Rodrigo Santoro mergulha na loucura



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Rodrigo Santoro mergulha na loucura

26/10/00


Autor: JOSÉ GERALDO COUTO
Origem do texto: Da Equipe de Articulistas
Editoria: ILUSTRADA Página: E6
Edição: Nacional Oct 26, 2000
Legenda Foto: O ator Rodrigo Santoro interpreta um jovem internado num manicômio no longa "Bicho de 7 Cabeças", da diretora Laís Bodanzky
Crédito Foto: Divulgação
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: 24ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO; "BICHO DE 7 CABEÇAS"
Assuntos Principais: 24ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO; BICHO DE 7 CABEÇAS /FILME/; LAÍS BODANZKY

Laís Bodanzky retrata história real de um jovem internado num manicômio em longa que estréia hoje



Rodrigo Santoro mergulha na loucura
JOSÉ GERALDO COUTO
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS
O longa-metragem "Bicho de 7 Cabeças", de Laís Bodanzky, é o que se pode chamar de um filme necessário. Mas sua realização deveu-se a pelo menos dois grandes acasos.
O primeiro: há três anos, quando Laís participava de uma pesquisa sobre saúde mental, caiu-lhe nas mãos o livro "O Canto dos Malditos", do curitibano Austregésilo Carrano Bueno.
Num depoimento impressionante, o escritor narrava seu calvário pessoal. Internado pela família num manicômio por causa de um cigarro de maconha, Carrano foi vítima dos métodos mais retrógrados de tratamento: drogas químicas pesadas, eletrochoques, isolamento, pancada.
Foi por pouco que não perdeu a razão para sempre. Hoje Carrano é militante do movimento antimanicomial. Na sessão de hoje, no Espaço Unibanco, vai ver o filme pela primeira vez, assim como o ator Rodrigo Santoro, que interpreta o seu papel.
"Fiquei tão emocionada ao ler o livro, tive tanta certeza de que essa era a história que eu queria contar, que me senti fortalecida para enfrentar a batalha de levantar recursos para viabilizar um longa-metragem", diz a diretora, Laís Bodanzky, 31.
Filha do cineasta Jorge Bodanzky, ela havia realizado anteriormente o curta-metragem "Cartão Vermelho" e co-dirigido, com o marido Luiz Bolognesi, o documentário "Cine Mambembe - O Cinema Descobre o Brasil", a partir da experiência do casal de exibir filmes brasileiros pelo interior do país.
Laís procurou Carrano, que se entusiasmou pelo projeto, e o filme começou a se esboçar. Ela dirigiria e Bolognesi faria o roteiro e a produção.
Por meio das leis de incentivo, os recursos foram pingando, mas, dada a resistência da maioria das empresas a um tema tão delicado, estavam longe de cobrir o orçamento, de R$ 1,5 milhão.
Quando o desânimo ameaçava abater-se sobre a equipe, entrou em cena o segundo acaso.
Há exatamente um ano, o produtor Marco Muller, da empresa Fabrica Cinema, mantida pelo grupo Benetton e sediada em Treviso (na Itália), estava em São Paulo como jurado da 23ª Mostra de Cinema de São Paulo e também para avaliar, para a Fabrica, roteiros de cineastas brasileiros estreantes.
Finalização na Itália
Muller apaixonou-se pelo projeto de Laís. A Fabrica bancaria a finalização do filme na Itália. Era o que faltava para o "Bicho" desencantar.
"Graças ao apoio da Fabrica, pudemos contar com técnicos e laboratórios que nunca teríamos dinheiro para pagar", diz Laís. Um exemplo: o montador do "Bicho de 7 Cabeças" foi o italiano Jacopo Quadri, o mesmo que montou "Assédio", de Bernardo Bertolucci.
Mas o grande trabalho veio antes das filmagens. Primeiro, Laís reuniu toda a equipe _do ator Othon Bastos aos eletricistas_ para ouvir palestras sobre manicômios.
"Era preciso que toda a equipe soubesse do que se tratava, pois é muito fácil estereotipar o assunto da loucura."
Num segundo momento, houve um trabalho de preparação do elenco pelo diretor teatral Sérgio Penna, que há cinco anos trabalha com indivíduos com "sofrimento mental", expressão que Laís adota, em vez de "doença" ou "distúrbio" mental.
Nessa fase surgiram personagens que não existiam no livro. O protagonista da história, Neto, também se distanciou um pouco mais de seu modelo original, Carrano.
Por fim, exaustivos ensaios de cada cena. Todos os personagens que aparecem, mesmo os que apenas fazem figuração nos manicômios, são atores. Laís Bodanzky não trabalhou diretamente com pacientes mentais, embora tenha conhecido muitos durante sua pesquisa.
A pedido da cineasta, a direção de arte e a fotografia buscaram um tom documental, propiciado também pela leveza da câmera super 16 mm (o filme foi ampliado depois para 35 mm).
Àqueles que consideram que a barbárie descrita no filme é coisa do passado, Laís garante: "Acontecem no Brasil coisas muito piores do que as que estão na tela, tanto em termos de saúde mental como de relacionamento familiar. Somos um país muito grande e muito ignorante".

