Robin cook intervençÃO



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Cidade de Nova York

(17h34, Roma)
— Como foi o almoço ontem? — indagou Jack. Tinha metido a cabeça na porta da sala de Chet, onde seu colega estava ao mi­croscópio estudando uma série de lâminas. Chet ergueu a vista, depois se afastou da mesa.

  • Não foi bem o que eu esperava — confessou ele.

  • Como assim?

  • Não sei o que me deu no sábado à noite — disse ele, meneando a cabeça. — Devo ter tomado um porre daqueles que tiram toda a noção que a gente tem das coisas. Aquela mulher era do tamanho de um cavalo.

  • Que pena — disse Jack. — Então acho que não era a mulher dos seus sonhos, afinal.

Chet fez um gesto de quem afasta um inseto irritante en­quanto ria, com ar de deboche.

  • Isso, me sacaneia, vai — desafiou ele. — Eu mereço.

— Quero te fazer umas perguntas sobre aquele caso de dissecção das artérias vertebrais que mencionou ontem — disse Jack, tentando conter o entusiasmo por sua cruzada contra o que ele pensava ser a popularidade irracional da medicina alternativa. Agora estava ainda mais convencido de que ela era geralmente ineficaz, além do efeito placebo e do preço alto: uma combinação péssima. E, como se isso não bastasse, ele agora sabia que às vezes esse tipo de tratamento era perigoso. Aliás, sentia até vergonha pela patologia forense não ter até então se posicionado com mais energia sobre a questão.

Jack havia se convencido ainda mais depois de visitar o con­sultório de Ronald Newhouse na tarde anterior, muito embora tivesse se arrependido disso, admitindo ter cometido um erro ao se deixar levar por suas emoções fragilizadas. Mais tarde, na­quele dia, ele tinha feito uma pesquisa na internet e encontrado uma quantidade de informações enorme, o que teria evitado o confronto com Newhouse. Jack não tinha conhecimento das mi­lhares de "pesquisas" feitas para se provar ou descartar a eficácia da medicina alternativa ou complementar. Sua busca também salientou o que ele via como a pior desvantagem da internet: informações demais, sem nenhum parâmetro para se avaliar até que ponto as fontes eram tendenciosas.

Por acaso, descobrira diversas referências ao livro Truque ou tratamento que tinha reservado na Barnes & Noble. Uma verifi­cação das credenciais dos autores o deixou inquestionavelmente impressionado. Um era autor de um livro que ele tinha adorado anos antes, chamado Big Bang. Os conhecimentos que o homem tinha de ciência, principalmente de física, eram de pasmar, e Jack se sentiria incentivado a confiar nas opiniões do homem com re­lação à medicina alternativa. O segundo autor, que possuía uma formação médica convencional, tinha procurado estudar certos tipos de medicina alternativa e havia experimentado praticar am­bos. Não podia haver experiência melhor para avaliar e comparar sem preconceito ambas as abordagens. Devidamente encorajado, Jack decidiu desistir da internet e saiu do trabalho mais cedo para ir buscar o livro.

Quando chegou em casa, na noite anterior, ficou decepciona­do ao encontrar Laurie e JJ ferrados no sono e um bilhete na mesa do consolo ao lado da porta da frente: "O dia foi péssimo, mui­tas lágrimas, não dormiu, mas agora caiu no sono. Preciso dormir também enquanto posso. Tem sopa no forno. Eu te amo, L."

O bilhete fizera Jack se sentir culpado e solitário. Ele não ti­nha ligado para casa o dia inteiro, por medo de acordá-los, o que já tinha acontecido antes. Embora sempre incentivasse Laurie a ligar para ele quando pudesse, ela nunca telefonava. Esperava que o motivo não fosse ressentimento por ele ter que ir trabalhar enquanto ela ficava em casa, mas, mesmo que fosse, ela não iria querer mudar nada.

Só que a culpa que ele sentia não era apenas pelos telefone­mas. Era porque ele, na verdade, não queria saber o que estava acontecendo em sua casa. Às vezes, nem queria voltar. Estar no apartamento tornava inevitáveis a tragédia da doença do filho e a incapacidade de Jack mudar a situação. Embora ele nunca fosse admitir isso para a Laurie, só segurar o bebê doente nos braços já o deixava uma pilha de nervos, e ele se odiava por isso. Ao mes­mo tempo, Jack entendia o que se passava por trás dos próprios sentimentos. Ele estava tentando em vão não se apegar muito ao filho. A realidade indizível, oculta bem no fundo da sua mente, era que JJ não iria sobreviver.

