Rita ferro



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RITA FERRO
POR TUDO E POR NADA
CRÓNICAS

2.a edição

CONTEXTO
As presentes crónicas escolhidas foram pela primeira vez publicadas nas seguintes revistas e jornais:

Diário de Notícias

Ler

Marie Claire



Olá! / Semanário
Romances de Rita Ferro editados pela Contexto.

O Nó na Garganta, 7ª edição

O Vestido de Lantejoulas, 1ª edição

O Vento e a Lua, 3ª edição
© Rita Ferro e Contexto Editora, Lda.
Na capa: Retrato da Autora por Susan North
Composição: Multitipo - Artes Gráficas, Lda. Impressão e acabamento: Companhia Editora do Minho, Barcelos

para


Contexto, Editora, Lda.

Rua da Rosa, 105, 2° Dto. - 1200 Lisboa

Tel: 347 97 69/342 93 87 - Fax: 347 97 70
Depósito legal: 81 055/94

ISBN: 972-575-186-8


ÍNDICE

1 - MICRO-HISTÓRIAS


O menino dos olhos grandes 9

Uma história de inveja 13

Querida Esmeralda 16

O último cavalheiro 19

A monstra 23

«The tiny little detail» 26

O mocho e a formiga 28

O esquiador 32

O marquês 36

Josefa 41

A colecção de estaladas 44

O distraído 47

A pérfida 50

A escorregadela 53

Futuro imperfeito 56

Vá-se lá perceber as mulheres! 59


2- A NECESSIDADE DAS COISAS

O telemóvel 65

Há sardinha espantosa! 68

A pepineira dos carros 72


3 - QUERIDO ALFABETO...

O alfabeto mágico 77

Pequena lição de escrita 80

A dor da escrita 83

A renúncia 85

United Colors of Cultturon 89

Irmãos desunidos 92

Ainda se as montanhas piscassem 95

O sítio 98
4 - POR TUDO E POR NADA

DeNiro 105

A nova noite 109

Cabeleireiro de senhoras 113

A esmola ou a vida! 116

Os meus irmãos 119

Gostavas que a tua filha se casasse com um branco? 123
5 - NÃO OS TIVÉSSEMOS...!

Já arrumaste o lego, filho? 129

Já estudaste? Vai estudar! 132

O despotismo dos meninos 136


6 - DO SEXO, AMOR, AMIZADE E PAIXÃO

Cambada de perjuros 143

Profunda saudade do ridículo 146

O inferno a arder 149

Dolorosa, insuportável, ofegante...! 152

Obrigada, boazona! 155

Nós, as bonecas 159

A mulher-dragão 163

Os novos cavalheiros 166

Debaixo de um colchão de hotel 169

Substantivo, feminino, singular 172

O meu género de homem 176


7 - CULTURA, ESTUPIDEZ, INTELIGÊNCIA...

O boi 183

Q. I. 188
8. COITADINHAS DAS PESSOAS

Juro que não digo nada a ninguém! 195

Colete de forças 199

A neura 203

A admirável pessoa nova 206

Não tenho nada para vos dizer 209

Insónia 212

Imbecilidade ou ascendente 215

Questão de organização 217

A única oportunidade 221


1 - MICRO-HISTÓRIAS
O MENINO DE OLHOS GRANDES
Era uma vez um menino de olhos grandes que morava em Campolide. O pai era arquitecto, e a mãe restauradora de móveis com atelier na Graça.

Tinha dez anos e andava no primeiro ano do liceu.

Ia para o colégio de carrinha, e voltava às cinco horas pela mesma via. Recebia-o a criada, que desligava o ferro para lhe preparar o lanche: leite com chocolate e vianinha com queijo.

Cansado das contas e do futebol, o menino poisava a mochila pesada, lavava as mãos, comia o seu pãozinho, lavava a boca, fazia os trabalhos de casa, tomava banho e vestia o pijama. Só tinha licença para ver televisão depois dos deveres, e ligava-a àquela hora para ver uma novela mexicana de um realizador búlgaro, dobrada em brasileiro e com actores croatas. Ficava sozinho na sala enorme, de olhos arregalados, e fazia perguntas às paredes que nunca lhe respondiam:

- Se os pais do Paquito gostam tanto um do outro, por que é que a mãe dele se deita com o Xico-Lagarto?

