Retratos da escola: a escolarizaçÃo fotografada



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RETRATOS DA ESCOLA: A ESCOLARIZAÇÃO FOTOGRAFADA
Idelsuite de Sousa Lima1
Resumo
Nas escolas fotografa-se muito. Numa busca de retenção temporal a escola utiliza-se de fotografias para registrar o que a instituição considera relevante na busca de perpetuar instantes vividos. O presente trabalho é parte de uma pesquisa mais ampla sobre a análise histórica de uma política do conhecimento escolar, no bojo de uma reforma educacional desenvolvida nos anos finais do século XX. O texto ora exposto refere-se a um estudo sobre o intramuro da escola, realizado no sentido de captar indícios das práticas culturais do processo de escolarização incorporadas pela cultura escolar. Para a realização da investigação procedeu-se a uma pesquisa documental e o procedimento metodológico utilizado foi a análise fotográfica. Dentre os documentos da escola o acervo fotográfico consubstancia-se como importante fonte para entender o processo de constituição curricular. Tal acervo ocupa parte significativa do arquivo escolar, com uma gama de exemplares fotográficos, configurando-se numa cultura material que a escola guarda como uma herança a preservar, como uma representação do seu viver. Os álbuns com as fotografias integram os documentos. Contêm, pois, informações valiosas sobre a escola, os professores, o núcleo gestor, os alunos, as atividades realizadas, o cotidiano, as festividades, os cursos ministrados, os visitantes e autoridades que por ali passaram. Apresentam fragmentos do ensino, do currículo, das dinâmicas de sala de aula, do fazer educativo, enfim da organização do processo de escolarização. Assim, o acervo fotográfico da escola constitui o corpus documental do presente trabalho. Os retratos da escola conferem sentido ao passado, tornando possível, a partir do cruzamento com outras fontes, escrever a trajetória da instituição, a construção histórica das práticas curriculares que dão base ao processo de escolarização. A incursão pelos registros imagéticos e iconográficos possibilita captar o universo de uma cultura própria, que produz traços e documentos dessa cultura, como patrimônio educativo da instituição. Através da fotografia, o olhar de quem fotografa, os sentidos que imprime na iminência de reeditar comportamentos, valores, símbolos, estranhamentos, representações. A análise e compreensão das práticas escolares e do processo de escolarização dos alunos captadas a partir dos retratos da escola conferem a tais fontes documentais estatuto de reveladoras das culturas escolares, contemplando assim, uma escolarização fotografada.

INTRODUÇÃO


Este texto discute o uso da fotografia como objeto de estudo para análise da história da educação e, particularmente, para o que Goodson (1995) denomina de história do currículo escolar. O estudo da fotografia escolar como postulado de investigação científica, além de ampliar a noção de documento histórico, possibilita a análise de práticas sociais educativas. Do ponto de vista historiográfico a utilização de tais fontes intensifica o tratamento epistemológico do olhar e da imagem e, do ponto de vista da educação contribui sobremaneira para o entendimento dos significados das práticas educativas cotidianas.
A pesquisa teve como objetivo investigar aspectos do processo pedagógico ou o modo de realização do currículo no âmbito de uma instituição escolar de dependência administrativa estadual. A proposta deste texto é construir uma narrativa a partir das fotografias da escola. Fotografias identificadas com um modelo de gestão administrativo-pedagógica, cujas ações são registradas com o uso da câmara fotográfica. Assim, as inúmeras imagens dispostas no arquivo da escola caracterizam uma especificidade daquela instituição. A existência de tantas fotografias justapostas, agrupadas ou congregadas indistintamente em arranjos diversos chamados álbuns constituem um acervo peculiar da instituição.
O estudo refere-se, assim, a uma análise sobre a internalidade da escola, buscando-se captar resquícios das práticas culturais do processo de escolarização incorporadas pela cultura escolar vivenciada na instituição educativa (LIMA, 2006). Vislumbra-se que, através dos retratos da escola, torna-se possível identificar um certo modo de revelar ações instituídas e instituintes do cotidiano escolar. Assim, investiga-se, por meio de um corpus de fotografias o lugar ocupado pelo trabalho pedagógico. A apreciação das imagens fotográficas possibilita os aspectos históricos da instituição, das práticas curriculares, das proposições de um jeito próprio de realizar o processo de ensino e de gestão e organização do trabalho pedagógico.

