Resumos das comunicaçÕES



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I Colóquio Rousseau: “Rousseau, verdades e mentiras” – Faculdade de Ciências e Letras - UNESP/Araraquara – 12 a 14 de novembro de 2003

Apoio FAPESP – FUNDUNESP – PROEX-UNESP

Este documento encontra-se publicado em http://www.unicamp.br/~jmarques/gip/coloquio2003resumos.htm

RESUMOS DE COMUNICAÇÕES

Prof. Dr. Adalberto Luis Vicente

Dep. Letras Modernas, FCL-UNESP/Araraquara

alvicente@horizon.com.br

A retórica da sensibilidade nas Rêveries du promeneur solitaire


O século dos filósofos é também o século dos homens sensíveis. Se por um lado, a confiança na razão permite uma revisão do conhecimento humano, abrindo-lhe novas fronteiras; por outro, entrega-se com facilidade aos encantos da paixão, aos “estados de alma”, à investigação de si mesmo e à introspecção. Com Rousseau, a  “corrente sensível” que perpassa o século alcança sua mais elevada expressão literária. O lugar de destaque que o autor das Rêveries ocupa na história da literatura deve-se, entre outros, ao fato de que nenhum escritor até então havia dado tanta importância à revelação das circunstâncias de composição de sua obra. Poucos haviam explicitado tão claramente o sentido de sua empreitada, analisado tão cuidadosamente a evolução de suas idéias ou haviam revelado tão sinceramente suas contradições e instruído seu próprio processo. Além disso, Rousseau inaugura uma retórica da sensibilidade que o coloca entre os arautos da renovação pela qual passará a expressão literária nos séculos seguintes. Pretendo, nesta comunicação, analisar  certos recursos composicionais e expressivos das Rêveries du promeneur solitaire com a finalidade de mostrar que a eficácia do discurso confessional de Rousseau reside em parte na elaboração hierárquica da relação entre certos componentes discursivos (eu, tu, eles), de modo que a natureza sensível do emissor torna-se um dos argumentos centrais de persuasão.

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Ms. Adriano Eurípedes Medeiros Martins

Doutorando em Filosofia FAFICH – UFMG

E-mail: aemmartins@yahoo.com.br

Liberdade natural e moral: A questão em J.-J. Rousseau


A passagem do estado de natureza ao estado civil produz uma mudança bastante notável no homem ao substituir em sua conduta o instinto pela justiça e a dar a suas ações a moralidade da qual a anterior carecia. O Estado se converte em fonte da justiça e em base de direitos. Porém, talvez tampouco neste caso haja uma real contradição, pois, o contrato social não é senão um artifício filosófico, e podemos, se o quisermos, considerar que Rousseau está praticando uma distinção mais teórica ou lógica que histórica entre o homem e a sociedade e o homem abstração produzida pela sociedade. E isto é substancialmente o que o autor afirma no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Nesse Discurso Rousseau se ocupa das origens da desigualdade moral ou política. No Do Contrato Social, ele se ocupa dos benefícios que obtém o homem na instituição da sociedade, como é a substituição da liberdade meramente “natural” pela liberdade civil e moral. Podemos inferir que o que o homem adquire no estado civil é a liberdade moral, que é o único meio de torná-lo dono de si mesmo, visto que o mero impulso de apetite é a escravidão, enquanto a obediência a uma lei que prescrevemos a nós mesmos é a liberdade. Em algumas formas de sociedade – por exemplo, em uma ditadura tirânica e caprichosa – os homens se encontram efetivamente reduzidos a escravidão, e podem encontrar-se em pior situação em relação ao estado de natureza. Porém, isto é acidental, no sentido de que não resulta da essência do Estado. Se considerarmos o Estado segundo sua essência, teríamos de admitir que sua instituição é de benefícios incalculáveis para o homem.

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Profa Lic. Amanda Garma

Universidad de Buenos Aires

amandagarma@sinectis.com.ar

Rousseau ¿miente?


La consigna de Rousseau en el plano filosófico y literario era consagrarse a la verdad. Este interés intelectual y también moral se comprende a la luz de sus remordimientos debidos a una mentira y al haber sido víctima de la injusticia, hechos que explican su necesidad de enmascarse. Esto derivó en un sentimiento de irresponsabilidad frente a la entrada del mal en el mundo. No obstante, se preguntó por su causa en la sociedad. Además de distinguir la mentira de la ficción e indicar explícitamente las formas que la mentira puede adoptar, vislumbra  la idea de la mentira asociada a la ideología y a la falsa conciencia considerándola un efecto de los sistemas políticos que no garantizan el cumplimiento de la justicia y no del hombre. Sin embargo, la superación de la aporía naturaleza-civilización se lograría mediante la formación de una humanidad cuya existencia esté dictada por su propia naturaleza. En el terreno personal escribir es el medio eficaz para vencer la injusticia y ser considerado inocente. Las inexactitudes de sus relatos autobiográficos en virtud de su carácter “mentiroso” se justificarían por razones psicológicas y estéticas permitidas a la literatura.

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Ana Luiza Sanches Cerqueira

Mestranda em Estudos Literários - FCL-UNESP/Araraquara

analuizasc@hotmail.com


O poder das máscaras sociais em The Picture of Dorian Gray


A proposta pretende abordar a questão do ser/parecer, tratada pelo filósofo Jean Jacques Rousseau, dentro do romance The Picture of Dorian Gray (1890), de Oscar Wilde. A relevância desse trabalho encontra-se no fato de a mentira, o simulacro e o uso de máscaras sociais serem elementos imprescindíveis nesse texto, especialmente se verificarmos que são a juventude e beleza do protagonista as responsáveis pelo respaldo moral que a sociedade da época vitoriana, tão criticada pelo escritor irlandês, lhe confere (não acreditando em sua má índole). No entanto, ao se fazer uma análise mais profunda, nota-se que, ao mesmo tempo em que sustentam a mentira, as máscaras permitem o desvelamento da verdadeira natureza do homem: é a partir do momento que o retrato passa a carregar as marcas de seus atos que Dorian Gray demonstra sua verdadeira personalidade, cruel e egoísta. Assim, a máscara social aprisiona e liberta, oculta e revela, disfarça e autentica. O próprio Wilde comenta este fato no ensaio “A decadência da mentira”, lamentando o declínio na “arte” de mentir. Assim, acreditamos ser possível elaborar um interessante diálogo entre textos de Rousseau e o romance de Wilde, diálogo este aparentemente não realizado pelos estudiosos do autor irlandês, que preferem deter-se em sua faceta dandy e se esquecem de seu lado crítico e contestador.

