Retail Therapy Roz Bailey muito de nada ou um pouco de tudo?



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Amizade a toda Prova
Retail Therapy
Roz Bailey



MUITO DE NADA... OU UM POUCO DE TUDO?
Alana Marshall-Hughs tem suas prioridades: roupas de grife. Só que agora as despesas do cartão de crédito ultrapassaram o valor do fundo de reserva para pagar a faculdade, e as coisas se complicaram...

Hailey Starett vive mergulhada num consumismo desenfreado, comprando tudo o que vê pela frente. Seu sonho de tornar-se atriz está prestes a se realizar. Só que estar sob os refletores significa ter um visual perfeito... e um bom visual não custa pouco. Ou custa?...

Entra em cena Marcella Rodriguez. Como Alana e Hailey, também gosta de se vestir bem e de causar boa impressão, mas ela tem um bom senso que falta às outras duas. E precisa impedir suas duas melhores amigas de falirem e levarem-na à falência junto. É uma tarefa difícil, mas a especialidade de Marcella é lidar com situações difíceis - uma confiabilidade que está prestes a ser testada, a ser colocada à prova...
Disponibilização: Rosangela

Digitalização: Joyce

Revisão: Cynthia


Copyright © 2004 by Roz Bailey
Originalmente publicado em 2004

pela Kensington Publishing Corp.


PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP.

NY, NY - USA Todos os direitos reservados.


Todos os personagens desta obra são fictícios.

Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas

terá sido mera coincidência.
Título original: Retail Therapy
Tradução: Juliana Geve
Editora: Leonice Pomponio
Editoras de Arte: Ana Suely S. Dobón, Mônica Maldonado
Paginação: Dany Editora Ltda.
Ilustração da Capa: Hankins + Tegenborg, Ltd.
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 – 10°andar

CEP 05424-010 - São Paulo - Brasil


Copyright para a língua portuguesa: 2005
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Impressão e acabamento:

RR DONNELLEY MOORE

Tel.: (55 11)2148-3500

Capítulo I

Alana

Nada é tão doce quanto o gosto do sucesso. Naquela ocasião em particular, os elogios eram para o meu amigo, Pierre, um jovem estilista que apresentava sua coleção na Europa pela primeira vez. Mas desde que o meu nome havia sido citado junto ao dele na imprensa, percebi que a minha presença aumentara a sua visibilidade ali, em Londres. O fato de terem se referido a mim como "princesa asteca" me fez rir, apesar de eu saber que se o meu pai, descendente de escravos da Ferrovia Subterrânea, algum dia visse a matéria, ficaria com taquicardia. Pobre papai, leva essas coisas a sério demais.

Agora, os flashes das câmeras espocavam em mim, enquanto Pierre entrava no palco, saudando o público. Eu já estava em pé, na primeira fila, batendo palmas tão alto quanto permitiam as minhas luvas douradas de lamê. Não que os meus aplausos fossem se destacar sob o clamor do público. O grupo de cele­bridades londrinas havia adorado os modelos de Pierre quase tanto quanto adorava o rapaz magro e recatado que agora jogava beijos. A verdade é que ele percorreu um longo caminho desde os seus dias como Pete Brown, o gênio ambíguo de Harvard, que tinha medo de dizer aos pais que estava freqüentando aulas de design. Meu amigo Petey estava no auge e eu estava feliz por ser computada entre aqueles que apoiavam Pete, agora transformado em Pierre.

— Muito bem, Pete! — gritei, erguendo o queixo lentamente para não deixar cair o maravilhoso capuz dourado de princesa asteca que ele havia desenhado para mim. Era a peça perfeita para complementar o meu Pierre autêntico, um vestido preto com a bainha bordada de dourado, luvas douradas e sapatos de salto alto do famosíssimo Manolo Blahnik.

Nesse exato momento, Pierre voltou-se para mim, estendeu a mão e os refletores se viraram na minha direção. Extasiada, desloquei-me suavemente até a escada, subi no palco, assumi uma pose cheia de estilo que exibia o modelo de Pierre e tirava o máximo proveito das minhas curvas bem torneadas.

Verdade seja dita: uma excitação sensual que nos domina quando somos objeto de tanta admiração. Sim, o sucesso é doce.

Seguimos inebriados até os bastidores, abraçando-nos e jo­gando beijinhos no ar para as modelos magérrimas.

— Você é simplesmente o máximo — disse-me Pierre.

— Não. Você é! — insisti, arrumando o ombro do seu paletó. Pierre é tão magrelo, que seu corpo chegou a oscilar em dese­quilíbrio. — Você viu quem estava na platéia?

— Ouvi alguém mencionar Uma Thurman. E sir Ian McKellen. E Sarah Jessica Parker. Será mesmo verdade? — Ele levou as mãos ao rosto. — Como consegui chegar até aqui? Eu não mereço nada disso.

— Pare com isso! — Eu passei meu braço pelo dele, tentada a lembrá-lo de como seus pais o haviam deserdado, as vaias que havia recebido nas ruas de Cambridge quando tentara exibir seus modelos; a miséria crônica que havia vislumbrado nas aulas de matemática. — Meu doce Petey, você passou por um bocado de coisas para chegar onde está. Agora, relaxe e aproveite.

Ele apertou meu braço enquanto seu rosto doce de garoto exibia duas covinhas de pura alegria. — Obrigado, Alana. Você é a melhor... As palavras dele foram interrompidas no momento em que o assistente de palco liberou uma legião de repórteres que se amontoaram em volta de Pierre, à procura de comentários para citar e fofocas de bastidores para publicar nos tablóides londri­nos. Alguém insinuou que eu era amante de Pierre e tive que me segurar para não cair na risada, imaginando como eles eram capazes de olhar para o meu querido amigo e ver algum traço de heterossexualidade em seu corpo. Não que me importasse que fizessem fofocas ao nosso respeito. Naquele momento, ne­nhum de nós estava envolvido com outra pessoa e um pouco de boatos podia colocar Pierre nos jornais sensacionalistas, o que significava ainda mais publicidade.

