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E inenarrável. São inenarráveis os monólogos fisioterápicos ao espelho, escarnecidos por duzentos olhos com rímel, reafirmando as opções sexuais de Rodrigos e Florindos, onde a expressão restaura a ruína de uma cara que nunca viu nada de grande, protela a validade de uma beleza extinta com os Beatles, corrige papadas e esgares, tareias e enxovalhos, traições e refogados, para devolver outra coisa inteiramente diferente mas que ali persuade, anima por um instante e se desmorona à primeira distracção:
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- Então, dona Ivone, como é que vai querer o seu cabelinho hoje?
É inimaginável. Inimaginável que meninas de liceu entreguem as pernas ao escalpe e os buços à fogueira, já com a coragem de mães, engolindo as lágrimas, disfarçando o choque, e tudo isto para ocultarem uma origem de primata que se ri delas passados quinze dias, em troca de uma dignidade tão efémera, contemporânea apenas, desprezada pelos homens e ignorada por Deus.
- Doeu? Não me diga que doeu...! A menina é muito fiteira, não é?
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A ESMOLA OU A VIDA!
O mendigo urbano ganha terreno. Já não se limita a pedir dinheiro à porta das igrejas, assalta-nos à traição nos sítios mais estratégicos: nos sinais encarnados, nos engarrafamentos, à saída dos comboios, nas esplanadas.
Tem o seu marketing próprio.
Já não é pressuroso e grato, como dantes, mas cada vez mais impaciente, abusador e cáustico. Os condutores de automóveis negam-lhe a esmola à distância, com um breve aceno dissuasor, fechando as janelas, ou concedem-nas por reflexo sempre que se esquecem de as trancar, ao dar de caras com rostos patibulares, babando o volante:
- Sou toxicodependente...
- Sou seropositivo...
- Sou tuberculoso...
- Sou ex-alcoólico...
- Sou desempregado...
A verdade é que muitas vezes se cede para escapar a um impropério, e que se dá mais do que se daria só para não assistir àquele esgar de incredulidade escarninha, inspeccionando o montante.
Neste último caso, todos sabemos, a generosidade não tem a ver com o gesto.
Para além deste tipo característico, que nunca sabemos se quer o dinheiro para droga, vinho, tabaco, preservativos, blusões
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da Charro ou verdadeira subsistência, ainda temos uma larga faixa de intrujões profissionais que nos vulnerabilizam com histórias verosímeis de injecções urgentes, receitas da Caixa, certificados de invalidez, leite para recém-nascidos ou falhas de gasolina.
Só inventariar já deprime.
O que é realmente amargo no meio de tanto assédio, é que se torna cada vez mais difícil destrinçar aqueles junto de quem a nossa solidariedade é proveitosa, dos que se servem dela para nos chamar trouxas, ou, pior ainda, agravar os seus próprios quadros de miséria.
No caso dos toxicómanos, por exemplo, podemos estar a matá-los.
Ninguém é bruxo, até porque o modo como se apresentam nas ruas é equívoco: a miséria está no olhar e não nas roupas, e o que se vê agora é o brinco na orelha, os jeans iguais aos nossos, ou mesmo o sobretudo aristocrático.
- Se fosse um pobre clássico, dava-lhe 50$00 - dizia-me um amigo meu. - Mas como era um senhor com bom ar... tive vergonha por ele e dei-lhe quinhentos paus!
E matemático: quando é suportada por alguém que já viveu como nós, a humilhação afigura-se-nos maior.
Por outro lado, não faz sentido ter mais pena duns que doutros: a angústia que nos desperta um fracassado, deveria ser tão grande como aquele que sentimos face a um desvalido, um doente, um aldrabão ou um pária; em qualquer dos casos, algo nos recônditos da nossa consciência cívica ou cristã nos faz sentir co-responsáveis e nos deixa divididos entre o remorso, o medo, a vergonha e a impotência.
É mais um desconforto que temos de carregar, como uma mochila de pedras, para acrescentar à babel de escrúpulos que tantas vezes nos assalta em forma de civilizada neurastenia.
Juntamente com a falência da auto-estima.
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Temo-nos em pouca conta, porque a nossa surdez face à desgraça do próximo já não provém do egoísmo ou da avareza, como era hábito na negação de um auxílio, mas de algo a que nos habituámos a achar mais mesquinho ainda: da desconfiança.
- Sei lá se o dinheiro que eu vou dar vai mesmo parar à Unicef?
Da mesma maneira, um homem tombado no chão pode ser engodo de assaltante, um mutilado das pernas pode ser um acrobata, um invisual pode ver melhor que nós, uma mãe cheia de filhos pode ter nascido estéril.
Daí, que não me surpreendesse que aquele doente mental que vimos na televisão calcorrear nu alguns quarteirões da cidade não fosse, aparentemente, notado por ninguém: as pessoas já têm dentro de si dramas que cheguem - sem originalidade suficiente para impressionar o Mundo, mas ainda assim tão agudos como outros mais expostos -, e só Deus sabe o esforço que é preciso fazer para vencer a própria depressão, e não acabar como essa alma à deriva, integralmente despida, mas sobretudo de Esperança.
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OS MEUS IRMÃOS
Catorze meses de diferença eram, para a minha irmã Mafalda, um ascendente de peso.
Tratava-me com uma superioridade tão convicta, escarnecia tanto das minhas ideias, enxovalhava a tal ponto as minhas «toilettes» e as minhas amigas, que ainda hoje dou comigo a corar, quando, por qualquer razão profissional, sou obrigada a falar em público.
Fiquei insegura.
É claro que ela tinha todas as razões do Mundo para me não suportar: partilhávamos o mesmo quarto e eu era desarrumada; e por muito que eu considerasse a trapalhice um sinal evidente da mais pura criatividade, lá em casa ninguém ia na conversa.
Quando a minha mãe entrava por ali dentro a fumegar, e deparava com toda aquela babel de roupa empilhada nas cadeiras, não se dava ao trabalho de abrir inquérito: desferia uma sapatada em cada uma, e esvaziava os dois armários para o chão, sem contemplações:
- Entretenham-se...
Depois de fechar a porta atrás de si, e da minha irmã me filar com os olhos cintilantes de vingança, já sabia o que me esperava: apanhar uma tareia colossal, e ter de soluçar baixinho para não a denunciar à minha mãe.
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Mas o pior eram as suas retaliações, quando, em vez de me desculpar, me atrevia a enfrentá-la:
- A tua gaveta das meias também estava um pandemónio!
Era o que bastava. Saltava para cima de mim e imobilizava-me no chão, esmagando os meus antebraços com os joelhos dela, e iniciava então, rejubilando, a sua represália favorita.
Um apetite: soltava da boca um fio de cuspo, fininho, a prumo sobre a minha cara, e sugava-o no último momento, bem treinada, quando o visco se encontrava a um decímetro de desaguar no meu esgar repugnado e eu lhe jurava obediência.
Ufana, confirmava:
- Dominada?
Ao que eu me vendia, sem saída:
- Sim! Dominada!
- Rendes-te?
- Rendo-me!
- E arrumas os dois armários?
- Arrumo, arrumo, juro que arrumo!
- E mais as gavetas da cómoda?
- Também! Tudo o que quiseres!
- E ainda a minha roupa de Verão?
- Deixa-me! - rosnava eu, já doida. - Estás a abusar, nojenta!!!
- Não voltas a repetir a gracinha?
- Não! Prometo! Não volto!
- Jura pela alma da mãe!
- Não! - resistia eu, agoirada. - A mãe está viva!
- Então, jura pela alma do avô!
- Juro, juro, juro! Agora sai de cima de mim, se não te importas...
- Pede por favor, minha malcriadona!
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- Peço, está bem! - implorava eu, abjecta. - Mas sai de cima de mim, que já não consigo respirar...!
- Não vais fazer queixinhas ao pai?
- NÃO! JURO! NÃO VOU!
- Bom, então vê lá se deixas de ser esprenéfica, está bem? - condescendia ela, triunfante de vantagem, desmontando do meu dorso supliciado com uma agilidade benévola.
Foram anos disto, a somar às sevícias infligidas pelo meu inefável irmão.
E, podem acreditar: fui cobaia viva de tudo o que ele observou nos ginásios, nos bilhares, e nas fitas americanas sobre a guerra do Vietname: judo, karate, boxe, luta-livre, aikido e tortura asiática.
Esse então, mais velho que eu três anos, nem precisava de pretextos:
- Cheguei!
Está bem que eu não lhe respondia, mas não era por mal: na maior parte das vezes ainda estava lesionada dos massacres vespertinos.
- Não sabes dizer boa-tarde, ó anormal? Queres que eu te ensine a respeitar o teu irmão mais velho?
E pronto: lá ia eu despenhar-me na parede do quarto dele, reduzida a punching-ball e sem veleidades de recurso ou de vingança, com um braço em torniquete e as costelas a arder!
Mas eram os dois amorosos: o António era um príncipe da Renascença, arcangélico, loiro e de olhos azuis, tão distinto e estilizado que podia não lavar os dentes ou baldar-se ao banho à vontade que os pais nunca descobriam; bastava-lhe aparecer perfilado para jantar penteado com água-de-colónia para surtir o mesmo efeito. A Mafalda era uma filha resplandecente de saúde, bonita, rosada e de olhar sábio, que recebia sempre a semanada por inteiro porque lia mais do que eu e tinha menos negativas.
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É claro que, volta não volta, também lutavam os dois; mas tinham códigos irritantes de jamais se denunciarem aos pais quando um era desancado.
Hoje em dia, reconheço, têm mais carácter do que eu.
Mas um irmão mais novo não se pode dar ao luxo de ter carácter; um irmão mais novo não se pode dar ao luxo de ter nada, a não ser um instinto de sobrevivência o mais parecido possível com o do verme.
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GOSTAVAS QUE A TUA FILHA SE CASASSE COM UM BRANCO?
É bestial, não é? Tanto catecismo, tanto sacramento, tantos cursos de cristandade, tanta vela a arder, tantos terços, tanto sinal da cruz, tanta penitência e tanto propósito de emenda, para o racismo não ser sequer encarado, pela maioria dos cristãos, como pecado que é.
Estou a mentir? Antes estivesse.
Não nos repugna ajoelhar para confessar os pecadilhos mais ridículos, mas não nos passa pela cabeça que o racismo, com toda a sua carga de desumanidade, possa constituir objecto de negação de todo o espírito cristão, ou seja, tudo o que há de mais oposto ao Amor.
Será preciso lembrar que Jesus Cristo era um anti-racista convicto?
Está bem, eu sei que um tema destes não devia ser abordado com esta brejeirice; mas muito pior do que isto é o silêncio a este respeito. Além disso, deveria revoltar-nos que um país que se abona no Mundo inteiro por ter abolido a escravatura, não tenha conseguido, até hoje, aboli-la mentalmente.
