Ritual da paixão a primitive affair



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RITUAL DA PAIXÃO

A primitive affair

Sharon Brondos





Super Julia nº 45
Entre eles havia uma combinação fascinante, apaixonante, perigosa...

Na natureza, Ian encontrava o poesia, a liberdade, a realização. Embrenhando-se nas selvas perseguia seus objetivos, fazendo longos e dedicados estudos sobre os animais, que amava e defendia contra a arbitrariedade dos seres humanos. Um homem excêntrico apaixonante e selvagem, incapaz de ceder ao fascínio da civilização.

Mas é em Nova York que mora a ambiciosa Elizabeth Marlowe, uma bem-sucedida mulher de negócios, rica, aristocrática. Uma prova de fogo para um plebeu de modos quase primitivos. Um desafio ao amor que descobre nas barreiras a maior sedução.
Digitalização e revisão: Nell

Título original: Nightcap*

Copyright © by Nancy Martin*

Publicado originalmente em 1986 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá


Tradução: Fernando Simão Vugman
Copyright para a língua portuguesa: 1987

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3° andar

CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil


Esta obra foi composta na Linoart Lida.

e impressa na Artes Gráficas Guaru SA.

* Dados estão errados.

Título original: A Primitive Affair, by Sharon Brondos.

Livro publicado em junho de 1986 pela Harlequin Books.
CAPÍTULO I
A atmosfera de Long Island estava tomada pela névoa característica de setembro quando Elizabeth Marlowe desceu do Mercedes. Ela respirou para sentir melhor o cheiro de folhas caídas e madeira queimada, naquele final de tarde de outono. Não poderia ter escolhido melhor fim de semana para sair de Manhattan, deixando para trás a poluição e o concreto.

Tirando a mala do banco traseiro, Elizabeth aproximou-se da mansão que fora seu lar até recentemente. Desde que um acidente de avião havia tirado a vida de seus pais quando era apenas uma criança, passara a viver com o adorado tio Robert, a avó Adelaide e o primo Michael, a quem considerava como um irmão.

A casa era enorme, construída em pedra pelos Marlowe do século XIX. Se dependesse da vontade do tio de Elizabeth, o lugar pertenceria à família até o final dos tempos.

O bosque cerrado que cercava a propriedade isolava a casa, e a nostalgia tomou conta dela. Lembrou-se das explorações que fizera ali, quando criança, de mocassins e tranças nos longos cabelos louros, de se fingir uma indiazinha aventurando-se pela mata.

Essa época, porém, pertencia ao passado. Atualmente vivia cercada de concreto em Wall Street, como consultora financeira autônoma. Provavelmente se perderia entre aquelas árvores em questão de minutos. Com um suspiro conformado, voltou o olhar para a mansão, estranhando ninguém ter aparecido à porta para recebê-la.

Então veio-lhe à mente a objeção da família quanto à sua mudança para um apartamento em Manhattan, embora fizesse mais sentido ela viver perto do local de trabalho. Com o tempo, havia se acostumado à agitação da cidade e, aos vinte e sete anos, com a herança considerável deixada pelos pais e uma profissão altamente rentável, não pensava em abrir mão de sua privacidade e liberdade dividindo espaço com outras pessoas, por mais queridas que fossem.

Robert e Adelaide sabiam de sua vinda e alguém na casa devia ter ouvido o ruído de seu carro. E Michael? O primo, de um humor irreprimível, não perderia a oportunidade para aplicar-lhe uma de suas peças.

Procurou em vão ouvir sinais de vida na casa. Teria acontecido alguma coisa? Uma emergência que obrigara todos a saírem sem que ela pudesse ser avisada? A situação começava a preocupá-la quando ouviu um som.

Um animal grunhiu por entre as árvores atrás dela. Elizabeth gelou, sem querer acreditar que realmente ouvira um som tão primitivo naquele lugar familiar e civilizado. Talvez, em seu estado de ansiedade, tivesse interpretado mal o murmúrio do vento por entre os pinheiros.

Mas não era o vento que se ocultava nas sombras do entardecer, arrepiando sua pele e gelando seu sangue. O som se repetiu, lembrando o rosnar de um gato selvagem.

Ela decidiu enfrentar o desafio e, embora nada pudesse ver por causa da barreira natural de arbustos, conscientizou-se da possibilidade de haver um animal oculto ali, já que na região de Nova York havia inúmeros zoológicos. O rosnar se repetiu, arrepiando-lhe os pêlos do braço.

Sua mente, entretanto, não reagiu tão instintivamente quanto o corpo ao som ameaçador. A lógica prevaleceu, e ela deduziu que só poderia ser Michael Marlowe com um gravador. Outro de seus velhos truques, ela pensou, a raiva misturando-se à afeição. O primo, dois anos mais jovem, mal havia esperado passar um mês da morte dos pais dela antes de começar a colocar aranhas de borracha em sua cama e esconder cobras de mola em sua lancheira. Um brincalhão nato, que a ajudara a superar o estado de choque causado pela tragédia. Agora, no entanto, como um executivo responsável, casado com a linda e meiga Jennifer, devia comportar-se como um adulto.

Em vez disso, escondia-se por trás dos arbustos, provavelmente rindo da cara assustada da prima. Elizabeth hesitou mais um instante, buscando o autocontrole, antes de colocar a mão no quadril e acabar com a farsa.