Alguém me cutucou no ombro, era Daria, uma das "pessoas"

de Pierre.

— Durante o desfile, recebemos ligações de um certo juiz Marshall-Hughs — disse ela. — Ele disse que é seu pai e que está tentando falar com você.

Ele havia deixado uma mensagem mais cedo no hotel, mas como não parecera urgente, eu a arquivara num cantinho da mente até o desfile terminar.

Obrigada, Daria — respondi, afastando-me dos repórte­res. Talvez aquela fosse uma boa hora para falar com meu pai, que detestava ter suas ligações ignoradas. Assim, avisei a Daria que iria encontrar a turma no Taman Gang, o restaurante do outro lado da rua que havíamos reservado, peguei minha bolsinha bordada e saí.

Diferentemente do que costumava acontecer em Londres, não estava chovendo. O clima estava fresco e ensolarado, era começo de maio. Peguei meu celular e ouvi as mensagens cada vez mais agitadas do meu pai. Deus! Por que aquele homem era tão impaciente?

Enquanto me dirigia ao restaurante, bastante ciente de estar chamando atenção com o meu traje de princesa asteca, passei por uma loja chamada Solid Foundations, à qual não pude re­sistir . Era um lugarzinho minúsculo que vendia roupas íntimas masculinas numa infinidade de tipos: cuecas, ceroulas, sungas e tangas em algodão, seda e várias misturas. Flagrei-me atraída pela apresentação das peças íntimas em manequins de anatomia bastante atraente. Comentei que já faz algum tempo que estou sem namorado? Talvez tempo demais...

De qualquer forma, não resisti. Sem saber exatamente a que o meu pai gostaria, optei por três pares de cuecas samba-canção Dolce & Gabbana, com cós bordado, um design conservador, apropriado para um estadista idoso, juiz e pai. Para Pierre, es­colhi calções pretos de jérsei com lindos botõezinhos em forma de coração na braguilha, tão lindinhos, que me senti tentada a comprar um para uso próprio, apesar de saber que aquela peça não teria capacidade volumétrica para acomodar o meu gene­roso quadril. Eu disse capacidade volumétrica? Preciso dizer a papai que aqueles dois anos em Harvard valeram a pena.

Enquanto esperava o atendente embrulhar minha compra, o celular voltou a tocar. Abri a bolsa sem me preocupar em ver a identidade de quem ligava.

— Papai! Eu ia ligar agora mesmo!

— Alana! — gritou ele, com sua voz de trovão. Era difícil acreditar que estivesse do outro lado do oceano, na cidade de Nova York. — Onde você está? Ontem eu recebi uma ligação da operadora de cartão de crédito pedindo autorização para aprovar uma compra em Paris, além do limite de crédito. O que, em nome de Deus, você estava fazendo em Paris?

— Paris foi ontem. Hoje, estou em Londres — O balconista da Foundations me olhou com espanto e eu retribuí seu olhar com um sorriso.

— O que você está fazendo em Londres?

Nesse momento, comprando roupas de baixo para você. O atendente sorriu e eu revirei os olhos. No mesmo instante

papai começou a gritar.

— Por que você faz isso? Eu não estou precisando de roupas de baixo!

Eu afastei o telefone do ouvido por um momento.

— Não precisa gritar! — eu disse. — Estou ouvindo muito bem. Eu vim assistir ao primeiro desfile de Pierre. Ele tem apre­sentado sua coleção nas principais passarelas do mundo. Sei que estamos meio fora da temporada, mas as pessoas parecem an­siosas por novos estilistas. Depois ele vai para Milão e depois...

— Não quero saber de Milão! Quero que você me diga por que devo pagar uma conta de restaurante de dois mil dólares, de Paris?

— Nossa! Foi tanto assim? — Eu suspirei. — Não estava muito certa quanto à taxa de conversão de moeda.

— Você precisa voltar para casa.

— Na semana que vem, eu volto — Peguei as compras e balbuciei um "obrigada" para o atendente. — Estarei aí no pró­ximo domingo. Mamãe não lhe disse? Vou levá-la para comprar móveis novos para a casa em Hamptons. Já comprei os móveis da sala, mas...

— Aparentemente, há muitas coisas que a sua mãe achou melhor não me contar.

Epa! Papai havia descoberto uma falha no esquema, uma possível violação do limite orçamentado.

— O que você quer dizer com isso? — perguntei, em tom de provocação.

— Suas contas aparecem no extrato do meu American Ex­press. Como você conseguiu um cartão adicional?

Obra de mamãe, evidentemente. Mas eu não ia delatá-la.

— É isso que está incomodando você? Não tem problema. Eu paro de usar.

— Venha para casa agora — disse ele, numa voz cheia de raiva mal contida.

— Papai, está tudo bem?

— Tudo vai ficar bem quando você vier para casa, se sentar comigo e acertar essa história — disse ele, imperioso, irado, imponente. Você imagina o que é ter o peso da justiça sobre os ombros? Papai às vezes agia como se o mundo fosse um tribunal.

— Você não pode esperar até depois de Milão?—perguntei, doce.

— Não. Não posso. Quero que volte para casa. Hoje.

— Mas o Concorde parou de fazer vôos comerciais e...

— Isso... o que você... — vociferou ele. — Eu não admitiria que você gastasse essa quantidade de dinheiro nem que fosse para levá-la até a lua, ida e volta. Tome o próximo vôo para casa, Alana. Caso contrário, vai lamentar — Sempre o juiz, pensei, decepcionada.

— Pode ser amanhã? Lembre-se de que o fuso daqui é al­gumas horas adiantado em relação ao daí.