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Profa Dra Ana Luiza Silva Camarani

Dep. Letras Modernas, FCL-UNESP/Araraquara

camarani@fclar.unesp.br


As sensações junto à natureza em Rousseau e Le Clézio


Jean-Jacques Rousseau vem acrescentar novos elementos à sensibilidade que se manifesta na literatura do século XVIII, entre os quais o sentimento pela natureza. Em sua obra ficcional, não se atém a descrever como espectador o pitoresco do cenário, mas pinta a si mesmo em sua comunicação com a natureza; seus sentidos fixam-se nos elementos integrantes do espaço natural, e a contemplação e o devaneio proporcionam-lhe o enlevo inexprimível que consiste em fundir-se no sistema dos seres e a identificar-se com a natureza inteira. Essa identificação de Rousseau com a paisagem, esse amor pela natureza, expressam-se por meio do elogio à vida campestre, oposta às preocupações, às mentiras e às vãs ambições da vida urbana. Dois séculos mais tarde, Jean Marie Gustave Le Clézio emprega, sobretudo, a figura da criança para assinalar a possibilidade e a necessidade da identificação homem/natureza, ao apontar, como fez Rousseau, um caminho contrário aos valores característicos da atual sociedade ocidental; um caminho que leva à simplicidade e à sensibilidade, tentando resgatar a liberdade e a felicidade do homem junto à natureza. Nesse sentido, é possível estabelecer um elo entre os textos literários dos dois escritores e, ao mesmo tempo, assinalar a originalidade de cada um.

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André Christian Dalpicolo

Mestrando em Filosofia, PUC São Paulo

andre_dal@hotmail.com

Natureza e História em J.J- Rousseau


O cerne do pensamento de Rousseau sustenta-se no desenvolvimento histórico da natureza humana, já que o mesmo institui a oposição entre a essência e a existência do indivíduo. O surgimento de um segundo estado de natureza desdobra-se em dois planos distintos. Enquanto o primeiro anuncia as conseqüências funestas da socialização dos homens, o segundo aponta o desenvolvimento da perfectibilidade através da liberdade e da consciência. Esse segundo estado de natureza indica a gênese do mal a partir do desenvolvimento histórico do homem. Todavia, isso não significa que o surgimento, tanto da liberdade quanto da consciência, seja o responsável pelas mazelas da humanidade. Se a historicidade humana é o fundamento da gênese do mal, cabe a essa historicidade descobrir os instrumentos necessários para eliminar a lacuna entre a essência e a existência do homem. O filósofo genebrino acredita que a perdição e a redenção humana não são encontradas através da ação do Criador. Em face disso, é dado o momento do homem se responsabilizar pelos seus atos. Essa responsabilidade significa abrir horizonte para a formação de uma nova comunidade. Vale lembrar que a mesma é fundamentada no direito natural humano (e não divino). O direito natural  humano equivale a superação da oposição ser/parecer e contribui para a resolução da questão entre a verdade e a mentira no pensamento de Rousseau. Essa resolução não significa um retorno ao estado originário do homem, mas o encontro de um justo meio que supere a lacuna entre a essência e a existência do indivíduo.
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Prof. Ms. Antônio Cesar Ferreira da Silva

Dep. de Educação - Univ. Est. de Feira de Santana

ogunja@bol.com.br.


Rousseau: liberdade e individualidade


A reflexão em questão procura articular dois conceitos fundamentais do pensamento moderno, em Rousseau, que são o da liberdade e o da individualidade. As obras desse pensador, centrais em nossas investigações, são: Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Do contrato social e o Emílio. Entendemos que ambos os conceitos têm uma relação complementar, pois não podemos pensar a liberdade distante da vida do indivíduo . A questão posta é a de que a liberdade humana tem como um de seus elementos fontais a dimensão da individualidade. Não tratamos aqui, da individualidade como instância opositora a coletividade, mas sim, como pontos  tensionados, como dimensões da existência humana. Ou seja, em que perspectiva a individualidade pode contribuir para a construção e a manutenção da liberdade numa ordem institucionalizada, coletiva? Queremos tratar da liberdade tendo como uma de suas bases a própria individualidade.

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Prof. Ms Arlei de Espíndola

Centro de Ciências Humanas e Sociais – Unioeste/Toledo PR

Doutorando em Filosofia – UNICAMP

Sêneca e Rousseau: Natureza humana e crítica da sociedade


A presente comunicação pretende ser um exercício preliminar de aproximação entre o Discurso sobre a desigualdade de Rousseau e o pensamento de Sêneca, sobretudo aquele que é apresentado nas Cartas a Lucílio. Esta obra de Rousseau muito contribui para a consolidação de seu vínculo com o ideário estabelecido pelo filósofo estóico. Não são poucos os temas discutidos pelo autor genebrino que mostram haver entre os dois escritores uma profunda comunidade de opinião. Procurando dar uma visão muito genérica dessa identidade, podemos afirmar que ambos, preocupados com o homem e a sua condição, formulam um mesmo conceito acerca de sua natureza e reconhecem uma mesma fonte de todo o mal. Para eles, o homem é originariamente bom, mas torna-se mau por influência da vida em sociedade; ambos condenam o advento da propriedade privada e concebem os tempos que a antecederam nos mesmos termos: foi uma época de ouro na qual o homem permaneceu inocente e desfrutou, em razão de sua auto-suficiência, de uma completa felicidade. Eles acreditam, para não ultrapassarmos os limites dos textos citados, que as sociedades primitivas conservam-se numa posição privilegiada, pois permitem ao ser humano desfrutar de uma condição mais próxima do prescrito pela natureza, poupando-o, assim, dos vícios de toda ordem.

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Profa Dra Carla Milani Damião

Dep. de Filosofia – Universidade Mackenzie.

cdamiao@hotmail.com

A questão da sinceridade em Rousseau


Nossa exposição parte inicialmente da consideração de que o uso da sinceridade em Rousseau é menos uma medida para o “conhecimento de si” e mais uma exigência por um “reconhecimento do outro”; já que essa exigência parte de um si mesmo que afirma conhecer-se plenamente. Alguns dados biográficos são considerados como referência fundamental à discussão, bem como o preâmbulo das Confissões comparado ao que constava nos esboços redigidos para a composição dessa obra. Em seguida procuramos aprofundar a questão da sinceridade, citando como motivo de reflexão o conhecido episódio do roubo da fita rosa e prateada; episódio narrado nas Confissões e retomado na “Quarto Devaneio” de seu escrito inacabado Os devaneios de um caminhante solitário. Esse episódio narrado logo no início do livro (Livro II) tem o mérito de apresentar como exemplo uma falta por ele cometida que, ao ser rememorada em descrição detalhada, firma o compromisso de “tudo dizer” do ser sincero. A sinceridade, nesse caso, encontra-se estritamente ligada ao relato confessional do sujeito em busca da tentativa de superar o erro diante dos valores de verdade e falsidade. E esse é um dos aspectos que ajudam a definir o alcance da sinceridade em Rousseau. Ela necessariamente é subjetiva e tem diante de si o valor de uma verdade objetiva, ao tornar-se aceita publicamente; ao mesmo tempo, realiza a função confessional de se reparar um erro cometido.

