Revolução e Contra-Revolução



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F. Revolução, Contra-Revolução e Ditadura
As presentes considerações sobre a posição da Revolução e do pensamento católico em face das formas de governo suscitarão em vários leitores uma interrogação: a ditadura é um fator de Revolução, ou de Contra-Revolução?

Para responder com clareza a uma pergunta a que têm sido dadas tantas soluções confusas e até tendenciosas, é necessário estabelecer uma distinção entre certos elementos que se emaranham desordenadamente na idéia de ditadura, como a opinião pública a conceitua. Confundindo a ditadura em tese com o que ela tem sido “in concreto” em nosso século, o público entende por ditadura um estado de coisas em que um chefe dotado de poderes irrestritos governa um país. Para o bem deste, dizem uns. Para o mal, dizem outros. Mas em um e outro caso, tal estado de coisas é sempre uma ditadura.

Ora, este conceito envolve dois elementos distintos:

--onipotência do Estado;

-- concentração do poder estatal em uma só pessoa.

No espírito pública, parece que o segundo elemento chama mais a atenção. Entretanto, o elemento básico é o primeiro, pelo menos se entendermos por ditadura um estado de coisas em que o Poder público, suspensa qualquer ordem jurídica, dispõe a seu talante de todos os direitos. Que uma ditadura possa ser exercida por um Rei (a ditadura real, isto é, a suspensão de toda a ordem jurídica e o exercício irrestrito do poder público pelo Rei, não se confunde com o “Ancien Régime”, em que estas garantias existiam em considerável medida, e muito menos com a monarquia orgânica medieval) ou um chefe popular, uma aristocracia hereditária ou um clã de banqueiros, ou até pela massa, é inteiramente evidente.

Em si, uma ditadura exercida por um chefe ou um grupo de pessoas não é revolucionária nem contra-revolucionária. Ela será uma ou outra coisa em função das circunstância de que se originou, e da obra que realizar. E isto, quer esteja em mãos de um homem, quer de um grupo.

Há circunstâncias que exigem, para a “salus populi”, uma suspensão provisória de todos os direitos individuais, e o exercício mais amplo do poder pública. A ditadura pode, portanto, ser legítima em certos casos.

Uma ditadura contra-revolucionária e, pois, inteiramente norteada pelo desejo de Ordem, deve apresentar três requisitos essenciais:

* Deve suspender os direitos, não para subverter a Ordem, mas para a proteger. E por Ordem não entendemos apenas a tranqüilidade material, mas a disposição das coisas segundo seu fim, e de acordo com a respectiva escala de valores. Há, pois, uma suspensão de direitos mais aparente do que real, o sacrifício das garantias jurídicas de que os maus elementos abusavam em detrimento da própria ordem e do bem comum, sacrifício este todo voltado para a proteção dos verdadeiros direitos dos bons.

* Por definição, esta suspensão deve ser provisória, e deve preparar as circunstâncias para que o mais cedo possível se volte à ordem e à normalidade. A ditadura, na medida em que é boa, vai fazendo cessar sua própria razão de ser. A intervenção do Poder público nos vários setores da vida nacional deve fazer-se de maneira que, o mais breve possível, cada setor possa viver com a necessária autonomia. Assim, cada família deve poder fazer tudo aquilo de que por sua natureza é capaz, sendo apoiada apenas subsidiariamente por grupos sociais superiores naquilo que ultrapasse o seu âmbito. Esses grupos, por sua vez, só devem receber o apoio do município no que excede à normal capacidade deles, e assim por diante nas relações entre o município e a região, ou entre esta e o país.

* O fim precípuo da ditadura legítima hoje em dia deve ser a Contra-Revolução. O que, aliás, não implica em afirmar que a ditadura seja normalmente um meio necessário para a derrota da Revolução. Mas em certas circunstâncias pode ser.

Pelo contrário, a ditadura revolucionária visa eternizar-se, viola os direitos autênticos, e penetra em todas as esferas da sociedade para as aniquilar, desarticulando a vida de família, prejudicando as elites genuínas, subvertendo a hierarquia social, alienando de utopias e de aspirações desordenadas a multidão, extinguindo a vida real dos grupos sociais e sujeitando tudo ao Estado: em uma palavra, favorecendo a obra da Revolução. Exemplo típico de tal ditadura foi o hitlerismo.

Por isto, a ditadura revolucionária é fundamentalmente anticatólica. Com efeito, em um ambiente verdadeiramente católico, não pode haver clima para uma tal situação.

O que não quer dizer que a ditadura revolucionária, neste ou naquele país, não tenha procurado favorecer a Igreja. Mas trata-se de atitude meramente política, que se transforma em perseguição franca ou velada, logo que a autoridade eclesiástica comece a deter o passo à Revolução.

Capítulo IV

As Metamorfoses do Processo Revolucionário

Como se depreende da análise feita no capítulo anterior, o processo revolucionário é o desenvolvimento, por etapas, de certas tendências desregradas do homem ocidental e cristão, e dos erros delas nascidos.

Em cada etapa, essas tendências e erros têm um aspecto próprio. A Revolução vai, pois, se metamorfoseando ao longo da História.

Essas metamorfoses que se observam nas grandes linhas gerais da Revolução, se repetem, em ponto menor, no interior de cada grande episódio dela.

Assim, o espírito da Revolução Francesa, em sua primeira fase, usou máscara e linguagem aristocrática e até eclesiástica. Freqüentou a côrte e sentou-se à mesa do Conselho do Rei.

Depois, tornou-se burguês e trabalhou pela extinção incruenta da monarquia e da nobreza, e por uma velada e pacífica supressão da Igreja Católica.

Logo que pôde, fez-se jacobino, e se embriagou de sangue no Terror.

Mas os excessos praticados pela facção jacobina despertaram reações. Ele voltou atrás, percorrendo as mesmas etapas. De jacobino transformou-se em burguês no Diretório, com Napoleão estendeu a mão à Igreja e abriu as portas à nobreza exilada, e, por fim, aplaudiu a volta dos Bourbons. Terminada a Revolução Francesa, não termina com isto o processo revolucionário. Ei-lo que torna a explodir com a queda de Carlos X e a ascensão de Luís Felipe, e assim por sucessivas metamorfoses, aproveitando seus sucessos e mesmo seus insucessos, chegou ele até o paroxismo de nossos dias.

A Revolução usa, pois, suas metamorfoses não só para avançar, como também para operar os recuos táticos que tão freqüentemente lhe têm sido necessários.

Por vezes, movimento sempre vivo, ela tem simulado estar morta. E é esta uma de suas metamorfoses mais interessantes. Na aparência, a situação de um determinado país se apresenta como inteiramente tranqüila. A reação contra-revolucionária se distende e adormece. Mas, nas profundidades da vida religiosa, cultural, social, ou econômica, a fermentação revolucionária vai sempre ganhando terreno. E, ao cabo desse aparente interstício, explode uma convulsão inesperada, freqüentemente maior que as anteriores.



Capítulo V

As Três Profundidades da Revolução:

Nas tendência, nas idéias, nos fatos
1. A REVOLUÇÃO NAS TENDÊNCIAS
Como vimos, essa Revolução é um processo feito de etapas, e tem sua origem última em determinadas tendências desordenadas que lhe servem de alma e de força propulsora mais íntima (cfr. Parte I - Cap. VII, 3).

Assim, podemos também distinguir na Revolução três profundidades, que cronologicamente até certo ponto se interpenetram.

