Robin cook intervençÃO



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ROBIN COOK
INTERVENÇÃO
Tradução de Celina Cavalcante Falck-Cook
EDITORA RECORD

2013
Dedico este livro às famílias, às vítimas e aos pesquisadores que con­tribuíram para os extraordinários avanços no tratamento do câncer infantil.




Ora, havia ali um homem, por nome Simão, que exercia magia na cidade, maravilhando o povo de Samaria, e fazia-se passar por um grande personagem. Todos lhe davam ouvidos, do menor até o maior, comentando: "Este homem é o poder de Deus, chamado o Grande." Eles o atendiam, porque por muito tempo os havia des­lumbrado com as suas artes mágicas. Mas, depois que acreditaram em Filipe, que lhes anunciava o Reino de Deus e o nome de Jesus Cristo, homens e mulheres pediam o batismo. Simão também acreditou e foi batizado. Ele não abandonava Filipe, admirando, estupefato, os grandes milagres e prodígios que eram feitos.

Os apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que não havia descido ainda sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados em nome do Senhor Jesus. Então os dois apóstolos lhes impuse­ram as mãos e receberam o Espírito Santo.

Quando Simão viu que se dava o Espírito Santo por meio da imposição das mãos dos apóstolos, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: "Dai-me também este poder, para que todo aquele a quem impuser as mãos receba o Espírito Santo." Pedro respondeu: "Maldito seja o teu dinheiro e tu também, se julgas poder comprar o dom de Deus com dinheiro! Não terás direito nem parte alguma neste ministério, já que o teu coração não é puro diante de Deus."

Atos dos Apóstolos 8, 9-21


1
4h20, segunda-feira, 1o de dezembro de 2008

Cidade de Nova York
A transição de Jack Stapleton do sono agitado para o estado de vigília completa foi instantânea. Ele estava em um carro des­governado, descendo desabalado por uma ladeira íngreme e se aproximando rapidamente de uma fila de criancinhas em idade pré-escolar que atravessavam a rua em pares, de mãos dadas, sem perceber a calamidade que estava para acontecer com elas. Jack tinha pisado fundo no pedal do freio, em vão. A velocidade do carro parecia até ter aumentado. Ele gritou, avisando às crianças para que saíssem da frente, mas se conteve quando percebeu que estava de olhos fixos no teto do seu quarto, salpicado de feixes de luz projetados dos postes de iluminação, na sua casa da rua 106 Oeste, na cidade de Nova York. Não havia carro, nem ladeira, nem crianças. Era só mais um dos seus pesadelos.

Sem saber se tinha gritado ou não, Jack se virou para sua mu­lher, Laurie. A luz tênue da janela sem cortinas, viu que ela dor­mia profundamente, e isso lhe indicou que conseguira suprimir o grito de terror. Quando voltou a atenção para o teto, estremeceu ao se lembrar do sonho, um pesadelo recorrente que sempre o apavorava. Tinha começado no início da década de 1990, depois que a sua primeira esposa e as duas filhas, uma de 10 e outra de 11 anos, morreram em um desastre com um voo de ponte aérea, após uma visita a Jack em Chicago, onde ele fazia um curso de patologia forense. Originalmente um cirurgião oftalmológico, Jack tinha decidido mudar de especialidade para fugir do que via como uma progressiva invasão dos quatro cavaleiros do apo­calipse médico: planos de saúde, programas de redução de custos de assistência médica, governo desinformado e público aparen­temente indiferente. Esperava que, ao deixar de ser clínico, seria paradoxalmente capaz de recuperar o altruísmo e a dedicação que o haviam motivado a estudar medicina, antes de mais nada. Em­bora tivesse conseguido atingir o objetivo, acabou sentindo que, sem querer, destruíra sua adorada família no processo, o que o deixou envolto em uma espiral de culpa, depressão e ceticismo. O pesadelo do carro desgovernado tinha sido um dos sintomas. Embora os sonhos houvessem desaparecido inteiramente vários anos antes, tinham voltado nos últimos meses, com intensidade ainda maior.

Jack se concentrou nas luzes que se movimentavam no teto, projetadas pelo poste de iluminação diante do seu prédio, e vol­tou a estremecer. Ao penetrarem pela janela, os raios de luz pas­savam pelos galhos sem folhas da árvore entre sua casa e o poste. Quando a brisa noturna os balançava, a luz ficava intermitente, projetando uma série de manchas hipnóticas, como no teste de Rorschach. Isso o fazia sentir-se sozinho em um universo frio e impiedoso.