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Carlo Curvelano Freire.

Mestrando em Filosofia – UNICAMP.

carlocf@terra.com.br.

Uma condição inescapável, a do ser político, em Rousseau


Sobre temas como a família e o Estado encontramos informação relevante em Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778). Ambos os temas são discutidos por Rousseau em seu texto sobre política mais consagrado, Do Contrato Social (1762). Mas a Nova Heloísa (1761) é texto que não se pode deixar de lado se pensamos no tema da família. Portanto, o próprio Contrato Social se vê discutido no romance, pois alguns de seus conceitos abstratos ali ganham algum conteúdo. Além disso, a obra de Rousseau, por seus componentes biográficos, oferece-nos material suficiente para que se possa discutir e refletir sobre seu momento histórico e sobre suas posições políticas. Por isso, a seguir, procura-se sugerir uma abordagem que atente para o conteúdo político de sua obra, que pode ser identificado e classificado em suas partes distintas à luz de uma relação entre suas obras.

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César Eduardo Pacagnella

Mestrando em Filosofia – UNICAMP

cesar@unicamp.br

Rousseau e a arte de cultivar jardins


A arte de cultivar jardins, pela sua peculiaridade, oferece ao estudioso do pensamento de Rousseau uma temática muito importante: sendo a própria natureza transformada em obra de arte, ela reflete a relação entre homem e natureza, e a própria concepção de natureza da época. O objetivo da nossa comunicação é mostrar a presença do jardim como forma de arte na obra do pensador genebrino, tentando traçar paralelos entre a figura do jardineiro, do educador e do legislador. Partiremos das discussões suscitadas no século XVII e XVIII, na França e Inglaterra, entre os dois modelos de jardim (o francês, também chamado de clássico e formal, e o inglês, ou pitoresco, jardim da sensibilidade, ou jardim do homem sensível) para inserir, nesse contexto, a crítica feita pelo pensador genebrino ao modelo francês. Exporemos os princípios artísticos que caracterizam ambos os modelos, dando um destaque especial na relação artista e obra de arte. Ao contrário do modelo francês, no qual a intenção do artista é visível em cada detalhe, no jardim inglês a mão do artista desaparece. Assim, buscam-se artimanhas para apagar as marcas da interferência humana na natureza, criando-se a ilusão de uma natureza guiada por si mesma, sem necessidade do homem. A partir daí, tentaremos apontar a utilização desse princípio por Rousseau na educação do homem e do cidadão.

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Prof. Ms Cláudio Eduardo Rodrigues

Dep. Filosofia – Univ. Fed. de Uberlândia

CESUC – Centro de Ensino Superior de Catalão – GO

rodridu@uber.com.br


Ficção e Fundamentação Histórica: a crítica de
David Hume ao estado de natureza em Rousseau


Rousseau, assim como outros pensadores contratualistas, concebe a existência de um estágio da vida humana anterior a adesão dos indivíduos à vida social, moral e política a que denomina estado de natureza. Muito embora tal estado seja apresentado de maneira inusitada pelo pensador genebrino, como um período separado da história e marcado pela inocência e bondade dos seres humanos, compreende-se que, assim como para Hobbes e Locke, o mesmo é um dos elementos indispensáveis para se fundamentar e justificar o Estado Moderno e suas políticas.  Contudo, ainda que Rousseau reconheça que o estado de natureza talvez nunca tenha existido, aos olhos empiristas e céticos de David Hume (1711-1776), a observação, a experiência, em suma, a história refutam a existência de tal estágio da espécie humana e fornecem elementos mais seguros para a explicação, fundamentação e justificação do poder governamental e estatal moderno. Nesse sentido, o nosso propósito volta-se para a caracterização do estado de natureza apresentado por Rousseau e em seguida, de forma estrita e especial, para a análise das críticas que David Hume direciona às teses do pensador genebrino.

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Edgar Rogério da Costa

Mestrando em Filosofia – UNICAMP

philo@zipmail.com.br

A questão da sociabilidade em Rousseau


Este texto visa abordar a maneira como Rousseau encarou a questão da sociabilidade em seus escritos de maior destaque. O filósofo que de maneira crítica e autônoma denunciou a superficialidade das aparências e o poder da opinião pensou igualmente alguns modelos de sociabilidade que, segundo ele, poderiam ajudar na formação do homem tanto no seu aspecto individual quanto coletivo. Esses modelos se desdobram nas tarefas de educar o indivíduo para o seu ingresso na sociedade (Emílio); de retornar ao convívio familiar como fonte de alegria e de satisfação (Nova Heloísa); e de reorientar o amor-próprio para fins cívicos (Contrato Social), para citar alguns exemplos. O convívio em sociedade e as pressões externas que esse convívio exerce sobre os indivíduos desencadeia boa parte daquilo que é responsável por sua infelicidade, por seu afastamento do que é natural e bom, enfim pela degeneração dos seus costumes. Nesse sentido, os personagens criados por Rousseau têm a finalidade tanto de chamar a atenção para os males advindos da vida social quanto indicar caminhos que podem ser trilhados na busca de sua solução. Este texto acompanha esta reflexão, pontuando conceitos importantes que lhe servem de base.

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Érica Milaneze

Mestranda em Estudos Literários,  FCL-UNESP/Araraquara

honig@ig.com.br

Rousseau e Le Clézio: O desencanto com a
civilização moderna e o reencontro com a natureza


No Discours sur les Sciences et les Arts (1750), Jean-Jacques Rousseau mostra que os valores do Iluminismo, o progresso, as ciências e as artes, são nocivos ao ser humano, surgindo o paradoxo que fará a unidade de todo o seu pensamento: o homem é bom e feliz por natureza, mas a civilização corrompeu e arruinou essa felicidade primitiva. O homem civilizado se alienou da felicidade original e de suas virtudes naturais, devido ao luxo e a dissolução, resultando em uma escravidão social que atribuiu ao indivíduo um valor econômico. De acordo com Rousseau, a felicidade está na vida simples e a virtude depende da consciência e não da ciência. Atualmente, as obras de Jean Maire Gustave Le Clézio parecem ecoar as idéias de Rousseau, pois atacam a articulação do sistema capitalista e da tecnoestrutura da sociedade pós-industrial, responsáveis por instaurar uma civilização regida por leis intelectuais, sociais e morais, que escravizam o homem e impedem sua liberdade. Em Voyages de l’autre côté (1975), as personagens vivem à margem do mundo moderno, sem passado e interesses materiais, perambulando através da cidade em busca de lugares mágicos, como o país das árvores, onde encontram a verdade e a liberdade, por meio da fusão com a natureza. Assim, ao descobrir a vida secreta da natureza, essas personagens percebem que a felicidade está além do imediatismo cotidiano.

