Revolução e Contra-Revolução



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Parte II
Capítulo I
Contra-Revolução é Reação
I. A CONTRA-REVOLUÇÃO, LUTA ESPECÍFICA E DIRETA CONTRA A REVOLUÇÃO
Se tal é a Revolução, a Contra-Revolução é, no sentido literal da palavra, despido das conexões ilegítimas e mais ou menos demagógicas que a ela se juntaram na linguagem corrente, uma "re-ação". Isto é, uma ação que é dirigida contra outra ação. Ela está para a Revolução como, por exemplo, a Contra-Reforma está para a Pseudo-Reforma.
2. NOBREZA DESSA REAÇÃO
E deste caráter de reação vem à Contra-Revolução sua nobreza e sua importância. Com efeito, se é a Revolução que nos vai matando, nada é mais indispensável do que uma reação que vise esmagá-la. Ser infenso, em principio, a uma reação contra-revolucionária é o mesmo que querer entregar o mundo ao domínio da Revolução.
3. REAÇÃO VOLTADA TAMBÉM CONTRA OS ADVERSÁRIOS DE HOJE
Importa acrescentar que a Contra Revolução, assim vista, não é nem pode ser um movimento nas nuvens, que combata fantasmas. Ela tem de ser a Contra-Revolução do século XX, feita contra a Revolução como hoje em concreto esta existe e, pois, contra as paixões revolucionarias como hoje crepitam, contra as idéias revolucionárias como hoje se formulam, os ambientes revolucionários como hoje se apresentam, a arte a a cultura revolucionárias como hoje são, as correntes e os homens que, em qualquer nível, são atualmente os fautores mais ativos da Revolução. A Contra-Revolução não é, pois, um mero retrospecto dos malefícios da Revolução no passado, mas um esforço para lhe cortar o caminho no presente.
4. MODERNIDADE E INTEGRIDADE DA CONTRA-REVOLUÇÃO
A modernidade da Contra-Revolução não consiste em fechar os olhos nem em pactuar, ainda que em proporções insignificantes, com a Revolução. Pelo contrario, consiste em conhecê-la em sua essência invariável e em seus tão relevantes acidentes contemporâneos, combatendo-a nestes e naquela, inteligentemente, argutamente, planejadamente, com todos os meios lícitos, e utilizando o concurso de todos os filhos da luz.

Capítulo II

Reação e Imobilismo histórico
1. O QUE RESTAURAR
Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da Ordem. E por Ordem entendemos a paz de Cristo no reino de Cristo. Ou seja, a civilização cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, antiigualitária e antiliberal.
2. O QUE INOVAR
Entretanto, por força da lei histórica segundo a qual o imobilismo não existe nas coisas terrenas, a Ordem nascida da Contra-Revolução deverá ter características próprias que a diversifiquem da Ordem existente antes da Revolução. Claro está que esta afirmação não se refere aos princípios, mas aos acidentes. Acidentes, entretanto, de tal importância, que merecem ser mencionados.

Na impossibilidade de nos estendermos sobre este assunto, digamos simplesmente que, em geral, quando num organismo se opera uma fratura ou dilaceração, a zona de soldadura ou recomposição apresenta dispositivos de proteção especiais. É, pelas causas segundas, o desvelo amoroso da Providencia contra a eventualidade de novo desastre. Observa-se isto com os ossos fraturados, cuja soldadura se constitui à maneira de reforço na própria zona de fratura, ou com os tecidos cicatrizados. Esta é uma imagem material de fato análogo que se passa na ordem espiritual. O pecador que verdadeiramente se emenda tem ao pecado, em via de regra, horror maior do que teve nos melhores anos anteriores à queda. É a historia dos Santos penitentes. Assim também, depois de cada prova, a Igreja emerge particularmente armada contra o mal que procurou prostrá-La. Exemplo típico disto é a Contra-Reforma.

Em virtude dessa lei, a Ordem nascida da Contra-Revolução deverá refulgir, mais ainda do que a da Idade Media, nos três pontos capitais em que esta foi vulnerada pela Revolução:

* Um profundo respeito dos direitos da Igreja e do Papado e uma sacralização, em toda a extensão do possível, dos valores de vida temporal, tudo por oposição ao laicismo, ao interconfessionalismo, ao ateísmo e ao panteísmo, bem como a suas respectivas seqüelas.

* Um espirito de hierarquia, marcando todos os aspectos da sociedade e do Estado, da cultura e da vida, por oposição à metafísica igualitária da Revolução.

* Uma diligencia no detectar e no combater o mal em suas formas embrionárias ou veladas, em fulminá-lo com execração e nota de infâmia, e em puni-lo com inquebrantável firmeza em todas as suas manifestações, e particularmente nas que atentarem contra a ortodoxia e a pureza dos costumes, tudo por oposição à metafísica liberal da Revolução e à tendência desta a dar livre curso e proteção ao mal.


Capítulo III

A Contra-Revolução e o Prurido de Novidades
A tendência de tantos de nossos contemporâneos, filhos da Revolução, de amar sem restrições o presente, adorar o futuro e votar incondicionalmente o passado ao desprezo e ao ódio, suscita a respeito da Contra-Revolução um conjunto de incompreensões que importa fazer cessar. Sobretudo, afigura-se a muitas pessoas que o caráter tradicionalista e conservador desta ultima faz dela uma adversaria nata do progresso humano.
1. A CONTRA-REVOLUÇÃO É TRADICIONALISTA
A. Razão
A Contra-Revolução, como vimos, é um esforço que se desenvolve em função de uma Revolução. Esta se volta constantemente contra todo um legado de instituições, de doutrinas, de costumes, de modos de ver, sentir e pensar cristãos que recebemos de nossos maiores, e que ainda não estão completamente abolidos. A Contra-Revolução é, pois, a defensora das tradições cristãs.
B. A mecha que ainda fumega
A Revolução ataca a civilização cristã mais ou menos como certa arvore da floresta brasileira, a figueira brava ("urostigma olearia"), que, crescendo no tronco de outra, a envolve completamente e mata. Em suas correntes "moderadas" e de velocidade lenta, acercou-se a Revolução da civilização cristã para envolvê-la de todo e matá-la. Estamos num período em que esse estranho fenômeno de destruição ainda não se completou, isto é, numa situação híbrida em que aquilo a que quase chamaríamos restos mortais da civilização cristã, somado ao perfume a à ação remota de muitas tradições, só recentemente abolidas, mas que ainda têm alguma coisa de vivo na memória dos homens, coexiste com muitas instituições e costumes revolucionários.

Em face dessa luta entre uma esplendida tradição cristão em que ainda palpita a vida, e uma ação revolucionaria inspirada pela mania de novidades a que se referia Leão XIII, nas palavras iniciais da Encíclica "Rerum Novarum", é natural que o verdadeiro contra-revolucionário seja o defensor nato do tesouro das boas tradições, porque elas são os valores do passado cristão ainda existentes e que se trata exatamente de salvar. Nesse sentido, o contra-revolucionário atua como Nosso Senhor, que não veio apagar a mecha que ainda fumega, nem romper o arbusto partido (cfr. Mt. 12,20). Deve ele, portanto, procurar salvar amorosamente todas essas tradições cristãs. Uma ação contra-revolucionária é, essencialmente, uma ação tradicionalista.


C. Falso tradicionalismo
O espirito tradicionalista da Contra-Revolução nada tem de comum com um falso e estreito tradicionalismo que conserva certos ritos, estilos ou costumes por mero amor às formas antigas e sem qualquer apreço pela doutrina que os gerou. Isto seria arqueologismo, não sadio e vivo tradicionalismo.
2. A CONTRA-REVOLUÇÃO É CONSERVADORA
A Contra-Revolução é conservadora? Em um sentido, sim, e profundamente. E em outro sentido, não, também profundamente.

Se se trata de conservar, do presente, algo que é bom e merece viver, a Contra-Revolução é conservadora.