— Hoje! — gritou ele, e eu imaginei seu martelo de juiz batendo na mesa.

Caso encerrado. O réu deve voltar para casa.

Enquanto passava pela vitrine de uma loja cheia de loções e perfumes tentadores e tentava ligar para a companhia aérea, percebi que não conseguia me livrar de uma pontada de preo­cupação relacionada ao tom de voz do meu pai. Ele parecera bravo, frustrado, impaciente. Típico de papai, estragar a minha festa com Petey. Mas aquele belo frasco de cristal da parecia tão delicado na vitrine. Eu conseguia vê-lo no balcão do ba­nheiro de hóspedes da casa de Hamptons, ao lado da pequena tigela com botões de rosas colombianas flutuantes e da escultura azul que eu havia comprado em Paris e mandado entregar em casa.

Coloquei o fone do celular no ouvido e entrei na loja. Eu tinha que comprar aquele frasco de lavanda. Papai entenderia, depois que visse como tudo combinava perfeitamente.

No fim, ele sempre amolecia comigo. Eu era o bebê dele. O seu pudinzinho. Eu tentava manter aquele apelido de infância sob controle, mas em momentos de tensão, ele parecia acalmar o meu pai. Sim, um abraço caloroso do seu pudinzinho valia por uma fatura de dez mil dólares no cartão de crédito. Talvez até de vinte mil!

Hailey


Primeiro, deixe-me contar como eu estava vestida no set de filmagem naquele dia, porque eu sou o tipo de pessoa cuja con­fiança está diretamente relacionada à roupa certa. Estava usan­do a minha calça jeans preferida, amaciada nas coxas e nos joelhos, de um azul desbotado a um tom quase celestial, com os bolsos firmemente colados ao corpo para revelar apenas uma pequena parte da minha barriga seca. Eu sempre fui magra, tive pernas longas de dançarina e sabia que ficava bem de calça jeans. O brim favorece muito um par de pernas bem torneadas. Com os meus cabelos loiros, acho que os jeans acabam me conferindo um ar do Meio Oeste, coisa que devia me dar uma certa vantagem numa disputa de papel com outras beldades.

Claro que eu havia vestido a calça jeans com uma blusa rosa sensacional, de decote canoa amplo e mangas três quartos, com sandálias rosa amarradas nos tornozelos. As sandálias e a blusa tinham minúsculas bolinhas pretas e os saltos de cinco centí­metros faziam minhas pernas parecerem inacreditavelmente longas, combinando o estilo despojado do jeans com um toque moderno da última coleção primavera-verão.

Não que eu ache que sou isso tudo ou algo assim, mas acre­dito que se pretendo conseguir um papel de destaque em uma novela, é hora de começar a me vestir como uma estrela. Dois anos atrás, consegui o papel de Ariel em Todos os Nossos Ama­nhãs. Sou a garota encontrada nadando no rio sob as índigo Falis, aquela que pode ou não ser uma sereia, pode ou não ser a herdeira desaparecida da fortuna de Preston Scott, pode ou não ser a filha de Meredith Van Allen, a grande diva do horário diurno interpretada por Deanna Childs. Há cerca de vinte anos ou mais, o bebê de Meredith havia sido raptado do berço por uma matilha de lobos e aparentemente levado para as monta­nhas onde foi criado por eremitas banguelas. Assim, pela ma­temática, eu deveria ter uns vinte anos de idade; felizmente, o tempo nas novelas pode ser moldado conforme a conveniência. A versão das revistas dizia que eu sou uma jovem atriz do Meio Oeste que conseguiu assinar um contrato de treze semanas para desempenhar o papel de uma personagem misteriosa, em um programa com a mais cobiçada atriz do horário diurno: Deanna. Os produtores do programa haviam renovado o meu contrato algumas vezes, mas até o momento, o meu personagem parecia estar tendo uma aceitação morna por parte do público, o que me magoava de verdade. Esta sou eu, Hailey Starrett, e apesar de passar por uma pessoa tranqüila e segura de si no set, estava tremendo por dentro.

— Não sei ao certo se as pessoas gostam de mim — confes­sara eu um dia desses a minha amiga, Alana, diante de uma caneca de cappuccino light descafeinado. Desde que recebi uma ligação da minha agente comentando que o produtor executivo da novela não estava bem certo sobre a renovação do meu con­trato por mais treze semanas, eu venho sofrendo uma crise de autoconfiança. Minha agente, que eu apelidei de Cruella por motivos óbvios, nunca mede palavras na hora de dar uma má notícia. — Eu não sei o que fazer — dissera eu, enquanto brin­cava com a caixa de guardanapos de papel sobre a mesa. — E se eles não gostarem de mim?

— É claro que gostam de você — insistira Alana. — Não vá ficar sofrendo e de olhos mareados por causa de um bando de produtores que fala pelos cotovelos. Você é uma atriz de talento e sabe muito bem disso.

— Mas eu quero manter esse papel. Eu preciso desse papel.

— Querida, você não precisa deles — dissera Alana, polvi­lhando chocolate em pó na espuma dos nossos capuccinos e me entregando a colher. Era um ritual nosso: saborear a espuma dos nossos capuccinos light como se fossem sundaes de creme. — Você sabe do que realmente precisa? — dissera ela, com os olhos vivos e atentos como os de um gato. — Você precisa fazer uma terapia de compras. Um passeio consumista.