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Prof. Fred Carlos Trevisan

Letras Modernas - Faculdades São Judas Tadeu de Pinhais/PR

Mestrando em Filosofia – PUC São Paulo

fredcarlos@zipmail.com.br

O patriotismo como antídoto para o desenvolvimento do
amor próprio segundo J.-J. Rousseau


Este trabalho buscará discutir de que maneira, segundo Rousseau, o patriotismo se apresenta como uma espécie de antídoto contra o desenvolvimento patológico do amor-próprio, sem, no entanto ter a pretensão de esgotar as possibilidades de análise deste tema. Pretende-se, contudo, focar mais detidamente a análise que Jean-Jacques Rousseau desenvolve sobre o teatro e seus efeitos morais sobre o povo, assim como, de que forma a festa cívica, tão defendida por Rousseau, pode ser um instrumento de desenvolvimento do patriotismo, e este, como o único antídoto capaz de impedir o desenvolvimento patológico do amor-próprio. Em sua Carta a d’Alembert, Rousseau, não se limita tão somente a uma análise do teatro e a condenar sua entrada em Genebra, mas, também faz apologia  de  um espetáculo que seja próprio de Genebra, um espetáculo muito mais próximo das festas cívicas do que ao teatro proposto por d’Alembert e tão defendido por Voltaire. A análise dos argumentos contidos na Carta a d’Alembert contra o estabelecimento do teatro em Genebra e a defesa das festas cívicas são de grande importância para que se compreenda  de que forma o patriotismo pode se tornar o antídoto, e assim evitar o desenvolvimento patológico do amor-próprio.

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Prof. Israel Alexandria Costa

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Univ. Cat. Salvador

Mestrando em Filosofia da UFBA

ialexandria@uol.com.br


Rousseau, luzes e civilização: Reflexões acerca da
socialidade civil em Jean Jacques Rousseau


Em Máscaras da civilização, Jean Strarobinski propõe que o processo de civilizar signifique, tanto para homens quanto para objetos, a abolição das asperezas, a supressão de tudo que poderia dar lugar ao atrito de modo a fazer com que os contatos sejam deslizantes e suaves. A partir da analogia entre a noção lato sensu de polícia civil e as ferramentas da lima e do polidor, pretende-se apresentar o advento da socialidade civil moderna como um produto do processo civilizante na medida em que ela se insurge como um sistema de contatos sociais entre superficies polidas e lustradas ao nível do espelhamento, onde o advento das Lumières se daria por reflexos luminosos pelos quais o Siècle se anunciaria consciente de si. Nesse contexto, a noção rousseauniana de luzes naturais apareceria como um contraponto ao segmento deslumbrado do movimento iluminista. Por entender que as ciências, as artes e, em certa medida, também a técnica, seriam produtos de luzes naturais, Rousseau esboçaria, em sua genealogia do homem natural, também uma genealogia da luminosidade pela qual se revelariam as origens e fundamentos da chamada ciência moderna que, desde então, tende a assumir a forma de uma entidade abstrata e independente a clarear o mundo. Por fim, abre-se a possibilidade de indagar sobre a legitimidade da interpretação que dá ao discurso rousseauísta do retorno à natureza o caráter de defesa de uma luminosidade autônoma, própria ao estado do ser que habita em si mesmo e sabe de sua finitude.

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Prof. Dr. José Oscar de Almeida Marques

Dep. de Filosofia – UNICAMP

jmarques@unicamp.br

Rousseau, Lévi-Strauss, e a controvérsia
natureza-cultura em antropologia


São múltiplas as marcas do pensamento de Rousseau na obra do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, sendo visíveis desde os Tristes trópicos até as belas citações do Emílio que servem de epígrafe a vários capítulos de A origem das maneiras à mesa. De forma mais explícita, porém, é no artigo “Rousseau, fundador das ciências do homem” (1962) que a paternidade de Rousseau é reclamada para o tipo de abordagem característica da antropologia de Lévi-Strauss: uma concepção de humanidade que se destaca da natureza pelas instituições da linguagem, do parentesco e dos mitos, um desinteresse pela base biológica e a evolução dessas faculdades e – a partir da idéia da universalidade essencial da mente humana – o estabelecimento de um postulado (ao mesmo tempo científico e moral) de igual valorização de todas as sociedades e culturas. Os alvos visados são duas atitudes aparentadas que outrora dominavam os estudos antropológicos: uma perspectiva evolutiva e biologizante de cunho (sócio ) darwinista, e uma visão “eurocêntrica” de superioridade da cultura ocidental. Pretendo mostrar que Lévi-Strauss fracassa em trazer à luz, na obra de Rousseau, elementos que dêem apoio a suas propostas, as quais, ao contrário, chocam-se com as conhecidas passagens “nacionalistas” e patrióticas do Emílio, do Contrato, da Economia política e da Polônia; bem como com a história natural da hominização, de nítida perspectiva evolutiva, relatada no Segundo Discurso.

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Profa Dra Karin Volobuef

Dep. Letras Modernas, FCL-UNESP/Araraquara

volobuef@fclar.unesp.br

Rousseau e Kleist


A comunicação pretende analisar a narrativa Das Erdbeben in Chili ou O terremoto no Chile (1810), de Heinrich von Kleist. A despeito de o título aparentemente referir-se ao terremoto em Santiago no ano de 1647, certos detalhes (data correspondendo a feriado do calendário cristão, ocorrência de um grande incêndio, saques e desordem, etc.) indicam que Kleist se baseou em informações referentes ao terremoto que abalou Lisboa em 1755. Com isso, O terremoto no Chile torna-se mais um elo na longa fileira de textos que abordaram a destruição da capital portuguesa, dentre os quais merecem destaque o de Voltaire (Poema sobre o desastre de Lisboa, 1756) e o de Rousseau (Carta sobre a providência, 1757). Conhecedor dessa série de debates, Kleist retoma argumentos a favor e contra uma possível ira divina, além de absorver de Rousseau a idéia de uma Natureza harmoniosa e pacificadora, que neutraliza os efeitos maléficos da civilização humana. Tendo como núcleo a interrogação sobre o que é justo, e se a justiça é ou pode ser feita, a narrativa kleistiana acaba assumindo uma postura dúbia diante do cataclismo: embora não descarte a hipótese de uma intervenção divina, suas razões e objetivos permanecem incompreensíveis. Depreendemos assim que, para Kleist, a constituição do mundo representaria uma incógnita e seus paradoxos seriam insolúveis para o raciocínio humano.