Mas se se trata de perpetuar a situação híbrida em que nos encontramos, de sustar o processo revolucionário nesta etapa, mantendo-nos imóveis como uma estatua de sal, à margem do caminho da Historia e do Tempo, abraçados ao que há de bom e de mau em nosso século, procurando assim uma coexistência perpetua e harmônica do bem e do mal, a Contra-Revolução não é nem pode ser conservadora.
3. A CONTRA-REVOLUÇÃO É CONDIÇÃO ESSENCIAL DO VERDADEIRO PROGRESSO
A Contra-Revolução é progressista? Sim, se o progresso for autentico. E não, se for a marcha para a realização da utopia revolucionaria.

Em seu aspecto material, consiste o verdadeiro progresso no reto aproveitamento das forças da natureza, segundo a Lei de Deus e a serviço do homem. Por isso, a Contra-Revolução não pactua com o tecnicismo hipertrofiado de hoje, com a adoração das novidades, das velocidades e das maquinas, nem com a deplorável tendência a organizar "more mechanico" a sociedade humana. Estes são excessos que Pio XII condenou com profundidade e precisão (cfr. Radiomensagem de Natal de 1957 -- "Discorsi e Radiomessaggi", vol. XIX, p. 670).

E nem é o progresso material de um povo o elemento capital do progresso cristãmente entendido. Consiste este, sobretudo, no pleno desenvolvimento de todas as suas potências de alma, e na ascensão dos homens rumo à perfeição moral. Um concepção contra-revolucionária do progresso importa, pois, na prevalência dos aspectos espirituais deste sobre os aspectos materiais. Em conseqüência, é próprio à Contra-Revolução promover, entre os indivíduos e as multidões, um apreço muito maior por tudo quanto diz respeito à Religião verdadeira, à verdadeira filosofia, à verdadeira arte e à verdadeira literatura, do que pelo que se relaciona com o bem do corpo e o aproveitamento da matéria.

Por fim, para demarcar a diferença entre os conceitos revolucionário e contra-revolucionário de progresso, importa notar que o ultimo toma em consideração que este mundo será sempre um vale de lágrimas e uma passagem para o Céu, ao passo que para o primeiro o progresso deve fazer da terra um paraíso no qual o homem viva feliz, sem cogitar da eternidade.

Pela própria noção de reto progresso, vê-se que este tem por contrario o processo da Revolução.

Assim, a Contra-Revolução é condição essencial para que seja preservado o desenvolvimento normal do verdadeiro progresso, e derrotada a utopia revolucionaria, que de progresso só tem aparências falaciosas.



Capítulo IV

O que é um contra-revolucionário?
Pode-se responder à pergunta em epígrafe de duas maneiras:
1. EM ESTADO ATUAL
Em estado atual, contra-revolucionário é quem:

-- Conhece a Revolução, a Ordem e a Contra-Revolução em seu espirito, suas doutrinas, seus métodos respectivos.

-- Ama a Contra-Revolução e a Ordem cristã, odeia a Revolução e a "anti-ordem".

-- Faz desse amor e desse ódio o eixo em torno do qual gravitam todos os seus ideais, preferências e atividades.

Claro está que essa atitude de alma não exige instrução superior. Assim como Santa Joana D'Arc não era teólogo mas surpreendeu seus juizes pela profundidade teológica de seus pensamentos, assim os melhores soldados da Contra-Revolução, animados por uma admirável compreensão do seu espirito e dos seus objetivos, têm sido muitas vezes simples camponeses, da Navarra, por exemplo, da Vandéa ou do Tirol.
2. EM ESTADO POTENCIAL
Em estado potencial, contra-revolucionários são os que têm uma ou outra das opiniões e dos modos de sentir dos revolucionários, por inadvertência ou qualquer outra razão ocasional, e sem que o próprio fundo de sua personalidade esteja afetado pelo espirito da Revolução. Alertadas, esclarecidas, orientadas, essas pessoas adotam facilmente uma posição contra-revolucionária. E nisto se distinguem dos "semi-contra-revolucionários" de que atrás falávamos (Parte I -- Cap. IX).

Capítulo V

A Tática da Contra-Revolução
A Tática da Contra-Revolução pode ser considerada em pessoas, grupos, ou correntes de opinião, em função de três tipos de mentalidade: o contra-revolucionário potencial e o revolucionário.
1. EM RELAÇÃO AO CONTRA-REVOLUCIONÁRIO ATUAL
O contra-revolucionário atual é menos raro do que nos parece à primeira vista. Possui ele uma clara visão das coisas, um amor fundamental à coerência e um animo forte. Por isto tem uma noção lúcida das desordens do mundo contemporâneo e das catástrofes que se acumulam no horizonte. Mas sua própria lucidez lhe faz perceber toda a extensão do isolamento em que tão freqüentemente se encontra, num caos que lhe parece sem solução. Então o contra-revolucionário, muitas vezes, se cala, abatido. Triste situação: "Vae soli", diz a Escritura (Ecle. 4,10).

Uma ação contra-revolucionária deve ter em vista, antes de tudo, detectar esses elementos, fazer com que se conheçam, com que se apoiem uns aos outros para a profissão publica de suas convicções. Ela pode realizar-se de dois modos diversos:


A. Ação individual
Esta ação deve ser feita antes de tudo na escala individual. Nada mais eficiente que a tomada de posição contra-revolucionária franca e ufana de um jovem universitário, de um oficial, de um professor, de um Sacerdote sobretudo, de um aristocrata ou um operário influente em seu meio. A primeira reação que obterá será por vezes de indignação. Mas se perseverar por um tempo que será mais longo, ou menos, conforme as circunstancias, verá, pouco a pouco, aparecerem companheiros.
B. Ação em conjunto
Esses contactos individuais tendem, naturalmente, a suscitar nos diversos ambientes vários contra-revolucionários que se unem numa família de almas cujas forças se multiplicam pelo próprio fato da união.
2. EM RELAÇÃO AO CONTRA-REVOLUCIONÁRIO POTENCIAL
Os contra-revolucionários devem apresentar a Revolução e a Contra Revolução em todos os seus aspectos, religioso, político, social, econômico, cultura, artístico, etc. Pois os contra-revolucionários potenciais vêem em geral por alguma faceta particular apenas, e por esta podem e devem ser atraídos para a visão total de uma e de outra. Um contra-revolucionário que argumentasse apenas em um plano, o político, por exemplo, limitaria muito seu campo de atração, expondo sua ação à esterilidade, e, pois, à decadência e à morte.
3. EM RELAÇÃO AO REVOLUCIONÁRIO
A. A iniciativa contra-revolucionária
Em face da Revolução e da Contra-Revolução não há neutros. Pode haver, isto sim, não combatentes, cuja vontade ou cujas veleidades estão, porém, conscientemente ou não em um dos dois campos. Por revolucionários entendemos, pois, não só os partidários integrais e declarados da Contra-Revolução, como também os "semi-contra-revolucionários".

A Revolução tem progredido, como vimos, à custa de ocultar seu vulto total, seu espirito verdadeiro, seus fins últimos.

O meio mais eficiente de refutá-la junto aos revolucionários consiste em mostrá-la inteira, quer em seu espirito e nas grandes linhas de sua ação, quer em cada uma de suas manifestações ou manobras aparentemente inocentes e insignificantes. Arrancar-lhe, assim, os véus é desferi-lhe o mais duro dos golpes.

Por esta razão, o esforço contra-revolucionário deve entregar-se a esta tarefa com o maior empenho.

Secundariamente, é claro, os outros recursos de uma boa dialética são indispensáveis para o êxito de uma ação contra-revolucionária.

Com o "semi-contra-revolucionário", como aliás também com o revolucionário que tem "coágulos" contra-revolucionários, há certas possibilidades de colaboração, e esta colaboração cria um problema especial: até que ponto é ela prudente? A nosso ver, a luta contra a Revolução só se desenvolve convenientemente ligando entre si pessoas radical e inteiramente isentas de vírus desta. Que os grupos contra-revolucionários possam colaborar com elementos como os acima mencionados, em alguns objetivos concretos, facilmente se concebe. Mas, admitir uma colaboração onímoda e estável com pessoas infectadas de qualquer influencia da Revolução é a mais flagrante das imprudências e a causa, talvez, da maior parte dos malogros contra-revolucionários.


