Érico veríssimo solo de clarineta



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ÉRICO VERÍSSIMO


SOLO DE CLARINETA

memórias


2.° Volume

(Segunda Parte, póstuma, organizada por Flávio Loureiro Chaves)


Editora Globo - Porto Alegre 1976
Copyright © 1975 by Érico Veríssimo

Desenho e capa: Jussara Cruber

Planejamento gráfico: Sônia M. Gonzales de Mendonça

Direitos exclusivos de edição, em língua portuguesa/ da Editora Globo S. A. Porto Alegre — Rio Grande do Sul — Brasil


FICHA CATALOGRÁFICA

[Preparada pelo Centro de Catalogação-na-Fonte, Câmara Brasileira do Livro, SP]


Veríssimo, Érico, 1905-1975.

V619s Solo de clarineta: memórias. Porto Alegre,

v.1-2 Globo, 1973-1976.

2v. (Sagitário)


Vol. 2: "Segunda parte, póstuma, organizada por Flávio Loureiro Chaves".
1. Veríssimo, Érico, 1905-1975 I. Chaves, Flávio Loureiro, 1914- II. Título. III. Série.

B

76-0180 CDD-92 8.699



índice para catálogo sistemático:

1 . Brasil : Escritores : Biografia 928.699


"Creio que a história da minha vida seguiu uma trajetória clara e até certo ponto coerente, e que se tem mantido ininterrupta desde meus dezoito anos. É como o leitmotiv duma sinfonia. Depois daquela terrível noite em 1922, quando meus pais se separaram, eu saí em busca do Lar Perdido. E tudo quanto até hoje tenho feito ou deixado de fazer, todas as minhas audácias ou temores, meus avanços ou recuos, a minha fidelidade a certos princípios — têm sido determinados por essa busca no tempo e no espaço. Eu poderia gritar triunfalmente quo por fim encontrei o que procurava."

Solo de clarineta

ÉRICO VERÍSSIMO

"Desde criança fui possuído pelo demônio das viagens. Essa encantada curiosidade de conhecer alheias terras e povos visitou-me repetidamente a mocidade e a idade madura. Mesmo agora, quando já diviso a brumosa porta dos setenta, um convite à viagem tem ainda o poder de incendiar-me a fantasia." E por isso, a segunda parte das memórias de Érico Veríssimo teria sido dedicada quase inteiramente á narração de suas visitas a outros países, não tivesse o viajante atingido tão bruscamente seu ponto de chegada. Confessando sua paixão pelo viajar, só igualada pela música (se esquecermos que escrever era a primeira entre todas), dizia que esses períodos de sua vida mereciam o espaço que viessem a tomar neste volume, se bem que alguns talvez preferissem uma investida menor no espaço externo e maior no interno. Dessa forma, foi na árdua reconstrução de suas recordações de lugares e pessoas que concentrou durante longos meses (1974 e 1975) a atenção, levado por aquela insofreável lealdade para com o leitor que o impelia a pintar um retrato não só vivido, mas preciso, informativo e muito pessoal dos homens e das coisas que o haviam impressionado pelo mundo a fora.

À terceira parte de suas memórias pretendia deixar suas opiniões sobre os colegas de ofício, no país e no exterior, sobre pensadores, artistas e cientistas que conhecera e respeitara e, principalmente, o depoimento sobre a arte da ficção, a dura disciplina, as leituras incessantemente procuradas e renovadas, o domínio das técnicas, enfim, a chamada "luta pela expressão".

A morte, porém, viria a frustrar esses planos, como bem o demonstra o volume que aqui apresentamos. O capítulo "Mundo Velho sem Porteira" ficou interrompido ao fim da visita a Portugal, faltando todas as outras regiões constantes no roteiro que aparece nessa edição em reprodução fac-similada. Apenas alguns excertos sobre a Espanha e o capítulo que dera como pronto, sobre a Holanda, foram encontrados em redação mais ou menos definitiva, tendo sido aproveitados, após um escrupuloso trabalho de editoração do Prof. Flávio Loureiro Chaves, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Os inúmeros manuscritos encontrados no gabinete do escritor estavam em esboço, de modo que ficou-nos, da terceira parte, somente o capítulo final, "O Escritor e o Espelho", uma espécie de retrospecto de sua vida de homem e intelectual, que Érico ainda desejava modificar. Também esse manuscrito foi incluído aqui, pois é talvez a versão mais aproximada do testemunho que o grande escritor gaúcho teria deixado sobre si mesmo.

Eis, pois, o segundo e, infelizmente, o último volume das memórias de Érico Veríssimo, que é publicado graças à colaboração inapreciável do Prof. Loureiro Chaves, de Mafalda e Luís Fernando Veríssimo e de Maurício Rosenblatt, a quem muito agradecemos.

Publicação da Editora Globo
SUMÁRIO

Nota dos Editores 6


PRIMEIRA PARTE
CAPITULO I

O Arquipélago das Tormentas 7


CAPITULO II

Sol e Mel 38


CAPÍTULO III

Entra o Senhor Embaixador 51


CAPÍTULO IV

Mundo Velho sem Porteira! 57


SEGUNDA PARTE

Nota do Organizador 210


ESPANHA 263

Caminho de Sevilha 214

Granada: Em Busca do Menino Federico 228
HOLANDA 239
O ESCRITOR E O ESPELHO 248


NOTA DOS EDITORES
Quando Érico Veríssimo faleceu, este segundo volume das suas memórias achava-se em plena elaboração. As primeiras 251 páginas abrangendo os capítulos I, II, III e IV já estavam impressas e revisadas pelo autor, que então trabalhava intensamente na conclusão das etapas subseqüentes.

