Robin cook intervençÃO



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11h23, segunda-feira, 1o de dezembro de 2008

Cidade de Nova York

(18H23, Cairo, Egito)
— Não se esqueça de desinfetar todos os tubos de cultura e os frascos de amostras de tecido para exame histológico — disse Jack a Vinnie depois do caso de meningite. — Estou falando sério. Não quero descobrir depois que não desinfetou os tubos e que você venha me dizer que esqueceu, entende?

  • Entendo — reclamou Vinnie. — Já me disse a mesma coisa há dois minutos. O que pensa que sou? Burro?

Vinnie percebeu a expressão de Jack por traz da máscara plás­tica protetora do seu capuz e rapidamente acrescentou:

  • Não responda.

Jack não tinha planejado usar um capuz com filtro HEPA, mas jurava que Vinnie não se sentiria bem sem um desses, mas que seu orgulho o impediria de colocá-lo caso Jack não o vestis­se também. Portanto, no último instante, Jack havia cedido por Vinnie. Normalmente, não gostava de usar o capuz e o macacão encapsulado porque eram volumosos e dificultavam o trabalho. Mas, à medida que o caso prosseguia, ele ia ficando aliviado por ter mudado de idéia. A virulência daquele meningococo em es­pecial era impressionante, o que era visível pelas lesões causadas às meninges e ao cérebro em si.

Como eles haviam feito a necropsia na sala dos decompos­tos e não havia mais nenhum técnico forense em volta, Jack ajudou Vinnie a colocar o corpo num saco e depois sobre uma maca. Após lembrar a Vinnie para que informasse à funerária que o recebesse de que o caso era infeccioso, Jack tirou o traje integral e o capuz, removeu e jogou fora o macacão Tyvek e foi para sua sala.

Sua primeira ligação foi para a escola particular do meni­no morto. Embora fosse regra do IML que o departamento de relações-públicas tratasse de todas as comunicações oficiais, Jack costumava se encarregar de quebrar o protocolo. Queria ter cer­teza absoluta de que fossem feitas certas coisas, e alertar a escola desse caso era uma delas. Com o testemunho do poder destruti­vo da bactéria ainda fresco na memória, Jack falou francamente com o diretor, que lhe garantiu que a instituição estava levando a tragédia muito a sério. O epidemiologista estivera lá, e eles já haviam começado uma descontaminação e uma quarentena ri­gorosas. Ele expressou o agradecimento que sentia em relação à preocupação e ao esforço de Jack.

A ligação seguinte foi para Robert Farrell, um dos amigos de Keara. Depois de mais de uma dúzia de toques, o homem final­mente atendeu, pedindo desculpas pela demora. Mas mudou de tom quando Jack se identificou e disse que era médico-legista.



— Pelas informações que tenho, você estava em um grupo que saiu para beber ontem à noite com Keara Abelard e a trouxe para a emergência do Saint Luke.

  • Nós vimos que ela estava se sentindo muito mal — disse Farrell.

  • Soube o que aconteceu depois?

  • Depois que a deixamos na emergência?

  • Estou falando do que aconteceu mais tarde com ela.

  • Ouvi dizer que ela faleceu depois que nós saímos.

E aí o sexto sentido de Jack o alertou.

  • E isso te surpreendeu?

  • Claro. Ela era jovem.

  • Os jovens não costumam morrer.

  • Por isso é que me surpreendi.

Jack pigarreou para poder ganhar tempo e pensar. Tinha rapidamente deduzido que Farrell parecia estar na defensiva, e isso era estranho. Como que para comprovar a impressão, Farrell acrescentou, mais que depressa:

  • Não demos qualquer coisa a ela, se é isso que está insinuan­do. Ela nem mesmo bebeu nada.

  • Eu não estava insinuando nada — disse Jack. E se para­benizou por ter tirado uma boa quantidade de fluidos corporais do cadáver para serem analisados pela toxicologia apesar da des­coberta positiva da dissecção bilateral da artéria vertebral. Agora se perguntava se ela havia sofrido alguma queda peculiar que pu­desse ter torcido, flexionado ou mesmo distendido bruscamente o pescoço.

  • Quantas pessoas a trouxeram até a emergência?

  • Três do nosso grupo.

Jack concordou.

  • Vocês estavam bebendo, mas ela não?

  • Acho que é melhor eu ligar para o meu advogado antes de responder a mais perguntas suas — disse Farrell.

Mas Jack continuou tentando obter respostas.

  • Quantas pessoas havia no seu grupo, ao todo?

  • Nós éramos mais ou menos uma dúzia, homens e mulhe­res. Fomos para um barzinho de bairro no West Village. Pode me dizer como ela morreu?

  • Estamos justamente tentando descobrir isso. Por acaso notou a mudança de comportamento dela?

  • Sim, num minuto estava bem, falando e toda animada, bebendo uma Coca-Cola, mas logo depois começou a falar deva­gar e não sabia mais onde estava. Aí ela se levantou, cambaleou uns passos e caiu. Eu literalmente a amparei, e por isso fui quem terminou indo com ela para a emergência.

  • Por que não chamaram a ambulância?

  • Para te dizer a verdade, achamos que ela estava de porre. Foi só depois que eu soube que ela era abstêmia.

Jack podia perfeitamente imaginar as íntimas das artérias ver­tebrais de Keara inchando e gradativamente interrompendo o fluxo de sangue para o seu cérebro.

  • Pode me dar os nomes e os telefones de todas as outras pessoas que faziam parte desse grupo?

  • Não sei, cara — recuou Farrell. — Não sei se quero me envolver mais nisso tudo do que já estou.

  • Olha, não estou acusando ninguém de fazer nada errado, e não estou te acusando de nada. Estou só tentando falar pelos mortos, que é o que os médicos-legistas fazem. Quero que Keara nos diga o que a matou para evitar que outra pessoa tenha o mes­mo destino. Tem uma peça importante do quebra-cabeça que está faltando. Me diga, você falou com ela diretamente naquela noite?

  • Durante alguns minutos, mas não mais do que falei com outras pessoas. Quer dizer, ela era uma gata, não é, e por isso todos os caras falaram com ela.

  • Ela mencionou alguma coisa, disse se esteve envolvida em alguma batida de carro na semana passada, algo assim?

  • Não, nada disso.

  • E por acaso disse que tinha caído? Talvez até mais cedo, na mesma tarde, como no banheiro, por exemplo. — Jack não achava que uma queda podia ser a causa sem que houvesse sinal externo de contusão, mas não queria excluir nada.

  • Não mencionou nada disso, não.

Jack finalmente conseguiu que o homem concordasse em lhe dar uma lista dos outros integrantes do grupo da noite anterior, junto com seus telefones. Farrell até prometeu terminar a lista lá pelo fim da tarde.

Jack desligou, depois se sentou à mesa, tamborilando com os dedos no mata-borrão. Apesar de suas suspeitas iniciais, parecia agora que não tinha sido um crime. No entanto, tinha certeza de que uma parte da história de Keara ainda estava faltando. Sem outra desculpa para adiar a ligação para a mãe da moça, Jack discou o número dela. Sabia muito bem como a mulher devia estar transtornada.



Ela pegou o telefone depois da primeira vez que ele tocou. Jack imediatamente presumiu que ela estava na fase de negação e ainda havia no fundo uma esperança de que podia ser alguém ligando para dizer que tudo tinha sido um terrível engano e a sua filha estava sã e salva.

  • Aqui quem fala é o Dr. Jack Stapleton. Estou ligando do IML.

  • Alô, Dr. Stapleton — respondeu a Sra. Abelard, num tom animado, porém interrogativo, como se não houvesse motivo para alguém estar ligando do necrotério de Nova York. — Posso ajudá-lo com alguma coisa?

  • Pode, sim — disse Jack, sem saber como começar. — Mas primeiro quero expressar meus mais profundos sentimentos pelo falecimento de sua filha.

A Sra. Abelard se calou. Jack ficou preocupado, achando que ela ia desatar a chorar e dizer despautérios, anunciando o segun­do estágio do luto, a raiva. Mas só ouviu silêncio, interrompido pela respiração intermitente da mulher. Jack estava com medo de dizer mais alguma coisa, para não piorar ainda mais a situação.

  • Espero não estar incomodando muito a senhora — disse Jack por fim, mas só depois que tinha se tornado óbvio que a Sra. Abelard não ia responder. — Infelizmente fui obrigado a telefonar. Sei que esteve aqui no necrotério ontem à noite. E sei que deve ter sido muito difícil. Não pretendo perturbar a senho­ra neste momento de angústia, mas gostaria que soubesse que examinei sua filha Keara com todo o cuidado esta manhã e posso garantir que ela está descansando na mais profunda paz.