B. A contra-ofensiva revolucionária
O revolucionário, em via de regra, é petulante, verboso e afeito à exibição, quando não tem adversários diante de si, ou os tem fracos. Contudo, se encontra quem o enfrente com ufania e arrojo, ele se cala e organiza uma campanha de silencio. Um silencio em meio ao qual se percebe o discreto zumbir da calunia, ou algum murmúrio contra o "excesso de lógica" do adversário, sim. mas um silencio confuso e envergonhado que jamais é entrecortado por alguma replica de valor. Diante desse silencio de confusão e derrota, poderíamos dizer ao contra-revolucionário vitorioso as palavras espirituosas escritas por Veuillot em outra ocasião: "Interrogai o silencio, e ele nada vos responderá" ("Oeuvres Complètes", P. Lethielleux Librairie-Editeur, Paris, vol. XXXIII, p. 349).
4. ELITES E MASSAS NA TÁTICA CONTRA-REVOLUCIONÁRIA
A Contra-Revolução deve procurar, quanto possível, conquistar as multidões. Entretanto, não deve fazer disso, no plano imediato, seu objetivo principal, e um contra-revolucionário não tem razão para desanimar pelo fato de que a grande maioria dos homens não está atualmente de seu lado. Um estudo exato da Historia nos mostra, com efeito, que não foram as massas que fizeram a Revolução. Elas se moveram num sentido revolucionário porque tiveram atrás de si elites revolucionarias. Se tivessem tido atrás de si elites de orientação oposta, provavelmente se teriam movido num sentido contrario. O fator massa, segundo mostra a visão objetiva da Historia, é secundário; o principal é a formação das elites. Ora, para essa formação, o contra-revolucionário pode estar sempre aparelhado com os recursos de sua ação individual, e pode pois obter bons frutos, apesar da carência de meios materiais e técnicos com que, às vezes, tenha que lutar.
Capítulo VI

Os Meios de Ação da Contra-Revolução
1. TENDER PARA OS GRANDES MEIOS DE AÇÃO
Em principio, é claro, a ação contra-revolucionária merece ter à sua disposição os melhores meios de televisão, radio, imprensa de grande porte, propaganda racional, eficiente e brilhante. O verdadeiro contra-revolucionário deve tender sempre à utilização de tais meios, vencendo o estado de espirito derrotista de alguns de seus companheiros que, de antemão, abandonam a esperança de dispor deles porque os vêm sempre na posse dos filhos das trevas.

Entretanto, devemos reconhecer que, “in concreto”, a ação contra-revolucionária terá de se realizar muitas vezes sem esses recursos.


2. UTILIZAR TAMBÉM OS MEIOS MODESTOS: SUA EFICÁCIA
Ainda assim, e com meios dos mais modestos, poderá ela alcançar resultados muito apreciáveis, se tais meios forem utilizados com retidão de espirito e inteligência. Como vimos, é concebível uma ação contra-revolucionária reduzida à mera atuação individual. Mas não se pode concebê-la sem esta ultima. A qual, por sua vez, desde que bem feita, abre as portas para todos os progressos.

Os pequenos jornais de inspiração contra-revolucionária, quando de bom nível, têm uma eficácia surpreendente, principalmente para a tarefa primordial de fazer com que os contra-revolucionários se conheçam.

Tão ou mais eficientes podem ser o livro, a tribuna e a cátedra, a serviço da Contra-Revolução.

Capítulo VII

obstáculos à Contra-Revolução
1. ESCOLHOS A EVITAR ENTRE OS CONTRA-REVOLUCIONÁRIOS
Os escolhos a evitar entre os contra-revolucionários estão, muitas vezes, em certos maus hábitos de agentes da Contra-Revolução.

Nas reuniões ou nos impressos contra-revolucionários a temática deve ser cuidadosamente selecionada. A Contra-Revolução deve mostrar sempre um aspecto ideológico, mesmo quando trata de questões muito pormenorizadas e contingentes. Revolver, por exemplo, os problemas político-partidários da Historia recente ou da atualidade pode ser útil. Mas dar excessivo realce a questiúnculas pessoais, fazer da luta com adversários ideológicos locais o principal da ação contra revolucionaria, apresentar a Contra-Revolução como se fosse uma simples nostalgia (não negamos, aliás, é claro, a legitimidade dessa nostalgia) ou um mero dever de fidelidade pessoal, por mais santo e justo que este seja, é apresentar o particular como sendo o geral, a parte como sendo o todo, é mutilar a causa que se quer servir.


2. OS "SLOGANS" DA REVOLUÇÃO
Outras vezes estes obstáculos estão em "slogans" revolucionários aceitos, não de raro, como dogmas até nos melhores ambientes.
A. "A Contra-Revolução é estéril por ser anacrônica"
O mais insistente e nocivo desses "slogans" consiste em afirmar que em nossa época a Contra-Revolução não pode medrar porque é contraria ao espirito dos tempos. A Historia, diz-se, não volta atrás.

A Religião Católica, segundo esse singular principio, não existiria. Pois não se pode negar que o Evangelho era radicalmente contrario ao meio em que Nosso Senhor Jesus Cristo e os Apóstolos o pregaram. E a Espanha Católica, greco-romana, também não existiria. Pois nada se parece mais com uma ressurreição, e portanto, de algum modo, com uma volta ao passado, do que a plena reconstituição da grandeza cristã da Espanha, ao cabo dos oito séculos que vão de Covadonga até a queda de Granada. A Renascença, tão cara aos revolucionários, foi, ela mesma, sob vários aspectos pelo menos, a volta a um naturalismo cultural e artístico fossilizado havia mais de mil anos.

A Historia comporta vais e vens, portanto, quer nas vias do bem, quer nas do mal.

Aliás, quando se vê que a Revolução considera algo como coerente com o espirito dos tempos, é preciso circunspeção. Pois não raras vezes se trata de alguma velharia dos tempos pagãos, que ela quer restaurar.

O que têm de novo, por exemplo, o divorcio ou o nudismo, a tirania ou a demagogia, tão generalizados no mundo antigo?

Porque será moderno o divorcista e anacrônico o defensor da indissolubilidade?

O conceito de "moderno" para a Revolução se cifra no seguinte: é tudo quanto dê livre curso ao orgulho e ao igualitarismo, bem como à sede de prazeres e ao liberalismo.
B. "A Contra-Revolução é estéril por ser essencialmente negativista"
Outro "slogan": a Contra-Revolução se define por seu próprio nome como algo de negativo, e portanto de estéril. Simples jogo de palavras. Pois o espirito humano, partindo do fato de que a negação da negação importa numa afirmação, exprime de modo negativo muitos de seus conceitos mais positivos: in-falibilidade, in-dependência, in-nocência, etc. Lutar por qualquer desses três objetivos seria negativismo, só por causa da formação negativa em que eles se apresentam? O Concilio do Vaticano, quando definiu a infalibilidade papal, fez obra negativista? A imaculada Conceição é prerrogativa negativista da Mãe de Deus?

Se se entende por negativista, de acordo com a linguagem corrente, algo que insiste em negar, em atacar, e em ter os olhos continuamente voltados para o adversário, deve-se dizer que a Contra-Revolução, sem ser apenas negação, tem em sua essência alguma coisa de fundamental e sadiamente negativista. Constitui ela, como dissemos, um movimento dirigido contra outro movimento, e não se compreende que, numa luta, um adversário não tenha os olhos postos sobre o outro e não esteja com ele numa atitude de polemica, de ataque e contra-ataque.