Apesar de eu ter consciência que o meu orçamento não che­gava nem perto do poder de fogo de Alana, não havia como negar os efeitos terapêuticos altamente benéficos de uma com­pra inspirada. Alana e eu éramos colegas de quarto há bastante tempo, tínhamos um vínculo muito forte. Na época, depois de uma conversa séria, concluímos que uma aspirante a estrela tinha que se vestir como uma estrela de verdade. Antes mesmo que os nossos capuccinos esfriassem, pegamos um táxi e fomos até a Bloomingdale's, onde eu acabei encontrando uma saia Marc Jacobs maravilhosa, com um babado esvoaçante na parte de trás e uma blusa sem mangas, combinando. Depois, foi a vez da Saks Fifth Avenue, onde comprei um novo par de jeans. Lá, naquele dia, com aquela calça, Alana concluíra que os jeans seriam a minha marca registrada.

— As calças jeans ficam tão bem em você e com os seus cabelos loiros, faz qualquer pessoa se lembrar de campos de margaridas e milharais — decretara Alana, de sua poltrona no provador. Então, ela esticara as longas pernas escuras, se de­bruçara para tirar uma partícula de poeira da sandália e sorrira, satisfeita. — Você. é o sonho loiro, de pernas longas do Meio Oeste. A moça que toda mãe quer como namorada do filho, a moça com quem todo rapaz quer se casar.

— Você acha mesmo?—Morta de insegurança, eu examinei meu reflexo de jeans no espelho.

— Tenho toda certeza. As calças jeans serão a sua marca registrada.

Daquele dia em diante, trabalhei para fazer jus a minha ima­gem de jovem atriz, flagrada casualmente em Manhattan, em seu jeans esporte e camisa de estilistas famosos. O comentário de Alana me dera segurança, mas havia sido o processo de compra que operara a verdadeira mágica. Comprar diminuía a dor. Comprar acabou com as minhas inseguranças. Comprar era algo que eu aprendera a fazer muito, muito bem.

E agora, comprar era uma coisa que eu fazia para impulsionar a minha carreira.

Essa revelação ocasionara uma enxurrada de excursões consumistas com Alana, uma moça com um senso estético tão re­finado e apurado, que deveria ser engarrafado e vendido numa seção da butique de Henri Bendel.

Alana era generosa, estimulante e cheia de estilo... graças a Deus por Alana! Um passeio para fazer compras com Alana compensava de longe todas as emoções que eu deixara de ex­perimentar na infância, como filha de dois hippies deslocados no tempo, que haviam aberto mão de suas carreiras promissoras de corretores de investimentos em Wall Street para fazer pre­suntos em uma fazenda em Wisconsin. Enquanto as meninas da minha classe apareciam com os últimos modelos de jeans, botas e casacos da Neiman Marcus, eu freqüentava as aulas com túnicas feitas de tecidos esquisitos, fiados e tecidos a mão por fazendeiros de alpaca das montanhas do Peru. Regra de ouro para guardar por toda a vida: nunca use roupas criadas por fazendeiros de alpaca.

Finalmente, havia sido Alana quem insistira em que eu ad­quirisse esses lindos sapatos modelo Chanel, de bolinhas cinza em fundo rosa, que eu agora admirava. Sentei-me na cadeira do diretor do set de Todos os Nossos Amanhãs, cruzando os tornozelos, preocupada com uma manchinha cinza perto da área rosada do meu sapato do pé esquerdo. Será que eu havia pisado num chiclete no metro, ou que era apenas uma daquela manchas de origem indeterminável, que apareciam nos sapatos das pes­soas que andavam pelas ruas de Nova York? Verdade seja dita: ao contrário dos mitos pregados na série Sex and the City, é muito difícil manter os seus sapatos favoritos em perfeitas condições na cidade de Nova York. Basta um passo em falso no parque e eles viram história.

De repente o set começou a se agitar, com assistentes dos diretores reunindo o elenco, o técnico de som desenrolando seus fios e os operadores de câmera tomando seus lugares e conversando uns com os outros, por seus fones e microfones. Ainda era cedo e nenhum dos atores havia começado a fazer a maquiagem, já que primeiro faríamos um ensaio rápido para resolver as posições, movimentações e tomadas de câmera. Nesse momento, surgiu o meu amigo Rory Kendricks, com uma caneca de café nas mãos, cambaleando pelo palco como um zumbi.

— Noite difícil? — perguntei. Ele consultou o relógio.

— Fechei o Rum Room a cerca de... céus... umas três horas atrás.—Na vida real, Rory era um pianista eclético, um sucesso em qualquer festa, e no momento, estava cobrindo a ausência de Karen, a pianista oficial dos fins de noite no bar do Hotel Edison. Em Todos os Nossos Amanhãs, Rory, que era o meu amigo mais chegado do elenco, fazia o papel de Stone, um compositor iniciante, que ganhava a vida tocando suas melodias no hotel local.

Ele bocejou.

— Francamente, por que eu me permito entrar nessas en­crencas? Preciso do meu sono embelezador!

— Você poderá dormir quando ficar velho — disse eu, cru­zando as pernas para deixá-lo admirar meus sapatos.

— Ei, alô! Tem alguém aí? Eu posso ter esse rostinho de anjo, mas para mim, esses dias de festa acabaram. — Na ver­dade, Rory tem mesmo um rosto belíssimo. Ele era apenas um adolescente quando começara a carreira como modelo fotográfico para o Northland, um shopping center no subúrbio de Detroit. Com olhos azuis impressionantes e um maxilar que Michelangelo teria dado tudo para esculpir, Rory estaria fadado a um futuro estelar como modelo se tivesse continuado acrescer. Mas como não estava escrito que seria assim, Rory se mudara para Nova York e passara a viver como arroz-de-festa de casas noturnas, entre um bico e outro de ator.

— Não banque o eremita para cima de mim — disse eu. — Sempre que saímos juntos, é você que fica até o bar fechar.

— É porque ando em busca de um amor, minha querida. — Ele começou a cantarolar: — Ando em busca de um amor nos piores lugares possíveis...

Eu estremeci.

— Tenha piedade! É cedo demais para country e acho que a sua voz está meio prejudicada depois das extravagâncias da noite de ontem.