FOTOGRAFIA, MEMÓRIA E ESCOLA


Na escola pesquisada a fotografia ocupa um lugar de destaque dentre os materiais que constituem o arquivo da escola. Uma obra construída pelos que compunham a instituição naquele tempo vivido, guardada através de fotos como uma lembrança a preservar, um recurso imagético como suporte de uma memória individual e coletiva. E a memória, mais do que um simples objeto da história, constitui uma de suas ‘matrizes’, permanecendo como guardiã de algo que efetivamente ocorreu no tempo (RICOEUR, s/d).
Para Ricoeur (s/d: 198) ‘uma obra não reflete apenas seu tempo, mas abre um mundo que ela transporta em si mesma’. Assim, o acervo fotográfico daquela escola faz aparecer pela revelação um tempo vivido e transporta uma lembrança como potencial de uma existência. Uma existência cuidadosamente fotografada.
Izquerdo (2004) em A Arte de esquecer afirma que cada um de nós é quem é porque tem suas próprias memórias. E a memória compreende evocar lembranças, cujo processo acontece paralelamente ao de esquecimento. As lembranças do que somos e o somos porque lembramos, conferem identidade e reconhecimento de nós mesmos e do outro. Como subterfúgio de escapar ardilosamente do esquecimento os educadores da escola pareciam querer garantir o tempo presente, registrando em fotos suas ações.
As fotografias da escola parecem antecipar o processo de rememoração. Ao fotografarem os acontecimentos da escola os profissionais que ali trabalhavam presumiam eternizar os feitos de uma geração como preservação da memória. Para Le Goff (1996) a fotografia veio revolucionar a memória, ao multiplicá-la dando uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas.
Nas fotografias registros produzidos para marcar a internalidade da escola e não diretamente para a exposição pública. As fotografias da escola tentam emergir feitos de uma determinada etapa de vida da instituição, suas relações, suas ações estabelecidas, suas intenções para serem lembradas, rememoradas. Para Benjamim ( ) rememorar é um ato político, com potencialidades de produzir um ‘despertar’ dos sonhos, das fantasmagorias, para a construção das utopias.
Os professores e gestores da escola gravaram em imagens momentos únicos que contam, constroem e moldam a história da escolarização daquela escola da cidade cearense de Icó, no final do século XX. Para Kossoy (2007:156) ‘fotografia é memória e com ela se confunde. É uma fonte inesgotável de informação e emoção. Memória visual do mundo físico e natural, da vida individual e social’.

Em consequência do surgimento de máquinas fotográficas de simples operacionalização e de fácil acesso a fotografia passou a fazer parte do cotidiano das pessoas. Assim, o registro imagético tornou-se uma constante nas ações dos educadores da Escola Lourdes Costa, ocupando, muitas vezes, o lugar do documento escrito, do relatório. A maioria das fotografias do acervo refere-se ao período de atuação do núcleo gestor eleito nos anos finais do século XX2.