C. "A argumentação contra-revolucionária é polemica e nociva"
O terceiro "slogan" consiste em censurar as obras intelectuais dos contra-revolucionários, por seu caráter negativista e polemico, que as levaria a insistir demais na refutação do erro, em lugar de fazer a explanação límpida e despreocupada da verdade. Elas seriam, assim, contraproducentes, pois irritariam e afastariam o adversário. Exceção feita de possíveis demasias, esse cunho aparentemente negativista tem uma profunda razão de ser. Segundo o que foi dito neste trabalho, a doutrina da Revolução esteve contida nas negações de Lutero e dos primeiros revolucionários, mas apenas muito lentamente se foi explicitando no decorrer dos séculos. De maneira que os autores contra-revolucionários sentiram, desde o inicio, e legitimamente, dentro de todas as formulações revolucionarias, algo que excedia à própria formulação. Há muito mais a mentalidade da Revolução a considerar em cada etapa do processo revolucionário, do que simplesmente a ideologia enunciada nessa etapa. Para fazer trabalho profundo, eficiente, e inteiramente objetivo, é, pois, necessário acompanhar passo a passo o desenrolar da marcha da Revolução, num penoso esforço de explicitação das coisas implícitas no processo revolucionário. Só assim é possível atacar a Revolução como de fato deve ela ser atacada. Tudo isto tem obrigado os contra-revolucionários a ter constantemente os olhos postos na Revolução, pensando, e afirmando as suas teses, em função dos erros dela. Neste duro trabalho intelectual, as doutrinas de verdade e de ordem existentes no deposito sagrado do Magistério da Igreja são, para o contra-revolucionário, o tesouro do qual ele vai tirando coisas novas e velhas (cfr. Mt. 13,52) para refutar a Revolução, à medida que vai vendo mais fundo nos tenebrosos abismos desta.

Assim, pois, em vários de seus mais importantes aspectos é sadiamente negativista e polemico o trabalho contra-revolucionário. É, aliás, por razões não muito diversas que o Magistério Eclesiástico vai definindo as verdades, o mais das vezes, em função das diversas heresias que vão surgindo ao longo da historia. E formulando-as como condenação do erro que lhes é oposto. Assim agindo, a Igreja nunca receou fazer mal às almas.


3. ATITUDES ERRADAS EM FACE DOS "SLOGANS" DA REVOLUÇÃO
A. Abstrair dos "slogans" revolucionários
O esforço contra-revolucionário não deve ser livresco, isto é, não pode contentar-se com uma dialética com a Revolução no plano puramente cientifico e universitário. Reconhecendo a esse plano toda a sua grande e até muito grande importância, o ponto de mira da Contra-Revolução deve ser a Revolução tal qual ela é pensada, sentida e vivida pela opinião publica em seu conjunto. E neste sentido os contra-revolucionários devem atribuir uma importância muito particular à refutação dos "slogans" revolucionários.
B. Eliminar os aspectos polêmicos da ação contra-revolucionária
A idéia de apresentar a Contra-Revolução sob uma luz mais "simpática" e "positiva" fazendo com que ela não ataque a Revolução, é o que pode haver de mais tristemente eficiente para empobrecê-la de conteúdo e de dinamismo (cfr. Parte II -- Cap. VIII, 3, B).

Quem agisse segundo essa lamentável Tática mostraria a mesma falta de senso de um chefe de Estado que, em face de tropas inimigas que transpõem a fronteira, fizesse cessar toda resistência armada, com o intuito de cativar a simpatia do invasor e, assim, paralisá-lo. Na realidade, ele anularia o ímpeto da reação, sem deter o inimigo. Isto é, entregaria a pátria...

Não quer isto dizer que a linguagem do contra-revolucionário não seja matizada segundo as circunstancias.

O Divino Mestre, pregando na Judéia, que estava sob a ação próxima dos pérfidos fariseus, usou de uma linguagem candente. Na Galiléia, pelo contrario, onde predominava o povo simples e era menor a influencia dos fariseus, sua linguagem tinha um tom mais docente e menos polemico.



Capítulo VIII

O caráter Processivo da Contra-Revolução e o "Choque" contra-revolucionário
1. HÁ UM PROCESSO CONTRA-REVOLUCIONÁRIO
É evidente que, tal como a Revolução, a Contra-Revolução é um processo, e que portanto se pode estudar a sua marcha progressiva e metódica para a Ordem.

Todavia, há algumas características que fazem essa marcha diferir profundamente do caminhar da Revolução para a desordem integral. Isto provém do fato de que o dinamismo do bem e o do mal são radicalmente diversos.


2. ASPECTOS TÍPICOS DO PROCESSO REVOLUCIONÁRIO
A. Na marcha rápida
Quando tratamos das duas velocidades da Revolução (cfr. Parte I -- Cap. VI, 4), vimos que algumas almas se empolgam pelas suas máximas num só lance e tiram de uma vez todas as conseqüências do erro.
B. Na marcha morosa
E que há outras que vão aceitando lentamente e passo a passo as doutrinas revolucionarias. Muitas vezes, até, esse processo se desenvolve com continuidade através das gerações. Um "semi-contra-revolucionário" muito infenso aos paroxismos da Revolução tem um filho menos contrario a estes, um neto indiferente, e um bisneto plenamente integrado no fluxo revolucionário. A razão deste fato, como dissemos, está em que certas famílias têm em sua mentalidade, em seu subconsciente, em seus modos de sentir, um resíduo de hábitos e fermentos contra-revolucionários que as mantém ligadas, em parte, à Ordem. A corrupção revolucionaria nelas não é tão dinâmica e, por isto mesmo, o erro só pode progredir em seu espirito passo a passo e como que se disfarçando.

A mesma lentidão de ritmo explica como muitas pessoas mudam enormemente de opinião no decurso da vida. Quando são adolescentes têm, por exemplo, a respeito de modas indecentes uma opinião severa, consoante o ambiente em que vivem. Mais tarde, com o "evoluir" dos costumes num sentido cada vez mais relaxado, essas pessoas se vão adaptando às sucessivas modas. E no fim da vida aplaudem trajes que em sua juventude teriam reprovado fortemente. Chegaram a essa posição porque foram caminhando lenta e imperceptivelmente através das etapas matizadas da Revolução que se fazia nelas e em torno delas. E, gradualmente, acabaram chegando talvez tão longe quanto um revolucionário da idade delas que na adolescência tivesse adotado a primeira velocidade. A verdade e o bem existem nessas almas num estado de derrota, mas não tão derrotados que, diante de um grave erro e um grave mal, não possam ter um sobressalto às vezes vitorioso e salvador que as faça perceber o fundo perverso da Revolução e as leve a uma atitude categórica e sistemática contra todas as manifestações desta. É para evitar esses sadios sobressaltos de alma e essas cristalizações contra-revolucionárias, que a Revolução anda passo a passo.


3. COMO DESTROÇAR O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO
Se é assim que a Revolução conduz a imensa maioria de suas vitimas, pergunta-se de que modo pode uma delas desvencilhar-se deste processo; e se tal modo é diverso do que têm, para se converter à Contra-Revolução, as pessoas arrastadas pela marcha revolucionaria de grande velocidade.
A. A variedade das vias do Espirito Santo
Ninguém pode fixar limites à inexaurível variedade das vias de Deus nas almas. Seria absurdo reduzir a esquemas assunto tão complexo. Não se pode pois, nesta matéria, ir além da indicação de alguns erros a evitar e de algumas atitudes prudentes a propor.

Toda conversão é fruto da ação do Espirito Santo, que, falando a cada qual segundo suas necessidades, ora com majestosa severidade, ora com suavidade materna, entretanto nunca mente.


B. Nada esconder
Assim, no itinerário do erro para a verdade, não há para a alma os silêncios velhacos da Revolução, nem suas metamorfoses fraudulentas. Nada se lhe oculta do que ela deve saber. A verdade e o bem lhe são ensinados integralmente pela Igreja. Não é escondendo, sistematicamente, o termo ultimo de sua formação, mas mostrando-o e fazendo-o desejado sempre mais, que se obtém dos homens o progresso no bem.

A Contra-Revolução não deve, pois, dissimular seu vulto total. Ela deve fazer suas as sapientíssimas normas estabelecidas por São Pio X para o proceder habitual do verdadeiro apostolo: "Não é leal nem digno ocultar, cobrindo-a com uma bandeira equivoca, a qualidade de católico, como se esta fosse mercadoria avariada e de contrabando" (carta ao Conde Medolago Albani, Presidente da União Econômico-Social, da Itália, datada de 22-XI-1909 -- "Bonne Presse", Paris, vol. V, p. 76)). Os católicos não devem "ocultar como que sob um véu os preceitos mais importantes do Evangelho, temerosos de serem talvez menos ouvidos, ou até completamente abandonados" (Encíclica "Jucunda Sane", de 12-III-1904 -- "Bonne Presse", Paris, vol. I, p. 158). Ao que judiciosamente acrescentava o santo Pontífice: "Sem duvida, não será alheio à prudência, também ao propor a verdade, usar de certa contemporização, quando se tratar de esclarecer homens hostis às nossas instituições e inteiramente afastados de Deus. “As feridas que é preciso cortar -- diz São Gregório -- devem antes ser apalpadas com mão delicada”. Mas essa mesma habilidade assumiria o aspecto de prudência carnal se erigida em norma de conduta constante e comum; e tanto mais que desse modo pareceria ter-se em pouca conta a graça divina, que não é concedida somente ao Sacerdócio e aos seus ministros, mas a todos os fiéis de Cristo, a fim de que nossas palavras e atos comovam as almas desses homens" (doc. cit., ibid.).