Jack fez uma careta diante do que lhe pareceu um total mau jeito na tentativa de expressar solidariedade. Desejou poder des­ligar, controlar-se e depois ligar de novo. A idéia de que um cor­po eviscerado estava descansando em paz era tão absurdamente idiota que ele ficou envergonhado por aquilo ter saído de sua boca. Sentia-se culpado por ter descido tanto para convencer sua interlocutora. Contudo, continuou, como tinha feito com o re­lutante Robert Farrell.

  • O que estou tentando dizer é que quero falar por sua fi­lha, Sra. Abelard. Tenho certeza de que ela tem algo a dizer para ajudar outras pessoas, mas preciso de mais informações. Pode me ajudar?

  • Estava dizendo que ela está descansando confortavelmente? — indagou a Sra. Abelard, rompendo seu silêncio. Era como se ela achasse que a filha não tinha sofrido nada de mais.

  • Ela está em paz. Só que fiquei intrigado: por acaso ela sofreu alguma contusão no pescoço ultimamente?

  • Contusão no pescoço? Como assim?

  • Qualquer tipo de contusão — disse Jack. E se sentiu como um advogado durante um julgamento tentando evitar sugerir al­guma resposta à testemunha.

  • Ela não sofreu nenhuma lesão no pescoço de que eu me lembre, embora tenha caído de um balanço quando tinha 11 anos e ficado toda machucada, incluindo no pescoço.

  • Estou falando de uma contusão que possa ter ocorrido recentemente — disse Jack —, talvez nessa última semana.

  • Céus, não.

  • Ela gosta de fazer ioga? — indagou Jack, tentando não deixar nada de fora.

  • Não, acho que não.

— E um acidente de carro? Qualquer coisa que tenha acon­tecido recentemente?

  • Céus, não — repetiu a Sra. Abelard, ainda mais convicta.

  • Então estava completamente bem até ontem. Não tinha dores no pescoço, nem dores de cabeça.

  • Agora que mencionou isso, ela andava reclamando de dores de cabeça ultimamente, sim. Andava meio estressada por causa de um novo emprego.

  • Que tipo de emprego?

  • Publicidade. Ela era redatora de textos de uma das maio­res agências de propaganda da cidade. E um cargo novo, e ela estava numa situação meio estressante. Foi demitida recente­mente, e sentia a pressão de fazer o melhor que podia no em­prego novo.

  • Ela disse onde eram as dores, se eram na frente ou atrás da cabeça?

  • Disse que eram atrás dos olhos.

  • E Keara tomou alguma coisa para se livrar delas?

  • Tomou ibuprofeno.

  • E... as dores passaram?

  • Não muito; portanto, ela perguntou a um dos amigos se conhecia algum bom médico, e o amigo recomendou um quiroprático.

Jack endireitou a coluna, sentando-se bem ereto na cadeira. No recesso mais profundo da mente, lembrou-se de um caso que tinha lido em um número da Forensic Pathology Seminars, envol­vendo um quiroprático e um derrame.

  • Keara foi ao quiroprático? — indagou Jack, enquanto tentava se lembrar dos detalhes do caso publicado. Lembrou-se de que se referia a uma dissecção da artéria vertebral, exatamente como constatara naquela manhã em Keara.

  • Ela foi, sim. Pelo que me lembro, foi na quinta ou sexta passada.

  • A consulta fez as dores passarem?

  • Fez, pelo menos no começo.

  • Por que diz "pelo menos no começo"?

  • Porque a dor entre os olhos passou, mas depois ela come­çou a sentir uma dor na parte de trás da cabeça.

  • Está dizendo que a dor era na parte de trás do pescoço?

  • Ela disse que era na parte de trás da cabeça. Agora que estou me lembrando da conversa, ela também disse que teve uns soluços que custaram muito a passar e que a deixavam maluca.

  • Por acaso sabe o nome desse quiroprático? — indagou Jack, enquanto segurava o telefone entre o pescoço e o ombro. Com as mãos livres, ele abriu o navegador e digitou "dissecção artéria vertebral" no Google.

  • Não. Mas sei o nome da amiga que recomendou o médico.

  • Está querendo dizer o quiroprático — disse Jack, pensativo, depois se arrependendo disso. Ele não queria se arriscar a aborrecer a mãe de Keara. Embora o homem pudesse ser um doutor em quiroprática, Jack sabia que muita gente pensava que eles eram médicos. Ele desconfiava dos quiropráticos, embora admitisse que não sabia muito a respeito deles,

  • O nome dela é Nichelle Barlow — disse a Sra. Abelard, indiferente ao comentário de Jack.

  • Obrigado pela cooperação — disse ele, anotando o número. — Foi muito generosa, principalmente num momento como este em que está passando por tanto sofrimento.

Depois de recolocar o telefone no gancho, Jack ficou olhan­do para a parede. Ele se lembrava de como, há 17 anos, quando sua primeira esposa e as filhas morreram, havia negado o aciden­te quando os amigos ligaram. Sacudindo a cabeça para se livrar desses pensamentos mórbidos, ele se obrigou a voltar a atenção para a tela do computador, mas não conseguiu se concentrar. Em vez disso, lembrou-se da cena, umas duas noites antes, em que John Júnior soluçava devido ao que ele e Laurie desconfiaram se tratar de dor nos ossos provocada pelo tumor nas cavidades onde ficava a medula de seus ossos longos. Suas mãozinhas minúsculas de bebê, perfeitamente formadas, pareciam gesticular apontando para suas pernas, como se ele esperasse que seus pais o aliviassem, mas naturalmente eles não podiam fazer nada.

  • Merda! — berrou Jack para o teto, na esperança de se assustar e se libertar do ciclo deprimente de autopiedade. Nesse momento, uma cabeça apareceu na porta aberta. Era o Dr. Chet McGovern, o ex-colega de sala de Jack.

  • Está refletindo sobre seu estado mental em particular — brincou ele — ou só avaliando a tendência geral do mercado de ações?

  • Todas as respostas acima — disse Jack. — Entre, vamos bater um papo. — Apesar de estar preocupado, Jack achou que um pouco de distração lhe faria bem.

  • Não dá — disse Chet, com um tom de voz animado. — Conheci uma garota ontem e vamos almoçar juntos. Pode ser que ela seja a mulher dos meus sonhos, meu amigo! Gostosa demais!

Jack fez um gesto de desdém, como se achasse que Chet nun­ca fosse encontrar "a mulher dos seus sonhos". Chet gostava de­mais de caçar para se aquietar com uma só.

  • Ei, Chet — gritou Jack para o amigo, que já estava se retirando. —Já teve uma dissecção da artéria vertebral?

  • É, já, uma vez — disse Chet, voltando a se apoiar na porta e se inclinar para dentro da sala de Jack. — Foi durante a minha sociedade de patologia forense em Los Angeles. Por quê?

  • Vi uma esta manhã. Fiquei intrigado, sem saber qual era a causa do óbito, até abrirmos o crânio. O histórico não era muito detalhado, e não havia sinal de trauma.

  • Quantos anos?

  • Jovem. Vinte e sete anos.

  • Pergunte se ela não foi a um quiroprático nos últimos três dias, mais ou menos.

  • Acredito que sim — disse Jack, impressionado com a su­gestão de Chet. — Acho que é possível que ela tenha tido uma consulta na última quinta ou sexta-feira. Ela morreu ontem à noite.

  • Pode ser significativo — respondeu Chet. — No meu caso, a associação foi fácil de fazer porque os sintomas começaram logo depois da manipulação cervical. Só que, quando fui pesquisar o caso, descobri que os sintomas de dissecção da artéria vertebral po­dem demorar dias para aparecer. Escuta. Adoraria conversar mais, mas preciso ir me encontrar com meu novo amor.

  • Você está me impressionando muitíssimo — respondeu Jack, pulando e seguindo Chet pelo corredor. — Eu me lembro vagamente de ter lido sobre um caso, mas nunca tinha visto pes­soalmente uma dissecção.

  • Achei isso interessante — admitiu Chet enquanto anda­va. — E achei que podia receber elogios do meu chefe por isso; portanto, pesquisei a dissecção arterial e a quiropraxia. Descobri que é uma dessas associações que não despertaram muito interesse, assim como não despertou muito o meu na época. Meu chefe ia ao mesmo quiroprático e jurava que o homem era excelente, e aí precisei diagnosticar o caso como mera complicação terapêutica.

  • O que é que certos quiropráticos fazem para causarem essa dissecção? Você sabe?

  • Presumo que seja a força da "técnica de ajuste" deles — explicou Chet. — Chamam isso de um ajuste de alta velocidade e baixa amplitude. Embora não aconteça com freqüência, há ve­zes em que pode causar um rompimento interno da artéria verte­bral, e a pressão sangüínea causa o resto. As vezes, a dissecção se estende até a artéria basilar.

  • E qual a freqüência com que isso acontece?

