Resumo da aula inaugural: o nascimento do Trágico



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ANOTAÇÕES DA AULA INAUGURAL: O nascimento do Trágico. Realizada em Porto Alegre, dia 28 de Março de 2007 pelo PPG da PUC-RS, ministrada pelo professor Dr. Roberto Machado, Titular da UFRJ, vinculado ao Instituto de Filosofia e Ciências Sociais.

Introdução

A proposta desta exposição é desenvolver a trajetória da modernidade através de Nietzsche e Hölderlin, e isto porque dentre as reflexões sobre o tema do trágico na modernidade a primeira é a mais conhecida, embora não seja a única abordagem do tema. Ou seja, Nietzsche se insere em um movimento que já pensava este tema, movimento que inaugurou a modernidade, a saber, o idealismo alemão. Assim, Hölderlin será apresentado como a passagem do Idealismo alemão para o pensamento de Nietzsche.

O trágico se inicia com a ruptura produzida na filosofia a partir de Kant e pelos pós-kantianos, esta ruptura entendida como a modernidade. Este posicionamento, diferentemente daquele que supõe o período moderno iniciado por Descartes, esta interpretação tem como base a distinção Foucaultiana entre o movimento epistêmico de Descartes e o movimento epistêmico moderno, kantiano.
Poética e filosofia da tragédia

De acordo com o livro ‘ Ensaio sobre o Trágico’1, com Aristóteles teríamos a apresentação da poética da tragédia. Apenas em Schelling é que se tem uma filosofia do trágico. Ou seja, a partir do Idealismo alemão é que se terá uma reflexão sobre a idéia do trágico. Esta reflexão nasce na modernidade, e será radicalmente diferente daquela que se fazia antes, desde Aristóteles, ou seja, como uma poética da tragédia, um estudo analítico, formal, classificatório da tragédia como uma poesia. E, embora esta tenha sido retomada em diversos momentos (a reflexão poética do trágico), de acordo com esta hipótese, não há reflexão filosófica que se preocupe em detectar e estabelecer a essência do trágico a partir de sua leitura, e sim, situá-la no gênero geral da poesia.

Esta reflexão tem como característica mais importante propor uma interpretação ontológica da tragédia. Esta idéia de que a tragédia aparece como um documento filosófico a partir dos pós-kantianos, do romantismo, do Idealismo Alemão, significa que apesar da diferença entre os pensadores que são enquadrados nestes movimentos, a tragédia é tida, por todos eles, como um documento ontológico.

Então, o que Aristóteles chamou de mythos, o enredo, a fábula da tragédia, não trata de algo político para estes autores, ou da práxis política ou do saber político. E isto quer dizer que estes pensadores alemães liam a tragédia como um documento filosófico. Ou seja, dizer isto é dizer que o enredo expõe uma visão filosófica sobre a liberdade e necessidade (em Schelling), sobre o Espírito (em Hegel), sobre Liberdade e Vontade (em Schopenhauer), ou mesmo sobre o Dionisíaco (como em Nietzsche): expõe sobre o ser na totalidade geral, sobre os entes. No caso de Nietzsche, ele se opõe a metafísica racional considerando a tragédia como uma anti-metafísica: uma metafísica de artista.

E desta interpretação trágica da tragédia como metafísica, decorre que a principal característica sobre esta reflexão é a da oposição.
Então, toda visão do mundo trágica é a da oposição dual de princípios que às vezes são pensados como conciliados. Basta lembrar que o trágico nasceu com a dialética: os primeiros escritos dialéticos em Hegel e Schelling surgiram para dar interpretações à tragédia. Schelling em 1785, na carta X, interpreta Édipo Rei. Hegel debruça-se na tragédia de Esquilo. Mas, às vezes, esta oposição de princípio não leva à harmonia.
Nietzsche, que não é o único trágico e insere-se neste movimento geral pensava no antagonismo entre o Apolíneo e o Dionisíaco. E em que consistem estes princípios situando o pensamento do autor em relação à Hölderlin? A partir de agora, iremos trabalhar com identidades e diferenças entre estes autores.
Hölderlin: ruptura e harmonia

A posição de Hölderlin em relação à tragédia tem dois momentos distintos: um primeiro quando ele escreve Empédocles, peça inacabada inspirada na vida do filósofo pré-socrático de Agrigento que é apresentado com um personagem que não suporta o tempo, que sofre por não ser um Deus e, por conseguinte, não estar em unidade com o todo. Por esta necessidade do seu ser, joga-se em um vulcão.