A primeira, isto é, a mais profunda, consiste em uma crise nas tendências. Essas tendências desordenadas, que por sua própria natureza lutam por realizar-se, já não se conformando com toda uma ordem de coisas que lhes é contrária, começam por modificar as mentalidades, os modos de ser, as expressões artísticas e os costumes, sem desde logo tocar de modo direto --habitualmente, pelo menos-- nas idéias.
2. A REVOLUÇÃO NAS IDÉIAS
Dessas camadas profundas, a crise passa para o terreno ideológico. Com efeito --como Paul Bourget pôs em evidência em sua célebre obra "Le Démon du Midi"-- "cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu" (ob. cit., Librairie Plon, Paris, 1914, vol. II, p. 375). Assim, inspiradas pelo desregramento das tendências profundas, doutrinas novas eclodem. Elas procuram por vezes, de início, um “modus vivendi” com as antigas, e se exprimem de maneira a manter com estas um simulacro de harmonia que habitualmente não tarda em se romper em luta declarada.
3. A REVOLUÇÃO NOS FATOS
Essa transformação das idéias estende-se, por sua vez, ao terreno dos fatos, onde passa a operar, por meios cruentos ou incruentos, a transformação das instituições, das leis e dos costumes, tanto na esfera religiosa quanto na sociedade temporal. É uma terceira crise, já toda ela na ordem dos fatos.
4. OBSERVAÇÕES DIVERSAS
A. As profundidades da Revolução não se identificam com etapas cronológicas
Essas profundidades são, de algum modo, escalonadas. Mas uma análise atenta evidência que as operações que a Revolução nelas realiza de tal modo se interpenetram no tempo, que essas diversas profundidades não podem ser vistas como outras tantas unidades cronológicas distintas.
B. Nitidez das três profundidades da Revolução
Essas três profundidades nem sempre se diferenciam nitidamente umas das outras. O grau de nitidez varia muito de um caso concreto a outro.
C. O processo revolucionário não é incoercível
O caminhar de um povo através dessas várias profundidades não é incoercível, de tal maneira que, dado o primeiro passo, ele chegue necessariamente até o último, e resvale para a profundidade seguinte. Pelo contrário, o livre arbítrio humano, coadjuvado pela graça, pode vencer qualquer crise, como pode deter e vencer a própria Revolução.

Descrevendo esses aspectos, fazemos como um médico que descreve a evolução completa de uma doença até a morte, sem pretender com isto que a doença seja incurável.



Capítulo VI

A Marcha da Revolução
As considerações anteriores já nos forneceram alguns dados sobre a marcha da Revolução, isto é, seu caráter processivo, as metamorfoses por que ela passa, sua irrupção no mais recôndito do homem, e sua exteriorização em atos. Como se vê, há toda uma dinâmica própria à Revolução. Disto podemos ter melhor idéia estudando ainda outros aspectos da marcha da Revolução.
1. A FORÇA PROPULSORA DA REVOLUÇÃO
A. A Revolução e as tendências desordenadas
A mais possante força propulsora da Revolução está nas tendências desordenadas.

E por isto a Revolução tem sido comparada a um tufão, a um terremoto, a um ciclone. É que as forças naturais desencadeadas são imagens materiais das paixões desenfreadas do homem.


B. Os paroxismos da Revolução estão inteiros nos germes desta
Como os cataclismos, as más paixões têm uma força imensa, mas para destruir.

Essa força já tem potencialmente, no primeiro instante de suas grandes explosões, toda a virulência que se patenteará mais tarde nos seus piores excessos. Nas primeiras negações do protestantismo, por exemplo, já estavam implícitos os anelos anarquistas do comunismo. Se, do ponto de vista da formulação explícita, Lutero não era senão Lutero, todas as tendências, todo o estado de alma, todos os imponderáveis da explosão luterana já traziam consigo, de modo autêntico e pleno, embora implícito, o espírito de Voltaire e de Robespierre, de Marx e de Lenine (cfr. Leão XIII, Encíclica "Quod Apostolici Muneris", de 28-XII-1878, Bonne Presse, Paris, vol. I, p. 28).


C. A Revolução exaspera suas próprias causas
Essas tendências desordenadas se desenvolvem como os pruridos e os vícios, isto é, à medida mesmo que se satisfazem, crescem em intensidade. As tendências produzem crises morais, doutrinas errôneas, e depois revoluções. Umas e outras, por sua vez, exacerbam as tendências. Estas últimas levam em seguida, e por um movimento análogo, a novas crises, novos erros, novas revoluções. É o que explica que nos encontremos hoje em tal paroxismo da impiedade e da imoralidade, bem como em tal abismo de desordens e discórdias.
2. OS APARENTES INTERSTÔCIOS DA REVOLUÇÃO
Considerando a existência de períodos de uma calmaria acentuada, dir-se-ia que neles a Revolução cessou. E assim parece que o processo revolucionário é descontínuo, e portanto não é uno.

Ora, essas calmarias são meras metamorfoses da Revolução. Os períodos de tranqüilidade aparente, supostos interstícios, têm sido em geral de fermentação revolucionária surda e profunda. Haja vista o período da Restauração (1815-1830) - (Cfr. Parte I, cap. IV).


3. A MARCHA DE REQUINTE EM REQUINTE
Pelo que vimos (cfr. nº 1, C, supra) se explica que cada etapa da Revolução, comparada com a anterior, não seja senão um requinte. O humanismo naturalista e o protestantismo se requintaram na Revolução Francesa, a qual, por sua vez, se requintou no grande processo revolucionário de bolchevização do mundo hodierno.

É que as paixões desordenadas, indo num crescendo análogo ao que produz a aceleração na lei da gravidade, e alimentando-se de suas próprias obras, acarretam conseqüências que, por sua vez, se desenvolvem segundo intensidade proporcional. E, na mesma progressão, os erros geram erros, e as revoluções abrem caminho umas para as outras.


4. AS VELOCIDADES HARMÔNICA DA REVOLUÇÃO
Esse processo revolucionário se dá em duas velocidades diversas. Uma, rápida, é destinada geralmente ao fracasso no plano imediato. A outra tem sido habitualmente coroada de êxito, e é muito mais lenta.
A. A alta velocidade
Os movimentos pré-comunistas dos anabatistas, por exemplo, tiraram imediatamente, em vários campos, todas ou quase todas as conseqüências do espírito e das tendências da Pseudo-Reforma: fracassaram.
B. A marcha morosa
Lentamente, ao longo de mais de quatro séculos, as correntes mais moderadas do protestantismo, caminhando de requinte em requinte, por etapas de dinamismo e de inércia sucessivas, vão entretanto favorecendo paulatinamente, de um ou de outro modo, a marcha do Ocidente para o mesmo ponto extremo (cfr. Parte II, Cap. VIII, 2).
C. Como se harmonizam essas velocidades
Cumpre estudar o papel de cada uma dessas velocidades na marcha da Revolução. Dir-se-ia que os movimentos mais velozes são inúteis. Porém, não é verdade. A explosão desses extremismos levanta um estandarte, cria um ponto de mira fixo que fascina pelo seu próprio radicalismo os moderados, e para o qual estes se vão lentamente encaminhando. Assim, o socialismo repudia o comunismo mas o admira em silêncio e tende para ele. Mais remotamente o mesmo se poderia dizer do comunista Babeuf e seus sequazes nos últimos lampejos da Revolução Francesa. Foram esmagados. Mas lentamente a sociedade vai seguindo o caminho para onde eles a quiseram levar. O fracasso dos extremistas é, pois, apenas aparente. Eles colaboram indireta, mas possantemente, para a Revolução, atraindo paulatinamente para a realização de seus culposos e exacerbados devaneios a multidão incontável dos "prudentes", dos "moderados", e dos medíocres.
5. DESFAZENDO OBJEÇÕES
Vistas estas noções, apresenta-se a ocasião para desfazer algumas objeções que, antes disto, não poderiam ser adequadamente analisadas.
A. Revolucionários de pequena velocidade e "semi-contra-revolucionários"
O que distingue o revolucionário que seguiu o ritmo da marcha rápida, de quem se vai paulatinamente tornando tal segundo o ritmo da marcha lenta, está em que, quando o processo revolucionário teve início no primeiro, encontrou resistências nulas, ou quase nulas. A virtude e a verdade viviam nessa alma de uma vida de superfície. Eram como madeira seca, que qualquer fagulha pode incendiar. Pelo contrário, quando esse processo se opera lentamente, é porque a fagulha da Revolução encontrou, ao menos em parte, lenha verde. Em outros termos, encontrou muita verdade ou muita virtude que se mantêm infensas à ação do espírito revolucionário. Uma alma em tal situação fica bipartida, e vive de dois princípios opostos, o da Revolução e o da Ordem.

Da coexistência desses dois princípios, podem surgir situações bem diversas:

* a. “O revolucionário de pequena velocidade”: ele se deixa arrastar pela Revolução, à qual opõe apenas a resistência da inércia.

* b. “O revolucionário de velocidade lenta, mas com "coágulos" contra-revolucionários”. Também ele se deixa arrastar pela Revolução. Mas em algum ponto concreto recusa-a. Assim, por exemplo, será socialista em tudo, mas conservará o gosto das maneiras aristocráticas. Conforme o caso, ele chegará até mesmo a atacar a vulgaridade socialista. Trata-se de uma resistência, sem dúvida. Mas resistência em ponto de pormenor, que não remonta aos princípios, toda feita de hábitos e impressões. Resistência por isto mesmo sem maior alcance, que morrerá com o indivíduo, e que, se se der num grupo social, cedo ou tarde, pela violência ou pela persuasão, em uma geração ou algumas, a Revolução em seu curso inexorável desmantelará.