— Michael! Sei que está aí. Quer parar essa fita ridícula e vir me receber como um ser humano normal?

Fez-se um silêncio momentâneo, mas, antes que Elizabeth pudesse comemorar a vitória por aquela batalha, um rugido intenso ecoou pelo ar e os arbustos começaram a sacudir. Então o instinto superou a razão, e ela correu para casa. Só quando alcançou a porta, ouviu um riso abafado.

Quando Alan Charters, mordomo da casa e seu velho amigo, abriu a porta, ela passou pelo homem de cabelos brancos com apenas um cumprimento polido. Ao ouvir o riso, o medo se transformara imediatamente em raiva, e pretendia passar um sermão em Michael pela conduta imatura.

— Vejo que se irritou com o Sr. Michael e o amigo dele, Srta. Elizabeth. — Diante do comentário do mordomo, ela se arrependeu pela entrada brusca e redimiu-se com um abraço afetuoso.

— Que amigo é esse? — perguntou, entregando a mala ao mordomo. — Quer dizer que Michael tem um cúmplice nessa brincadeira ridícula?

— Sim, é um velho amigo dos tempos de faculdade. Michael nunca o havia trazido aqui antes. É um sujeito estranho, estuda os animais. Daí a familiaridade dele com os sons da natureza. Michael vem usando os talentos do amigo em imitações para deixar a casa em polvorosa o dia todo, como a senhorita mesma pôde comprovar. — Havia um brilho de divertimento nos olhos azuis de Charters, despertando a suspeita de Elizabeth.

— É melhor não estar metido nisso também — ela advertiu, lembrando que Charters, um típico mordomo inglês, cometia deslizes às vezes, quando ajudava a acobertar muitas das travessuras de Michael.

— Ouvi o seu carro chegar e ia informar à família assim que a recebesse. — O olhar do mordomo era inocente. — Seus tios estão na biblioteca tomando aperitivo antes do jantar. Gostaria de se juntar a eles?

— Será que Michael já está lá?

— A esta altura, ele e o amigo devem ter entrado pelos fundos e sem dúvida esperam sua aparição com grande expectativa.

— Você me ajudaria a virar o jogo? — Elizabeth propôs.

— Estou sempre disposto a ajudar.

— Muito bem. Diga àqueles dois que perdi a cabeça e saí à caça do que me assustou. Peça para irem me buscar antes que me machuque. Mas não deixe o resto da família saber, só Michael e o amigo. Não quero preocupar Robert, Adelaide ou mesmo Jennifer.

Charters concordou e Elizabeth correu para o quarto onde se guardavam as armas dos Marlowe. Apanhou um rifle, tomando antes a precaução de se certificar de que estava descarregado. Tratava-se de uma brincadeira, não uma vingança séria. Então saiu para inspecionar a cena do crime.

Embrenhando-se pelos arbustos, encontrou marcas no solo, deixadas sem dúvida pelos dois patifes enquanto rolavam de rir ao vê-la correr de medo. Embora acostumada a ser alvo das travessuras do primo, não poderia ficar indiferente a uma afronta à sua dignidade. Decidiu ir até o jardim atrás da mansão, considerando a possibilidade de Michael e o amigo saírem por onde entraram.

Encontrou o jardim deserto e presumiu que Charters ainda não havia feito sua parte ou não conseguira falar com os dois a sós. Sentou-se num banco de pedra para esperar. Quando eles aparecessem, empunharia o rifle para pregar-lhes um belo susto.

Sorrindo por antecipação, Elizabeth imaginou se o amigo do primo receberia o revide tão bem quanto Michael. De qualquer forma, como cúmplice, merecia a punição.

A brisa fresca do princípio de noite provocava arrepios, e Elizabeth tirava os fios de cabelo soprados insistentemente sobre seu rosto quando ouviu um farfalhar na sebe atrás de si, seguido pelo mesmo rosnar que a assustara antes. Controlando o medo que paralisara seus movimentos, virou a cabeça, mas não pôde ver nada na escuridão.

Desta vez, não poderia ser Michael. Não havia como passar por ela sem ser visto, fosse pela frente ou por trás. Então o que se ocultava na escuridão?

O tom ameaçador do rugido se intensificou, e Elizabeth se arrependeu por não ter carregado o rifle. Por mais absurdo que parecesse, poderia haver um animal realmente perigoso ali. E, exceto pela arma descarregada, estava exposta e desamparada.

Poderia gritar, mas isso significaria expor a família também ao perigo. Teria de lidar com a situação sozinha, fossem quais fossem as consequências. Empunhando o rifle, voltou-se para a escuridão.

Um som estridente se seguiu ao seu movimento. Parecia um macaco. Agora mais com raiva do que medo, apontou o rifle para a sebe.

— Ouça, seja você quem for, é melhor aparecer neste instante ou juro que começo a atirar! Estou furiosa o suficiente para não me importar com em quem ou quê vou acertar! — Elizabeth ajustou a mira, torcendo para que o blefe desse certo.

Não deu. Ouviu-se o farfalhar de alguém ou alguma coisa se embrenhando bosque adentro. Respirou fundo e seguiu o alvo incógnito, determinada a descobrir o que era. Tratava-se de uma questão de honra agora.

