o melhor é começares pelo princípio.»

«Okay», respondeu. «0 princípio.» Levantou-se e atravessou a sala, apontando para um monte de pergaminhos que se encontravam sobre um encerado estendido no soalho. «Este é o princípio. O grupo de documentos 1, referência M-031, retirado das escavações do mosteiro às primeiras horas de hoje. David pediu-me para fazer isto o mais rapidamente possível.»

Ninguém disse uma palavra. Limitavam-se a olhar para ela.

Muito bem, continuou. Comecei a analisar o grupo de documentos. Trabalho da seguinte maneira. Retiro cerca de dez pergaminhos de cada vez e trago-os para a minha secretária.» Trouxe dez. «Agora sento-me à secretária e começo a analisar um por um. Em seguida, depois de ter feito o sumário do conteúdo de cada folha, e registado o sumário no computador, trago a folha para ser fotografada aqui.» Dirigiu-se para a mesa seguinte e fez deslizar um Pergaminho sob a máquina fotográfica.

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Marek disse: «Estamos ao corrente do processo ... »



«Não, não estão coisa nenhuma», respondeu ela em tom acerado. «Não estão de modo nenhum ao corrente.» Elsie voltou à sua mesa e retirou o pergaminho seguinte do monte. «Continuando, analiso portanto os documentos um a um. Este grupo é composto por toda a espécie de documentos: facturas, cópias de cartas, respostas a directivas do bispo, registos de colheitas, listas de equipamento do mosteiro. Tudo datado mais ou menos do ano de 1357.»

Tirou os pergaminhos do monte, um por um. «E então», - retirou o último - «vejo isto.» Ficaram a olhar.

Ninguém disse uma palavra.

O pergaminho era idêntico em tamanho aos outros que se encontravam no monte, mas em vez da escrita compacta em Latim ou Francês arcaico, este tinha apenas duas palavras escritas em inglês corrente:

AJUDEM-ME

4/7/1357


«No caso de terem dúvidas», disse ela, «é a caligrafia do Professor.»

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A sala estava silenciosa. Ninguém se movia ou mudava de posição. Estavam ali todos a olhar em completo silêncio.

Marek pensava rapidamente, analisando todas as possibilidades. Atendendo ao seu conhecimento detalhado e enciclopédico sobre o período medieval, trabalhara durante muitos anos como consultor sobre artefactos medievais para o Museu Metropolitano de Arte em Nova iorque. Como resultado disso, Marek tinha uma considerável experiência sobre falsificações de todas as espécies. Era certo que raras vezes eram exibidas falsificações de documentos sobre o período medieval - normalmente as falsificações consistiam em pedras preciosas montadas num bracelete que não tinha mais de dez anos ou uma armadura que se vinha a verificar ter sido fabricada em Brooklin - mas a sua experiência dera-lhe uma visão clara sobre o modo como lidar com estas situações.

Marek disse: Okay, começando pelo princípio. Tens a certeza de que é a sua caligrafia?»

«Tenho», respondeu Elsie. «Sem qualquer dúvida.» «Como é que sabes?»

Ela fungou com desdém. «Sou uma grafologista, André. Mas tens aqui. Podes verificar. »

Trouxe uma nota que johnston rabiscara alguns dias antes, uma nota escrita em maiúsculas, presa a uma factura: «POR FAVOR, VERIFIQUEM ESTE DÉBITO.» Colocou a nota ao lado do texto do pergaminho. «Na realidade, as letras maiúsculas são mais fáceis de analisar. Este H, por exemplo, apresenta uma diagonal Muito leve entre as duas hastes. Traça uma linha vertical, levanta a caneta, em

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seguida desenha a segunda linha vertical, e em seguida volta com a caneta atrás para desenhar o travessão, fazendo a diagonal que estás a ver. Ou então repara no P. Desenha um risco de cima para baixo e em seguida volta à posição inicial para desenhar o semicírculo. Ou o E, que ele desenha como um L, para em seguida com um ziguezague acrescentar as duas linhas adicionais. Não há qualquer dúvida. É a sua caligrafia.»



«Não é possível que alguém tenha forjado isto?»

«Não. Numa falsificação nota-se o levantamento da caneta e outros sinais. Esta é a escrita dele.»

Kate comentou: «Achas que é possível que ele nos quisesse pregar uma partida?»

«Se o fez, não tem piada nenhuma.»

«0 que é que me dizes deste pergaminho onde ele escreveu?» perguntou Marek. «É tão antigo como as outras folhas do monte?»