* c. “O "semi-contra-revolucionário"“ (cfr. Parte I, cap. IX): diferencia-se do anterior apenas pelo fato de que nele o processo de "coagulação" foi mais enérgico, e remontou até a zona dos princípios básicos. De alguns princípios, já se vê, e não de todos. Nele a reação contra a Revolução é mais pertinaz, mais viva. Constitui um obstáculo que não é só de inercia. Sua conversão a uma posição inteiramente contra-revolucionária é mais fácil, pelo menos em tese. Um excesso qualquer da Revolução pode determinar nele uma transformação cabal, uma cristalização de todas as tendências boas, numa atitude de firmeza inabalável. Enquanto esta feliz transformação não se der, o "semi-contra-revolucionário" não pode ser considerado um soldado da Contra-Revolução.

É característica do conformismo do revolucionário de marcha lenta, e do "semi-contra-revolucionário", a facilidade com que ambos aceitam as conquistas da Revolução. Afirmando a tese da união da Igreja e do Estado, por exemplo, vivem displicentemente no regime da hipótese, isto é, da separação, sem tentar qualquer esforço sério para que se torne possível restaurar algum dia em condições convenientes a união.


B. Monarquias protestantes -- Repúblicas católicas
Uma objeção que se poderia fazer a nossas teses consistiria em dizer que, se o movimento republicano universal é fruto do espírito protestante, não se compreende como no mundo só haja atualmente [quando o livro foi escrito, em 1958] um Rei católico, e tantos países protestantes se conservem monárquicos.

A explicação é simples. A Inglaterra, a Holanda e as nações nórdicas, por toda uma série de razões histórica, psicológicas etc., são muito afins com a monarquia. Penetrando nelas, a Revolução não conseguiu evitar que o sentimento monárquico "coagulasse". Assim, a realeza vem sobrevivendo obstinadamente nesses países, apesar de neles a Revolução ir penetrando cada vez mais a fundo em outros campos. "Sobrevivendo"..., sim, na medida em que morrer aos poucos pode ser chamado sobreviver. Pois a monarquia inglesa reduzida em larguíssima medida a um papel de aparato, e as demais realezas protestantes transformadas para quase todos os efeitos em repúblicas cujo é chefe vitalício e hereditário, vão agonizando suavemente, e, a continuarem assim as coisas, se extinguirão sem ruído.

Sem negar que outras causas contribuem para esta sobrevida, queremos, entretanto, pôr em evidência o fator --muito importante, aliás-- que se situa no âmbito de nossa exposição.

Pelo contrário, nas nações latinas, o amor a uma disciplina externa e visível, a um poder público forte e prestigioso, é --por muitas razões-- bem menor.

A Revolução não encontrou nelas, pois, um sentimento monárquico tão arraigado. Levou os tronos facilmente. Mas até agora não foi suficientemente forte para arrastar a Religião.
C. A austeridade protestante
Outra objeção a nosso trabalho poderia vir do fato de que certas seitas protestantes são de uma austeridade que toca as raias do exagero. Como, pois, explicar todo o protestantismo por uma explosão do desejo de gozar a vida?

Ainda aqui, a objeção não é difícil de resolver. Penetrando em certos ambiente, a Revolução encontrou muito vivaz o amor à austeridade. Assim, formou-se um "coágulo". E, se bem que ela aí tenha conseguido em matéria de orgulho todos os triunfos, não alcançou êxitos iguais em matéria de sensualidade. Em tais ambientes, goza-se a vida por meio dos discretos deleites do orgulho, e não pelas grosseiras delícias da carne. Pode até ser que a austeridade, acalentada pelo orgulho exacerbado, tenha reagido exageradamente contra a sensualidade. Mas essa reação, por mais obstinada que seja, é estéril: cedo ou tarde, por inanição ou pela violência, será destroçada pela Revolução. Pois não é de um puritanismo hirto, frio, mumificado, que pode partir o sopro de vida que regenerará a terra.


D. A frente única da Revolução
Tais "coagulações" e cristalizações conduzem normalmente ao entrechoque das forças da Revolução. Considerando-o, dir-se-ia que as potências do mal estão divididas contra si mesmas, e que é falsa nossa concepção unitária do processo revolucionário.

Ilusão. Por um instinto profundo, que mostra que são harmônicas em seus elementos essenciais, e contraditórias apenas em seus acidentes, têm essas forças uma espantosa capacidade de se unirem contra a Igreja Católica, sempre que se encontrem em face d'Ela.

Estéreis nos elementos bons que lhes restem, as forças revolucionárias só são realmente eficientes para o mal. E assim, cada qual ataca de seu lado a Igreja, que fica como uma cidade sitiada por um imenso exército.

Entre essas forças da Revolução, cumpre não omitir os católicos que professam a doutrina da Igreja mas estão dominados pelo espírito revolucionário. Mil vezes mais perigosos que os inimigos declarados, combatem a Cidade Santa dentro de seus próprios muros, e bem merecem o que deles disse Pio IX: "Embora os filhos do século sejam mais hábeis que os filhos da luz, seus ardis e suas violências teriam, sem dúvida, menor êxito se um grande número, entre aqueles que se intitulam católicos, não lhes entendesse mão amiga. Sim, infelizmente, há os que parecem querer caminhar de acordo com nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniqüidade por meio dessas doutrinas que se chamam católico-liberais, as quais, apoiando-se sobre os mais perniciosos princípios, adulam o poder civil quando ele invade as coisas espirituais, e impulsionam as almas ao respeito, ou ao menos à tolerâncias das leis mais iníquas. Como se absolutamente não estivesse escrito que ninguém pode servir a dois senhores. São eles muito mais perigosos certamente e mais funestos do que os inimigos declarados, não só porque lhes secundam os esforços, talvez sem o perceberem, como também porque, mantendo-se no extremo limite das opiniões condenadas, tomam uma aparência de integridade e de doutrina irrepreensível, aliciando os imprudentes amigos de conciliações e enganando as pessoas honestas, que se revoltariam contra um erro declarado. Por isso, eles dividem os espíritos, rasgam a unidade e enfraquecem as forças que seria necessário reunir contra o inimigo". (Carta ao Presidente e membros do Círculo Santo Ambrósio, de Milão, de 6-III-1873, apud "I Papi e la Gioventù", Editrice A.V.E., Roma, 1914, p. 36).


6. OS AGENTES DA REVOLUÇÃO: A MAÇONARIA E AS DEMAIS FORÇAS SECRETAS
Uma vez que estamos estudando as forças propulsoras da Revolução, convém que digamos uma palavra sobre os agentes desta.

Não acreditamos que o mero dinamismo das paixões e dos erros dos homens possa conjugar meios tão diversos, para a consecução de um único fim, isto é, a vitória da Revolução.

Produzir um processo tão coerente, tão contínuo, como o da Revolução, através das mil vicissitudes de séculos inteiros, cheios de imprevistos de toda ordem, nos parece impossível sem a ação de gerações sucessivas de conspiradores de uma inteligência e um poder extraordinários. Pensar que sem isto a Revolução teria chegado ao estado em que se encontra, é o mesmo que admitir que centenas de letras atiradas por uma janela poderiam dispor-se espontaneamente no chão, de maneira a formar uma obra qualquer, por exemplo, a "Ode a Satã", de Carducci.

As forças propulsoras da Revolução têm sido manipuladas até aqui por agentes sagacíssimos, que delas se têm servido como meios para realizar o processo revolucionário.

De modo geral, podem qualificar-se agentes da Revolução todas as seitas, de qualquer natureza, engendradas por ela, desde seu nascedouro até nossos dias, para a difusão do pensamento ou a articulação das tramas revolucionárias. Porém, a seita-mestra, em torno da qual todas se articulam como simples forças auxiliares --por vezes conscientemente, e outras vezes não-- é a Maçonaria, segundo claramente decorre dos documentos pontifícios, e especialmente da Encíclica "Humanum Genus" de Leão XIII, de 20 de abril de 1884 (Bonne Presse, Paris, vol. I, pp. 242 a 276).