E não me refiro só aos leigos. Refiro-me também à Igreja, que não aproveita o seu apostolado para condenar a aberração de uma maneira mais explícita. Refiro-me também aos homens cívicos, modernos, civilizados, de fino trato e maneiras à mesa, que já aprenderam a não cuspir na rua e a não
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sujar as praias e pinhais, mas que continuam a exibir por todo o lado o seu primarismo engravatado. Refiro-me também aos professores dos nossos filhos, que se licenciam para lhes ensinar Matemática, Meio Físico e Ciências da Natureza, mas que não se servem do espaço privilegiado das aulas para os prevenir, de pequeninos, que as pessoas não gostam mais de bananas por serem amarelas, e menos de maçãs por serem encarnadas. Refiro-me também aos políticos, que continuam a contar, nos corredores de São Bento, anedotas sem piada ilustrativas não da ingenuidade africana, mas das limitações deles próprios. Refiro-me também aos intelectuais, cujo preconceito se pressente num indiferentismo expressivo. Refiro-me sobretudo a nós, que desde que nascemos colaboramos nesta indignidade, hesitantes, vendidos, envergonhados, encarneirados, impunes, sem nos conseguirmos transcender a nós próprios (lá o sentimento ser enraizado não nos inocenta), sem vencermos os nossos atavismos, esparralhados neles, sem a coragem de um protesto, passivos, sem a intrepidez de uma união mista, maricas, no fundo pouco exigentes, pouco vaidosos da nossa qualidade, sem condenarmos o rótulo, quadrado, acéfalo, apriorístico, utilizando expressões de grande elevação como «escarumba» e «por que é que não voltam para a terra deles», como se a Europa fosse um mérito e o Mundo reservado o direito de admissão, atribuindo imoralidade e relações corajosas ou transgredindo não por amor mas por tabu, e, acima de tudo, confundindo cultura com incivilização, História com atraso, razão com ódio.
E não me venham com o argumento supremo, calisto, irritante «ah, mas os pretos também são racistas», porque o «também» é suficientemente eloquente, e, principalmente, porque se eu fosse «preta» talvez merecesse mais atenuantes por desejar não ver a minha filha ligada a alguém que me pudesse
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lembrar, ainda que vagamente, a longa história de abusos cometidos com os meus avós.
Isto, claro, se eu tivesse conseguido sobreviver a uma desinteria, a uma rajada, a uma exploração colonial e a uma discriminação tão estúpida e inconsistente como a que existe por cá; mas como não nasci em África, não tenho outro remédio senão pintar a cara de preto.
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5. NÃO OS TIVÉSSEMOS...
JÁ ARRUMASTE O LEGO, FILHO?
Agora, a torto e a direito se tropeça em rubricas sexuais - supostamente informativas e suspeitamente preventivas - que podem transmitir aos mais novos a ideia de que a sexualidade é um bicho repulsivo.
Que nos desculpem as vítimas de distúrbios, mas, perante uma tal exibição de intimidades, não é para elas que vai a nossa solidariedade; é para as crianças-crianças, e também para a maioria adulta, saudável e sem queixas, equilibrada sexualmente e que lá vai sabendo ultrapassar com intuição e amor as suas crises.
Misericórdia, senhores!
Informar é preciso, mas aterrorizar não é obrigatório, e a verdade é que são muito poucas as revistas que tratam o tema com seriedade.
Algumas publicações femininas de pequeno formato integram «correios sexuais» de conselho nefasto e autoridade duvidosa, e qualquer criança que acompanhe com atenção as questões apresentadas (no dentista ou no liceu) está hoje formada em aberrações.
Já sabe tudo: que há mulheres que se satisfazem vestidas de Ben-hur, meninas que brincam com bonecas e fogem com reformados, e indivíduos com bigode que vão às nuvens mascarados de Branca de Neve.
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Admito que seja primário troçar assim destes desvios, depois do que Freud nos ensinou, mas quando sentimos na pele os danos de uma assimilação distorcida por parte dos nossos filhos toda a revolta é legítima.
Uma coisa é um pedido de esclarecimento, outra é exibicionismo disfarçado de interesse didáctico ou prestação científica, para incentivo às tiragens.
Ao que tudo indica, a reboque de atrasos no período e de paixonetas singelas, há signatários que aproveitam a curiosidade dos leitores para os convencerem da sua «normalidade», obter aprovação para as suas «extravagâncias», ou mesmo, quem sabe, aumentar os seus índices de prazer; e isso é grave, num tempo em que as revistas circulam indiscriminadamente por crianças e adultos.
Já é difícil prepararmos os nossos filhos para os seus debutes sexuais, à partida penosos, prevenindo-os contra o espectro venéreo ou a gravidez precoce, quanto mais sabê-los gratuitamente inibidos por papões improváveis.
Que chatice, anh?
Anda a gente aqui a esforçar-se - e o Prof. Machado Vaz a apoiar-nos com tanta ternura -, tentando salvaguardar na educação das crianças um pequeno espaço para o maravilhoso e para o fantástico, para o sonho e para o mistério, para virem depois meia dúzia de vândalos estragar tudo? Sabemos que não há meio de impedir o acesso de uma criança ao mundo doentio dos adultos, e que hoje em dia qualquer judoca de oito anos pode discar o 222222 quando acaba os trabalhos de casa, ou acompanhar casos como o do «padre» Frederico de olhos arregalados, antes de rezar as orações da noite; mas é por isso mesmo que se deve esperar de certos profissionais uma abordagem mais cifrada ou pedagógica, dependendo da faixa etária dos seus leitores. Ou então criar um S.O.S. telefónico largamente divulgado, de
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consulta grátis, para esclarecimento individual deste tipo de questões.
Assim é que não.
É que não são só as crianças e os adolescentes as únicas vítimas destas colunas «profilácticas»; os casos são contados com tanta «expressividade», que não admira que certas pessoas passem a sentir-se descontentes com a sua vida conjugal, depois de se compararem com os «êxtases» que por aí se relatam.
A este respeito, perdoem-me, mas não posso deixar de rir - até às lágrimas, até à exaustão! - com as descrições panteístas dos transes de algumas «parceiras».
São os tornozelos que incham, os pés que vão sozinhos à cozinha, os-braços que não mais se encontram nessa noite, as unhas que estalam, os frémitos sacudindo as ancas, o corpo roscando em hélice, as visões míticas de ninfas e sílfides correndo pela praia fora em biquinis de leopardo, a espuma do colchão a derreter-se, a cabeceira batendo tão descompassadamente como o coração duma lebre, os vidros embaciados e toda a casa a tremer, para um apocalipse garantido no trajecto de ambulância até aos cuidados intensivos de uma unidade hospitalar.
Perante isto, senhores, que dizer de nós?
Pobres fantasmas assexuados que amamos sem correr riscos de fractura e que havemos de morrer sem conhecer a «plenitude sexual»...?
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JÁ ESTUDASTE? VAI ESTUDAR!
Não há nada que mais me deprima do que entrar na Nova Rede para descontar um cheque de vinte contos - mas alegre, estimulada, viva! - sabendo de antemão que aqueles belos finalistas da Católica já todos usam Regaine.
Trabalham doze horas por dia, e ninguém os deixa respirar.
São as novas tecnologias da formação: targets bem definidos, objectivos sempre maiores, fugindo das gravatinhas como a cenoura do burro, brincalhões como o chafariz do Bugs Bunny.
São os novos heróis urbanos.
Já precisam de dinheiro como nós, carros do ano, cartões refulgentes, seguro de vida, planos de reforma, namoradas óptimas, olheiras côncavas, comprimidos de Prozac.
Dantes, era a escolaridade obrigatória: agora, a universidade como base. Custe o que custar: a adolescência, a aventura, a dignidade, o direito à autodeterminação, a descoberta de si próprios, o amor da família, a própria vocação no caso de não servir.
- Já estudaste? Vai estudar!
Um rapaz que não morre por empinar quatrocentas e vinte e três páginas de anatomia numa tarde resplandecente de sol, nada mais natural se ainda se lembram bem, é agora um marginal, um imbecil, um palerma, um inútil, um cancro familiar, um viciado em potência.
!
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Nunca, em gerações anteriores, se pediu tanto aos jovens que envelhecessem depressa.
E vai de retaliar:
- Apresenta-me boas notas, falamos depois!
Muitos dissidentes drogam-se, é certo. Mas, como não? Se tantas vezes os pais já se encarregaram de lhes explicar, por «A» mais «B», que um aluno «razoável» não tem lugar neste mundo?
É que eles, às vezes, ouvem-nos!
Sem sabermos como, ficou explícito que a prioridade absoluta para os nossos filhos é que eles se licenciem; serem generosos, alegres, honestos, corajosos, verticais e felizes, são hoje aspirações perfeitamente simplórias.
A faculdade, outrora facultativa, é hoje habilitação mínima para uma vaga hipótese de vida, uma vaga hipótese de crédito, uma vaga hipótese de estima.
Pode até ser inexoravelmente verdade, mas convém reflectir no sinistro adjacente: será também mais importante do que o carinho dos pais?
As discotecas estão cheias de gestores, de psicólogas, de arquitectos que, no dia seguinte, levam tareias dos pais por não se prepararem para os testes. Já não se come em paz, já não se cresce em paz. Em casa, há sempre um que não estudou, e que, sem querer, está a provocar enfarte ao pai, bulimia à mãe, e a morte antecipada dos avós.
E as crianças já não se riem, têm escrúpulos.
Há diferenças entre contratempo e catástrofe, entre encorajamento e violência, entre incentivo e chantagem, que diabo! Os pais exacerbam, exorbitam, preferem perder os filhos a aceitar que eles nem sempre são forja, nem sempre são soldados, nem sempre são barquinhos telecomandados.
E, para os miúdos, tudo fica condicionado às notas: o dinheirito de bolso, a raquete nova, a própria prática do seu desporto favorito.
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- Não mereces ir para o judo: ainda hoje não te vi estudar.
Um prémio de puro afecto seria provinciano.
- És um filho são, e isso basta-me. Este ano vais viajar comigo!
Já não interessa ser mas saber, e saber não para ser, mas para «entrar».
- Entraste?
- Não entrei.
- Fogo!
Um jovem que não entra na faculdade, por falta de médias, é hoje em dia um estigmatizado, uma percentagem repugnante, um looser e, acima de tudo, o filho de um pai destroçado.
- Quanto?
- Cinquenta e dois por cento...
- Vai para o quarto, antes que eu perca a cabeça!
- Mas eu estudei...
- Aldrabão!
- Juro, pai! Estudei imenso!
- Parvalhão!
- Pode perguntar à mãe!
- Alarvão!
E ao verificarmos, envergonhados, já tarde, que é verdade, que eles até estudaram, que eles até se esforçaram, que eles até chegaram ao ponto de tomar um «speedezito» para dar um gosto ao pai no ponto de Biologia - só o perigo disto? -, aquela tirada edificante, frutuosa, pedagógica:
- As pessoas avaliam-se pelos resultados!
São os mimos do dia-a-dia, os novos entardeceres da capital.
E quando, finalmente, os desgraçados acabam o curso, tiram a carta de condução e começam a perder o cabelo ao mesmo tempo.
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E quem ganha, realmente, é a UpJohn.
Por isso é que eu prefiro mil vezes que me acusem de falta de modernidade, do que ser uma mãe carniceira. Prefiro fazer das tripas coração e ajudá-los se acaso não triunfarem, nos sonhos e não nas médias, do que desgastar os meus melhores anos com eles, acusando-os de omissões que quantas e quantas vezes não prenunciam talentos que espreitam noutras direcções, e em que tanto se malha que acabam por se perder. Prefiro correr o risco de os vigiar à distância, de os estimular de outras maneiras, do que me instalar dentro dos seus walkman e tocar sempre a mesma sanfona, com a cassete engasgada, até esvaziá-los de vez:
- Já estudaste? Vai estudar! Já estudaste? Vai estudar! Já estudaste? Vai estudar...
E remato com aquela estrofe da Natália, com a força de Adamastor que só ela tinha:
- Subalimentados do sonho: a poesia, é para comer!
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O DESPOTISMO DOS MENINOS...
Quando eu era pequena, ninguém me ligava bóia. À mesa, sempre que interrompia as refeições para contar uma história, havia alguém que bocejava:
- Não se saliente, menina...