«Exacto», disse David Stern vindo do outro lado da sala. «Ainda não acabei a datagem de carbono, mas diria que sim - tem a mesma idade dos outros.» Marek pensou: Como é que isso épossível? Perguntou: «Tens a certeza? Este

pergaminho parece-me diferente. A superfície parece ser mais grosseira.»

«É mais grosseira», respondeu Stern. «Porque não foi convenientemente raspado. Nos tempos medievais os pergaminhos constituíam um material muito valioso. Geralmente era usado, raspado até ficar limpo e voltava a ser usado. Mas se observarmos este pergaminho ao ultravioleta... Alguém pode trazer a luz?» Kate desligou as luzes e na escuridão Stern ligou uma lâmpada púrpura sobre a mesa.

Marek viu imediatamente mais escrita, ténue mas que se observava claramente na superfície do pergaminho.

«Originalmente isto era um recibo de aluguer», disse Elsie. «Foi raspado rapidamente e sem o menor cuidado, como se alguém estivesse cheio de pressa.» Chris perguntou: «Estás a dizer que foi o Professor que o raspou?»

«Não faço a menor ideia sobre quem é que o raspou. Mas posso garantir que não foi feito por um especialista.»

Muito bem, disse Marek. «Há uma maneira definitiva de decidir isto de uma vez por todas.» Voltou-se para Stern. «0 que é que me dizes da tinta, David? É genuína?»

Stern hesitou. «Não tenho a certeza.» «Não tens a certeza? E porque não?»

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«Falando sob um ponto de vista químico», disse Stern, «é precisamente aquilo que se poderia esperar: ferro sob a forma de óxido ferroso, misturado com centáurea como agente de ligação orgânico. Havia quem acrescentasse carvão para ficar mais preta, e cinco por cento de sacarose. Nesses dias usava-se a sacarose para dar à tinta um aspecto brilhante. Temos portanto uma tinta vulgar ferro-centáurea, correcta em termos do período em causa. Mas isto em si não tem grande significado.»

«Certo.» Stern estava a dizer que podia ser falsificada.

«Foi assim que efectuei, testes de centáurea e de ferro», disse Stern, «o que faço normalmente quando tenho dúvidas. Conseguimos assim as quantidades exactas que se encontram presentes na tinta. Os ensaios indicam que esta tinta é similar mas não idêntica à dos outros documentos.»

«Similar mas não idêntica», disse Marek. «Até que ponto é similar?» «Como sabes, as tintas medievais eram misturadas à mão antes de serem usadas, porque não se aguentavam. A centáurea é orgânica, o que significa que as tintas eventualmente podiam deteriorar-se. Por vezes acrescentavam vinho à tinta como conservante. De qualquer modo, encontra-se uma variação bastante razoável nas percentagens de centáurea e de ferro de documento para documento. Chegamos a verificar uma diferença de vinte a trinta por cento entre documentos. É perfeitamente aceitável que consigamos aceitar essas percentagens para dizer se dois documentos foram escritos no mesmo dia, do mesmo fornecimento de tinta. Esta tinta em especial apresenta uma diferença de cerca de vinte e nove por cento em relação aos outros documentos.»

«Isso não tem qualquer significado», disse Marek. «Esses números são incapazes de confirmar que se trata de um documento autêntico ou de uma falsificação. Fizeste uma análise espectrográfica?»

«Fiz, acabei-a mesmo agora. Tens aqui o espectro para três documentos, com o do Professor no meio.» Três linhas, uma série de picos e depressões. «Mais uma vez similares mas não idênticos.»

«Não tão similar como isso», disse Marek, observando o padrão dos picos. «Porque, juntamente com a diferença de percentagem em conteúdo em ferro, encontramos um grande número de vestígios de elementos na tinta do Professor, incluindo... a que é que corresponde este pico, por exemplo?»

«Crómio.» Marek suspirou. «0 que quer dizer que é moderna.» «Não necessariamente, de modo nenhum.»

«Não existe crómio nas tintas antes e depois.»

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«É verdade. Mas o crómio é encontrado em tintas para escrita manual. Bastante vulgar.»

«Existe crómio neste vale?»

«Não», respondeu Stern, «mas o crómio era importado de todos os cantos da Europa, porque era usado tanto no fabrico de corantes como de tintas.» «Mas o que é que me dizes dos outros contaminantes?», disse Marek,

apontando para os outros picos. Abanou a cabeça. «Desculpa lá mas não consigo engolir isto.»

Stern disse, «Estou de acordo, deve ser uma partida.»

