Revolução e Contra-Revolução



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A. O Concílio Vaticano II

Dentro da perspectiva de “Revolução e Contra-Revolução”, o êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo.

Este Concílio se quis pastoral e não dogmático. Alcance dogmático ele realmente não o teve. Além disto, sua omissão sobre o comunismo pode fazê-lo passar para a História como o Concílio a-pastoral.

Explicamos o sentido especial em que tomamos esta afirmação.

Figure-se o leitor um imenso rebanho enlanguescendo em campos pobres e áridos, atacado de todas as partes por enxames de abelhas, vespas, aves de rapina.

Os pastores se põem a regar a pradaria e a afastar os enxames. -- Esta atividade pode ser qualificada de pastoral? -- Em tese, por certo. Porém, na hipótese de que, ao mesmo tempo, o rebanho estivesse sendo atacado por matilhas de lobos vorazes, muitos deles com peles de ovelha, e os pastores se omitissem completamente de desmascarar ou de afugentar os lobos, enquanto lutavam contra insetos e aves, sua obra poderia ser considerada pastoral, ou seja, própria de bons e fiéis pastores?

Em outros termos, atuaram como verdadeiros Pastores aqueles que, no Concílio Vaticano II, quiseram espantar os adversários “minores”, e impuseram livre curso -- pelo silêncio -- a favor do adversário “maior”?

Com táticas “aggiornate” -- das quais, aliás, o mínimo que se pode dizer é que são contestáveis no plano teórico e se vêm mostrando ruinosas na prática -- o Concílio Vaticano II tentou afugentar, digamos, abelhas, vespas e aves de rapina. Seu silêncio sobre o comunismo deixou aos lobos toda a liberdade. A obra desse Concílio não pode estar inscrita, enquanto efetivamente pastoral, nem na História, nem no Livro da Vida.

É penoso dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o “Concílio Vaticano II” como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja («FN1) Cfr. “Sermão” de Paulo VI, de 29/6/1972.»). A partir dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a “"fumaça de Satanás"“, que se vai dilatando dia a dia mais, com a terrível força de expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo da como que autodemolição (*).
(*) Em destaque nas páginas seguintes, comentário acrescentado pelo Autor em 1992.
A História narra os inúmeros dramas que a Igreja vem sofrendo nos vinte séculos de sua existência. Oposições que germinaram fora dela, e de fora mesmo tentaram destruí-la. Tumores formados dentro dela, por ela cortados, e que já então de fora para dentro tentaram destruí-la com ferocidade.

-- Quando, porém, viu a História, antes de nossos dias, uma tentativa de demolição da Igreja, já não mais feita por um adversário, mas qualificada de “"autodemolição"“ em altíssimo pronunciamento de repercussão mundial? («FN1) Cfr. “Alocução” de Paulo VI ao Seminário Lombardo, em 7/12/1968.»)

Daí resultou para a Igreja e para o que ainda resta de civilização cristã, uma imensa derrocada. A “Ostpolitik” vaticana, por exemplo, e a infiltração gigantesca do comunismo nos meios católicos, são efeitos de todas estas calamidades. E constituem outros tantos êxitos da ofensiva psicológica da “III Revolução” contra a Igreja (*).
(*) Em destaque nas páginas seguintes, comentário acrescentado pelo Autor em 1992.
B. A Igreja, moderno centro de embate entre a Revolução e a Contra-Revolução

Em 1959, data em que escrevemos “Revolução e Contra-Revolução”, a Igreja era tida como a grande força espiritual contra a expansão mundial da seita comunista. Em 1976, incontáveis eclesiásticos, inclusive Bispos, figuram como cúmplices por omissão, colaboradores e até propulsores da “III Revolução”. O progressismo, instalado por quase toda parte, vai convertendo em lenha facilmente incendiável pelo comunismo a floresta outrora verdejante da Igreja Católica.

Em uma palavra, o alcance desta transformação é tal, que não hesitamos em afirmar que o centro, o ponto mais sensível e mais verdadeiramente decisivo da luta entre a Revolução e a Contra-Revolução se deslocou da sociedade temporal para a espiritual, e passou a ser a Santa Igreja, na qual, de um lado, progressistas, criptocomunistas e pró-comunistas, e de outro lado, antiprogressistas e anticomunistas se confrontam («FN1) Desde os anos 30, com o grupo que mais tarde fundou a TFP brasileira, empregamos o melhor de nosso tempo e de nossas possibilidades de ação e de luta, nas batalhas precursoras do grande prélio interior da Igreja. O primeiro lance de envergadura nessa luta foi a publicação do livro “Em Defesa da Ação Católica” (Editora Ave Maria, São Paulo, 1943), que denunciava o ressurgimento dos erros modernistas incubados na Ação Católica do Brasil. Cabe mencionar também nosso posterior estudo “A Igreja ante a escalada da ameaça comunista -- Apelo aos Bispos silenciosos” (Editora Vera Cruz, São Paulo, 1976, pp. 37 a 53).