Jack aproveitou o silêncio que reinava na casa para ler o Truque ou tratamento. Quando Laurie acordou, quatro horas depois, ele estava tão absorto na leitura que havia se esquecido de comer.

Jack escutou Laurie lhe contar o que havia se passado em casa durante o dia. Exatamente como todos os outros dias, quanto mais ele ouvia, mais sentia que ela era uma santa e ele o oposto, mas deixou que ela desabafasse tudo. Quando terminou, ambos foram à cozinha, onde Laurie insistiu em esquentar um pouco de sopa para os dois.

— Foi uma ironia você ter falado em tentar tratamentos al­ternativos esta manhã — disse ele enquanto comiam. — Eu digo uma coisa: podemos estar desesperados, mas nunca vamos re­correr à medicina alternativa. — Jack lhe contou sobre a morte de Keara Abelard e a decisão dele de tomar uma iniciativa no sentido de denunciar seriamente a medicina alternativa. Porém, porque estava exausta tanto no aspecto físico quanto mental, Laurie escutou o discurso enfático do marido sem prestar muita atenção, até ele chegar ao caso fatal do bebê de 3 meses, que ti­nha morrido depois da manipulação pelo quiroprático. Daquele ponto em diante, ela concentrou toda a atenção no que Jack es­tava falando. Ele descreveu como o Truque ou tratamento estava abrindo seus olhos para todos os campos principais da medicina alternativa, inclusive a homeopatia, a acupuntura e a medicina com ervas, além da quiropraxia.

Quando Jack finalmente terminou sua mini-palestra, a reação de Laurie foi parabenizá-lo por encontrar um assunto importan­te para lhe ocupar a mente enquanto a família estava marcando passo, à espera do momento em que o tratamento do JJ poderia recomeçar. Ela até confessou que sentia um pouco de inveja, mas só até certo ponto. Quando Jack tornou a sugerir que ela voltasse a trabalhar, deixando JJ sob os cuidados de enfermeiras 24 horas por dia, ela rejeitou novamente a idéia, dizendo que estava fazen­do o que precisava fazer. Depois, ela prosseguiu, mencionando três casos de óbito em decorrência do uso da medicina alternativa, pacientes dos quais ela mesma tinha tratado. Um foi de uma ví­tima de acupuntura que tinha morrido quando o acupunturista inadvertidamente empalou seu coração inserindo uma agulha de acupuntura bem na área do nódulo sinoventricular. Dois outros pacientes morreram de contaminação por metais pesados devido a um tratamento com ervas chinesas.

Jack ficou satisfeito ao ouvir esses casos de Laurie e admitiu ter enviado um e-mail para todos os colegas deles, pedindo que lhe mandassem relatos de casos semelhantes para tentar estimar a incidência de mortes por praticantes da medicina alternativa na cidade de Nova York.


  • Ei! — gritou Chet, enquanto cutucava Jack com vigor. — O que é que há, está tendo um ataque epilético, alguma coisa assim, é?

  • Desculpe — disse Jack, sacudindo a mão, como quem acorda de um transe. — Estava completamente desligado.

  • O que queria me perguntar sobre o caso de DAV? — inda­gou Chet. Havia esperado Jack terminar de fazer a pergunta.

  • Será que poderia conseguir o nome ou número de registro desse caso para que eu possa obter os detalhes? — pediu Jack, embora não prestasse atenção na resposta de Chet. Tinha voltado a se lembrar do que havia acontecido naquela manhã, quando acordou às cinco e meia, ainda de roupa, sentado no sofá da sala de estar. No seu colo estava o Truque ou tratamento, aberto no meio do apêndice.

O livro tinha solidificado seus sentimentos negativos com relação à medicina alternativa e aumentado seu interesse pela questão. Embora ele houvesse pulado certas passagens do livro, tinha lido a maior parte do volume, até mesmo sublinhando alguns trechos. A mensagem do livro certamente combinava com sua posição sobre o assunto, e ele sentia que os argumentos defendidos pelos autores para justificar suas conclusões eram claros e bem-embasados. Aliás, Jack achava que eles tinham se virado do avesso para tentar defender a medicina alternativa, mas, no final, só conseguiram dizer que a homeopatia era apenas placebo; a acupuntura, além de placebo, podia exercer efeito positivo em certos tipos de dores e náusea, mas que não era significativo nem duradouro; a quiropraxia, além do efeito placebo, era até certo ponto eficaz para aliviar dores nas costas, mas os tratamentos convencionais em geral eram igualmente benéficos e muito mais baratos; e a medicina com ervas era, em sua maior parte, placebo, com produtos de pouco ou nenhum controle de qualidade e, comparados aos produtos com efeito farmacológico, medicamentos que continham apenas o ingrediente ativo eram decididamente mais seguros e mais eficazes.