Quando a criada saía e os pais voltavam, davam com ele adormecido no sofá, perdido na sala enorme. O pai aterrava no sofá exausto, e a mãe ia direita à cozinha para descongelar o jantar.

O menino ia atrás dela para lhe fazer companhia, e bombardeava-a com perguntas que a faziam rir:

- O que é a vida, mãe?

E a mãe improvisava, fechando o tupperware:

- A vida é o que fazemos todos os dias, filho.

- Sempre isto? - desconsolava-se ele.

- Bom - sorria ela, ligando o micro-ondas. - Esta é a nossa vida, mas há outras mais interessantes. Amanhã, se quiseres, podes escolher uma vida melhor do que a nossa...

- Então - estranhava o miúdo -, porque é que os pais não escolheram uma vida melhor do que a nossa?

- Porque escolhemos viver nesta sociedade, neste sistema de vida, e esta é a vida que podemos ter nesta sociedade e neste sistema de vida!

- Trabalhar, ganhar dinheiro, sair de casa de manhã, voltar à noite?

- Sim - confirmava a mãe, preparando os tabuleiros -, mas entretanto passam-se coisas interessantes lá fora! Aprendemos coisas, conhecemos pessoas...

O menino ficava algum tempo a pensar e perguntava:

- Mas para que precisam os pais de tanto dinheiro?

- Para um dia comprarmos uma casinha no campo, ao pé dum lago, e quando formos velhotes e já não pudermos trabalhar, eu e o pai vivermos ali muito felizes...

O menino deteve-se por instantes a imaginar o quadro, gostou daquela imagem, mas adormeceu à mesma hora do costume e nunca mais se lembrou da conversa; até que um dia fez uma visita de estudo para conhecer uma barragem longe de Lisboa e encontrou um homem rude a pescar.

Não resistiu:

- O senhor vive aqui ao pé deste lago tão bonito?

- Além mesmo - apontou o homem. - Vivo naquele casebre reles que vês ali, entre aquelas duas árvores grandes e o poço...

- Mas a sua casa é muito gira! - achou o menino.

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- Talvez - desdenhou o homem -, mas já estou farto dela! É longe de tudo e aborrece-me viver aqui!

O homem lançava de novo a cana quando o menino voltou à carga:

- O senhor está a pescar para quê? Vai comer esses peixes todos?

- Não - suspirou o camponês, olhando o céu. - Vou vendê-los para juntar dinheiro e poder comprar uma casa grande na cidade, com electricidade e água canalizada!

- Não faça isso - pediu o menino. - Os meus pais o que queriam era viver aqui, numa casa como a sua!

- A modos que nunca ninguém está bem... - murmurou o homem, coçando a nuca.

O menino despediu-se dele e foi juntar-se aos outros rapazes, pensativo. E quando os pais chegaram a casa nessa noite estranharam encontrar o filho tão vivo e impaciente à espera deles.

- O que foi, João? Alguma novidade? - perguntou o pai, pousando as chaves.

E o menino falou logo, sem se deter:

- Encontrei um homem muito simpático que tem uma casa parecida com aquela que os pais queriam ter quando fossem velhos e que gostava de viver numa casa como esta por ter luz e água e a dele não ter!

E tomando fôlego:

- Por que é que não trocam esta casa com a dele? E sugerindo, evidente:

- O pai podia pescar para ganhar dinheiro! E certificando-se:

- O pai adora pescar, não adora?

O casal entreolhou-se contendo o riso, mas o pai estava com pressa para ver o telejornal e respondeu qualquer coisa:

- As coisas não são bem como tu pensas, filho: ainda és muito pequeno para perceber...

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Passados anos, o menino de olhos grandes e fundos cresceu e ficou tão grande como o seu pai. Licenciou-se em Filosofia, casou com uma anestesista, teve um filho esperto e sensível também chamado João.

E, um dia, para seu grande espanto, deu com ele a fazer-lhe a mesma pergunta que ele fizera ao pai, vinte anos antes:

- O que é a vida, pai?