  • Não me lembro bem — admitiu Chet. — Foi há alguns anos. Nos arquivos forenses de Los Angeles acho que encontrei apenas quatro ou cinco casos de dissecção de artérias vertebrais associadas a consultas com quiropráticos. — Chet entrou no ele­vador, mantendo a porta aberta com a mão. — Escuta, Jack, pre­ciso ir agora. Já estou atrasado. Podemos conversar mais, depois, se quiser. — As portas se fecharam e ele desapareceu.

Por um momento, Jack continuou olhando para o elevador cerrado. Agora estava intrigado, achando que podia ter tropeça­do na distração que procurava. Se Keara tivesse mesmo ido a um quiroprático para se livrar da dor de cabeça e ele tivesse feito a tal manipulação cervical, haveria uma chance, e ele não fazia idéia qual, de que ela tivesse sofrido uma lesão nas artérias pelas mãos do terapeuta.

Virando-se de repente, Jack se apressou a voltar para o seu consultório, refletindo sobre o que havia lido quanto ao tal caso de dissecção de artérias vertebrais causado por manipulação cer­vical. Lembrou que Chet também tinha visto uma, bem como encontrado quatro ou cinco casos assim, no banco de dados de Los Angeles. Além disso, Jack achava que podia ter outro caso desses nas próprias mãos. Tudo aquilo começava a lhe sugerir que ir ao quiroprático sob certas circunstâncias não era necessa­riamente uma experiência positiva.

Embora Jack admitisse que ele não conhecia os detalhes da terapia quiroprática, como forma do que se costumava chamar medicina alternativa ou complementar, sabia que havia dúvidas a respeito de sua eficácia. Ele sempre tinha vagamente colocado no mesmo saco a quiropraxia, a acupuntura, a homeopatia, a tradição ayurvédica, a medicina com ervas chinesas, a meditação transcendental e uma centena de outras coisas que considerava terapias questionáveis baseadas mais em esperanças e no efeito placebo do que em qualquer outra coisa. Certamente não era ciência, pelo que sabia, mas, se as pessoas achavam que obtinham certo alívio pelo dinheiro que pagavam, ele não se importava. Por outro lado, se essas terapias pudessem ser fatais, a coisa era inteiramente diferente, e ele, como médico-legista, tinha a res­ponsabilidade distinta de dar o proverbial alarme.

Energizado por essa nova cruzada, Jack se recostou na cadeira. Não conseguia deixar de pensar na conversa com Laurie e em como ela dissera que estava disposta a tentar qualquer coisa para salvar JJ.

— Pode ser, mas acho que quiropraxia, pelo menos, está fora de cogitação — disse Jack em voz alta, enquanto puxava a cadeira mais para perto do monitor do computador.
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12h05, segunda-feira, 1o de dezembro de 2008

Cidade de Nova York

(19H05, Cairo, Egito)
Jack encontrou um artigo do site eMedicine falando de dissec­ção arterial vertebral, a DAV. Começou a fazer uma leitura rápida e descobriu que ela é a causa de 20 por cento dos derrames sofri­dos por pacientes com menos de 45 anos, ocorrendo com três ve­zes mais freqüência nas mulheres que nos homens. Continuando a ler, notou que o sintoma típico era a dor de cabeça occipital ou na parte posterior da cabeça. Ele foi até a última página para veri­ficar as causas. O primeiro fator de risco da lista era manipulação espinhal, exatamente como Chet havia sugerido.

Intrigado com a alta incidência de DAV especificamente por manipulação espinhal, Jack voltou à sua ferramenta de busca pa­drão. Alguns segundos depois, já examinava uma infinidade de artigos. Rapidamente descobriu um que achou promissor e cli­cou nele. Enquanto o lia, ficou ainda mais alarmado do que ao analisar o anterior, pois se tratava de uma revisão sistemática de 35 casos de derrames comprovados causados por manipulação espinhal cervical, relatados na literatura médica de 1995 a 2001. A vasta maioria envolvia quiropráticos, e a maioria das lesões eram dissecções arteriais vertebrais. As conseqüências iam desde a recuperação completa de 6 por cento dos pacientes até níveis variados de déficits neurológicos permanentes ou morte nos 94 por cento restantes. Um dos pacientes da lista que tinha morrido era uma bebezinha de 3 meses.

Jack se recostou no espaldar da cadeira, inclinando-se para trás, e olhou para o teto. Que doença levaria os pais a pensar que os sintomas de um bebê se aliviariam mediante manipulação cer­vical, forçando o pescoço da criancinha além do ponto de resis­tência normal? E o que tinha passado pela cabeça do suposto ou da suposta terapeuta e que lhe dera a audácia de fazer uma coisa dessas? Jack não estava só horrorizado, estava furioso.

Passando para a parte de discussão do artigo, Jack leu que havia indícios de que os 35 casos examinados correspondessem a apenas uma pequena parcela de sua totalidade, uma vez que, pelo jeito, ninguém costumava denunciar os terapeutas. Para apoiar essa declaração, um levantamento feito em um encontro de especialistas do Conselho de Derrame da Associação Cardíaca Ame­ricana constatou 360 casos não denunciados de derrame após manipulações espinhais! Seria possível?, pensou Jack.

Pondo as mãos dos dois lados da cabeça, Jack a balançou, incrédulo, questionando por que essa questão não era mais di­vulgada. Depois de refletir sobre a situação mais alguns minutos sem chegar à conclusão alguma, voltou a atenção para o caso de Keara Abelard.

Ele revirou furiosamente a pilha de papéis sobre a mesa até localizar o número do telefone da amiga de Keara que supos­tamente havia recomendado o quiroprático. Discou o número dela, depois tentou se acalmar enquanto esperava a moça atender a chamada. Sabia que seria contraprodutivo intimidar a amiga de Keara. Quando ela atendeu, Jack se identificou e mencionou seu título oficial com tanta isenção de ânimo quanto lhe foi possível. A moça recebeu a apresentação em silêncio.



  • Ainda está aí? — indagou Jack. — Você é Nichelle Barlow, não é?

  • Está ligando do necrotério? — indagou a mulher, obvia­mente preocupada.

  • Estou. Você é Nichelle Barlow?

  • Sim — respondeu ela, relutante, pelo jeito tentando se preparar para alguma notícia ruim.

  • A Sra. Abelard me deu o seu número. Espero não estar incomodando.

  • Tudo bem — disse ela, hesitante. — Está me ligando por causa de Keara?

  • Estou. Acho que não estava com ela no grupo de amigos naquela noite, não é?

  • Não estava, não. Mas não me diga que ela... — disse Nichelle, sem conseguir terminar a frase.

  • Infelizmente ela faleceu ontem à noite — disse Jack.

  • Sinto muito ter que dar esta notícia.

  • O que houve?

  • Ela sofreu um derrame.

  • Um derrame? — disse Nichelle, incrédula. — Keara era da minha idade, só tinha 27 anos.

  • Os derrames são mais comuns quanto mais velha a pessoa fica, mas até crianças podem sofrer derrames.

  • Não acredito nisso. É algum tipo de piada de mau gosto?

  • Infelizmente não, Srta. Barlow — disse Jack, calmamente.

  • O motivo pelo qual estou ligando para a senhorita é que estou investigando a morte da sua amiga. Qualquer falecimento súbito de uma pessoa que aparentemente gozava de boa saúde e sem causa conhecida é objeto de investigação por parte do médico-legista. Só preciso de informações. Sabia que Keara estava sofrendo de dores de cabeça?

  • Foi o que ela me disse. Mas não tive a impressão de que eram tão ruins assim. Eram mais incômodas do que debilitantes.

  • Ela as descreveu para você?

  • Mais ou menos. Disse que sentia dor atrás dos olhos, mais do lado direito do que do esquerdo. Disse que tinha dores assim quando estava estressada e se sentia muito estressada no emprego novo.

  • A mãe dela me disse que você havia sugerido que ela fosse a um quiroprático — disse Jack, mantendo a voz neutra para evitar que ela pensasse que ele estava querendo incriminá-la.

  • Keara disse que o ibuprofeno não estava adiantando; por­tanto, sugeri que ela fosse ao meu quiroprático.

  • Ela seguiu seu conselho?

  • Parece que ia seguir, mas não sei com certeza. A última vez em que falei com ela foi na quarta-feira passada.

  • Qual é o nome desse quiroprático?

  • Dr. Ronald Newhouse. E um excelente doutor.

  • Quando diz "doutor", sabe que ele não é doutor em me­dicina, não sabe?

  • Ele é doutor, só que não faz cirurgia nem receita medica­mentos.

Jack sentiu a raiva voltar, mas a combateu. Não ia conseguir mudar as ideais de Nichelle sobre o assunto, mas não podia dei­xar de contestar aquela confusão dela.