Depois de dormir por apenas duas ou três horas, Jack achou que iria se sentir exausto. Mas pelo menos inicialmente não parecia ser o caso. Depois de uma ducha fria revigorante e um desjejum rápido, ele foi de bicicleta até o IML, quase em tempo recorde.

De tão entusiasmado que estava diante do conhecimento recentemente adquirido sobre a medicina alternativa, Jack caiu de cabeça no trabalho, assinando vários casos pendentes antes de exigir que Vinnie começasse a trabalhar na sala de necropsia, coisa que ele encarou meio a contragosto. Quando Jack voltou do almoço com Chet para o escritório, Vinnie já terminara três trabalhos, que incluíram um tiroteio em um bar no East Village e dois suicídios, um dos quais Jack achou definitivamente suspeito e sobre o qual já havia ligado para seu amigo, o tenente-detetive Lou Soldano.

— Ei — gritou Chet de novo. — Alguém em casa? Isso é ridículo, é como conversar com um zumbi. Acabei de lhe dizer o nome do paciente de DAV que tive, e você parece que está apre­sentando sinais de ausência típica outra vez. Não dormiu à noite?



  • Desculpe — disse Jack, esfregando os olhos com as mãos e depois piscando rapidamente. —Tem razão, não dor­mi muito a noite passada e estou funcionando na base da ten­são nervosa. Diga-me o nome do seu paciente de novo, por favor!

  • Por que está tão interessado? — indagou Chet, escreven­do o nome em uma folha de bloco de recados e a entregando ao Jack.

  • Estou pesquisando sobre medicamentos alternativos em geral e a dissecção arterial vertebral em particular. O que encon­trou quando estudou o assunto naquela época?

  • Está se referindo acima e além do fato de que ninguém queria ouvir falar nisso?

  • Está querendo dizer, além do seu chefe?

  • Quando apresentei o caso na reunião geral, isso criou uma espécie de polêmica, sendo que metade dos presentes foi a favor e metade contra a quiropraxia, e aqueles que eram a favor a de­fenderam com grande fervor. Foi uma reação emocional que me pegou de surpresa, principalmente o fato de nosso chefe ser um fã tão ardoroso.

  • Disse que tinha reunido quatro ou cinco casos. Acha que poderia me conseguir os nomes desses pacientes também? Se­ria interessante fazer uma comparação oficiosa da incidência de DAV entre Nova York e Los Angeles.

  • Encontrar o nome do meu próprio caso foi relativamente fácil, mas encontrar os demais é o mesmo que pedir um milagre. Contudo, vou tentar. Como vai pesquisar isso por aqui?

  • Você olhou a caixa de entrada do seu e-mail recentemente?

  • Não posso dizer que olhei.

  • Quando olhar, vai ver que há uma mensagem minha. Mandei um e-mail para rodos os médicos-legistas da cidade pro­curando casos. No fim desta tarde vou até a seção de registro ver se consigo encontrar algum lá também.

De repente, o BlackBerry de Jack tocou. Sempre preocupa­do, achando que fosse Laurie e que houvesse uma crise em casa, ele o tirou do estojo na mesma hora e olhou de relance a tela de cristal líquido.

  • Opa! — disse. Não era Laurie. Era o legista-chefe, Harold Bingham, ligando da recepção.

  • O que foi? — indagou Chet, notando a reação de Jack.

— E o chefe — disse Jack.

  • E por isso há algum problema?

  • Visitei um suspeito ontem — confessou Jack. — O quiroprático envolvido no meu caso. Não fui lá tão diplomático quan­to costumo ser. Aliás, quase brigamos.

Chet, que conhecia Jack melhor do que qualquer outra pes­soa no IML, fez uma careta.

  • Boa sorte!

Jack agradeceu com a cabeça e apertou o botão para atender a chamada. A objetiva secretária de Bingham, Sra. Sanford, estava na linha.

  • O chefe quer que você venha à sala dele neste instante!