Na altura ainda não se falava de «inibição de personalidade», e até o meu avô, que nos adorava, costumava dizer que as crianças deviam ser facultativas.
Quando os meus pais convidavam alguém para jantar, nós só aparecíamos na sala de roupão para dizer boa-noite, e retirávamo-nos rapidamente antes que começássemos a discutir à frente das pessoas e comprometêssemos a nossa mãe.
Não era frequente tratar-se por tu os pais, e muito menos discutir as suas ordens; quando ficávamos de castigo e tínhamos a veleidade de perguntar porquê, serviam-nos um argumento de peso:
- Porque sim.
De facto, os castigos eram irrevogáveis, e o critério que os presidia absolutamente inquestionável.
Não sei até que ponto perdemos génio com isto, talvez algum, mas caprichosos não ficámos, malcriados também não, e a verdade é que ainda conseguimos sacar uma dose razoável de humildade.
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É claro que muita gente se interroga sobre para que serve a humildade nos dias que correm, mas eu sempre a considerei um trunfo imprescindível para a sobrevivência psicológica: não há nada que atravanque mais a vida de uma pessoa do que o excesso de susceptibilidade ou de orgulho.
Respeitávamos os adultos porque lhe reconhecíamos vivência, colhíamos dos velhos a sua sabedoria e o seu conselho, e ficávamos gratos até ao fim da vida quando alguém se lembrava de abrir o porta-moedas para nos dar cinquenta paus.
Mas o tempo rolou.
Trinta anos depois, a investigação médica foi-nos apresentando a novas maneiras de educar os filhos, de forma a conseguir deles uma maior solidez afectiva e um mais fértil aproveitamento da sua curiosidade e imaginação.
Mal ou bem, lá assimilámos a importância do estímulo, do aplauso, do diálogo, da partilha, das refeições em família, e até, noutro plano, de uma alimentação criteriosa à base de vitaminas, proteínas e sais minerais.
O certo é que até nas famílias mais tradicionais se poupava na alimentação, e que se era obrigado a comer invariavelmente pastéis, tartes, empadões e souflés.
Conclusão: os nossos filhos comem melhor, passam mais tempo connosco, vacinam-se a tempo, apanham menos estalos, praticam desportos adequados, e até as vocações artísticas mais incipientes são estimuladas desde pequeninas por talentos no desemprego.
Tudo isto seria encantador se as inefáveis crianças não tivessem ficado insuportáveis:
- O que é esta porcaria?
- É pescada, filho, que a mamã comprou para ti.
- Não como disto!
- Queres que a mamã te faça uns o vinhos, filho?
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- Quero mas é bife!
- Bife, a mamã hoje não tem, filho...
- Então não como, olha que gaita! Que amores.
Ou a gente se põe a pau, ou as crianças mais tarde ou mais cedo acabam por nos escravizar; fazem birras sempre que nos atrevemos a sair sem elas, exigem de nós uma disponibilidade épica, confundem insolência com afirmação, e esgotam-nos a paciência com uma cobrança tão sistemática e uma imposição tão permanente que damos connosco com instintos infanticidas.
E depois, as cedências.
Eu, por exemplo, tenho a maior dificuldade em impedir o meu filho de nove anos de assistir a filmes de terror na televisão, porque ele se queixa invariavelmente de que é o único da escola a ser interditado, ou de estabelecer com a minha filha de dezasseis uma hora limite de entrada em casa, porque ela me garante que nenhuma outra mãe é tão «exagerada»
como eu.
Está tudo doido, ou passou a ser «compreensivo» deixar uma miúda voltar para casa às cinco e meia da manhã, escoltada por um trinca-espinhas que nunca vi na vida já toldado, sem chances de a defender até de um simples gato?
Mas não é tudo: já não querem canetas nos anos, mas aparelhos de alta fidelidade com leitor de «compacto», criticam os nossos amigos e troçam dos nossos valores, ficam seis horas a discutir entre irmãos quem levanta dois pratos, e bufam à nossa frente sempre que, exaustos, nos atrevemos a pedir-lhes que coloquem um novo rolo de papel higiénico na casa de banho.
E mais: quando ficamos sem crianças nalgum fim-de-semana-milagre e nos lembramos de convidar amigos para jogar uma cartada, temos de aturar as criancinhas dos outros com
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hábitos ainda piores, que ali se quedam a assistir às nossas conversas com uma desaprovação irritante, a correr pela casa fora ao melhor estilo «Waterloo», ou, pior do que tudo isto, a pesarem-nos com o seu tédio.
Fantástico.
Os pais perdem oportunidades de viajar porque elas se sentem «desajustadas» em qualquer outra casa e se maçam nos avós, vão ao cinema atormentados com escrúpulos, pedem-lhes desculpa com os olhos húmidos por não terem dinheiro para comprar uns jeans de nove contos ou um blusão de penas no valor comercial de um ordenado mínimo, e, quando chega a hora de alugar uma casa de férias, é-se obrigado a aturá-los de trombas quinze dias porque suas excelências estão com o coração em Vila Nova de Milfontes.
De quem é a culpa, de quem é?
Ainda íamos a tempo de fazer qualquer coisa, mas para isso era preciso que alguns pais colaborassem, e não confundissem a torto e a direito o despotismo dos meninos com as novas aquisições da psicologia moderna.
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6. DO SEXO, AMOR, AMIZADE E PAIXÃO
CAMBADA DE PERJUROS
Sobre o casamento, é pena que duas pessoas tenham de partir para uma vida em comum com uma noção de eternidade tão abstracta, e sem mesmo avaliarem os riscos da corrosão da convivência.
Mas não há nada a fazer.
O grande problema do casamento entre os jovens é que é resolvido por exclusão de partes, no limiar da saturação dos pais e impulsionado por ânsias de liberdade, muito antes da idoneidade mental.
O «sim» imponderado e romântico, que se pronuncia na confirmação do acto, é formulado na mais completa ignorância do que representa estar ao lado da mesma pessoa para o resto da vida, numa idade em que a nossa solidez nunca foi testada, e em que a verdadeira personalidade do cônjuge ainda está longe de se revelar.
É por isso que todas as mães do mundo choram nas. igrejas: por se terem esquecido de avisar os filhos de que o casamento não é apenas uma coincidência sentimental enternecedora, mas uma proposição que precisa de ser demonstrada para se tornar evidente.
Por outro lado, penso que qualquer estado de enamoramento é susceptível de doirar a realidade, e que qualquer de nós chega ao altar, à conservatória, ou directamente a um
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sexto andar no Areeiro, sem experiência que nos permita prever o nosso grau de resistência face ao espartilho conjugal, ou a peça em que resultará o companheiro.
Não há solução para isto, o que transforma qualquer projecto de ligação convicto num acto irresponsável ou numa tômbola da sorte.
No entanto, a verdade é que ainda não se arranjou melhor solução para se preservar um sentimento ou constituir uma família. Não serão muitos os casamentos de sucesso, mas quando algum resulta em cheio é difícil imaginar a dose de bom-senso, intuição e disciplina que foi necessário para o sustentar.
Em idade adulta, ou em segundas tentativas, os riscos mudam, mas não são menores; as pessoas partem escaldadas para relações de continuidade, cheias de reservas, e a adaptação ao outro é ainda mais renitente: a dádiva arrefece, a tolerância calça as tamanquinhas, os defeitos não têm vergonha na cara e os feitios moldam-se a ferros. Mas a grande asfixia da relação a dois, para os teimosos do sonho, é, mais do que a rotina, a predestinação; o mistério da vida perde-se, o futuro torna-se conjecturável, o acaso e a aventura não esperam que as crianças adormeçam, os prazeres são agendados, as relações sexuais são praticadas nas brechas das fadigas, os sonhos passam a deslizar numa cinta fabril, e as casas podem transformar-se de um momento para o outro em cárceres espirituais sem salvação.
Só os mais fortes resistem, e é bom que a malta nova se aperceba disto antes de começar a procurar casa; é muitas vezes utópico, sobretudo quando há filhos a obstruir este propósito, imprimir a tónica de liberdade, improviso e renovação necessários à interacção estimulante e perdurável de que nos falam as revistas.
Por outro lado, quando um casal consegue sobreviver a um casamento de cinquenta anos sem perder o melhor da vida e
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de si próprio, terá dado ao Mundo a maior prova de maturidade acabada; e para quem vê na existência um estágio de aprimoração pessoal, o casamento pode até constituir um Jogo da Glória empolgante, um repto intelectual irresistível para crânios exigentes.
O problema é que nem toda a gente tem esta vaidade intelectual nas ligações, como se só as provas de amor cor-de-rosa fossem importantes, e a primeira coisa que fazemos a seguir ao casamento é achinelar defronte da televisão ou das salsichas e pendurar a inteligência no cabide.
O romantismo é muito culpado disto, mas cada vez me convenço mais de que o que falece nas relações não é o sentimento: é a vida, senhores, é a própria Vida que acaba por se arrumar no armário juntamente com sabrinas e canas de pesca.
E enquanto for assim estaremos a saque: qualquer burra de saias, qualquer mânfio de bigode amansado, qualquer aceno profissional ou qualquer brecha financeira nos darão boleia para regressarmos, novamente inconscientes, ao pior e ao melhor de nós próprios.
É incrível: somos tão fracos ou tão estúpidos, que nem o amor, nem a Fé, nem a família nos livram da tentação de não conhecer o destino.
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PROFUNDA SAUDADE DO RIDÍCULO
«Bebezinho do Nininho-ninho;
Oh! Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gostei muito da catinha dela. Oh!
E também tive muita pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequenininho!
Hoje, o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia s avia carros, combinei tá aqui às seis o ’as.
Amanhã, a não sê qu ’o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia.
Amanhã, o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos.»
Engana-se: não se trata de um bilhete escrito por um pombinho qualquer, lírico e piegas, mas o enlevo dum Fernando Pessoa completamente embeiçado pela sua Ofélia, numa carta que lhe enviou em 31 de Maio de 1920.
Consolador, não é? Que um génio destes possa escrever uma carta tão pouco literária para expressar a sua ternura? Que a paixão nos torne a todos irmãos? Que o amor seja o lugar onde todo o homem se encontre despido de roupagens, no mesmo estado de vulnerabilidade e sem privilégios de Q.I ou instrução?
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Eram as cartas de amor, as saudosas cartas de amor que transcreviam quase directamente as palpitações dos amantes e namorados, num tempo em que o telefone era utilizado com moderação, a distância propiciava a epístola e os preconceitos impunham um sigilo picante.
Mas agora já quase não há amores afastados, apartados pela geografia, mutilados pela guerra ou privados pela desaprovação das famílias, e as cartas de amor caíram em desuso em Portugal tão implacavelmente como no resto do Mundo, como o fogão de lenha ou o passe-vite.
É pena, não é?
Por muito belos que sejam os amores de hoje, não fica deles nenhum testemunho, nenhum registo em papel, nenhuma prova cabal de intensidade que arrebatou e fundiu dois corações em dada época, e a verdade é que os sentimentos tornados assim - transparentes, etéreos, suspensos - correm o risco de se volatilizarem ao fim de algum tempo, de se confundirem com outros, de se distorcerem em recordações toldadas pela mágoa.
Nunca gostei dela como gosto de ti - afirma-se hoje, com a maior facilidade.
Por outro lado, talvez seja mais fácil enganarmo-nos assim, do que encontrar em meia dúzia de linhas açucaradas o argumento e a demonstração de uma verdade incómoda: de que se pode amar com a mesma intensidade mais do que uma vez, que os amores contemporâneos decorrem de circunstâncias adjuvantes e não de cupidos enternecidos, e que o eleito não é, frequentemente, mais do que um objecto de que nos apropriamos com sofreguidão para queimar uma energia capaz de crescer e de se reproduzir mesmo sem ele.