C. O "choque das grandes conversões
Censurando, como o fizemos, o esquematismo nesta matéria, parece-nos entretanto que a adesão plena e consciente à Revolução, como esta “in concreto” se apresenta, constitui um imenso pecado, uma apostasia radical, da qual só por meio de uma conversão igualmente radical se pode voltar.

Ora, segundo a Historia, afigura-se que as grandes conversões se dão o mais das vezes por um lance de alma fulminante, provocado pela graça ao ensejo de qualquer fato interno ou externo. Esse lance difere em cada caso, mas apresenta com freqüência certos traços comuns. Concretamente, na conversão do revolucionário para a Contra-Revolução, ele, não raras vezes e em linhas gerais, se opera assim:

& a. “Na alma empedernida do pecador que, por um processo de grande velocidade, foi logo ao extremo da Revolução”, restam sempre recursos de inteligência e bom senso, tendências mais ou menos definidas para o bem. Deus, embora não as prive jamais da graça suficiente, espera, não raramente, que essas almas cheguem ao mais fundo da miséria, para lhes fazer ver de uma só vez, como num fulgurante "flash", a enormidade de seus erros e de seus pecados. Foi quando desceu a ponto de querer se alimentar das bolotas dos porcos que o filho pródigo caiu em si e voltou à casa paterna (cfr. Lc. 15, 16 a 19).

& b. “Na alma tíbia e míope que vai resvalando lentamente na rampa da Revolução”, atuam ainda, não inteiramente recusados, certos fermentos sobrenaturais; há valores de tradição, de ordem, de Religião, que ainda crepitam como brasas sob a cinza. Também essas almas podem, por um sadio sobressalto, num momento de desgraça extrema, abrir os olhos e reavivar em um instante tudo quanto nelas definhava e ameaçava morrer: é o reacender-se da mecha que ainda fumega (cfr. Mt. 12, 20).


D. A plausibilidade desse "choque" em nossos dias
Ora, toda a humanidade se encontra na iminência de uma catástrofe, e nisto parece estar precisamente a grande ocasião preparada pela misericórdia de Deus. Uns e outros -- os da velocidade rápida ou lenta -- neste terrível crepúsculo em que vivemos, podem abrir os olhos e converte-se a Deus.

O contra-revolucionário deve, pois, aproveitar zelosamente o tremendo espetáculo de nossas trevas para -- sem demagogia, sem exagero, mas também sem fraqueza -- fazer compreender aos filhos da Revolução a linguagem dos fatos, e assim produzir neles o "flash" salvador. Apontar varonilmente os perigos de nossa situação é traço essencial de uma ação autenticamente contra-revolucionária.


E. Mostrar a face total da Revolução
Não se trata apenas de apontar o risco de total desaparecimento da civilização, em que nos encontramos. É preciso saber mostrar, no caos que nos envolve, a face total da Revolução, em sua imensa hediondez. Sempre que esta face se revela, aparecem surtos de vigorosa reação. É por este motivo que, por ocasião da Revolução Francesa, e no decurso do século XIX, houve na França um movimento contra-revolucionário melhor do que jamais houvera anteriormente naquele país. Nunca se vira tão bem a face da Revolução. A imensidade da voragem em que naufragara a antiga ordem de coisas tinha aberto muitos olhos, subitamente, para toda uma gama de verdades silenciadas ou negadas, ao longo de séculos, pela Revolução. Sobretudo, o espirito desta se lhes patenteara em toda a sua malícia, e em todas as suas conexões profundas com idéias e hábitos durante muito tempo reputados inocentes pela maioria das pessoas. Assim, o contra-revolucionário deve, com freqüência, desmascarar o vulto geral da Revolução, a fim de exorcizar o quebranto que esta exerce sobre suas vitimas.
F. Apontar os aspectos metafísicos da Contra-Revolução
A quinta-essência do espirito revolucionário consiste, como vimos, em odiar por principio, e no plano metafísico, toda desigualdade e toda lei, especialmente a Lei Moral.

Um dos pontos muito importantes do trabalho contra-revolucionário é, pois, ensinar o amor à desigualdade vista no plano metafísico, ao principio de autoridade, e também à Lei Moral e à pureza; porque exatamente o orgulho, a revolta e a impureza são os fatores que mais propulsionam os homens na senda da Revolução (cfr. Parte I -- Cap. VII, 3).


G. As duas etapas da Contra-Revolução
& a. Obtida a radical modificação do revolucionário em contra-revolucionário, é a primeira etapa da Contra-Revolução que nele finda.

& b. Vem depois uma segunda etapa, que pode ser bastante lenta, ao longo da qual a alma vai ajustando todas as suas idéias e todos os seus modos de sentir à posição tomada no ato de sua conversão.

& c. E é assim que se pode delinear em muitas almas, em duas grandes etapas bem diversas, o processo da Contra-Revolução.

Descrevemos as etapas deste processo enquanto realizadas em uma alma, individualmente considerada. “Mutatis mutandis”, elas podem ocorrer também com grandes grupos humanos, e até com povos inteiros.



Capítulo IX

Força Propulsora da Contra-Revolução
Existe uma força propulsora da Contra-Revolução, assim como existe outra para a Revolução.
1. VIRTUDE E CONTRA-REVOLUÇÃO
Apontamos como a mais potente força propulsora da Revolução, o dinamismo das paixões humanas desencadeadas num ódio metafísico contra Deus, contra a virtude, contra o bem e, especialmente contra a hierarquia e contra a pureza. Simetricamente, existe também uma dinâmica contra-revolucionária, mas de natureza inteiramente diversa. As paixões, enquanto tais -- tomada aqui a palavra em seu sentido técnico -- são moralmente indiferentes; é o seu desregramento que as torna más. Porém, enquanto reguladas, elas são boas e obedecem fielmente à vontade a à razão. E é no vigor de alma que vem ao homem pelo fato de Deus governar nele a razão, a razão dominar a vontade, e esta dominar a sensibilidade, que é preciso procurar a serena, nobre e eficientíssima força propulsora da Contra-Revolução.
2. VIDA SOBRENATURAL E CONTRA-REVOLUÇÃO
Tal vigor de alma não pode ser concebido sem se tomar em consideração a vida sobrenatural. O papel da graça consiste exatamente em iluminar a inteligência, em robustecer a vontade e em temperar a sensibilidade de maneira que se voltem para o bem. De sorte que a alma lucra incomensuravelmente com que a vida sobrenatural, que a eleva acima das misérias da natureza decaída, e do próprio nível da natureza humana. É nessa força de alma cristã que está o dinamismo da Contra-Revolução.
3. INVENCIBILIDADE DA CONTRA-REVOLUÇÃO
Pode-se perguntar de que valor é esse dinamismo. Respondemos que, em tese, é incalculável, e certamente superior ao da Revolução: "Omnia possum in eo qui me confortat" (Filip. 4, 13).

Quando os homens resolvem cooperar com a graça de Deus, são as maravilhas da Historia que assim se operam: é a conversão do Império Romano, é a formação da Idade Media, é a reconquista da Espanha a partir de Covadonga, são todos esses acontecimentos que se dão como fruto das grandes ressurreições de alma de que os povos são também suscetíveis. Ressurreições invencíveis, porque não há o que derrote um povo virtuoso e que verdadeiramente ame a Deus.