  • Eu ouvi isso — disse Chet, fazendo o sinal da cruz, o que significava uma coisa muito simples: Chet estava convencido de que a situação de Jack requeria orações.

Jack afastou a cadeira da escrivaninha de Chet.

  • Obrigado pelo voto de confiança — disse, sarcasticamente.

Ao caminhar para o elevador, Jack achou que aquela convo­cação devia ser sobre o velho e bom Newhouse, o quiroprático. Jack esperava ter uma resposta para aquele episódio, mas não achava que aconteceria tão depressa assim. Isso provavelmente não se devia apenas a uma ligação telefônica do quiroprático irado, mas à chamada de um advogado. As conseqüências poderiam ir desde um tapinha na mão até um interminável processo na justiça civil.

Ao sair do elevador, Jack achou que em vez de se defender na frente de Bingham, o que sabia que seria difícil, senão impossí­vel, talvez ele devesse partir para o ataque.



  • Pode ir entrando direto — disse a Sra. Sanford, sem er­guer os olhos do computador. Como ela tinha feito a mesma coi­sa da última vez em que o chefe o chamara para uma advertência, dez anos antes, ele ficou mais uma vez fascinado por ela saber que era ele mesmo.

  • Feche a porta! — exigiu Bingham, atrás da sua monstruosa escrivaninha de madeira. O móvel estava sob janelas altas, cober­tas por antiquíssimas venezianas. Calvin Washington, o vice-di­retor, estava sentado à mesa grande da biblioteca, com as estantes de portas de vidro atrás de si. Ambos os homens olhavam para Jack sem nem mesmo piscar.

  • Obrigado por me chamarem aqui embaixo — disse Jack, com seriedade, andando diretamente até a mesa de Bingham e batendo nela com um punho para dar mais ênfase ao que di­zia. — O IML deve assumir uma posição responsável quanto à medicina alternativa, especialmente em relação à quiropraxia. Ontem examinei o cadáver de uma moça que morreu por causa de uma dissecção arterial vertebral bilateral causada por manipu­lação cervical desnecessária.

Bingham mostrou uma expressão confusa pela forma como Jack havia assumido o controle da situação.

  • Tomei a iniciativa de perder tempo indo até o consultório desse quiroprático ontem para confirmar que ele havia mesmo realizado a manipulação cervical. Como podem ter entendido, não foi a coisa mais fácil do mundo, e precisei usar de uma certa força para obter as informações.

O rosto vermelho do Bingham empalideceu ligeiramente, e seus olhos endefluxados semi-cerraram enquanto ele encarava Jack. Depois, tirou os óculos para limpá-los e ganhar tempo. Não era muito bom em réplicas mordazes.

  • Sente-se! — gritou Calvin do fundo da sala.

Jack sentou em uma das cadeiras em frente à escrivaninha de Bingham. Ele não olhou para trás. Enquanto esperava, nervoso, percebeu que Calvin não estava se deixando intimidar pela sua tática, como Bingham.

O vulto imponente de Calvin apareceu no canto da linha de visão de Jack. Vagarosamente, Jack ergueu os olhos para vê-lo. Calvin estava com as mãos nos quadris, o rosto contraído, os olhos ardendo de fúria. Ele se aproximou de Jack, ameaçador.



  • Pare de dizer besteira, Stapleton! — ralhou ele. — Você sabe muito bem que não pode ficar andando pela cidade mostran­do sua identidade como um policial renegado de seriado de TV.

  • É, quando penso no acontecido, vejo que não fui exata­mente diplomático — admitiu Jack.

  • Foi algum tipo de vingança pessoal contra a quiropraxia? — indagou Bingham, agressivo.

  • Foi pessoal, sim.

  • Quer explicar melhor, por favor? — exigiu Bingham.

  • Está querendo uma explicação além de a quiropraxia não dever tratar doenças que não têm nada a ver com a coluna verte­bral? Além de a quiropraxia basear seu raciocínio para esse trata­mento em um conceito místico ultrapassado de inteligência inata que nunca foi constatado, nem medido, nem explicado? Ou des­se tratamento envolver manipulações cervicais que podem causar a morte dos pacientes, como no caso da minha paciente de 27 anos?

Bingham e Washington trocaram um olhar desanimado diante do desabafo de Jack.

  • Isso pode ou não ser verdade — disse Bingham —, mas por que ficou pessoal?

  • Prefiro não falar disso — respondeu Jack, tentando se acalmar. Ele sabia que estava se deixando levar pela emoção, exa­tamente como antes no consultório do quiroprático. — A histó­ria é muito comprida e a associação é o que se pode chamar de bastante indireta.