Jack levou uma das mãos à testa. Não suava, mas depois to­mou seu próprio pulso. Estava acelerado e forte, mais ou menos a 150 por minuto, sinal de que seu sistema nervoso simpático ha­via iniciado uma reação completa de lutar ou fugir, uma resposta já habitual após o sonho com o carro sem freio.

O que diferenciava o pesadelo de hoje dos demais era as crianças. Em geral, o objeto do seu temor era puramente pessoal, como uma cerca de proteção frágil ao longo de um precipício, um muro de tijolos ou um braço de mar profundo e infestado de tubarões.

Ele virou a cabeça para conferir o relógio. Já passava de qua­tro horas. Com o coração acelerado, Jack sabia instintivamente que não conseguiria dormir de novo. Delicadamente, afastou as cobertas para não acordar Laurie e saiu da cama. O piso de car­valho estava frio como mármore.

De pé, ele espreguiçou, alongando os músculos contraídos. Apesar de estar na casa dos 50 anos, Jack ainda jogava basquete na quadra aberta, na rua, sempre que o tempo e a agenda per­mitiam. Na tarde anterior, para controlar a ansiedade do mo­mento, ele havia jogado até quase cair de cansaço. Sabia que de manhã estaria se sentindo um caco, e tinha razão. Esforçou-se para superar as dores e o desconforto, abaixando-se e tocando o chão com as palmas das mãos. Depois foi ao banheiro, ainda pensando nas crianças do seu pesadelo. Não tinha se surpreen­dido por aquela recente tortura. Aliás, a fonte da sua angústia atual, culpa constantemente renovada e depressão ameaçadora, era uma criança, o seu próprio filho, John Júnior, o JJ, como ele e Laurie o chamavam. O bebê nascera em agosto, algumas sema­nas antes do esperado. Mas eles já estavam com tudo preparado, principalmente Laurie. Ela encarara a situação com muita calma. Ao contrário dela, porém, quando o parto terminou, cerca de dez horas depois, Jack estava tão exausto como se ele é que tivesse dado à luz. Embora tivesse ajudado no nascimento de duas filhas, tinha se esquecido de como essa experiência era emocionalmente cansativa. Ficou aliviado ao ver que mãe e filho estavam bem e descansando confortavelmente.

As coisas permaneceram razoavelmente tranqüilas durante o primeiro mês. Laurie havia tirado licença-maternidade e estava gostando da nova experiência de ser mãe, apesar de JJ ficar sem­pre agitado durante a noite. Os temores de Jack, de que o bebê nasceria com algum problema genético ou congênito, se dissipa­ram. Jack nunca admitiria para Laurie que, depois do parto e das tranquilizadoras garantias de que ela estava bem, ele foi correndo espiar por cima do ombro do pediatra.

Apavorado, Jack havia examinado as faces do bebê e contado seus dedos das mãos e dos pés. Não sabia se seria capaz de criar um filho deficiente, tão culpado se sentia pela morte de suas duas filhas. Já tinha sido difícil pensar em ter outro filho e se conse­guiria se submeter à vulnerabilidade e à responsabilidade que era ser pai, principalmente se a criança fosse deficiente. Se não fosse pela paciência inflexível de Laurie e seu apoio incansável, ele não se arriscaria. Bem no fundo, Jack não tinha conseguido se livrar da sensação de que estava destinado a causar catástrofes na vida de todos que amava.

Apanhou seu roupão no gancho atrás da porta do banheiro e foi pé ante pé até o quarto do JJ. Mesmo no escuro, Jack podia apreciar a decoração exagerada do cômodo do bebê que ele e Laurie deviam a sua sogra, Dorothy Montgomery. Ela não havia poupado despesas para dar tudo do bom e do melhor ao neto, que ela já temia nunca ter.