Capítulo X

A Contra-Revolução, o Pecado e a Redenção
1. A CONTRA-REVOLUÇÃO DEVE REAVIVAR A NOÇÃO DO BEM E DO MAL
A Contra-Revolução tem, como uma de suas missões mais salientes, a de restabelecer ou reavivar a distinção entre o bem e o mal, a noção do pecado em tese, do pecado original, e do pecado atual. Essa tarefa, quando executada com uma profunda compenetração do espirito da Igreja, não traz consigo o risco de desespero da misericórdia Divina, hipocondrismo, misantropia, etc., de que tanto falam certos autores mais ou menos infiltrados pelas máximas da Revolução.
2. COMO REAVIVAR A NOÇÃO DO BEM E DO MAL
Pode-se reavivar a noção do bem e do mal por vários modos, entre os quais:

* Evitar todas as formulações que tenham o sabor de moral leiga ou interconfessional, pois o laicismo e o interconfessionalismo conduzem, logicamente ao amoralismo.

* Salientar, nas ocasiões oportunas, que Deus tem direito de ser obedecido, e que, pois, seus Mandamentos são verdadeiras leis, a que nos conformamos em espirito de obediência, e não apenas porque elas nos agradam.

* Acentuar que a Lei de Deus é intrinsecamente boa e conforme à ordem do universo, na qual se espelha a perfeição do Criador. Pelo que ela deve ser não só obedecida, mas amada, e o mal deve não só ser evitado, mas odiado.

* Divulgar a noção de um prêmio e de um castigo "post-mortem".

* Favorecer os costumes sociais e leis em que o bem seja honrado e o mal sofra sanções publicas.

* Favorecer os costumes e as leis que tendam a evitar as ocasiões próximas de pecado e até mesmo aquilo que, tendo mera aparência de mal, possa ser nocivo à moralidade pública.

* Insistir sobre os efeitos do pecado original no homem e a fragilidade deste, sobre a fecundidade da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como sobre a necessidade da graça, da oração e da vigilância para que o homem persevere.

* Aproveitar todas as ocasiões para apontar a missão da Igreja como mestra da virtude, fonte da graça, e inimiga irreconciliável do erro e do pecado.

Capítulo XI

A Contra-Revolução e a Sociedade Temporal
A Contra-Revolução e a sociedade temporal é tema já tratado a fundo, de ângulos diversos, em muitas obras de valor. Não podendo abarcá-lo todo, o presente trabalho se cinge a dar os princípios mais gerais de uma ordem temporal contra-revolucionária (cfr. especialmente Parte I -- Cap. VII, 2) e a estudar as relações entre a Contra-Revolução e algumas das organizações mais importantes que lutam por uma boa ordem temporal.
1. A CONTRA-REVOLUÇÃO E AS ENTIDADE DE CARÁTER SOCIAL
Na sociedade temporal, agem numerosos organismos destinados a resolver a questão social tendo em vista, direta ou indiretamente o mesmo fim supremo da Contra-Revolução, a instauração do Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dada esta comunidade de fins (cfr. Parte II -- Cap. XII, 7), importa estudar as relações entre a Contra-Revolução e aqueles organismos.
A. Obras de caridade, serviço social, assistência social, associações de patrões, de operários, etc.
& a. Na medida em que as obras em epígrafe normalizam a vida econômica e social, prejudicam o desenvolvimento do processo revolucionário. E, neste sentido, são “ipso facto”, e ainda que de modo apenas implícito e indireto, auxiliares preciosos da Contra-Revolução.

& b. Contudo, convém, para tal, lembrar algumas verdades que, infelizmente, não é tão raro encontrar obnubiladas entre os que abnegadamente se dedicam a essas obras:

* É certo que tais obras podem aliviar, e em certos casos suprimir as necessidades materiais geradoras de tanta revolta nas massas. Mas o espirito de Revolução não nasce sobretudo da miséria. Sua raiz é moral, e portanto religiosa (cfr. Leão XIII, Encíclica "Graves de Communi", de 18-I-1901 -- "Bonne Presse", Paris, vol. VI, p. 212). Assim, é preciso que nas obras de que tratamos se fomente, em toda a medida em que a natureza especial de cada uma o comporte, a formação religiosa e moral, com especial cuidado no que diz respeito à premunição das almas contra o vírus revolucionário, tão forte em nossos dias.

* A Igreja, Mãe compassiva, estimula tudo quanto possa trazer alivio às misérias humanas. Ela não nutre a ilusão de que as eliminará todas. E prega uma santa conformidade com a doença, a pobreza e outras privações.

* É certo que nessas obras se apresentam ocasiões preciosas para criar um clima de compreensão e caridade entre patrões e operários, e conseqüentemente se pode operar uma desmobilização dos espíritos prontos já para a luta de classes. Mas seria errado supor que a bondade desarma sempre a maldade humana. Nem sequer os benefícios incontáveis de Nosso Senhor em sua vida terrena conseguiram evitar o ódio que Lhe tiveram os maus. Assim, embora na luta contra a Revolução se deva de preferência guiar e esclarecer amistosamente os espíritos, é patente que um combate direto e expresso contra as varias formas desta -- o comunismo, por exemplo -- por todos os meios justos e legais, é licito e, geralmente, até indispensável.

* É particularmente de se observar que essas obras devem incutir em seus beneficiários ou associados uma verdadeira gratidão pelos favores recebidos, ou, quando não se trate de favores mas de atos de justiça, um real apreço pela retidão moral inspiradora de tais atos.

* Nos parágrafos anteriores, tivemos em mente principalmente o trabalhador. Cumpre salientar que o contra-revolucionário não é sistematicamente favorável a uma ou a outra classe social. Altamente cioso do direito de propriedade, ele deve, entretanto, lembrar às classes elevadas que não lhes basta combater a Revolução nos campos em que esta lhes ataca as vantagens, e paradoxalmente favorecê-la -- como tantas vezes se vê -- pelas palavras, ou pelo exemplo, em todos os outros terrenos, como a vida de família, as praias, piscinas, e outras diversões, as atividades intelectuais e artísticas, etc. Um operariado que lhes siga o exemplo e lhes aceite as idéias revolucionarias será forçosamente utilizado pela Revolução contra as elites "semi-contra-revolucionárias".

* Será igualmente nocivo à aristocracia e à burguesia vulgarizar-se nas maneiras e nos trajes, para desarmar a Revolução. Uma autoridade social que se degrada é, também ela, comparável ao sal que não salga. Só serve para ser atirada à rua e sobre ela pisarem os transeuntes (cfr. Mt. 5, 13). Fá-lo-ão, na maioria dos casos, as multidões cheias de desprezo.

* Conservando-se com dignidade e energia em sua situação, devem as classes altas ter um trato direto e benévolo com as demais. A caridade a a justiça praticadas à distancia não bastam para estabelecer entre as classes relações de amor verdadeiramente cristão.

* Sobretudo lembrem-se os proprietários de que, se há muitas pessoas dispostas a defender contra o comunismo a propriedade privada (concebida, é claro, como um direito individual com função também social), é pelo principio de que ela é desejada por Deus e intrinsecamente conforme à Lei natural. Ora, tal principio tanto se refere à propriedade do patrão quanto à do operário. Em conseqüência, o mesmo principio da luta contra o comunismo deve levar o patrão a respeitar o direito do trabalhador a um salário justo, condizente com suas necessidades e as de sua família. Convém recordá-lo para acentuar que a Contra-Revolução não é a defensora apenas da propriedade patronal, mas da de ambas as classes. Ela não luta por interesses de grupos ou categoria sociais, mas por princípios.


B. Luta contra o comunismo
Referimo-nos com este subtítulo às organizações que não se dedicam principalmente à construção de uma ordem social boa, mas ao combate contra o comunismo. Pelos motivos já expostos neste trabalho, reputamos legitimo e muitas vezes até indispensável tal tipo de organização. É claro que desta forma não identificamos a Contra-Revolução com abusos que organismos deste tipo possam ter praticado num ou noutro pais.

Entretanto, consideramos que a eficácia contra-revolucionária de tais organismos pode ser acrescida de muito se, conservando-se embora em seu terreno especializado, os seus membros tiverem sempre em vista algumas verdades essenciais:

* Só uma refutação inteligente do comunismo é eficaz. A mera repetição de "slogans", mesmo quando inteligentes e hábeis, não basta.