Hölderlin faz 3 tentativas onde a tragédia é pensada como uma metáfora da intuição intelectual, ou seja, tanto o poema épico, lírico e o trágico são pensados como uma metáfora (uma transposição). A diferença é que a última, é metáfora no sentido de transpor uma intuição intelectual, sendo esta expressão, na época, característica de transposição do limite que Kant impôs ao conhecimento humano: para Kant, toda intuição é sensível, é o modo como o conhecimento se relaciona imediatamente com os objetos; só Deus poderia ter uma intuição intelectual, tendo em vista que este tipo de faculdade conectaria o conhecer ao ser.

Nesse sentido, Hölderlin segue Schelling, aceitando Kant em relação à ciência, mas estes assim como Schiller buscam a superioridade da Arte com relação à ciência. Embora estes autores aceitem a tese kantiana, colocam a Arte como algo mais profundo a ponto de apresentar uma intuição intelectual.

Ou seja, a tragédia faz a mediação entre o sensível e o espiritual, de um conteúdo ontológico que diz respeito ao absoluto: a tragédia expõe a unidade do todo, a totalidade originária. A tragédia é uma metáfora do absoluto.

Então, neste primeiro momento, Hölderlin pensa a tragédia como intuição do absoluto, de uma unidade íntima que expõe um princípio a partir de antagonismos. Ela exprime uma colisão entre forças antagônicas: uma que separa e uma que une; por um lado formal, por outro informe; limitada e ilimitada; orgânica e aórgico ... Como Nietzsche, batiza seus princípios com nomes gregos: de um lado Juno, por outro o fogo Apolíneo (o pathos sagrado); sobriedade e embriaguez.

Mas esta colisão acarreta a morte ou a auto-destruição do protagonista, assim como o Empédocles onde, com a morte do herói se tem uma restauração: o equilíbrio é mais importante que o antagonismo. Ou seja, o desejo trágico de Empédocles nesta tragédia é orientado na direção do absoluto: ele quer se unir a Deus ou a Natureza ou, em termos espinosistas, Empédocles busca um suicídio especulativo-filosófico, um desejo de morte, ou uma vida liberta das condições humanas. Neste caso, escapar do tempo: cansado de contar as horas, Empédocles joga-se no vulcão.

Mas, trata-se de uma tragédia inacabada, com 3 redações, onde Hölderlin não resolveu uma falta do ponto de vista da dramaturgia: buscar a verdade da tragédia moderna com Empédocles leva ao fracasso. Então Hölderlin volta-se para a Grécia que ele acreditava ter dado início a teatralidade (no fundo, Empédocles era mais filosófico que teatral) com a busca é saber o que é uma tragédia. E isto muda completamente seu pensamento.


O trágico e a tragédia

No texto ‘Observações sobre Édipo e Antígona’ Hölderlin já está assumindo o segundo momento de seu pensamento, ou seja, a de que a essência do trágico é o casamento formidável (ou seja, maravilhoso e monstruoso) entre Deus e o Homem: o desejo que o homem tem de se acasalar com Deus, o desejo de uma unificação ilimitada. Assim, a tragédia purifica o trágico apresentando uma separação ilimitada: ela purifica o homem deste desejo de acasalamento com Deus, apresentando uma separação ilimitada.

Esta distinção parece próximo da diferença de Nietzsche entre Dionísio e Apolíneo. O trágico é a experiência da desmedida, de êxtase que apaga a diferenciação, é um desejo entusiasta furioso de querer igualar-se a deus; é a transgressão do limite que separa o humano do divino.