  • Você prefere não falar disso — repetiu Bingham, zombeteiro —, mas pode ser necessário, e, se não o fizer, pode se prejudicar. Como talvez não tenha recebido uma intimação ain­da, é minha desagradável responsabilidade informá-lo de que você e o IML estão sendo processados por um tal de Dr. Ronald Newhouse...

  • Mas que coisa, esse cara não é médico! — explodiu Jack. — É apenas um quiroprático.

Bingham e Washington se entreolharam rapidamente outra vez. Bingham estava claramente frustrado, como um pai com um adolescente recalcitrante. Calvin era menos generoso. Estava simplesmente furioso, com dificuldade de ficar calado.

  • Por enquanto, sua opinião sobre a quiropraxia não im­porta — disse Bingham. — São suas ações que estão em questão neste caso, e o cavalheiro referido provavelmente é doutor em quiropraxia. Você e o IML estão sendo processados por calúnia e difamação, agressão...

  • Eu não encostei sequer um dedo no cara — interrompeu Jack. Ele estava tendo dificuldade de se conter como achava que devia.

  • Não é preciso que se toque em ninguém para ser pro­cessado por agressão. O querelante só deve acreditar que você está para agredi-lo de alguma forma. Foi ao consultório dele, censurá-lo aos berros?

  • Suponho que sim — admitiu Jack.

  • Ameaçou prendê-lo por matar sua paciente?

  • Suponho que ameacei — disse Jack, encabulado.

  • Supõe! — repetiu Bingham com mais desprezo ainda, momentaneamente erguendo os braços, exasperado. Depois, fa­lando mais alto, gritou: — O que acho é que isso foi um notó­rio abuso de autoridade oficial da sua parte. Estou pensando em chutar a sua bunda desse cargo, afastando-o sem remuneração de suas funções até toda a confusão se resolver.

Jack sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Se ele tivesse que ser afastado, perderia totalmente o juízo que ainda lhe restava. Teria que ficar em casa, e Laurie precisaria trabalhar em seu lugar. Teria que assumir a responsabilidade de cuidar de JJ. Ai, meu Deus!, exclamou Jack mentalmente. De repente, sentiu-se desesperado, ainda mais do que andava se sentindo até aquele momento. Da última vez em que ele se metera em uma situação semelhante, tendo que enfrentar a ira de Bingham, não estava pensando nas conseqüências para o seu lado. Mas, naquele momento, não podia se dar ao luxo de se auto-destruir. Sua família precisava dele. Ele não podia ficar deprimido. Bingham tinha razão; era mesmo uma confusão.

Bingham inspirou com força, depois expeliu o ar através dos lábios contraídos. Em seguida, olhou para o Calvin, que ainda fuzilava Jack com os olhos.



  • Qual é sua opinião, Calvin? — indagou Bingham. Sua voz havia se acalmado até estar outra vez quase normal.

  • Opinião sobre o quê? — respondeu Calvin, irritado. — Se afastamos esse babaca ou lhe damos uma surra até ficar irreconhecível?

  • Você é que se reuniu com a diretora do departamento jurídico, não eu — disse Bingham. — Qual foi a opinião dela sobre a questão da indenização? Ela está confiante de que nosso seguro vai cobrir o episódio, no caso de haver acordo entre as partes ou no caso de julgamento?

  • Ela acha que sim. Afinal de contas, não é um processo penal.

  • E o que ela disse da possibilidade de as ações de Stapleton serem consideradas dolosas?

  • Ela não estava tão certa assim quanto a essa possibilidade.

Jack olhava de Bingham para Calvin, de Calvin para Bin­gham. Por enquanto, eles estavam fingindo que não o viam, como se ele não estivesse ali. Depois de trocarem várias outras idéias, Bingham voltou sua atenção para Jack.

  • O que estamos discutindo aqui é se o seguro cobre o que você fez. Segundo seu contrato, o IML o indeniza por exercício ilegal da medicina, mas não se isso envolver criminalidade ou se for considerado intencional, ou seja, que você estava fazendo isso de propósito, em vez de ser um simples acidente.

  • Não fui ao consultório do quiroprático com intenção de machucar ninguém, se é isso que está querendo dizer — afirmou Jack, contritamente. Tinha a impressão de que a situação estava meio fora de controle.