* Essa refutação, nos meios cultos, deve visar os últimos fundamentos doutrinários do comunismo. É importante apontar o seu caráter essencial de seita filosófica que deduz de seus princípios uma peculiar concepção do homem, da sociedade, do Estado, da Historia, da cultura, etc. Exatamente como a Igreja deduz da Revelação e da Lei Moral todos os princípios da civilização e da cultura católica. Entre o comunismo, seita que contém em si a plenitude da Revolução, e a Igreja, não há, pois, conciliação possível.

* As multidões ignoram o chamado comunismo cientifico, e não é a doutrina de Marx que atrai as massas. Uma ação ideológica anticomunista deve visar, junto ao grande publico, um estado de espirito muito difundido, que dá ao miúdo aos próprios adversários do comunismo certa vergonha de se voltarem contra este. Procede tal estado de espirito da idéia, mais ou menos consciente, de que toda desigualdade é uma injustiça, e de que se deve acabar, não só com as fortunas grandes, como com as medias, pois se não houvesse ricos também não haveria pobre. É, como se vê, um resíduo de certas escolas socialistas do século XIX, perfumado por um sentimentalismo romântico. Daí nasce uma mentalidade que, professando-se anticomunista, entretanto a si mesma se intitula, freqüentemente, socialista. Esta mentalidade, cada vez mais poderosa no Ocidente, constitui um perigo muito maior do que a doutrinação propriamente marxista. Ela nos conduz lentamente por um declive de concessões que poderão chegar até o ponto extremo de transformar em republicas comunistas as nações de aquém da cortina de ferro. Tais concessões, que deixam ver uma tendência ao igualitarismo econômico e ao dirigismo, se vão notando em todos os campos. A iniciativa privada vai sendo sempre mais cerceada. Os impostos de transmissão "causa mortis" são tão onerosos que em certos casos o Fisco é o maior herdeiro. As interferências oficiais em matéria de cambio, exportação e importação colocam na dependência do Estado todos os interesses industriais, comerciais e bancários. Nos salários, nos alugueis, nos preços, em tudo o Estado intervém. Ele tem industrias, Bancos, Universidades, jornais, radio-emissoras, canais de televisão, etc. E ao mesmo passo que o dirigismo igualitário vai assim transformando a economia, a imoralidade e o liberalismo vão dissolvendo a família e preparando o chamado amor livre.

Sem um combate especifico a esta mentalidade, ainda que um cataclismo tragasse a Rússia e a China, o Ocidente dentro de cinqüenta ou cem anos seria comunista.

* O direito de propriedade é tão sagrado que, mesmo se um regime desse à Igreja toda a liberdade, e até todo o apoio, Ela não poderia aceitar como licita uma organização social em que todos os bens fossem coletivos.
2. CRISTANDADE E REPÚBLICA UNIVERSAL
A Contra-Revolução, inimiga da Republica Universal, também não é favorável à situação instável e anorgânica criada pela cisão da CRISTANDADE e pela secularização da vida internacional nos Tempos Modernos.

A plena soberania de cada nação não se opõe a que os povos que vivem na Igreja, formando uma vasta família espiritual, constituam, para resolver suas questões no plano internacional, órgãos profundamente impregnados de espirito cristão e possivelmente presididos por representantes da Santa Sé. Tais órgãos poderiam também favorecer a cooperação dos povos católicos para o bem comum em todos os seus aspectos, especialmente no que diz respeito à defesa da Igreja contra os infiéis, e à proteção da liberdade dos missionários em terras gentílicas ou dominadas pelo comunismo. Poderiam tais órgãos, por fim, entrar em contacto com povos não católicos para a manutenção da boa ordem nas relações internacionais.

Sem negar os importantes serviços que em varias ocasiões possam ter prestado neste sentido organismos leigos, a Contra-Revolução deve fazer ver sempre a terrível lacuna que é a laicidade destes, bem como alertar os espíritos contra o risco de que esses organismos se transformem num germe de Republica Universal (cfr. Parte I -- Cap. VII, 3, A, k).
3. CONTRA-REVOLUÇÃO E NACIONALISMO
Nesta ordem de idéias, a Contra-Revolução deverá favorecer a manutenção de todas as sadias características locais, em qualquer terreno, na cultura, nos costumes, etc.

Mas seu nacionalismo não tem o caráter de depreciação sistemática do que é de outros, nem de adoração dos valores pátrios como se fossem desligados do grande acervo da civilização cristã.

A grandeza que a Contra-Revolução deseja para todos os países só é e só pode ser uma: a grandeza cristã, que implica na preservação dos valores peculiares a cada um, e no convívio fraterno entre todos.
4. A CONTRA-REVOLUÇÃO E O MILITARISMO
O contra-revolucionário deve lamentar a paz armada, odiar a guerra injusta e deplorar a corrida armamentista de nossos dias.

Não tendo, porém, a ilusão de que a paz reinará sempre, considera uma necessidade deste mundo de exílio a existência da classe militar, para a qual pede toda a simpatia, todo o reconhecimento, toda a admiração a que fazem jus aqueles cuja missão é lutar e morrer para o bem de todos (cfr. parte I -- Cap. XII).



Capítulo XII

A Igreja e a Contra-Revolução
A Revolução nasceu, como vimos, de uma explosão de paixões desregradas, que vai conduzindo à destruição de toda a sociedade temporal, à completa subversão da ordem moral, à negação de Deus. O grande alvo da Revolução é, pois, a Igreja, Corpo Místico de Cristo, Mestra infalível da verdade, tutora da Lei natural e, assim, fundamento ultimo da própria ordem temporal.

Isto posto, cumpre estudar a relação entre a Instituição divina que a Revolução quer destruir, e a Contra-Revolução.


1. A IGREJA É ALGO DE MUITO MAIS ALTO E MAIS AMPLO DO QUE A REVOLUÇÃO E A CONTRA-REVOLUÇÃO
A Revolução e a Contra-Revolução são episódios importantíssimos da Historia da Igreja, pois constituem o próprio drama da apostasia e da conversão do Ocidente cristão. Mas, enfim, são meros episódios.

A missão da Igreja não se estende só ao Ocidente, nem se circunscreve cronologicamente na duração do processo revolucionário. "Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas" (Cicero, Familiares, 12, 25, 5). poderia ela dizer ufana e tranqüila em meio às tormentas por que passa hoje. A Igreja já lutou em outras terras, com adversários oriundos de outras gentes, e por certo enfrentará ainda, até o fim dos tempos, problemas e inimigos bem diversos dos de hoje.

Seu objetivo consiste em exercer seu poder espiritual direto e seu poder temporal indireto, para a salvação das almas. A Revolução foi um obstáculo que se levantou contra o exercício dessa missão. A luta contra tal obstáculo concreto, entre tantos outros, não é para a Igreja senão um meio circunscrito às dimensões do obstáculo -- meio importantíssimo, é claro, mas simples meio.

Assim, ainda que a Revolução não existisse, a Igreja faria tudo quanto faz para a salvação das almas.

Poderemos elucidar o assunto se compararmos a posição da Igreja, em face à Revolução e à Contra-Revolução, com a de uma nação em guerra.

Quando Anibal estava às portas de Roma, foi necessário levantar e dirigir contra ele todas as forças da Republica. Era uma reação vital contra o potentíssimo e quase vitorioso adversário. Roma era apenas a reação a Anibal? Como pretendê-lo?

Igualmente absurdo seria imaginar que a Igreja é só a Contra-Revolução.

Aliás, cumpre esclarecer que a Contra-Revolução não é destinada a salvar a Esposa de Cristo. Apoiada na promessa de seu Fundador, não precisa Esta dos homens para sobreviver.

Pelo contrario, a Igreja é que dá vida à Contra-Revolução, que, sem Ela, nem seria exeqüível, nem sequer concebível.

A Contra-Revolução quer concorrer para que se salvem tantas almas ameaçadas pela Revolução, e para que se afastem os cataclismos que ameaçam a sociedade temporal. E para isto deve apoiar-se na Igreja, e humildemente servi-la, em lugar de imaginar orgulhosamente que A salva.