O quarto do bebê era suavemente iluminado por várias luzinhas noturnas na altura do rodapé. Hesitante, Jack se aproximou do berço forrado com bordado inglês. A última coisa que que­ria era acordá-lo. Fazê-lo adormecer de novo depois da última mamada tinha sido uma luta. Jack não pôde enxergar direito o interior do berço porque as luzinhas noturnas mal o ilumina­vam, mas o bebê estava deitado de barriga para cima, as mãozinhas esticadas para os lados do corpo num ângulo de 45 graus. Os dedos de ambas as mãos estavam flexionados, envolvendo o polegar. Um pouco de luz fazia a testa da criança reluzir. Seus olhos estavam imersos na escuridão, mas Jack sabia que tinham olheiras, um dos primeiros sintomas do problema de JJ. A pele havia se escurecido gradativamente com o passar das semanas, e nem Jack nem Laurie haviam notado a mudança. Tinha sido Dorothy quem chamara a atenção dos dois para o fato. Outros sintomas começaram também a manifestar-se, pouco a pouco. O que inicialmente o pediatra tinha chamado de "agitação" rapida­mente se transformou em noites de insônia para toda a família Stapleton.

Quando finalmente diagnosticaram a doença, Jack sentiu como se tivessem lhe arrancado o fôlego, como se alguém o tives­se acertado no estômago com um bastão de beisebol. O sangue fugiu de seu cérebro tão subitamente que ele precisou agarrar os braços da poltrona onde estava sentado para não cair no chão. Todos os seus piores temores haviam se concretizado. O medo de que uma maldição pairava sobre os seus entes queridos, especial­mente as crianças, não era uma ilusão. John Júnior tinha neuroblastoma, doença responsável por 15 por cento das mortes por câncer em crianças. O pior é que o câncer já estava amplamente em metástase, tomando todo o corpo de JJ, inclusive os ossos e o sistema nervoso. O câncer de John Júnior fora classificado como neuroblastoma de alto risco, o pior tipo que existe.

Os meses seguintes foram um verdadeiro inferno para os pais do recém-nascido, à medida que o diagnóstico ficava mais lúgubre e se planejava o tratamento. Felizmente, Laurie se conservara notavelmente lúcida durante todo o período, especialmente nos primeiros dias, que foram cruciais, enquanto Jack lutava para não afundar na mesma fossa que tinha caído anos antes. Saber que John Júnior e Laurie precisavam muito dele havia sido a salvação. Com grande esforço, Jack combateu a culpa arrasadora que sen­tia e conseguiu exercer uma influência razoavelmente positiva.

Não tinha sido fácil, mas os Stapleton tiveram a sorte de se­rem admitidos no programa de tratamento do neuroblastoma, no Centro de Tratamento de Câncer Memorial Sloan-Kettering, onde rapidamente passaram a confiar no profissionalismo, na experiência e na empatia daqueles médicos talentosos. Durante meses, JJ foi submetido a várias sessões de quimioterapia indi­vidualizada, cada uma exigindo internação hospitalar devido a problemáticos efeitos colaterais. Quando o efeito esperado pe­los médicos foi alcançado, JJ começou um tratamento novo e promissor que consistia em injeções intravenosas contendo um anticorpo monoclonal gerado por camundongos para combater as células do neuroblastoma. O anticorpo, chamado 3F8, loca­lizava as células cancerosas e ajudava o sistema imunológico do paciente a destruí-las. Pelo menos teoricamente.



O protocolo de tratamento original recomendava submeter o bebê a ciclos de duas semanas de infusões diárias durante vários meses, ou talvez um ano, se possível. Infelizmente, depois de ape­nas alguns ciclos, o tratamento precisou ser suspenso. O sistema imunológico de John Júnior, apesar da quimioterapia anterior, tinha desenvolvido uma alergia à proteína de camundongo, cau­sando um efeito colateral perigoso. O novo plano foi esperar um mês ou dois, depois voltar a verificar se ele continuava alérgico à proteína de camundongo. Se a reação não fosse mais tão intensa quanto antes, o tratamento recomeçaria. Não havia outra opção. A doença de John Júnior já havia se disseminado demais pelo organismo para que tentassem terapia com células-tronco autólogas, cirurgia ou radiação.

  • Ele fica uma gracinha assim dormindo, sem chorar — dis­se uma voz na escuridão.

Jack se assustou. Distraído com seus pensamentos, não tinha percebido que Laurie se aproximara dele, colocando-se ao seu lado.

  • Desculpe se te assustei — acrescentou Laurie, erguendo os olhos para o marido.

  • Desculpe por acordá-la — disse Jack, compreensivo. Da­das as circunstâncias difíceis do tratamento do JJ, sabia que ela vivia cansada.

  • Eu já estava desperta quando você acordou de repente. Temia que estivesse tendo outro pesadelo, porque você estava com a respiração muito acelerada.