«Mas não vamos ter uma certeza a cem por cento sem uma datagem carbono», disse Marek. O Carbono - 14 permite-nos fazer uma datagem tanto do pergaminho como da tinta, com uma margem de erro de cerca de cinquenta anos. Isso já será suficiente para decidir a respeito de uma possibilidade de falsificação.

«já que estamos com as mãos na massa, também gostava de fazer um teste de termoluminescência e uma activação a laser», disse Stern.

«Não o consegues fazer aqui.»

«Não, levo-o a Les Eyzies.» Les Eyzies, a cidade no vale seguinte que era o centro dos estudos pré-históricos no sul da França, tinha um laboratório muito bem equipado que fazia datagens carbono -14 e potássio-árgon, bem como activação neutrónica e outros testes dificeis. Os resultados de campo não eram tão exactos como os que se obtinham em Paris ou em Toulouse, mas os cientistas conseguiam uma resposta em poucas horas.

«Há hipóteses de o fazeres esta noite?» «Vou tentar.»

Chrís veio juntar-se ao grupo; estivera a tentar falar com o Professor num telefone móvel. «Nada», disse ele. «Vou ter sempre ao voicemaíl.»

«Está bem», disse Marek. «Para já, não há mais nada que se possa fazer. Presumo que esta mensagem seja uma brincadeira de mau gosto. Não faço a menor ideia de quem seja o engraçadinho, mas alguém o fez. Amanhã fazemos o teste de carbono para datar a mensagem. Não tenho a menor dúvida de que vamos provar que é recente. E com todo o meu respeito para com a Elsie, estou convencido de que o mais provável é ser uma falsificação.»

Elsie começou a protestar furiosamente.

«Mas de qualquer modo», continuou Marek, «o Professor deve estar aqui amanhã e vamos perguntar-lhe. Entretanto, sugiro que vá toda a gente para a cama e desejo-lhes uma boa noite de descanso.»

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Na casa agrícola, Marek fechou a porta devagarinho antes de acender as luzes. Então olhou à sua volta.



A sala estava imaculada, como já o esperava. Apresentava a arrumação e a limpeza de uma cela de monge. Ao lado da cama encontravam-se cinco ou seis documentos para investigação. Numa secretária à direita, mais documentos de investigação ao lado de um computador laptop. A secretária tinha uma gaveta que abriu e inspeccionou rapidamente.

Mas não encontrou aquilo que procurava.

Em seguida dírigiu-se para o armário. As roupas do Professor encontravam-se penduradas ordenadamente, com um espaço entre cada uma das cruzetas. Marek inspeccionou-os um a um, apalpando os bolsos, mas continuou a não o encontrar. Pensou que talvez não estivesse ali. Talvez -o tivesse levado com ,ele para o Novo México.

Havia uma escrivaninha em frente da porta. Abriu a gaveta de cima: moedas num pequeno prato de bordas baixas, dólares americanos presos com um elástico, e alguns objectos pessoais, incluindo um canivete, uma caneta e um relógio sobressalente - tudo coisas absolutamente vulgares.

Em seguida viu uma caixa de plástico, encostada a um dos lados.

Tirou a caixa da gaveta e abriu-a. A caixa continha lentes de óculos. Colocou as lentes no tampo.

As lentes eram bifocais, de forma oval.

Procurou no bolso da camisa e tirou uma saqueta em plástico. Ouviu ranger atrás dele e voltou-se, deparando com Kate Erikson que entrava naquele momento.

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«A inspeccionar a roupa interior dele?» disse ela, erguendo as sobrancelhas. «Vi luz debaixo da porta. Tinha que dar uma vista de olhos.»



«Sem bateres?», disse Marek.

«0 que é que estás a fazer aqui?» perguntou. Logo em seguida viu o plástico. «É aquilo em que estou a pensar?»

«Exactamente.»

Marek tirou a lente bifocal do saco de plástico, segurando-a com uma pinça e colocou-a igualmente no tampo, ao lado das lentes do Professor.

«Não são idênticas,» disse ela. «Mas diria que a lente lhe pertence.» «Também acho.»

«Mas não será isso que sempre pensaste? Quer dizer, é a única pessoa aqui no campo que usa bifocais. A contaminação tem que vir das suas lentes.» «Mas não existe qualquer contaminação», disse Marek. «Esta lente é antiga.» «0 quê?»

«David diz que o branco da borda da lente é um crescimento de bactérias. Esta lente não é moderna, Kate. É antiga.»