O certo é que não deve haver nada mais lacinante para um romântico do que conservar junto de si a prova inequívoca de que os sentimentos são tão mortais como ele próprio, e de que
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o amor (até o próprio amor!) é finito. E sabemos que há tanta coisa «dentro» desse amor: o êxtase de se encontrar numa amizade toda a constância que as outras não têm, a mobilização cristã, ou o fogo cantado pelos poetas.
Mas basta ler nas entrelinhas de uma qualquer carta de amor para nos rendermos ao sortilégio daquilo que constitui, seguramente, o único recurso inesgotável da terra: nem que seja através de um desses recados modernos, urbanos e apressados, esguelhados a bic e deixados em cima do frigorífico:
Querido:
Vamos fazer um piquenique? Deixa-me dinheiro para comprar compais! Vai-me buscar às quatro, à Almirante Reis. Aproveitamos e vamos buscar o teu fato à lavandaria. Podemos dar boleia à minha irmã até ao Marquês? Coitada, tem os filhos. Leva a camisola que eu te dei no Natal, levas? Se tiver tempo, ainda passo pela Lua de Mel para comprar as tuas empadas. Não te esqueces de mandar lavar o carro? Domingo é o casamento da tua sobrinha! O pisca da direita não funciona. (Não tive coragem para te dizer porque dizias logo que o carro se estraga nas minhas mãos). Amanhã é a missa do teu pai: no ano passado faltaste. Não tenhas mau feitio... Ama-me também, caraças!
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O INFERNO A ARDER
De todos os sentimentos que nos tiranizam o ciúme é talvez o mais contraditório, porque entra em conflito com certas qualidades a que nos habituámos a admirar: nomeadamente, o respeito pela liberdade alheia e pela autodeterminação moral do outro.
Mas o problema não é esse.
É que para além de sentimento, o ciúme é sobretudo uma realidade física com sintomatologia própria e consequências imprevisíveis, capaz de provocar no nosso metabolismo alterações de toda a ordem: suores frios, tonturas, taquicardia, insónia, cegueira, urticária, tremuras, perturbações gastrointestinais e muitos outros distúrbios que a Medicina um dia se encarregará de decifrar.
Independentemente disto, os ciúmes provocam um abalo tão forte no nosso ego, no nosso amor-próprio, nas nossas convicções e nos nossos projectos, que pode tornar-nos irreconhecíveis como seres racionais dotados de bom-senso e guiados por leis morais. É ver os mais sólidos e lúcidos indivíduos chegarem ao homicídio, a negarem pai e mãe, a desconherem os filhos ou a desfazerem vidas laboriosamente construídas movidos por impulsos incontroláveis.
E, curiosamente, o ciúme decorre mais da agonia da suspeita do que do golpe da confirmação.
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É este o seu drama.
A reacção química que provoca é de tal maneira fulminante, que podemos assistir a toda a hora, em nós e nos outros, ao triste espectáculo do respeito a transformar-se em desprezo, a ternura em cinismo e a paixão em ódio, sem que isso comprometa ou desfalque, minimamente, o verdadeiro sentimento que liga a «vítima» ao «algoz».
E o pior é que a única maneira de se fugir aos ciúmes reside na ignorância sistemática dos próprios factores de risco, o que nos pode conduzir a atitudes caricatas de irresponsabilidade ou negligência susceptíveis de precipitar, por sua vez, novas ameaças.
É uma via sem regresso, capaz de destruir vidas inteiras e desmembrar famílias com muito mais eficácia do que uma tragédia real.
O ciúme é estimulado pela antevisão da perda do objecto amado, da ferida que abre e do espectro insustentável da piedade social, ou ainda, na sua forma mais vil, gratuita e frequente, pelo espicaçar do nosso próprio orgulho acirrado pela rivalidade ou, muito simplesmente, pela ameaça que constitui a invasão iminente do nosso território.
(Deve ser por esta última razão que há ciúme entre os bichos, embora suavizados pela ausência da dor moral.)
Mas o mais irritante é constatar que o ciúme não decorre exclusivamente do amor homem-mulher: pode experimentar-se relativamente a uma mãe, a um filho, a um enteado e a um irmão - ou inclusivamente a um cão, a um emprego ou a uma actividade desportiva -, com ligeiras variações de intensidade, desde que se reconheça no «carrasco» uma qualquer qualidade carismática (que nos falte) susceptível de arrebatar o outro, ou, mais concretamente, de o desviar de nós.
Assim, a solução não passa por exorcizar os ciúmes - uma vez que eles exprimem o eterno duelo entre a natureza
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racional e animal a que todo o humano está condenado - mas sim por controlá-lo através de um domínio mental quase impossível de se encontrar em quadros de insegurança ou de dependência afectiva.
A solução mais prática seria traçar uma estratégia para combater o ciúme com o ciúme, se a inteligência alguma vez se conseguisse sobrepor aos afectos e se esses jogos não acabassem sempre por nos degradar; mas como isso raramente acontece, a única saída digna será continuar a sofrê-los e a disfarçá-los a todo o custo.
Mas permitam-me que termine com uma brejeiríssima reflexão sobre a diferença que há entre os ciúmes justificados e as cenas sem fundamento - estas últimas mais corrosivas do que quaisquer outras; é que enquanto os primeiros poderão revelar a fragilidade do outro, as segundas denunciam a nossa e é mais chato.
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DOLOROSA, INSUPORTÁVEL, OFEGANTE!...
Até então, o coração era uma coisa central, mas escondida dentro de nós; uma função trivial exercida algures nas nossas entranhas, mas discretamente; um órgão vital para a circulação do sangue, mas também um músculo repugnante e de forma cónica que pulsa em nós e nos animais. Inclusivamente, um miúdo que bóia nas canjas e se digere com as cabidelas. Uma eminência parda em que somos obrigados a reparar a certa altura porque nos passa a doer de um momento para o outro, lancinantemente, a ganhar existência histórica, a crescer, a arder, a cair-nos aos pés. Porque o apanhamos na garganta, a enforcar-nos a voz, porque o seguramos no peito, para evitar que deserte, porque falamos com ele nas mãos, para que creiam em nós. A partir de certa altura, o coração passa a ser uma florinha de estufa, que flecte e que murcha à menor aragem, algo que não podemos ignorar porque o sentimos a toda a hora, que se impõe acima de todas as coisas como uma ferida aberta ou um sexto sentido. E, como ele, o telefone. Aquilo que parecia imprescindível apenas para dar recados, encomendar bilhas de gás, ouvir a voz dos amigos, as intrigas dos colegas ou as recomendações dos pais, passa a fenómeno de sujeição. É por isso que o telefone (antigamente as cartas) e o coração se tornam cúmplices tão rapidamente: se um toca o outro vibra, se um se
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cala o outro sangra. Mas não é tudo, há outro elemento essencial neste processo destruidor ou redentor: o colchão. Sim, o colchão. O nosso colchão passa a ser usado não para dormir, mas para desfalecer; são as suspeitas que o telefone lança, mais os sobressaltos que o coração despede, que nos obrigam a usar a cama não como uma peça de mobiliário que nos retempera as forças todas as noites, mas como uma enxerga onde nos debatemos com a morte numa luta corpoa-corpo e que só lentamente nos convalesce. O coração, o telefone e a cama: três personagens centrais desta tragédia grega a que chamamos paixão e que tanto arrasta montanhas como nos coarcta as forças. Mas existe um quarto elemento capaz de nos alterar, transformar, tiranizar: a voz. A voz desejada e ao mesmo tempo déspota do outro. O timbre, a entoação, os requebros, as pausas e as inflexões da voz do outro também passam a comandar a nossa vida como generais no activo. Ela é, aliás, essencial para um bom sofrimento; se é quente e carinhosa, precisamos da cama para exultar sem testemunhas; se é agreste ou apressada, precisamos dela para sofrer em condições. Durante a paixão, o sofrimento é doença desejada, necessária, prioritária, que exige um cenário próprio para alastrar à vontade: pouca luz, conforto físico, isolamento. Sem estes requisitos, a dor que a paixão provoca é elevada ao suplício. Sofrer, duvidar, esperar, definhar, soluçar e morrer uma vez por dia, tudo isso faz parte de um bom sofrimento, de uma boa agonia, de uma boa paixão. Por outro lado, a paixão é o único estado de espírito que nos faz verdadeiramente desvalorizar a morte e esquecer tudo o resto porque o Mundo passa a ser uma só coisa: a estalagem onde o outro habita, a ponte que nos leva a ele, a estrada que nos ilude. É mentira, mas está provado: que a paixão é um abismo em que as pessoas se lançam de livre vontade, convencidas de que a supressão do outro é uma agonia pior do
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que a privação da vida. Mas a verdade é que o coração bate mais e não menos durante a paixão; e que nos faz sentir tão vivos e tão humanos e tão férteis e tão fortes e tão corajosos e tão animais e tão divinos, que nos custa ainda trocá-la pela paz do amor.
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OBRIGADA, BOAZONA!
Nós, as vítimas, perdemos a cabeça com elas porque os homens perdem a cabeça por elas. Não aguentamos que, sem articular palavra, elas nos dêem avanço, arrumem a um canto, matem de fome no ar. Não admitimos que, sem mérito algum, elas os mereçam. Não concebemos que a plástica, à beira do terceiro milénio, possa continuar a constituir ascendente, argumento, poção, vantagem, prioridade. Sabemos que não há princípio, moral ou valor que se aguente ao pé duma bata transparente, duns jeans a abarrotar ou dumas botas até à coxa. E elas, sempre aí, tenazes no seu posto, a desafiar a lei da gravidade, em qualquer lado, a todo o momento, em cada esquina, nos liceus, nos balcões, nos aeroportos, nos ministérios, a crescerem e a multiplicarem-se sem tréguas. Tantas e tão impossíveis de exterminar como as ratazanas de Mafra. É a gente a mudar de farmácia e a vizinha da frente a fazer olhinhos. É a gente a romper com a melhor amiga e a secretária a ganhar pontos. É a gente a dispensar a baby-sitter e a criada a engravidar de ninguém. É a gente a escorrer «rímel» e eles dois na brincadeira. Consideramos a concorrência das boazonas a mais desleal, a mais injusta, a mais cobarde, a cruz mais pesada da nossa condição de mulheres. Não antevemos solução nem fim, nem conseguimos imaginar que o homem possa alguma vez criar imunidade. E, no entanto, não invejamos
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as boazonas. A verdade é que não suportaríamos ouvir bojardas a toda a hora na rua. Palavrões que não passam de moda nem perdem eficácia: convites, promessas, ameaças e adjectivos de parede proferidos com desespero, lascívia, raiva, cobiça, açúcar ou azeite. De garotos de rua, arrumadores de automóveis, camiões TIR, bombas de gasolina, chefes de família. Estamos fartas, enjoadas de palavrões. Crescemos a ouvi-los a caminho da escola. Ouvimo-los nas barbas dos nossos maridos. Ouvimo-los grávidas de oito meses. Ouvimo-los a dar de mamar às crianças. Ouvimo-los a empurrar baloiços, nos parques e jardins. Sem querer, fomos disfarçando os caracteres primários comendo bolos ou envergando casacões que transformam o nosso corpo em sacas de adubo. Enveredámos pela alegria, pela generosidade e pelo quociente, convencidas (que graça) de que eles acabariam, mais tarde ou mais cedo, por renunciar. Mas eles tomaram-no por arrogância e disseram «então depois não te queixes». E continuaram a inventar pescarias, serões de trabalho e despedidas de solteiro para lhes desabotoarem as batas, benzerem as ligas, acariciarem as tintas. Não compreenderam nem compreenderão porque nunca foram vexados. Nunca viram as suas calças serem desapertadas à má fila por matronas de ar patibular. Não sabem a impressão que deixa, o desagradável que é, o sobressalto que fica. É por isso que não compreendem por que é que nunca poderíamos sucumbir ao êxito (afinal de contas) difícil duma boazona. Ao êxito vazio, decadente e triste duma boazona. E Deus sabe como é duro competir com elas! O que pode o amor ao pé duma t-shirt molhada? O que interessa morrer de sida ao pé duma mini-saia a jogar bilhar? O que representa Cristo ao pé duma cintura de ampulheta? Nada, porque o físico e o sexo mandam em tudo e não há como fugir disto. É impulso, é urgência, é vertigem, é hipnose, é íman, é karma, é desespero, é bruxedo, é fado, é o que for, é escusado,
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é assim mesmo. Os homens correrão sempre para elas como avançados atrás do esférico. Diante delas, eles saltam e riem e batem palmas e babam-se e deixam cair os gelados e atiram-se das bancadas abaixo como crianças a ver golfinhos. E começamos a estar fartas (dois milhões de anos é muito tempo) de trocarem a nossa alma pelo corpo delas. Fartas de nos deixarem sozinhas na maternidade. Fartas de arredar armários e de acarretar com bilhas. Nas noites infinitas em que nos olhamos ao espelho e os compreendemos melhor. Nas noites infinitas em que tudo o que fomos, sofremos, demos e alcançámos se torna patético ao pé duma boca sem pregas ou dum peito firme. Nas noites em que engordamos, azedamos, envelhecemos a pique. Mas eles não se comovem porque o sexo fala mais forte. E nós perdoamos aos homens porque, no fundo, também sabemos que o sexo fala e falará sempre mais forte. E nós perdoamos aos homens porque precisamos deles e doutra forma não os teríamos. E nós perdoamos aos homens porque (hélas) não temos outro remédio senão perdoar aos homens.