  • Eu estava. Era meu velho sonho do carro desgovernado, só que dessa vez quase atropelei um grupo de crianças em idade pré-escolar. Foi um horror.

  • Imagino que sim. Pelo menos esse sonho não é difícil de interpretar.

  • Você acha mesmo? — perguntou Jack, com um ligeiro sarcasmo. Não gostava de ser analisado.

  • Calma, não se zangue — disse Laurie. Pegou o braço de Jack e continuou: — Pela centésima vez, JJ não está doente por sua culpa. Precisa parar de se torturar assim.

Jack inspirou e soltou o ar com força. Depois meneou a cabeça.

  • É fácil para você dizer isso.

  • Mas é verdade! — insistiu Laurie, apertando o braço do marido afetuosamente. — Sabe o que os médicos do hospital dis­seram quando os pressionamos para nos dar a etiologia. Droga, é muito mais provável que tenha sido eu, considerando os produ­tos químicos aos quais nos expomos ao trabalhar com patologia forense. Quando estava grávida, tentei evitar todos os solventes, mas foi impossível.

  • Ninguém provou ainda que solventes podem causar neu­roblastoma.

  • Não provaram, mas é muito mais plausível que essa seja a causa do que a maldição sobrenatural com a qual você vive se torturando.

Jack concordou, relutante. Tinha medo do rumo que a con­versa tomava. Não gostava de falar da maldição, uma vez que não acreditava em nada sobrenatural nem era realmente religioso, duas crenças que ele pensava estarem ligadas uma à outra. Prefe­ria se ater à realidade imediata, coisas que podia tocar e sentir e, geralmente, apreciar com seus próprios sentidos.

  • E meus medicamentos para aumentar a fertilidade? — dis­se Laurie. — Também foram uma sugestão dos médicos. Lembra?

  • Claro que me lembro — admitiu Jack, impaciente. Ele não queria falar sobre o assunto.

  • A verdade é que ninguém sabe por que o neuroblastoma surge, ponto final! Vamos voltar para a cama, que tal?

Jack sacudiu a cabeça.

  • Eu não ia conseguir dormir de novo. Além disso, já devem ser quase cinco horas. É melhor eu tomar banho e fazer a barba, e ir para o trabalho mais cedo. Preciso ocupar minha cabeça com alguma coisa.

  • Excelente idéia. Gostaria de poder fazer o mesmo.

  • Já conversamos sobre isso, Laurie. Você pode voltar a tra­balhar. Contrataremos enfermeiras. Talvez isso fizesse bem a você.

Laurie fez que não com a cabeça.

  • Você me conhece, Jack. Eu não conseguiria. Preciso ir até o fim, seja lá qual for o resultado. Eu nunca me perdoaria. — E voltou a olhar para o bebê, que aparentemente dormia, tranqüi­lo, seus olhos ligeiramente salientes felizmente escondidos pela sombra. Ela prendeu a respiração quando sentiu uma onda sú­bita de emoção dominá-la, como acontecia de maneira impre­visível de vez em quando. Ela queria tanto ter um filho. Nunca imaginara que teria um que sofreria tanto quanto JJ, e com ape­nas 4 meses. Ela também precisava fazer força para não se sentir culpada, mas, ao contrário de Jack, pelo menos encontrava um pouco de consolo na religião. Tinha sido criada como católica, mas agora não era mais praticante. Mesmo assim, queria acredi­tar em Deus e acreditava, vagamente, conseguindo considerar-se cristã. Secretamente, orava por JJ, porém, ao mesmo tempo, não podia entender como um ser supremo permitia que existisse um mal como o câncer infantil, especialmente o neuroblastoma.

Jack percebeu a mudança no estado de espírito de Laurie pelo som da sua respiração. Procurando também controlar as lágrimas, ele abraçou os ombros da esposa e acompanhou seu olhar, voltado para John Júnior.

— A pior coisa para mim a essa altura — disse Laurie, com esforço, enxugando as lágrimas — é a sensação de que estamos marcando o passo. Neste momento, enquanto esperamos a aler­gia dele à proteína de camundongo diminuir, JJ não está rece­bendo tratamento algum. A medicina convencional, de certa forma, nos abandonou. É tão frustrante! Quando ele começou o tratamento com anticorpos monoclonais, eu me senti otimista. Fazia muito mais sentido para mim do que aquele tratamento violento com quimioterapia, ainda mais para um bebê que cresce rápido. A quimioterapia ataca todas as células em crescimento, enquanto o anticorpo só ataca as células cancerosas.