Ele baixou os olhos para o meu joelho e se afastou um pouco.

— Ora, ora, o que temos aqui? Creio que é uma nova aqui­sição, não?

— Você gosta?

— A-do-ro! — Ele levantou um pé para inspecionar o mo­delo e então fingiu se engasgar. — Diga-me que esse par não é idêntico ao que saiu na Vogue deste mês.

Eu assenti como se o meu pescoço fosse feito de mola.

— Com a blusa que combina.

— Ah, você é uma mocinha muito, muito má. Eu pensei que estivesse numa fase de contenção de despesas, não?

— Bem, eu estou, mas acho que Gabrielle está prestes a renovar o meu contrato aqui, não lhe parece?

Ele olhou de um lado para o outro do set.

— Tenha cuidado com o que diz — cochichou Rory.

— O quê? Você fala tão baixo que eu não consigo escutar... Ele continuou com o tom baixo, mas aproximou-se um pouco.

— É bem provável que a nossa querida produtora executiva venha ao set esta manhã.

Eu examinei os cantos e as áreas de sombra do set, à procura de Gabrielle Kazanjian, a temida produtora executiva, respon­sável por tudo ali. Ela é a chefona, a figura cujo nome aparece no topo de todas as listas, embora às vezes alguns executivos da emissora e estrelas como Deanna Childs tentem passar-lhe a perna.

Há uma hierarquia muito bem definida no set de qualquer novela e isso é uma coisa que eu aprendi rapidamente, desde o primeiro dia em que apareci com a minha pequena cena para decorar, segurando papel do roteiro nas minhas mãozinhas sua­das. Um dos operadores de câmera havia virado seu equi­pamento na minhas direção, com um entusiasmado: "E aí? Co­mo vai?"

Eu me virei toda animada, com uma sensação boa de apre­ciação e felicidade. Estava fazendo um amigo no meu primeiro dia no set

— Estou ótima — respondi.

Mas ele já havia se afastado para o outro lado, falando em seu microfone, acoplado ao fone de ouvido.

— É. Ele está de férias esta semana. Pediu um tempo de folga para cuidar da reforma da casa.

— Como disse? — perguntei, sem me dar conta de que ele não estava falando comigo. Desde esse dia, aprendi que o nome dele era Les, mas ele nunca mais falou comigo, desde o dia em que interpretei mal sua saudação de boas-vindas e fui retribuída com um olhar estranho. Eu havia transgredido a barreira cul­tural, tentando me relacionar com alguém de outra classe social, de outro sindicato, Operadores de Câmera Locais 385. Inacre­ditável. Mais algumas palavras amistosas e a polícia reguladora dos esnobes invadiria o set com estardalhaço e rasgaria a minha carteirinha do Sindicato de Atores de Televisão.

Dois anos mais tarde, eu havia aprendido algumas lições valiosas. Nunca mexa nos equipamentos e na mobília do set, já que a maior parte é puro lixo. Basta bater com um pouco mais de força em uma porta cenográfica e ela virá a baixo na hora. Bata sem querer numa parede e é bem provável que ela desabe, inteirinha, no chão.

Outra regra do nosso programa: a diva Deanna reina, abso­luta.

— Estamos prontos para o ensaio? — gritou Sean Ryder, um dos assistentes de direção, erguendo a prancheta. A voz de trovão de Sean Ryder costumava ser suficiente para silenciar o set e aquele dia não foi exceção.

Eu me levantei calmamente da minha cadeira, pronta para trabalhar, mas a multidão parecia convergir para um outro pon­to, abrindo-se para dar passagem a uma figura minúscula, emol­durada por cachos vermelhos: Deanna Childs.

Rory baixou a cabeça na direção do meu ouvido e murmurou:

— Salve! Salve! A rainha chegou.

— Continuo esperando a nova versão — disse Deanna do­cemente, com os lábios reluzindo de brilho labial. — Estarei no Chez Jacques, do outro lado da rua.

Enquanto ela marchava para fora, numa saída elegante e or­gulhosa, Rory suspirou:

— A desgraçada está deixando o set.

Deanna estava se recusando a fazer a cena, conforme escrita originalmente pelos roteiristas. Não chegava a ser novidade, já que não era a primeira vez que ela fazia aquilo.

— Será que alguém pode entrar em contato com os roteiristas? — disse Sean Ryder, num tom urgente. — Os roteiristas foram informados de que Deanna quer que a cena seja reescrita? Eu cruzei os braços e respirei fundo, torcendo para que uma daquelas imensas luminárias cenográficas caísse na cabeça de­la, lançando-a num estado de coma dentro da novela, que du­rasse até os últimos episódios da temporada. Pelos olhares en­tediados dos operadores de câmera e pelo tamborilar nervoso do assistente de direção na prancheta, eu vi que não era a única. Apesar da sua base inacreditavelmente sólida de fãs, um bando de espectadores inocentes que achava que Deanna era tão doce, trabalhadora e de boa índole, quanto o seu personagem, Meredith Van Allen, Deanna não era uma colega fácil de se trabalhar. Ela já havia conseguido mandar demitir Vim punhado de gente por erros insignificantes; quase matara uma assistente de ca­marim com uma agulha de tricô e certa vez chegara a aparecer nos tablóides por ter tido um ataque de fúria enquanto esperava na fila de uma agência bancária local.

Será que eu estava sendo obsessiva novamente? Será que estava bancando a ingrata, quando tinha toda a sorte de ter con­seguido um papel coadjuvante? A verdade era que a atitude detestável de Deanna só enfatizava o fato de eu ser uma pessoa menor, dos atores sem contrato fixo, que todas as semanas ti­nham que esperar ser chamados. É verdade, eu estava com in­veja. Só um pouquinho de ciúme profissional. Se fizesse a me­tade do sucesso que ela fazia, ou se pelo menos tivesse um contrato, eu desceria da minha limusine com um sorriso nos lábios e faria a cena, conforme fora escrita. Eu sou uma pessoa muito atenciosa e conciliadora. Talvez atenciosa e conciliadora demais. É este o meu problema.