Ela observou mais de perto. «Não é possível», respondeu. «Repara no modo como as lentes estão cortadas. É o mesmo tipo de trabalho nas lentes do Professor e nesta lente. Tem que ser moderna.»

«Eu sei, mas David insiste em que é antiga.» «Até que ponto?»

«Não é capaz de o dizer.»

«Não consegue fazer a datagem?»

Marek abanou a cabeça. «Não tem material orgânico suficiente.»

«Sendo assim», disse ela, «vieste a este quarto porque ... » Fez uma pausa, olhando para as lentes e em seguida para ele. Franziu as sobrancelhas. «Julguei que tinhas dito que a letra era uma falsificação, André.»

«É verdade.»

«Mas também perguntaste ao David se podia fazer o teste de carbono esta noite, não foi?»

«Sim ... »

«E agora aqui estás tu com a lente, porque te sentes preocupado ... » Abanou a cabeça como se pretendesse esclarecer as ideias. «Sobre o quê? O que é que achas que se está a passar?»

Marek olhou para ela. «Não faço a menor ideia. Nada disto faz sentido.» «Mas estás preocupado.»

«Sim», respondeu Marek. «Estou preocupado.»

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O dia seguinte amanheceu brilhante e quente, com um sol deslumbrante num céu sem nuvens. O Professor não telefonou durante toda a manhã. Marek telefonou-lhe duas vezes mas só conseguia apanhar o seu voicemail Deixe-me uma mensagem e telefono-lhe mais tarde.»

Também estava sem notícias de Stern. Quando telefonaram para o laboratório em Les Eyzies, disseram-lhes que ele estava ocupado. Um técnico frustrado informou-os: «Está a repetir os testes mais uma vez! Com esta já são três vezes!»

Porquê? Pensava Marek. Considerou a hipótese de se deslocar a Les Eyzies para verificar ele próprio - era uma viagem curta - mas decidiu ficar no armazém para o caso de o Professor telefonar.

Nunca telefonou.

A meio da manhã, Elsie exclamou: «Hul---i.» «0 que é que foi?»

Estava a olhar para outro pergaminho. «Este era o pergaminho que se encontrava imediatamente antes do documento do Professor», disse ela.

Marek aproximou-se. «E o que é que Isso tem?»

«Parece que tenho aqui manchas de tinta da caneta do Professor. Estás a ver, aqui e aqui?»

Marek encolheu os ombros. «Provavelmente estava a analisar este antes de escrever a sua nota.»

«Mas estão na margem», disse ela, «quase como se tratasse de uma anotação.» «Anotação sobre o quê?», perguntou «0 documento é sobre o quê?»

«É uma peça de história natural», disse ela. «Uma descrição de um rio subterrâneo escrita por um dos monges. Diz que é preciso ter cuidado em diversos pontos, marcados em passos, e por aí adiante.»

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«Um rio subterrâneo.. . » Marek não se sentia interessado. Os monges eram os académicos da região e era frequente escreverem pequenos ensaios sobre geografia local, ou carpintaria, a altura apropriada para podar as árvores do pomar, a melhor maneira de armazenar os cereais durante o Inverno, e tantas outras coisas. Eram simples curiosidades e na maioria das vezes estavam erradas.

«Marcellus tem a chave», disse ela, lendo o texto. «Sempre gostava de saber o que é que isto quer dizer. É exactamente onde o Professor deixou as suas marcas. Em seguida... qualquer coisa sobre... pés gigantes... não... os pés do gigante? ... Os pés do gigante? ... E diz vivix, o que é o termo latino para... deixa-me ver... Esta é nova ... »

Consultou o dicionário.

Impaciente, Marek saiu para o exterior e andava de um lado para o outro. Estava irritado, nervoso.

«É estranho», disse ela. «Não existe qualquer palavra vivix. Pelo menos neste dicionário não a encontro.» Fez uma anotação que estava de acordo com a sua maneira metódica.

Marek suspirou.

As horas foram-se arrastando.

O Professor nunca chegou a telefonar.

Finalmente chegaram as três da tarde; os estudantes dirigiam-se calmamente para a tenda grande, para a sua pausa da tarde. Marek deixou-se ficar à porta a observá-los. Pareciam descuidados, rindo, dando palmadas uns aos outros, contando anedotas.

O telefone tocou. Voltou-se imediatamente. Elsie pegou no auscultador. Ouviu-a dizer, «Sim, está mesmo aqui ao meu lado ... »

Precipitou-se para a sala. «0 Professor?»

Abanou a cabeça. «Não. É alguém da ITC.» E estendeu-lhe o telefone. «Fala André Marek», disse.