O êxito que até aqui têm alcançado esses conspiradores, e particularmente a Maçonaria, devesse não só ao fato de possuírem incontestável capacidade de se articularem e conspirarem, mas também ao seu lúcido conhecimento do que seja a essência profunda da Revolução, e de como utilizar as leis naturais --falamos das da política, da sociologia, da psicologia, da arte, da economia, etc.-- para fazer progredir a realização de seus planos.

Nesse sentido os agentes do caos e da subversão fazem como o cientista, que em vez de agir por si só, estuda e põe em ação as forças, mil vezes mais poderosas, da natureza.

É o que, além de explicar em grande parte o êxito da Revolução, constitui importante indicação para os soldados da Contra-Revolução.



Capítulo VII

A Essência da Revolução
Descrita assim rapidamente a crise do Ocidente, é oportuno analisá-la.
1. A REVOLUÇÃO POR EXCELÊNCIA

Esse processo crítico de que nos vimos ocupando é, já o dissemos, uma Revolução.


A. Sentido da palavra "Revolução"

Damos a este vocábulo o sentido de um movimento que visa destruir um poder ou uma ordem legítima e pôr em seu lugar um estado de coisas (intencionalmente não queremos dizer uma ordem de coisas0 ou um poder ilegítimo.


B. Revolução cruenta e incruenta
Nesse sentido, a rigor, uma Revolução pode ser incruenta. Esta de que nos ocupamos se desenvolveu e continua a se desenvolver por toda sorte de meios alguns dos quais cruentos, e outros não. As duas guerras mundiais deste século, por exemplo, consideradas em suas conseqüências mais profundas, são capítulos dela, e dos mais sanguinolentos. Ao passo que, a legislação cada vez mais socialista de todos ou quase todos os povos hodiernos constitui um progresso importantíssimo e incruento da Revolução.
C. A amplitude desta Revolução
A Revolução tem derrubado muitas vezes autoridades legítimas, substituindo-as por outras sem qualquer título de legitimidade. Mas haveria engano em pensar que ela consiste apenas nisto. Seu objetivo principal não é a destruição destes ou daqueles direitos de pessoas ou famílias. Mais do que isto, ela quer destruir toda uma ordem de coisas legítima, e substituí-la por uma situação ilegítima. E "ordem de coisas" ainda não diz tudo. É uma visão do universo e um modo de ser do homem, que a Revolução pretende abolir, com o intuito de substituí-los por outros radicalmente contrários.
D. A Revolução por excelência
Neste sentido se compreende que esta Revolução não é apenas uma Revolução, mas é a Revolução.
E. A destruição da ordem por excelência
Com efeito, a ordem de coisas que vem sendo destruída é a Cristandade medieval. Ora, essa Cristandade não foi uma ordem qualquer, possível como seriam possíveis muitas outras ordens. Foi a realização, nas circunstâncias inerentes aos tempos e aos lugares, da única ordem verdadeira entre os homens, ou seja, a civilização cristã.

Na Encíclica "Immortale Dei", Leão XIII descreveu nestes termos a Cristandade medieval: "Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda a expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer" (Encíclica "Immortale Dei", de 1º-XI-1885 -- "Bonne Presse", Paris, vol. II, p. 39).

Assim, o que tem sido destruído, do século XV para cá, aquilo cuja destruição já está quase inteiramente consumada em nossos dias, é a disposição dos homens e das coisas segundo a doutrina da Igreja, Mestra da Revelação e da Lei Natural. Esta disposição é a ordem por excelência. O que se quer implantar é, “per diametrum”, o contrário disto. Portanto, a Revolução por excelência.

Sem dúvida, a presente Revolução teve precursores, e também prefiguras. Ario, Maomé, foram prefiguras de Lutero, por exemplo. Houve também utopistas em diferentes épocas, que conceberam, em sonhos, dias muito parecidos com os da Revolução. Houve por fim, em diversas ocasiões, povos ou grupos humanos que tentaram realizar um estado de coisas análogo às quimeras da Revolução.

Mas todos estes sonhos, todas essas prefiguras pouco ou nada são em confronto da Revolução em cujo processo vivemos. Esta, por seu radicalismo, por sua universalidade, por sua pujança, foi tão fundo e está chegando tão longe, que constitui algo de ímpar na História, e faz perguntar a muitos espíritos ponderados se realmente não chegamos aos tempos do Anticristo. De fato, parece que não estamos distantes, a julgar pelas palavras do Santo Padre João XXIII, gloriosamente reinante: "Nós vos dizemos, ademais, que, nesta hora terrível em que o espírito do mal busca todos os meios para destruir o Reino de Deus, devemos pôr em ação todas as energias para defendê-lo, se quereis evitar para vossa cidade ruínas imensamente maiores do que as acumuladas pelo terremoto de cinqüenta anos atrás. Quanto mais difícil seria então o reerguimento das almas, uma vez que tivessem sido separadas da Igreja ou submetidas como escravas às falsas ideologias do nosso tempo!" (Radiomensagem de 28-XII-1958, à População de Messina, no 50º aniversário do terremoto que destruiu essa cidade -- in "L'Osservatore Romano", edição hebdomadária em língua francesa, de 23-I-1959).
2. REVOLUÇÃO E LEGITIMIDADE
A. A legitimidade por excelência
Em geral, a noção de legitimidade tem sido focalizada apenas com relação a dinastias e governos. Atendidos os ensinamentos de Leão XIII na Encíclica "Au Milieu des Solicitudes", de 16 de fevereiro de 1892 ("Bonne Presse", Paris, vol. III, pp. 112 a 122) não se pode entretanto fazer tábua rasa da questão da legitimidade dinástica ou governamental, pois é questão moral gravíssima que as consciências retas devem considerar com toda a atenção.

Porém não é só este gênero de problemas que se aplica o conceito de legitimidade.

Há uma legitimidade mais alta, aquela que é a característica de toda ordem de coisas em que se torne efetiva a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, modelo e fonte de legitimidade de todas as realezas e poderes terrenos. Lutar pela autoridade legítima é um dever, e até um dever grave. Mas é preciso ver na legitimidade dos detentores da autoridade não só um bem excelente em si, mas um meio para atingir bem ainda muito maior, ou seja, a legitimidade de toda a ordem social, de todas as instituições e ambientes humanos, o que se dá com a disposição de todas as coisas segundo a doutrina da Igreja.
B. Cultura e civilização católica
O ideal da Contra-Revolução é, pois, restaurar e promover a cultura e a civilização católica. Essa temática não estaria suficientemente enunciada, se não contivesse uma definição do que entendemos por "cultura católica" e "civilização católica". Sabemos que os termos "civilização" e "cultura" são usados em muitos sentidos diversos. Bem se vê que não pretendemos aqui tomar posição em uma questão de terminologia. E que nos limitamos a usar esses vocábulos como rótulos de precisão relativa para mencionar certas realidade, mais preocupados em dar verdadeira idéia dessas realidade, do que em discutir sobre os termos.

Uma alma em estado de graça está na posse, em grau maior ou menor, de todas as virtudes. Iluminada pela fé, dispõe dos elementos para formar a única visão verdadeira do universo.

O elemento fundamental da cultura católica é a visão do universo elaborada segundo a doutrina da Igreja. Essa cultura compreende não só a instrução, isto é, a posse dos dados informativos necessários para uma elaboração, mas uma análise e uma coordenação desses dados conforme a doutrina católica. Ela não se cinge ao campo teológico, ou filosófico, ou científico, mas abrange todo o saber humano, reflete-se na arte e implica na afirmação de valores que impregnam todos os aspectos da existência.

Civilização católica é a estruturação de todas as relações humanas, de todas as instituições humanas, e do próprio Estado, segundo a doutrina da Igreja.


C. Caráter sacral da civilização católica
Está implícito que uma tal ordem de coisas é fundamentalmente sacral, e que ela importa no reconhecimento de todos os poderes da Santa Igreja, e particularmente do Sumo Pontífice: poder direto sobre as coisas espirituais, poder indireto sobre as coisas temporais, enquanto dizem respeito à salvação das almas.

Realmente, o fim da sociedade e do Estado é a vida virtuosa em comum. Ora, as virtudes que o homem é chamado a praticar são as virtudes cristãs, e destas a primeira é o amor a Deus. A sociedade e o Estado têm, pois, um fim sacral (cfr. Santo Tomás, "De Regimine Principum", I, 14 e 15).