Alto.
Perdoem-me, leitores, mas todo este arrazoado que acabei de fazer não passa duma vil e descarada falácia. A verdade é que perdoamos aos homens porque antes de perdoarmos aos homens tivemos de nos perdoar a nós. A verdade é que perdoamos aos homens porque antes de perdoarmos aos homens tivemos de perdoar às boazonas. A verdade é que nunca houve «elas» nem «nós», porque as boazonas são você e eu aos olhos dum homem com outra ao lado.
É isso mesmo que ouviu, minha senhora, e não amue como se fosse feita doutra massa e como se, de vez em quando, não usasse truques tão baixos ou mais do que os delas. As boazonas somos todas nós, a qualquer hora, em qualquer idade, em qualquer altura das nossas vidas, em qualquer momento de
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desespero, de caça, de luta, de fome ou de sede, em qualquer momento de paixão de sedução, de solidão, em qualquer momento de glória, de sobrevivência, de carne ou de poesia! E isto porque todas nós somos vítimas ou carrascos dependendo da hora a que nos estão a ouvir. De boazonas todas temos um pouco e ainda bem, porque é ao esforço que fazemos para nos demarcarmos delas, para nos demarcarmos ao fim e ao cabo de nós, que acabamos por dever tudo o que somos.
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NÓS, AS BONECAS
Dantes, uma mulher feia não tinha hipóteses: não dançava nas festas, engordava por compensação, namorava treze anos com o melhor aluno da turma, ensopava o diário quando ele partia para o seminário, e ficava para tia.
Um homem feio sempre se safou, e com defeitos nem se fala: se fosse cobarde era porque era frágil, se fosse canalha era porque tinha charme, se fosse calão era porque era artista, se fosse colérico era porque, coitado, trabalhava que se fartava.
Em suma: bastava-lhe ser homem para ser interessante.
Repimpado nos cabedais da vantagem infranumérica, não precisava de se esmerar para escolher noiva.
Para merecer o estatuto de «bom marido» bastava-lhe, praticamente, não espancar a mulher e não voltar grosso para casa. Por seu lado, para a mulher o merecer, tinha de apresentar uma carteira de habilitações homérica, usar cinto de castidade com chave atirada ao rio, e encher de coragem a caixa de pó-de-arroz. (Refiro-me à equação conjugal que se pratica ainda hoje, e não me venham falar de excepções.)
Durante séculos, o conceito de feminilidade esteve associado à aprovação acéfala, à cumplicidade imposta, à cobertura incondiconal de tudo quanto o homem fazia, dizia e pensava.
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Creio mesmo que estou a falar de «doçura».
Mas há males que vêm por bem.
A necessidade aguça o engenho, e a mulher foi obrigada a salientar-se no meio de rivais desesperadas que não hesitavam em abraçar a luxúria para conseguir uma mísera festa nos cabelos.
Foi neste desequilíbrio que muitos casamentos se equilibraram: homens rotineiros, mulheres esforçadas, amantes complementares do único atributo que, à cautela, não se exigia às legítimas.
(Nunca me esqueci de reparar no tipo de veneração que os homens têm pelas mães, já repararam? É um amor que parece pedir desculpa em nome de outros homens...)
Mas, voltando à beleza, o cinema é um espelho.
Para além da Giulietta Massino, praticamente, todas as grandes actrizes tinham de ter, além de talento, medidas: por seu lado, Hollywood sempre se pôde dar ao luxo de dispensar o palminho dos homens, porque não deixava de vender bilhetes.
Diz-se que, no homem, a mulher valoriza outros caracteres sexuais, mas a verdade é que no Sammy Davis Jr., no Mickey Rooney, no Woody Allen... nem esses, nem outros.
Mas adiante: para superar todos os desafios, à mulher só lhe faltava esse - ser feia e sedutora ao mesmo tempo.
Acabou por vencê-lo: a Liza Minnelli consegue ser mais inesquecível que bonita, a Barbra Streisand mais fascinante que clássica, e até a Sharon Stone, pelos vistos, mais sexy que estampa.
Creio que a flexibilidade da moda nos ajudou muitíssimo.
Definitivamente libertas de padrões rígidos que beneficiavam as esguias e desclassificavam a maioria, ou vice-versa, cada uma soube encontrar para si o estilo que a favorecia, o seu próprio jogo de sedução.
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A abertura intelectual, também.
Ao fim de milénios, um homem qualquer que não se chamava Nietzsche descobriu finalmente que a mulher pensava. Provocou-a, e perdeu algumas discussões; ouviu-a por uma vez, e obteve excelentes conselhos para si próprio.
Assim, passou a acrescentar ao seu cardápio de exigências os dois dedos de testa.
Quem tudo quer, tudo perde.
Muitos sucumbiram a ascendentes intelectuais duvidosos, e vivem até hoje com dragões que lhe dão coças.
Foram, digamos, as vítimas da revolução.
Hoje, tudo mudou.
A mulher provou que se pisga quando é chagada, foge com o padeiro porque não prescinde de romance, e nem a chantagem dos filhos parece detê-la.
Vai muitas vezes para pior, mas vai.
Está doida, claro; mas também quem é que aguentava dois milhões de anos de gelados na testa?
Em resumo, estamos praticamente a chegar ao taco-a-taco: a mulher já demonstrou que pode produzir o mesmo, se estiver disposta a abdicar de outras coisas, o homem já se vai safando em casa sem ela, se não tiver que mexer em lixívia.
A partir daqui, talvez.
Quando a reciprocidade for encarada com seriedade, quando a inteligência der a mão à palmatória, quando a igualdade significar equivalência, quando a justiça se aguentar nas canelas, quando a Bíblia for interpretada sem manha, quando qualquer outra sorte para a mulher indignar o próprio homem, ou quando ele entender, finalmente, que não tem feito mais do que lutar contra si próprio, então, sim, talvez possamos de facto reconhecer que fizemos falta aos nossos filhos.
E não só: voltar do trabalho com mais disposição para encher de malmequeres a jarra da entrada, passajar peúgas
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sem azedume, cozinhar um bacalhau «exactamente como tu gostas, fofo», ou fazer um pão de nozes «igualzinho ao da tua mãe, rico», para deixar no espelho da casa de banho, escritos a bâton, recados como este:
- QUERIDO! SOU A MULHER MAIS FELIZ DO MUNDO! DESCOBRI QUE TE SOU FIEL PORQUE TE APRECIO E RESPEITO, E NÃO PORQUE TENHA MEDO DE LEVAR UMA TAREIA!
Mas é quando o fizermos de livre vontade e não com revólveres encostados à fronte.
As feministas querem concorrer com os homens; as femininas, mais conhecedoras da sua natureza e do seu perfil, já se contentavam em resgatar aqueles direitos humanos que certos animais sempre tiveram.
Pelo que conheço das mulheres, sei que a maior parte nem se importaria de renunciar ao frisson profissional para se encarregar de outros papéis fundamentais para o bem-estar da família e para o equilíbrio do Mundo, desde que o homem chegasse a casa e lhe beijasse os olhos.
E um raio duma subtileza que tem custado a assimilar, produzido milhares de vítimas de palmo e meio e lavrado rugas prematuras em muita mulher da nossa geração, mas que acabará por valer a pena.
A pena inconfessada que os homens têm de já não poderem, tão impunemente, brincar com bonecas.
Até lá, escusam de disfarçar para não nos dar o lugar no autocarro; a gente sabe que, apesar de cobarde, ainda vai sendo o único processo legal dos conservadores se vingarem.
Mas, quem é que perde? A malta agarra-se com mais força ao poste, fecha os olhos quando as varizes começam a latejar, e chega a casa já sem ânimo para vos fazer o jantar.
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A MULHER-DRAGÃO
«Não se deve esperar mais nada duma mulher do que amor, enquanto ela o puder trocar por tudo o resto [...] O amor para a mulher significa poder, para o homem submissão...»
É assim que termina o livro de Esther Vilar O Homem Subjugado. Foi traduzido e publicado em Lisboa em 1972, e ignoramos que reacção terá provocado na capital há vinte anos atrás; mas soube-se que este ensaio exasperou as burguesas honradas de Viena, que um pelotão de feministas ocupou os territórios do seu editor norueguês, e que, em Zurique, as forças policiais foram obrigadas a proteger a escritora contra uma multidão descontrolada que a quis linchar.
Não foi caso para menos.
Esther Vilar começa logo por arriscar a pele na primeira página do seu polémico livro, dedicando-o «aos poucos homens que não se deixam amestrar, às poucas mulheres que não se vendem, e aos felizes que não têm valor de mercado, porque são demasiado velhos, ou feios, ou doentes»:
Mas não só.
Para reforçar a sua ideia de que «o amor para a mulher significa pretexto para exploração comercial, e para o homem um álibi impregnado de emoção para a sua escravatura», a autora recorda-nos a popular canção de Nancy Sinatra These
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Boots Are Made for Walking, cuja primeira quadra é bem ilustrativa da sua tese:
«Estas botas servem para andar
e para isso vão ser usadas,
e breve, num destes dias
andarão por cima de ti...»
Depois, tem a coragem de contrariar os ventos da contestação feminina para chapar no livro alguns comportamentos que até os mais cegos defensores da mulher não podem deixar de reconhecer: que muitas de nós utilizam os filhos como reféns, o mundo profissional como coutada de caça, o sexo como recompensa, e a Fé como alibi.
Mas o que mais indigna a autora, como ser humano envergonhado do seu género, é o talento que certas mulheres têm para reduzir o homem a uma máquina de trabalho de primeira categoria, manipulando-o sem compaixão até ao enfarte.