  • Seu quiroprático diz que é doutor, mas é doutor em qui- ropraxia, não em medicina. Pode me dizer onde fica o consultó­rio do Dr. Newhouse?

  • Quinta Avenida, entre a 64 e a 65. Espere um pouco que te dou o telefone dele.

Dentro de um momento, Nichelle voltou ao telefone. De­pois que ela havia lhe passado o número, Jack perguntou:

— Há quanto tempo é paciente dele?



  • Mais ou menos oito anos. Ele é quem me salva. Eu me consulto sempre que tenho algum problema.

  • Ele trata você de quê?

  • De qualquer coisa que me incomode, sinusite, principal­mente. Isso e refluxo gástrico. Minha saúde seria péssima se não fosse o Dr. Newhouse.

  • Srta. Barlow — começou a dizer Jack, depois fez uma pausa. Por um instante, refletiu sobre o que queria dizer. — Es­tou curioso para saber como seu quiroprático trata da sua si­nusite.

  • Ele faz ajustes em mim. Em geral trabalha na minha cer­vical, mas às vezes na lombar. Eu tenho um lado do quadril mais alto que o outro, e minhas costas são tortas, mas definitivamente estão melhorando. Devia ver as mudanças nas minhas radiogra­fias. É impressionante.

  • Ele tira radiografias da coluna com freqüência? — indagou Jack, horrorizado diante daquela afirmação. A quantidade de ra­diação necessária para uma radiologia de coluna era significativa.

  • Em quase todas as consultas — disse Nichelle, orgulhosa, como se achasse que quanto mais radiografias, melhor. — Ele é um doutor muito, mas muito detalhista mesmo. O melhor que já tive, para dizer a verdade.

Jack se encolheu diante dessa avaliação positiva, imprópria para alguém que tratava sinusite, sem dúvida causada por um excesso de crescimento no número de bactérias, com manipula­ção cervical potencialmente perigosa e, ainda por cima, radiação desnecessária! Mesmo que a máquina fosse digital, com o passar do tempo a radiação se acumularia.

— Obrigado pela sua ajuda, Srta. Barlow — disse Jack, fa­zendo mais um esforço para evitar a tentação de contradizer a mulher. O fato de que uma pessoa aparentemente inteligente e informada pudesse ter opiniões assim tão disparatadas na época atual era um mistério para ele. Mas resolveu não se deixar im­pressionar.

Jack desligou de um jeito um tanto abrupto. Sabia que, se náo fizesse isso, certamente terminaria passando um sermão em Nichelle sobre sua necessidade de escolher de forma um tanto mais inteligente quem deveria cuidar da sua saúde. Ela tinha ad­mitido que usava um quiroprático como seu clínico geral. Sem nem mesmo recolocar o telefone no gancho, Jack começou a discar para o consultório de Ronald Newhouse. Mais ou menos no meio do número ele parou, pensou e colocou o telefone no gancho. Ainda estava louco de raiva e desconfiava que, no estado mental em que se encontrava, não seria capaz de manter uma conversa coerente. A idéia de que aquele homem realmente acre­ditava poder tratar uma sinusite com ajustes espinais era execrá­vel. Ele devia ser um tremendo charlatão.

Para se acalmar, Jack começou a redigir um e-mail perguntan­do aos trinta e poucos outros médicos-legistas da cidade de Nova York se eles tinham constatado outros casos de dissecção arterial vertebral, especialmente induzida por tratamentos quiropráticos. Ele estava para enviar a mensagem quando decidiu expandir o pedido, perguntando quantos resultaram em mortes, envolvendo todos os tipos de terapia médica alternativa, inclusive, mas não se limitando a homeopatia, acupuntura e ervas medicinais chinesas.

Jack, então, fez uma busca no site da Barnes & Noble, procu­rando títulos de livros sobre medicina alternativa, e ficou assom­brado com a quantidade que encontrou. Lendo as descrições, notou que parecia haver mais livros a favor do que contra, ape­sar da base bastante frágil daquelas diversas terapias. Isso só fez aumentar sua curiosidade, principalmente numa era na qual a medicina convencional passava a ser cada vez mais uma terapia baseada em indícios.

Um dos livros o deixou pasmo: Truque ou tratamento. Ele li­gou para a Barnes & Noble no West Side e pediu que reservassem um exemplar para ele. Estava se sentindo motivado a retificar sua ignorância vergonhosa sobre o assunto.

Sentindo-se calmo novamente, Jack voltou a telefonar para Ronald Newhouse. Uma vez mais, no meio do processo de discar o número, ele parou e desligou o telefone. De repente, tinha resolvido ir em pessoa ao consultório, embora soubesse muito bem que os poderes constituídos não gostavam que os médicos-legistas fossem visitar ninguém em pessoa. O protocolo do IML rezava que as visitas em pessoa deviam ser feitas pelos bem-treinados advogados do departamento jurídico, não pelos médicos, a menos que circunstâncias excepcionais justificassem a presença de um patologista forense treinado. Embora Jack achasse que nem o vice-diretor nem o diretor classificariam a presente situação como "excepcional", ele decidiu ir assim mesmo. Sentia uma necessidade irresistível de olhar aquele quiroprático nos olhos enquanto ele lhe explicava como a manipulação espinhal podia curar sinusites. Ele também queria ver a expressão do homem quando lhe contasse que tinha matado Keara Abelard enquanto tentava curá-la de uma simples dor de cabeça.

Já se passara algum tempo desde que ele havia ido falar com alguém cara a cara pela última vez. Pouco depois de entrar no IML, principalmente quando estava envolvido em algum caso complicado de doença infecciosa, ele costumava fazer várias dessas visitas in loco e chegara à beira da demissão diversas vezes. O diretor, o Dr. Harold Bingham, tinha chegado a quase mandar Jack embora por insubordinação voluntária.

Enquanto esperava o elevador, Jack percebeu que, se Ronald Newhouse tinha tratado de Keara com aquela manipulação cer­vical suspeita, ele não ia precisar colocar "complicação terapêu­tica" como causa da morte na certidão, que seria o que todos de Bingham para baixo esperavam. Ele nem mesmo tinha que colo­car "morte acidental", que era a designação para um caso desses antes que inventassem a tal da "complicação terapêutica" na dé­cada de 1990. Jack tinha percebido que podia colocar "homicí­dio" como causa da morte, depois entregar o caso ao promotor público, como se fazia com casos de criminalidade mais típicos.

Isso cansaria um burburinho e tanto, pensou Jack consigo mesmo ao entrar no elevador com um sorriso malicioso. E, pen­sando no assunto, achou que talvez uma "bomba política" assim fosse necessária para atrair a atenção do público para os perigos da manipulação cervical.
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12H55, segunda-feira, 1o de dezembro de 2008

Cidade de Nova York

(19H55, Cairo, Egito)
Quando Jack freou a bicicleta diante do consultório de Ronald Newhouse, na Quinta Avenida, estava se sentindo melhor do que em meses. Estava motivado, graças a Keara Abelard, por ter tropeçado na distração perfeita: uma campanha para expor os perigos da medicina alternativa. Mal podia esperar para se ver face a face com o sujeito.

Jack desceu da bicicleta e foi colocando a coleção de cadeados que usava para prender sua Trek. Enquanto fechava o último, alguém bateu em seu ombro.

Jack olhou para cima e viu um porteiro uniformizado, com cara de quem saiu de um set de filmagem, portando uma casaca antiga com duas fileiras e botões metálicos reluzentes.

— Sinto muito — disse ele, num tom que revelava que não sentia coisa nenhuma. — Não pode deixar sua bicicleta aqui. É contra o regulamento.



Redirecionando a atenção para o cadeado final, Jack termi­nou de prender a bicicleta.

  • Ei, amigo! — disse o porteiro. — Não ouviu o que eu disse? Não pode deixar essa porcaria de bicicleta aqui. É proprie­dade particular.

Colocando-se de pé, sem dizer palavra, Jack tirou a carteira no bolso da calça e mostrou ao homem sua identidade de médico-legista da cidade de Nova York. Parecia um distintivo de policial para todos os efeitos, a menos que a pessoa olhasse bem de perto.

  • Ah, desculpa, senhor — acrescentou o porteiro, mais do que depressa.

  • Tudo bem — disse Jack. — Não vou deixá-la aqui muito tempo.

  • Não tem problema, senhor — disse o porteiro. — Deixa que eu vigio para o senhor. Posso ajudá-lo de alguma forma?

  • Vim falar com Ronald Newhouse — informou-o Jack. Não conseguiu colocar o "doutor" na frente do nome do sujeito. Nem disse se tinha ido falar com ele na condição de paciente ou se em caráter profissional.

  • Por aqui, senhor — indicou o porteiro, obsequioso, gesti­culando para a portaria e conduzindo Jack até a recepção. Abrin­do a porta interna com uma chave, apontou para dentro. — O consultório do Dr. Newhouse fica naquele corredor, primeira porta à esquerda.