A presa a conduziu para uma caçada sem trégua, à qual ela resistiu bravamente, determinada a encontrar seu torturador. Por várias vezes, pensou estar perdida e abandonada, mas então o estalido de um galho ou outro ruído qualquer a atraía cada vez mais para o interior do bosque.

Aos poucos, Elizabeth começou a gostar do jogo. Aquela caçada parecia a concretização de suas fantasias infantis, e a sensação agora não era tanto de raiva quanto de curiosidade e expectativa. Ouviu o farfalhar de folhas à sua direita e soube que a presa encontrava-se na clareira junto à fonte. Parabenizou-se pela memorização do bosque, surpresa por se ter perdido como imaginava. O som chapinhante de água deu-lhe a certeza de ter encurralado o objeto da caça.

Movendo-se tão furtivamente quanto possível, deu a volta na clareira para se posicionar entre a presa e sua via de escape rumo à casa. Então agachou-se para entrar na clareira, o rifle em punho como se pretendesse usá-lo. Anoitecia, mas a lua fornecia luminosidade suficiente. Cuidadosamente abriu caminho pela última barreira de folhas.

— Ei, passe essa coisa para cá! — Uma voz masculina pronunciou as palavras com apreensão enquanto uma mão tirava o rifle das mãos de Elizabeth. Como ela caminhava na ponta dos pés, o movimento brusco tirou-lhe o pouco equilíbrio e a projetou para o solo fofo da clareira.

— Você deve estar louca! — A voz masculina continuou. — Imagine, vir atrás de nós com um rifle.

Elizabeth sacudiu a cabeça para se recuperar do susto, e então se levantou com toda a dignidade que lhe restava. Ouviu o rifle sendo aberto e em seguida um murmúrio de desapontamento por a arma nem sequer estar carregada.

— Ora, a intenção não era atirar em vocês — Elizabeth retrucou, enquanto se virava para encarar o homem à sua frente. — Pretendia apenas assustá-los como fizeram... — Perdeu a fala quando seu olhar recaiu nele.

Aquele homem era sem dúvida o maior que conhecia. Apesar da pouca luminosidade, conseguiu distinguir a expressão de desaprovação nos lábios cheios e a boa forma do corpo musculoso.

— Só queria ficar quites — Elizabeth conseguiu dizer.

Para sua surpresa, ele riu.

— Foi o que Charters nos disse. Precisa tomar mais cuidado ao escolher um aliado, Liz. O mordomo entregou você, e Michael sugeriu que eu viesse para apresentar nossas desculpas. Mas, quando a vi armada, resolvi lhe dar uma lição.

Elizabeth sentiu o sangue fervilhar de indignação. Como Charters pudera traí-la? E como aquele sujeito ousava tratá-la como se fosse uma criança que merecesse uma lição?

— Meu nome é Elizabeth — ela o corrigiu com veemência.

— É muito comprido para dizer.

— Não é nada cavalheiro, sabia?

— Nunca pretendi ser, Lizzie.

A raiva de Elizabeth aumentou. Aquele homem, a situação, sua inabilidade em colocá-lo no devido lugar sem receber uma resposta...

— Acho que não temos mais nada a dizer um ao outro. Portanto, se me devolver o rifle, irei ver minha família agora. — Ela estendeu a mão.

— Por que a pressa? — O homem afastou a arma da mão dela. — Precisamos limpar o ar por aqui primeiro.

— Não tenho a menor intenção de perder tempo com você! — Se aquele sujeito resolvesse ser mais rude do que já havia sido, estavam longe demais da casa para um grito ser ouvido. Estava literalmente à mercê do homem. Mas não pretendia revelar o menor sinal de medo. — Devolva o rifle ou simplesmente vou embora sem ele. — Cruzou os braços e o desafiou com o olhar.

Ian Bradshaw observou a mulher à sua frente com grande interesse. Os cabelos loiros que emolduravam o rosto e as curvas do corpo sensual destoavam do olhar severo e dos ombros tensos. Sabia que os olhos eram azuis por ter visto antes um retrato dela na mansão. Mike dissera que a pintura datava de uns dez anos atrás e ele imaginara, acertadamente, a beleza adolescente mais lapidada com o tempo. Pelo visto, ela também desenvolvera um espírito teimoso e desafiador.

— Calma, Elizabeth — ele lhe concedeu o direito de ser chamada como queria. — Não há motivo para ficar nervosa. Já aprontei o suficiente para comprometer meu relacionamento com sua família. Quero ser seu amigo.

Ian sentiu a tensão abrandar e, se estivesse lidando com uma das muitas mulheres exóticas que namorara através dos anos, escolheria aquele instante para tentar um contato físico. Mas Elizabeth Marlowe não parecia do tipo que apreciaria isso, era cedo demais. Talvez mais tarde...

— Charters comentou que você tinha causado problemas — ela lembrou. — Talvez por isso ele tenha decidido contar a vocês o meu plano. Quando éramos crianças, ele sempre estimulava disputas entre Michael e eu. — Ela sorria. — Sabe, gosto dele como de um tio.

O que Ian sabia era estar diante de uma das mulheres mais bonitas que já tivera o privilégio de conhecer. O sorriso trazia uma doçura à beleza aristocrática, que a fazia parecer acessível até mesmo a um “plebeu” como ele.