  • Isso me tranqüiliza — declarou Bingham. — Temos que resolver se vamos defendê-lo ou não. Naturalmente, isso influen­cia a decisão do seguro de cobrir o custo de um processo contra você. Se não cobrir, você provavelmente vai precisar se defender sozinho, e isso, infelizmente, vai sair muito caro.

  • Não houve dolo nenhum — disse Jack, com o coração quase parando diante da possibilidade de ele precisar se defender sozinho. Com Laurie de licença e as despesas extras da doença de JJ, ele não teria dinheiro para pagar um advogado. — Só fui ao consultório do quiroprático com a intenção de descobrir se ele tinha atendido minha paciente profissionalmente, e se ele havia manipulado a cervical dela ou não.

  • Qual foi mesmo a causa da morte? — indagou Bingham.

  • Dissecção arterial vertebral bilateral — disse Jack.

  • É mesmo? — comentou Bingham como se tivesse ouvi­do falar daquilo pela primeira vez. Imediatamente, seus olhos ficaram vidrados. Era um reflexo fisiológico que indicava que ele estava se lembrando dos milhares de casos forenses nos quais ele tinha se envolvido durante sua extensa carreira.

Embora Bingham às vezes tivesse dificuldade de se lembrar de eventos recentes, como a causa da morte de Keara Abelard, que Jack havia mencionado apenas momentos antes, sua memória para fatos acontecidos há muito mais tempo era enciclopédica. Um momento depois, ele piscou como se tivesse acordado de um transe.

  • Eu tive três casos de dissecção de artéria vertebral na mi­nha carreira — revelou.

  • Foram causados por manipulação quiroprática? — inda­gou Jack, esperançoso. Mas já ficava claro para ele que não ia poder separar sua vida particular da profissional se quisesse evitar um afastamento ou coisa pior. Ia precisar admitir que JJ estava doente e ele encontrava dificuldades para lidar com isso. Apenas assim Bingham e Calvin talvez desculpassem o comportamento impensado do dia anterior.

  • Dois casos estavam relacionados a tratamento por um quiroprático — disse Bingham. — O outro foi idiopático, ou seja, nunca descobrimos a causa. Agora, me deixe dizer uma coisa... — Durante os minutos seguintes, Jack e Calvin tiveram que ouvir Bingham contar as histórias de seus três casos de DAV. Embora sempre fosse impressionante ouvir o nível de detalhes dos quais Bingham conseguia se lembrar, no momento Jack achou aquilo uma chatice, no mínimo, mas o senso comum lhe disse que não interrompesse o chefe. Depois de ter decidido revelar o câncer de John Júnior, ele estava ávido por concordar e terminar logo com aquilo.

No momento em que Bingham terminou de desfiar todos os detalhes de suas lembranças, Jack começou a falar, como que se desculpando:

  • Há alguns momentos atrás eu disse que não queria expli­car por que meu comportamento no consultório do quiroprático foi pessoal. Gostaria de ter uma oportunidade de me retratar.

  • Não sei se quero saber que você já conhecia sua paciente de DAV — resmungou Calvin.

  • Não, não! — garantiu Jack. Nunca havia lhe ocorrido que Calvin pudesse pensar uma coisa dessas. — Eu não tinha qual­quer relação com essa paciente antes. Nunca a vi, nem a conheci, nem sabia nada sobre ela. A origem dessa confusão toda é o meu filho recém-nascido.

Jack hesitou um momento para deixar que os dois homens pensassem no que tinha acabado de dizer. Imediatamente, viu que as expressões de ambos estavam se suavizando, especialmente a de Calvin, que imediatamente substituiu a raiva por preocupação.

  • Eu gostaria de pedir uma coisa antes de revelar o que vou revelar — disse Jack. — Peço que essa notícia não saia destas quatro paredes. É um assunto extremamente pessoal.

  • A essa altura acho que é melhor nos deixar decidir isso — disse Bingham. — Caso esse processo vá adiante, corremos o risco de ser exonerados. Se isso acontecer, precisa entender que talvez não possamos honrar essa promessa que está nos pedindo para fazer.

  • Entendo — disse Jack. — Mas, fora essa possibilidade de serem exonerados, gostaria que guardassem esse segredo meu e da Laurie.

Bingham olhou para Calvin. Calvin concordou.

  • O bebê está bem? — indagou Calvin, hesitante.

  • Infelizmente não — admitiu Jack, e, no momento em que admitiu isso, sentiu sua voz ficar embargada. — Sei que sabem que Laurie não voltou da licença-maternidade conforme havía­mos planejado inicialmente.