  • Obrigado — disse Jack, perguntando-se se o porteiro se­ria igualmente delicado se soubesse que Jack era médico-legista.

A porta continha os dizeres Dr. Ronald Newhouse e Sócios em letras douradas. Quando entrou, Jack notou logo que Newhouse tinha uma clínica bem-sucedida. Não só podia pagar o aluguel de um prédio na Quinta Avenida, que Jack presumiu ser significativo, como também tinha uma sala de espera super bem-decorada. Havia pinturas originais nas paredes, móveis es­tofados e um enorme tapete oriental. O que a fazia parecer di­ferente de um consultório de um médico bem-sucedido eram três bancos com assentos moldados, cada um conectado com sua respectiva base por meio de uma articulação esférica móvel. Uma mulher de uns 20 anos ocupava um deles. Com as mãos nos joelhos e pernas abertas de forma que seu vestido caísse entre os joelhos, ela estava em movimento constante de uma forma que fez Jack se lembrar de suas filhas quando brincavam com bambolês. Enquanto Jack a observava, a mulher percebeu que ele a olhava e sorriu. Não parecia estar com vergonha nenhuma, o que o levou a imaginar que aquela atividade peculiar era normal naquele ambiente.

  • Posso ajudá-lo, senhor? — perguntou uma agradável voz feminina à direita de Jack. Ele se virou e viu uma mulher ima­culadamente vestida com cada fio de cabelo negro no seu devido lugar. Ficou impressionado. Até a manicure dela era perfeita.

  • Acho que pode — disse Jack. E avançou até onde estava a mulher, que sorriu para ele. — Para dizer a verdade, nunca estive num consultório de quiroprático.

  • Seja bem-vindo — disse a recepcionista. No crachá dela se lia o nome Lydia.

  • Aquele móvel ali é muito interessante — disse ele, indicando com a cabeça a mulher girando para um lado e para outro no banco.

  • Ela está usando uma das nossas cadeiras giratórias. É ótimo para as vértebras da parte inferior da coluna — explicou Lydia. — Faz os discos intervertebrais se lubrificarem e até in­charem um pouco. Nós incentivamos nossos pacientes a usarem essas cadeiras antes da consulta para ajuste.

  • Interessante — disse Jack. — O Dr. Ronald Newhouse está no consultório? — E rangeu os dentes ao obrigar-se a usar o título de "doutor".

  • Ele está, sim — disse ela. E indicou a mulher na cadeira giratória. — A próxima paciente dele é à uma e vinte e cinco. Marcou consulta?

  • Ainda não — disse Jack.

  • Gostaria de marcar?

  • Gostaria de falar com o doutor — disse Jack, sem se com­prometer. — Não sei tanto sobre quiropraxia quanto gostaria.

  • O Dr. Newhouse está sempre interessado em novos pa­cientes. Talvez ele possa falar com o senhor alguns minutos antes de receber a Srta. Chalmers. Se não se importar de esperar um momento, vou perguntar a ele. A quem devo anunciar?

  • Jack Stapleton.

  • Muito bem, Sr. Stapleton. Volto num instante.

  • Muito obrigado pela sua atenção — disse Jack.

Enquanto a recepcionista estava fora da sala, ele voltou a olhar de relance para a Srta. Chalmers, enquanto ela continuava se bamboleando na cadeira. Estava com a cabeça caída para trás, os olhos fechados e os lábios ligeiramente separados. Por um mo­mento, Jack ficou fascinado. Ela parecia estar em transe.

  • O doutor pode recebê-lo agora — disse Lydia, interrom­pendo a concentração de Jack. Ele a seguiu por uma porta in­terna e atravessou um corredor curto, passando por uma série de portas fechadas. Diante de uma porta aberta, a recepcionista recuou e fez sinal para que ele entrasse.

O consultório dava para a Quinta Avenida e, além dela, se via da janela o Central Park. Dentro dele estavam dois ho­mens, um sentado atrás de uma escrivaninha, o outro em uma cadeira de visitante. O homem atrás da escrivaninha, que Jack presumiu ser Ronald Newhouse, imediatamente se levantou e se inclinou sobre a mesa, estendendo uma das mãos musculosas para Jack.

  • Bem-vindo, Sr. Stapleton — disse Ronald Newhouse com um entusiasmo de vendedor.

Jack permitiu que ele lhe apertasse vigorosamente a mão. Newhouse era mais ou menos 3 centímetros mais alto que seus 1,80m e parecia pesar pelo menos 120kg em comparação aos 90kg de Jack. Ele calculou que tinha 40 e tantos anos. A pele de Newhouse era bem morena, e suas sobrancelhas tinham sido cui­dadosamente penteadas sobre o tórus supraorbital proeminente. Seus olhos eram castanho-escuros e penetrantes. Mas o mais im­pressionante nele era o seu penteado ou, mais precisamente, a ausência de penteado. Os cabelos eram de comprimento médio, castanho-escuros e brilhantes, como que alisados com gel, mas totalmente despenteados. Tufos de fios espetados partiam do seu couro cabeludo em todas as direções.

  • Este é um dos meus sócios, Carl Fallon — disse Newhouse, indicando o homem na cadeira de visitante.

Ao ouvir seu nome, Fallon pulou da cadeira, ficando de pé, e, com uma vivacidade que combinava com a de Newhouse, sacu­diu de novo a mão de Jack com um aperto animado.

  • Muito prazer em conhecê-lo — disse ele a Jack. Depois, catou os restos de um sanduíche de pastrami e um picles de ane- to meio comido, junto com um saco de papel pardo pequeno. — Até mais — disse ele a Newhouse.

— Cara formidável — comentou Newhouse. Ele apontou para a cadeira que Fallon tinha deixado vazia. — Sente, por fa­vor. Me disseram que está interessado na terapia quiroprática. Terei o maior prazer de fazer uma introdução antes de atender a minha próxima paciente. Mas primeiro me diga: como me encontrou? Foi através do meu novo site? Foi construído com todo o cuidado e estou curioso por saber se está funcionando.

  • Alguém me recomendou o senhor — disse Jack. Sabia que não estava dizendo exatamente a verdade, mas queria ver o que ia acontecer.

  • Maravilha! — respondeu Newhouse, todo convencido. — Haveria algum problema se eu lhe perguntasse o nome do paciente que me recomendou? É muito gratificante obter um feedback positivo de um cliente satisfeito.

  • Nichelle Barlow.

  • Ah, sim! Nichelle Barlow. Uma mocinha adorável.

  • Estou interessado em saber do que o senhor, como quiro­prático, sente que tem competência para tratar?

O sorriso de Newhouse aumentou, e por um momento ele pareceu estar decidindo por onde começar. Jack se concentrou em uma série de livros no peitoril da janela diretamente atrás do quiroprático, sustentados por suportes de metal em formato de caduceu. Os títulos eram reveladores: Como ganhar mais de um milhão de dólares por ano numa clínica de quiropraxia e Como um e-meter e cinesiologia aplicada podem dobrar a receita da sua clínica. Jack tinha vagamente ouvido falar dos e-meters, aparelhos que supostamente medem a eletricidade corporal e que haviam sido descritos como tecnologia de araque quando certa quantidade deles fora confiscada pela FDA. Ele também tinha ouvido falar de cinesiologia aplicada, desacreditada por não ter valor médico algum em testes controlados.

  • Devo dizer que a terapia quiroprática que tenho em mãos pode tratar quase qualquer doença conhecida pelo homem. Para ser justo, porém, precisaria explicar melhor isso, admitindo logo de cara que a quiropraxia não pode curar todos os problemas, mas definiti­vamente alivia os sintomas das indisposições que é incapaz de curar.

  • Nossa! — exclamou Jack, como que impressionado. Na verdade estava impressionado com a ousadia do quiroprático de afirmar aquilo. — Todos os quiropráticos se sentem assim com relação ao potencial desse campo?

  • Não, imagine — respondeu Newhouse, com um suspiro. — Tem havido muitas desavenças, digamos assim, desde que o grande fundador da técnica, Daniel David Palmer, a descobriu no século XIX e fundou a Faculdade de Quiropraxia Palmer em Davenport, Iowa.

  • Davenport, Iowa — repetiu Jack. — Não é esse o estado onde começou o movimento da meditação transcendental?

  • Sim, é, embora em outra cidade. Fairfield, Iowa, é onde fica a Universidade Maharishi. É possível dizer que Iowa é o mais fértil centro da nação em matéria de desenvolvimento da medi­cina alternativa. Naturalmente, a mais importante descoberta de todas continua sendo o movimento quiroprático.

  • Pode me dizer em poucas palavras qual é a base científica do poder terapêutico da quiropraxia?