A Editora Globo, após as necessárias consultas, decidiu incluir no volume aqueles textos que, embora incompletos na sua redação, pudessem ser aproveitados sem prejuízo do espírito que orientou o plano inicial do Solo de Clarineta. Acreditamos tratar-se dum material precioso para os leitores de Érico Veríssimo e de importância para os estudiosos da literatura que, no futuro, venham a empreender a elucidação de sua obra.

Em acordo com a família do escritor, o trabalho de organização, transcrição e anotação dos originais vários dos quais ainda em manuscrito foi solicitado a Flávio Loureiro Chaves, Professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, conhecedor abalizado da obra de Érico Veríssimo e do seu método narrativo. Os textos que daí resultaram compõem a 2.a Parte do presente volume. Os critérios adotados por Flávio Loureiro Chaves para a editoração destes originais são devidamente explicados por ele à página 259.

A publicação de Solo de Clarineta II vem talvez saldar o compromisso que Érico Veríssimo assumira com o seu público leitor. Além disso constitui, também, a homenagem da Editora Globo àquele que, ao longo de sua existência como cidadão e escritor, tornou-se um dos paradigmas da vida intelectual brasileira.

OS EDITORES
PRIMEIRA PARTE


CAPITULO I
O ARQUIPÉLAGO DAS TORMENTAS

1
Voltamos para Porto Alegre em setembro de 1956. Três meses mais tarde o noivo de Clarissa chegou para o casamento. Era a primeira vez que visitava um país estrangeiro. Não sabia uma palavra de português.

Tivemos uma pequena dificuldade a resolver (os mitos! os ritos!) com a ajuda do pároco da igreja de N. S.a do Rosário. Como meu futuro genro fosse de origem judaica, a Igreja não permitia que a cerimônia religiosa se realizasse, como de costume, à frente do altar-mor. Assim Clarissa e Dave casaram-se na sacristia, às onze horas duma clara e morna manhã de dezembro.

À uma da tarde Mafalda forrou-se de belergal e até hoje me assegura que não se lembra muito claramente do que aconteceu naquele dia. Quanto a mim, recorri a um expediente não bioquímico: disfarcei-me psicologicamente de fotógrafo e andei dum lado para outro, subindo em cadeiras e mesas, de câmara e flash em punho, tirando fotografias em cores dos recém-casados e dos convidados à boda.

Quem pronunciou a frase áurea do dia foi minha mãe. Ao apertar a mão do noivo, D. Bega, que não sabia patavina de inglês, encarou-o e, à sua melhor maneira gaúcha, murmurou: "Então este é o filho da puta que vai roubar a minha neta?".

Dois dias depois Clarissa e Dave tomaram um avião da VARIG, rumo do Rio, onde deviam embarcar para Nova Iorque num dos navios da Moore-McCormack. Mafalda recusou ir ao aeroporto. Levei o casal no meu carro. ("Sire, um tamboreiro inglês não sabe tocar retirada!")

De instante a instante eu olhava furtivamente para o mostrador de meu relógio, cuja pulseira de metal apertava um pulso que devia estar batendo mais depressa que de costume. Os amigos e amigas de Clarissa que tinham ido despedir-se dela, cercavam-na em alegre algazarra. Eu rna! ousava encarar meu filho, que estava a meu lado, taciturno como eu.

Chegou por fim a hora dos adeuses. Chamei Clarissa à parte e, com um ar patético de último ato de tragédia, sussurrei: "Vou fazer-te o meu último .pedido. Quando chegares a Washington compra uma gravata nova para o teu marido. Essa que ele está usando agora é pavorosa".

Ao deixar o aeroporto, de volta para casa, veio-me à mente a figura de Lord Tantamount, o biólogo amador do Contraponto de Huxley, que costumava cortar o rabo de salamandras para observar depois como se regeneravam os seus tecidos e elas recuperavam a parte mutilada de seus corpos.

Que tipo de salamandra psicológica seria eu? Quanto tempo levaria para me refazer da mutilação sentimental que acabava de sofrer?

2
Em fins de outubro de 1956 realizava-se no auditório da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre um ato público de protesto contra a brutal intervenção militar soviética na Hungria. Convidado a tomar parte nessa reunião, fiz o discurso que passo a transcrever na sua essência porque, dum modo geral, isto é, no que diz respeito a princípios básicos, seu conteúdo deixa clara minha posição política, que tanta gente até hoje parece não ter ainda compreendido:


Minha solidariedade ao povo húngaro, neste momento tão barbaramente agredido, e meu protesto contra a criminosa intervenção armada soviética não terá nenhum valor e nenhum sentido se eu antes não deixar bem claro meu pensamento em. face de certos acontecimentos políticos e sociais de nosso tempo.

Sei que vou ferir suscetibilidades, tocar em pontos nevrálgicos. Sinto muito. É inevitável. Esta é a hora de falar alto e claro, e afinal de contas aqui estamos para, entre outras coisas, proclamar o direito que cada membro da raça humana tem de dizer e escrever o que pensa.

Não quero que a minha presença nesta sala e as minhas palavras está noite sejam interpretadas como um voto que faço para que a Hungria volte ao tipo de Governo que tinha antes da Guerra. Quero deixar inequivocamente expressa a,minha repulsa ao aspecto feudalista, fascista e racista do antigo regime húngaro.

Quando em 1935 as tropas de Mussolini invadiram a Abissínia, firmei o manifesto em que intelectuais brasileiros protestavam contra a bárbara agressão fascista. Protestei também, não uma mas mil vezes,, quando em 1937 o Generalíssimo Francisco Franco aceitou o auxílio de tropas da Alemanha e da Itália, que massacraram parte do povo espanhol, usando-o como cobaia para experiências com as armas modernas que aqueles dois países, então totalitários, haveriam de usar na guerra que em breve viriam a provocar. O pacto russo-alemão que em 1939 permitiu a invasão e a mutilação da Polônia, abrindo aos nazistas o caminho para a conquista da Europa, teve também o meu repúdio, que foi manifestado repetidamente em público. Incontáveis vezes lancei meu protesto apaixonado contra as perseguições e atrocidades de que tem sido vítima o povo judeu em tantas partes do mundo. As violências praticadas pela Inglaterra contra os patriotas de Chipre e as da França contra os nacionalistas da Algéria têm a minha mais decidida antipatia.