Schelling e Hegel irão realizar uma crítica ao Idealismo absoluto tendo como foco esta transgressão dos limites da condição humana, limites que Kant havia estabelecido, limites do trágico.

A tragédia tem como função purificar esta falta trágica, purificar este desejo desmesurado de unificação com o divino apresentando uma separação entre homem e deus. Expor o afastamento, viver o limite: é o que Hölderlin via na tragédia grega, a presença de um afastamento categórico. É Deus que se afasta do homem, que corre em direção ao divino querendo uma união.

Édipo passa pela purificação do desejo desmesurado pela união com o divino que traz a obrigação de voltar-se para a terra. Nesse sentido, o afastamento categórico pensando como uma lei da finitude deve corresponder uma retirada equivalente do homem: ele deve ser trazido à terra. Assim, para manter a separação entre homem e divino Hölderlin retorna a Kant de modo de diferenciar-se de Schelling e Hegel que, por sua vez, buscam unificar a diferença entre fenômeno e coisa em si.


Nietzsche: consciência de si e esquecimento de si

Nietzsche vê Dionísio como o perigo para o mundo grego, pois caracteriza a negação dos valores da cultura grega Apolínea. E isto por dois motivos. Em vez de um processo de individuação, de produção da individualidade, que é a principal função da cultura Apolínea (o indivíduo é Apolíneo), o Dionisíaco é a reconciliação das pessoas com as pessoas, das pessoas com a natureza, é um sentimento místico de unidade; é justamente a possibilidade de escapar da divisão, de se fundir ao ser, no uno. Apolíneo é indivíduo, Dionísio é reconciliação. Mas, por outro lado, o dionisíaco é o abandono consciência de si, é desmesura, não é delimitação, calma tranqüilidade e serenidade. O dionisíaco é êxtase, entusiasmo, enfeitiçamento. A consciência de si apolínea desaparece dando lugar a uma abolição da subjetividade até o total esquecimento de si.


Hölderlin e Nietzsche: a representação do infigurável

Comparando esta concepção de Nietzsche com a dualidade de princípios de Hölderlin, podemos encontrar uma semelhança: o dionisíaco em Nietzsche é Apolo em Hölderlin, ou seja, deus da luminosidade e aparência, como uma força que provoca fogo no céu. Em Nietzsche, Apolo é o fundo oriental do pensamento grego. Em Hölderlin é Apolo que é o estrangeiro da natureza grega. Mesmo com a diferença terminológica, o Dionísio nietzscheano e o Apolo Hölderlineano tratam do fundo secreto grego: o mundo das Bacantes. Do mesmo modo é a comparação entre Juno em Hölderlin e Apolo em Nietzsche.

Se, para Hölderlin os gregos não tivessem conquistado a sobriedade, teriam sido consumidos pelo fogo do céu. Os gregos amansaram o tumulto, e por isso foram traduzidos por ele de modo não-ortodoxo. Do mesmo jeito, para Nietzsche, sem uma aliança de Apolo com Dionísio, a espécie teria sido destruída. O nascimento da tragédia, após o combate destas forças estéticas da natureza, após uma misteriosa união conjugal, geraram a arte trágica: o trágico não e antagonismo, é complemento, não é caos nem cosmos, é ‘caosmos’ (Joyce). Dionísio fala a linguagem de Apolo, e Apolo, a linguagem de Dionísio.

Se é verdade que a lei apolínea da individuação impede a revelação do segredo da natureza, se é verdade que ser indivíduo impede que eu assimile totalmente a minha natureza, então também é verdade que o caminho unicamente dionisíaco seria a morte do indivíduo.

A tragédia é a representação, por meios apolíneos, de uma vida dionisíaca. O grego deu conta da civilização bárbara transformando em representação (apolíneo) aquilo que é infigurável (dionisíaco).
Considerações finais

Nietzsche jamais defendeu um abismar-se como o Empédocles na tragédia do primeiro Hölderlin: não devemos nos aproximar do fogo do céu sem prudência. O milagre grego realizado pelo teatro é salvar o indivíduo da força destruidora do dionisíaco.