— Bem, pelo menos desta vez, ela chegou a entrar no prédio

— murmurou um dos operadores de câmera. No passado, hou­vera uma vez em que Deanna não gostara do roteiro e simples­mente se recusara a sair da limusine. Decidida, ela ligara para o produtor executivo do celular do carro, dizendo que estava presa no trânsito, na rua Cinqüenta e Sete. Para o assistente de direção, chegara a abrir um dedo do vidro da janela e dissera:

— Estou esperando a nova versão do roteiro.

Quando o assistente, que havia sido mandado para buscá-la, informara que os roteiristas não fariam uma nova versão, ela simplesmente meneara a cabeça e dissera:

— Ah, vão fazer, sim. — E com isso, fechara a janela.

O operador de câmera deslocou um imenso cabo para o outro lado do estúdio e se empertigou, com uma careta.

— Ah, então não deve ser tão grave. Talvez ela só esteja querendo ganhar um pouco de tempo para tomar café da manhã.

— Ele enfiou os dedos nas casas do cinto. — Vamos nos servir na mesa do bufe antes que acabem com todos os pãezinhos doces.

Rory bocejou.

—Vou dar um cochilo no meu camarim. Acordem-me quan­do o inferno descongelar.

Eu fiz um gesto de adeus com a mão e desabei novamente em uma das cadeiras de diretor. Seria sensato dar uma repassada nas minhas falas ou isso tornaria minha atuação muito rígida? Eu não tinha problema para memorizar os textos, mas às vezes os diálogos eram tão bobos, que eu me sentia como se estivesse recitando um poema infantil sem sentido.

Entediada, alonguei os dedos dos pés dentro dos meus belos sapatos, torcendo para que o pessoal do guarda-roupa me desse algo razoavelmente decente para vestir naquele dia. Como o meu personagem havia sido descoberto nadando nas Índigo Falls, eu vinha recebendo para vestir colantes turquesa esqui­sitos e vestidos verdes berrantes ainda mais estranhos, que me faziam parecer uma carpa dançando Charleston. E por mais que implorasse por alguma coisa diferente, nossa assistente de guar­da-roupa simplesmente meneava a cabeça.

— É isso que Gabrielle quer — repetia Jodi incontáveis ve­zes, com um brilho estranho nos olhos, dando a entender que tudo aquilo estava muito além do seu controle. Tradução: Ga­brielle havia mandado interromper todas as trocas e renovações de figurino em deferência à diva Deanna, cujo guarda-roupa exclusivo, tamanho trinta e seis, tinha que ser infinitamente mais elegante e atraente que o de qualquer outra pessoa do programa. Deanna brilhava em modelos Chanel. Jantava ves­tindo Dior. Cruzava o set de um lado para o outro usando Calvin Klein e bancava a personificação da opulência em modelos Os­car de Ia Renta. Sim, Jodi Chen, a nossa figurinista, tinha muita criatividade e bom gosto para criar roupas e já havia sido pre­miada com dois prêmios Emmy, na categoria de programas diurnos. Mas Deanna tinha que usar sempre roupas dos mais fantásticos estilistas de Nova York, momentos depois deles lan­çarem suas coleções nas vitrines da Sétima Avenida. Quanto ao resto de nós, cabia a Jodi nos vestir da pior forma possível, para não corrermos o risco de ofuscar a estrela e para que Dean­na reine suprema no esplendor da última moda.

A hierarquia ali era muito rígida. Em teoria, a produtora exe­cutiva está no topo da pirâmide e, na verdade, quando Gabrielle está no estúdio, todo mundo fica dando risinhos nervosos, sa­bendo que ela é a mulher que telefona para avisar que você está fora da novela. Ela é muito elegante e educada, uma espécie de antítese das pessoas que costumam trabalhar em produção. En­quanto a maioria dos membros da equipe mais parece ter saído

de uma festa da cerveja do último ano de faculdade, Gabrielle se destaca com a aparência de uma professora de um filme antigo dos estúdios Disney.

Ao lado da produtora executiva, a nossa Mary Poppins par­ticular, está um bando de executivos da emissora que lida com o elenco, discute com os roteiristas sobre os rumos da história e comparece a todas as festas.

Depois, há a equipe de roteiristas, que os atores amam ou odeiam, dependendo das condições do roteiro: se eles vêm com muitos doses e frases intensas, carregadas de dramaticidade, são motivo de adoração. Se trazem textos bobos e rasteiros para serem recitados sobre canecas vazias de café, são desprezados. Como os roteiristas trabalham em outro prédio, quase nunca os vemos, mas quando temos a chance de socializar, percebo que eles lançam para os atores olhares desconfiados. Será que eles nos confundem com os personagens que interpretamos? O povo indigente, acomodado, conivente, manipuladora e alegre, forma­do por assassinos em série que habita a pacata índigo Hills? Talvez sim.

O diretor também tem um certo status: o diretor é o rei ou a rainha por um dia, com poderes limitados, já que vários outros profissionais interferem na direção de cada episódio. Nossos diretores são pessoas bastante fáceis de se trabalhar, desde que se dêem bem com você-sabe-quem.

A diretora de hoje, Stella Feinberg, era uma das minhas pre­feridas, uma mulher direta, sem meias palavras, cujos casacos enormes e preocupação maternal fazem a gente ter vontade de dar um abraço coletivo.

— Certo, senhoras e senhores — gritou Stella, cerca de trinta minutos depois da saída dramática de Deanna. — Já temos um novo roteiro para trabalhar. Sean e íris vão distribuir as cópias.