Para que ponto cardeal do comportamento humano convergem esses sentimentos e manifestações? Em que partido político me enquadram? É muito simples a resposta. Eles indicam que o escritor que agora vos fala coloca acima de conveniências político-partidárias, acima de doutrinas filosóficas, econômicas ou sociais, a causa da dignidade do homem, de seu direito a uma vida decente, produtiva e bela, de seu privilégio de escolher livremente a própria religião e os próprios governantes, e manifestar-se publicamente, sem qualquer tipo de pressão física ou psicológica.

E é em nome dessa causa e desses direitos que venho hoje trazer a minha solidariedade de homem e de escritor ao povo húngaro, que está sendo vítima de uma das mais brutais e revoltantes agressões da História dos tempos modernos. Ficar calado ou indiferente diante de tal intervenção armada é o mesmo que consentir tacitamente na volta da humanidade à barbárie, ao horrendo império do direito da força. Se nesta hora elevarmos os motivos partidários, ideológicos ou de "realismo político" acima dos sentimentos de fraternidade humana, teremos, no mais imbecil dos suicídios coletivos, assinado a nossa própria sentença de morte tanto civil como biológica.

Ê preciso alertar a consciência do mundo e exigir-lhe ao menos alguma coerência. Não me parece lógico condenar a Esquerda pelos mesmos crimes que toleramos ou mesmo aplaudimos quando cometidos pela Direita. Sempre repeli com horror aqueles que, sob o pretexto de nos salvarem a alma, querem queimar-nos os corpos. Não aprovo a idéia totalitária de que os fins justificam os meios. Odeio todos os tipos de ditadura, inclusive os chamados benignos ou paternalistas. Detesto qualquer forma de coação. A causa daqueles que lutam pela liberdade será sempre a minha causa. Não aceito como são e válido nenhum regime político e econômico que não tenha como base o respeito à pessoa humana.

Nos sistemas totalitários esse desrespeito se exprime numa ditadura policial; na manutenção de campos de concentração; no sacrifício do indivíduo, que é um ente real, em benefício da coletividade, que é uma mera abstração; nos expurgos físicos e na ausência dos mais elementares direitos civis.

Mas é preciso não esquecer que no nosso mundo capitalista também não se respeita a pessoa humana, pois aceitamos um regime de privilégios, monopólios e injustiças sociais crônicas, o qual permite que milhões de pessoas vivam miseravelmente alienadas, num plano mais animal do que humano.

Dias depois desse comício, Maurício Rosenblatt manifestou-me em particular sua opinião sobre o meu discurso. Como eu, abomina a violência e os regimes totalitários, mas olhando os acontecimentos com um olho frio, concluía que Nikita Kruschev nada mais fizera que seguir o realismo político stalinista. Se perdesse a Hungria para o Ocidente, a Rússia soviética teria uma cunha inimiga permanente e perigosamente cravada no seu flanco. "Não te iludas" — concluiu o meu clarividente amigo — "em situação idêntica o Governo americano teria agido da mesma maneira que o soviético". Repeli esta hipótese como absurda, porém menos de dez anos mais tarde eu viria a lançar o meu protesto público contra a intervenção militar dos Estados Unidos no Vietname e na República Dominicana.

3
Decidimos passar janeiro e fevereiro de 1957 na cidade. ("Chega de viagens" — dissera-me minha mãe, acrescentando: "Agora sosseguem o pito".)

Examinei as muitas notas que tinha com sugestões para O Arquipélago. Comecei a fazer-me perguntas... Uma delas me deixou desconcertado. Não teria, eu aceito o convite de João Neves da Fontoura levado pelo desejo inconsciente de encontrar um "pretexto honroso" para não ter de enfrentar a tarefa de escrever o último volume da trilogia, que sabia complexo e difícil? Sim, porque todas as minhas inibições, preguiças,, temores ficariam perfeitamente coonestados: o senhor diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana seria um homem muito ocupado com assuntos interamericanos e portanto não teria tempo cronológico nem psicológico para escrever romances...

E agora que desculpa podia apresentar eu a mim mesmo? Nenhuma! Precisava começar a trabalhar imediatamente. Havia comprado em Washington uma máquina de escrever portátil dum vermelho da China (sem a menor alusão política, creiam-me) e a bela mancha de tão viva cor estava agora sobre a mesa, diante de mim. Fiquei mais uma vez a olhar para uma folha de papel em branco. Afastei a máquina e, segundo um velho hábito ou mania, entrei a fazer desenhos com lápis de massa de várias cores, a atenção longe daquele tempo e daquele espaço. Um impulso do "computador" guiou-me a mão. Desenhei um chapéu de copa alta e cônica, com largas abas. E outro chapéu... E mais outro e outro. Sob os sombreros, caras indiáticas cor de terra de Siena queimada. As figuras do primeiro plano tinham as faces voltadas para mim, mas as outras estavam de costas e afastavam-se numa perspectiva que terminava numa porta... Já então eu conscientemente havia decidido que aqueles homens — estava claro que eram mexicanos! — entravam numa igreja. Desenhei sumariamente a fachada plateresca do templo, encimada por uma cúpula coberta de mosaicos amarelos e azuis. Era domingo e repicavam os sinos. México! Veio-me urna súbita saudade das imagens, da luz e da música desse país esplendorosamente plástico. Senti então uma vontade irresistível de escrever minhas impressões de viagem à pátria de Orozco, Rivera, Siqueiros e Juan Rulfo.