  • Ela se baseia no fluxo da inteligência inata, que é um tipo de força vital ou energia vital.

  • Inteligência inata — repetiu Jack, para ter certeza de que tinha ouvido corretamente.

  • Exato — disse Newhouse, erguendo as palmas das mãos com os dedos estendidos como um orador que estava para provar uma coisa importante. — A inteligência inata precisa se mover li­vremente pelo corpo. É a força controladora básica que certifica que os órgãos e os músculos vão funcionar juntos para o bem comum.

  • E, quando esse fluxo é bloqueado, a doença aparece.

  • Exato! — disse Newhouse, com satisfação.

  • E as bactérias e vírus e parasitas — disse Jack. — Qual o seu papel nas doenças... digamos, na sinusite?

  • Muito simples — disse Newhouse. — Na sinusite há uma diminuição abrupta do fluxo da inteligência inata que atinge os seios nasais. A diminuição da função fisiológica normal das ca­vidades dos seios nasais resultante da redução do fluxo da inteli­gência inata causa uma oportunidade para que qualquer bactéria ou fungo residentes cresçam.

  • Me deixe ver se entendi isso — disse Jack. — O pro­cesso patológico começa com o bloqueio do fluxo da inteli­gência inata, ou força vital, e as bactérias se desenvolvem em conseqüência disso, não causam a doença. Estou entendendo direito?

Newhouse concordou.

  • Entendeu perfeitamente.

  • Então o trabalho do quiroprático é restaurar o fluxo e, assim que ele ou ela faz isso, as bactérias, ou seja o que for que esteja envolvido secundariamente, somem.

  • É exatamente isso o que acontece.

  • Eu disse "ele ou ela", mas parece que há mais homens do que mulheres praticando quiropraxia.

  • Acho que se pode dizer isso, sim.

  • Há algum motivo para isso?

Newhouse deu de ombros.

  • Provavelmente o mesmo motivo pelo qual há mais cirurgiões do sexo masculino do que do feminino. A terapia quiroprática exige certa força. Talvez os homens achem mais fácil praticá-la.

Jack concordou, enquanto, mentalmente, via as lesões internas nas artérias vertebrais de Keara. Precisava concordar. Era preciso força para causar o tipo de lesão que ela havia sofrido. Depois de pigarrear, perguntou:

  • Como é que a inteligência inata fica bloqueada?

  • Um dos primeiros pacientes do Dr. Daniel David Palmer tinha um problema auditivo grave, iniciado 17 anos antes, quan­do ele fez esforço para levantar um peso. Quando o Dr. Palmer o examinou, verificou que uma vértebra cervical tinha sido des­locada por causa do peso. Quando o Dr. Palmer a recolocou no lugar, a audição do paciente retornou. O que tinha acontecido, simplesmente falando, era que a vértebra deslocada tinha pres­sionado os nervos que inervam os ouvidos. Quando a pressão foi reduzida, o fluxo se restabeleceu e a função retornou ao normal.

  • Então a inteligência inata flui através dos nervos.

  • Naturalmente — disse Newhouse, como se aquilo esti­vesse óbvio.

  • Então a coluna é a culpada — disse Jack —, quando há bloqueios da inteligência inata.

  • Sim — concordou Newhouse. — Precisa entender que a coluna vertebral não é só uma pilha de ossos, mas um órgão com­plexo, com cada vértebra capaz de influenciar a outra, bem como todas elas ao mesmo tempo. É a coluna vertebral que nos susten­ta, nos mantém coesos e nos integra. Infelizmente, ela também tem uma tendência grande de sair do alinhamento. Nisso se re­sume nossa responsabilidade como quiropráticos. Nós estamos aqui para diagnosticar a irregularidade, ou subluxação, como a chamamos, e devolver a vértebra causadora do problema à sua posição normal, procurando mantê-la ali.

  • Tudo isso se faz através da manipulação espinhal, certo?

  • Isso mesmo. Nós, é claro, temos um nome especial para ela. Nós a chamamos de ajuste.

  • Está me dizendo que o senhor pode ser o clínico geral de alguém?

  • Sem sombra de dúvida — disse Newhouse, pronuncian­do cada sílaba como se fosse uma palavra em si. — Creio que para sua amiga Nichelle Barlow sou como um clínico geral. E acho que ela lhe confirmou que sua saúde é perfeita. Eu a ajusto regularmente porque a coluna dela necessita de atenção constante.

  • Creio que não deve acreditar em antibióticos, então.

  • Em geral não são necessários. Uma vez que eu consiga que a inteligência inata flua normalmente, qualquer infecção se dispersa depressa. Além do mais, os antibióticos são um perigo, (lomo vê, nós fazemos terapia, não receitamos remédios.

  • E as vacinas?

  • São desnecessárias e perigosas — disse Newhouse sem um segundo de hesitação.

  • Todas as vacinas para todas as crianças?

—Todas as vacinas para todas as crianças — repetiu Newhou­se. — As vacinas são mais perigosas do que os antibióticos. Olha só a tragédia que é o autismo. Estou lhe dizendo, é uma vergonha terrível, além de ser uma desgraça nacional. Se uma dessas crian­ças tivesse vindo se consultar comigo antes de ser vacinada, seria normal hoje em dia.

Jack foi literalmente obrigado a morder a língua para resistir a discutir com aquele charlatão absurdo. Embora parecesse que Newhouse acreditava no que estava falando, Jack não sabia dizer se ele era um terapeuta bem-intencionado, porém desorientado, ou um charlatão moderno.



  • E as cólicas infantis? — indagou Jack, hesitante, porque aquela era uma coisa bem comum na sua casa. — Pode curá-las?

  • Sem problema nenhum — disse Newhouse, confiante.

  • Trataria um bebê com manipulação espinhal? — indagou Jack, nervoso. Não podia deixar de imaginar o JJ sendo torturado pelo homem que estava sentado diante dele.

  • Bem, primeiro temos que fazer um diagnóstico.

  • E como se faz esse diagnóstico?

  • Exame visual, palpação cuidadosa, observação dos movi­mentos, radiografias.

  • Tira radiografias da espinha inteira de bebês? — indagou Jack, só para se certificar. Estava enfurecido. Perguntava-se quan­tos bebês Newport teria exposto à quantidade de radiação neces­sária para tirar chapas da coluna, mesmo que seu equipamento fosse digital.

  • Mas claro. É uma parte importantíssima do nosso diag­nóstico completo e processo terapêutico. Usamos radiografias para diagnosticar, documentar o curso do tratamento e nos cer­tificar de que vértebras problemáticas fiquem no lugar. Como a radiografia é tão importante para nossa missão, temos o mais moderno sistema digital. Gostaria de vê-lo?

Jack não respondeu. Ainda estava tentando digerir a infor­mação de que ele bombardeava bebês com radiação ionizante para fazer um diagnóstico falso de que suas espinhas perfeitas de seres humanos jovens estavam desalinhadas de alguma forma.

Interpretando o silêncio de Jack como aquiescência, New­house pulou da cadeira e fez sinal para que ele o seguisse. Jack se levantou obedientemente e o seguiu pelo corredor, passando por uma das portas anteriormente fechadas. A calma que tinha conseguido obter durante a viagem de bicicleta tinha sido subs­tituída por fúria dirigida a Newhouse e seus colegas de profissão. Jack se sentia pessoalmente envergonhado, como se a existência deles fosse culpa sua.

O aparelho de radiografia era impressionantemente moder­no. Sabendo aproximadamente quanto custava um equipamento daqueles, Jack podia imaginar por que o usavam tanto quanto aparentemente o faziam: era preciso pagar por ele. Jack nem es­cutou, enquanto Newhouse, como um pai orgulhoso, desfiava uma ladainha de explicações sobre os atributos da máquina.

No meio do discurso de Newhouse, Lydia meteu a cabeça pela porta para lhe dizer que a Srta. Chalmers estava esperando na sala de tratamento número 1.



  • Mande o Dr. Fallon tratar dela! — disse Newhouse, mal interrompendo sua apresentação.

  • Acho que ela náo vai gostar — disse Lydia.

Instantaneamente, o comportamento do Newhouse mudou de jovial para malévolo.

  • Eu falei para mandar o Dr. Fallon tratar dela! — repetiu, dando a mesma ênfase a cada palavra.

  • Como queira — respondeu Lydia, tratando de se retirar depressa.

Newhouse inspirou profundamente. Num piscar de olhos, a tempestade clareou e a luz do sol brilhou outra vez. Jack ficou atônito diante daquela transformação.

  • Bom, onde é que eu estava? — perguntou Newhouse, olhando de relance para o teclado e para o monitor, como se o aparelho de radiografia fosse responder.

  • Então, você acompanha o progresso do tratamento com radiografias — disse Jack, fingindo que não tinha ouvido a per­gunta de Newhouse.