Por certo é à Igreja que pertencem os meios próprios para promover a salvação das almas. Mas a sociedade e o Estado têm meios instrumentais para o mesmo fim, isto é, meios que, movidos por um agente mais alto, produzem efeito superior a si mesmos.
D. Cultura e civilização por excelência
De todos estes dados é fácil inferior que a cultura e a civilização católica são a cultura por excelência. É preciso acrescentar que não podem existir senão em povos católicos. Realmente, se bem que o homem possa conhecer os princípios da Lei Natural por sua própria razão, não pode um povo, sem o Magistério da Igreja, manter-se duravelmente no conhecimento de todos eles (cfr. Concílio Vaticano I, sess. III, cap. 2 -- D. 1786). E, por este motivo, um povo que não professe a verdadeira Religião não pode duravelmente praticar todos os Mandamentos (cfr. Concílio de Trento, sess. VI, cap. 2 -- D. 812). Nestas condições, e como sem o conhecimento e a observância da Lei de Deus não pode haver ordem cristã, a civilização e a cultura por excelência só são possíveis no grêmio da Santa Igreja. Com efeito, de acordo com o que disse São Pio X, a civilização "é tanto mais verdadeira, mais durável, mais fecunda em frutos preciosos, quanto mais puramente cristã; tanto mais decadente, para grande desgraça da sociedade, quanto mais se subtrai à idéia cristã. Por isto, pela força intrínseca das coisas, a Igreja torna-se também de fato a guardiã e protetora da civilização cristã" (Encíclica "Il Fermo Proposito", de 11-VI-1905 -- "Bonne Presse", Paris, vol. II, p. 92).
E. A ilegitimidade por excelência
Se nisto consistem a ordem e a legitimidade, facilmente se vê no que consiste a Revolução. Pois é o contrário dessa ordem. É a desordem e a ilegitimidade por excelência.
3. A REVOLUÇÃO, O ORGULHO E A SENSUALIDADE -- OS VALORES METAFÍSICOS DA REVOLUÇÃO
Duas noções concebidas como valores metafísicos exprimem bem o espírito da Revolução: a igualdade absoluta, liberdade completa. E duas são as paixões que mais a servem: o orgulho e a sensualidade.

Referindo-nos às paixões, cumpre esclarecer o sentido em que tomamos o vocábulo neste trabalho. Para maior brevidade, conformando-nos com o uso de vários autores espirituais, sempre que falamos das paixões como fautoras da Revolução, referimo-nos às paixões desordenadas. É, de acordo com a linguagem corrente, incluímos nas paixões desordenadas todos os impulsos ao pecado existentes no homem em conseqüência da tríplice concupiscência: a da carne, a dos olhos e a soberba da vida (cfr. 1 Jo. 2, 16).


A. Orgulho e Igualitarismo
A pessoa orgulhosa, sujeita à autoridade de outra, odeia primeiramente o jugo que em concreto pesa sobre ela.

Num segundo grau, o orgulhoso odeia genericamente todas as autoridades e todos os jugos, e mais ainda o próprio princípio de autoridade, considerado em abstrato.

E porque odeia toda autoridade, odeia também toda superioridade, de qualquer ordem que seja.

E nisto tudo há um verdadeiro ódio a Deus (cfr. Item "m" infra).

Este ódio a qualquer desigualdade tem ido tão longe que, movidas por ele, pessoas colocadas em alta situação a têm posto em grave risco e até perdido, só para não aceitar a superioridade de quem está mais alto.

Mais ainda. Num auge de virulência o orgulho poderia levar alguém a lutar pela anarquia, e a recusar o poder supremo que lhe fosse oferecido. Isto porque a simples existência desse poder traz implícita a afirmação do princípio de autoridade, a que todo o homem enquanto tal -- e o orgulhoso também -- poder ser sujeito.

O orgulho pode conduzir, assim, ao igualitarismo mais radical e completo.
São vários os aspectos desse igualitarismo radical e metafísico:

* a. “Igualdade entre os homens e Deus”: daí o panteísmo, o imanentismo e todas as formas esotéricas de religião, visando estabelecer um trato de igual a igual entre Deus e os homens, e tendo por objetivo saturar estes últimos de propriedades divinas. O ateu é um igualitário que, querendo evitar o absurdo que há em afirmar que o homem é Deus, cai em outro absurdo, afirmando que Deus não existe. O laicismo é uma forma de ateísmo, e portanto de igualitarismo. Ele afirma a impossibilidade de se ter certeza da existência de Deus. De onde, na esfera temporal, o homem deve agir como se Deus não existisse. Ou seja, como pessoa que destronou a Deus.

* b. “Igualdade na esfera eclesiástica”: supressão do sacerdócio dotado dos poderes de ordem, magistério e governo, ou pelo menos de um sacerdócio com graus hierárquicos.

* c. “Igualdade entre as diversas religiões”: todas as discriminações religiosas são antipáticas porque ofendem a fundamental igualdade entre os homens. Por isto, as diversas religiões devem ter tratamento rigorosamente igual. O pretender-se uma religião verdadeira com exclusão das outras é afirmar uma superioridade, é contrário à mansidão evangélica, e impolítico, pois lhe fecha o acesso aos corações.

* d. “Igualdade na esfera política”: supressão, ou pelo menos atenuação, da desigualdade entre governantes e governados. O poder não vem de Deus, mas da massa, que manda e à qual o governo deve obedecer. Proscrição da monarquia e da aristocracia como regimes intrinsecamente maus, por antiigualitários. Só a democracia é legítima, justa e evangélica (cfr. São Pio X, Carta Apostólica "Notre Charge Apostolique", de 25-VIII-1910 -- A. A. S., vol. II, pp. 615 a 619).

* e. “Igualdade na estrutura da sociedade”: supressão das classes, especialmente das que se perpetuam por via hereditária. Abolição de toda a influência aristocrática na direção da sociedade e no “tônus” geral da cultura e dos costumes. A hierarquia natural constituída pela superioridade do trabalho intelectual sobre o trabalho manual desaparecerá pela superação da distinção entre um e outro.

* f. “Abolição dos corpos intermediários” entre os indivíduos e o Estado, bem como dos privilégios que são elementos inerentes a cada corpo social. Por mais que a Revolução odeie o absolutismo régio, odeia mais ainda os corpos intermediários e a monarquia orgânica medieval. É que o absolutismo monárquico tende a pôr os súditos, mesmo os mais categorizados, num nível de recíproca igualdade, numa situação diminuída que já prenuncia a aniquilação do indivíduo e o anonimato que chegam ao auge nas grandes concentrações urbanas da sociedade socialista. Entre os grupos intermediários a serem abolidos, ocupa o primeiro lugar a família. Enquanto não consegue extingui-la, a Revolução procura reduzi-la, mutilá-la e vilipendiá-la de todos os modos.

* g. “Igualdade econômica”: nada pertence a ninguém, tudo pertence à coletividade. Supressão da propriedade privada, do direito de cada qual ao fruto integral de seu próprio trabalho e à escolha de sua profissão.

* h. “Igualdade nos aspectos exteriores da existência”: a variedade redunda facilmente em desigualdade de nível. Por isso, diminuição quanto possível da variedade nos trajes, nas residências, nos móveis, nos hábitos etc.

* i. “Igualdade de almas”: a propaganda como que padroniza todos as almas, tirando-lhes as peculiaridades, e quase a vida própria. Até as diferenças de psicologia e atitude entre sexos tendem a minguar o mais possível. Por tudo isto, desaparece o povo que é essencialmente uma grande família de almas diversas mas harmônicas, reunidas em torno do que lhes é comum. E surge a massa, com sua grande alma vazia, coletiva, escrava (cfr. Pio XII, Radiomensagem do Natal de 1944 -- "Discorsi e Radiomessaggi", vol. VI, p. 239).

* j. “Igualdade em todo o trato social”: como entre mais velhos e mais moços, patrões e empregados, professores e alunos, esposo e esposa, pais e filhos etc.

* k. “Igualdade na ordem internacional”: o Estado é constituído por um povo independente exercendo domínio pleno sobre um território. A soberania é, assim, no Direito Público, a imagem da propriedade. Admitida a a idéia de povo, com características que o diferenciam dos outros, e a de soberania, estamos forçosamente em presença de desigualdades: de capacidade, de virtude, de número etc. Admitida a idéia de território, temos a desigualdade quantitativa e qualitativa dos vários espaços territoriais. Compreende-se, pois, que a Revolução, fundamentalmente igualitária, sonhe em fundir todas as raças, todos os povos e todos os Estados em uma só raça, um só povo e um só Estado (cfr. Parte Igreja -- Cap. XI, 3).