Mas afinal de contas, que podia eu saber do México? Passara na sua capital uma única noite, em 1941, entre um avião e outro, rumo da América Central. Minha segunda viagem ao México não durara mais de uma semana. A terceira, em 1955, prolongara-se durante quase um mês e me levara a diversas regiões do país. Fosse como fosse, eu me sentia de maneira misteriosa identificado com aquela terra e seu povo. Bom, identificado talvez não fosse a palavra exata. C melhor seria dizer que eu não conhecia o México, mas amava-o. Não era a mesma coisa? Claro que era! O amor, corno a arte, é uma das mais legítimas formas de conhecimento. A gente e as coisas mexicanas fascinavam em mim o romancista, o pintor irrealizado e possivelmente o remoto índio que dormita agachado em algum abscôndito recanto de meu ser.

Passei todo aquele verão e parte do outono que se seguiu absorvido a escrever sobre o México, com um enorme gosto e ímpeto. De certo modo a luz e o calor desse país mágico e trágico tiveram o dom de acelerar o processo de descongela-mento da cidade de Santa Fé e das personagens de O Arquipélago.

4
Foi em abril do ano seguinte que pela primeira vez meu coração deu um forte sinal de alarma. No momento em que comecei a fazer, de improviso, o discurso inaugurai dum congresso, em Porto Alegre, num auditório repleto de gente, à luz de holofotes e diante de fotógrafos e de cinegrafistas de televisão, meu coração disparou e ficou a bater com assustada fúria, ao mesmo tempo que eu sentia um aperto na garganta, uma opressão no peito, um estonteamento... Fiz um enorme esforço para controlar a voz e os pensamentos, evitando que minha sintaxe seguisse o desordenado ritmo cardíaco.

Creio que ninguém percebeu o que se passava comigo.

Havia muito meu primo, o Dr. Franklin Veríssimo, excelente cardiologista, insistira para que eu começasse um sério tratamento cardíaco preventivo — conselho este que não segui. Levou-me ele a seu consultório várias vezes, para exames gerais. Receitou-me medicamentos que não tomei. Recomendou-me um tipo de vida que não levei. Por quê? Talvez porque, seguindo um pensamento mágico mas estúpido, eu achava que nada de grave me poderia acontecer...

Entra em cena agora uma personagem por mais dum título importante na minha vida. Havia algum tempo que eu conhecia, de longe, o Dr. Eduardo Faraco, de quem Moysés Vellinho mais de uma vez me falara com grande admiração intelectual e humana. Confesso que não me havia ainda detido no exame da personalidade desse médico. Nossos caminhos raramente se cruzavam. A imagem que eu guardava dele no complicado arquivo da memória era a dum homem muito bem apessoado, de ares um tanto agressivos — garboso gladiador permanentemente no centro da arena, à espera do próximo retiário. Algo em seu rosto — talvez o desenho da boca — dava-lhe uma quase permanente expressão de desdém.

Só em 1955 é que, em Washington, tive a oportunidade de conviver com Eduardo Faraco e conhecê-lo melhor. Para resumir numa frase simples um processo complexo, direi que nos tornamos amigos. Rasguei sua "ficha" antiga, substituindo-a

por urna nova, que se foi aos poucos enriquecendo de anotações mais acuradas. Lembro-me de que uma vez estávamos discutindo não me lembro exatamente que, quando em dado momento Faraco fez uma dessas perguntas retóricas que são, por assim dizer, trampolins numa conversação. "Sabes o que são as cores, não?" Interrompi-o: "As cores são doenças da luz". Ele me olhou, franziu a testa, e disse: "Deixa de literatura, índio!". Vencendo a minha tradicional preguiça, dei um salto mortal que me levou meio às cegas de volta a uma certa página dum texto ginasial de Física.

É curioso como nesse clínico e professor de Medicina a capacidade de raciocinar com fria objetividade científica pode coexistir — nem sempre pacificamente, é verdade — com seu temperamento inflamável de meridional. (Tem nas veias sangue italiano, tanto pelo lado paterno como pelo materno.)

Pois foi esse "calabrês do Alegrete", que me chamava de "índio da Cruz Alta" que, em fins daquele 1957, me alertou para os perigos dum distúrbio cardiovascular repetindo, de modo mais dramático, as recomendações do Dr. Franklin.

Até havia seis anos passados eu jogara regularmente tênis, mal mas com prazer. Disputava vários sets, sem interrupção, correndo muito, sem que meu coração jamais protestasse. Agora, porém, sempre que subia uma escada ou uma ladeira, ficava ofegante, sentia uma opressão no peito, uma espécie de ardência na garganta... Decidi levar a sério o tratamento sugerido com tanta veemência por dois grandes médicos. Dentro de poucos meses, porém, relaxei-o, passando a me interessar mais pelo coração duma certa personagem do que pelo meu próprio. É que, finalmente, tinha começado a escrever O Arquipélago. O Dr. Rodrigo Cambará sofrerá já dois enfartes e exigia toda a minha atenção e cuidado.

Em janeiro de 1958 Mafalda e eu fomos para a Praia de Torres, onde nos instalamos numa vivenda que os Dantas, um casal de amigos, nos emprestaram pela metade da temporada de verão. Quando chegamos, chovia torrencialmente. Nossa casa ficou ilhada em meio de charcos e pequenas lagoas. A chuva continuou quase ininterruptamente durante três ou quatro dias. Assim, foi contra um fundo musical feito por um cora! de sapos que escrevi as páginas iniciais do último volume da trilogia. Meti-me no corpo do Dr. Rodrigo Cambará no momento em que ele sofreu um edema pulmonar agudo.