Jack quis responder, mas não pôde. Só conseguiu concor­dar com o que Laurie tinha dito, balançando a cabeça. Além do mais, sabia que engasgaria nas palavras caso tentasse falar naquele momento.


  • A ironia é que este é um dos problemas da medicina con­vencional — disse Laurie, recuperando um pouco de controle emocional. — Quando a medicina baseada em provas chega a um beco sem saída, o paciente e a família é que sofrem, ficando a deus-dará, como dizem.

Jack tornou a concordar. O que Laurie estava dizendo, infe­lizmente, era verdade.

  • Alguma vez já pensou em procurar algum tratamento al­ternativo ou complementar para o JJ? — indagou Laurie. — Quer dizer, só enquanto estamos com as mãos atadas esperando o tra­tamento com anticorpos monoclonais?

Jack ergueu as sobrancelhas, fitando Laurie, espantado.

  • Está falando sério?

Laurie deu de ombros.

  • Não sei muito sobre o assunto para dizer a verdade — respondeu ela. — Nunca tentei usar nenhum tratamento alter­nativo, fora os suplementos vitamínicos. Nem li muito sobre o tema. Pelo que sei, é tudo feitiçaria, exceto por algumas plantas farmacologicamente ativas.

  • É assim que penso também. Até onde eu sei, tudo se ba­seia no efeito placebo. Também nunca me interessei em ler a respeito, muito menos tentar. Sei que é para quem tem mais es­perança do que juízo ou para quem está querendo ser enganado. Além disso, acho que também é para os desesperados.

  • Nós estamos desesperados — falou Laurie.

Jack fitou o rosto de Laurie, na escuridão. Não conseguiu discernir se ela estava falando sério ou não. Mas estavam mesmo desesperados. Isso era óbvio. Mas tanto assim?

— Não espero por uma resposta — acrescentou Laurie. — Só estou pensando em voz alta. Gostaria de fazer agora algo pelo nosso filho. Não gosto de pensar que vamos ter que deixar as células do neuroblastoma se desenvolverem sem tratamento durante tanto tempo assim.


2
12h, segunda-feira, 1o de dezembro de 2008

Cairo, Egito

(5H, cidade de Nova York)
Shawn Daughtry pediu ao motorista do táxi que parasse no mausoléu al-Ghouri, o túmulo do líder mameluco que entregou o governo do Egito aos otomanos no início do século XVI. A última visita de Shawn àquele lugar tinha sido dez anos antes, com sua terceira esposa. Agora, ele estava de volta com a quinta esposa, cujo nome de solteira era Sana Martin e quem estava gostando daquela visita mais do que a primeira gostara. Sana recebera um convite para participar de uma conferência inter­nacional sobre investigação genealógica. Como famosa bióloga molecular especializada em genética mitocondrial, tema, aliás, de sua tese de doutorado, Sana era uma das conferencistas de destaque do evento. Entre as mordomias havia uma viagem com todas as despesas pagas para ela e Shawn. Ele havia aproveitado a oportunidade para ir a uma conferência sobre arqueologia que ocorreria ao mesmo tempo que a de Sana. Como era o último dia do evento, ele faltara ao almoço de encerramento para atender um compromisso muito específico.

Shawn saiu do táxi, sendo imediatamente envolvido pelo ca­lor poeirento e sufocante, e atravessou a rua al-Alzhar, totalmente engarrafada. Todos os carros, ônibus e táxis buzinavam enquanto vendedores ambulantes, empurrando carrocinhas, e pedestres ziguezagueavam entre os veículos que mal se deslocavam. O trân­sito da cidade era um desastre. Durante o intervalo de dez anos desde a última visita de Shawn, a população metropolitana do Cairo havia crescido até atingir a incrível marca de 18,7 milhões de pessoas.

Shawn subiu a rua al-Mukz li-Den Allah e penetrou nas pro­fundezas das ruelas do bazar ao ar livre Khan el-Khalili. O bazar labiríntico do século XIV vendia de tudo, desde utensílios do­mésticos, roupas, móveis e alimentos até suvenires baratos. No entanto, nada disso lhe interessava. Ele seguiu direto até a área especializada em antigüidades e procurou uma loja da qual se lembrava da visita anterior, chamada Antica Abdul.