Hoje, decorridos mais de quarenta anos, a luta está no seu clímax, e deixa prever desdobramentos de amplitude e intensidade difíceis de medir. Nesta luta sentimos com alegria a presença, nos quadros da TFP e entidades afins, de tantos novos irmãos de ideal, em mais de vinte países, nos cinco continentes. Também no campo de batalha é legítimo que os soldados do bem se digam uns aos outros: “"Quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum"“ -- Quão bom e quão suave é viverem os irmãos em união (Sl. 132, 1).»).



C. Reações baseadas em "Revolução e Contra-Revolução"

À vista de tantas transformações, a eficácia de “Revolução e Contra-Revolução” ficou anulada? -- Pelo contrário.

Em 1968, as TFPs até então existentes na América do Sul, inspiradas na Parte II deste ensaio -- “"A Contra-Revolução"“ -- organizaram um conjunto de abaixo-assinados a Paulo VI, pedindo providências contra a infiltração esquerdista no Clero e no laicato católico da América do Sul.

No seu total, esses abaixo-assinados alcançaram durante o período de 58 dias, no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, 2.060.368 assinaturas. Foi, até aqui, ao que nos conste, o único abaixo-assinado de massa que -- sobre qualquer tema -- tenha englobado filhos de quatro nações da América do Sul. E em cada um dos países nos quais ele se realizou, foi -- também ao que nos conste -- o maior abaixo-assinado da respectiva história («FN1) NOTA DO EDITOR:” Posteriormente, em 1990, as TFPs dos vários países, reunidas, levaram a cabo o maior abaixo-assinado da História, pela libertação da Lituânia, então sob jugo soviético, obtendo a impressionante cifra de 5.212.580 assinaturas.»). A resposta de Paulo VI não foi apenas o silêncio e a inação. Foi também -- quanto nos dói dizê-lo -- um conjunto de atos cujo efeito perdura até hoje, os quais dotam de prestígio e de facilidade de ação a muitos propulsores do esquerdismo católico.

Diante desta maré montante da infiltração comunista na Santa Igreja, as TFPs e entidades afins não desanimaram. E, em 1974, cada uma delas publicou uma declaração («FN1) NOTA DO EDITOR:” Sob o título “"A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas -- Para a TFP: omitir-se? ou resistir?"“, essa declaração -- verdadeiro manifesto -- foi publicada a partir de abril de 1974, sucessivamente em 57 jornais de onze países.») na qual exprimiam a sua inconformidade com a “Ostpolitik” vaticana e seu propósito de “"resistir-lhe em face"“ («FN1) Gal. 2, 11.»). Uma frase da declaração, relativa a Paulo VI, exprime o espírito do documento: “"E de joelhos, fitando com veneração a figura de S.S. o Papa Paulo VI, nós lhe manifestamos toda a nossa fidelidade. Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe".”

Não satisfeitas com esses lances, as TFPs e entidades afins promoveram nos respectivos países, no decurso deste ano, nove edições do “best-seller” da TFP andina, “A Igreja do Silêncio no Chile -- A TFP proclama a verdade inteira” («FN1) Esta obra, monumental por sua documentação, por sua argumentação e pelas teses que defende, teve uma precursora, e verdadeiramente épica, antes ainda da instalação do comunismo no Chile.

Trata-se do livro de Fábio Vidigal Xavier da Silveira, “Frei, o Kerensky chileno”, que denunciou a colaboração decisiva do Partido Democrata Cristão do país andino, e do falecido líder pedecista Eduardo Frei, então Presidente da República, na preparação da vitória marxista.

O livro teve dezessete edições, transpondo a casa dos cem mil exemplares, nos seguintes países: Brasil, Argentina, Equador, Colômbia, Venezuela e Itália.»).

Em quase todos esses países, a respectiva edição foi precedida de um prólogo descrevendo múltiplos e impressionantes fatos locais consoantes com o que ocorrera no Chile.