A chuva finalmente parou. Surgiu o sol. Entrei na minha rotina de veranista. Acordava às oito da manhã, às nove estava batendo na máquina de escrever, às onze ia para a praia, fazia a minha caminhada pela beira do mar, até à foz do rio Mampituba e depois me deitava na areia e ficava conversando com amigos. Após o almoço, entregava-me a uma rápida sesta, da qual despertava estonteado, com um desejo danado de continuar a dormir. Mas reagia, vencia a sonolência, sentava-me junto à máquina de escrever, relia o que havia escrito pela manhã e de súbito, magicamente, entrava na dimensão do romance, e eu já não era mais eu, mas sim, alternadamente, Rodrigo, Floriano, Toríbio, Maria Valéria, Flora, Tio Bicho... Tinha às vezes a impressão de que meu organismo produzia, sem o auxílio de qualquer droga, uma espécie de dexedrina que me excitava, aguçando-me o espírito e fazendo-me trabalhar horas e horas com tão apaixonada intensidade que se me tornava difícil, quase doloroso, parar. Era, pois, com certa tristeza que eu via o sol sumir-se por trás dos montes, pois a qualidade da luz elétrica de que dispúnhamos não me permitia escrever à noite.

Fiz um dia, à margem duma das folhas dos originais de O Arquipélago, esta anotação a lápis:
16 de janeiro de 1958. Cinco da tarde. Recebo a visita inesperada de I.J., pessoa que admiro e estimo. Contrariado, paro de escrever mas não consigo sair de dentro do romance. I. conversa animadamente durante uns quarenta minutos. Ê como se ele estivesse falando aramaico. Não entendo nada do que diz, porque não estou nesta sala nem nesta hora.

5
Um anoitecer, estávamos Mafalda e eu sossegadamente no alpendre da casa, olhando as fantásticas abstrações que o sol pintava no horizonte crepuscular, por trás do perfil da serra, quando uma senhora desconhecida irrompeu em nosso jardim aos gritos e me suplicou fosse socorrer um vizinho que tinha caído de repente sem sentidos. Entrei no meu carro e dirigi-me para o lugar do acidente. Encontrei uma mulher ainda jovem a gritar desesperadamente, enquanto tentava erguer o busto dum homem que jazia estendido no chão, completamente desacordado. "Socorro!" — exclamou ela ao ver-me. — "Acudam o meu marido!" Este aparentava trinta anos, era mais ou menos da minha altura, mas muito mais corpulento. Segurei-o por baixo dos braços, arrastei-o para junto do carro, sentei-me no banco da frente e, auxiliado pela mulher, que lhe ergueu as pernas, consegui com grande esforço içá-lo para dentro. Nesse momento meu coração já batia mais acelerado. Que fazer? A cabeça do homem caiu pesada sobre o meu ombro. Sua perna fria tocou a minha. A mulher, sentada a seu lado, abraçava-o, chorando, e me contava confusamente o que havia acontecido. O marido estava ensinando uma das filhinhas a andar de bicicleta, quando de repente, sem soltar um ai, caíra no chão como que fulminado.

Toquei para uma farmácia, na esperança de lá encontrar um médico, o que não aconteceu. Tomei o pulso do desconhecido e não o senti bater. Seus olhos estavam cerrados, a boca entreaberta, o peito imóvel sem o menor sinal de respiração. Precipitei o carro a toda a velocidade rumo do hospital, em cuja frente encontramos duas irmãs de caridade, gordas e plácidas, sentadas em cadeiras, na calçada, na quietude do anoitecer. Corri para elas e contei-lhes rapidamente o que se passava. Disseram-me que àquela hora não havia nenhum médico no hospital. E um enfermeiro que me pudesse ajudar a carregar para dentro o paciente? — indaguei. Também não havia nenhum no momento. A mais velha das irmãs me disse que ia chamar um doutor que morava nas vizinhanças, e lá se foi, caminhando tão depressa quanto lhe permitiam a corpulência e a idade. A outra irmã trouxe de dentro do edifício uma mesa com rodas. De novo segurei o homem, fazendo passar os meus braços por baixo dos seus, e trançando as minhas mãos sobre o seu peito. Com o auxílio das mulheres, consegui colocá-lo em cima da mesa e levá-lo até uma das salas do hospital.

Minutos depois chegou o médico e, com uma lentidão exasperante, pôs-se a examinar aquele corpo inerte. Auscultou-Ihe o peito, examinou-lhe as pupilas e por fim aproximou-lhe da boca um espelho de bolso. Ergueu os olhos para mim e murmurou: "A coisa está preta". Meteu o estetoscópio na bolsa e retirou-se.

Algum tempo depois apareceu-nos por puro acaso outro médico, um veranista que eu conhecia pessoalmente. Contei-lhe o que havia acontecido. Ele chamou uma das irmãs, pediu-lhe que preparasse uma seringa com agulha e aplicou uma injeção de adrenalina diretamente no coração do paciente, mas sem nenhum resultado. "Não há mais nada a fazer" — disse-me. "O homem está morto." Pedi-lhe que fosse dar a notícia à viúva que, desfeita em pranto, se encontrava na sala contígua, onde uma das irmãs tratava de confortá-la.

Fiquei a olhar para o defunto, cujo nome até hoje não fiquei sabendo. Vestia apenas um calção de praia. Nunca mais pude esquecer a expressão daqueles pés brancos, e senti com o olhar que já estavam frios.

Caminhando sozinho aquela noite pela praia deserta, fiz algumas reflexões sobre a morte. Desde que completara cinqüenta anos eu começara a pensar com mais freqüência — mas não obsessivamente — na possibilidade de cessar de ser, dum segundo para outro.

Havia menos de duas horas carregara nos braços um cadáver. Aqueles pés brancos e frios pareciam conter uma terrível advertência.

Parei diante do mar. As ondas rolavam para a praia, soltando um gemido que parecia vir ameaçador das profundezas, mas que acabava desfeito em suspiros de espumas sobre as areias. No céu sem lua as estrelas cintilavam. O vento do largo me batia, morno, na cara.