Longa é viagem ao inferno em movimento

26/10/00

Autor: JOSÉ GERALDO COUTO


Origem do texto: Da Equipe de Articulistas
Editoria: ILUSTRADA Página: E6
Edição: Nacional Oct 26, 2000
Observações: SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: 24ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO; CRÍTICA
Assuntos Principais: 24ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO; BICHO DE 7 CABEÇAS /FILME/; LAÍS BODANZKY; CRÍTICA

Longa é viagem ao inferno em movimento


DA EQUIPE DE ARTICULISTAS
Um retrato do inferno em movimento. Assim pode ser definido o longa-metragem "Bicho de 7 Cabeças", de Laís Bodanzky.
Mas um retrato pintado com tanta paixão, competência e integridade que vê-lo é, ao mesmo tempo, um tormento e um prazer.
Tormento por aquilo que ele mostra: um jovem de classe média baixa, Neto (Rodrigo Santoro), sendo sistematicamente inutilizado para a vida, por conta da ignorância, da truculência e da mesquinharia que o cercam.
Da repressão do pai à repressão dos manicômios, o percurso de Neto é uma viagem dolorosa e absurda, uma espécie de "Alice no País das Maravilhas" virada do avesso.
Lembra "Maria de Mi Corazón", um filme mexicano roteirizado por García Márquez e que foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo há uns 15 anos. Nele, a mulher de um mágico de circo, por obra de uma sucessão de equívocos, vai parar num hospício e não consegue mais sair de lá.
Mas "Bicho de 7 Cabeças" é ainda mais terrível, não por ser "inspirado numa história real" (como o mais mentiroso cinema americano gosta de alardear), mas por concentrar dramaticamente milhares de histórias reais.
De onde vem o prazer, então? Da constatação de que ainda podem surgir, neste cínico e deteriorado mercado cultural em que chafurdamos, obras estética, política e moralmente honestas.
Sente-se em cada fotograma de "Bicho de 7 Cabeças" a entrega de seus realizadores, mas o filme fracassaria se se fiasse apenas nas suas boas intenções.
Mas todas as principais opções da diretora são certeiras. O tom documental amplifica a contundência da história contada, ao borrar as fronteiras entre o que é encenado e o que é "real", e a ausência de proselitismo facilita a entrada do espectador no universo dos personagens.
Os diálogos enxutos e cotidianos concorrem para um certo naturalismo que harmoniza as interpretações, evitando que haja descompassos, mesmo entre um ator cultivadíssimo como Othon Bastos e um novato como Rodrigo Santoro.
Este último encarna seu personagem com uma garra e uma intensidade que provavelmente nunca apareceriam se seu trabalho ficasse confinado à televisão.
A montagem, ágil sem ser leviana, acentua o clima de delírio e não deixa cair o pique emocional. É, assumidamente, um filme para emocionar muita gente, sobretudo os jovens, ou os que ainda se lembram de o terem sido.
Desse ponto de vista, a música (de André Abujamra, com canções de Arnaldo Antunes) não poderia ser melhor, condensando a rebeldia e o lirismo do início da vida adulta.
Mas o maior acerto de "Bicho de 7 Cabeças" talvez seja sua plena adesão ao protagonista. Mesmo nos poucos momentos em que ele não está em cena, sentimos que o filme permanece com ele, sofre com ele, compartilha de sua humanidade e a comunica ao espectador. O mundo pode ter-lhe virado as costas. O filme, não.
(JGC)

Bicho de 7 Cabeças


Bicho de 7 Cabeças
Ótimo
Direção: Laís Bodanzky
Produção: Brasil, 2000
Com: Rodrigo Santoro, Othon Bastos e Cássia Kiss
Quando: hoje, às 22h25, no Espaço Unibanco; amanhã, às 12h, no Cinearte (sessão exclusiva para estudantes com carteirinha da Ubes); 2, às 14h50, no Masp

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