2. A IGREJA TEM O MAIOR INTERESSE NO ESMAGAMENTO DA REVOLUÇÃO
Se a Revolução existe, se ela é o que é, está na missão da Igreja, é do interesse da salvação das almas, é capital para maior gloria de Deus que a Revolução seja esmagada.
3. A IGREJA É, POIS, UMA FORÇA FUNDAMENTALMENTE CONTRA-REVOLUCIONÁRIA
Tomado o vocábulo Revolução no sentido que lhe damos, a epígrafe é conclusão obvia do que dissemos acima. Afirmar o contrario seria dizer que a Igreja não cumpre sua missão.
4. A IGREJA É A MAIOR DAS FORÇAS CONTRA-REVOLUCIONÁRIAS
A primazia da Igreja entre as forças contra-revolucionárias é obvia, se considerarmos o número dos católicos, sua unidade, sua influência no mundo. Mas esta legítima consideração de recursos naturais tem uma importância muito secundária. A verdadeira força da Igreja está em ser o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo.
5. A IGREJA É A ALMA DA CONTRA-REVOLUÇÃO
Se a Contra-Revolução é a luta para extinguir a Revolução e construir a cristandade nova, toda resplendente de fé, de humilde espirito hierárquico e de ilibada pureza, é claro que isto se fará sobretudo por uma ação profunda nos corações. Ora, esta ação é obra própria da Igreja, que ensina a doutrina católica e a faz amar e praticar. A Igreja é, pois, a própria alma da Contra-Revolução.
6. A EXALTAÇÃO DA IGREJA É O IDEAL DA CONTRA-REVOLUÇÃO
Proposição evidente. Se a Revolução é o contrario da Igreja, é impossível odiar a Revolução (considerada globalmente, e não em algum aspecto isolado) e combatê-la, sem “ipso facto” ter por ideal a exaltação da Igreja.
7. O ÂMBITO DA CONTRA-REVOLUÇÃO ULTRAPASSA, DE ALGUM MODO, O DA IGREJA
Pelo que ficou dito, a ação contra-revolucionária envolve uma reorganização de toda a sociedade temporal: "Há todo um mundo a ser reconstruído até em seus fundamentos", disse Pio XII (Exortação aos fiéis de Roma, de 10-II-1952 -- "Discorsi e Radio-messaggi", vol. XIII, p. 471), diante dos escombros de que a Revolução cobriu a terra inteira.

Ora, esta tarefa de uma fundamental reorganização contra-revolucionária da sociedade temporal, se de um lado deve ser toda inspirada pela doutrina da Igreja, envolve de outro um sem numero de aspectos concretos e práticos que estão propriamente na ordem civil. E a este titulo a Contra-Revolução transborda do âmbito eclesiástico, continuando sempre profundamente ligada à Igreja no que diz respeito ao Magistério e ao poder indireto desta.


8. SE TODO CATÕLICO DEVE SER CONTRA-REVOLUCIONÁRIO
Na medida em que é apostolo, o católico é contra-revolucionário. Mas ele o pode ser de modos diversos.
A. O contra-revolucionário implícito
Pode sê-lo implícita e como que inconscientemente. É o caso de uma Irmã de Caridade num hospital. Sua ação direta visa a cura dos corpos, e sobretudo o bem das almas. Ela pode exercer esta ação sem falar de Revolução e Contra-Revolução. Pode até viver em condições tão especiais que ignore o fenômeno Revolução e Contra-Revolução. Porém, na medida em que realmente fizer bem às almas, estará obrigando a retroceder nelas a influência da Revolução, o que é implicitamente fazer Contra-Revolução.
B. Modernidade de uma explicitação contra-revolucionária
Numa época como a nossa, toda imersa no fenômeno Revolução e Contra-Revolução, parece-nos condição de sadia modernidade conhecê-lo a fundo e tomar diante dele a atitude perspicaz e enérgica que as circunstancias pedem.

Assim, cremos sumamente desejável que todo apostolado atual, sempre que for o caso, tenha uma intenção e um “tônus” explicitamente contra-revolucionário.

Em outros termos, julgamos que o apostolo realmente moderno, qualquer que seja o campo a que se dedique, acrescerá muito a eficácia de seu trabalho se souber discernir a Revolução nesse campo, e marcar correspondentemente de um cunho contra-revolucionário tudo quanto fizer.
C. O contra-revolucionário explicito
Entretanto, ninguém negará que seja licito que certas pessoas tomem como tarefa própria desenvolver nos meios católicos e não católicos um apostolado especificamente contra-revolucionário. Isto, elas o farão proclamando a existência da Revolução, descrevendo-lhe o espirito, o método, as doutrinas, e incitando todos à ação contra-revolucionária.

Fazendo-o, estarão pondo suas atividades a serviço de um apostolado especializado tão natural e meritório (e por certo mais profundo) quanto o dos que se especializam na luta contra outros adversários da Igreja, como o espiritismo ou o protestantismo.

Exercer influencia nos mais variados meios católicos ou não católicos, a fim de alertar os espíritos contra os males do protestantismo, por exemplo, é certamente legitimo, e necessário a uma ação antiprotestante inteligente e eficaz. análogo procedimento terão os católicos que se entreguem ao apostolado da Contra-Revolução.

Os possíveis excessos desse apostolado -- que os pode ter como outro qualquer -- não invalidam o principio que estabelecemos. Pois "abusus non tollit usum".


D. Ação contra-revolucionária que não constitui apostolado
Contra-revolucionários há, enfim, que não fazem apostolado em senso estrito, pois se dedicam à luta em certos campos como o da ação especificamente cívico-partidária, ou do combate à Revolução por meio de empreendimentos econômicos. Trata-se, aliás, de atividades muito relevantes, que só podem ser vistas com simpatias.
9. AÇÃO CATÓLICA E CONTRA-REVOLUÇÃO
Se empregarmos a palavra Ação Católica no sentido legitimo que lhe deu Pio XII, isto é, conjunto de associações que, sob a direção da Hierarquia, colaboram com o apostolado desta, a Contra-Revolução em seus aspectos religiosos e morais é, a nosso ver, parte importantíssima do programa de uma Ação Católica sadiamente moderna.

A ação contra-revolucionária pode ser feita, naturalmente, por uma só pessoa, ou pela conjugação, a título privado, de varias. E, com a devida aprovação eclesiástica, pode até culminar na formação de uma associação religiosa especialmente destinada à luta contra a Revolução.

É obvio que a ação contra-revolucionária no terreno estritamente partidário ou econômico não faz parte dos fins da Ação católica.
10. A CONTRA-REVOLUÇÃO E OS NÃO CATÓLICOS
A Contra-Revolução pode aceitar a cooperação de não católicos? Podemos falar de contra-revolucionários protestantes, muçulmanos, etc.? A resposta precisa ser muito matizada. Fora da Igreja não existe autentica Contra-Revolução (cfr. N*****5, supra). Mas podemos admitir que determinados protestantes ou muçulmanos, por exemplo, se achem no estado de alma de quem começa a perceber toda a malícia da Revolução a tomar posição contra ela. De pessoas assim é de esperar-se que venham a opor à Revolução barreiras por vezes muito importantes: se corresponderem à graça, poderão tornar-se católicos excelentes e, portanto, contra-revolucionários eficientes. Enquanto não o forem, em todo caso obstam em alguma medida à Revolução e podem até fazê-la recuar. No sentido pleno e verdadeiro da palavra, eles não são contra-revolucionários. Mas pode-se e até se deve aproveitar a sua cooperação, com o cuidado que, segundo as diretrizes da Igreja, tal cooperação exige. Particularmente devem ser tomados em linha de conta pelos católicos os perigos inerentes às associações interconfessionais, segundo sabiamente advertiu São Pio X: "Com efeito, sem falar de outros pontos, são incontestavelmente graves os perigos a que, por causa de associações desta espécie, os nosso expões ou com certeza podem expor, quer a integridade de sua fé, quer a justa obediência às leis e preceitos da Igreja Católica" (Encíclica "Singulari Quadam", de 24-IX-1912 -- "Bonne Presse", Paris, vol. VII, p. 275).

O melhor apostolado dito "de conquista" deve ter por objeto esses não católicos de tendências contra-revolucionárias.





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