Shawn era um arqueólogo experiente que, aos 54 anos, esta­va no auge de sua carreira, chefiando o departamento de arte do Oriente Próximo no Metropolitan Museum of Art de Nova York. Embora se interessasse principalmente por arqueologia bíblica, era uma autoridade no Oriente Próximo inteiro, da Ásia Menor, pas­sando por Líbano, Israel, Síria, Jordânia, até o Irã. Shawn tinha sido arrastado mercado afora na sua última visita pela sua esposa na época, Gloria. Separando-se dela no emaranhado de ruas tor­tuosas, Shawn descobrira a Antica Abdul por acaso. Ficou des­lumbrado ao ver na vitrine empoeirada uma peça de terracota pré-dinástica e intacta de mais de 6 mil anos, decorada com espi­rais desenhadas no sentido anti-horário. Naquela época, havia um pote quase idêntico, exibido com destaque na ala do Egito Antigo do Metropolitan Museum, embora a peça da vitrine da Antica Ab­dul estivesse muito mais bem-preservada. Não só o desenho pin­tado nela estava mais bem-conservado, como também o vaso do museu fora encontrado todo partido e precisara ser completamen­te restaurado. Fascinado, mas também convencido de que o vaso da Antica Abdul era, como muitas outras supostas relíquias antigas no bazar, uma imitação muito bem-feita, Shawn entrara na loja.

Embora tivesse pretendido examinar apenas superficialmente o vaso e voltar para o hotel, Shawn terminou passando várias horas na loja. Sua esposa, furiosa e desconfiada de que ele a havia abandonado para perseguir algum rabo de saia, havia chegado ao hotel antes dele. Quando Shawn finalmente voltou, ela caiu em cima do marido impiedosamente, argumentando que poderia até ter sido seqüestrada. Ao se lembrar do acontecido, Shawn se deu conta de como um desenlace desses teria sido conveniente. Faci­litaria muito o processo do divórcio, um ano depois.

O que detivera Shawn na loja durante tanto tempo havia sido uma lição gratuita da tradicional hospitalidade egípcia. E o que começou com uma discussão com o dono da loja sobre a autenticidade do vaso terminou como uma conversa cativante sobre o amplo mercado de falsas antigüidades egípcias, enquanto ambos tomavam diversas xícaras de chá. Embora Rahul, o dono da loja, insistisse que a peça de cerâmica era mesmo uma antigüi­dade legítima, não escondeu nenhum dos truques do ofício, re­velando, inclusive, o lucrativo mercado de escaravelhos, quando descobriu que Shawn era arqueólogo. Os escaravelhos, esculturas usadas como talismãs do antigo escaravelho estercorário egípcio, eram considerados capazes de exercer o poder da regeneração espontânea. Usando uma fonte de ossos inexaurível proveniente de antigos cemitérios no Egito Superior, escultores talentosos recriavam os escaravelhos, depois os davam para vários animais domésticos comerem, de modo a criarem uma pátina bastante convincente sobre as esculturas. Rahul defendia a idéia de que muitos dos escaravelhos faraônicos dos maiores museus do mun­do eram falsificações confeccionadas dessa forma.

Depois da longa conversa, Shawn tinha comprado o vaso para agradecer a Rahul pela hospitalidade. Depois de regatear amistosamente um pouco, Shawn pagou metade do preço ini­cialmente pedido por Rahul. Mesmo assim, Shawn achou que 200 libras egípcias eram mais do que o dobro do que devia pagar, pelo menos era o que pensava até voltar a Nova York. Levando o vaso para sua colega Angela Ditmar, chefe do departamento de egiptologia, examinar, Shawn levou um verdadeiro choque. Angela constatou que o vaso não era uma falsificação, mas sim uma relíquia genuína, com definitivamente mais de 6 mil anos. Shawn terminou doando a peça de cerâmica ao departamento de egiptologia para substituir o vaso restaurado que estava em exibição permanente e assim aliviar a culpa que sentiu por ter, sem saber, saído do Egito com um objeto valioso na bagagem.

Shawn penetrou ainda mais fundo no coração do bazar. Es­ticados sobre as ruelas entre os prédios, viam-se tapetes e toldos que bloqueavam eficazmente a luz do sol. Passando por açougues com carcaças de cordeiro penduradas inteiras, com crânios, olhos, moscas e tudo, Shawn se viu envolto pelo odor pungente de entranhas, logo substituído pelo cheiro dos temperos e depois pelo aroma de café árabe sendo torrado. Aquele bazar assaltava todos os sentidos, tanto positiva quanto negativamente.