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Katia Aily Franco de Camargo

Doutoranda em Letras -  FFLCH-USP

kaily@uol.com.br


Revue des Deux Mondes e o Romantismo


Pretende-se, nesta comunicação, traçar as linhas gerais do Romantismo na Revue des Deux Mondes e demonstrar como um autor de pouca estima na França, Ferdinand Denis, ajudou a delinear as primeiras linhas da literatura nacional.
Fundada justamente no período em que triunfava o Romantismo na França, 1831, sob a direção de François Buloz, a Revue des Deux Mondes compreende que a força motriz da literatura não estava mais no talento do escritor de tradição clássica. Desde o seu início é local de encontro para os escritores da nova escola. Folheando as páginas de sua Table générale, pode-se encontrar grandes nomes, tais como: Victor Hugo, Alfred de Musset, George Sand, Sainte-Beuve, Gérard de Nerval, Théophile Gautier, Prosper Mérimée, dentre outros. Em meio a essa atmosfera romântica francesa, Ferdinand Denis publica, em 1831, na Revue des Deux Mondes, um artigo sobre as longínquas terras brasílicas, fonte de sonhos paradisíacos, luxuriantes, refúgio dos gênios, contribuindo, por um lado, com novos elementos de devaneio, e por outro, com importantes informações para os futuros conquistadores de mercado. Do lado de cá do Atlântico, a obra de Denis como um todo, colabora com o movimento de busca de uma identidade nacional.

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Ms. Keity Jeruska Alves dos Santos

Doutoranda em Educação Escolar – FCL-UNESP/Araraquara.

keityj@ig.com.br

Rousseau e o moderno sentimento de infância:
necessidade de um resgate.


O presente trabalho centra-se sobre o Emílio – tratado pedagógico de Rousseau – autor do século XVIII iluminista francês, para quem o homem nasce bom e perfeito, sendo a sociedade a causa de sua degeneração. Desta concepção decorre seu pensamento educacional, que procura preservar na criança sua natureza original, orientando, nesse sentido, seu aprendizado, à luz de critérios de preservação de sua pureza original, sua simplicidade, sua razão sensitiva, para – a partir dela – formar o homem maduro. Em Rousseau, a criança deverá ser vista naquilo que ela é: na condição de criança. A infância é tomada como uma fase singular e única, à espera de orientação, carinho e formação. A confiança na criança, com base no reconhecimento de sua riqueza interior, renova as esperanças da construção de um mundo mais humano, justo e igualitário. Alheio a posteriores estereótipos generalizantes à sua obra atribuídos, Rousseau concebeu a criança como ser de potencialidades, capaz de boas ações e de sentimentos valorosos. Enfim, Rousseau representa, em larga medida, o que se pode considerar como conceito moderno de infância. Nos tempos atuais, em função dos chamados novos paradigmas, grande parte do patrimônio cultural amealhado no contexto da Idade Moderna está em xeque, notadamente aqueles referentes à educação da criança. Faz-se necessário, portanto, um resgate da obra rousseauniana, para que não corramos o risco de caminhar na contramão da história, transformando as nossas crianças em adultos-miniatura, representantes da inversão de valores e frieza veiculados pelo capitalismo exacerbado e por algumas correntes do pós-modernismo.

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Profa Dra Leila de Aguiar Costa

Pós-Doutoranda FAPESP/IEL-UNICAMP


Como dizer a emoção ? A linguagem do páthos
em Diderot e Rousseau


“Ah! meu Deus! como as pessoas razoáveis são frias! Há muito fujo delas; parece-me que nem mesmo dispomos de uma língua comum”. A observação de Julie de Lespinasse, endereçada em carta de 24 de abril de 1774 a Condorcet, parece indicar que a emoção atuaria como uma língua estrangeira no interior de uma linguagem oficial e convencional. Cumpria, então, elevar-se contra essa língua comum, língua dos corações secos e dos espíritos frios; impunha-se, assim, inventar uma nova linguagem, a linguagem das paixões. Como, pois, dizer a emoção? Eis a interrogação que obseda boa parte da literatura setecentista que, nos seus mais diversos gêneros, amalgama a questão do páthos  e a questão da expressão. Em um século em que romancistas são também críticos de arte, como Diderot, ou músicos, como Rousseau, não surpreende que a invenção literária por vezes transborde o registro poético. Duas serão aqui as balizas deste trabalho. A primeira, emprestada de Diderot, que enuncia a seguinte observação, quase à maneira de um adágio, em seus Essais sur la Peinture: “a expressão é, em geral, a imagem do sentimento”. A segunda, de Rousseau,  que afirma em La Nouvelle Héloise: “[...] é unicamente da melodia que sai esta potência invencível dos tons apaixonados; é dela que deriva todo o poder da música sobre a alma”. A partir destas duas balizas que apontam, na verdade, para um único motivo, aquele de um patética romanesca, percorrer-se-á algumas páginas paradigmáticas de La Religieuse (Diderot) e de La Nouvelle Héloise (Rousseau), procurando verificar de que maneira romance e pintura e romance e música conformam um único sentido, trabalhado essencialmente por uma gramática do corpo e das emoções. E por uma retórica, por vezes silenciosa mas sempre eloqüente, das paixões e do sofrimento que se dizem pela literatura, pela pintura e pela música.

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Profa Dra Lídia Fachin

Dep. de Literatura, FCL-UNESP/Araraquara

lfachin@fclar.unesp.br

Verdades e mentiras de Rousseau, ou, A manipulação do
discurso em Os devaneios do caminhante solitário


Com este texto pretende-se, através da leitura da Iª Caminhada de Os devaneios do caminhante solitário (1776), adentrar um pouco o universo da escritura rousseauista, detectando assim, ainda que à maneira de introdução, suas leis e seus fundamentos. Com isso poder-se-á determinar seu verdadeiro alcance. Os devaneios... caracterizam-se inicialmente enquanto drama cujos actantes confrontam-se numa oposição binária: o EU e OS OUTROS, o que permitiria, à primeira vista, pensar que se trata de um texto quase nulo do ponto de vista literário. Entretanto, e justamente por isso, tal drama articula-se e se nos apresenta como um conflito absolutamente clássico, o mais puro dos conflitos, simples e condensado. Entretanto, esse drama articula-se sobre dois actantes de algum modo já românticos, pois se trata de um conflito entre um EU – bom, inocente, sensível, autocentrado – e um OUTRO – mau, negativo, marginal. Ao mesmo tempo que o EU apresenta-se como alguém que caiu na mais extrema solidão – Eis-me, portanto, sozinho na terra...—, a primeira palavra, o termo referencial designa um ser que a escritura privilegia enquanto dotado de todas as qualidades; por sua vez, o OUTRO apresenta-se exatamente como seu  oposto do EU: mau, negativo, marginal. Pretende-se aqui, com a análise de tais procedimentos  actanciais e discursivos, discutir como o discurso de Rousseau recorre a uma retórica extremamente eficaz diante de seus contemporâneos e absolutamente genial para a posteridade.