— Meu erro — Ian admitiu, também sorrindo — foi cair como um pato numa das peças de seu primo. Ele me disse que todos na família curtiriam meu talento para imitações e me instigou a tentar convencer seu pessoal de que havia trazido toda a selva comigo. O pior é que eles engoliram a isca. Seu tio, coitado, chamou até a polícia!

— Oh, não! — Elizabeth caiu na risada. — Estou surpresa por você não ter sido expulso com seu zoológico ambulante.

— Confesso que essa possibilidade foi calorosamente discutida. Mas seu tio é um homem bom e se acalmou depois de ter o voto vencido. Jennifer e sua avó tomaram o meu partido, juntamente com Michael, é claro. Afinal, foi ele quem começou tudo. Só que não aprendi a lição e voltei a acreditar nele quando disse que você adorava brincadeiras. Juro que nunca mais acredito numa só palavra desse cara.

— Se eu ganhasse um centavo cada vez que jurasse a mesma coisa, seria mais rica que o tio Robert. — Outro sorriso e Ian reparou na cova da face esquerda. — Michael é um mestre da manipulação. Talvez seja uma das razões de seu sucesso nos negócios ainda tão jovem. Bem, estamos conversando há algum tempo, mas nem sei o seu nome.

Lembrando-se da crítica dela aos seus modos, Ian fez uma reverência.

— Ian Bradshaw, ao seu dispor, Srta. Marlowe. E peço desculpas pelo transtorno que lhe causei.

— Está desculpado. — Elizabeth estendeu a mão. — Também peço desculpas pelo meu temperamento explosivo. Tive uma semana exaustiva e estou com os nervos à flor da pele.

— Nova York tem o dom de fazer isso com as pessoas. — Ian tomou a mão macia e delicada num aperto vigoroso.

— É verdade, mas adoro a cidade.

— Não faz o meu gênero, prefiro espaço abertos. Vamos voltar agora que resolvemos nossas diferenças?

— Podemos ir — Elizabeth se pôs a andar —, mas acho que estamos longe de resolvermos nossas diferenças, Ian. Sou nova-iorquina de coração.

— Gosto não se discute.

Ele caminhava sem dificuldade por entre as árvores, fazendo muito menos ruído do que Elizabeth. Ao constatar isso, resolveu perguntar como ele havia conseguido atravessar o jardim sem ser notado.

— Quando se passa anos na selva, seguindo o rastro de animais esquivos, um habitante da cidade como você torna-se presa fácil.

— É caçador? — A hipótese lhe provocou calafrios. Que profissão mais degradante! Em resposta, porém, Ian riu.

— Na verdade, tenho vontade de caçar os caçadores de animais. Eles matam seres que adoro. Não, Elizabeth, sou formado em Etologia pela Universidade de Harvard. Foi lá que conheci Michael.

— Sei... — Elizabeth respondeu, sem querer admitir ignorância quanto ao significado de Etologia. Obviamente relacionava-se com animais. Consultaria um dicionário na primeira oportunidade. O salto da sandália enganchou num galho caído, desequilibrando-a, mas uma mão firme segurou-a a tempo. — Obrigada. Normalmente não ando por aqui de salto.

— Vem muito para cá?

— Não. — A resposta foi sucinta, pois não queria admitir a um estranho seu trauma por aviões. De fato, até alturas moderadas a inquietavam. Rapidamente pensou num meio de mudar de assunto. — Antes de voltarmos para casa, Ian, faria uma coisa por mim?

Ian sentiu a pulsação acelerar. Poderia ter-se enganado a respeito dela? Seria do tipo que gostava de tomar a iniciativa?

Nada disso. Ele se desapontou quando ela pediu apenas uma demonstração de seus talentos de imitador enquanto ainda estavam suficientemente longe da casa para não assustar a família.

— Não consigo acreditar que cordas vocais humanas produziram os sons que ouvi.

Ian lutava para resistir à tentação de beijar aqueles lábios cheios e sensuais quando teve uma idéia perversa. Sem dizer uma palavra, deixou o rifle no chão e agachou-se, fixando nela um olhar felino. Ao começar a mover-se, emitiu o rosnar de um gato selvagem ciente de ter encurralado a presa.

Elizabeth sentiu o corpo gelar. Não poderia mover-se mesmo que quisesse. Era horripilante e excitante ao mesmo tempo. Ian parecia ter-se transformado realmente num gato selvagem, que a rondava, emitindo um som ameaçador.

Ele chegou mais e mais perto, a passos lentos, medidos, confiantes. Tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo. Parou, fitando-a com um olhar intenso. Então, rugiu.

O som parecia aquele que fizera Elizabeth correr de medo antes, e ela reagiu instintivamente, gritando. Ian recuou, rindo.

— Desculpe, não pude evitar. Agora é melhor voltarmos antes que seu tio resolva chamar a polícia de novo.

CAPÍTULO II
Elizabeth deixou-se guiar calada para casa. Ian carregava o rifle com uma mão enquanto com a outra segurava o braço dela, como se adivinhasse seu cansaço. Ela pensou em protestar contra a gentileza, mas, além de estar realmente cansada, duvidava que Bradshaw fosse do tipo que levasse a sério atitudes feministas radicais. De fato, parecia tão primitivo quanto os animais que imitava. A idéia lhe provocou um calafrio.