* l. “Igualdade entre as diversas partes do país”: pelas mesmas razões, e por um mecanismo análogo, a Revolução tende a abolir no interior das pátrias ora existentes todo o sadio regionalismo político, cultural etc.

* m. “Igualitarismo e ódio a Deus”: Santo Tomás ensina (cfr. Contra Gentiles, II, 45; Suma Teológica, I, q. 47, a. 2) que a diversidade das criaturas e seu escalonamento hierárquico são um bem em si, pois assim melhor resplandecem na criação as perfeições do Criador. E diz que tanto entre os Anjos (cfr. Suma Teológica, I, q. 50, a. 4) quanto entre os homens, no Paraíso Terrestre como nesta terra de exílio (cfr. op. cit., I, q. 96, a. 3 e 4), a Providência instituiu a desigualdade. Por isso, um universo de criaturas iguais seria um mundo em que se teria eliminado em toda a medida do possível a semelhança entre criaturas e Criador. Odiar, em princípio, toda e qualquer desigualdade é, pois, colocar-se metafisicamente contra os melhores elementos de semelhança entre o Criador e a criação, é odiar a Deus.

* n. “Os limites da desigualdade”: claro está que de toda esta explanação doutrinária não se pode concluir que a desigualdade é sempre necessariamente um bem.

Os homens são todos iguais por natureza, e diversos apenas em seus acidentes. Os direitos que lhes vêm do simples fato de serem homens são iguais para todos: direito à vida, à honra, a condições de existência suficientes, ao trabalho, pois, e à propriedade, à constituição de família, e sobretudo ao conhecimento e prática da verdadeira Religião. E as desigualdades que atentem contra estes direitos são contrárias à ordem da Providência. Porém, dentro destes limites, as desigualdades provenientes de acidentes como a virtude, o talento, a beleza, a força, a família, a tradição etc., são justas e conformes à ordem do universo (cfr. Pio XII, Radiomensagem do Natal de 1944 -- "Discorsi e Radiomessaggi", vol. VI, p. 239).


B. Sensualidade e liberalismo
A par do orgulho gerador de todo o igualitarismo, a sensualidade, no mais largo sentido do termo, é causadora do liberalismo. É nestes tristes profundezas que se encontra a junção entre esses dois princípios metafísicos da Revolução, a igualdade e a liberdade, contraditórios em tantos pontos de vista.

* a. “A hierarquia na alma”: Deus, que imprimiu um cunho hierárquico em toda a criação, visível e invisível, fê-lo também na alma humana. A inteligência deve guiar a vontade, e esta deve governar a sensibilidade. Como conseqüência do pecado original, existe no homem um constante atrito entre os apetites sensíveis e a vontade guiada pela razão: "Vejo nos meus membros outra lei, que combate contra a lei da minha razão" (Rom. 7,23).

Mas a vontade, rainha reduzida a governar súditos postos em contínuas tentativas de revolta, tem meios de vencer sempre... desde que não resista à graça de Deus (cfr. Rom. 7,25).

* b. “O igualitarismo na alma”: o processo revolucionário, que visa o nivelamento geral, mas tantas vezes não tem sido senão a usurpação da função retriz por quem deveria obedecer, uma vez transposto para as relações entre potências da alma haveria de produzir a lamentável tirania de todas as paixões desenfreadas, sobre uma vontade débil e falida e uma inteligência obnubilada. Especialmente o domínio de uma sensualidade abrasada, sobre todos os sentimentos de recato e de pudor.

Quando a Revolução proclama a liberdade absoluta como um princípio metafísico, fá-lo unicamente para justificar o livre curso das piores paixões e dos erros mais funestos.

* c. “Igualitarismo e liberalismo”: a inversão de que falamos, isto é, o direito de pensar, sentir e fazer tudo quanto as paixões desenfreadas exigem, é a essência do liberalismo, isto bem se mostra nas formas mais exacerbadas da doutrina liberal. Analisando-as, percebe-se que o liberalismo pouco se importa com a liberdade para o bem. Só lhe interessa a liberdade para o mal. Quando no poder, ele facilmente, e até alegremente, tolhe ao bem a liberdade, em toda a medida do possível. Mas protege, favorece, prestigia, de muitas maneiras, a liberdade para o mal. No que se mostra oposto à civilização católica, que dá ao bem todo o apoio e toda a liberdade, e cerceia quanto possível o mal.

Ora, essa liberdade para o mal é precisamente a liberdade para o homem enquanto "revolucionário" em seu interior, isto é, enquanto consente na tirania das paixões sobre sua inteligência e sua vontade.

E assim o liberalismo é fruto da mesma árvore que o igualitarismo.

Aliás, o orgulho, enquanto gera o ódio a qualquer autoridade (cfr. item "A", supra), induz a uma atitude nitidamente liberal. E a este título deve ele ser considerado um fator ativo do liberalismo. Quando, porém, se deu conta de que, se deixarmos livres os homens, desiguais por suas aptidões e sua aplicação, a liberdade engendrará a desigualdade, a Revolução, por ódio a esta, deliberou sacrificar aquela. Daí nasceu sua fase socialista. Esta fase não constitui senão uma etapa. A Revolução espera, em seu termo final, realizar um estado de coisas em que a completa liberdade coexista com a plena igualdade.

Assim, historicamente, o movimento socialista é um mero requinte do movimento liberal. O que leva um liberal autêntico a aceitar o socialismo é precisamente que, neste, se proíbem tiranicamente mil coisas boas, ou pelo menos inocentes, mas se favorece a satisfação metódica, e por vezes com aspectos de austeridade, das piores e mais violentas paixões, como a inveja, a preguiça, a luxúria. E de outro lado, o liberal entrevê que a ampliação da autoridade no regime socialista não passa, dentro da lógica do sistema, de meio para chegar à tão almejada anarquia final.

Os entrechoques de certos liberais ingênuos ou retardados, com os socialistas, são, pois, meros episódios superficiais no processo revolucionário, inócuos “qui pro quo” que não perturbam a lógica profunda da Revolução, nem sua marcha inexorável num sentido que, bem vistas as coisas, é ao mesmo tempo socialista e liberal.

* d. “A geração do "rock and roll"“: o processo revolucionário nas almas, assim descrito, produziu nas gerações mais recentes, e especialmente nos adolescentes atuais que se hipnotizam com o "rock and roll", um feitio de espírito que se caracteriza pela espontaneidade das relações primárias, sem o controle da inteligência nem a participação efetiva da vontade; pelo predomínio da fantasia e das "vivências" sobre a análise metódica da realidade: fruto, tudo, em larga medida, de uma pedagogia que reduz que quase nada o papel da lógica e da verdadeira formação da vontade.

* e. “Igualitarismo, liberalismo e anarquismo”: conforme os itens anteriores ("a" a "d"), a efervescência das paixões desregradas, se desperta de um lado o ódio a qualquer freio e qualquer lei, de outro lado provoca o ódio contra qualquer desigualdade. Tal efervescência conduz assim à concepção utópica do "anarquismo" marxista, segundo a qual uma humanidade evoluída, vivendo numa sociedade sem classes nem governo, poderia gozar da ordem perfeita e da mais inteira liberdade, sem que desta se originasse qualquer desigualdade. Como se vê, o ideal simultaneamente mais liberal e mais igualitário que se possa imaginar.

Com efeito, a utopia anárquica do marxismo consiste em um estado de coisas em que a personalidade humana teria alcançado um alto grau de progresso, de tal maneira que lhe seria possível desenvolver-se livremente numa sociedade sem Estado nem governo.

Nessa sociedade -- que, apesar de não ter governo, viveria em plena ordem -- a produção econômica estaria organizada e muito desenvolvida, e a distinção entre trabalho intelectual e manual estaria superada. Um processo seletivo ainda não determinado levaria à direção da economia os mais capazes, sem que daí decorresse a formação de classes.

Estes seriam os únicos e insignificantes resíduos de desigualdade. Mas, como essa sociedade comunista anárquica não é o termo final da História, parece legítimo supor que tais resíduos seriam abolidos em ulterior evolução.



Capítulo VIII

A Inteligência, a Vontade e a Sensibilidade, na Determinação dos Atos Humanos
As anteriores considerações pedem um desenvolvimento quanto ao papel da inteligência, da vontade e da sensibilidade, nas relações entre erro e paixão.