Mas, ao contrário do avô daquele menino, o homem de olhos grandes e fundos não teve vontade de rir. Puxou o filho para si, apertou-o muito de encontro ao peito e, afagando-lhe o cabelo com tristeza, engoliu em seco para lhe confessar:

- Não te sei explicar, filho: já sou muito grande para perceber...

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UMA HISTÓRIA DE INVEJA


Era anão e feio, grunho e pouco asseado, mas tinha um coração grande e as pessoas gostavam dele.

Chamava-se Adalberto.

No fundo, era um velho mirrado, de cabelo ralo e rugas bem sulcadas, que gingava como um garoto e vestia calções pelo joelho.

Tinha um barrete de guisos, como os bobos, e usava bengala, por ser manco.

Trabalhava no circo, e toda a gente do lugar o conhecia. Não era pícaro, nem sequer engraçado, mas bastava-lhe dar a volta ao recinto às cambalhotas, fazer o pino ou coçar a cabeçorra para obter os mesmos resultados: o público esbodegava-se a rir com as suas momices. Era burlesco, mas não bruto; conhecia as razões do seu sucesso e superava o seu drama: acarinhava o seu aleijão como um trunfo profissional, e não se sentia humilhado por tirar proveito dele.

- Eu só queria saber se não fosse enfezado como é que eu comia?! - perguntava ele a um caco de vidro que lhe servia de espelho todas as manhãs.

E tinha razão: analfabeto e com uma espinha lesada, não prestava para ganhar dinheiro.

Os garotos da rua perseguiam-no com fisgas, mas ele não levava a mal; trauteava as canções das lavadeiras, e saltava dos muros para espantar a pequenada.

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- Ao fim e ao cabo Deus não foi muito velhaco... - resignava-se ele, afagando a bengala. - Se eu não fosse mais baixo do que elas, como é que poderia ver as crianças?

Mas nem toda a gente o suportava: o palhaço rico, por exemplo, não ia à bola com ele.

Compreendia-se: tinha estudos e a figura galante dos toureiros, traje faustoso e sotaque andaluz convincente, mas não fazia rir. Os seus dichotes eram ensaiados, os seus remoques em verso, os seus gestos virtuosos e galantes, as suas canções eruditas e a sua concertina de fole mais afinada que a de todos os cegos da região; mas não tinha amigos, e as crianças bocejavam quando o viam assomar com gestos largos e teatrais para as interpelar com aquele sorriso suspeito, ampliado a tintas.

Ao passo que o diabo do anão, grotesco e mal-amanhado, aos tropeções na serradura, com corpo de sapo e bossa de camelo, era reclamado aos gritos pelas crianças, acolhido com salvas intermináveis e ovacionado com rosmanino e rebuçados.

Era demais para o palhaço.

Começou a odiá-lo no dia em que o anão lhe interrompeu o número por acidente, correndo atrás de um chimpanzé em fuga, e fez rir mais o público naquele lapso de tempo do que ele próprio em toda a sua carreira de artista.

Quando acabou aquele safari hilariante e o animal foi dominado de vez, ao fim de algum tempo de engasgo geral, o Adalberto teve de recolher aos bastidores para enjaular o primata e o palhaço pôde, enfim, reatar a sua deixa, o público bradou contrariado, pateando sem contemplações a rábula jocosa do palhaço, e exigindo, aos berros bem orquestrados, o regresso ao palco do anão.

Era uma hostilidade crescente mas velada, rosnada apenas, até porque a soberba do palhaço o impedia de a manifestar

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abertamente: sobretudo porque o pobre do anão, na miséria da vida que levava, não podia conceber que pudesse inspirar emulação a quem quer que fosse neste mundo.

Mas um dia houve em que o malvado do palhaço decidiu vingar o seu fracasso.

Pela calada da noite, sem ninguém no circo suspeitar, e depois de dar carne às feras para não o denunciarem, o palhaço deslocava-se à roulote do anão, para, com ele a dormir numa enxerga de cachorro, limar levemente, mas muito levemente para conseguir melhor os seus propósitos, a base da sua bengala.

Repetiu a operação durante vinte e dois meses consecutivos, com cautela e tenacidade glaciais, para conseguir a seu tempo o resultado que esperava: persuadir o anão de que estava a crescer, a aumentar de tamanho a olhos vistos, e de que por aquele andar perderia o ganha-pão.