«Oh, sim. Por favor aguarde um momento, Mr Marek. Sei que o Mr Doniger está ansioso para falar consigo.»

«Está?» «É verdade. Há várias horas que estamos a tentar telefonar-lhe. Por favor, aguarde um momento enquanto o vou chamar.»

Uma longa pausa. Entretanto ouvia-se um trecho de música clássica. Marek colocou a mão sobre o bocal e disse a Elsie: «É o Doniger.»

«Hey», comentou ela. «Estás a subir na vida. Nada mais do que o manda-chuva.»

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«Porque é que o Doniger me está a telefonar?»



Cinco minutos mais tarde ainda aguardava a ligação quando Stern entrou na sala, abanando a cabeça. «Não vais acreditar nisto.»

«Sim? Em quê?» disse Marek continuando a segurar o telefone.

Stern limitou-se a estender-lhe uma folha de papel onde se encontrava escrito:

638 ± 47 BP

«0 que é que isto quer dizer?» perguntou Marek. «A data da tinta.»

«De que é que estás a falar?«

«A tinta do pergarninho», disse Stern. «Tem seiscentos e trinta e oito anos, com uma margem de mais ou menos quarenta e sete anos.»

«0 quê?»


«É isso mesmo. A tinta data de 1361 d.C.» «0 quê?»

«Eu sei, eu sei», disse Stern. «Mas fizemos os testes três vezes. Não há qualquer dúvida a esse respeito. Se o Professor escreveu isso de facto, fê-lo há seiscentos anos.» Marek voltou o papel. No outro lado estava escrito:

1361 d.C ± 47 anos

Ao telefone a música terminou com um click e uma voz tensa disse: «Fala Bob Doniger. Mr Marek?»

«Eu mesmo», disse Marek.

«Talvez não se recorde, mas encontrámo-nos há um par de anos quando eu visitei o campo de trabalho.»

«Lembro-me perfeitamente», disse Marek.

«Estou a telefonar-lhe por causa do Professor johnston. Estamos muito preocupados com a sua segurança.»

«Não sabem onde é que ele se encontra?»

«Não, não é isso. Sabemos exactamente onde é que ele se encontra.» Houve alguma coisa no seu tom de voz que fez com que Marek sentisse uma arrepio na espinha. Marek continuou: «Então Posso falar com ele?»

«Lamento, mas de momento não é possível.» «0 Professor está em perigo?»

«É difícil de dizer. Espero bem que não. Mas vamos precisar da sua audácia e do seu grupo. já enviei o avião para os trazer.»

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Marek disse: «Mr. Doniger, parece que temos uma mensagem do Professor Johnston datada de há seiscentos anos ... »



«No telemóvel não», disse Doniger, interrompendo-o. Mas Marek verificou que não evidenciou qualquer surpresa. «Neste momento são três horas em França, não é verdade?»

«Sim, passam poucos minutos.»

«Muito bem», disse Doniger. «Escolha os três membros da sua equipa que conheçam melhor a região de Dordogne. Dirija-se para o aeroporto de Bergerac. Não se preocupe em fazer as malas. Terão tudo aquilo de que necessitarem quando chegarem aqui. O avião aterra às seis da tarde na vossa zona e irá trazê-los de volta ao Novo México. Compreendeu?»

«Sim, mas ... » «Então até já.»

E Doniger desligou.

David Stern olhava para Marek. «Que história era essa?», perguntou. Marek disse: «Vai buscar o teu passaporte.»

«0 quê?»

«Vai buscar o teu passaporte. E na volta traz o carro.» «Vamos a algum lado?»

«Sim, vamos», respondeu Marek. E pegou no rádio.

Do alto dos baluartes do Castelo de La Roque, Kate Erickson olhava para a paliçada interior, a ampla zona central do castelo, coberta de relva, que ficava situada vinte pés abaixo dela. A zona relvada estava cheia de turistas de uma dúzia de nacionalidades, todos eles envergando roupas coloridas e calções. As máquinas fotográficas disparavam em todas as direcções.

Mesmo por debaixo dela ouviu uma rapariguinha que dizia: «Mais outro castelo. Porque é que temos que visitar todos estes estúpidos castelos, Mamã?» A mãe respondeu: «Porque o Papá está interessado.»

«Mas são sempre a mesma coisa, Mamã.» «Eu sei querida ... »

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O pai, a alguns metros de distância, estava no centro de um recinto de paredes baixas que desenhavam uma antiga sala. «E isto», anunciou ele à família, «era o grande átrio.»



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