  • Todo o tempo. Estamos interessados em documentar a melhora progressiva do paciente, e os pacientes acham isso parti­cularmente tranquilizador.

  • Pode me mostrar uma progressão dessas? — pediu Jack.

  • Mas claro — disse Newhouse. — Temos uma série dispo­nível como apresentação para possíveis pacientes como o senhor, porque adoraríamos cuidar da sua saúde. Por favor, volte comigo ao meu consultório que mostro no computador.

Jack ficou admirado com o esforço que Newhouse estava fa­zendo para conquistar outro cliente. Até seu último comentá­rio, estava se perguntando por que Newhouse lhe dedicava tanto tempo.

Jack se colocou atrás da mesa de Newhouse para os dois po­derem ver o monitor. Newhouse abriu uma radiografia lateral da parte cervical da coluna, supostamente de um de seus pacien­tes. Superpostas no filme estavam algumas linhas retas verme­lhas que se interceptavam em ângulos cuidadosamente medidos. Tudo parecia legítimo, como se fosse algum sistema complexo para analisar o filme. No entanto, quanto mais Jack olhava para as radiografias com aquela profusão de linhas vermelhas, menos sentido tudo aquilo fazia para ele. A única coisa que ele notou foi que a cabeça do paciente estava curvada para a frente, com o queixo praticamente descansando na parte superior do peito.



  • Neste filme preliminar — disse Newhouse —, a curvatura da parte cervical da coluna neste paciente sintomático é exata­mente oposta à normal. Como pode ver, a coluna sai do crânio não se curvando para a frente, como devia, mas para trás. Agora, este foi o filme inicial antes de eu começar a terapia. Veja como a coluna deste paciente muda à medida que a terapia vai progre­dindo. Vou mostrar para você a série de fotos tiradas ao longo do tratamento.

Jack viu filmes laterais subsequentes e claramente percebeu que a curvatura cervical mudava, deixando de dirigir-se para trás e se curvando para a frente. Ao mesmo tempo, viu que a mudança não se devia a nenhuma terapia, mas ao fato de que o paciente es­tava erguendo vagarosamente a cabeça a cada radiografia sucessiva.

  • Fantástico, não é? — arrulhou Newhouse.

Jack olhou de relance do monitor para o homem que estava admirando a última radiografia da sua apresentação como se fos­se uma obra de arte. Aquilo era, na realidade, um truque usando radiografias para tapear um público ingênuo. O que Newhouse e gente como ele estavam fazendo era emprestando uma falsa legitimidade à terapia quiroprática utilizando uma ferramenta legítima nas mãos da medicina convencional. Não só era uma fraude como também um perigo expor as pessoas à radiação dessa forma.

Newhouse fez cara de surpreso quando se virou e viu que Jack olhava fixamente para ele, sem nada dizer. Newhouse inter­pretou erroneamente aquela expressão de Jack, achando se tratar de admiração e espanto.



  • Lydia vai marcar uma consulta para você com o maior prazer. Tenho certeza de que temos algum dia ainda neste mês, se seus sintomas puderem esperar. Nossa agenda está cheia de con­sultas de acompanhamento, e as consultas iniciais demoram bem mais, para podermos fazer o diagnóstico e tirar as radiografias. Não considere esse movimento de hoje como típico. As tardes de segunda-feira costumam ser menos cheias por motivo de forma­ção profissional. Em geral, isso aqui é um pandemônio.

Jack não conseguia acreditar no que se passava naquele consultório. Se não fosse tão ridículo, seria até engraçado. Entender Newhouse era uma coisa, mas e os pacientes dele? Nichelle Barlow parecia ser uma moça inteligente e informada. Como podia ser tola a ponto de confiar num homem que vendia terapia falsificada baseada em idéias malucas como a tal inteligência inata?

— Sr. Stapleton? — chamou Newhouse. —Tudo bem? Não pretendia deixá-lo assim tão embasbacado. Está se sentindo bem?



Jack procurou sair de seu mini-transe.

  • Antes, no início da nossa conversa, você me disse que há desavenças entre os quiropráticos, não foi? Nós nos distraímos depois, e não terminou de me dizer o que pretendia.

—Tem razão! Nós deixamos de falar de Daniel David Palmer, o fundador da quiropraxia, e passamos a falar de Davenport, lowa, onde ele montou a primeira escola de quiropraxia.

  • A que tipo de desavenças se referiu?

  • Simples! Durante a década de 1990, um monte de quiropráticos vira-casacas se permitiu ser intimidado por médicos con­vencionais e se limitar a tratar apenas de problemas de coluna.

  • Quer dizer que desistiram de tratar de coisas como sinu­site aguda?

  • Exato! A Associação Americana de Medicina havia se oposto à quiropraxia desde o início, instigando processos na Jus­tiça e coisas do gênero. Tiveram medo de que nós tirássemos sua clientela, o que, naturalmente, estávamos fazendo, porque os pacientes não são burros.

Jack não tinha tanta certeza assim disso, mas deixou passar.

  • Bom, como eu ia dizendo — continuou Newhouse —, por volta de 1990 a Suprema Corte finalmente silenciou a Associação Americana de Medicina, pronunciando uma sentença favorável aos quiropráticos, e declarando categoricamente que a medicina convencional, através da Associação, tinha tentado desacreditar a quiropraxia para conservar seu monopólio sobre a medicina no país.

Jack resolveu procurar mais sobre aquela sentença depois. Considerando o que tinha aprendido naquela tarde sobre qui­ropraxia, parecia inconcebível que a Suprema Corte tivesse dado uma sentença favorável aos quiropráticos, embora presumisse que ela envolvia apenas a questão do monopólio, não tendo nada a ver com a eficácia.

  • Uma sentença dessas, aparentemente, deveria ter sido favorável à quiropraxia — continuou Newhouse. — Mas, es­tranhamente, ela nos dividiu. Vários médicos convencionais, obviamente por serem capazes de enxergar os benefícios terapêu­ticos que nossas técnicas possibilitavam, passaram a trabalhar co­nosco, pelo menos com os quiropráticos que aceitaram se limitar a tratar da coluna. Com o passar dos anos, esses traidores pas­saram a ser chamados de "mistos", porque se deixaram tapear e limitar a tratar só da coluna, e, fazendo isso, traíram o movimen­to da quiropraxia. — Newhouse fez uma pausa momentânea, depois acrescentou em tom de desprezo: — E naturalmente isso significa que não são quiropráticos de verdade.

  • E como se chamam os quiropráticos defensores da quiro­praxia pura? — indagou Jack, permitindo que uma dose de seu famoso sarcasmo se manifestasse.

Por um instante, Newhouse fitou Jack quase como se ele ti­vesse lhe dado uma bofetada. Era evidente que tinha percebido o tom irônico de Jack, mas parecia mais confuso do que indignado. Terminou fingindo que não tinha percebido nada e disse:

  • Somos chamados de "diretos" porque somos fiéis à nossa origem.

Pela centésima vez durante aquela conversa relativamente curta, Jack precisou refrear sua necessidade súbita de dizer o que pensava. Modulando a voz cuidadosamente, continuou:

  • Gostaria de conversar com o senhor sobre outra paciente sua. Seu nome é Keara Abelard.

  • Srta. Abelard — repetiu o Newhouse, permitindo que a expressão animada voltasse ao seu rosto. — Uma outra jovem de classe. Ela também me recomendou ao senhor?

  • De certa forma, eu diria que indubitavelmente sim.

O sorriso de Newhouse vacilou. Ele tinha voltado a ficar li­geiramente confuso. A resposta de Jack havia lhe parecido desne­cessariamente empolada.

  • Ela é uma paciente nova — disse Newhouse. — Keara fa­lou alguma coisa ao senhor sobre sua experiência aqui na clínica?

  • Indiretamente — disse Jack, procurando ser misterioso de propósito para espicaçar a curiosidade de Newhouse. — A Srta. Barlow me disse que tinha sugerido que Keara viesse se consultar com o senhor, mas não sabia se ela havia mesmo vindo.

  • Ela veio. Veio me consultar como nova paciente esta sexta-feira. Nós a encaixamos entre um horário e outro porque ela sentia muita dor.

  • Lembra-se bem dela?

  • Ah, sim. Muito bem.

  • E como é possível isso, se tem tantos pacientes como me disse que tem? Deve tratar de várias pessoas para poder pagar suas despesas operacionais e as prestações do seu aparelho de radio­grafia digital.

  • Eu me lembro bem dos nomes — disse Newhouse, olhan­do para Jack desconfiado. O comentário de Jack lhe parecera no mínimo inconveniente. — Tenho facilidade para isso.

  • Lembra-se do que ela se queixou?

  • Certamente. Ela estava com uma dor de cabeça frontal muito forte que os medicamentos não estavam aliviando. Já fazia semanas que tinha essa dor.