Seguindo um hábito que me vem da infância, comecei a conversar comigo mesmo em voz alta. Vieram-me à mente trechos dum livro do teólogo existencialista Paul Tillich, que eu acabara de ler. Meu intelecto então começou a doutrinar o corpo.

"É necessário que te convenças de que o não-ser é parte de nosso próprio ser. O não-ser depende do ser que ele nega. Deste modo, meu amigo, o ser tem uma prioridade ontológica sobre o não-ser. Não poderia haver negação se não houvesse uma afirmação precedente a ser negada."

Meu coração escutava, sem comprometer-se. No alto de um dos três rochedos de basalto, ao longo da praia, o pequeno farol cumpria o seu dever, mandando de instante a instante uma mensagem luminosa aos navegantes da noite.

Repeti uma frase de Tillich: O ser é a negação da noite primordial do nada. E meu corpo quis saber como era essa noite. Expliquei que se trata de algo impossível de verbalizar.

Continuei a caminhar pela beira do mar, pisando em conchas, algas e medusas. "Mas quem ganha a batalha final é o nada" — queixou-se o meu corpo. Sacudi a cabeça negativamente. "Há um limite para essa vitória. Se sentimos o não-ser como um vencedor, o ato de sentir pressupõe o ser!"

Mas era melhor pensar em coisas positivas. Dentro de menos de dois meses Mafalda e eu ganharíamos nosso primeiro neto. Essa idéia me encheu o peito duma doce alegria, espantando de minha cabeça os pensamentos de morte.

Um caranguejo da areia, renda clara e móvel na praia morena, passou na minha frente, rumo dos cômoros. Encaminhei-me para o automóvel, sentei-me atrás do volante e pus o motor em movimento. Meus pés sentiram um corpo estranho perto do acelerador. Acendi a luz para ver do que se tratava. Eram as chinelas do defunto.

6
Quando voltei para Porto Alegre, em meados de março, as paineiras estavam já floridas, a luz amadurecia e as folhas dos plátanos começavam a amarelecer e cair. Uma noite, para celebrar a entrada de outono, ouvimos em casa o quinteto para clarineta e cordas, de Brahms.

No dia 30 daquele mesmo mês, estava eu numa das salas da Editora Globo a conversar com meu amigo Mario Lima, quando Mafalda me telefonou e, comovida, leu o cabograma em que nosso genro nos comunicava o nascimento de Michael, ocorrido no dia anterior. Se eu fosse um sujeito puro, naquele momento teria exclamado: "Ganhei um neto! Abracem-me! Sou avô! Não me podia ter acontecido nada de melhor!". E sairia a distribuir abraços e beijos entre as pessoas que encontrasse. Mas qual! O velho pudor de revelar emoções me tolheu. Lá estava Mr. Stanley, em pleno coração da África, a apertar a mão do outro cavalheiro: "É o Dr. Livingstone, presumo...".

Transmiti a notícia ao amigo de maneira quase impessoal. Ele me abraçou. Eu sentia o neto na garganta, no peito, nas entranhas, em todo o corpo. Dirigi-me para o meu automóvel — aéreo, feliz, meio trêmulo, os olhos úmidos —, acionei o motor e toquei para casa, sentindo-me mais rico e ao mesmo tempo mais vulnerável que nunca.

Continuei a trabalhar no terceiro volume da trilogia. Em certos dias, ao cabo de sete horas maciças de trabalho, sentia uma canseira cerebral tão grande que ficava incapacitado para qualquer convívio social. Não raro a fadiga transformava-se em irritação e, olhando através desse estado de espírito o trabalho até então realizado, minha tendência era a de achá-lo péssimo. Bastavam-me, entretanto, umas seis ou sete horas de sono para recuperar o entusiasmo perdido na véspera. E de novo lá estava a bater, ora na velha máquina preta, ora na nova vermelha, enchendo páginas e páginas de palavras. Tinha já terminado as duas primeiras partes do livro, O Deputado e Lenço Encarnado.

Entrou o inverno e continuei a trabalhar. Dúvidas me assaltavam com freqüência. Achava que o livro me estava saindo longo demais. Ao escrever O Continente, o que a princípio me parecera um obstáculo, isto é, a falta de documentos e de um maior conhecimento dos primeiros anos da vida do Rio Grande do Sul, tinha na realidade sido uma vantagem. Era como se eu estivesse dentro dum avião que voava a grande altura: podia ter uma visão de conjunto, discernia os contornos do Continente. Viajava num país sem mapas, e outra bússola não possuía além de minha intuição de romancista. E isso fora bom. Ao escrever O Retrato já o "avião" voava tão baixo que comecei a perder de vista a floresta para prestar mais atenção às árvores. E estas oram tão numerosas, que se me tornou difícil distinguir as importantes das supérfluas. E agora, no processo de escrever o terceiro volume, o "aparelho" voava a pouquíssimos metros do solo. Mais que isso. Tinha aterrado e eu havia já desembarcado, pisava o próprio chão do romance, estava no meio da floresta, de mapa e bússola em punho, mas meio perdido, porque eu também era uma árvore.

Findou o inverno. Apagaram-se nossas lareiras. Floresceram o pessegueiro e a pereira de nosso pátio. E um dia resolvemos visitar a "metade norte-americana" de nossa tribo. E O Arquipélago? Podia terminá-lo nos Estados Unidos à sombra do neto em flor. Ficou decidido, porém, que antes disso faríamos a nossa por tantos anos protelada viagem à Europa. Ficou combinado que levaríamos conosco Luís Fernando.