Diz ela: «É repugnante ver como os homens (esses sonhadores maravilhosos) traem no seu dia-a-dia tudo aquilo para que nasceram. Como eles renunciam a todas as suas enormes capacidades e ajustam voluntariamente o seu corpo e o seu espírito às necessidades primitivas das mulheres.»
Para enriquecer este trabalho notável sobre O Homem Subjugado, poderíamos até acrescentar certa energia perniciosa que Esther Vilar se esqueceu de mencionar - a violência; no homem mais física, mais primária, mais impulsiva, mais desesperada, mais arrependida... na mulher mais verbal, mais urdida, mais erosiva, mais castrante, mais triunfal.
Já para não falar do engenho pérfido de que muitas se servem para rentabilizar a seu favor os escrúpulos masculinos.
A quem o dizem.
Sabemos que há mulheres capazes disto e de muito mais: são as que dão sovas nos maridos porque eles entram em casa sem descalçar os sapatos, que vão desde Birre ao Cais do Sodré espumando para fantasmas ao volante, e que vão para a cama a cheirar a Clarim e a refogado com armaduras de flanela.
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Sabemos de ginjeira que há mulheres assim. Sabemos até que é esse tipo de mulher, e não outro qualquer, que merece de vez em quando levar o seu tabefe, ser alternada com rapariguinhas de shopping, e lavar de joelhos o chão dos marialvas.
O que não percebemos é por que razão insistem em confundir connosco esses mamíferos de voz prognostica remanescentes da pré-história.
Será que é só porque também usam soutien?
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OS NOVOS CAVALHEIROS
Já sabemos mais a respeito da sida: que o facto de não pertencermos a um grupo de alto risco não nos preserva de nada, e que um parceiro que arrisca uma única vez na vida poderá estar tão sujeito a transmiti-la como um promíscuo qualquer.
Não é tão injusto como parece; pessoalmente, revoltava-me que a síndroma começasse a revestir-se de um estatuto de imoralidade concludente, com vantagem dos sedentários sobre os errantes, como se a imunidade estivesse a adquirir um cariz elitista ou fosse regalia exclusiva da estabilidade sexual, e como se essa condição afortunada e tantas vezes circunstancial do parceiro único correspondesse linearmente a um comportamento mais moral ou constituísse em si uma virtude.
(Deus sabe se não há mais canalhas fiéis do que gabirus de coração grande...)
Enquanto não for possível avaliar a qualidade ou a integridade duma pessoa pelo número de parceiros sexuais, talvez seja preferível: não agravar o espectro sinistro da doença com um carimbo discriminador até para não darmos chances à natureza humana de tratar como leprosos os tais grupos de alto risco.
A partir de agora, toca-nos a todos.
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Mas para além do espectro do vírus há a nostalgia dos velhos coitos.
Desgostará a todos pensar que, em termos ideais de higiene e prevenção, nenhum estreante deverá conhecer o amor na sua forma mais natural e mais inteira, e que doravante toda a relação sexual está condenada a ser praticada com o desespero da noiva que visita o detido na penitenciária com um vidro espesso a separá-los.
Refiro-me ao preservativo, claro, e assisto com uma certa perplexidade ao conformismo das pessoas em geral, como se este luto que caiu sobre a única forma de amar que conhecemos desde há milhões de anos nos fosse vagamente indiferente, e como se o sistema embalado defendido por todas as organizações mundiais de saúde não comportasse a mínima possibilidade de afectar o desempenho do homem ou desfalcar o prazer dos amantes.
É mais uma prova de resistência que se pede ao estoicismo do homem, que até hoje tem aguentado todas as provações da madrasta-natureza com uma resignação admirável, inteiramente impossível de ser emulada por qualquer outra espécie animal.
(Sim: que boi se sujeitava a cobrir a sua vaquinha com um plástico enfiado nas partes?)
Mas não adianta chorar: não existe outra forma de nos proteger do contágio, e a inocência a este respeito virou pecado num abrir e fechar de olhos. É preciso que as pessoas se compenetrem de que à pala do amor podem pura e simplesmente assassinar o eleito e dizimar-lhe a família, e que esse gesto aparentemente frio de envergar uma manga de plástico num orgulhoso padrão de descobrimentos não é, nem por sombras, tão pouco romântico como parece: longe de constituir uma defesa pessoal egocentrista, deverá ser encarado pelo próprio e pelo parceiro como um gesto estético do mais belo e nobre cavalheirismo.
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Mas há uma frase de Kafka que se antecipa à minha ideia: «O QUE SE DEVE ESPERAR DO VERDADEIRO HOMEM É QUE TRANSFORME AS EMOÇÕES EM CARÁCTER.»
É certo que não havia o vírus, no seu tempo, mas não há dúvida de que a epígrafe daria um excelente slogan publicitário para uma nova campanha anti-sida.
Fica a ideia.
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DEBAIXO DE UM COLCHÃO DE HOTEL
Sexta, 8 de Janeiro de 1992
Tonto! Como se eu não tivesse percebido logo de quem se tratava. Bastou que te mostrasses indiferente àquele par sumptuoso de pernas. Foi tão agradável olhá-la de frente. É sempre tão cínico ter razão. Chega a ser velhaco...
Sábado, 6 de Fevereiro
Bolas, estou outra vez a pensar nela! Julguei que o banal não me assustava. Não que o meu conceito de banal excluísse o belo. O palminho de cara. A roupa boa. As maneiras à mesa. A pulseira de corações. Mas do que eu me esqueci foi que esse banal era a ti e não a mim que fascinava...
Quinta, 11 de Fevereiro
Olhaste tanto para mim durante a festa que me senti na obrigação de dar conversa àquele boneco. Satisfeito? A rasca? Ou é mesmo o medo que te reconfirma a decisão de há seis anos atrás? Se não tivesses medo, terias então a coragem de me deixar? Grande estafermo! A gente ama, a gente dá tudo, mas só com cabritice estudada vocês nos respeitam?
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Quarta, 24 de Fevereiro
Foi quando abri a luz e te vi a dormir, que me apercebi do que gostava de ti. Não sei se foi por te ver despojado de ti próprio e feto outra vez, se foi por te ver morto e completamente sozinho no teu enterro. Mas percebi que fui eu a única pessoa a quem o teu ressonar paleolítico fez chorar de ternura.
Terça, 23 de Março
Aquele cabelo na banda do teu fato. Neste momento, não sei qual de nós pensa mais nela...
Domingo, 11 de Abril
E agora? Descobri que amo não o que quero, mas o que queria. E que tu «amaste-me» à brava.
Sexta, 23 de Abril
Quando te vi a abotoar os botões de punho e a endireitar ao espelho o laço do smoking, cheguei a perguntar-me se eras mesmo tu aquele carroceiro de ontem à noite.
Domingo, 2 de Maio
Exagerada, eu? Só por dizer que o casamento é ir à loja trocarmo-nos por vocês e sair de lá contentes?
Segunda, 17 de Maio
Não digas a ninguém, que é imoral: mas do que a gente sente a falta, de vez em quando, é que um bom homem se mate por nós...
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Sábado, 29 de Maio
O sexo? É ir contigo agarrado ao corpo para o escritório, e ter que tirar fotocópias sem ter braços nem pernas.
Segunda, 7 de Junho
Skip. Duraglit, Blanka. Sonasol. Os novos perfumes de Lúcifer...
Sexta, 11 de Junho
Digo-te: para mim, só há um amor. Ou então todos os poetas do mundo quiseram a mesma mulher...
Segunda, 28 de Junho
Também dás beijos a outra? Mas não os mesmos. Queiras ou não queiras, os que me dás a mim são exclusivos.
Terça, 29 de Junho
Anthony Quinn. Apareceu na televisão para nos mostrar que também sabia pintar. Disse, com os olhos molhados de fervor, que ninguém melhor do que ele sabia amar as mulheres. Cinco minutos depois, ao apresentar-nos uma dúzia de auto-retratos inquietantes, esboçou aquele sorriso de violador mexicano para confessar que a coisa que mais o empolgava na vida era ele próprio...
Domingo, 4 de Julho
Amo-te. Quero-te. Gosto de ti. Tanto poeta para isto?
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SUBSTANTIVO, FEMININO, SINGULAR
Aquele teu amigo, menino. Tinha um ar tifóide. Não era espectacular como tu. Não acendia os cigarros das senhoras com a mesma pontualidade. Não metia o gelo nos copos dos convidados a olhar para as pernas das respectivas. Não ficaria bem em tronco nu. Mas vestido. Simples. E tímido. Nenhuma de nós lhe resistiria. Foi quando se afastou da conversa para puxar uma das meias que eu reparei. Era um homem que ali estava. Com coragem suficiente para se mostrar cobarde. Para preferir vinho branco a uísque. Para dizer que não tinha ido à Expo de Sevilha. Para contar a mesma história duas vezes na esperança pungente de ter graça. E pena. E pena que a gente insista em gostar da mulher que há em certos homens...
Não te contei, anteontem. Fui a uma exposição de pintura completamente sozinha. Quis armar-me, compreendes? Fingir que o belo em si me chegava. Não te disse nada para não dar o braço a torcer; mas chateei-me que nem uma perua. É isso, pensando bem, o que mais invejo em vocês: não precisarem de outro homem para irem à casa de banho...
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Levo que sapatos? Os pretos ou os azuis?
Os pretos.
Os pretos estão todos esfolados...!
Então, leva os azuis...
Os azuis são monstros!
Não quero acreditar que aquele beijo distraído era, afinal, verdade. Não quero acreditar que Deus se intrometa nestas ninharias. Não quero acreditar que já não acredito em mim. E acabo por acreditar mais no beijo do que em ti. Será que os beijos, os verdadeiros beijos, não são os dados mas os recebidos?
Deixa-te disso. Não faças braço de ferro comigo porque me interessa deixar-te ganhar. O que seria de vocês ao descobrir que toda esta fragilidade é embalagem? O que nos restaria nessa altura? O vosso desprezo? Ou mais trabalho ainda?
Eu, hoje, até me arranjei. Vesti a saia encarnada, a boca a condizer, os sapatos altos. Mas quando passei pelo quarto do Antoninho e ele me viu, voltei às calças de ganga antes que o miúdo me dissesse com um sorriso amarelo que eu estava «diferente».
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Vais morrer sem saber a falta que te faço. É a televisão, é a Monroe, são os anúncios da martini que têm a culpa de tudo! Tu, és culpa da tua mãe, coitadinha...
Laureen Bacall: disse à Marie Claire que seduzir era o contrário de querer seduzir. E também que repetia sempre os mesmos erros com os homens, porque a inteligência aprendia as lições mas o coração era cábula. Fiquei fascinada com o raio da judia! E também vaidosa, já se sabe. Por Campolide e Nova Iorque terem, afinal, tantas afinidades...
Que eu nunca descubra. Que também há tecnologia na forma como me tocas. Uma coisa é quereres dar-me prazer, outra é utilizar as mais modernas técnicas de fabrico.
É muito azar, não é? Eu estou a pensar noutro, e tu a dormir. Eu estou a sonhar com outro, e tu a dormir. Eu estou a dormir com outro, e tu acordas?
Nunca saberei: se vivo contigo porque gosto de ti, ou porque deixei de gostar de mim...
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Seis homens me disseram que eu era a mulher mais fantástica que tinham conhecido na vida. Estão todos casados e, quando me encontram, perguntam-me por ti.
Os ciúmes não são dela, animal! São do que ela tem e eu perdi por ti...
Juro! Eu era capaz de morrer por ti. Saltar do precipício. Emborcar comprimidos. Enfiar a cabeça dentro do forno. Mas como essas coisas já não se usam, vivo contigo...