Os educadores ao manusearem a câmera fotográfica da escola, além de captarem imagens do cotidiano deixaram escrito na química do papel histórias do coletivo dos professores, dos alunos, das aulas-passeio, dos ensaios, das reuniões de planejamento, das festividades e comemorações. Movidos pelo desejo e a vontade de preservar alguns instantes, os educadores construíram pelas imagens uma versão fotografada do existir da escola.
Nas palavras de Olga Simson (2005, p.20):
Desde os anos trinta e quarenta, com a ‘democratização’ do registro fotográfico [...] permitiram a fixação rápida e fácil de ‘instantâneos’, a vida dos grupos sociais e dos indivíduos passou a ser registrada muito mais pela imagem do que pelos livros de memórias, cartas ou diários, e a memória individual e familiar passou a ser construída tendo por base o suporte imagético [...]. Estamos constantemente nos valendo de imagens instantâneas da nossa vida, registradas em papel fotográfico, para detonar o processo de rememorar e assim construir a nossa versão sobre os acontecimentos já vivenciados.
As ações escolares foram registradas muito mais pela imagem do que pelos documentos e a história da escolarização passa a ser construída tendo por base o suporte imagético. De acordo com Simson (2005:20) é o suporte imagético que muitas vezes vem orientando a reconstrução e a veiculação da nossa memória, seja como indivíduos, seja como participantes de diferentes grupos.
O grupo de educadores da escola fotografou o seu período de atuação. A fotografia traz imbricada em sua superfície reflexões e histórias. Cenas comuns do dia-a-dia, imagens do cotidiano, do vai-e-vem de quem estava na escola. Reforçando seu papel de veículo construtor de memória, os álbuns fotográficos oferecem um conjunto de fotografias, provas ‘incontestes’ das práticas escolares que ali se desenvolviam. Para Burke (2004: 20) ‘independente de sua qualidade estética, qualquer imagem pode servir como evidência histórica’.
Numa busca de retenção temporal a escola utiliza-se de fotografias como que para registrar o que a instituição considera relevante para tentar imortalizar alguns instantes. Burke (2004:17) defende e reafirma que ‘as imagens, assim como textos e testemunhos orais, constituem-se numa forma importante de evidência histórica. Elas registram atos de testemunho ocular’
Todavia, nessa análise iconográfica alguns questionamentos se sobressaem: para que finalidades foram tiradas essas fotografias? Quem teve a idéia de registrar tantos momentos do cotidiano? Por que foram registradas situações de sala de aula, do ensino de conteúdos? Por que as reuniões de professores, de gestores, de pais e mestres, bem como, situações com grupos de alunos tematizam a maioria das imagens? Por que tantas fotos de eventos com presença de autoridades da educação estadual? Indubitavelmente, as fotografias escolares guardam fortes vínculos com a história institucional e com o momento histórico porque passa a gestão da escola naquele momento.
Assim, a história do currículo pode também ser compreendida com o amparo da utilização dos documentos imagéticos. As imagens não podem ser ignoradas porque remetem a linguagens específicas que auxiliam a reconstruir o contexto sociocultural, político e pedagógico da escola. .

IMAGENS DA ESCOLA: FOTOGRAFIA E POLÍTICA EDUCACIONAL


Para explicar a relação entre fotografia e política educacional é interessante destacar o papel de uma plataforma política na constituição de um modelo de gestão administrativo-pedagógico desenvolvido na escola e na rede estadual de ensino cearense nos anos finais do século XX.
A educação cearense vivencia a partir dos anos finais da década de 1990 uma política educacional cujo lema é ‘Todos pela educação de qualidade para todos’, em que as escolas passam a contar com projetos de apoio financeiro, pedagógico e de gestão e com processos de participação mais efetivos. A experiência de administração colegiada passa a ser vivenciada na escola, com núcleo gestor escolhido pela comunidade escolar através do processo eleitoral.
Na esteira dessa política, em 1998 ganha espaço a definição de uma política do conhecimento escolar com o lançamento de uma proposta curricular. Cursos de formação de gestores e de formação continuada para os professores tornam-se freqüentes, além da ‘convocatória’ da participação tornar-se uma constante. Processos de co-participação nas decisões na escola e na forma de trabalho entre a Secretaria de Educação de Estado, a Regional de Ensino e a escola tornam-se mais efetivos e isso influencia na prática escolar.
As fotografias da escola retratam com riqueza de detalhes inúmeros momentos desse processo. As anotações no verso das fotos ou na capa dos álbuns identificam tais eventos. Alguns agentes daquele tempo que aparecem nas imagens indicam algo que se quer retratar. A postura do fotografado, o olhar do fotógrafo e a cena que pretende destacar são pontos a considerar numa análise fotográfica.
A presença de autoridades da educação estadual em eventos na escola busca registrar ou autenticar um fato. Fotografias do secretário estadual de educação ladeado pela diretora da regional de ensino, por professores da escola e com alunos em diversas situações, dão visibilidade à retórica da estreita relação entre os entes envolvidos no processo educacional do Ceará naquele período. Imagens da diretora da Regional de Ensino ou de seus assessores em visitas de trabalho à escola ou de membros da escola em cursos e eventos promovidos pelos órgãos estaduais revigoram tal assertiva.
Fotografias de pais, professores e alunos na eleição do núcleo gestor registram o processo democrático da escolha dos gestores da escola. Mais contundente ainda são fotos do cotidiano, das inúmeras reuniões, das assembléias com os diversos segmentos da escola numa demonstração de ações realizadas coletivamente. Situações de trabalho, inclusive de sala de aula expressam o desejo de indicar que o trabalho pedagógico também está sendo registrado pelas imagens.