— Vá ver sua família — ele disse, ao entrarem na mansão. — Vou guardar o rifle e me trocar para o jantar. Desço em um instante.

Elizabeth apenas concordou com a cabeça, incapaz de falar, embora agora por uma razão bem diferente de choque. Lá fora, sob a luar, Ian parecia razoavelmente atraente. Agora, à luz do chandelier no hall de entrada, revelava-se muito mais do que razoável.

A pele era bronzeada e o cabelo tão preto que reluzia. Os olhos, de um tom acinzentado que Elizabeth jamais vira, pareciam de cristal. Completando as feições bem talhadas, havia uma fenda máscula no queixo.

Ela sabia, no entanto, que era mais do que a aparência que acelerava sua pulsação. Conhecia muitos homens atraentes, embora a beleza daquele apresentasse um traço selvagem incomum. Ian Bradshaw possuía um raro e intenso magnetismo, uma aura de sensualidade que despertaria em qualquer mulher o desejo de se atirar em seus braços. Elizabeth repreendeu-se por uma reação tão imprópria, mas tinha de admitir que Ian era sexy!

— Eu disse alguma coisa errada? — ele perguntou, com um sorriso divertido nos lábios.

— Eu... desculpe — gaguejou e corou ao perceber que o encarava. — Desculpe, mas deve saber que é muito... um homem atraente.

Ele baixou a cabeça em reverência ao elogio. Então começou a rir.

— Olhe para os seus joelhos.

Olhando para baixo Elizabeth viu dois furos nas meias, provavelmente resultantes do tombo na clareira. A saia, por sua vez, estava suja de folhas.

— É melhor se trocar também — Ian sugeriu. — Ou seu tio superprotetor vai achar que me aproveitei de você e virá atrás de mim com isto carregado — ele brandiu o rifle. — Desculpe ter puxado a arma com tanta força.

— Duvido que alguém em sã consciência queira se atracar com você, armado ou não.

Ela o observou melhor. Vestia camisa cáqui aberta no peito e mangas arregaçadas com calça jeans desbotadas. Com o rifle na mão, parecia perigoso, além de devastadoramente sedutor. Se alguém aparecesse ali naquele instante e a visse com a roupa naquelas condições, sem dúvida chegaria à conclusão de que Ian era um bandido prestes a saquear a mansão e raptá-la para saciar seus instintos. Imagens de piratas audazes passaram-lhe pela mente. Mas logo tratou de repelir tais devaneios românticos.

— Está desculpado. Se tivesse idéia do tipo de caça que me perseguia, acredite, não teria saído de casa.

— Pois acho, Elizabeth Marlowe, que teria saído à caça, mesmo sabendo que King Kong a esperava. É uma mulher de coragem.

O elogio a deixou lisonjeada, e ela ia agradecer quando ouviu alguém gritar seu nome, num tom horrorizado.

— Elizabeth! Meu Deus, Bradshaw, o que aprontou desta vez? Se encostou um dedo nela...!

Era o tio Robert parado na porta da sala. Sua fisionomia aristocrática revelava tanto indignação quanto apreensão. Elizabeth nunca o vira tão fora de si, nem mesmo quando ela se rebelava para impor sua visão de como viver a própria vida.

Robert Marlowe mal se controlava diante da cena que presenciava. Sua adorada filha adotiva, sempre impecável e tão querida apesar do enervante senso de independência, parecia desfigurada com as meias furadas e a roupa suja. E aquele amigo moleque de Michael, com ar satisfeito. O que fizera com ela?

— Está tudo bem — Elizabeth assegurou. — Só levei um tombo e Ian me ajudou.

Robert, no entanto, notou o rubor nas faces dela e soube que não ouvia a história completa. Ao ar arrogante de Ian contrapunha-se o embaraço de Elizabeth, uma reação que jamais flagrara na sobrinha. Nem mesmo quando das piores travessuras de Michael.

— Por que o rifle?

— É uma história longa e engraçada — Elizabeth explicou ao tio, aproximando-se dele para cumprimentá-lo com um beijo. — Por que não me dá as boas-vindas e me deixa trocar de roupa para então contar tudo?

O amor de Robert suplantou a raiva. Com um abraço afetuoso, deu-lhe as boas-vindas.

— Aqui será sempre o seu lar. Nunca se esqueça disso, Elizabeth.

— Não esquecerei, sabe disso. — Ela o beijou de novo. — Vá dizer a todos que descerei logo.

O olhar de Robert era ressabiado, revelando preocupação.

— Tem certeza de que está bem?

Elizabeth compreendia que o tio se preocupava por amor, mas às vezes ele agia como se ainda a considerasse a criança traumatizada que acolhera em casa há tantos anos.

— Estou bem — ela reafirmou e se virou para falar com Ian, mas para sua surpresa ele sumira.

— Ele faz isso o tempo todo — o tom de Robert revelava desaprovação. — Num minuto, está bem ao seu lado; no outro, some. Devo confessar que esse homem me põe nervoso. É simplesmente imprevisível.

Elizabeth riu e voltou a abraçar o tio.

— Vou lhe contar o que aconteceu. Michael convenceu o pobre Ian de que eu também adorava brincadeiras e ele veio me pedir desculpas, só isso.