Em meados de fevereiro de 1959 embarcamos para Portugal, num navio italiano. As dramatis personae de O Arquipélago foram mais uma vez postas em câmara frigorífica, mas eu levava a bordo comigo uma personagem viva que me interessava e intrigava de maneira particular: meu filho. Era ensimesmado, retraído e silencioso como eu fora na idade dele. Eu queria saber o que ele pensava de mim. Mais importante ainda: o que sentia por mim. Sua aceitação, seu amor eram-me tão necessários como o pão e o ar. Eu compreendia — e como! — que o fato de ser filho de um escritor conhecido constituía para ele uma espécie de rótulo incômodo que teria de carregar colado à pele vida em fora. Lembrei-me de que, havia algum tempo, tendo ele apenas doze anos, um dia em Torres fora convidado para jogar uma partida de tênis-de-praia com um médico de minhas relações, que mais tarde me relatou a estória. Como não conhecesse seu oponente — enquanto a bola ia e vinha — o Dr. P.P. submeteu-o a um breve interrogatório, naturalmente em voz muito alta. "Menino, como é o teu nome?" A resposta tardou alguns segundos. "Luís Fernando."

— "Luís Fernando de quê?" Nova pausa. "Veríssimo." — "Parente do Érico?" Outro hiato. "Sou." — "Mas que é que você é dele?" Nova hesitação. "Filho." Este diálogo pareceu-me revelador de toda uma situação psicológica.

Para mim uma das partes mais importantes de O Arquipélago seria o momento em que Floriano, depois dum grande esforço sobre si mesmo, consegue entabular com Rodrigo, seu pai, o diálogo que eu gostaria de ter tido com o meu próprio pai: um "ajuste de contas" no plano sentimental, numa completa libertação de todas as mitologias, de todos os códigos escritos ou não, um encontro no plano humano da mútua aceitação e do amor.

Às vezes, quando Luís Fernando estava a contemplar o mar, durante aquela viagem, eu ficava a observá-lo com olho de romancista, tentando, em vão, esquecer minha condição suspeita de pai, e procurando meter-me no corpo, no espírito daquele rapaz introvertido e descobrir que tipo de problema teria ele com relação a mim. O mesmo ressentimento que eu tivera, quando adolescente, com respeito ao velho Sebastião, embora por outros motivos? Estaria eu por omissão ou comissão alienando-o sentimentalmente de mim? Que devia fazer ou deixar de fazer para ajudá-lo?

Tentava estabelecer com ele diálogos em profundidade, mas meu filho defendia sua cidadela interior com a obstinação com que eu sempre defendera a minha.

O que foi essa nossa primeira visita à Europa e as outras quatro que se seguiram, será assunto dum capítulo à parte.

7
Existem no homem sentimentos naturais e respeitáveis que, no entanto, quando transpostos para a dimensão da literatura, correm o risco de parecer piegas e até grotescos. Tenho uma certa má vontade para com qualquer obra de ficção — em livro, teatro ou cinema — que explore o tema do amor materno (ou paterno), o dos "órfãos da tempestade" ou ainda o do cão fiel que se fina de tristeza quando a morte lhe rouba o dono. Tenho procurado descobrir honestamente a fonte dessa aversão e cheguei à conclusão de que ela está, por mais ridículo que pareça, no fato de meu superego ter escolhido para mim, como paradigma, a imagem do homem estóico e imperturbável, num contraste com o que realmente sou, isto é, um sujeito vulnerável, sensível, que se comove com facilidade não só ante os aspectos tristes ou trágicos da vida, mas também diante de qualquer expressão de beleza ou bondade. (O satirista que tenho dentro de mini não será, acaso, um agente secreto do superego?)

A verdade é que, quanto mais velho vou ficando, tanto maior é a minha admiração pelas pessoas que têm a coragem de externar seus sentimentos, suas paixões ou aversões sem nenhum respeito humano. Numa época como a nossa, o sentimentalismo passou a ser o oitavo pecado mortal. Daí à aceitação de torturas policiais, campos de concentração e extermínio, é só um passo. Um passo que um dos países supostamente mais civilizados do mundo já deu.

Seja como for, não vou narrar o que foi o nosso reencontro com Clarissa depois de dois anos e meio de separação. Pela primeira vez o romancista considera-se completamente desobrigado com relação aos sentimentos e às sensações de suas personagens. Quanto ao meu encontro com Mike, direi apenas que quando, de volta da viagem à Europa, entrei na casa dos Jaffe o sujeitinho estava acocorado no centro duma saleta, e quando me viu ergueu primeiro as sobrancelhas interrogativas, depois franziu o nariz, e o seu rosto se abriu todo num largo sorriso, como numa instantânea aceitação do recém-chegado ("Dr. Livingstone, I presume...") — e então eu me inclinei, ergui-o nos braços, apertei-o contra o peito e senti que estava abraçando e beijando não apenas o meu primeiro neto, mas também os meus dois filhos, meus pais, minha mulher e a mim mesmo.

Instalamo-nos num pequeno apartamento escassamente mobiliado, a curta distância da casa dos Jaffe, que nos emprestaram pratos, talheres, panelas, toalhas e roupa de cama. Dentro de poucas horas após nossa chegada, a bandeira brasileira já tremulava figuradamente naqueles poucos metros quadrados num edifício de Arlington, condado de Virgínia, à margem direita do rio Potomac, a tiro de bacamarte do distrito de Columbia.

Segundo um ditado gaúcho, o pai é peão do filho e cavalo do neto. Com Mike escanchado no meu pescoço, quase todos os dias eu saía a caminhar entre nosso apartamento e a casa dos Jaffe, em incontáveis viagens de ida e volta. O menino agarrava-se aos poucos cabelos que me restavam na cabeça e

me esporeava o peito com os calcanhares. Exigi que ele me pagasse por esses serviços aprendendo a chamar-me vovô. Pagou.

Naquele primeiro mês, Mafalda e eu revisitamos as galerias de arte de Washington, fomos a um que outro teatro ou cinema, projetamos numa tela os diapositivos das nossas fotografias turísticas e ruminamos com o auxílio deles os prazeres de nossa viagem.