E não é que o conseguiu?

Vergado pela evidência e enganado pelo encurtamento da bengala, o anão acabou por reparar no fenómeno que lhe sucedia e lhe arruinava a carreira: desesperado, pôs termo à vida pensando que não tinha família, nem saúde, nem estudos, nem mesmo uma casa decente, e que agora, para mal dos seus pecados, já nem anão era.

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QUERIDA ESMERALDA
Quando a viam na rua, os homens desmaiavam ao volante.

Era uma valquíria de metro e setenta, peito noventa e seis e cintura de ampulheta, coxas minhotas e passada elástica.

Trabalhava a dias, na Baixa lisboeta.

Quando se ria, a água jorrava das fontes com mais força ainda, e o sol espreitava por entre as nuvens para se rir também.

O maior malandro de Campo de Ourique, que está vivo e lê a Olá!, jurou depois de a conhecer:

- Por ela, até deixava de falar à minha mãe!

Tinha dificuldade em conservar as patroas, porque lhe bastava lavar janelas equilibrada num escadote para desfazer o casamento mais cristão: as senhoras azedavam a seu lado, e os patrões perdiam as estribeiras a ponto de se desempregarem; um deles afogou a esposa na banheira só para a ver lavar o forno.

Mas não era só cobiçada por maridos fartos: exaltava os homens baixos e galvanizava os militares.

No 25 de Abril, parece que foi ela - e não meia dúzia de capitães alvoroçados, como se diz -, quem incitou as Forças Armadas a assaltarem o Carmo: cansada de esfregar o soalho do quartel, tirou a blusa para ensaboar as axilas e apareceu assim à janela para cumprimentar um magala.

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- Atira-me um beijo, atira-me um beijo... - rogou ele, alucinado, depondo a espingarda aos pés.

Mas ela, como era séria, puxou um cravo duma jarra e atirou-lho em vez.

(Não preciso de vos dizer: na maior parte das vezes, a História é isto.)

Mais tarde, em 75, foi ela que, sem querer, promoveu a greve dos metalúrgicos; cedendo na compostura por um aperto económico, deixou-se fotografar para um calendário com tanta naturalidade, que os trabalhadores, dilacerados pela privação, atiraram com as ferramentas ao ar e fizeram feriado nesse dia. (É aquele calendário transacto, que hoje se vê em todas as garagens portuguesas, com um baby-dool extraordinário a emergir dum pneu).

Era pobre e analfabeta, mas raramente dava troco a quem se metia com ela.

Era capaz de se entregar a um homem por fraqueza, nunca por interesse; jamais usara o seu corpo para traficar benefícios, a não ser como moeda de troca para pagar favores vitais; tinha uma alma límpida, mas não levava o respeito por si própria mais a sério do que a bênção de viver. Era digna, mas não mártir: se estivesse em jogo o seu sustento, o instinto de sobrevivência triunfava e oferecia-se por gratidão.

Cegou centenas de deputados e financeiros, polícias e proxenetas, mas só se apaixonou uma única vez na vida por um fidalgo provinciano que a encontrou à saída de S. Carlos e lhe beijou a mão para a pedir em casamento.

- Não sou da sua condição... - lastimou ela, sorrindo.

- Que importa o escândalo se o prazer é nosso? - berrou o rapaz, eufórico.

Foi deserdado na manhã seguinte, mas nunca se arrependeu: sofreu a inveja de todos os Porfírios Rubirosas do seu

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tempo, e conheceu a Eternidade numas águas-furtadas do Conde Redondo que acabaram por ruir ao sexto dia de amor.

Só muitos meses depois, tuberculoso, o morgado cedeu à vontade materna: trocou a Esmeralda por uma senhora enxuta de apelidos longos, voluntária na Cruz Vermelha, e, entregando-se à filatelia, passou a dormir de pijama.

Era daquelas mulheres que faziam falta à vida.

Actualmente, quando a vêem correr para o eléctrico esfalfada, cheia de sacos, os maduros daquele tempo ainda contam aos amigos.

- Não fazes ideia do que era isto, aqui há uns anos...