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Prof. Ms. Manoel Dionizio Neto

Dep. Ciências Sociais – Univ. Fed. Campina Grande

Doutorando em Educação pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)

mdneto@terra.com.br


Liberdade e educação em Rousseau: da infância à adolescência


Buscamos a compreensão da liberdade e da educação na passagem da infância à adolescência, conforme está posto por Rousseau no Emílio ou da educação. É o que fazemos ao compararmos a passagem da liberdade à educação que ocorre com a passagem do estado de natureza ao estado civil com o que se dá no processo de formação do homem, quando acompanhamos a passagem do homem natural ao homem moral, implicando com isso a necessidade de educar-se. Trata-se de acompanhar o ser humano desbravando a trilha que o leva à liberdade civil, com que é trocada a sua liberdade original. Colocamo-nos aqui diante da liberdade com que nasce o homem, mas que é sufocada pela degradação moral a que é também submetido ao se inserir na sociedade dos homens. Resta assim dar uma atenção especial à infância para nela encontrar a criança como criança, o que não era feito até o século XVIII, e que fora denunciado por  Rousseau em sua obra. Assim, para que seja garantida a liberdade com a formação humana, faz necessário o reconhecimento da infância compreendia em suas duas fases: a que vai do nascimento ao surgimento da fala e aquela que vai deste momento à adolescência, quando há um segundo nascimento do indivíduo que, tendo antes nascido para a vida, nasce agora para o sexo, isto é, para o amor.

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Ms. Marcio Gimenes de Paula

Doutorando em Filosofia – UNICAMP

mgpaula@hotmail.com

Kierkegaard, leitor de Rousseau e da Revolução Francesa:
uma brevíssima análise de trechos selecionados
dos Diários e da resenha Duas Eras


Em 1846, o filósofo dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard (1813-55) escreveu uma resenha à novela Duas Eras de sua compatriota Thomasine Gyllembourg-Ehrensvärd (1773-1856). Tal novela aborda as mudanças ocorridas na sociedade pós-Revolução Francesa, notadamente na mentalidade das pessoas e no aspecto político. A resenha de Kierkegaard aborda tais aspectos, acrescentando-lhes ainda sua visão sobre o indivíduo e a crítica da multidão. O objetivo dessa comunicação é abordar algumas referências de Kierkegaard a Rousseau, notadamente aquelas que aparecem nos Diários do pensador de Copenhague. Através de uma leitura atenta de tais trechos dos diários e da referida resenha, pretende-se observar, de modo mais efetivo, algumas posições políticas e sociais do autor dinamarquês.

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Márcio Roberto do Prado

Doutorando em Estudos Literários – FCL-UNESP/Araraquara)

metatron58@yahoo.com.br


Alguns aspectos do gênio em Les confessions
de Jean-Jacques Rousseau


A importância da obra de Rousseau, no que diz respeito aos ecos de sua produção em toda a literatura subseqüente, é notável. Porém, se focalizarmos nossa atenção na influência do autor no Romantismo, encontraremos influências ainda mais evidentes, de modo que a compreensão da obra de Rousseau abre caminho para um entendimento do próprio fenômeno romântico em diversas de suas facetas. Desta maneira, esta comunicação propõe uma discussão a respeito de como um dos conceitos-chave do Romantismo, a idéia de “gênio”, surge em uma obra específica de Rousseau, Les confessions. Ao (re) construir literariamente sua história pessoal, Rousseau lança mão de uma série de características que servirão de matriz para a consolidação da figura do indivíduo genial, todas centradas em uma valorização exacerbada do “eu”, que traz consigo idéias de grande poder criativo e originalidade. Com desdobramentos em obras posteriores, como Les rêveries du promeneur solitaire, este gênio rousseauniano trará consigo as agruras a que o indivíduo extraordinário está sujeito, com implicações desfavoráveis para sua inserção no meio social, de modo que aliará seu modo de ser particular a uma postura titânico-demoníaca que contaminará toda manifestação do gênio e do genial através da história da literatura. Assim, com o estudo de um recorte bem delimitado da obra de Rousseau, podemos também estender nossa compreensão a um universo muito mais amplo, que toca todo o Romantismo e além.

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Maria Inês Pereira

Mestranda em Estudos Literários, FCL-UNESP/Araraquara

mines@siteplanet.com.br

Os temas da inocência e da contemplação em Rousseau e Le Clézio


Um dos temas caros a Jean-Jacques Rousseau, escritor do século XVIII, extremamente sensível à natureza, é o “mito da idade de ouro” ou da “inocência perdida”, presente em várias de suas obras. Neste trabalho enfocaremos a obra Devaneios de um caminhante solitário, mais precisamente a Quinta caminhada, cujo cenário é a paradisíaca Ilha de Saint-Pierre. Os temas da contemplação e do imaginário, bem como os encantos da herborização e os devaneios junto à natureza são a tônica dessa obra. Rousseau, rejeitando a realidade contemporânea, o mundo profano repleto de  luxo e ociosidade, acredita no “mito da idade de ouro”, no qual se apóia sua reflexão moral e religiosa. Le Clézio, autor contemporâneo, após o contato com os índios Emberá, no Panamá, e a descoberta de sua cultura, assume um novo modo de ver o mundo, sendo que esse “repensar da existência” passa a se refletir na sua obra literária: denuncia o materialismo ocidental, a destruição da natureza, a sociedade de consumo que escraviza o homem. No conto L’échappé, o espaço da natureza se contrapõe ao da cidade, mostrando a sociedade cruel que produz seres marginalizados. O tema da “montanha do deus-menino” também está presente nesse conto, enfatizando o retorno à infância, o reencontro do adulto com seu lado puro, inocente, numa nostalgia que nos remete a Rousseau.