Fiz todas essas coisas contra o fundo pressago duma preocupação. Lá estavam à minha espera na gaveta da escrivaninha os originais de O Arquipélago, que eu mandara buscar do Brasil, e que correspondiam a mais ou menos um terço do volume. Por alguns dias uma absurda inibição me impediu de reler ou mesmo tocar aquelas páginas. Quando o fiz, confesso que sua leitura não me decepcionou: ao contrário, achei que estavam bem e que ficariam ainda melhores depois da revisão final. Minha mesa de trabalho estava colocada junto duma janela através da qual eu podia divisar a ponta do Obelisco e a cúpula do Capitólio, no meio do casario e dos parques de Washington. O que eu não conseguia avistar era Santa Fé e as personagens de O Tempo e o Vento, e isso me preocupava. Era como se a parte do livro já escrita pertencesse a outro autor. Suas criaturas recusavam reconhecer-me e obedecer-me. De nada me serviam o roteiro, notas, mapas e desenhos que tinha sobre a mesa, à minha frente. Não conseguia escrever uma linha sequer... Era o feitiço de Washington, a sua maldita "magia branca". E eu me dizia: "Amanhã, quem sabe, amanhã...". E ia dormir pensando no livro.

Como não andasse me sentindo bem fisicamente — tonturas, peso na cabeça, zoada nos ouvidos — e mesmo porque achava que era tempo, de fazer um novo exame médico, procurei o Dr. K., um dos melhores cardiologistas de Washington. Minha pressão arterial estava alarmantemente alta. Contei ao doutor os meus problemas com relação ao livro e concluímos (uso o plural porque o médico confirmou o meu "diagnóstico") que se tratava duma crise hipertensiva de origem psicossomática. À instância minha, o Dr. K. me receitou uns comprimidos hipotensores, e eu voltei para casa intrigado com a atitude um tanto passiva e reticente do especialista.

Havia a poucos metros da porta de nosso apartamento um playground aonde pela manhã eu costumava levar meu neto. Muitas das senhoras das vizinhanças para lá levavam seus filhos, e pelos olhares que me lançavam eu compreendia a estranheza delas por me verem ali naquela pracinha durante horas — o único homem adulto no meio de tantas crianças e donas de casa. Um dia uma destas puxou conversa comigo e não resistiu à tentação de perguntar-me: "O senhor está aposentado?". Respondi que não e expliquei-lhe em meia dúzia de palavras a minha situação. Mas pensei cá comigo: "É a velhice, compadre". E fui balançar-me com Mike na gangorra.

8
Quando voltei um dia da minha caminhada matinal, Clarissa anunciou-nos que em princípios do ano próximo nos daria mais um neto. Mafalda olhou para Mike e murmurou: "Coitadinho, mal sabe ele que os dias de seu reinado estão contados".

Muitas vezes, estendido num sofá, depois de passar várias horas na vã tentativa de entrar em Santa Fé e no Sobrado, eu ficava a pensar outra vez no tempo que se arrastava e se perdia para sempre, e chegava a senti-lo de forma concreta, como um peso sobre o peito. Era nesses momentos opacos que me vinha a impressão de ter passado a vida inteira à sombra ameaçadora dum relógio, símbolo talvez da autoridade paterna, a qual no meu caso particular fora exercida por minha mãe. ("Acorda, vadio, está na hora de ir pra escola!" — "Pula dessa cama, são oito horas, se chegas tarde ao banco podes perder o emprego!") Meu superego fizera-se zelador do relógio, era o cronometrador implacável de minhas atividades. Marcava-me sempre tarefas dentro de prazos rígidos, incitava-me ao "cumprimento do dever". Desconfio que estava ainda ferrenhamente empenhado em provar a minha mãe que eu não era como o meu pai, o amável, leviano boêmio intemporal que nunca olhava para relógios nem pensava no vencimento das duplicatas da farmácia...

Continuei nas minhas visitas regulares ao meu doutor, que mensalmente me submetia a eletrocardiogramas e às auscultações de rotina. Ora, os médicos americanos em geral não conversam com o paciente sobre as doenças destes. Limitam-se a fazer as recomendações que acham necessárias, a rabiscar receitas... e good bye! Eu insistia com o Dr. K. para que ele dissesse alguma coisa sobre minha pressão arterial, e o homem, sempre reticente, murmurava: "Well, ainda está um pouco alta".

Os dias passavam. Os Jaffe, que se entendiam à maravilha, viviam felizes. Luís Fernando fazia um curso de desenho comercial na Corcoran Gallery; periodicamente metia algumas roupas numa maleta e ia passar dois ou três dias em Nova Iorque, onde ficava horas e horas nos lugares onde se podia ouvir jazz autêntico.

Mafalda tricoteava roupas para o novo neto. E eu, sem poder vencer a inibição que me impedia de escrever, dividia o tempo e a atenção entre um que outro livro alheio e as funções de escudeiro e cavalo de Mike. Quanto às personagens de O Arquipélago, períodos havia em que se sumiam por completo da minha consciência ou, para ser mais preciso, apareciam-me apenas vagamente, como espectros de espectros.

Nas minhas caminhadas solitárias à noite pelas ruas suburbanas e de ordinário desertas de Arlington, eu retomava os velhos diálogos interiores de que participavam sempre o pessimista e o otimista. A parte negativa e um tanto masoquista de meu ser quase se comprazia à idéia de que eu estava "liquidado". Mas a outra, a positiva, animava-me: "Isso passa, homem. Não é a primeira vez que acontece. Amanhã estarás rindo de todos estes problemas, alguns dos quais são mais inventados do que reais".

Era importante para a minha saúde saber a qual dessas vozes o meu coração dava ouvidos.

"Só posso escrever em Porto Alegre e na minha casa" — concluí um dia. E deixei o romancista hibernar.

Paul nasceu a 6 de fevereiro de 1960. Era louro e de olhos azuis. Poucos meses depois Mafalda, Luís Fernando e eu voltamos para o Brasil.




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