  • Claro que sabemos — disse Calvin, impaciente, como se Jack estivesse prolongando sua história de propósito.

  • Nosso filho tem uma doença grave — conseguiu dizer Jack. Não tinha contado a ninguém sobre a doença de JJ, temendo que, se contasse às pessoas, isso tornasse a situação mais real ainda. De certa forma, Jack andava negando-se a comentar sobre a doença como uma forma de lidar com o choque desde o diagnóstico do filho.

Ele hesitou enquanto respirava fundo algumas vezes. Bin­gham e Calvin aguardaram. Podiam ver que o maxilar inferior de Jack tremia e que ele fazia esforço para não chorar. Queriam ouvir mais detalhes, mas estavam dispostos a lhe dar o tempo de que ele precisava para se recompor.

  • Sei que durante os últimos três meses não venho trabalhan­do como costumava trabalhar antes. — Ele foi capaz de dizer.

  • Não tínhamos a menor idéia de que isso estava acontecen­do — interrompeu-o Bingham, subitamente se sentindo culpado por ter sido tão duro com Jack.

  • Claro que não tinham — disse Jack. — Não contamos a ninguém, fora os pais de Laurie.

  • Será que pode nos dizer qual foi o diagnóstico? — in­dagou Calvin. — Sei que não é da nossa conta, mas gostaria de saber. Sabe como gosto de Laurie. Ela é como se fosse da minha família.

  • Neuroblastoma — disse Jack. E precisou inspirar profun­damente outra vez antes de continuar; — Neuroblastoma de alto risco.

Bingham e Calvin ficaram digerindo a notícia durante o si­lêncio que se seguiu.

  • Onde está tratando dele? — indagou Calvin, delicada­mente, rompendo o silêncio.

  • No Memorial. JJ está em um programa de tratamento, mas precisaram suspender a terapia porque ele desenvolveu um anticorpo contra camundongos. Depois que ele terminou a qui- mio, o tratamento dele vem se baseando em anticorpos monoclonais de camundongos. Infelizmente, ele não está em tratamento no momento. Como era de esperar, Laurie e eu estamos tendo dificuldade de esperar esse tempo passar.

  • Bom — disse Bingham, depois de outro silêncio breve e desconfortável. — Isso realmente muda a situação atual. Talvez precise ser afastado, mas com uma licença remunerada. Talvez pre­cise ficar em casa com sua esposa e seu filho.

  • Não! — disse Jack, enfaticamente. — Preciso trabalhar! Francamente, a última coisa que preciso é de um afastamento. Não pode imaginar como é frustrante ver o seu filho sofrer e não ser capaz de fazer nada para aliviar o sofrimento. Essa ameaça de licença é que me fez lhes contar tudo isso, aliás.

  • Está certo — disse Bingham. — Não vamos afastá-lo, mas em troca você precisa me prometer que vai se comportar e não vai mais fazer visita nenhuma, principalmente a consultórios de quiropráticos.

  • Isso eu prometo — disse Jack. Do seu ponto de vista, essa nem podia ser considerada uma concessão.

  • Ainda não entendi muito bem seu comportamento no quiroprático — disse Bingham. — Era alguma coisa específica ou só uma rejeição geral pelo campo? Fica relativamente óbvio pelo que disse quando veio aqui pela primeira vez que não tem lá muito respeito pela terapia quiroprática. Já teve alguma expe­riência ruim com um quiroprático?

  • De jeito nenhum! — disse Jack. — Nunca fui a nenhum consultório de quiropraxia, nem sei muito a respeito desses terapeutas, mas por causa da minha paciente de DAV ontem decidi pesquisar a medicina alternativa em geral e a quiropraxia em particular para ter sobre o que pensar. Obviamente ando obcecado com JJ, especialmente por ele não estar recebendo nenhuma medicação no momento. Antes desse caso de DAV, eu não tinha pensado que as pessoas podiam estar morrendo por causa da medicina alternativa. Quando comecei a estudar o assunto, um dos primeiros artigos que li descrevia um bebê de 3 meses que tinha morrido devido à manipulação cervical feita por um quiroprático. Fiquei horrorizado, principalmente porque JJ tem quase a mesma idade.