- Boa? - perguntam os outros, excitados.

- Santa...! - suspiram eles, nostálgicos.

Acreditem ou não, a verdade é que ela conserva ainda a mesma alegria, a mesma doçura, e a mesma esperança de então; mas perdeu as cores do calendário, e nunca encontrou ninguém que a perdoasse...

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O ÚLTIMO CAVALHEIRO


Chamava-se Valdemar Maria Ávila de Albuquerque e Sá, e era, sem acinte e sem anel, o terceiro visconde de Carrazeda de Anciães.

Tomava café na Brasileira, entrava na Bénard para beijar a mão às damas - com uma inclinação que se perdeu e sem nunca babar as esmeraldas -, e prestava-se a descer à Marques e à Ferrari para saudar as patas de raposa, sempre com medo de que o achassem indelicado.

Era de um aprumo novecentista, e todas as senhoras casadas daquela época, impossibilitadas de o amar, o sonhavam para genro.

Loiro e esguio como um príncipe da Renascença, despertava paixões demenciais por onde quer que passeasse os seus punhos engomados, do Jockey ao Parque Mayer.

As suas histórias fizeram lenda, e o seu nome permaneceu até hoje na memória dos seus contemporâneos como referência incontornável de uma cortesia já extinta.

Dizia-se que nunca se casara porque fizera um filho a uma pastora beira, a quem jurara fidelidade apesar de não amar. Para além deste segredo que poucos conheciam, não hesitava em bater-se para defender a honra dum amigo ou a reputação duma senhora; dizia-se que tinha cicatrizes comprovativas por

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todo o corpo que as suas amantes secretas beijavam com superstição.

Mas nem torturado abria a boca para se vangloriar das suas conquistas; preferia renunciar a todo o prestígio de macho a ofender a honra duma mulher, fosse qual fosse a sua ascendência.

É dele esta frase:

- À mesa e na cama come-se com a boca fechada!

Foi um sobrinho dele que me contou esta história, passada nos seus tempos de rapaz.

Um dia, o Valdemar dispôs-se a acompanhar um colega da universidade a um baile de bombeiros, para os lados do Campo Santana, a seguir a uma sessão de estudo que terminou de madrugada.

Parece que saíra renitente por não ter tido ocasião de trocar de camisa, e, também, por já se anunciar no seu rosto um alvor de barba.

- Não gosto de me apresentar assim... - confessara, incomodado, ao seu amigo.

- É indiferente, pá - desprezara o folião. - Para quem é, bacalhau basta!

Escandalizado, o Valdemar endureceu a expressão para lhe ralhar:

- Uma senhora, é sempre uma senhora - E acrescentando: - Quando não é, nesse caso é porque alguém como tu já lhe apertou a mão...

Aterraram num primeiro andar ainda frios, e depararam com uma animação insuspeitada, com dezenas de pares dançando em hélice, martelando o soalho, ao som de uma orquestra com reportório rural.

- Estou a ver que vamos morrer à fome... - vaticinara o amigo do visconde, escrutinando com ansiedade as mulheres disponíveis.

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Depois de muito procurarem, descobriram duas; uma saloia bonita de dentes curtos e gengivas à vista, de blusa cheia e fio de ouro, e uma anã carrancuda de cabelo pastoso.

Sôfrego, o amigo do visconde apressou-se a reservar a primeira:

- Tem paciência, mas aquela fica para mim...

Cinco minutos depois, só não dançavam a anã e o Valdemar. Impelido por esta evidência, o visconde aproximou-se do par que a sua correcção lhe destinava, tão belo como Liszt, e dobrou o corpo todo para lhe perguntar se dançava.

- O senhor está a fazer pouco de mim, não está? - defendeu-se ela, com uma gratidão hesitante.

- De maneira nenhuma - negou o visconde, aflito. - Estou apenas a convidá-la para dançar comigo, se me quiser dar esse prazer...

A mulherzinha aceitou, desconfiada, e o visconde acertou o passo com a sanfona, solitário na desproporção de alturas.

- Sabe que tem uns olhos muito bonitos? - perguntou ele, delicado, achando que lhe devia um galanteio.

Mas ela murmurou, sombria:

- O senhor gaba-me os olhos, mas não era capaz de se atirar da varanda por mim, pois não?