O arqueólogo parou, meio perdido, entre vários becos con­vergentes, como tinha parado dez anos antes. Entrando numa alfaiataria, pediu informações a um egípcio idoso, de solidéu branco e djellabah marrom. Alguns minutos depois, Shawn já entrava na Antica Abdul. Não se surpreendeu nem um pouco ao ver que a loja continuava ali. Na sua visita anterior, Rahul lhe dissera que o estabelecimento já estava na família havia mais de cem anos.

Fora a ausência do vaso pré-dinástico, a loja parecia essencial­mente a mesma. Como a maioria das, assim chamadas, antigüi­dades era falsa, Rahul só as substituía por peças provenientes de suas fontes à medida que eram vendidas.

A loja parecia vazia quando Shawn entrou e ouviu as contas de vidro da cortina balançando e batendo umas contra as outras atrás de si. Por um momento, perguntou-se se Rahul ainda esta­ria lá, mas todas as suas preocupações se evaporaram quando o homem surgiu rapidamente passando pelas cortinas escuras que separavam uma sala repleta de almofadas da parte da frente da loja. Rahul cumprimentou Shawn com uma ligeira reverência ao se colocar atrás de um velho balcão com tampo de vidro. Era um fellah robusto, de lábios cheios, que se transformava facilmente em comerciante sagaz.

Sem dizer uma palavra, Shawn avançou alguns passos e en­carou os olhos negros e insondáveis do lojista. Quase imediata­mente, Rahul uniu as sobrancelhas, depois as ergueu, formando rugas na testa, ao reconhecer o freguês.



  • Dr. Daughtry? — indagou Abdul. Inclinou-se ligeira­mente para a frente a fim de olhá-lo melhor.

  • Rahul — respondeu Shawn —, impressionante você se lembrar de mim, e ainda por cima do meu nome, depois de tan­tos anos.

  • Como poderia me esquecer do senhor? — disse Rahul, contornando o balcão apressadamente e apertando a mão de Shawn com entusiasmo. — Eu me lembro de todos os meus clientes, especialmente os de museus famosos.

  • Tem clientes de outros museus? — Aquela loja era tão modesta que essa possibilidade parecia remota.

  • É claro, é claro. Sempre que recebo alguma coisa especial, o que não é freqüente, entro em contato com quem acho que mais se interessaria. Agora é facílimo, graças à internet.

Pouco depois, enquanto Rahul enveredava beco adentro, em­purrando a cortina de contas para os lados e berrando ordens em árabe, Shawn se maravilhava com a velocidade da globalização. Parecia-lhe que devia existir um abismo entre a internet e o anti­go Khan el-Khalili. Obviamente a realidade era muito diferente.

Um momento depois, Rahul voltou a entrar na loja e fez sinal a Shawn para que passassem para a sala dos fundos do es­tabelecimento. Tapetes orientais forravam o chão e as paredes. Almofadões pesados de brocado dominavam o espaço. Havia um narguilé em um canto, ao lado de pilhas de caixas de papelão desbotadas. Uma lâmpada nua, sem lustre, pendia do teto. Em uma mesinha de madeira, havia algumas fotos desbotadas, uma de um homenzarrão de trajes típicos egípcios que se assemelhava a Rahul. O mercador seguiu o olhar de Shawn.



  • Uma foto do meu tio que minha mãe me deu recente­mente. Ele era o dono desta loja há uns vinte anos atrás.

  • Ele parece seu parente, mesmo — comentou Shawn. — Comprou a loja dele?

  • Não, da esposa dele. Ele era irmão da minha mãe, mas acabou envolvido em um escândalo por causa da descoberta de uma peça importante: um túmulo intacto. Esse envolvimento lhe custou a vida. Foi morto aqui na loja mesmo.

  • Nossa — retrucou Shawn, intrigado. — Desculpe ter to­cado no assunto.

  • Neste negócio é preciso ter muito cuidado. Eu, louvado seja Alá, felizmente não venho tendo nenhum problema do tipo.