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Profa Dra Maria Valderez de Colletes Negreiros

Dep. de Antropologia, Política e Filosofia – FCL-UNESP/Araraquara

mvcn@fclar.unesp.br

Considerações acerca da noção de verdade e da problemática da dissimulação da mentira no século XVIII


Interpretar essa sentença de Rousseau “vitam impendere vere – dedicar minha vida à verdade – eis a divisa que escolhi” significa compreender o papel que o tema da vontade de verdade e a mentira ocupam nas suas reflexões. Sendo uma das divisas mais significativas do pensamento filosófico de Rousseau e da arquitetônica conceitual na qual seu desejo de expressar-se por meio de uma transparência quase universal e, dessa maneira, poder criar uma certa eloqüência que representasse a espontaneidade. As leituras que fez quase constantemente das obras de Plutarco delineiam nossa trajetória de análise desse tema, bem como examinar as diversas perspectivas que essas idéias exprimem no discurso literário e político.

Profa Dr Mariza Martins Furquim Werneck

Departamento de Antropologia – PUC-São Paulo

mmfw@uol.com.br


Jean-Jacques Rousseau e o aprendizado do delírio


Para além de verdades e mentiras, a obra de Rousseau  vai inseminar profundamente as ciências sociais contemporâneas de maneira singular e imprevista. Claude Lévi-Strauss, ao construir sua portentosa análise dos mitos, nos quatro volumes das Mitológicas inscreve-se na tradição rousseauista  e vai atribuir-lhe, em larga medida, a inspiração de seu método. O Rousseau que o interessa, no entanto, não é o das Luzes, o enciclopedista que tenta pensar contra si próprio, e alerta para os perigos da imaginação. Nem mesmo o autor de O contrato social, ou o dos escritos políticos, dos quais foi progressivamente se distanciando. Mesmo porque, a redução sistemática que se fez do pensamento de Rousseau à nostalgia do bom selvagem aprisiona na mesma chave todo o pensamento levistraussiano. O Rousseau levistraussiano é o da música, da linguagem e da botânica. É principalmente o das trevas, o caminhante solitário mestre da rêverie e da desrazão que, ao lidar com as matérias mais obscuras do pensamento, tornou possível o reencontro entre o sensível e o inteligível, anulando – ou talvez amenizando – o hiato criado entre o homem e a natureza, inaugurado na ciência ocidental por Descartes. Para Lévi-Strauss, Jean-Jacques Rousseau, em pleno coração do século XVIII, reverte o cogito cartesiano. Essa leitura de Rousseau dá acesso a uma tradição outra, alheia ao racionalismo iluminista, que sempre foi associado ao pensamento de Claude Lévi-Strauss. Esta comunicação pretende revisitar a construção das Mitológicas a partir dos trabalhos autobiográficos de Jean-Jacques Rousseau, e verificar em que medida o caminhante solitário significou, para Lévi-Strauss, um “verdadeiro” mestre do delírio.

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Narbal de Marsillac

Doutor em Filosofia (UGF)

narbal@dabliu.com.br

Mentira e comunicação: Uma abordagem do
problema da mentira a partir de Bataille


A noção de comunicação em Georges Bataille é certamente singular e desafiadora de tudo que se está acostumado a ver em termos de produção filosófica. Para compreendê-la, basta perceber que se fala de noção e não de conceito, como em geral se vê nos textos filosóficos. Porque, para Bataille, a consciência humana é entendida como uma descontinuidade mentirosa que se quer e se idealiza a si mesma falsamente distanciada da continuidade das coisas. A linguagem conceitual é ainda por demais ludibriosa porque se discorre a respeito de algo que se pressupõe distante e separado. É a experiência erótica ou mística que nos conduz a um retorno à continuidade e a uma perda de si. No erotismo e no êxtase, diz Bataille, perdemo-nos a nós mesmos porque se desfaz e se descristaliza a imagem que se tinha de si. E, neste sentido, comunicamo-nos. Não há verdade nem falsidade em jogo, mas tão somente intensidades. Esse mesmo perder-se se reproduz, talvez de forma menos intensa, quando efetivamente por nossa fala, ação ou escrita nos ressignificamo-nos a nós mesmos, recriando-nos a nós mesmos num processo de resubjetivação continuada. E é tão somente aqui que se tem propriamente o oposto da mentira. Ou seja, a mentira é a não-comunicação. Divorcia-se, desta forma, mentira de verdade. Uma fala pode até ser verdadeira, mas ainda assim mentirosa. Nesta esteira de raciocínio, dentre as obras de Rousseau, a que melhor trataria da mentira seria, sem sombra de dúvida, para Bataille, as Reflexões de um Caminhante Solitário.

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Prof. Dr.Osvaldo Fontes Filho (PUC/SP)

Dep. de Filosofia – PUC São Paulo


Antropologia rousseauniana: entre o ser e o devir


Sabe-se o papel que Lévi-Strauss reserva a Rousseau na modernidade: ele seria o “fundador das ciências do homem”, o pai da antropologia, pois que com ele nasce a questão sobre a natureza do homem. Rousseau teria mesmo antecipado de um século a concepção formal da etnologia, sendo o Discurso sobre a origem da desigualdade o “primeiro tratado de etnologia geral” ao procurar pelo invariante humano através das diversidades recolhidas pela história natural, moral e política. Contudo, o subseqüente antropocentrismo heurístico erigido pelas ciências ditas “humanas” esteve sempre confrontado à sua descentralização. Foucault, ao investir contra o “sono antropológico” das eternas questões sobre a essência do homem, quis lembrar a um novo criticismo que doravante cumpria pensar o transcendental para além da oposição do ser e do devir. Nesse sentido, em As palavras e as coisas, o tom era perfeitamente nietzscheano. Para Nietzsche, não bastaria perguntar quem é o homem mas “quem suplanta o homem”. No mesmo viés, Humano, demasiado humano visava diretamente à filosofia de Rousseau: “o filósofo vê ‘instintos’ no homem atual e supõe que estejam entre os fatos inalteráveis da humanidade, e que possam então fornecer uma chave para a compreensão do mundo em geral”. Razão porque importaria à modernidade abandonar a figuração vaga do homem como “realidade estável no turbilhão do todo [...] para o qual se dirigem naturalmente todas as coisas do mundo, desde o seu início”. Retomar a contra-efetuação da perenidade rousseauniana do homem, onde o ser não é o devir, será investigar os limites de um discurso sobre o originário ali onde ele se verifica aporético: como dizer a origem, aquilo pelo qual começa-se a ser, estando-se já no domínio de seu esquecimento, de sua corrupção, de sua des-naturalização ? De seu não-ser ? Como pensar o homem originário, o que ele é em sua natureza, antes de toda determinação por força de seu devir ? Sabe-se como Rousseau, ao admitir impensável o próprio ao humano, resigna-se a uma necessária “ficção” de sua origem “para bem julgar de nosso estado presente”. Com o que falar de uma antropologia transcendental: verdadeira “suspensão” do turbilhão fatual da história de modo a evidenciar a natureza humana anterior a ela. Afinal, a narrativa rousseauniana da origem pertence à metafísica e não à história. Propor-se-á  por fim submeter Rousseau ao crivo da imagem benjaminiana da origem como “turbilhão no rio do devir”. Quase que uma intimação – anti-rousseauniana ao deslegitimar toda nostalgia metafísica do solo imemorial – a relevar o regime mesmo de diferenciação fatual da natureza, ela nos alertará a diverso engajamento do arqueólogo do humano. À evidência originária declinada pela presença a si, efeito mais notável do navegar rousseauniano pela “uniformidade contínua” das águas metafóricas de Saint-Pierre, sucede percurso menos tranqüilo pela correnteza bem mais turbulenta de um poder de dispersão que Foucault dizia “extrair [o homem] longe de sua própria origem”.