- A..., a... atirar da varanda, minha senhora? - balbuciou ele, perplexo. - Talvez me pareça um pouco excessivo...

- Pois claro, eu até compreendo... - sorriu ela, encolhendo os ombros. - quem sabe, se eu fosse bela...

Foi nesta altura que o visconde se sentiu completamente incapaz de a magoar. Decidido, indagou:

- Onde é que é a varanda?

- Ali... - apontou ela, com um clarão de esperança a embelezar-lhe os olhos ralos.

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O visconde avançou para a janela com o garbo de um espadachim, e, menosprezando a distância que mediava o peitoril da calçada gritou, antes de se atirar:

- Minha senhora: um desejo seu é uma ordem! Fracturou o crânio, a mandíbula, o pescoço e as duas pernas, para lhe contarem depois o que a anã dissera do seu gesto:

- Toma lá, que já almoçaste!



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A MONSTRA
Era difícil encontrar alguém tão feio. Tinha metro e meio de largura, dezanove dentes por junto, trezentos e vinte cabelos frisados na cabeça e meio milhão nas sobrancelhas unidas.

Por ironia, chamava-se Leninha.

Um amigo enviou a sua fotografia para o Guiness, mas como já figurava uma aborígene nova-zelandesa de proporções análogas, só lhe arranjaram lugar na divisão zoológica ao lado de um ornitorrinco ciclópico, filho de pai rinoceronte.

A legenda chocava: «Mamífero anfíbio da região de Trás-os-Montes (Spain). Opõe o polegar aos outros dedos e emite sons semelhantes à voz humana.»

Mas era preciso vê-la, para acreditar naquele pifo da Natureza.

Tinha os olhos desencontrados, a espinha adunca, as pernas do John Wayne, a voz da Katleen Turner, um peitinho de rola e o riso martelado de uma britadeira. O nariz não se distinguia como feição, e levava-se que tempos a localizá-lo: emergia algures entre o sobrolho e a testa, e só se identificava quando vendava os olhos para o assoar.

Era um Picasso inspirado: dizia-se que tinha o umbigo na nádega, o fígado espalmado nas omoplatas, e o apêndice no ventrículo esquerdo, rente ao tornozelo.

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O pai chorava sempre que a via, e a mãe só lhe falava de costas porque sofria do coração.

Não podia andar livremente porque suscitava na rua reacções desconfortáveis: sempre que perguntava as horas, alguém chamava a polícia.

Mas ela, lúcida e tolerante, era a primeira a reconhecer que a deformidade, ao transcender um certo limite, podia assarapantar o mais bondoso dos homens.

Como era rica, um dia deslocou-se a Dalas disposta a deixar-se operar, mas a sumidade cirúrgica que a observou foi de uma grosseria sem nome:

- I’m sure you don’t have enough money, miss - disse-lhe ele, alarvemente. E engrenando a rir, imparável: - Or should I say «mass»?

Os irmãos foram esperá-la ao aeroporto, cheios de expectativa, mas quando viram a Leninha tropeçar nas escadas do avião e aterrar na pista como se fosse um hipopótamo com sede, tão feia como partira, não tiveram coragem de a encarar e fugiram acobardados.

Era de uma fealdade pungente.

Quando se ria parecia chorar de desgosto, plissando o rosto num esgar lancinante, e quando chorava era tão hilariante que até o seu confessor se descompunha ao ouvir-lhe as faltas. Mesmo assim, lá foi estudando.

Nos exames, quando os professores a indagavam sobre as questões mais elementares e a viam acertar, davam-lhe notas dilatadas, emocionados por ela ser racional. Mas a medicina foi avançando, e um dia sobrevoou a capital um cirurgião brasileiro conhecido pelos seus prodígios plásticos.

Leninha candidatou-se novamente mas, desta vez, deparou com um artista do bisturi cheio de humanidade. Submeteu-se então a quarenta e sete intervenções delicadíssimas, internada numa clínica de Belo Horizonte, e regressou a Portugal feita



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de novo, esguia e sofisticada, com fartos cabelos ruivos, porte de soberana e dentição completa.