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O MEU GÉNERO DE HOMEM
Se ele falar vou deixá-lo insistir seis vezes. Ou sete. Para que não pense que estou colada ao telefone, morta por ouvir a voz dele. E não só, para averiguar até que ponto está interessado em mim, estóico na espera, curioso do tamanho da casa...
Não pode ser de qualquer maneira.
Ainda tenho que pensar na voz que vou fazer: Alegre? Desprevenida? Ocupada? Qualquer uma.
O que interessa é que não lhe passe pela cabeça que estou há três dias a pensar nele. A pensar obsessivamente neste homem que encontrei num jantar e que não conheço do carro eléctrico. Tenho pena que as coisas sejam assim. Que grande parte do mistério feminino seja urdida ao detalhe por perversas como eu. Mas não tenho outro remédio. A espontaneidade é uma coisa primária, masculina, e ou muito me engano ou ninguém perde a cabeça por mulheres transparentes. É só mais adiante que isso se torna decisivo. Nesta fase nascente, o que importa é fazê-los sofrer a todo o custo e saber transmitir-lhes a ilusão de conquista. E claro que não posso exagerar. Há muitos que ficam pelo caminho, que não pagam para ver...
Mas o pior é que nem sei para que quero este. Nem sequer é o meu género. Não sei bem qual é o meu género, mas sei identificar quando o vejo. Aliás, nunca me aconteceu andar com alguém que seja exactamente o meu género. Geralmente,
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encontro-os no supermercado a analisarem molhos de agriões com interesse científico e a metê-los no cesto como se fossem de vidro. Tenho de me conformar: os homens do meu género estão todos casados. Todos casados e todos trocados. Os que me saem na rifa, não tenho dúvidas, fazem o maior sucesso junto das que gritam em casa porque não tinham pedido agriões, mas nabiças.
Aliás, a evolução com este é previsível. Se não fosse, não estaria para aqui a armar-me em esquisita e atenderia o telefone quando lá chegasse a pedir desculpa por ter demorado tanto. Seria paixão, mas paixão é outra coisa. Paixão é aquele vapor dentro da nossa cabeça que nos impede de premeditar. Deve ser por isso que as paixões não duram. Porque a gente só faz asneiras, só diz o que não deve. Lá está: porque uma vez apaixonada nos tornamos transparentes. E é por isso que eles acabam por se fartar de nós. Fica tudo em carne viva: a ansiedade, o ciúme, a dependência. Estou farta de dizer às outras: os homens gostam de caçar e não de gramar para o resto da vida um pássaro empalhado. É isso: depois de caçadas, tornamo-nos tétricas. Mas voltando ao género. Para falar com franqueza, o homem do meu género é, simultaneamente, aquele que desperta a cobiça das outras e o que está incondicionalmente disposto a morrer por mim. Que novidade: eu sei que isto é imoral. Mas a verdade é que não há nada que me esfrie mais do que um exemplar desdenhado pelas minhas amigas e ainda por cima com vida própria. Pensando bem, nada me faria mais infeliz do que um homem do meu género. Não saberia disfarçar o medo de o perder. Ou de ser obrigada a viver com um homem que fosse acima de tudo do género das outras. No entanto, é nele que eu penso a toda a hora, é ele que espero encontrar em todas as vozes masculinas que telefonam cá para casa.
- Está lá?
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- Sim!
- Clotilde?
- Sim, mas quem fala?
- Luís Gonzaga: já se esqueceu de mim?
Se eu já me esqueci dele: serão sinceros quando perguntam isto? Não há maneira de saber. Nenhum homem nos falará da sinceridade de outro enquanto forem magoados pela nossa hipocrisia. O meu amigo José António por exemplo diria que sim, que este não teria razões para me perguntar algo de que já soubesse a resposta. Estou tramada. Viver condenada a nunca saber o que se passa na cabeça deles. Viver condenada a maltratá-los por desconfiança. E ainda nos chamam intuitivas...! Se o fôssemos realmente, saberíamos caminhar nas trevas sem precisar de tanto teatro! Por muito que me custe aceitar, as mulheres são assim porque preferem que eles desistam por exaustão a que se saciem depressa.
- Não, não me esqueci de si. Mas se quer que lhe diga já não me lembro bem da sua cara...
- Olhe, eu cá não me esqueci da sua!
- Se calhar, é por eu ser feia...
- Feia, Clotilde? Você não é feia nem bonita, você é muito mais do que isso, você é uma mulher!
Que indigência: sermos inclusivamente obrigadas a disfarçar o prazer que nos dá ouvir coisas destas! Mas não podemos deixar que eles pensem que é a primeira vez que as ouvimos, pois não?
- Falou porquê, diga lá...?
- Para convidá-la para jantar fora esta noite, se quiser e se puder...
- Esta noite não posso, tenho pena. Pode ser de sábado a oito? (Orgulhosa! Preferes passar a noite sozinha a arriscares-te
a que ele perceba que há muitas semanas não recebes um convite para jantar?)
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- Poder pode, mas tenho pena, sabe? Há muitos dias que ando a arranjar coragem para lhe falar...
- Porquê? Eu mordo?
- Não, não morde, mas eu é que nunca sei como é que vocês reagem...
- Vocês, quem?
- Vocês! As mulheres! Desculpe lá falar no plural...
Ó miséria das misérias: será possível que eu tenha lata para me insurgir contra a única coisa certa que eles já apuraram a nosso respeito? Que a mulher, em certas coisas, é de facto um substantivo colectivo?
E possível, claro; connosco, tudo é possível:
- Não desculpo, Luís, tenha paciência: uma mulher não são todas...
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7. CULTURA, ESTUPIDEZ, INTELIGÊNCIA...
O BOI
Existe uma massa cultural anónima neste país que, por estranhos desígnios que sempre me encanitaram, não só não conseguem estimular o intelecto dos portugueses para as coisas do espírito, como ainda os goza pela falta de nível.
Somos um povo inculto, e esse dístico entranhou-se-nos tão profundamente que acabámos por lhe vestir a pele.
Se repararem bem, o estigma foi cicatrizado há tanto tempo que os portugueses estão hoje mais preparados para renunciar ao conhecimento do que para revelar a sua ignorância.
É dramático, quando verificamos que essa vergonha nem sequer é reparadora, mas acabrunhante.
A incultura foi levianamente associada à debilidade intelectual, e nós acabamos por ter mais desgosto em ser broncos, do que cobardes, racistas ou aldrabões.
É claro que isto se deve à arrogância intelectual que grassa por aí e que boceja o seu desdém nas ventas de todos nós.
Em jeito de «o rei vai nu», gostaria de expressar o quanto esta atitude me revolta, a mim, que sinto mais do que sei, mas cujo depoimento terá pelo menos a legitimidade de um suspiro.
Primeiro, e com toda a singeleza que me caracteriza, alguém tinha de se borrifar na imagem para se atrever a recordar uma evidência: adquirir uma cultura sólida não é uma pêra
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doce, e nem toda a gente teve a felicidade de ser sensibilizada ou encorajada em período fértil.
Há crianças que nascem com uma curiosidade efervescente, outras que nascem com a mesma sem condições de a saciar. Há adolescentes que prescindem da boémia para ler o Eça de ponta a ponta, outros que não resistem a trocá-lo pelo futebol. Há mulheres que encontram na sua vida doméstica uma brecha para se ilustrarem, outras que desmaiam de cansaço no fim de lavar a louça. Há indivíduos que escutam Chopin enquanto a vizinha se mata, outros que colhem da Natureza o que lhes escapa nos discos. Há pessoas que exibem uma verve cintilante nos salões, outras de pensamento até mais original, mas desamparadas na dialética. Há sujeitos que sabem o nome dos bisavós de Picasso, e o ano em que ele teve escarlatina, outros com menos memória que só lhe lembram os rasgos. E há, a somar a tudo isto, dedutivos que deitam contas à vida e intuitivos que chegam lá mais depressa, sem que tenha de ser líquido que uns sejam mais estúpidos ou mais frívolos do que outros.
Até porque se há uns que sabem, há outros que são, e ainda ninguém provou ao Mundo o que terá mais valor.
Em suma: o dia tem, na maior das hipóteses, dezasseis horas, os apelos são de toda a ordem, e, digam o que disserem, a verdade é que é extremamente difícil conciliar uma vida combativa, arquejante e emocionalmente sobressaltada com o assobio do conhecimento.
É claro que existe a televisão, rubricas radiofónicas, concertos de qualidade, exposições de pintura, enciclopédias alfabetadas e cursos vários, mas acontece que quando os bons programas da «caixa mágica» se desencontram com os nossos horários, a disponibilidade para ler ou sair de casa é heróica, os cursos possíveis são à noite e a própria tentação é desencorajada por um desfasamento que se acredita irreparável e complexos
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de inferioridade instalados, o ideal seria que a Cultura de um país nos assaltasse na rua para nos esbofetear.
Não é tão cor-de-rosa assim.
É o que acontece em França ou na Irlanda, onde os motoristas de táxi têm um espírito tão independente e ideias tão fluidas que chegamos ao fim da corrida vexados por lhes dar gorgeta.
Por aqui, a criatividade continua a aplicar-se em anúncios de vermute ou de lixívia, e não no aproveitamento da matéria-prima encefálica de um povo historicamente dotado.
Tiro o chapéu aos portugueses que, com este padrão de vida, conseguem ser cultos, informados, humanos e asseados ao mesmo tempo, com as casas mal aquecidas, mas esses não são nem a maioria, nem os de que mais estímulo carecem.
A negligência vai toda para as pessoas comuns que, por qualquer razão determinante, perderam o comboio do conhecimento e chegaram à idade adulta com sombras culturais compreensíveis, às apalpadelas numa floresta de referências.
Longe de serem imbecis, viram-se obrigadas a renunciar à cosmética intelectual ou ao alimento espiritual cedendo a prioridades mais vitais e tantas vezes mais humanas, decorrentes de uma circunstância, uma sensibilidade ou um determinado enquadramento social ou sociológico desfavorável.
Não estamos a falar de néscios, mas de indivíduos potencialmente fecundos que deviam ser reconduzidos, e não encurralados a um canto com um par de orelhas de burro.
Por outras palavras: quando alguém, em regra um desses «calhaus», acusa a nossa Cultura de elitista, não está a declinar o sonho de um dia chegar ao alto da escadaria, mas a suplicar que lhe sejam oferecidas alternativas de transição.
Mas nada feito: o desprezo por este grupo é tão inapelável, que apetece lembrar que parte dele não estudando pode até ser mais sábio, não lendo pode até ser mais lúcido, e não se
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informando pode até ser mais útil à sociedade, quanto mais não seja pela humildade adquirida, em contraste com a sobranceria de alguns.
Quando, por sorte, me aparece à frente um desses espanadores de cultura às costas, a quem as lacunas dos outros, e nunca as suas, sobressaltam até ao miocárdio - «O quê? Não me diga que nunca ouviu falar do grande filósofo francês Bernard Le Bovier de Fontenelle...?!» -, eu tenho uma resposta velhaca que muitas vezes sirvo, outras guardo para mim, por volúpia:
- E digo-lhe mais: já cá ando há trinta e sete anos e nunca ouvi falar de si!
Eis uma «snobeira» de efeitos muito mais nefastos do que aquela de que acusam, por exemplo, alguns leitores destas revistas: quem não sabe devia saber, quem não entender que pesquise, e tudo isto com a esfarrapada desculpa da «elevação».