Se, para Nietzsche a tragédia tem a possibilidade de ar uma explicação do dionisíaco é porque ela é musical, e ele só pode fazer isto através de Schopenhauer, que colocou a música como a arte superior pois existe antes do fenomênico (representativo) e da Coisa em si (vontade).2 Nietzsche utilizou-se desta concepção para transformar a tragédia em uma arte ontológica. Ou seja, é porque o representativo, apolíneo, se serve da aparência, dionisíaca, que o canto e a dança não são mais embriaguez instintiva da natureza, mas sim uma imitação da embriaguez. É um estado de embriaguez em que não se perde a lucidez: o embriagado observa sua própria embriaguez.

Se o Empédocles propõe uma passagem do tempo, do limite, ele propõe algo que Nietzsche jamais propôs. Para Nietzsche, a experiência do infinito, absoluto, própria do dionisíaco, leva a morte, presente em sua interpretação das palavras de Sileno ao rei Midas3 no Nascimento da Tragédia. E Nietzsche sempre pensou que era preciso se proteger da experiência besta, selvagem, não negando-a em uma estratégia apolínea; ou seja, é preciso se proteger da experiência de morte neutralizando seu efeito destruidor através da representação trágica: através da apresentação do Dionísio pelo Apolíneo.

Então, se levarmos em conta o segundo Hölderlin, as observações sobre Sófocles (Antígona e Édipo), parece muito próximo de Nietzsche: a tragédia purifica da desmesura trágica, separa o homem de sua unificação imediata com a natureza. Assim como a tragédia é para Hölderlin um remédio, purificação para a monstruosidade do trágico que ela apresenta, para Nietzsche o trágico também é um remédio, remédio para o êxtase aterrador dionisíaco. A tragédia tem a função de transformar o desejo de abandonar este mundo pelo outro e um desejo de abandonar o outro mundo por este.

Hölderlin e Nietzsche unem no teatro trágico uma afirmação imanente da terra, da vida: no fundo da Grécia está a desmesura, o lado sombrio; por outro lado, a arte, capaz de domar este monstruoso, foi a vitória grega.

OBS: comentário sobre o conceito de Eterno Retorno.

No Zaratustra de Nietzsche temos a afirmação da vida e a negação da sociedade moderna. O eterno retorno prega a liberdade como afirmação da necessidade, ou seja, é uma resposta à dicotomia entre estes dois termos. É a busca do mito contra a livre unidade do tempo cristão: Nietzsche usou a idéia de um tempo circular MAS este aspecto físico é o lado mais pobre. A idéia ética do ‘como se’ é mais importante: como se a vida fosse circular.



Assim, afirmar o eterno retorno é aceitar o fato para além das dicotomias, esta é a vontade de potência: afirma a repetição de tudo.

1 SZONDI, Peter; SUSSEKIND, Pedro. ENSAIO SOBRE O TRÁGICO. Ed. Jorge Zahar, 2004.

2 Embora Schopenhauer nunca tivesse feito este uso da musicalidade para explicar a tragédia.

3 ‘O rei Midas se embrenha na floresta em busca de Sileno, o sábio preceptor de Dioniso. Uma angústia o move: É que nem o viver, nem o poder, nem o ter asseguram a felicidade dos homens. Por isso Midas vai à floresta em busca de Sileno, com uma pergunta angustiante: O que então o homem tem de fazer para ser feliz? Sileno responde: (Átlios brotós) Mísero mortal, por que queres sabê-lo? O que o homem pode fazer para ser feliz é não ter nascido, mas, uma vez que já nasceu, só lhe resta morrer.’ (Extraído de POIESIS, ÉTICA E ESSÊNCIA DO AGIR, no site http://acd.ufrj.br/~travessiapoetic/interpret.htm. Acesso em 13/4/2007 as 19:26hs).




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