Voltava tão deslumbrante que os comissários da TAP se fartaram de entornar laranjadas por cima dos passageiros.

Não teve ninguém a esperá-la na Portela, mas foi conduzida a casa pela viatura estatal de um ministro atrevidote, que chegara no mesmo voo, e cobiçada na mesma semana por um príncipe monegasco, um infante asturiano e duas cabeças coroadas britânicas a tratar do divórcio.

Um modelo da Chanel conheceu-a e caiu em depressão, e uma cronista da Manchete chegou a difamá-la, espalhando o boato de que ela se depilava com gilete; mesmo assim, foi convidada durante seis meses para todas as festas com champanhe de Vilamoura a Sidney. Ao fim deste tempo, desapontada com as contrapartidas da beleza, voltou a procurar o médico que tinha feito dele a mais sensual criatura do Mundo.

- Quero voltar a ser o que era.

- Porquê??? - perguntou o clínico, alarmado.

- Porque prefiro sofrer a piedade dos homens, do que a inveja das mulheres - disse ela.

E não é que o médico - apesar de não consentir uma tal barbaridade - a compreendeu sem pestanejar?

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THE TINY LITTLE DETAIL
Ser administrador de um banco português em Londres era, só e mais nada, tudo o que João Pontes sempre desejara.

Levara quarenta anos de carreira para conseguir o lugar, e estava mais eufórico no seu primeiro dia de exercício do que lhe ficava bem demonstrar.

Mas era natural o seu júbilo: além de uma posição de prestígio como aquela, que fizera encarquilhar de inveja todas as gravatas da Rua do Ouro, tratara de providenciar condições para ele e para a família consentâneas com o seu novo estatuto: pôs os filhos a estudar em Eton, alugou uma casa em Belgrave Square, conseguiu um assento manhoso numa tribuna de Ascott, um professor de pólo reformado e um cartão prateado Annabel’s, e fez-se membro do Royal Yacht Club, em Jeremy Street, depois de levar catorze tampas peremptórias do The Athanaeum e do Overseas.

Por tudo isto, fez um esforço para não trair a sua volúpia quando um driver de botões reluzentes assomou à porta da sua casa conduzindo um Rover verde-escuro, com estofos de cabedal e tablier em raiz de nogueira, e saiu do carro para lhe abrir a porta e o saudar chilreando:

- Good morning, sir! It’s a friendly weather, but I suggest you carry your umbrella... I took the liberty of buying you the Pink and the Tribune, sir! May I recommend you

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page seven, left column? A gay conservative member of parliament has a new affair with a tory, sir. - E alertando-o, num pitoresco «dry humour»: - This is a «major» problem for the P.M., I must say...

Já a chegar à city, com o carro detido num semáforo da Fenchurch Street, repimpado no banco de trás, depois de baixar o braço de apoio acolchoado e antes mesmo de desdobrar o jornal, o nosso estupendaço João Pontes não resistiu a mirar-se ao espelho e a esboçar um sorriso orgástico. A cara bem escanhoada, o odor discreto da English Lavender, o fato «príncipe-de-gales» bem talhado, os sapatos Mceffi e a gravata do Gieves conferiam-lhe uma tal imagem de elegância e uma tão suprema sensação de nobility, promoviam-no tão subtilmente a gentleman e a ruled by the best, que ele chegou a corar com a recordação impertinente dos mocassins escalavrados e dos colarinhos puídos dos seus primeiros anos de labuta na baixa pombalina.

Mas tinham chegado entretanto, e ele jurara aderir drasticamente à pontualidade britânica.

- See you later... - disse ele, já desdenhoso, ao motorista, que se limitou a declinar em silêncio o resto da frase, imaginando-se de repente na pele de um grande réptil voraz de costumes anfíbios abundante nos rios de certas regiões tropicais.

E pronto: era vê-lo, a ele, ao nosso janota João Pontes, pulsando de prazer, endireitando as costas e elevando discretamente o queixo para compensar um lastimável deficit de vinte centímetros de altura, avançando majestoso para a imponente porta giratória da sede, onde teria entrado em estado de graça se o porteiro do edifício, estranhando o padrão do seu fato e numa entoação estupefacta, o não tivesse desconcertado com esta:

- Going to the country, sir?



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