— Meu filho tem exagerado ultimamente. Parece que voltou a agir como quando a mãe morreu, antes de você vir morar conosco. Como um excêntrico.

— Problemas nas indústrias? — Elizabeth sabia que Robert delegava cada vez mais responsabilidades ao filho, preparando caminho para a aposentadoria. Talvez Michael ainda não tivesse amadurecido para conduzir o império Marlowe, que englobava empresas das mais diversificadas, acumuladas pela família através de gerações.

— Não, ele tem se saído melhor que nunca. No escritório, é uma pessoa totalmente diferente. Sério, responsável, empreendedor. Me orgulho dele, assim como de você, embora preferisse que viesse trabalhar conosco.

— Não vamos voltar a discutir sobre isso. Vim visitá-los, não reavivar velhas batalhas.

— Está bem, querida. Prometo tentar guardar minhas opiniões controversas para mim mesmo. Vá se trocar, nós a esperamos na sala de jantar.


Ian guardou o rifle e ia voltar para o quarto de hóspede quando algo o impeliu para a sala de estar.

Pendurado numa parede coberta por pinturas de membros da família, o retrato de Elizabeth destacava-se como o de um anjo em meio a meros humanos. O pintor havia sem dúvida captado traços da mulher atual. Dera ao queixo a nuance exata de sua teimosia, enquanto o olhar sorridente desafiava quem quer que fosse a se interpor em seu caminho. Ian soubera, através de Michael, que ela ficara órfã quando criança e concluía que isso lhe dava força para tomar as próprias decisões e impor sua vontade. Uma mulher ousada, além de bela. Uma combinação fascinante mas perigosa, que ele pretendia estudar a fundo naquele fim de semana, à sua maneira. Sorriu para si mesmo. Lizzie Marlowe podia estar acostumada a se impor sobre a maioria das pessoas, mas devia ter um ponto fraco como todos, uma fraqueza que ele pretendia explorar para ter uma prova da verdadeira mulher sob a fachada aristocrática. Literalmente uma prova. A expectativa o dominou ao pensar em beijar aqueles lábios.

— É uma moça adorável, não, senhor? — As palavras marcadas pelo sotaque britânico do mordomo interromperam o devaneio romântico de Ian.

— É, sim. Aliás, é muito bom, Sr. Charters. Poucos conseguem se aproximar de mim sem serem notados.

— Talvez estivesse... distraído demais — o mordomo comentou, lançando um olhar significativo ao retrato de Elizabeth.

— Talvez.

— Esta família é muito unida e me sinto parte dela, apesar da minha condição de empregado.

Ian entendeu o recado sutil: “Fique longe da moça, estranho”.

— A ocupação de servir é nobre. Conheço várias pessoas admiráveis que se propuseram a servir outros por amor.

O mordomo pestanejou, e Ian soube que marcara pontos. Talvez o homem confiasse mais nele depois daquela troca de idéias. Não tinha a menor intenção de magoar Elizabeth. Longe disso!

— Lembro-me da primeira vez que ela veio para cá, depois da morte dos pais num acidente de avião. Ela testemunhou tudo. Observava o pai alçar vôo quando uma rajada de vento derrubou o aparelho. Tanto o coração quanto a mente da pobre criança pareceram virar pedra. Então um dia...

— Um dia ela superou o trauma e tem levado uma vida boa, do jeito que quer — Ian concluiu.

— É muito perspicaz, senhor. Sim, a Srta. Elizabeth sabe exatamente o que quer. — O mordomo sorria. — Como muitos rapazes tiveram a infelicidade de descobrir.

— Vou me lembrar disso — Ian retrucou.


Quando Elizabeth entrou na ampla sala de jantar, viu-se imediatamente cercada pelos familiares. Michael, um rapaz alto, de cabelos castanhos escuros, envolveu-a num abraço afetuoso, sem o menor sinal de arrependimento pela brincadeira de antes.

— Estava tão engraçada — ele comentou. — Precisava ver sua cara quando Ian rugiu. Quase morri de rir.

— Pena ter ficado no quase. — Elizabeth suavizou o impacto das palavras com um meio sorriso.

— Está brava ainda? — Michael pareceu magoado. — Ora, foi só uma brincadeira.

— Se fez seu amigo imitar aquele rugido de pantera — Jennifer interveio, piscando para Elizabeth —, ela tem toda razão de ainda estar brava. Foi a coisa mais assustadora que já ouvi.

— Pois acho esse rapaz um charme — Adelaide, avó de Elizabeth, comentou indo receber a neta com um abraço apertado e um beijo. — Achei uma ótima idéia de Michael convidar o amigo para nos visitar no mesmo fim de semana que você.

Alan Charters entrou para anunciar que o hóspede estava a caminho e o jantar seria servido dentro de alguns minutos. Elizabeth aproveitou a interrupção para observar a família, pois fazia semanas que não os via e, pelo que Robert comentara antes, as coisas não andavam tão bem, principalmente com Michael.

Jennifer, bronzeada pela prática constante de tênis e com os cabelos castanhos curtos e encaracolados, estava belíssima. Mas se notava uma sombra de melancolia nos olhos igualmente castanhos e no sorriso que morria fácil.