E como, de alguma forma, já se incutiu às pessoas o pavor de perguntar e denunciar os seus lapsos, sob pena de um rótulo desconfortável, aí as temos cada vez mais a entregar-se à cegueira e à surdez, resignadas a ombrear com as camadas primárias da população, ainda sem desconforto e em estádio mais bruto, vendo a revista à portuguesa, assistindo à «Casa Cheia» ou lendo o jornal O Crime.
Não há meio termo, e então para os básicos, coitados, o esforço seria ainda mais pungente: a única hipótese de se cultivarem em tempo de vida seria a de passarem directamente do jornal A Bola para as entrelinhas de Saramago, sem digestão.
Não é que eu ache a acção cultural uma coisa fácil de gerir, seria ingénua, nem que considere impraticável uma pessoa cultivar-se em Portugal, seria histérica; mas acredito, sim, que podíamos começar por perder esta mania de chamar burros
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uns aos outros por dá cá aquela palha, ou o pessoal acaba mesmo por se convencer de que não vê um boi à frente.
Aliás, como sabem, é muitas vezes o boi que precisa de óculos.
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Q.I.
Considero uma das maiores fontes de stress uma pessoa assumir compromissos que a obriguem a parecer inteligente todos os dias: que estafadeira.
Por outro lado, sempre invejei aqueles que podem ser estúpidos à vontade, nas tintas para a desclassificação geral a que ficam sujeitos nos tempos que correm: que independência!
Já foi opróbrio ser-se ladrão, adúltero, traidor e cobarde, mas penso que ninguém tem dúvidas de que a desonra do século é ser-se porta.
De um momento para o outro, as pessoas ganharam consciência de que precisam de exibir uma inteligência tão constante como a temperatura do corpo; a tal ponto, que dão consigo a envergonhar-se de certos lazeres inócuos por carecerem de dimensão intelectual.
O caso desta revista é um exemplo flagrante: milhares de pessoas a papam às escondidas na retrete ou de cabeça enfiada no secador, apavoradas de serem descobertas, e, quando são apanhadas em flagrante com a boca na botija, ei-las a abanar a cabeça, repugnadas, vociferando a sua lástima:
- É espantoso! Como é que há gente que consegue ler isto!
Nota: Olá! Semanário.
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Quanta insegurança, santo Deus!
Isto, como se a inteligência não pudesse descansar, como se a frivolidade não a potências se também, como se a curiosidade social fosse apanágio, apenas, dos pobres de espírito.
Nisto, as mulheres são mais justas.
Nunca na vida se lembraram de pôr em causa o quociente de um indivíduo, só porque ele é capaz de atingir o orgasmo com um golo do Sporting.
Ninguém é génio todos os dias, e o que é certo é que até os maiores cérebros do Mundo já nos provaram que a inteligência é uma potencialidade vocacionada.
Há crânios matemáticos que não conseguem fazer uma redacção de oito linhas sobre as estações do ano, gigantes literários que não atinam com o comando dos vídeos, cientistas eminentes que pasmam de admiração com um ponto de crochet, prémios nobeis que chumbam no código, académicos galardoados que transpiram com computadores, campeões de bridge que levam doze dias a perceber uma anedota elementar, místicos que coleccionam provas de compra, gestores famosos que não sabem mudar um pneu, uma bilha, um rolo de fotografias, uma ficha eléctrica.
Para abreviar razões, inteligências «quase» universais como a do mestre Leonardo aparecem meia dúzia num milénio.
Mas a verdade é que as classes parecem subsistir até no cérebro: há os inteligentes, espertíssimos a deduzir, e os espertos, inteligentíssimos a intuir, mas de segunda ordem. Partamos disto, mesmo que seja brejeiro: a esperteza é empírica e instintiva, a inteligência científica e racional.
Se formos a ver, as coisas melhores do Mundo não são científicas - o sexo, o amor, a Arte, a própria Fé -, mas a verdade é que a razão se tem autorizado a menosprezar o instinto e compreende-se.
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É um parente pobre, quase sempre inculto, incapaz de se abstrair, de se concentrar, de generalizar, de argumentar, de associar, embora a capacidade de intelegire esteja lá, sempre a postos, preparada para reagir até com mais prontidão.
Mas digamos, grosseiramente, que um esperto é um inteligente com um raio de acção limitadíssimo.
Uma pessoa verdadeiramente inteligente pode vencer um «vivaço» mesmo sem razão, o que, apesar de pérfido, não deixa de ser plasticamente aprazível.
É a diferença entre brilho e brilharete.
Aliás, podemos arriscar: têm sido os inteligentes, e não os espertos, a contribuir para a paz e para o progresso dos povos, como têm sido os inteligentes, e não os espertos, a concorrer para os grandes flagelos da humanidade.
Mas, rendamo-nos: não há paisagem, nem peça de Arte, nem flor, nem mesmo mulher mais bela do que o espectáculo de uma inteligência cintilante em exercício.
Além disso, fomos educados a respeitar o labor, a admirar quem se contraria, quem se interroga, quem investiga, quem relaciona, quem estuda, quem tantas vezes renuncia aos prazeres da vida para nos legar outros.
Mas, não nos enganemos: invejamos tanto o mérito como o estatuto.
Uma verdadeira inteligência pode dar-se ao luxo de fraquejar à vontade, porque o dístico que lhe doira a aura a dispensa de velar pela imagem.
É por este «repouso» que tanta gente luta à má fila, enquanto não tem bem segura a sua reputação intelectual.
Pessoalmente, acho que não há inteligência que não comporte a sua dose de estupidez, estupidez que não comporte a sua dose de sabedoria, e sabedoria que não comporte a sua dose de ignorância, e creio mesmo que é justamente esta combinação insondável que torna as pessoas tão fascinantes.
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Mas, no fundo, não passo duma romântica.
Sinto uma enorme saudade daquele modelo de inteligência nobre, elevado, sublime, íntegro, impoluto e generoso, que ainda está bem vivo no ideal de todos nós, mas que saiu dos escaparates porque passou de moda.
Não sei como conseguimos isto, mas aconteceu: a astúcia eivada de crueldade ganhou a reputação de génio, enquanto a inteligência desartilhada de veneno ou afirmação mereceu o irreversível estigma da estupidez.
Mas não é o que mais nos envergonha: de alguma maneira, verificamos que o brilho intelectual aumenta com a presunção e com a soberba na razão inversa da qualidade humana, e que continuam a ser os estúpidos a darem-nos lições de grandeza. Presumo que não nos podemos queixar, porque enquanto os valores forem estes ninguém se arrisca a parecer estúpido.
E é humano.
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8. COITADINHAS DAS PESSOAS...
JURO QUE NÃO DIGO NADA A NINGUÉM!
Você sabe guardar segredos? Eu também não.
É claro que há segredos e segredos.
Há confissões que nos deixam positivamente em transe, e desabafos que apenas nos adormecem.
Um exemplo:
- Não digas nada a ninguém, mas estou a pensar pintar o cabelo de castanho.
Relativamente a este tipo de pessoas, que revela uma tendência esquizóide para dramatizar trivialidades e pede reserva das coisas mais simplórias, torna-se difícil assumir um compromisso.
Mas, que não se iludam: uma notícia inócua como esta está longe de merecer a categoria de segredo: podemos ser delicados e prometer discrição, mas ninguém nos pode levar a mal um deslize involuntário.
A verdade é que, a menos que a confidência seja susceptível de causar um efeito comparável ao grau 7 da escala de Richter, informações como esta que referi são facílimas de calar; se não se guardam, é só porque ninguém se sente verdadeiramente empenhado em sepultar no mais profundo da alma a transformação iminente da cabeleira de alguém.
Será uma extravagância sem brilho.
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Foi quando reflecti nisto, à terceira vez que a mesma pessoa me pediu segredo relativamente à compra de um caniche, que concluí que nem toda a gente sabe estimar aquilo que na realidade constitui a matéria sigilosa.
Só devia ser segredo aquilo que, no caso de ser profanado, encerra em si poder suficiente para mudar o destino de alguém.
Um segredo é algo empolgante, voluptuoso no seu plano passivo e luciferino em acção, que possui um carisma próprio e uma carga emocional portentosa, acelera a pulsação do ouvinte e altera-lhe o estado de espírito em dois tempos, fornece ao confidente uma arma mortífera e pode fazer do ventilador um verdadeiro criminoso.
São os melhores segredos de todos, e até esses se podem revelar desde que se respeitem as regras.
Por muito ameaçado que seja, o depositário de um segredo sempre arranja maneira de se reservar o direito de o partilhar com alguém da sua confiança, o qual, por sua vez, sustenta a mesma opinião e o transmite a outro.
Regra geral, as pessoas não consideram isto uma traição, mas um direito legítimo de responsável arbítrio, e quanto mais virulenta é a notícia mais depressa se desenvencilham dela, como de um penso infectado, acreditando-se incapazes de carregar sozinhas com um fardo tão hercúleo.
Terá um pouco de exorcismo, outro tanto de catarse.
Da mesma maneira que o Joaquim Paço d’Arcos escreveu as Memórias de uma Nota de Banco, também eu não hei-de morrer sem escrever um romance com o nome hipotético As Voltas de um Segredo, narrando as circunstâncias de uma confissão manifestamente grave, tão desesperada como bombástica, observando com rigor todos os riscos e implicações de uma possível fuga, seguindo de perto todo o cortejo de bufos, assistindo à notícia a engordar e a emagrecer drasticaMente
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como uma senhora em dieta, e acompanhando toda a sua trama até ao escândalo.
Se pensarmos bem, um segredo que é revelado às três horas da manhã na Rua Buenos Aires, em Lisboa, pode chegar a Washington no mesmo dia à noite, depois de ter circulado em cadeia por cento e setenta e nove pessoas de confiança que assumiram com a mesma veemência o compromisso de o calar e sem nunca chegar a comprometer quem quer que seja.
Mas, atenção, que jogar nesta roleta russa requer adversários à altura; neste caso, não teria sido ventilado por ninguém com o ideal anão de fazer intriga, mas com a «magnanimidade» de o partilhar com alguém susceptível de o saborear condignamente, como uma ginja cristalizada, numa embriagante vertigem de autoridade sobre a sorte dos outros semelhante à do poder político.
E claro que chegaria a América substancialmente dilatado e incomparavelmente mais emocionante, como a clássica metáfora da bola de neve a aterrar no sopé, mas o «dado vital», esse, costuma ser conservado com escrúpulo e transmitido com exactidão; aliás, não é o colorido que se imprime à narração que tem poder suficiente para retirar à raiz profunda de um segredo o seu ascendente, a sua capacidade, ou a sua influência.
Há o segredo de estado, o segredo profissional, o segredo clínico e o segredo da Confissão, todos de grau diferente, mas aqueles que normalmente viajam pelas bocas do Mundo são os segredos de alcova.
Compreende-se.
São milenários e universais, não requerem uma alimentação rica em fósforo para serem interpretados, avaliados e dimensionados pela pessoa comum, e por vezes circulam por uma multidão de gente sem que o prevaricador tenha consciência da cabala de que foi alvo, nem a vítima do flanco que, de alguma forma, nos ofereceu de bandeja.
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Só assim se compreende que haja informações que cheguem ao domínio público muito antes de beliscar o privado.
Quando se diz, por exemplo, que «o marido é sempre o último a saber», isso significa que, embora sem nobreza, as pessoas acobardam-se de causar ao mártir uma imolação tão directa.
Isto do segredo tem que se lhe diga.
De qualquer forma, tranquiliza-nos saber que até a crueldade mais gratuita comporta os seus códigos de honra; quanto mais não seja, para continuar a acreditar que ainda pode haver uma qualquer transcendência que redima o ser-humano desta aparente mediocridade.
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