"Mas não pensei mais nisso", prosseguiu Jack. "Pelo menos não até começar a falar com Ronald Newhouse. Enquanto ele estava descrevendo o raciocínio ilógico que existe por trás do tra­tamento quiroprático para coisas como alergias infantis, sinusite, ou até algo benigno, como agitação, quando pensei que ele podia matar um bebê com um tratamento assim, perdi o controle. Uma coisa é um adulto ser burro o suficiente para se colocar em risco nas mãos de um charlatão, mas colocar uma criança nas mãos deles é demais. É um crime."

A voz de Jack sumiu. Uma vez mais, o silêncio pesado caiu na sala.

Bingham interrompeu o silêncio, anunciando:


  • Acho que falo por mim e pelo Calvin quando digo que sinto muitíssimo pela doença do JJ. Embora certamente não desculpe seu comportamento na visita que fez ao quiroprático, entendo-o melhor agora. Também posso dizer que incentivo sua investigação da medicina alternativa; do ponto de vista da pato­logia forense, será bom para você pelos motivos que deu e para a própria patologia forense. Posso imaginar que isso resultará em um trabalho valioso publicado em um dos maiores periódicos especializados nessa área, que vai acrescentar algo significativo ao debate sobre a medicina alternativa. Mas durante sua investigação devo insistir que não vá visitar nenhum consultório de terapeuta alternativo. Além disso, quero que evite fazer declarações à imprensa por iniciativa própria. Quaisquer declarações devem primeiro ser analisadas por mim, e depois passar pelo crivo do departamento de relações-públicas. A questão da medicina al­ternativa é mais política do que científica. Na minha opinião, há muito pouca ciência envolvida nisso. Para dar ênfase a esse ponto, além da carta desta manhã sobre o processo, recebi um telefonema do prefeito. Parece que você andou se metendo com o terapeuta preferido de Sua Excelência.

  • Está brincando — disse Jack. Parecia impossível. Jack ha­via conhecido o prefeito e ficado impressionado com a inteligên­cia do homem, pelo menos até aquele momento.

  • Não estou brincando, longe disso — continuou Bingham. — Pelo jeito o Sr. Newhouse é a única pessoa que consegue ali­viar a dor da lombar do prefeito.

  • Estou pasmo — admitiu Jack.

  • Não fique — respondeu Bingham. — Quanto a esse pro­cesso, farei tudo que puder para defendê-lo.

  • Obrigado, chefe — disse Jack.

  • Vamos também atender a seu pedido de privacidade, ape­sar da necessidade dos testemunhos. Não divulgaremos seu se­gredo, principalmente aqui no IML.

  • Fico muito grato por isso.

  • Se mudar de idéia e quiser um afastamento, considere o pedido já atendido por antecipação.

  • Agradeço isso também. Estão sendo muito atenciosos.

  • Agora, presumo que tenha trabalho a fazer. Calvin está me dizendo que tem mais casos pendentes do que de costume. Então, mãos à obra e assine esses atestados.

Jack, entendendo a sugestão, desapareceu rapidamente.

Durante alguns instantes, nem Bingham nem Calvin se me­xeram. Ficaram só se entreolhando, ainda chocados.



  • O trabalho dele está mesmo atrasado? — indagou Bingham, quebrando o silêncio.

  • Não do meu ponto de vista — disse Calvin. — É verdade que ele está mais atrasado do que de costume, mas a qualidade é a mesma, e, embora esteja sobrecarregado, ainda é de longe quem trabalha mais rápido, mais ou menos uma vez e meia a velocidade dos demais.

  • Você não fazia mesmo a menor idéia de que o filho dele está com essa doença terrível, fazia?

  • Não, nem de longe — disse Calvin. — Nem desconfiei quando Laurie decidiu prorrogar a licença-maternidade dela. Só pensei que ela estava curtindo muito ser mãe. Sei o quanto queria ter filhos.

  • Ele sempre foi uma pessoa muito reservada. Eu nunca entendi Jack, para ser bem sincero, principalmente depois que ele começou a trabalhar aqui. Era um sujeito metido a caxias e autodestrutivo, e não sei qual das duas coisas é pior. Quando chegou a carta falando do processo esta manhã e eu recebi a ligação do prefeito, achei que ele estava voltando aos velhos maus hábitos.

  • Essa idéia também passou pela minha cabeça — confes­sou Calvin —, o que, suponho, é porque não lhe dei o benefício da dúvida com esse caso.

  • Fale com a diretora do jurídico — disse Bingham. — Diga a ela que vamos defender o caso, a menos que ela pense que é possível uma conciliação entre as partes. E depois disso, suma daqui para eu poder adiantar um pouco o meu trabalho.



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