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Otacílio Gomes da Silva Neto

Mestrando em Filosofia – UFPB.

otaciliont@hotmail.com

Rousseau e a relação liberdade e propriedade


Os últimos acontecimentos relacionados à atual crise da terra e do latifúndio no Brasil têm levado os principais envolvidos: MST e Ruralistas, a algumas declarações e ações unilaterais. Fazendo apelo à força, esses movimentos demonstram tendência a desobedecer os poderes legítimos e solapar o Estado de Direito. O Governo têm se mostrado aparentemente imparcial diante da pretensa crise, porém sem estabelecer criteriosamente através dos meios de comunicação o que é e o que não é o latifúndio. Nada melhor do que, nesse momento aparentemente tenso, resgatarmos, por intermédio da Filosofia Política de Rousseau, as tensões e as saídas para a questão da terra e da propriedade. Ao opor força e direito, Rousseau na elaboração do Contrato Social de 1762, resgata a noção de liberdade ameaçada na constituição da sociedade civil. A instituição da propriedade por meio da força vem a hostilizar a liberdade natural presente em cada indivíduo, conforme o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens de 1754. A garantia da liberdade vem se estabelecer na nova ordem social, não mais como a frágil liberdade natural, mas, como a soberana liberdade civil, resultado da formação do corpo político. O presente trabalho visa problematizar a questão da liberdade enquanto garantia do direito inalienável do homem, a partir da noção do direito de propriedade.

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Prof. Dr. Pedro Geraldo Aparecido Novelli,

Departamento de Educação,  IBB-UNESP/Botucatu

pnovelli@ibb.unesp.br


Rousseau e Hegel: aproximações e distanciamentos
a partir da Filosofia do Direito


A história da filosofia não é um acumulado de opiniões aleatórias que permitiria considerar uma dada perspectiva filosófica como ultrapassada e não mais pertinente. Segundo o pensador alemão G.W.F. Hegel nenhuma filosofia pode desconsiderar aquelas que a antecederam, pois elas sempre se constituem em condições e suportes para as expressões futuras. A partir dessa colocação, este trabalho tem por objetivo investigar na obra “Princípios da Filosofia do Direito” de Hegel as contribuições do pensador francês J.J. Rousseau para o desenvolvimento de uma filosofia do direito. Em especial toma-se como elemento de análise o conceito de lei em Hegel e como este foi influenciado pelas idéias de Rousseau. Segundo Hegel, Rousseau avança em relação aos seus predecessores porque ele esforça-se por aproximar instâncias até então postas à parte uma da outra como o direito e sua manifestação histórica. Esse aspecto evidencia-se na idéia do contrato que evoca uma organização social que se apoiaria na vontade, e esta, por conseguinte, na racionalidade. O ápice de tal empreendimento humano configura-se na eclosão da Revolução Francesa, que recebe de Rousseau elementos de inspiração e que marca significativamente o pensamento hegeliano. No entanto, Hegel distancia-se de Rousseau ao questionar como este entende a relação entre o Estado e o indivíduo, principalmente no que diz respeito a efetivação da liberdade. Se, para Rousseau, as instituições representam um limite, para Hegel, tal limite se faz necessário, e, ao contrário do que pensava Rousseau, não diminui a liberdade, mas, ao contrário, a promove.

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Profa Dra Sílvia Maria Azevedo

Departamento de Literatura - UNESP/Assis

silrey@uol.com.br

Os devaneios de Rousseau ou as metamorfoses da solidão


“Me voici donc seul sur la terre, n’ayant plus de frère, de prochain, d’ami, de société que moi-même”, essa a afirmação patética, na leitura de alguns comentadores, com a qual têm início Les rêveries du promeneur solitaire. Banido do convívio dos homens, Rousseau mergulha na solidão e, ao abrigo do olhar e do julgamento dos outros, pode viver livremente a experiência do exame de si mesmo. O filósofo não suportaria, no entanto, ser dispensado pela obra que escreveu, o “Eu” ceder lugar ao “Ele”. Daí que o objetivo da presente comunicação é analisar o “informe journal de mes rêveries” como expressão do medo e da angústia da solidão que atinge o escritor por intermédio da obra, na sugestão de Maurice Blanchot.
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Vera Lúcia Fioranelli dos Santos

Mestranda em Estudos Literários, FCL-UNESP/Araraquara

fiosan.nix@uol.com.br

Rousseau e Le Clézio: Em busca da felicidade primitiva


Em seu Discours sur l’origine de l’inégalité (1753), Rousseau assinala que as raízes do mal estão na vida social, já que a natureza fizera o homem para a vida isolada. A idéia do “bom selvagem” – já difundida pelas narrativas de viagem que começam a surgir desde o final do século XVII – é retomada e desenvolvida por Rousseau nesse segundo Discurso, que enfatiza a felicidade do homem primitivo, opondo-a às conseqüências nefastas da propriedade e da sociedade civil. Em seu romance Désert, Le Clézio dá seguimento às reflexões de Rousseau, sobretudo no que se refere ao percurso da personagem Lalla. Ao longo do capítulo intitulado “Le bonheur”, o autor descreve com precisão a existência livre e feliz da menina, na qual a natureza desempenha um papel preponderante. Isso se torna evidente, por oposição, no capítulo “La vie chez les esclaves”, que narra a vida de Lalla na cidade grande: a uma existência de puro contato com a natureza, opõe-se um mundo civilizadamente hostil; ao deserto, opõe-se a cidade; à liberdade, a escravidão. Por meio dessas dicotomias podemos estabelecer uma relação entre Rousseau e Le Clézio; há que se destacar, porém, que enquanto em Rousseau a valorização da natureza surge permeada pelas reflexões do autor, Le Clézio delega essa função a personagens simples, puros, não intelectualizados, para quem a integração com a natureza é vital.

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