  • Então achou que podia ajudá-la.

  • Sem sombra de dúvida, e a ajudei. Ela disse que a dor de cabeça sumiu como num passe de mágica.

  • Tirou uma radiografia dela?

Newhouse confirmou. Percebia que havia algo de errado naquela conversa, mas não sabia o que era, nem quando tinha começado. Jack tinha mudado de comportamento subitamente, deixando de se mostrar impressionado e ficando estranhamente agressivo.

  • Onde exatamente eram as subluxações dela? — indagou Jack.

  • Em toda a coluna — disse Newhouse, com um pouco de nervosismo na voz. Não gostava de ser questionado, principal­mente no próprio território. — A coluna dela estava totalmente torta, porque nunca havia se tratado. Ela nunca tinha ido a um quiroprático antes.

  • E a cervical, estava torta também?

  • A coluna inteira, inclusive a cervical.

  • Então achou que ela precisava de um ajuste.

  • Muitos ajustes — corrigiu Newhouse. — Nós conversa­mos para planejar o tratamento. Ela vem aqui de novo duas vezes esta semana e durante mais quatro semanas depois disso. Depois uma vez por semana, durante quatro semanas.

— E se me recordo corretamente, ajuste é um sinônimo de manipulação espinhal, não é?

Newhouse olhou seu relógio de pulso, como que mostrando que estava preocupado com a hora.



  • Infelizmente já está ficando tarde. Preciso atender alguns pacientes ainda. Vou precisar lhe pedir para sair.

  • E eu gostaria que me fizesse a cortesia de responder à mi­nha pergunta — disse Jack, sem se mexer.

Um sorrisinho esquisito surgiu no rosto de Newhouse. Ele de repente havia decidido que aquele visitante indesejado ia lhe criar problemas e que precisava se livrar dele. Mas uma descon­fiança de que Jack pudesse ser algum tipo de inspetor municipal, e não um maluco, o fez hesitar. Jack tinha, segundo Newhouse achava, um ar de autoridade, fazia perguntas inesperadas e era dono de uma ousadia e uma auto-confiança que possivelmente indicavam que era algum funcionário público. E, muito embora Newhouse nunca tivesse recebido nenhum fiscal antes, ele achava que sempre poderia haver uma primeira vez, e ela podia ser uma catástrofe. Ele sabia perfeitamente que a sua sala de radiografia não estava adequadamente revestida no teto. Com tudo isso em mente, Newhouse perguntou:

  • Qual foi mesmo a sua pergunta?

  • Quero saber se fez uma manipulação na coluna cervical da Keara Abelard.

  • Em geral, não divulgo informações confidenciais sobre nossos pacientes — disse Newhouse, defensivamente.

  • Mantém prontuários descrevendo os tratamentos que aplica nos pacientes?

  • Claro que sim! Precisamos documentar o progresso do tratamento. Que tipo de pergunta é essa?

  • Posso intimá-lo a me mostrar seus prontuários, portanto é melhor ir me dizendo.

  • Não pode me intimar a mostrar meus prontuários — de­clarou Newhouse, embora sem muita confiança. Agora estava mais preocupado, percebendo que Jack não era bem o que presu­mira que fosse: um possível futuro paciente que estava pensando em marcar uma consulta.

  • Disse que a dor de cabeça de Keara Abelard sumiu depois do seu tratamento. Sabia que voltou a doer depois?

  • Não, não sabia. Ela não me ligou mais após o tratamento. Se tivesse me ligado, eu pediria a ela para vir ao meu consultório imediatamente.

  • A dor de cabeça voltou, e mais forte ainda — disse Jack, sem conseguir mais se controlar. — É preciso saber se ajustou a coluna cervical dela.

  • E por que precisa saber isso, Sr. Stapleton? Quem é o senhor, afinal?

  • Sou o Dr. Jack Stapleton — replicou Jack. — Médico-legista da cidade de Nova York. — E esfregou seu distintivo na cara do Newhouse. — Keara Abelard morreu de repente ontem à noite, sem causa aparente, o que faz dela um caso a ser investigado pelos médicos-legistas. Eu sou quem está investigando esse caso.

Preciso saber se manipulou o pescoço dela quando ela veio ao seu consultório na sexta-feira passada. Se não me disser, vou chamar a polícia aqui para prendê-lo.

Jack sabia que exagerava seu poder e que estava meio descon­trolado. Não podia mandar prender Newhouse. Mas estava furioso o suficiente para alegar isso, porque o homem tinha tirado a vida de uma jovem bela e promissora. O que estava mesmo por trás do comportamento exagerado de Jack — coisa que ele perceberia se parasse para pensar nisso — era sua raiva por causa da doença do filho e sua incapacidade de fazer alguma coisa para salvá-lo.



  • Muito bem — gritou Newhouse, depois de se recuperar do choque de ouvir que Keara havia morrido. — Eu manipulei a cervical dela, como já fiz com milhares de outros pacientes. E sabe de uma coisa? Funcionou. Funcionou porque eu realinhei a subluxação na quarta vértebra cervical dela. E ela saiu daqui muito agradecida, sentindo-se perfeitamente bem, sem dor pela primeira vez em semanas. Se ela morreu, morreu de outra coisa, algo que aconteceu com ela durante o fim de semana, não por causa do meu tratamento, se é o que está insinuando.

  • É claro que estou insinuando que o seu tratamento a ma­tou — berrou Jack. — E sabe como fez isso? Seu ajuste, como diz, causou o rompimento da delicada íntima das suas artérias vertebrais, o que por sua vez causou dissecções arteriais vertebrais bilaterais, que terminaram por bloquear as artérias. Imagino que saiba o que são artérias vertebrais, não?

  • Claro que sei o que são — gritou Newhouse. — Agora saia do meu consultório. Não pode provar que fiz nada errado, porque não fiz. E não é possível que você tenha o direito de me acusar assim. Que atrevimento o seu, vir aqui assim, fingindo que é uma coisa, sendo outra. Vou mandar meu advogado ligar para você. Juro que vou.

  • E o promotor vai ligar para você — gritou Jack. — Vou assinar a certidão de óbito classificando a morte dela como ho­micídio. "Inteligência inata" uma ova! É a maior babaquice que já ouvi na vida! Você mencionou que vocês, os quiropráticos "di­retos", chamam os seus colegas de mistos ou traidores que se limitam a cuidar da coluna. E os mistos, de que chamam vocês, hein? Curandeiros?

  • Saia daqui! — rugiu Newhouse, seu rosto ameaçadoramente próximo do de Jack.

Foi como se uma lâmpada se apagasse na cabeça de Jack. Ele de repente percebeu que estava a apenas alguns centímetros de um homem enfurecido, quase a ponto de sair na briga. O que estava fazendo? O que estava pensando?

Jack recuou um passo. Não estava necessariamente amedron­tado, porque Newhouse não parecia estar exatamente em forma, mas não desejava piorar uma situação que já estava ruim. O que queria era sair dali o mais rápido possível.



  • Agora que já nos entendemos, vou me retirar — dis­se Jack, recorrendo ao sarcasmo. — Nem precisa me levar até a porta — acrescentou, erguendo a mão como se dispensasse Newhouse. — Conheço o caminho.

Jack saiu do consultório e passou por Lydia e diversos pacientes que tinham ouvido pelo menos parte do que Jack e Newhouse estavam berrando. E todos estavam nervosos, prontos para correr para se proteger. Encontravam-se boquiabertos, de olhos arregalados, quando Jack passou pela recepção. O último gesto de Jack foi acenar para Lydia, despedindo-se, antes de passar pela porta de saída.

Lá fora, ele foi direto até sua bicicleta, abriu os inúmeros cadeados atabalhoadamente, enquanto olhava para trás, ressabiado. Estava espantado com seu comportamento, achando incrível como tinha se descontrolado com Newhouse. Naturalmente, agora que conseguia raciocinar, reconhecia que tudo era por causa de JJ, e isso enfatizava como era importante para ele encarar de frente aquela realidade. Também enfatizava a importância da sua cruzada para ajudar nessa questão, mas ele precisava pensar na floresta, e não nas árvores. Tinha de se concentrar na medicina alternativa em geral, não apenas na quiropraxia ou em Newhouse por causa de uma reação emocional à tragédia de Keara Abelard.

Depois que soltou a bicicleta, Jack pulou em cima dela e saiu pedalando na direção sul. Quando pegou velocidade, come­çou a se preocupar com as potenciais repercussões de seu con­tato pessoal impensado. Se Bingham ou Calvin soubessem das suas últimas peripécias, isso podia muito bem cortar sua cruzada incipiente pela raiz. Isso podia ficar grave a ponto de ele pegar um afastamento com vencimentos. Do ponto de vista de Jack, qualquer uma das duas conseqüências seria um problema grave.



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