A acolhida desse grande esforço publicitário pode-se dizer vitoriosa: ao todo foram impressos 56 mil exemplares, só na América do Sul, onde, nos países mais populosos, a edição de um livro dessa natureza, quando boa, costuma consistir em cinco mil exemplares.

Na Espanha, foi efetuado um impressionante abaixo-assinado de mais de mil sacerdotes seculares e regulares de todas as regiões do país manifestando à Sociedade Cultural Covadonga («FN1) NOTA DO EDITOR:” Hoje se denomina Sociedad Española de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad -- TFP Covadonga.») seu decidido apoio ao corajoso prólogo da edição espanhola.

D. Utilidade da atuação das TFPs e entidades afins, inspirada em "Revolução e Contra-Revolução"

Que utilidade prática tem tido, neste campo específico da batalha, a atividade contra-revolucionária das TFPs, inspirada em “Revolução e Contra-Revolução”?

Denunciando à opinião católica o perigo da infiltração comunista, elas lhe têm aberto os olhos para as urdiduras dos Pastores infiéis. O resultado é que estes vão levando cada vez menos ovelhas nos caminhos da perdição em que se embrenharam. É o que uma observação dos fatos, ainda que sumária, permite constatar.

Não é isto, só por si, uma vitória. Mas é uma preciosa e indispensável condição para ela. As TFPs dão graças a Nossa Senhora por estarem prestando, desta maneira, dentro do espírito e dos métodos da segunda parte de “Revolução e Contra-Revolução”, o seu contributo para a grande luta em que também outras forças sadias -- uma ou outra de grande envergadura e capacidade de ação -- se encontram empenhadas.



5. Balanço de vinte anos de III Revolução, segundo os critérios de "Revolução e Contra-Revolução"

Fica assim delineada a situação da “III Revolução” e da Contra-Revolução, como elas se apresentam pouco antes do vigésimo aniversário da publicação do livro.

De um lado, o apogeu da “III Revolução” torna mais difícil do que nunca um êxito da Contra-Revolução a breve prazo.

De outro lado, a mesma alergia anti-socialista, que constitui presentemente grave óbice para a vitória do comunismo, cria a médio prazo, para a Contra-Revolução, condições acentuadamente propícias. Cabe aos vários grupos contra-revolucionários esparsos pelo mundo a nobre responsabilidade histórica de as aproveitar.

As TFPs têm procurado realizar sua parte do esforço comum, difundindo-se ao longo destes quase vinte anos pela América, com uma novel TFP na França, suscitando uma dinâmica organização afim na Península Ibérica e projetando seu nome e seus contatos em outros países do Velho Mundo, com vivos anseios de colaboração voltados para todos os grupos contra-revolucionários que nele pelejam («FN1) NOTA DO EDITOR:” Até a data da presente edição, existem TFPs e entidades afins nos seguintes países: Brasil, África do Sul, Alemanha, Argentina, Austrália, Bolívia, Canadá, Colômbia, Chile, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela. As quais também estabeleceram escritórios de representação nas seguintes cidades: Roma, Paris, Frankfurt, Londres, Edimburgo, San José de Costa Rica, Sydney e Wellington (Nova Zelândia). Do mesmo modo, formou-se recentemente nas Filipinas um grupo de amigos das TFPs, de sensível força germinativa.).

Vinte anos depois do lançamento de “Revolução e Contra-Revolução”, as TFPs e entidades afins se acham ombro a ombro com as organizações de primeira fila, na luta contra-revolucionária.


Capítulo III

A Quarta Revolução que nasce

O panorama que assim se apresenta não seria completo se negligenciássemos uma transformação interna na “III Revolução”. É a “IV Revolução” que dela vai nascendo.

Nascendo, sim, à maneira de requinte matricida. Quando a “II Revolução” nasceu, requintou («FN1) Cfr. Parte I -- Cap. VI, 3.»), venceu e golpeou de morte a primeira. O mesmo ocorreu quando, por processo análogo, a “III Revolução” brotou da segunda. Tudo indica ter chegado agora para a “III Revolução” o momento, ao mesmo tempo pinacular e fatal, em que ela gera a “IV Revolução”, e por esta se expõe a ser morta.

-- No entrechoque entre a “III Revolução” e a Contra-Revolução, haverá tempo para que o processo gerador da “IV Revolução” se desenvolva por inteiro? Esta última abrirá efetivamente uma etapa nova na história da Revolução? Ou será simplesmente um fenômeno abortivo, que vai surgindo e desaparecerá sem influência capital, no entrechoque entre a “III Revolução” e a Contra-Revolução? O maior ou menor espaço a ser reservado para a “IV Revolução” nascente, nestas notas tão apressadas e sumárias, estaria na dependência da resposta a essa pergunta. Resposta essa, aliás, que, de modo cabal, só o futuro poderá dar.