Adelaide parecia mais saudável do que nunca. A mulher de setenta anos mantinha a postura ereta e a pele alva, mais rosada do que de costume, provavelmente pela excitação de ter visitas em casa. Especialmente Ian. Ele poria mais cor nas faces de qualquer mulher.

Robert estava impecável como sempre, cada fio grisalho no lugar e um terno escuro que caía perfeitamente bem ao físico mantido em boa forma. Jogador regular de squash, aos cinqüenta continuava enxuto. Elizabeth orgulhava-se do pai adotivo.

E havia Michael.

Seu primo-irmão parecia particularmente nervoso, suas risadas um pouco altas demais e forçadas. Agia como um comediante, que havia perdido o senso de ocasião, comprometendo o efeito das piadas. Robert tinha razão: algo não corria bem.

Adelaide quis saber sobre a vida social da neta e principalmente se ela encontrara algum rapaz especial. Elizabeth a desapontou ao contar que seus programas resumiam-se a reuniões com amigos que não tinham nenhum envolvimento emocional digno de nota.

— Nunca vai arrumar um marido desse jeito — a avó lamentou. — Céus, me casei com dezoito e tive seu tio com vinte.

Elizabeth suspirou. Tratava-se de outro ponto de discórdia com a família: valorizar a carreira em detrimento da vida afetiva.

— Não vivo como uma eremita — ela se defendeu. — Só não me sinto preparada ainda para constituir família.

— É porque não encontrou o homem certo, querida —- Adelaide opinou.

Nesse instante, pontuando a frase com sua presença, Ian Bradshaw entrou na sala de jantar. Parecia à vontade como se estivesse em casa, recebendo os Marlowe como hóspedes. Se não o conhecesse ainda, Elizabeth o julgaria um executivo de prestígio em Nova York. Certamente jamais o imaginaria de quatro no bosque, imitando animais selvagens.

Ele cumprimentou a todos formalmente, dando a Elizabeth nem mais nem menos atenção do que aos outros. Suas maneiras polidas e irrepreensíveis levaram-na a reavaliá-lo durante o jantar.

Era um camaleão. Assim como possuía habilidade para imitar sons da natureza, conseguia misturar-se e comportar-se de acordo com o meio ambiente. Elizabeth ficou curiosa quanto ao seu passado, à infância, e esperava ter uma chance de conversarem a respeito mais tarde. Tratava-se, provavelmente, do tipo que podia ser jogado em qualquer cultura do mundo e, em pouco tempo, tornar-se indistinto de um nativo. Ciente de ter caído nas malhas do humor às vezes pervertido de Michael, ele agora mudava seu comportamento para cativá-los e apagar a primeira má impressão.

Robert até relaxou um pouco quando Ian demonstrou interesse pela história da família. O tio de Elizabeth falou com orgulho da linhagem e tradição que mantinham os Marlowe fortes por gerações. Mas a tensão voltou quando o assunto recaiu sobre a importância de herdeiros.

— Sem filhos para herdar e administrar — Robert declarou — o dinheiro e o poder conquistados, todo o esforço de uma família cai por terra. Fortunas e bens perdem-se nas mãos de parentes distantes e negligentes.

— Pai, não faz sentido tocar nesse assunto agora — Michael objetou, a raiva evidente na voz. Elizabeth encarou-o, surpresa. Em geral o alvo do sermão sobre o mal da falta de herdeiros era a sua condição de solteira. O primo parecia tenso e Jennifer mantinha o olhar baixo, remexendo a comida no prato.

— Linhagens morrem — Ian comentou. — Alguns crêem ser uma tática da natureza para dar margem a raças novas e mais fortes.

— Não somos animais — Robert retrucou. — Somos os Marlowe.

Em resposta, Ian apenas sorriu e voltou a atenção para o jantar. Adelaide tomou a palavra, mudando de assunto, para o alívio de Elizabeth.

— Dr. Bradshaw, passei a tarde toda imaginando como aprendeu essas imitações fantásticas. Importa-se em satisfazer a curiosidade de uma velha?

— E a minha também — Elizabeth acrescentou. — Quando sou alvo de uma peça, gosto de saber como seu autor a executou.

Ian estava sentado bem na frente dela, mas evitara encará-la com receio de deixar transparecer aos outros sua crescente atração. Isso só dificultaria sua aceitação pela família, pois pensariam que procurava uma conquista de fim de semana. Se bem que, até certo ponto, era o que desejava.

Mas desejava também ser bem-vindo naquela casa. Não só por gostar de Michael como amigo — afinal, ainda partilhavam do mesmo senso de humor escrachado que os aproximara em Harvard, apesar das diferenças de idade e raízes — mas também por causa de Elizabeth. Aquela mulher o intrigava, e ele sabia que teria mais chance de aproximar-se dela se seus parentes o aceitassem. No entanto, ao ser diretamente interpelado, não resistiu encará-la.

Elizabeth não ficou indiretamente à intensa corrente de sensualidade provocada pelo cruzamento de seus olhares. De repente, pareceu estarem ali a sós, na expectativa de algo maravilhoso acontecer.

Quando Ian falou, porém, seu tom de voz soou perfeitamente normal.

— Sou etólogo. Observo animais. Depois de anos de experiência, consegui captar algumas de suas várias formas de verbalização.

E maneirismos, Elizabeth pensou.