Poderia parecer, com efeito, que afirmamos que todo erro é concebido pela inteligência para justificar alguma paixão desregrada. Assim, o moralista que afirmasse uma máxima liberal seria sempre movido por uma tendência liberal.

Não é o que pensamos. Pode suceder que unicamente por fraqueza da inteligência atingida pelo pecado original, o moralista chegue a uma conclusão liberal.

Em tal caso terá havido necessariamente alguma falta moral de outra natureza, o descuido, por exemplo? É questão alheia a nosso estudo.

Afirmamos, isto sim, que, historicamente, esta Revolução, teve sua primeira origem em uma violentíssima fermentação de paixões. E estamos longe de negar o grande papel dos erros doutrinários nesse processo.

Muitos têm sido os estudos de autores de grande valor, como de Maistre, de Bonald, Donoso Cortes e tantos outos, sobre tais erros e o modo por que foram eles derivando uns dos outros, do século XV ao século XVI, e assim por diante até o século XX. Não é, pois, nossa intenção insistir aqui sobre o assunto.

Parece-nos, entretanto, particularmente oportuno focalizar a importância dos fatores "passionais" e a influência destes nos aspectos estritamente ideológicos do processo revolucionário em que nos achamos. Pois, a nosso ver, as atenções estão pouco voltadas para este ponto, o que traz uma visão incompleta da Revolução, e acarreta em conseqüência a adoção de métodos contra-revolucionários inadequados.

Sobre o modo por que as paixões podem influir nas idéias, há algo a acrescentar aqui.


1. A NATUREZA DECAÔDA, A GRAÇA E O LIVRE ARBÔTRIO
O homem, pelas simples forças de sua natureza, pode conhecer muitas verdades e praticar várias virtudes. Entretanto, não lhe é possível, sem o auxílio da graça, permanecer no conhecimento e na prática de todos os Mandamentos (cfr. Parte Igreja -- Cap. VII, 2, D).

Isto quer dizer que em todo homem decaído há sempre a debilidade da inteligência e uma tendência primeira, e anterior a qualquer raciocínio, que o incita a revoltar-se contra a Lei (Donoso Cortes, in "Ensayo sobre el Catolicismo, el Liberalismo y el Socialismo" -- "Obras completas", B. A. C., Madrid, 1946, tomo II, p. 377 -- dá um importante desenvolvimento dessa verdade, o qual se muito se relaciona com o presente trabalho).


2. O GERME DA REVOLUÇÃO
Tal tendência fundamental à revolta pode, em dado momento, ter o consentimento do livre arbítrio. O homem decaído peca, assim, violando um ou outro Mandamento. Mas suas revolta pode ir além, e chegar até o ódio, mais ou menos inconfessado, à própria ordem moral em seu conjunto. Esse ódio, revolucionário por essência, pode gerar erros doutrinários, e até levar à profissão consciente e explícita de princípios contrários à Lei moral e à doutrina revelada, enquanto tais, o que constitui um pecado contra o Espírito Santo. Quando esse ódio começou a dirigir as tendências mais profundas da História do Ocidente, teve início a Revolução cujo processo hoje se desenrola e em cujos erros doutrinários ele imprimiu vigorosamente sua marca. Ele é a causa mais ativa da grande apostasia hodierna. Por sua natureza, é ele algo que não pode ser reduzido simplesmente a um sistema doutrinário: é a paixão desregrada, em altíssimo grau de exacerbação.

Como é fácil ver, tal afirmação, relativa a esta Revolução em concreto, não implica em dizer que há sempre uma paixão desordenada na raiz de todo erro.

E nem implica em negar que muitas vezes foi um erro que desencadeou nesta ou naquela alma, ou mesmo neste ou naquele grupo social, o desregramento das paixões.

Afirmamos tão somente que o processo revolucionário, considerado em seu conjunto, e também em seus principais episódios, teve por germe mais ativo e profundo o desregramento das paixões.


3. REVOLUÇÃO E M­ FÉ
Poder-se-ia talvez opor a seguinte objeção: se tal é a importância das paixões no processo revolucionário, parece que a vítima deste está sempre, em alguma medida, pelo menos, de má fé. Se o protestantismo, por exemplo, é filho da Revolução, está de má fé todo protestante? Não colide isto com a doutrina da Igreja que admite que haja, em outras religiões, almas de boa fé?

É óbvio que uma pessoa de inteira boa fé, e dotada de um espírito fundamentalmente contra-revolucionário, pode estar presa nas malhas dos sofismas revolucionários (sejam de índole religiosa, filosófica, política, ou outra qualquer) por uma ignorância invencível. Em pessoas assim não há qualquer culpa.

“Mutatis mutandis”, pode-se dizer o mesmo quanto às que têm a doutrina da Revolução num ou noutro ponto restrito, por um lapso involuntário da inteligência.

Mas se alguém participa do espírito da Revolução movido pelas paixões desregradas inerentes a ela, a resposta tem de ser outra.

Pode um revolucionário nestas condições estar persuadido das excelências das suas máximas subversivas. Ele não será portanto insincero. Mas terá culpa pelo erro em que caiu.

E pode também acontecer que o revolucionário professe uma doutrina da qual não esteja persuadido, ou da qual tenha uma convicção incompleta.

Será, neste caso, parcial ou totalmente insincero...

Parece-nos que, a este propósito, quase não seria necessário acentuar que, quando afirmamos que as doutrinas de Marx estavam implícitas nas negações da Pseudo-Reforma e da Revolução Francesa, não queremos com isto dizer que os adeptos daqueles dois movimentos eram, conscientemente, marxistas "avant la lettre", e que ocultavam hipocritamente suas opiniões.

O próprio da virtude cristã é a reta disposição das potências da alma e, pois, o incremento da lucidez da inteligência iluminada pela graça e guiada pelo Magistério da Igreja. Não é por outra razão que todo o Santo é um modelo de equilíbrio e de imparcialidade. A objetividade de seus juízos e a firme orientação de sua vontade para o bem não são debilitados, nem de leve, pelo bafo venenoso das paixões desregradas.

Pelo contrário, à medida que o homem decai na virtude e se entrega ao jugo dessas paixões, vai minguando nele a objetividade em tudo quanto com as mesmas se relacione. De modo particular, essa objetividade fica perturbada quanto aos julgamentos que o homem formule sobre si mesmo.

Até que ponto um revolucionário "de marcha lenta" do século XVI ou do século XVIII, obnubilado pelo espírito da Revolução se dava conta do sentido profundo e das últimas conseqüências de sua doutrina, é em cada caso concreto o segredo de Deus.

De qualquer forma, a hipótese de que fossem todos eles marxistas conscientes é de se excluir inteiramente.



Capítulo IX

Também é filho da Revolução o "Semi-Contra-Revolucionário"
Tudo quanto aqui se disse dá fundamento a uma observação de importância prática.

Espíritos marcados por essa Revolução interior poderão talvez, por um jogo qualquer de circunstâncias e de coincidência, como uma educação em meio fortemente tradicionalista e moralizado, conservar em um ou muitos pontos uma atitude contra-revolucionária (cfr. Parte Igreja -- Cap. VI, 5, A).

Sem embargo, na mentalidade destes "semi-contra-revolucionários" se terá entronizado o espírito da Revolução. E num povo onde a maioria esteja em tal estado de alma, a Revolução será incoercível enquanto este não mudar.

Assim, a unidade da Revolução trás, como contrapartida, que o contra-revolucionário autêntico só poderá ser total.

Quanto aos "semi-contra-revolucionários" em cuja alma começa a vacilar o ídolo da Revolução, a situação é algum tanto diversa. Tratamos do assunto na Parte II -- Cap. XII, 10.