Leiam rapidamente as suas falas e daqui a pouco faremos um ensaio.

— Dessa vez foi rápido — comentou alguém, enquanto eu virava as páginas do roteiro à procura da minha única cena do dia. Ali estava ela: uma cena com Deanna, que felizmente não havia sido cortada, mas que fora radicalmente modificada. Na primeira versão, o meu personagem, Ariel, que tentava se lem­brar do passado, abordava Meredith e a acusava de tê-la pren­dido num barril de picles e a atirado pelas índigo Falis abaixo.

Agora não.

Agora, Ariel ameaçava cometer suicídio, confessando que havia se fechado no barril de picles e dizendo a Meredith que não tinha motivos para continuar vivendo. A cena terminava com Meredith exigindo que Ariel se recompusesse. Quando Ariel a acusava de se preocupar demais, Meredith dava uma bofetada no rosto do meu personagem.

Slap! Plaf!

— Que tal terminar o dia com um tapa na cara? — disse eu, em voz alta. A violência abrupta me pegara de surpresa, mas o que mais eu poderia esperar de uma cena enxertada em questão de minutos pelos roteiristas?

— Hailey? — Stella olhou-me por sobre seus óculos de lei­tura. — Podemos dar uma palavrinha?

— Claro! — Eu a segui a um dos sets escuros. Um cenário de cemitério com uma estátua escurecida de um anjo soturno ao fundo. Assustador.

— E então? — perguntei, animada e até esperançosa de que ela tivesse algo a dizer sobre a minha recente atuação, sobre os índices de audiência ou sobre um novo contrato. Era verdade que não era comum os diretores lidarem com questões pessoais, mas eu podia ter esperanças, não?

— É sobre a nova versão do roteiro — Stella jogou um braço sobre meu ombro nu e me puxou para o seu casaco tricotado a mão. Por um segundo, eu fiquei com a boca cheia de lã e as narinas inundadas de cheiro de sabonete.

— A minha nova cena com Meredith? — Eu ergui a cabeça c tirei um fiapo de lã dos lábios. — Você não vai cortá-la, vai?

— Não, é claro que não. Mas tenha cuidado, minha querida. A nova versão, as intenções suicidas, a bofetada? — Os olhos dela adquiriram uma expressão preocupada. — Foi tudo idéia de Deanna.

— Ah... — Eu tentei absorver o significado daquela revela­ção, enquanto Stella assentia com a cabeça. — Mas o que isso significa? Quero dizer... será que Deanna está querendo se livrar de mim? Ela não gosta de mim?

Esporadicamente, os roteiristas e a emissora resolviam ex­plorar uma "questão", uma espécie de serviço de utilidade pú­blica. Para os atores, significava semanas de jejum anoréxico, infertilidade, alcoolismo ou mal de Alzheimer. Recentemente, haviam surgido comentários sobre a possibilidade de explorar o suicídio de pessoas jovens. Sem dúvida, era um assunto im­portante, mas eu não gostaria que a minha pobre Ariel fosse a vítima da questão social do mês.

— Por favor, diga-me a verdade, Stella — implorei. — Ariel vai se matar na novela?

— Querida, se depender do que eu sei, Ariel pode até se tornar um coelho da Páscoa e sair pulando até a China. Aliás, seria mais interessante que parte do material que tem vindo dos roteiristas ultimamente.

— Oh, não! — Meu coração começou a bater forte no peito, anunciando o início de um ataque de pânico. Aquilo não podia i-star acontecendo, ainda mais no momento em que eu acabara de sofrer uma decepção amorosa. O meu namorado, Walker, acabara de pôr um fim ao nosso relacionamento de uma forma totalmente desprezível, não retornando as minhas ligações por três semanas. Três semanas de tortura que terminaram quando eu apareci no escritório dele na hora do almoço para confron­tá-lo e ele agiu como se nem ao menos me devesse uma expli­cação. "As vezes as coisas simplesmente não dão certo", dissera ele, dando de ombros.

Dando de ombros! Depois de três meses de intimidade, e eu fui obrigada a colocar o infeliz no canto da parede e em resposta, recebi um gesto de ombros! É demais! Tenho que admitir que a história me deixou abalada. Para curtir a fossa, peguei uma dúzia de latas de refrigerante diet, uns pacotes de batatas fritas sem gordura e meia dúzia de revistas, que não chegaram a ajudar porque nenhuma delas continha um artigo sobre "relaciona­mentos malsucedidos com homens irresponsáveis que não têm consideração nem para terminar o relacionamento de maneira decente".

— Não leve para o lado pessoal, Hailey — Stella pegou a minha mão e apertou-a vigorosamente, com aquele seu estilo carinhoso e maternal. — Isso não significa nada. Considere a fonte da intriga: Deanna. Isso é só uma mexida de última hora no roteiro para tornar a trama mais favorável a ela e não neces­sariamente uma mudança no fio condutor da história.

Mas eu não conseguia me livrar da sensação incômoda.

— Como eles podem me cortar da novela? Você viu a minha participação especial na Soap Central, duas semanas atrás?

— Não se preocupe — insistiu Stella. — Foi só uma mo­dificação às pressas no roteiro para atender aos caprichos de Deanna. É bem provável que você nunca mais volte a ouvir a palavra "suicídio".

Minha taquicardia começou a abrandar.

— Certo — respondi, engolindo em seco. — A menos que eles não renovem meu contrato.

— Ora, não diga isso! — Stella me deu um tapinha no ombro e me acompanhou de volta ao set decorado como sala de visitas. — Eu só quis deixá-la avisada. Assim, você agirá de cabeça-fria e não pisará nos calos alheios.