No instante seguinte, alguém empurrou a pesada cortina de contas, e um menino descalço apareceu com uma bandeja e dois copos em suportes de metal, cheios de chá fumegante. Sem dizer uma palavra, o menino depositou a bandeja no chão perto de Shawn e Rahul, depois voltou a passar pelas cortinas e desapare­ceu. Durante todo o tempo, Rahul continuou tagarelando ani­madamente sobre como tinha gostado da visita de Shawn.

  • Acontece que vim aqui por um certo motivo — admitiu Shawn.

  • Ah, é? — replicou Rahul, curioso.

  • Tenho que confessar uma coisa. Da última vez em que estive na sua loja, comprei um vaso de terracota pré-dinástico.

  • Eu me lembro. Era um dos melhores que eu tinha.

  • Nós passamos um tempão debatendo a autenticidade dele.

  • E o senhor não queria se deixar convencer.

  • Aliás, não me convenci nem um pouco. Comprei como lembrança de nossa interessantíssima conversa, mas, quando vol­tei para Nova York, pedi a uma colega especialista que o exami­nasse. Ela concordou com você. Não só era autêntico, como está agora em exibição em um local de destaque no museu. E uma peça verdadeiramente belíssima.

  • Que bondade a sua vir aqui admitir seu erro.

  • É, isso esteve me incomodando muito durante todos esses anos.

  • Isso é fácil de corrigir — disse Rahul. — Se quiser aplacar sua consciência, é só me pagar um pouco mais pela peça.

Surpreendido por aquela sugestão inesperada, Shawn encarou Rahul espantado. Por um momento, pensou que ele tinha fala­do sério. Depois Rahul sorriu, expondo os dentes amarelados e malcuidados.

  • Estou brincando, é claro — falou ele. — Obtive um ex­celente lucro, porque foram umas crianças que o encontraram, e estou satisfeito.

Shawn sorriu também, obviamente aliviado. Achava o hu­mor árabe tão inesperado quanto a hospitalidade.

  • Sua confissão me fez lembrar uma peça incrível que recebi ontem de um amigo fellahi, que é fazendeiro no Alto Egito — prosseguiu Rahul. — É uma coisa que o senhor vai achar espe­cialmente interessante, dada sua formação bíblica. Deve saber mais do que eu a respeito deste artefato específico, portanto vou lhe dar um voto de confiança e aceitar o preço que me pagar por ele se decidir comprá-lo. Mas veja se não me tapeia, hein? Gosta­ria de dar uma olhada na mercadoria?

Shawn deu de ombros.

  • Por que não? — Não sabia o que esperar, de forma que se preparou para uma decepção.

Depois de revirar uma das caixas de papelão encostada à pa­rede, Rahul tirou dela o que parecia ser uma fronha de algodão suja. Foi só quando se sentou que retirou de dentro dela o conteú­do e o colocou nas mãos de Shawn.

Shawn ficou imóvel durante vários segundos, enquanto Rahul se sentava e se acomodava, recostado nos almofadões. Havia uma expressão de expectativa e satisfação no rosto de Rahul, pois ele sabia que o arqueólogo logo adivinharia o que tinha nas mãos. A questão era se Shawn estaria disposto a comprar o artefato ou não. Aquele tesouro ilegalmente adquirido precisava ser comprado pela pessoa certa, alguém com bolsos relativamente recheados.

Shawn avaliou rapidamente o objeto. Como a maioria dos peritos bíblicos que valem o que pesam, particularmente os in­teressados em estudos do Novo Testamento ou da história da Igreja primitiva, o arqueólogo já tinha visto e até manuseado os originais. A questão era: o que ele estava segurando seria ge­nuíno ou uma falsificação como os escaravelhos e a maioria das antigüidades de imitação que Rahul vendia? Shawn não fazia a menor idéia, mas, dada a inesperada autenticidade do vaso pré-dinástico, estava disposto a arriscar e comprar o que estava em suas mãos. Se por acaso fosse mesmo genuíno, aquele códice po­dia ser a maior descoberta da sua vida e, mesmo se ele terminasse devolvendo o artefato ao governo egípcio, era o tipo de objeto cuja história em si distinguiria Shawn de seus contemporâneos. Ele não queria que nenhum de seus concorrentes, os contatos dos maiores museus do mundo, clientes de Rahul, o comprassem — o que era uma possibilidade real, graças à internet.

— Claro que é falso — começou Shawn, tentando dar iní­cio à negociação, regateando corretamente. O problema era que, apesar da aparência modesta da loja, ele reconhecia que estava lidando com um profissional que sabia negociar habilmente.



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