Nas fotos de cartazes e faixas expostas em comemorações, em aspectos de dramaturgia realizada pelos alunos a tônica de uma criticidade e de uma perspectiva política. Na comemoração dos 500 anos do Brasil, por exemplo, os cartazes fotografados suscitavam reflexão sobre o papel social de cada cidadão. Com este foco uma história curricular também é veiculada através das imagens fotográficas.


Aspectos administrativos ou organizacionais da gestão são também objetos de registro fotográfico. Há fotos de encontros dos órgãos colegiados, da coordenação pedagógica em orientações curriculares ou em reuniões de planejamento com os professores. A marca da visibilidade de um trabalho participativo, de um envolvimento das pessoas no trabalho educativo, de alunos trabalhando em sala de aula ou em comemorações e festividades indica a peocupação de quem conduz a câmara fotográfica.
As fotografias dão materialidade a uma plataforma de organização e gestão do trabalho educativo da escola, apresentando-se como expressão da intencionalidade de celebração de uma aura de significação e de divulgação de uma política educacional.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES


As fotografias escolares se constituem em valiosas fontes para a história das instituições educacionais. Através delas cenas do cotidiano escolar, das comemorações e festividades, do desempenho dos gestores, da arquitetura dos ambientes e dos arranjos sob os quais a organização do trabalho pedagógico se edifica.
As fotografias da escola revelam os vínculos com os órgãos institucionais, com a política educacional, com a internalidade da escola, com a filosofia e a construção social da instituição e com a cultura escolar.
Alunos, gestores e professores –os sujeitos da educação- ocupam diferentes espaços tanto na escola como na fotografia, porém o elo da visibilidade com o que está sendo realizado na escola e a perspectiva do desejo de inovação é refletida nas imagens fotográficas.
Referências:
BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paul Rouanet. 7.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994 (Obras escolhidas I).

BURKE, P. Testemunha Ocular: história e imagem. Bauru: Edusc, 2004.

CHAUI, M. (1988). Janela da alma, espelho do mundo. In: NOVAES, A. O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras.

GOODSON, I. Currículo: teoria e história. Petrópolis: Vozes, 1995.

IZQUIERDO, I. A arte de esquecer. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2004.

LIMA, I. S. O currículo no plural: políticas, práticas, culturas escolares. Campinas: UNICAMP, 2006. (Tese de doutorado).

_______. A cultura escolar e a pesquisa em história do currículo. In: Espaço do Currículo. V. 3, n.1. mar/set 2010.

_______. Múltiplas faces nas políticas curriculares. In: Anais da 31ª Reunião Anual da Anped. GT Currículo. 2008. Acessado no site: www.anped.org.br.

KOSSOY, B. Os tempos da fotografia: o efêmero e o perpétuo. Cotia: Ateliê Editorial, 2007.

_______. Fotografia e memória: reconstituição por meio da fotografia. In: SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2005

LE GOFF, J. História e memória. Tad. Bernardo Leitão. Campinas: UNICAMP, 1996.

RICOEUR, P. Do texto à ação: ensaios de hermenêutica II. Porto (Portugal): RésEditora, s/d.

SIMSON, O. R. M. Imagem e memória. In: SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2005.

ZAN, D. D. P. Fotografia, currículo e cotidiano escolar. In Pro-posições. V. 21, n. 01. Abr 2010.



1 Professora da Universidade Federal de Campina Grande

2 Núcleo gestor composto por Márcio Greik Santana, Sandra Rolim, Sandra Teodósio e Cláudia Katianne.


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