— É pago apenas para observar a vida selvagem? — Robert mostrou-se incrédulo.

— Trata-se de subvenção científica, papai — Michael partiu em defesa do amigo. — Ian é autor de vários livros e oferece serviços de consultoria a filmes.

No decorrer da conversa, soube-se que Ian havia morado na África, Malásia, Indonésia, estudando comportamentos animais. Sua tese de doutorado baseara-se nos felinos, mas depois mudara seu foco de interesse.

— A vida animal tem sido incansavelmente estudada — ele esclareceu, citando vários cientistas famosos —, mas com o desenvolvimento da África e da Ásia, as selvas continuarão a perder espaço, como ocorreu na América do Norte. No futuro, o único lar de muitas espécies serão os zoológicos e as reservas. Minha esperança é ao menos ajudar com os meus registros a adequar esses ambientes ao máximo aos sobreviventes.

A paixão de Ian por seu trabalho era óbvia. Tinha uma causa e lutava por ela. A admiração de Elizabeth por ele cresceu, e esperava poder conhecê-lo melhor no transcorrer do fim de semana. Considerando a aversão dele por cidades e a profissão que o confinava em selvas a maior parte do tempo, ela duvidava de ter outra chance.

Mas o resto da noite passou sem nenhuma oportunidade para conversarem. A família parecia querer protegê-la de Ian, o forasteiro.

— Venha cá sentar-se do meu lado, querida — Adelaide a chamou na sala de estar onde tomariam café e licor. — Quero colocá-la a par das fofocas da vizinhança.

Enquanto Robert, Adelaide e Elizabeth conversavam num canto, Ian, Michael e Jennifer reuniam-se em outro para relembrar os tempos de faculdade, com uma garrafa de conhaque à mão para avivar a memória.

— Naturalmente — a avó dizia a Elizabeth, que se resignava a ouvir com paciência — soube que seu ex-namorado Billy Stockdale rompeu o noivado com Muffy Turner.

Elizabeth não sabia nem queria saber. Havia namorado o rapaz no verão passado, antes de mudar-se para a cidade, e se decepcionava por ele ser bonito por fora mas entediante por dentro, o que certamente não acontecia com Ian Bradshaw.

— Bem — Adelaide continuou —, Muffy ficou arrasada e atribui o rompimento à paixão que Billy ainda sente por você.

— Que bobagem — Elizabeth refutou a hipótese, recebendo a adesão de Robert. Segundo o tio, os reveses financeiros dos Turner eram a verdadeira causa do rompimento, pois Stockdale pretendia dar o golpe do baú.

Elizabeth participou da conversa por mais algum tempo antes de pedir licença para se retirar, alegando cansaço pela semana de trabalho. Ao acenar boa-noite para Michael e Jennifer, Ian mostrou-se indiferente. Ora, dane-se, ela pensou.

Seu humor não melhorou enquanto se preparava para dormir. Sentia nostalgia por estar no quarto que ocupara por tanto tempo, mas também uma sensação incômoda de deslocamento. E devia admitir que naquela noite experimentara uma certa insatisfação com a vida. Algo parecia faltar... Apagou a luz, esperando que o sono viesse logo para livrá-la da melancolia.

Mas não veio. Ao fechar os olhos, a imagem de Ian Bradshaw projetou-se na tela de sua imaginação. Viu-o à sua espreita no bosque, revelando-se à luz do chandelier no hall de entrada, chegando na sala de jantar como se fosse o dono do pedaço, ignorando-a depois de revelar interesse através dos olhos acinzentados.

Ela rolou na cama e esmurrou o travesseiro. Não fazia sentido deixar-se perturbar por um homem só porque era extraordinariamente sensual. Maldita hora em que Michael decidira trazer o amigo para casa quando sabia...

Seria possível Michael ter premeditado o encontro, esperando que os dois se dessem bem? Não, seria maquiavélico demais. Ou bem típico do seu humor pervertido?

Tais reflexões, contudo, desgastaram sua energia mental e contribuíram apenas para afugentar o sono. Talvez devesse ler. Acendendo a luz, escolheu um livro na estante.

Após alguns capítulos, sentiu o sono chegar e pôs o livro de lado. Agora podia dormir, sem nenhum homem das selvas perseguindo-a na imaginação.

Ia apagar a luz quando uma sombra na janela chamou sua atenção. Esfregou os olhos, imaginando se devido ao cansaço começava a ver coisas. O quarto ficava no segundo andar acessível portanto apenas a pássaros.

Talvez fosse uma coruja presa na hera quando caçava alimento. Elizabeth saiu da cama para averiguar.

A janela dava para o jardim e o bosque mais além. Quando criança, passava horas apoiada ao parapeito, sonhando. Alguns sonhos eram bons, como aqueles em que era uma princesa salva do perigo por um príncipe lindo, que a levava para seu castelo. Outros eram pesadelos de olhos abertos sobre a morte trágica dos pais. Quando adulta, haviam prevalecido os planos para o futuro e a carreira.

Subiu a vidraça e espiou para fora, segurando-se com firmeza para o caso de sua fobia provocar tontura. O que viu a fez gritar de susto.

Ian escalara a parede e se pendurava no peitoril.

— Deixe-me entrar, Liz. Juro que não sou o Drácula.



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