Ao que é incerto, não convém tratar como se tivesse uma importância certa. Consagremos aqui, pois, um espaço muito limitado ao que parece ser a “IV Revolução”.

1. A IV Revolução prevista pelos autores da III Revolução

Como é bem sabido, nem Marx, nem a generalidade de seus mais notórios sequazes, tanto "ortodoxos", como "heterodoxos", viram na ditadura do proletariado a etapa terminal do processo revolucionário. Esta não é, segundo eles, senão o aspecto mais quintessenciado e dinâmico da Revolução universal. E, na mitologia evolucionista inerente ao pensamento de Marx e de seus seguidores, assim como a evolução se desenvolverá ao infinito no suceder dos séculos, assim também a Revolução não terá termo. Da “I Revolução” já nasceram duas outras. A terceira, por sua vez, gerará mais uma. E daí por diante...

É impossível prever, dentro da perspectiva marxista, como seria uma Revolução n.º XX ou n.º L. Não é impossível, entretanto, prever como será a “IV Revolução”. Essa previsão, os próprios marxistas já a fizeram.

Ela deverá ser a derrocada da ditadura do proletariado em conseqüência de uma nova crise, por força da qual o Estado hipertrofiado será vítima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual -- dizem os comunistas -- o homem terá alcançado um grau de liberdade, de igualdade e de fraternidade até aqui insuspeitável.



2. IV Revolução e tribalismo: uma eventualidade

-- Como? -- É impossível não perguntar se a sociedade tribal sonhada pelas atuais correntes estruturalistas dá uma resposta a esta indagação. O estruturalismo vê na vida tribal uma síntese ilusória entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade. Segundo tal coletivismo, os vários "eus" ou as pessoas individuais, com sua inteligência, sua vontade e sua sensibilidade, e conseqüentemente seus modos de ser, característicos e conflitantes, se fundem e se dissolvem na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns.

Bem entendido, o caminho rumo a este estado de coisas tribal tem de passar pela extinção dos velhos padrões de reflexão, volição e sensibilidade individuais, gradualmente substituídos por modos de pensamento, deliberação e sensibilidade cada vez mais coletivos. É, portanto, neste campo que principalmente a transformação se deve dar.

-- De que forma? -- Nas tribos, a coesão entre os membros é assegurada sobretudo por um comum pensar e sentir, do qual decorrem hábitos comuns e um comum querer. Nelas, a razão individual fica circunscrita a quase nada, isto é, aos primeiros e mais elementares movimentos que seu estado atrofiado lhe consente. “"Pensamento selvagem"“ («FN1) Cfr. Claude Lévy-Strauss, “La pensée sauvage”, Plon, Paris, 1969.»), pensamento que não pensa e se volta apenas para o concreto. Tal é o preço da fusão coletivista tribal. Ao pajé incumbe manter, num plano místico, esta vida psíquica coletiva, por meio de cultos totêmicos carregados de "mensagens" confusas, mas "ricas" dos fogos fátuos ou até mesmo das fulgurações provenientes dos misteriosos mundos da transpsicologia ou da parapsicologia. É pela aquisição dessas "riquezas" que o homem compensaria a atrofia da razão.

Da razão, sim, outrora hipertrofiada pelo livre exame, pelo cartesianismo, etc., divinizada pela Revolução Francesa, utilizada até o mais exacerbado abuso em toda escola de pensamento comunista, e agora, por fim, atrofiada e feita escrava a serviço do totemismo transpsicológico e parapsicológico...

A. IV Revolução e o preternatural

”"Omnes dii gentium dæmonia"“, diz a Escritura («FN1) "Todos os deuses dos gentios são demônios" -- Sl. 95, 5.»). Nesta perspectiva estruturalista, em que a magia é apresentada como forma de conhecimento, até que ponto é dado ao católico divisar as fulgurações enganosas, o cântico a um tempo sinistro e atraente, emoliente e delirante, ateu e fetichisticamente crédulo com que, do fundo dos abismos em que eternamente jaz, o príncipe das trevas atrai os homens que negaram Jesus Cristo e sua Igreja?

É uma pergunta sobre a qual podem e devem discutir os teólogos. Digo os teólogos verdadeiros, ou seja, os poucos que ainda crêem na existência do demônio e do inferno. Especialmente os poucos, dentre esses poucos, que têm a coragem de enfrentar os escárnios e as perseguições publicitárias, e de falar.