Capítulo X

A Cultura, a Arte e os Ambientes, na Revolução
Assim descrita a complexidade e amplitude que o processo revolucionário tem nas camadas mais profundas das almas, e portanto da mentalidade dos povos, é mais fácil apontar toda a importância da cultura, das artes e dos ambientes na marcha da Revolução.
I. A CULTURA
As idéias revolucionárias fornecem às tendências de que nasceram o meio de se afirmarem com foros de cidadania, aos olhos do próprio indivíduo e de terceiros. Elas servem ao revolucionário para abalar nestes últimos as convicções verdadeiras, e para assim desencadear ou agravar neles a revolta das paixões. Elas são inspiração e molde para as instituições geradas pela Revolução. Essas idéias podem encontrar-se nos mais variados ramos do saber ou da cultura, pois é difícil que algum deles não esteja implicado, pelo menos indiretamente, na luta entre a Revolução e a Contra-Revolução.
2. AS ARTES
Quanto às artes, como Deus estabeleceu misteriosas e admiráveis relações entre certas formas, cores, sons, perfumes, sabores, e certos estados de alma, é claro que por estes meios se podem influenciar a fundo as mentalidades e induzir pessoas, famílias e povos à formação de um estado de espírito profundamente revolucionário. Basta lembrar a analogia entre o espírito da Revolução Francesa e as modas que durante ela surgiram. Ou entre as efervescências revolucionárias de hoje e as presentes extravagâncias das modas e das escolas artísticas avançadas.
3. OS AMBIENTES
Quanto aos ambientes na medida em que favorecem costumes bons ou maus, podem opor à Revolução as admiráveis barreiras de reação, ou pelo menos de inércia, de tudo quanto é sadiamente consuetudinário; ou podem comunicar às almas as toxinas e energias do espírito revolucionário.
4. PAPEL HISTÓRICO DAS ARTES E DOS AMBIENTES NO PROCESSO REVOLUCIONÁRIO
Por isto, em concreto, é necessário reconhecer que a democratização geral dos costumes e dos estilos de vida, levado aos extremos de uma vulgaridade sistemática e crescente, e a ação proletarizante de certa arte moderna, contribuíram para o triunfo do igualitarismo tanto ou mais do que a implantação de certas leis, ou de certas instituições essencialmente políticas.

Como também é preciso reconhecer que quem, por exemplo, conseguisse fazer cessar o cinema ou a televisão imorais ou agnósticos teria feito pela Contra-Revolução muito mais do que se provocasse a queda de um gabinete esquerdista, na rotina de um regime parlamentar.



Capítulo XI

A Revolução, o Pecado e a Redenção -- A Utopia Revolucionária
Dentre os múltiplos aspectos da Revolução, é importante ressaltar que ela induz seus filhos a subestimarem ou negarem as noções de bem e mal, de pecado original e de Redenção.
1. A REVOLUÇÃO NEGA O PECADO E A REDENÇÃO
A Revolução é, como vimos, filha do pecado. Mas, se ela o reconhecesse, desmascarar-se-ia e se voltaria contra sua própria causa.

Explica-se, assim, porque a Revolução tende, não só para o passar sob silêncio a raiz de pecado da qual brotou, mas a negar a própria noção de pecado. Negação radical, que inclui tanto a culpa original quanto a atual, e se efetua principalmente:


Por sistema filosóficos ou jurídicos que negam a validade e a existência de qualquer Lei moral ou dão a esta os fundamentos vãos e ridículos do laicismo.
Pelos mil processos de propaganda que criam nas multidões um estado de alma em que, sem se afirmar diretamente que a moral não existe, se faz abstração dela, e toda a veneração devida à virtude é tributada a ídolos como o ouro, o trabalho, a eficiência, o êxito, a segurança, a saúde, a beleza física, a força muscular, o gozo dos sentidos etc.

É a própria noção de pecado, a distância mesma entre o bem e o mal, que a Revolução vai destruindo no homem contemporâneo. E, “ipso facto”, vai ela negando a Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sem o pecado, se torna incompreensível e perde qualquer relação lógica com a História e a vida.


2. EXEMPLIFICAÇÃO HISTÓRICA: NEGAÇÃO DO PECADO NO LIBERALISMO E NO SOCIALISMO
Em cada uma de suas etapas, a Revolução tem procurado subestimar ou negar radicalmente o pecado.
A. A conceição imaculada do indivíduo
Na fase liberal e individualista, ela ensinou que o homem é dotado de uma razão infalível, de uma vontade forte e de paixões sem desregramentos. Daí uma concepção da ordem humana, em que o indivíduo, reputado um entre perfeito, era tudo, e o Estado nada, ou quase nada, um mal necessário... provisoriamente necessário, talvez. Foi o período em que se pensava que a causa única de todos os erros e crimes era a ignorância. Abrir escolas era fechar prisões. O dogma básico destas ilusões foi a conceição imaculada do indivíduo.

A grande arma do liberal, para se defender contra as possíveis prepotências do Estado, e para impedir a formação de camarilhas que lhe atirassem a direção da coisa pública, eram as liberdades políticas e o sufrágio universal.


B. A conceição imaculada das massas e do Estado
Já no século passado, o desacerto desta concepção se tornara patente, pelo menos em parte. Mas a Revolução não recuou. Em vez de reconhecer seu erro, ela o substituiu por outro. Foi a conceição imaculada das massas e do Estado. Os indivíduos são propensos ao egoísmo e podem errar. Mas as massas acertam sempre, e jamais se deixam levar pelas paixões. Seu impecável meio de ação é o Estado. Seu infalível meio de expressão, o sufrágio universal, do qual decorrem os parlamentos impregnados de pensamento socialista, ou a vontade forte de um ditador carismático, que guia sempre as massas para a realização da vontade delas.
3. A REDENÇÃO PELA CIÊNCIA E PELA TÉCNICA: A UTOPIA REVOLUCIONÁRIA
De qualquer maneira, depositando toda a sua confiança no indivíduo considerado isoladamente, nas massas, ou no Estado, é no homem que a Revolução confia. Auto-suficiente pela ciência e pela técnica, pode ele resolver todos os seus problemas, eliminar a dor, a pobreza, a ignorância, a insegurança, enfim tudo aquilo a que chamamos efeito do pecado original ou atual.

Um mundo em cujo seio as pátrias unificadas numa República Universal não sejam senão denominações geográficas, um mundo sem desigualdades sociais nem econômicas, dirigido pela ciência e pela técnica, pela propaganda e pela psicologia, para realizar, sem o sobrenatural, a felicidade definitiva do homem: eis a utopia para a qual a Revolução nos vai encaminhando.

Nesse mundo, a Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo nada tem a fazer. Pois o homem terá superado o mal pela ciência e terá transformado a terra em um "céu" tecnicamente delicioso. E pelo prolongamento indefinido da vida esperará vencer um dia a morte.

Capítulo XII

Caráter Pacifista e Antimilitarista da Revolução
O exposto no capítulo anterior nos faz compreender facilmente o caráter pacifista, e portanto antimilitarista da Revolução.
1. A CIÊNCIA ABOLIRÁ AS GUERRAS, AS FORÇAS ARMADAS E A POLÍCIA
No paraíso técnico da Revolução, a paz tem de ser perpétua. Pois a ciência demonstra que a guerra é um mal. E a técnica consegue evitar todas as causas das guerras.

Daí uma incompatibilidade fundamental entre a Revolução e as forças armadas, que deverão ser inteiramente abolidas. Na República Universal haverá apenas uma polícia, enquanto os progressos da ciência e da técnica não acabarem de eliminar o crime.


2. INCOMPATIBILIDADE DOUTRINÁRIA ENTRE A REVOLUÇÃO E A FARDA
A farda, por sua simples presença, afirma implicitamente algumas verdades, um tanto genéricas, sem dúvida, mas de índole certamente contra-revolucionária:

-- A existência de valores que são mais que a vida e pelos quais se deve morrer, -- o que é contrário à mentalidade socialista, toda feita de horror ao risco e à dor, de adoração da segurança, e do supremo apego à vida terrena.



-- A existência de uma moral, pois a condição militar é toda ela fundada sobre idéias de honra, de força posta ao serviço do bem e voltada contra o mal etc.
3. O "TEMPERAMENTO" DA REVOLUÇÃO É INFENSO À VIDA MILITAR
Por fim, entre a Revolução e o espírito militar há uma antipatia "temperamental". A Revolução, enquanto não tem todas as rédeas na mão, é verbosa, enredadeira, declamatória. Resolver as coisas diretamente, drasticamente, secamente "more militari", desagrada o que poderíamos chamar o atual temperamento da Revolução. "Atual", frisamos, para aludir a esta no estágio em que se encontra entre nós. Pois nada há de mais despótico e cruel do que a Revolução quando é onipotente: a Rússia dá disto um eloqüente exemplo. Mas ainda aí a divergência subsiste, posto que o espírito militar é coisa bem diferente do espírito de carrasco.
* * *
Analisada assim em seus aspectos a utopia revolucionária, damos por concluído o estudo da Revolução.



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