— Obrigada — disse eu, com uma nova onda de pânico se instalando dentro do meu peito. Sentia-me totalmente despreparada para aquele episódio e bastante insegura por ter que contracenar com Deanna, mas não havia escapatória. Assim, fechei os olhos, respirei fundo e tentei pôr em prática um velho truque aprendido na ioga: energia para dentro, tensão para fora.

Energia entrando, tensão saindo...

O exercício de respiração ajudou, assim como o exercício mental de focar o pensamento em coisas agradáveis: o magní­fico setor de cosméticos da Bloomingdale's; as maravilhosas caixas de jóias, iluminadas como se fossem peças de museu da Tiffany's; as prateleiras de acessórios para gourmet no Cellar da Macy's; os banheiros de plush listrado de marrom e branco da Henri Bendel, com cabines maiores que muitos estúdios do Upper West Side...

— Ei, pessoal, vamos nos concentrar aqui — gritou a diretora, erguendo os braços como uma comissária de bordo en­louquecida. — Vamos fazer um ensaio rápido antes de mandar o elenco para a maquiagem e guarda-roupa.

Ah, mas eu não queria me concentrar naquela cena horrível que poderia decretar a morte da minha carreira em novelas. Queria pensar no território de varejo que Alana e eu conquis­taríamos quando ela voltasse da Europa. Minha mente divagou para a fonte no Trump Tower, com suas águas correndo serenas, como em um poema oriental...

— Ah, ótimo — disse Ian Horowitz com seu forte sotaque britânico. Ian é um homem bonito, grisalho e fumante invete­rado que faz o papel do médico que matou por engano seu endemoniado irmão gêmeo na última temporada. Ele colocou um cigarro apagado na boca e abriu seu roteiro. — Vamos co­meçar logo com esta festa.

Relutante, eu abandonei minhas fantasias com lojas de de­partamento e tentei decorar minhas novas falas, ao mesmo tem­po em que Deanna e seu séquito de seguidores apareciam no set. Dessa vez, ela havia trazido seu cachorro: um Yorkshire pequeno e ruidoso, de finos pelos cinzentos e uma cara amas­sada que me lembrava a de um morcego. O cachorro era sempre uma atração à parte, já que todos eram obrigados a brincar com ele e uma pessoa em especial tinha que ser deslocada das suas atividades para segurar e entreter o animal enquanto Deanna passava o texto.

— E como vai Muffin esta manhã? — perguntou Stella, pra­ticamente babando diante do animal.

— Não muito bem, o pobrezinho — respondeu Deanna, en­tregando-o a Sean. — Temo que ele esteja com... — ela baixou a voz — ...diarréia.

De onde eu estava, vi Sean se contraindo a ponto de prati­camente derrubar o animal no chão e precisei de todo o meu talento dramático para manter uma expressão séria. No mo­mento seguinte, Deanna virou-se para mim.

—Ei, você! — Ela sorriu, numa falsa demonstração de afeto. — Você está com alguma coisa diferente, hoje. Será uma nova cor de tintura?

Eu não disse a ela que o tom loiro-dourado dos meus cabelos era natural. Notícias assim podiam deixar uma pessoa como Deanna simplesmente fora de si de tanta fúria. Tímida, limitei-me a piscar os olhos.

— Não. Os cabelos estão iguais.

Ela coçou o queixo, examinando-me da cabeça aos pés.

— São os sapatos! É isso!

Eu dei um passo atrás com os meus Nine West de bolinhas, tentando não aparecer demais.

— Você tem razão. São novos.

— Hum. Belos sapatos, mas francamente...

— Francamente o quê?

— Ah, é a combinação.

Eu baixei os olhos para meu próprio corpo.

— A blusa combina com os sapatos.

— Sim, é claro, querida. Mas os sapatos e a calça jeans? Um silêncio incômodo nos envolveu, à medida que as pes­soas começavam a disfarçar, fingindo consultar seus roteiros.

— Pode parecer besteira para você, mas a calça jeans é como uma marca registrada minha. E eu gosto de combinar calça jeans com blusas formais e camisetas informais, sabe?

Deanna deixou escapar uma risadinha.

— Você e mais alguns milhares de outras aspirantes a atriz. Eu tive vontade de arrancar com um soco o sorriso falso daquele rosto cheio de botox, mas procurei me controlar e evitar a todo custo o aspecto suicida da minha carreira.

— De qualquer modo — disse eu, dobrando a ponta do meu roteiro. — Os sapatos são novos. Nine West.

— E são lindos — disse ela, entusiasmada. — Apesar da combinação ser um pouco estranha. Ninguém nunca lhe disse para evitar sapatos abotoados nos tornozelos com calça comprida? — Ela pronunciou a palavra "calça" de uma forma tão afetada, que parecia a estrela principal de uma comédia britânica.

— Mas o jeans é a minha marca registrada — disse eu, sen­tindo-me cada vez mais incomodada.

Ela suspirou.

— É claro que são, mas não com sapatos desse tipo, querida. Eu ergui o tecido das minhas calças e baixei os olhos para os meus adorados sapatos. Será que ela estava com a razão? Seria possível que tanto eu, quanto Alana tivéssemos cometido uma gafe de estilo que me colocaria na lista negra da Glamour ou da Cosmo!

— Então, vamos lá — disse Deanna, retomando o controle. — Vamos ensaiar nossa nova cena?

A equipe voltou à vida, correndo para posicionar-se enquan­to Stella olhava por sobre seus óculos de leitura.

— Sim, claro. Esta cena acontece no terraço da mansão dos Childs. Vamos dar uma primeira passada, sem o tapa, eviden­temente.

— É claro! — sibilou Deanna, erguendo a mão para tocar meu rosto com uma afeição fria.

Eu tentei sorrir, mas era difícil superar a mágoa que me do­minava.

Eu estava usando sapatos abotoados nos tornozelos com cal­ça comprida.

Eu havia dado um passo em falso na passarela da moda.

Não sabia o que fazer.




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