B. Estruturalismo -- Tendências pré-tribais

Seja como for, na medida em que se veja no movimento estruturalista uma figura -- mais exata ou menos, mas em todo caso precursora -- da “IV Revolução”, determinados fenômenos que se generalizaram nos últimos dez ou vinte anos devem ser vistos, por sua vez, como preparatórios e propulsores do próprio ímpeto estruturalista.

Assim, a derrocada das tradições indumentárias do Ocidente, corroídas cada vez mais pelo nudismo, tende obviamente para o aparecimento ou consolidação de hábitos nos quais se tolerará, quando muito, a cintura de penas de ave de certas tribos, alternada, onde o frio o exija, com coberturas mais ou menos à maneira das usadas pelos lapões.

O desaparecimento rápido das fórmulas de cortesia só pode ter como ponto final a simplicidade absoluta (para empregar só esse qualificativo) do trato tribal.

A crescente ojeriza a tudo quanto é raciocinado, estruturado e metodizado só pode conduzir, em seus últimos paroxismos, à perpétua e fantasiosa vagabundagem da vida das selvas, alternada, também ela, com o desempenho instintivo e quase mecânico de algumas atividades absolutamente indispensáveis à vida.

A aversão ao esforço intelectual, notadamente à abstração, à teorização, ao pensamento doutrinário, só pode induzir, em última análise, a uma hipertrofia dos sentidos e da imaginação, a essa “"civilização da imagem"“ para a qual Paulo VI julgou dever advertir a humanidade («FN1) “"Nós sabemos bem que o homem moderno, saturado de discursos, se demonstra muitas vezes cansado de ouvir e, pior ainda, como que imunizado contra a palavra. Conhecemos também as opiniões de numerosos psicólogos e sociólogos, que afirmam ter o homem moderno ultrapassado já a civilização da palavra, que se tornou praticamente ineficaz e inútil; e estar a viver, hoje em dia, na civilização da imagem"“ (cfr. Exortação apostólica “"Evangelii Nuntiandi"“, 8/12/1975, Documentos Pontifícios, nº 188, Vozes, Petrópolis, 1984, 6ª ed., p. 30).»).

São sintomáticos também os idílicos elogios, sempre mais freqüentes, a um tipo de "revolução cultural" geradora de uma futura sociedade pós-industrial, ainda incompletamente esboçada, e da qual o comunismo chinês seria -- conforme por vezes é apresentado -- um primeiro espécimen.

C. Despretensioso contributo

Bem sabemos quanto são passíveis de objeções, em muitos de seus aspectos, os quadros panorâmicos, por sua natureza vastos e sumários como este.

Necessariamente abreviado pelas delimitações de espaço do presente capítulo, este quadro oferece seu despretensioso contributo para as elucubrações dos espíritos dotados daquela ousada e peculiar finura de observação e de análise que, em todas as épocas, proporciona a alguns homens prever o dia de amanhã.

D. A oposição dos banais

Os outros farão, a esse propósito, o que em todas as épocas fizeram os espíritos banais e sem ousadia. Sorrirão e tacharão de impossíveis tais transformações, porque são de molde a alterar seus hábitos mentais. Porque elas aberram do bom senso, e aos homens banais o bom senso parece a única via normal do acontecer histórico. Sorrirão incrédulos e otimistas ante essas perspectivas, como Leão X sorriu a propósito da trivial "querela de frades", que foi só o que conseguiu discernir na “I Revolução” nascente. Ou como o feneloniano Luís XVI sorriu ante as primeiras efervescências da “II Revolução”, as quais se lhe apresentavam em esplêndidos salões palacianos, embaladas por vezes ao som argênteo do cravo. Ou então luzindo discretamente nos ambientes e nas cenas bucólicas à maneira do “Hameau” de sua esposa. Como sorriem, ainda hoje, otimistas, céticos, ante os manejos do risonho comunismo pós-staliniano, ou as convulsões que prenunciam a “IV Revolução”, muitos representantes altos, e até dos mais altos, da Igreja e da sociedade temporal no Ocidente.

Se algum dia a “III” ou a “IV Revolução” tomar conta da vida temporal da humanidade, acolitada na esfera espiritual pelo progressismo ecumênico, devê-lo-á mais à incúria e colaboração destes risonhos e otimistas profetas do "bom senso", do que a toda a sanha das hostes e dos serviços de propaganda revolucionários (*).
(*) Em destaque na página seguinte, comentário acrescentado pelo Autor em 1992.
E. Tribalismo eclesiástico -- Pentecostalismo

Falemos da esfera espiritual. Bem entendido, também a ela a “IV Revolução” quer reduzir ao tribalismo. E o modo de o fazer já se pode bem notar nas correntes de teólogos e canonistas que visam transformar a nobre e óssea rigidez da estrutura eclesiástica, como Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu e vinte séculos de vida religiosa a modelaram, num tecido cartilaginoso, mole e amorfo, de dioceses e paróquias sem circunscrições territoriais definidas, de grupos religiosos em que a firme autoridade canônica vai sendo substituída gradualmente pelo ascendente dos "profetas" mais ou menos pentecostalistas, congêneres, eles mesmos, dos pajés do estruturalo-tribalismo, com cujas figuras acabarão por se confundir. Como também com a tribo-célula estruturalista se confundirá, necessariamente, a paróquia ou a diocese progressista-pentecostalista (*).


(*) Em destaque nas páginas seguintes, comentário acrescentado pelo Autor em 1992.
3. Dever dos contra-revolucionários ante a IV Revolução nascente

Quando incontáveis fatos se apresentam suscetíveis de serem alinhados de maneira a sugerir hipóteses como a do nascimento da “IV Revolução”, o que resta ao contra-revolucionário fazer?

Na perspectiva de “Revolução e Contra-Revolução”, toca-lhe, antes de tudo, acentuar a preponderante importância que no processo gerador desta “IV Revolução”, e no mundo dela nascido, cabe à Revolução nas tendências («FN1) Cfr. Parte I -- Cap. V, 1 a 3.»). E preparar-se para lutar, não só no intuito de alertar os homens contra esta preponderância das tendências -- fundamentalmente subversiva da boa ordem humana -- que assim se vai incrementando, como a usar, no plano tendencial, de todos os recursos legítimos e cabíveis para combater essa mesma Revolução nas tendências. Cabe-lhe também observar, analisar e prever os novos passos do processo, para ir opondo, tão cedo quanto possível, todos os obstáculos contra a suprema forma de Revolução tendencial, como de guerra psicológica revolucionária, que é a “IV Revolução” nascente.

Se a “IV Revolução” tiver tempo para se desenvolver antes que a “III Revolução” tente sua grande aventura, talvez a luta contra ela exija a elaboração de um novo capítulo de “Revolução e Contra-Revolução”. E talvez esse capítulo ocupe por si só um volume igual ao aqui consagrado às três revoluções anteriores.

Com efeito, é próprio aos processos de decadência complicar tudo, quase ao infinito. E por isso cada etapa da Revolução é mais complicada que a anterior, obrigando a Contra-Revolução a esforços paralelamente mais pormenorizados e complexos.

* * *


Nessas perspectivas sobre a Revolução e a Contra-Revolução, e sobre o futuro do trabalho que cumpre levar a cabo em função de uma e de outra, encerramos as presentes considerações.

Incertos, como todo o mundo, sobre o dia de amanhã, erguemos em atitude de prece os nossos olhos até o trono excelso de Maria, Rainha do Universo. E ao mesmo tempo nos sobem aos lábios, adaptadas a Ela, as palavras do Salmista dirigidas ao Senhor:



“"Ad te levavi oculos meos, qui habitas in Caelis. Ecce sicut oculi servorum in manibus dominorum suorum. Sicut oculi ancillae in manibus dominae suae; ita oculi nostri ad Dominam Matrem nostram donec misereatur nostri" "Levanto meus olhos para ti, que habitas nos céus. Vede que, assim como os olhos dos servos estão fixos nas mãos dos seus senhores, como os olhos da escrava nas mãos de sua senhora, assim nossos olhos estão fixos na Senhora, Mãe nossa, até que Ela tenha misericórdia de nós" -- Cfr. Ps. 122, 1-2.»).

Sim, voltamos nossos olhos para a Senhora de Fátima, pedindo-Lhe quanto antes a contrição que nos obtenha os grandes perdões, a força para travarmos os grandes combates, e a abnegação para sermos desprendidos nas grandes vitórias que trarão consigo a implantação do Reino d'Ela. Vitórias estas que desejamos de todo coração, ainda que, para chegar até elas, a Igreja e o gênero humano tenham de passar pelos castigos apocalípticos -- mas quão justiceiros, regeneradores e misericordiosos -- por Ela previstos em 1917 na Cova da Iria.

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